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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

BARRO - De Convento a Sanatório


“Pousado num recanto a meia encosta, o Sanatório do Barro é uma ilhota: por todos os lados, até onde a vista alcança, são vinhas e mais vinhas. À saída de Torres Vedras, daqui distante cerca de uma légua, a estrada para Lisboa atravessa primeiro uma zona industrial e, logo depois, corre entre vinhedos. A marcha amarelo-esverdinhada das vides alinhadas tapa a larga bacia em que o vale se desdobra, espreguiçando-se até quase ao cume da barreira de cristas nuas ou, então, pontuada pelo toco branco pardo, descarapuçado, de velhos moinhos já sem serventia”.

A descrição é do escritor Luiz Pacheco (1925-2008), que, nos anos 80 do século passado, esteve internado naquele estabelecimento de saúde, situado no edifício do antigo convento do Barro (1).

Do primitivo Convento do Barro pouco resta, apenas a capela de Nossa Senhora dos Anjos.

Esse convento foi fundado em 1570 pela Infanta D. Maria, donatária de Torres Vedras e filha de D. Manuel I, tendo a primeira pedra sido lançada em 2 de Agosto.

Aí se instalaram os religiosos Arrábidos, da ordem franciscana. o Convento foi inicialmente dedicado ao acolhimento de monges "fraquinhos do peito", “como eram denominados aqueles que padeciam de doenças pulmonares” (2) .

Sabe-se que o primitivo convento “não logrou, pela pouca solidez das paredes mestras, resistir por muito tempo às invernias e consequentes inundações, que despenhando-se dos montes, que lhe ficavam a cavaleiro e em cujas abas fôra construído, lhe foram socavando os alicerces e batendo as paredes de forma, que entrou a ameaçar vir-se a baixo. Houve por tanto de apear-se e ser construído de novo com mais fortaleza e grossura de paredes: e a mesma fortuna correu a egreja, que também foi reedificada com dimensões mais avantajadas em comprimento e largura (…) dedicada a Nª S.ª dos Anjos” (3).

No século XVII, em 1619, fizeram-se alguns melhoramentos do edificado, reedificação iniciada em 15 de Março desse ano (4).

No inicio do século XIX, por volta de 1819, Madeira Torres considerava que a “situação do Convento não é muito agradável, por ficar entre montes próximos, que lhe tomam a vista, gosando-a apenas mais extensa para o nascente, onde alcança a estrada principal de Lisboa. O edifício é muito regular, e reputado entre os antigos da sua Provincia pelo mais amplo na grandeza dos cubículos e das oficinas”, descrevendo a sua cerca como incluindo “bons taboleiros d’horta (de que não se tira na força do verão maior vantagem pela falta d’agua) de algum pomar [de laranjas] , vinha e mata” (5).

Os frades possuíam então uma enfermaria dentro da então vila , no hospital da Misericórdia, para tratar das suas enfermidades.

Referia Madeira Torres que “ainda há poucos annos por occasião de haver n’elle Collegio de Filosofia, excedeu a vinte; actualmente reduz-se a 12 professos, e 2 donatos” (6).

Por altura da Extinção do Convento, em 1834, residiam nele 10 sacerdotes e 2 leigos.

Extinto, os seus bens foram integrados da fazenda Nacional, posteriormente vendidos, passando pela mão de vários proprietários, entre eles o Marquês de Valadas, que o comprou em 1857, tendo efectuado algumas reparações, nomeadamente na Igreja, pois então tudo se encontrava quase em estado de ruina. Posteriormente, o Convento foi vendido  ao reverendo padre Carlos Rademaker, de Lisboa, para aí instituir um colégio de órfãos, de educação gratuita, inaugurado ao culto em 2 de Agosto de 1860, no dia a seguir à realização da solene procissão que reconduziu a imagem de Nª Sª dos Anjos à Igreja do convento, imagem que tinha sido enviada para a Igreja de S. Pedro em Torres Vedras depois do decreto de extinção:

“Saíu a dicta procissão da parochia de S. Pedro e desfilou, engrossando cada vez mais, pelas ruas de Torres, pela estrada real e logar do Barro até ao antigo convento, campeando soberana, entre acordes de duas philarmónicas, que n’ella tomaram parte, entre os cânticos solemnes d’uma multidão enorme de povo e o esfuziar de muitas girandolas de foguetes.Encorporaram-se na procissão alem dos nossos, que se achavam já então no Barrro, com os alumnos órfãos, o clero de Torres Vedras e arredores com suas confrarias e irmandades e immensa mó de povo de toda a cercania” (7).

Em 14 de Agosto foi inaugurado o noviciado no Convento com 8 noviços.

No espaço exterior existe um monumento de devoção à Excelsa Mãe de Deus, edificado em 1908, por ocasião das comemorações dos 50 anos da aparição da Virgem Imaculada em Lourdes. Nas imediações do convento localiza-se a capela de São José, erigida no século XVI.

Com a implantação da República em Portugal foi definitivamente encerrado enquanto convento.

Essa situação foi descrita n’ "A Vinha de Torres Vedras" , na sua edição do dia 6 de Outubro de 1910 que,  referindo-se à situação em Torres Vedras, destacava, em título, a "prisão dos professores e seminaristas do Barro", na manhã desse mesmo dia 6, por "uma força de cento e tantos praças de infantaria 15, e outro de quarenta praças de cavallaria" que, apresentando-se "inesperadamente no Collegio do Barro (...) intimaram os professores e seminaristas, a que por ordem do governo os acompanhassem.

