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segunda-feira, 5 de junho de 2023

As Origens do Partido Socialista em Torres Vedras


Fundado em 19 de Abril de 1973, no exílio alemão, o actual Partido Socialista só surgiu em Torres Vedras já depois do 25 de Abril, embora tenha existido, no início do século XX um primitivo Partido Socialista com alguma actividade em Torres Vedras.

Em Portugal as primeiras manifestações do ideário socialista ocorreram na década de 70 do século XIX, na sequência da “Comuna de Paris”, acontecimento que teve lugar entre Março e Maio de 1871, que acabou com a repressão sangrenta sobre os revolucionários franceses.

Nesse mesmo ano de 1871, em Agosto, o genro de Karl Marx, Paul Lafargue, deslocou-se a Portugal para reunir com os membros locais da Associação Internacional dos Trabalhadores, organização fundada por ocasião da Primeira Internacional (1864-1876), visita que motivou a fundação da “Fraternidade Operária”(FO)  em Janeiro de 1872.

Devido às perseguições policiais e ao incipiente peso social e económico do operariado português, a FO extinguiu-se em 1873.

Muitos dos membros da FO, apoiantes em Portugal da Primeira Internacional, fundaram , em 1875, o primeiro Partido Socialista português.

Entre os fundadores estiveram Aznedo Gneco, José Fontana e, entre cerca de uma vintena, um homem que veio a estar muito ligado a Torres Vedras, Manuel do Nascimento Celestino Aspra.

Foi este Celestino Aspra, tipógrafo de profissão, que esteve ligado à divulgação de algumas ideias associadas a esse primeiro socialismo, como o mutualismo operário, sendo um dos fundadores da "Associação Mutualista 24 de Julho de 1884” (1).

Fundador da primeira tipografia torriense, a esta estiveram ligados os dois primeiros jornais editados em Torres Vedras, “O Jornal de Torres Vedras” (Janeiro de 1885 a Dezembro de 1886) e “Voz de Torres Vedras” (Fevereiro de 1887 a Janeiro de 1890).

Foi num artigo do jornal “ Voz de Torres Vedras”, de 6 de Julho de 1889, intitulado “As Classes”, que se publicou a  primeira referência local à obra e pensamento de Karl Marx, a propósito do qual o articulista se interrogava : “Quem não sente o arruído das classes escravizadas pelo salário, classes que em altos brados reclamam por toda a parte o seu quinhão no banquete social, apresentando-se para tomarem nas suas mãos o destino d’este mundo (…)?”.

Em plena 1ª República, o candidato socialista pelo Círculo de Torres Vedras às eleições para deputado de 1915, Raul dos Santos Palermo, recebeu um total de 20 votos neste concelho, de um total de 1644 expressos. Esse mesmo candidato, o único “socialista”, voltou a apresentar-se por este círculo em 1919, recebendo 23 votos de um total de 860 (2).

Foi em Abril de 1917 que se fundou um “Núcleo de Propaganda Socialista de Torres Vedras”, iniciativa acolhida “com viva satisfação pela classe operária”, ficando as adesões a cargo de José Augusto Correia Lemos, na Rua Mouzinho da Albuquerque, nº 32, r/c. A inauguração desse Núcleo ficou marcado para 1 de Setembro, numa “sessão de propaganda, numa colectividade”, estando programada a actuação de um “sexteto” de Lisboa que “executará o hino operário “A Internacional” (3).

Na sequência dessa iniciativa, o núcleo local do Partido Socialista, liderado localmente pelo marceneiro António Vicente Santos Júnior, concorreu, pela primeira vez, e única durante esse regime, às eleições autárquicas, em Maio de 1919, obtendo 45 votos.

Em 1931, por ocasião da tentativa de formação de uma frente única republicana para enfrentar a recém criada União Nacional nas eleições para o parlamento prometidas pela ditadura do 28 de Maio,  (4) foi eleito como representante local da chamada Frente Republicano-Socialista, em sessão realizada no Teatro-Cine em 28 de Junho desse ano, pelo núcleo local do Partido Socialista, aquele mesmo António Vicente (5).

A partir da década de 30 do século passado não se regista qualquer actividade do Partido Socialista em Torres Vedras, proibido que estava pelo Estado Novo. A partir dessa década a oposição é liderada por republicanos históricos e pelo cada vez mais influente Partido Comunista Português.

Muitos dos fundadores do actual PS torriense vieram da oposição ao Estado Novo e, em vésperas do 25 de Abril, participaram em eventos unitários, ora nas acções da oposição, ora assinando documentos contra a “situação”, junto com outros oposicionista locais, como foi o caso, por exemplo, de um João Carlos, um Dr. Augusto Troni, uma Leonia Rodrigues ou um Sérgio Simões.