"A intimação foi rigorosamente cumprida, e os moradores, em numero de 82, condusidos para esta villa, onde a população os recebeu com respeito, foram horas depois condusidos para Lisboa, no comboio, acompanhados pela força de infantaria 15.

"No collegio do Barro ficou uma força commandada por um alferes, guardando o edificio, onde se encontram dois moradores doentes e as pessoas que d'elles tratam"(8).

Em notícia divulgada na mesma edição, referia-se o assassinato de um camponês da Serra da Vila, localidade vizinha daquele convento pelo guarda do Colégio do Barro, não lhe dando qualquer carácter político, ao contrário da “Folha de Torres Vedras” que, na sua edição de 9 de Outubro, na descrição dos acontecimentos de 5 e 6 de Outubro, se referia ao facto de se ter tido conhecimento, no dia 6 de "que um empregado do convento dos Jesuítas assassinara com um tiro um pobre homem do campo"  associando esse facto com a ordem para aprisionar os Jesuítas do Barro.

O encerramento dos dois conventos existentes no concelho e o arrolamento dos seus bens foi um dos primeiros actos do novo poder neste concelho, motivo de uma das primeiras comunicações do novo administrador do concelho para o governo, dirigida ao Ministério dos Negócios da Justiça, datada de 13 de Outubro:

"Em cumprimento das ordens de Vª Exª tenho a honra de informar que estão fechadas 5 casas das ordens religiosas neste concelho, que são as seguintes:

"1º O Convento do Barro, que se compõe de tres grandes edificios, tendo todo o mobiliario que se encontrou á sahida dos Jesuitas, 4 vacas leiteiras, 2 mullas, 4 porcos e algumas galinhas. Está situado longe de povoações e guardado por uma força militar d'Infantaria 7.

"2º Pertencendo ha (sic) mesma ordem á (sic) outro edificio denominado a quinta da Cadriceira, freguesia do Turcifal, o qual já está fechado e lacrado, tendo todo o mobiliario, 3 vaccas pequenas, 1 porco e 35 galinhas, ficando depositario Angelo Custodio Botelho da Cadriceira (…)” (9).

O espaço daquele convento foi transformado no “Asilo Elias Garcia”, formalmente inaugurado pelo Presidente da República, Teófilo Braga, em visita inaugural realizada em 2 de Agosto de 1915 (10).

No início do século XX, o Asilo assumiu um papel importante no combate ao flagelo da tuberculose, tendo sido confiado à Assistência Nacional aos Tuberculosos, na segunda metade do século. Em 1956, é nomeado para diretor clínico do sanatório o Dr. José Maria Antunes Júnior. A partir de 1956, os serviços gerais do Asilo passam a ser assegurados por freiras, possibilitando o internamento dos doentes. Esta situação manteve-se até 1992, ano em que as religiosas deixaram de prestar serviço hospitalar. Em 1993, o Sanatório do Barro passou a ser designado de Hospital Dr. José Maria Antunes Júnior, alargando a sua ação terapêutica ao tratamento de doenças da área da pneumologia.

Encerrado e devoluto desde 2015, o edifício está a ser restaurado e requalificado para

dar origem a campus na área da saúde que pretende ser “um espaço de referência dedicado à prestação de cuidados assistenciais, à formação de profissionais da saúde, ao ensino e à investigação em Medicina e em outras Ciências Biomédicas”, de acordo com o protocolo assinado em 28 de Junho de 2019 entre a Câmara Municipal de Torres Vedras e a Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

Ao contrário dos outros antigos conventos torrienses, sobre os quais existem boas e actualizadas monografias, sobre o Convento do Barro está por fazer um estudo actualizado sobre a sua longa história.

Sabe-se que, por informação existente no site da Torre do Tombo que, em 1894, a documentação desse Convento “foi remetida pela Direcção Geral dos Próprios Nacionais à Torre do Tombo” e que a sua documentação foi “sujeita a tratamento arquivístico, no final da década de 1990, empreendido por técnicos da Torre do Tombo e por investigadores externos” e que,  em Outubro de 1998, “foi decidido abandonar a arrumação geográfica por nome das localidades onde se situavam os conventos ou mosteiros, para adoptar a agregação dos fundos por ordens religiosas”.

A documentação que se encontra instalada em maços foi considerada como uma colecção ao nível da série, com a designação de 'Documentos vários', não tendo sido objecto de intervenção.

Este projecto deu origem à publicação da monografia designada 'Ordens monástico-conventuais: inventário', com a coordenação de José Mattoso e Maria do Carmo Jasmins Dias Farinha” (11).

(1)    - PACHECO, Luiz, “O País das uvas”, in Textos do Barro, ed. Contraponto [1984 ?], obra dedicada ao Dr. José Maria Antunes jr.;

(2)    -informação de Helena Rodrigues no site da DGMN, em2005;

(3)    -COSTA CORDEIRO, P. António da Collegio do Barro Jubileu – 1860-1910 – Noticia Historica da Sua Fundação e Ministerios até ao anno Presente. Ed. Braga 1910, pág. 1;

(4)    -ALMEIDA, Fortunato de História da Igreja em Portugal, – Nova edição preparada e dirigida por Damião Peres, Volume II, ed. Portucalense editora, Porto 1968, pp 182-183;

(5)    - MADEIRA TORRES, Manoel Agostinho, Descripção Historica e Economica da Villa e Termo de Torres Vedras – Parte Histórica – 2ª edição anotada, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1862, pág. 143;

(6)    – MADEIRA TORRES pág. 144;

(7)    – COSTA CORDEIRO, ob.cit, pp.9 e 10;

(8)    - "A Vinha de Torres Vedras",  6 de Outubro de 1910;

(9)    - Livro de Correspondência Externa (do Administrador do Concelho),(1908-1912), nº 304 de 13 de Outubro de1910, AMTV;

(10) - reportagem n’ “A Vinha de Torres Vedras” de  5 de Agosto 1915;

(11) - informação recolhida no site do Arquivo Nacional da Torres do Tombo.

quarta-feira, 26 de junho de 2024

O Convento do Varatojo, breve evocação histórica


A iniciativa de o fundar um convento no sítio do Varatojo pertenceu a D. Afonso V, que em 1470, tomou essa decisão, escolhendo esse lugar porque o monarca aí possuía uma Quinta que adquiriu por 35$000 réis.

Em Fevereiro de 1470 aí se deslocou aquele monarca em procissão solene, para o lançamento da primeira pedra do convento.

Ficou como responsável pela obra e pela sua inspecção Diogo Gonçalves Lobo, que tinha sido vedor da rainha D. Leonor, ao qual o monarca ordenou “que pusesse toda a eficácia (...) sahindo do Real Erário todas as despesas da mesma: Para effeito de se pôder concluir a obra o mais depressa, e com mais suavidade, e também para que os lavradores mais facilmente, e mais gostosos concorressem para ella com seus carros, lhes fez o Rei sempre generoso a grande mercê de alivia-los em grande parte do oneroso tributo, que pagavão chamado jugada, em quanto durasse a obra” (1).

A jugada era um tributo que os lavradores do concelho pagavam, um moio de trigo por cada junta de bois.

O mesmo Gonçalves Lobo representou o rei à data da inauguração oficial, em 4 de Outubro de 1474, por impossibilidade da sua presença nessa ocasião, dando posse do convento aos 14 religiosos vindos de Alenquer na companhia do Vigário Provincial dos Religiosos Franciscanos, Frei João da Póvoa, e nomeando Fr. Álvaro de Alenquer primeiro guardião do convento.

D. Afonso V reservou para si um modesto aposento, ao qual se recolhia frequentemente, passando aqui grande parte dos seus últimos anos de vida, [faleceu em 1481] assistindo à missa de uma tribuna junto ao coro, quase em frente ao púlpito.

Da ligação daquela monarca ao convento conserva-se, no museu de Arte Antiga, em Lisboa uma cadeira de braços, ou “estadela”, usada por esse monarca e que foi incorporada no espólio desse museu em 1913. No site dessa instituição, onde se refere essa peça de mobiliário, pode ler-se que, de  “facto, nos textos dos cronistas da Ordem, a alusão à existência no convento da cadeira de D. Afonso V é recorrente e a sua conservação por sucessivas gerações de frades deverá ser entendida como preservação da fundação régia do convento, pois mais do que um simples objecto pessoal, a “cadeira de estado” revestia-se de uma forte carga simbólica associada ao poder real”.

Segundo a tradição, era da janela de canto, junto à entrada para o convento que o rei D. Afonso V falava aos pobres. Contudo, essa janela é obra mais tardia, posterior ao reinado de D. João II.

Manuel Clemente afirma que “o conventinho inicial mal daria para albergar vinte e cinco frades. No século seguinte, D. João III teve de o acrescentar e a sua esposa D. Catarina construiu uma nova capela-mor na igreja inicial. Assim já pôde albergar cinquenta religiosos, com estudos de filosofia e teologia até 1680”, acrescentando aquele historiador torriense que, “durante este primeiro período, de 1470 a 1680, a estação evangélica do Varatojo chamava gente grada a ouvir os frades e a aprender com eles. Não foi por acaso que as primeiras habitações à volta do convento tenham sido exactamente as desses ouvintes discípulos” (2). Dessas habitações ainda hoje é possível observar as ruínas do paço brasonado dos Andrades.

Em 1680 Frei António das Chagas fundou, neste convento, um seminário.

Vários cronistas da ordem de S. Francisco apontam a existência de um primitivo convento daquela ordem já no século XIII, entre Torres Vedras e a encosta do Varatojo, na várzea do Alpilhão, junto à muralha da vila, conhecido por Ermida de S. Francisco, hipótese até hoje impossível de confirmar.

Em 1834, os frades deste convento conheceram o destino de todos os regrantes do país. Em 1861 seria recuperado pelos franciscanos como seminário, tendo funcionado como escola de instrução primária, a primeira do concelho. Entre 1903 e 1906 construiu-se um novo andar.

Em 1910 o convento voltou a ser encerrado, funcionando aí, até 1928, um asilo de inválidos. Neste ano voltou a ser entregue aos franciscanos, sendo o único convento desta ordem, de todos os encerrados desde 1834, a regressar às suas funções iniciais, sendo hoje o único convento do concelho habitado por frades.

A Capela de Nª Senhora do Sobreiro, à entrada, do lado esquerdo, em frente à entrada da Igreja foi construída em 1777 e deve o seu nome ao facto de a Imagem da Senhora ter sido descoberta, segundo reza a tradição, na cavidade de um robusto sobreiro, na mata do convento.