Foi em documento de 4 de Maio de 1974 que a “Comissão Concelhia de Torres Vedras do Partido Socialista” apresentou “À População do Concelho de Torres Vedras” a “declaração de princípios” do partido, anunciando para breve a inauguração da sua sede local, que se situou numa vivenda na Av. 5 de Outubro, que existiu a poente do “Pacar”.

Em documento de 7 de Junho de 1974, apresentou-se publicamente a lista de nomes que integraram a “Comissão Provisória da Secção Concelhia de Torres Vedras”, composta por 26 nomes (ver imagem em anexo).

Concorrendo pela primeira vez a eleições, nas “Constituintes” de 25 de Abril de 1975, o Partido Socialista foi o mais votado no concelho, com 15 881 votos (43,59%), embora não tenha vencido em todas as freguesias (foi derrotado pelo PPD em A-Dos-Cunhados, Campelos, Freiria, Silveira e Ventosa).

Nas primeiras eleições autárquicas, realizadas em 12 de Dezembro de 1976, o PS venceu, sem maioria absoluta, com 10 073 votos (36,73%), em lista encabeçada por Alberto Avelino (6).

Para além de ter sido o primeiro presidente eleito da Câmara Torriense, Alberto Avelino tinha sido deputado na Constituinte de 1975, voltando a estas funções de deputado mais tarde e exercendo, durante 12 anos, o cargo de Governador Civil de Lisboa, sendo uma das figuras históricas do novo PS.

Em termos locais, esse partido tem dominado a liderança municipal desde essas eleições de 1976, caso raro em Portugal.

(1)    - leia-se “Associação de Socorros Mútuos 24 de Julho de 1884. Nos primórdios do associativismo operário em Torres Vedras”, in Turres Veteras X - História do Sagrado e do Profano, Lisboa, ed. Colibri-CMTV, 2008, pp.231-245;

(2)    - ver  “Republicanos de Torres Vedras”, ed. Colibri e CMTV, 2003;

(3)    - leiam-se as edições de 5 de Abril e 19 de Julho de 1917 de “A Vinha de Torres Vedras”;

(4)    -  as tão esperadas eleições para a Assembleia Nacional realizaram-se apenas em 16 de Dezembro de 1934, “disputadas” unicamente pelo  movimento da ditadura, a União Nacional, força política que se manteria como “partido” único até ao 25 de Abril;

(5)    - ver Gazeta de Torres de 14 de Junho de 1931;

(6)    – muitas destas informações foram recolhidas no arquivo pessoal do autor.

ANEXO:

Documentos para a História do PS em Torres Vedras 





quarta-feira, 19 de abril de 2023

No Dia do 50º aniversário - Documentos para a História do Partido Socialista em Torres Vedras


Fundado em 19 de Abril de 1973 no exílio alemão, o Partido Socialista só surgiu em Torres Vedras já depois do 25 de Abril, embora tenha existido, no início do século XX um primitivo Partido Socialista com alguma actividade em Torres Vedras.

Muitos dos fundadores do PS torriense já tinham tido participação na oposição ao Estado Novo e, em vésperas do 25 de Abril e nos primeiros tempos da nova situação, participaram em eventos unitários, ora participando nas acções do CDE em 1973, ora assinando alguns dos primeiros documentos de adesão ao regime democrático, junto com outros oposicionista locais.

É assim que integramos nesta amostra alguns desses documentos unitários, onde ainda não surge o nome do PS, mas onde participaram alguns dos fundadores desse partido a nível local.

Os restantes documentos referem-se, esses sim, aos primeiros tempos do PS em Torres Vedras, culminando no documento referente às primeiras eleições livres, as Constituintes realizadas em 25 de Abril de 1975, ganhas localmente a a nível nacional por esse partido.

Prometendo voltar ao tema de forma mais detalhada, aqui ficam alguns desses documentos para a história do PS em Torres Vedras (clicando sobre esses documentos podem lê-los em maior formato):



(4 de Maio de 1974)
(7 de Junho de 1974)
(Junho de 1974)


terça-feira, 5 de setembro de 2017

Evocando Alberto Avelino (1940-2017)

Ao iniciar mais uma temporada do blog Vedrografias, e sendo este um blog dedicado a Torres Vedras, não podia deixar de evocar um torriense que nos deixou recentemente, Alberto Avelino.

Infelizmente soube tardiamente do seu falecimento, ocorrido no passado dia 29 de Agosto,  não tendo ido a tempo de prestar a minha última homenagem a um torriense que muito prezo.