A Igreja do convento, de uma só nave, tem uma estrutura geral já do século XVII, mas com um portal gótico, decorado à direita com o rodízio (3) de D. Afonso V, cercado pelo cordão franciscano, e à esquerda, um baixo relevo gótico de mármore, com as armas do reino sustentadas por dois anjos.

As paredes são revestidas por azulejos do século XVIII e nichos para confessionários, cujos azulejos se compõem de motivos alusivos à confissão. Um deles retrata o inferno, representando o estado de um penitente que se confessa bem, em contraste com o penitente que se confessa mal.

No seu interior, decorado a talha dourada,  destaca-se a capela de Nossa Senhora das Dores, fundada em 1740 com painéis de azulejos setecentistas, um altar de talha rocaille, com bonitas e pequenas imagens, sobressaindo a de Nossa Senhora das Dores em alto relevo. É nesta capela que, debaixo da mesa do altar, se venera, desde 1870, “em urna de cristal, todo o esqueleto do mártir S. Benedito, artisticamente composto em cera, e vestido com ricos brocados de cera, oferta da princesa de Portugal, a Infanta D. Isabel Maria (...) filha de D. João VI, ao seu confessor, o conhecido Padre Fr. Agostinho da Anunciação (...) a qual por sua vez a tinha recebido por gentileza do Papa Pio IX, na terceira e última visita que aquela Infanta fizera a Roma” (4)

Outro elemento a destacar nessa Igreja é a sua Capela-Mor, com abóboda de berço com caixotões, forro de azulejos do século XVIII com cenas da vida de Stº António, representando alguns dos seus milagres e quatro tábuas do final do século XVI, “Anunciação”, “Adoração dos Reis Magos”, “Adoração dos Pastores”, “Aparição de Cristo”, atribuídos a Grão Vasco e, ao centro, uma tela, da autoria do pintor italiano Braccarelli – “Stº António Perante a Virgem que lhe Entrega o Menino”.

A Sacristia, inaugurada em 1732, possui duas tábuas do século XVII: “Milagre da Mula (Santo António)” e “Pentecostes(descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos)”, quadros igualmente atribuídos a Grão Vasco. Os silhares de azulejos do século XVIII são cópia das estampas do livro “Escuela del Corazon”, alegoria dos vários estados de alma nas suas ascensões para Deus, legendados com várias quadras.

O Claustro de tipo gótico tem a arcada ogival decorada com o rodízio de D. Afonso V.

Na ala norte existe uma porta manuelina, que dá acesso à capela do Senhor Jesus, forrada com azulejos de ponta de diamante. Aqui encontra-se o panteão da família Soares de Alarcão, que dominaram a alcaiadaria de T. Vedras nos séculos XVI e XVII, para o qual se entra por um magnífico pórtico manuelino. Destaca-se a lápide sepulcral de Gomes Soares, que foi conselheiro de D. Afonso V, D. João II e D. Manuel.

Destaque também para o nicho de Stº António, com azulejos policromados representando o Santo.

Aberto para o claustro existe a Sala do capítulo com azulejos albarrados do século XVIII e várias telas com retratos dos priores e figuras ilustres do convento, com destaque para a de “Frei António das Chagas”, tela do final do século XVII.

Mas um dos sítios mais emblemáticos deste monumento é a sua “cerca”, assim descrita por Madeira Torres:

“A cerca do Convento é espaçosa, e comprehende uma boa mata, horta, e vinha povoada de muitas arvores das milhores castas de peras, maças, ameixas, ginjas, e pêcegos, e tambem comprehende diversos taboleiros de pomares d’espinho, sendo bastante conhecidas, e estimadas as limas, que d’elles se colhem” (5).

Nela existem duas capelinhas, uma no sítio do primitivo forno de cal, que funcionou para a construção do convento no século XV, a gruta do “Ecce Homo”, forrada a azulejos, e a primitiva capela da Senhora do Sobreiro, adornada com quatro pequenos painéis que figuram monges em estudo e em contemplação, onde, segundo a lenda, foi descoberta a Imagem de Maria Santíssima com o menino, na cavidade de um centenário sobreiro, escondida aí desde o tempo de D. Afonso Henriques, para escapar á perseguição dos mouros.

Parte da mata parece ser o que resta da primitiva paisagem florestal da região pois reconhece-se “que não foi plantada esta matazinha, mas fôra um pedaço de monte, cujo mato e arbustos cresceram á mercê da sua natureza, formaram selva, mais ao diante aproveitada para uso dos animais domésticos do primeiro colono, que na encosta daquele monte arroteou e semeou; e mais tarde transformada em recreio do primeiro senhor que ali instituiu Quinta para sua morada” (6).

O Convento do Varatojo é hoje uma verdadeira cápsula do tempo no seio da região torriense.

(1) Frei Manoel Maria Santíssima, História do Varatojo, 1º volume, 1799 [obra em 2 volumes];

(2) P. Manuel Clemente, “Uma página da história torrense – Varatojo: Centro de Irradicação”, in Badaladas, T. Vedras, 5 de Outubro de 1984;

(3) . O rodízio de tirar água significa que um monarca deve movimentar-se continuamente ao serviço da nação.

(4) Frei Bartolomeu Ribeiro, “Os Franciscanos em Torres Vedras”, in Badaladas, 1953e 1954, ed. Fac-similada [foi editado em livro com uma 1ª edição em 2009, e uma 2ª edição em 2005];

(5) P. Manoel Agostinho Madeira Torres, Descripção Historica (...) de Torres Vedras, 2ª ed., Coimbra, 1862, p.139

(6) Frei Bartolomeu Ribeiro, ob. Cit.

Para saber mais e para uma informação actualizada, leia-se:

SILVA, Carlos Guardado da, Torres Vedras Antiga e Medieval, ed. CMTV/Colibri, Lisboa 2008. Para uma leitura da vida actual desse convento leia-se a reportagem de Joaquim Moedas Duarte “Varatojo - Vinte e quatro horas na vida de um convento” publicada no nº 5 da revista Torres Cultural de 1992. Para uma visão diferente, leia-se a investigação colectiva intitulada “A exploração dos recursos hídricos no convento franciscano do Varatojo (Torres Vedras”, publicado no Boletim Cultural da Assembleia Distrital de Lisboa, nº 95, t. 2, pp.37-54:

domingo, 3 de janeiro de 2021

PARA A HISTÓRIA DO LARGO DA GRAÇA


A propósito das obras de requalificação a decorrer no velho Largo da Graça, aqui recordamos um pouco da história desse espaço.

Na sua origem esteve a parte norte da antiga cerca do Convento da Graça.

Neste local existiu a antiga  Gafaria de Stº André, já documentada em 1309 e, segundo Madeira Torres rodeada de uma “larga cêrca” (1).

Quando a gafaria foi doada aos eremitas de Stº Agostinho em 1544, que para aí se mudaram em 30 de Novembro desse ano, retirando-se do antigo convento na “Várzea Grande”, herdaram também a referida “cerca”.

A  primeira pedra do novo convento foi colocada em 7 de Setembro de 1578, e a obra foi concluída por volta de 1580 (2).

 “O edifício estava rodeado a norte, poente e sul pela sua cerca, onde os agostinhos tinham uma vinha, muitas árvores de fruto, oliveiras, parreiras, uma horta e um poço” (3).

 A parte norte dessa “cerca”, devido à proximidade em relação ao centro da vila, foi muitas vezes palco de desentendimentos entre a Câmara e os eremitas.

Em 1736 a Câmara tentou mudar o mercado semanal, que se realizava às 3ªs feiras, para o Largo da Graça, mas sem êxito, por oposição dos frades.

Anos depois, em 1794, a Câmara contactou os frades para se colocar um chafariz a construir pelo município no “Largo do Convento”. “O chafariz de facto se construiu em forma de repuxo, mas nunca serviu, porque nunca se encanou a água “, tendo sido, “não há muitos annos[por volta de 1863]” demolido por inútil, e estorvar o tráfego do mercado que ali se faz mensalmente” (4).

Gravura Inglesa dos tempos da Guerra Peninsular, vendo-se o Convento a partir da Várzea(poente)

Em 1815 a Câmara voltou a designar o Largo da Graça para a realização do mercado mensal, por acórdão de 20 de Maio, “mandando também fazer barracas encostadas ao muro da Cerca do Convento e intimar todos os logistas para ali pôrem as suas lojas (…). As barracas chegaram com efeito a fazer-se mas n’ellas apenas os tendeiros, ou vendilhões  avulsos, hião por suas fazendas, e por fim foram mandados demolir por sentença, que os padres da Graça lançarão contra a Câmara, por serem feitas em terreno seu, e sem licença sua” (5).

Segundo Paula Silva os frades ainda chegaram a aceitar esse pedido da Câmara, mas na condição de as barracas se sustentarem por si “para evitar que o seu peso e balanço destruíssem o muro”, ao mesmo tempo que exigiram “que ficasse registado que aquele terreno lhes pertencia”. Ao que parece a Câmara não cumpriu o contrato e em 1824 os frades instauraram um processo contra a Câmara (6).

Em 20 de Março de 1832 a cerca foi arrendada por um período de 3 anos a Francisco de Assis e Silva e, depois da extinção do Convento em 1834, foi novamente arrendada em 21 de Julho deste ano, sendo finalmente vendida em hasta pública, juntamente com o Convento, em 1842, a Inácio Ferreira Campelo, pela quantia de 4 433$500 réis (7).

Gravura do Século XIX, vendo-se o sitio onde nasceu o jardim. Nota-se à esquerda, um aqueduto que transportava àgua a partir da "Fonte Nova" para o Convento e uma figura, no lado direito, junto de um poço.

Por deliberação de 1 de Abril de 1857, decidiu a Câmara expropriar a área norte da antiga cerca do Convento da Graça, com a finalidade de alargar o espaço do mercado mensal, decidindo que esse lugar servisse também de passeio público, plantando para isso algumas árvores nesse local.

Em 1863 a  Câmara deliberou e efectuou vários melhoramentos no Largo da Graça “na parte que faz frente para aquella rua [da Olaria] , e a parte que encabeça com a estrada de Lisboa, e dá entrada para a entrada para a Igreja da mesma Graça, aterrando-se de novo a parte maior do Largo, que não hé calçado, e ficando assim mais livres de lama, que por ocasião do Mercado ali se formava, e tirando-lhe as agoas por meio de grandes valetas calçadas do lado do Nascente e Poente” (8).

Em 1885 foi nesse largo instalado um coreto para a primeira actuação pública da “Fanfarra 24 de Julho” que ocorreu em 24 de Junho de 1885.Este coreto nada teve a haver com aquele que é mais conhecido, inaugurado em 1892 e que existiu até meados da década de 40 do século passado (9).