Lembro-me de Alberto Avelino ainda na minha juventude, como um exemplo muitas vezes invocado pelo meu pai de alguém que, tendo começado a trabalhar como operário na Casa Hipólito, se esforçou por tirar um curso, estudando à noite, enfrentando todas as dificuldades dessa situação,  formando-se em germânicas e tornando-se um dedicado e exemplar professor de inglês.

Com o 25 de Abril de imediato se envolveu na vida política, tendo-se filiado na  secção local do Partido Socialista.

E na vida política percorreu um invejável percurso de dedicação aos valores que sempre defendeu, os da democracia, da liberdade  e do socialismo.

Foi deputado na Constituinte de 1975, tornou-se o primeiro presidente eleito da Câmara de Torres Vedras, cargo que exerceu entre 1976 e 1983, voltando a ser eleito várias vezes para deputado e exercendo, a partir de 1995, e durante 12 anos, o cargo de Governador Civil de Lisboa.

Actualmente continuava dedicado à causa cívica, exercendo o cargo de presidente da Assembleia Municipal de Torres Vedras.

Cruzei-me várias vezes com Alberto Avelino, nem sempre do mesmo lado da “barricada”, por vezes discordando das suas opções na Câmara, mas sempre o respeitei e muitas vezes trocávamos impressões sobre uma paixão comum, a história e o património locais.

Enquanto Governador Civil de Lisboa tomou uma louvável mas quase desconhecida iniciativa, a de organizar e classificar o vasto e valioso espólio histórico do Governo Civil, da qual resultou a publicação de dois volumes onde se regista esse valioso património, hoje, e após a infeliz iniciativa da extinção dos governos civis, despejado na Torre do Tombo, aguardando por nova classificação.

Nas suas funções cívicas nunca se esqueceu das suas origens nem do concelho que o viu nascer em 26 de Novembro de 1940.

Com o desaparecimento de Alberto Avelino, Torres Vedras perde uma das suas mais marcantes referências humanistas.

Até sempre amigo Avelino!

(podem ler AQUI uma das últimas entrevistas a Alberto Avelino, onde ele nos conta o seu percurso de vida).

quarta-feira, 23 de abril de 2014

O 25 de Abril em Torres Vedras - alguns documentos para a sua história.

Aqui reproduzo alguns dos muitos documento do meu arquivo pessoal relacionados com o 25 de Abril em Torres Vedras.
Clicando sobre os mesmos é possível lê-los em tamanho maior:

Na noite do dia 24 de Abril de 1974 o Cine-Clube de Torres Vedras exibia o filme de Jerry Lewis "O Morto era Outro", iniciando um ciclo de cinema dedicado ao cinema cómico. 

Dirigido por gente ligada à oposição democrática, não suspeitávamos que à hora em que terminava essa sessão já estava em andamento o movimento militar que iria derrubar a ditadura no dia seguinte.


Primeiro comunicado distribuído em Torres Vedras sobre o Movimento Militar. O CDE era então uma estrutura unitária, formada no rescaldo das "eleições" de 1973 e que tinha algum peso em Torres Vedras.

O fanzine de Banda Desenhada "Impulso" que era feito por alunos do Liceu de Torres Vedras elabora um comunicado de adesão ao 25 de Abril que foi publicado nalguma imprensa nacional, como o jornal "O Século".

 Comunicado do Cine-Clube de Torres Vedras de apoio ao 25 de Abril.

Um dos primeiros comunicados elaborados pela comissão pró-associação de estudantes do Liceu de Torres Vedras, evidenciando as lutas políticas que fariam parte, a partir dessa data, do dia-a-dia dos estudantes e professores desse estabelecimento, marcado por intermináveis e concorridas RGA's.

Logo nos dias a seguir ao 25 de Abril realizou-se um plenário popular na sala do Clube Artístico e Comercial para decidir do destino a dar ao município local e à direcção política do concelho. Nessa assembleia formou-se uma comissão da qual saiu a formação da Comissão Administrativa Municipal que dirigiu os destinos do concelho de Torres Vedras até às primeiras eleições livres municipais de 1976.

Sem qualquer estrutura local, o então jovem Partido Socialista Português cria a sua primeira Comissão Provisória em Torres Vedras. Em cima pode ver-se a lista dos fundadores desse partido na então vila.


No dia 25 de Abril de 1975 realizam-se as primeiras eleições democráticas para a Assembleia Constituinte. Neste comunicado do Partido Socialista podemos ver o resultado dessas eleições no concelho de Torres Vedras.