O Convento, tendo passado por várias mãos após a sua extinção, veio a ser comparado pela Câmara em 21 de Abril de 1887, instalando aí vários serviços e repartições públicas, tendo incluído na compra parte da cerca, onde está o jardim actual (10), embora, como vimos anteriormente, parte dela já tivesse sido expropriada em 1857. O resto da cerca, a que rodeava o Convento a sul e a poente, conhecida por “cerca do Doutor Freire”, foi comprada em 16 de junho de 1926 pela Câmara aos herdeiros do Dr. Justino Freire para construir abegoarias, logradouros, novas ruas municipais e as novas cocheiras da Guarda Nacional Repúblicana”(11).

Fotografia de meados do Século XIX, do lugar onde foi construído o Jardim, vendo-se a cerca norte do Convento.


Em
Janeiro de 1886 o largo da Graça foi notícia por causa da decisão camarária de mandar “construir um jardim na parte expropriada contigua ao largo da Graça. A planta será confeccionada pelo distincto engenheiro e nosso amigo, o sr. Mendes de Almeida, que esteve aqui tratando de outos estudos e melhoramentos públicos”, objectivo que ao que se sabe, não foi concretizado (12).

Finalmente, em 1892, um particular, D. Diogo de Nápoles, tomou a iniciativa de tornar aquele espaço, então praticamente abandonado, num ”Passeio Público”, com um corêto, encabeçando uma comissão para adquirir esse espaço por subscrição pública, apoiada pelo jornal “A Semana”.


Terá sido aquele cidadão, de origem italiana e então a viver em Torres Vedras, falecido em São Tomé e Príncipe, que “a 29 de Junho (…) falou em que era bonito dar ao Largo da Graça o aspecto de um passeio público, terraplanando-o, colocando-lhe bancos e candeeiros, e pondo-lhe ao centro um coreto de alvenaria e ferro, para a musica ali se fazer ouvir”. Previa um gasto de 2:000$000 réis e por isso “dias depois, em começos de Julho, principiava a pôr em prática o seu plano com tenacidade, abrindo a subscrição pública, e andando de porta em porta a solicitar donativos para o melhoramento público”, contando com o apoio do semanário local “A Semana” (13).

A primeira pedra para a construção do jardim e do coreto teve lugar a 11 de Junho de 1892, sendo inaugurado em 21 de Agosto, com festa e Kermesse.

Excertos da planta do Coreto (AMTV)

Raphael Bordallo Pinheiro desenhou a “barraca” do jornal “A Semana” colocado nessa ocasião no recinto da Kermesse (14).

Esse espaço foi baptizado com o nome do monarca que então reinava, D. Carlos . Em 1818 era conhecido por Largo de Santana, por causa da ermida que aí existiu, situada no prédio onde funcionou a casa “Napoleão”, junto a uma das portas medievais da vila, com o mesmo nome. Essa ermida ficou arruinada pelas invasões francesas, nunca mais sendo recuperada. Popularmente já era conhecido por Largo da Graça, nome que tem sobrevivido a todas as mudanças toponímicas desse lugar, muito marcadas pela conjuntura política (foi rebaptizado como Largo da República em 1911 e chegou a ser proposta a designação de Largo Sidónio Pais em 1919, intenção que não vingou. Como veremos mais à frente, essas mudanças toponímicas não se ficaram por aqui.


Duas fotografias da Ermida de Santana.


Em 12 de Maio de 1902 este largo foi visitado pela rainha D. Amélia, que se fez deslocar de automóvel, talvez o primeiro a rodar em Torres Vedras.

visita da Rainha D. Amélia.


Várias vistas, em fotos e postais antigos, do Largo no tempo do Coreto

A decisão da Direcção Geral de Viação de instalar junto ao Jardim um posto fixo de fiscalização de trânsito, pelo ofício de 17 de Abril de 1934, (igual ao que hoje existe junto à capela de Nª Srª do Amial) provocou acesa polémica entre duas facções no seio da vereação camarária, alegando uns que aquele posto não ía colidir com o equilíbrio do Jardim, até porque, junto do mesmo, já existia um posto de abastecimento de gasolina (que aí esteve até há poucas décadas, como se recorda ainda o autor deste texto) e outros invocavam motivos estéticos para criticarem essa decisão, como foi o caso do Dr. Moura Guedes.

Esse posto acabaria mesmo por ser aí instalado, sendo visível nalguns postais de meio do século XX e foi retirado anos mais tarde (15).

postais onde se vê o posto de gasolina e o o posto da Direcção Geral de Trânsito.
O Largo da Graça visto a partir do sul, ainda com o cruzeiro que existiu junto à Igreja da Graça

A mais radical transformação daquele espaço, desde 1892, teve lugar em 1954.

Em 10 de Outubro de 1954, depois de grandes obras, que culminaram com a colocação no lugar do velho coreto de um obelisco comemorativo das Guerras Peninsulares, foi oficialmente inaugurado o novo jardim, sendo na mesma ocasião aquele largo rebaptizado com o nome de Praça do Império, mantendo o espaço a norte (“Outeirinho”) a designação de Praça da República (Com o 25 de Abril foi o Largo da Graça rebaptizada como Praça 25 de Abril).

O "novo" jardim, ainda sem o Obelisco

As festas de inauguração do Obelisco e desse espaço, totalmente remodelado,  foram revestidas da pompa característica da época, iniciando-se com “toque de alvorada, às oito horas, pelo terno de clarins da Legião Portuguesa, seguida de uma salva de vinte e um morteiros”. Às 10 horas teve lugar, no Salão Nobre dos Paços do Concelho, o descerramento do retrato do Presidente da República de então, Craveiro Lopes.

Depois desse acto, as “entidades oficias” dirigiram-se para a Freixofeira, limite norte do concelho para receber os “ilustres convidados” para a inauguração, com destaque para a “mais alta individualidade” a estar presente, o sub-secretário de Estado do Exército o tenente-coronel Sá Viana Rebelo, “que vinha presidir às cerimónias”.

O cortejo, com cerca de 200 automóveis, saiu então da Freixofeira a caminho da então vila onde chegou ao largo dos Paços do Concelho por volta das 12 horas. Aqui estavam formados “o Corpo dos Bombeiros Voluntários, com bandeira e banda de música, o Terço da Legião Portuguesa, a Banda Recreativa Torreense, a Mocidade Portuguesa, deputações das várias colectividades locais, com seus estandartes e grande concurso de povo que vitoriou os recém-chegados, enquanto o ilustre membro do Governo passava, em revista, a guarda de honra e as músicas faziam ouvir os acordes da “Maria da Fonte”.

Seguiu-se a cerimónia oficial, com os discursos das autoridades no Salão Nobre dos Paços do Concelho.

A cerimónia prosseguiu com um “Te-Deum” na Igreja de S.Pedro, seguindo-se um almoço no salão da Tuna Comercial.

Ás 15 horas procedeu-se ao acto de inauguração do Obelisco “junto do qual formavam, em guarda de honra, uma companhia do regimento de infantaria nº1, e um grupo de soldados com os fardamentos usados na época das Guerras Peninsulares, vendo-se ainda, no local, uma peça de artilharia, que nessas guerras serviu, vindo expressamente do Buçaco”.

Foi então lido o auto de inauguração:

“Saibam quantos este público auto virem, que no ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, de mil novecentos e cinquenta e quatro - Ano XXVIII da Revolução Nacional - pelas 15 horas, nesta mui nobre e antiga Vila de Torres Vedras, no Jardim da Graça, que doravante se passou a denominar Praça do Império, Sua Excelência o Tenente-Coronel Horácio de Sá Viana Rebelo, Ilustre Sub-Secretário do Estado do Exército, procedeu à inauguração solene deste monumento comemorativo das Campanhas da Guerra Peninsular -1808 a 1814- e especialmente das “Linhas de Torres Vedras” (...).

“A construção deste monumento teve a comparticipação dos ministérios das Obras Públicas e do Exército e a sua concepção foi do arquitecto Miguel Jacobety, e nele trabalharam o tenente coronel de Engenheiros Manuel Braz Martins, Engenheiro Altino Aldo Gromicho, o construtor civil José Pedro Lopes e os operários, Sebastião Pedro Henriques, Jaime Simões, Joaquim Miranda, José da Silva, José Correia, João Alves Carregueiro e António Chá. As cantarias foram fornecidas pela Firma Pardal Monteiro, Limitada, de Pero Pinheiro (...)”.

Seguiu-se um desfile militar junto à tribuna de honra montada numa das ruas próximas do jardim.

A cerimónia terminou com a inauguração no “Museu e Biblioteca Municipal” da exposição histórico-biblio-iconográfica dedicada às Linhas de Torres (16).




Cerimónias de inauguração do Obelisco

Vivendo-se em ditadura e em regime de censura, não se encontra registada qualquer crítica pública àquele que foi, ainda hoje, para uns, um atentado ao património, retirando o único corêto existente dentro da cidade, para outros, uma obra inovadora e de referência.

O silêncio sobre reacções criticas não quer dizer que não tivessem existido manifestações de desagrado.

António Augusto Sales, jovem nessa época, refere-se às criticas então manifestadas nas mesas dos cafés, a “rede social” da época:

“Quando José Figueiroa Rêgo, no último ciclo do seu mandato de quatorze anos como presidente da Câmara decidiu derrubar o velho coreto e arrasar o antigo jardim para construir o actual colocando no meio um enorme obelisco em memória da Guerra Peninsular e das Linhas de Torres, muito e apaixonadamente se discutiu a deliberação. Técnicos que por  o serem entendiam as suas opiniões acima de qualquer critica, idosos que sentiam o desaparecimento do velho jardim como perca da sua identidade geracional, intelectuais, que viam monumento uma manifestação da arquitectura fascista, estetas da ironia que lhe vislumbravam uma grandeza fálica, assanhados conservadores incapazes de aceitar o bulir de uma pedra, músicos das bandas que sem o coreto perdiam o mais simbólico palco para a exibição da sua arte, gente nova fazendo parte de uma geração voltada decididamente para um novo conceito de jardim que introduzia na vila modernidade, todos discutiam o assunto e lançavam “bocas de bancada” pelos cafés que naquele tempo, eram os templos por onde passava qualquer iniciativa, escândalo público ou privado. No meio de uma guerra de opiniões a obra foi em frente (…)” (17).

Várias vistas do Jardim após a inauguração do Obelisco.

É preciso esperar por 1970 e por alguma “abertura” da “Primavera marcelista” para encontrarmos a publicação pública de um texto crítico sobre o jardim:

“Se me perguntarem o que penso daquele mini-jardim, responderei que é o único local aprazível da parte urbanística da vila. Mas não posso deixar de dizer que tem ali verdadeiras aberrações (…).

“Já repararam que as árvores que o circundam escondem a fachada da Graça, ofuscando-lhe toda a graça e austeridade que são uma mensagem da fé dos nossos antepassados?

“Já repararam que essas mesmas árvores escondem também o belo obelisco (…)?

“Já repararam que, por sua vez, o referido obelisco não se enquadra bem no mini-espaço que o circunda e donde só é visível?

“Contudo, benditas sejam aquelas árvores que protegem com a sua sombra os que procuram aquele local porque outro não há onde se possa ter a sensação de frescura nos dias de calmaria ou onde se possa refazer o corpo das fadigas que o dia a dia acarreta.

“Quando um dia houver jardins com árvores (…) talvez possam ficar ali só arbustos que não ofusquem a graça da Graça que serve de fundo àquele largo.

“Talvez que o obelisco se apresente, então, com toda a sua beleza, e bem enquadrado (18). Nas décadas de 70 e 80, período em que a vila, tornada cidade em 1979, conheceu um grande crescimento urbano, o jardim perdeu importância e tornou-se quase um “saguão” gigante no meio de uma urbanização caótica que cresceu à sua volta, rompendo-se o diálogo visual entre a fachada do velho Convento e o Castelo, um equilíbrio que devia ter sido garantia de preservação da identidade da terra.

O próprio Obelisco, obra polémica, perdeu fulgor no meio do caos urbano à sua volta, atarracado pelo arvoredo cada vez mais denso.

Em 2002 gerou-se nova “ronda” polémica, devido à publicação de uma sugestão de requalificação defendida pelo então vereador do planeamento Carlos Miguel, propondo a retirada do Obelisco daquele espaço e substituir as árvores de grande porte por outras de dimensões mais reduzidas, com o objectivo de alargar a zona pedonal e realçar a fachada do velho Convento.

A ideia acabou por não ira para a frente, devido à reacção popular e da imprensa, ficando-se por alguns arranjos na parte norte do jardim(19).

Ficou-se também a saber que a remoção do Obelisco era tecnicamente impossível sem destruir por completo o monumento.

Hoje, as obras de requalificação que estão a decorrer, mantêm o Obelisco, passam pelo alargamento da zona pedonal à custa do estreitamento da faixa rodoviária, embora se tema pelo futuro do arvoredo.

Desta vez as reacções públicas tem sido moderadas, talvez devido às preocupações com a actual situação pandémica. Destaque-se, contudo, um dos raros textos críticos sobre essa obra, da autoria de Jorge Ralha(20).

Pela nossa parte…esperemos que o popular Largo da Graça volte a ganhar…alguma graça!

 

(1)    - TORRES, Madeira, parte histórica da sua conhecida monografia, 2ª edição, página 126;

(2)    - SILVA, Paula Correia da, O Convento da Graça de Torres Vedras, a comunidade eremítica e o património, Livro do Dia/CMTV, Abril 2007, capítulo “A segunda fundação”, pp.34 a 36.Esta é a melhor e mais completa e actualizada obra sobre o dito Convento;

(3)    – SILVA, Paula Correia, ob.cit., pág.38;

(4)    – anotadores de Madeira Torres, parte económica, manuscrita, 5º caderno, f.6, AMTV;

(5)    - anotadores de MT, parte económica, manuscrita, 8º caderno, f.7, AMTV;

(6)    – SILVA, Paula Correia, ob.cit., pág.65;

(7)    – SILVA, Paula Correia, ob.cit., pág.114;

(8)    - anotadores de MT, parte económica, manuscrita, 2º caderno f.6, AMTV;

(9)    – in  Jornal de Torres Vedras, 30 de Julho de 1885;

(10) – SILVA, Maria Manuela Gonçalves Silva, Convento da Graça - Torres Vedras, parte 1, tese na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1997, dactilografada;

(11)  – SILVA, Paula Correia, ob.cit.,, pág.115;

(12)   – in Jornal de Torres Vedras, 22 de Janeiro de 1886;

(13) - in A Semana, número comemorativo da Kermesse de abertura do novo jardim,  Domingo 21 de Agosto de 1892. Ver também o suplemento do nº 46 de  “Toitorres Notícias” de Maio/Junho de 1998, coordenado por António Rodrigues e Adão de Carvalho;

(14) – CARVALHO, Adão de e PAULO, Joaquim, “Ontem e Hoje – Rafael Bordallo Pinheiro e o Coreto da Graça”, in Badaladas de 27 de Março de 1992;

(15) – leia-se, sobre o tema,  o texto assinado por Moura Guedes, “O Jardim do Largo da Graça – uma “nota” oficiosa”, in Alta Extremadura, 20 de Março de 1935;

(16)– CUNHA, Augusto M. Lopes da, Memória das Festas da inauguração do obelisco comemorativo da guerra peninsular e Catálogo da exposição hiistórico-biblio-iconográfica, ed. Biblioteca Municipal de Torres Vedras, 10 de Outubro de 1954;

(17) – SALES, António Augusto, “Um referendo para o Jardim da Graça e o seu Obelisco”, in Frente Oeste de 2 de Maio de 2002;

(18)  – DIOGO, A., “As tarimbas do mini-jardim da Praça do Império”, in Badaladas de 27 de Junho de 1970;

(19)   – ver Badaladas de 12 de Abril de 2002 e Torres Vedras em Revista, nº1, Março de 2002;

(20)   – RALHA, Jorge, “A desgraça da Graça”, in Badaladas de 20 de Novembro de 2020.