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quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

A segunda Fundação da Escola Secundária Municipal (1919) – Breves apontamentos




(versão integral do texto que já tinha sido apresentado neste espaço, mas de forma resumida)

Depois de termos evocado, em crónica anterior, a primeira Escola Secundária a funcionar em Torres Vedras, entre 1890 e 1903, aqui recordamos agora a segunda fundação da escola de ensino secundário torriense, inaugurada em 3 de Novembro de 1919.

Não pretendemos fazer a história desta escola que esteve na origem da actual Escola Madeira Torres, mas apenas coligir alguns breves apontamentos que possam servir de ponto de partida para quem pretenda fazer a História desse estabelecimento de ensino.

Em 1918 Victor Cesário da Fonseca, que tinha frequentado a escola encerrada em 1903, republicano activo, e que sempre responsabilizou os monárquicos locais pela decisão daquele encerramento (1), iniciou uma campanha, nas páginas do jornal “Ecos de Torres” em defesa de se retomar o funcionamento de uma Escola Secundária, a partir de um artigo não assinado na edição de 28 de Janeiro desse semanário.

Em sessão camarária  de Abril de 1919 o vereador José Anjos da Fonseca  propôs o lançamento de um imposto de 5% sobre as contribuições pagas pelas freguesias do concelho, para apoiar a abertura da Escola Secundária, proposta aprovada apenas pela diferença de um voto (2) , constituindo-se uma comissão instaladora que levou o projecto a bom termo.

Dessa comissão fizeram parte Afonso Pedreira Vilela, João Fernandes Caldeira, Victor Cesário da Fonseca, Joaquim Rodrigues Cardoso e António Germano Marques de Carvalho.

A nova Escola Secundária foi inaugurada em 3 de Novembro de 1919, uma segunda-feira, provisoriamente num edifico da Travessa da Olaria, mudando-se em definitivo para o edifício localizado na Avenida 5 de Outubro, onde funcionam actualmente os serviços camarários, em 1921, edifício que então tinha apenas um andar.

Foi nomeado como seu primeiro director o professor Augusto do Nascimento Gonçalves, até então director do Instituto Politécnico de Torres Vedras (3), escola que tinha sido inaugurada em de Outubro de 1911, e onde se ministravam a “instrucção primária, secundária e commercial” e que admitia “alumnos de ambos os sexos como internos, semi-internos e externos”, leccionando também “piano e lavores”, funcionando na Rua Barreto Bastos, nº 3, 1º Direito (4) .

O jornal “A Vinha de Torres Vedras”  referia-se nos seguintes termos àquela inauguração:
“Como amigos da instrução e partidários da fundação deste útil estabelecimento de ensino, não podemos deixar de nos congratular com este acontecimento, por todos os títulos importante e cuja falta há muito se fazia sentir nesta villa.

“Ao acto da inauguração da nova escola presidiu o sr. António Cabral, presidente da Camara e assistiram a vereação e muitas pessoas” (5).

Até 1923 os alunos não pagavam propinas.

No primeiro ano lectivo, o de 1919/1920, inscreveram-se 56 alunos, 26 no 1º ano, 12 no 2º ano, 6 no terceiro, 4 no 4º ano e 8 no 5º ano, entre eles algumas alunas, 15 no 1º ano, 2 no 3º ano e uma no 5º ano.

Entre os inscritos encontramos nomes que vieram a ser figuras proeminentes na vida cultural, social, económica e política de Torres Vedras : Alberto Vieira Jerónimo e  Galileu Silva, inscritos no 1º ano; Amílcar Guerreiro, Hélder dos Santos Torres, Inácio do Nascimento Clemente, José Hipólito e Manuel Duarte Capote, no 2º ano e Leonel Trindade no 5º ano (6).
(Alunos e professores da Escola Secundária, nos anos de 1940 - Arquivo de Maria Helena Aspra de Matos)


No primeiro livro de matriculas onde se regista a profissão dos encarregados de educação, o referente ao ano lectivo de 1942/1943, não deixa de ser significativo registar o domínio de filhos de funcionários públicos e comerciantes.

Entre um total de 164 alunos inscritos em todos os níveis de ensino nesse ano, 52 eram filhos de gente ligada ao comércio (45 comerciantes, 6 empregados de comércio, e um ajudante de farmácia) , 40 estavam ligados ao funcionalismo público (10 funcionários públicos, 8 conservadores, 5 professores, 4 empregados da CP, 3 funcionários municipais,  2 funcionários dos CTT, 2 ajudantes de notário, 2 oficiais do exército, 1 funcionário colonial, 1 funcionário público aposentado, 1 notário e 1 solicitador) seguindo-se os filhos de “proprietários” (21).

Refira-se ainda o número de pais com formação média e superior:   9 médico, 4 advogados, 3 enfermeiros, 2 engenheiros e 2 empregados bancários (sem contar com os 5 professores e outros profissionais acima incluídos no funcionalismo público). Refiram-se ainda os filhos de “industrias” (em número de 8).

Em contrapartida, apenas encontramos 3 filhos de operários e 1 de agricultor.

Não espanta que a maioria dos alunos residisse na vila, 133 dos inscritos. Runa é a freguesia fora da vila que sobressai, com 7 alunos inscritos, situação que não será estranha à proximidade permitida pelo caminho-de-ferro.

Nas décadas de 1960/70 a Escola atraia alunos de muitos concelhos vizinhos, nomeadamente do sobral de Monte Agraço, sendo uma escola “com forte poder de atracção” devido à sua “posição bastante central em relação à sua área de influência”, e bem servida de transportes, começando a colocar-se um problema de crescimento (7).

No ano lectivo de 1968/1969 começou a funcionar o chamado ciclo preparatório, provocando uma ligeira redução no número de alunos inscritos na Escola Secundária. Dos 334 inscritos em 1967/68 passou para 318 no ano seguinte.

A barreira das 3 centenas de alunos inscritos na Escola Secundária tinha sido ultrapassada, pela primeira vez, no ano lectivo de 1964/1965, com 310 inscritos (8).

Por despacho de dezembro de 1969, e após intensa campanha iniciada nesse ano nas páginas do “Badaladas”, por ocasião do cinquentenário, a Escola Secundária, tornou-se secção do Liceu Nacional D. Pedro V, deixando de ser o município a suportar financeiramente essa escola, o que permitiu uma redução das propinas pagas pelos alunos (9).

Oficialmente o Reitor da escola torriense era o reitor do Liceu D.Pedro V, o Dr. Estevão Ferreira Moreira, passando o director da antiga secundária, o Dr. João Carlos da Cunha, a ser designado por “vice-reitor” (10).

Contava nessa data com 19 professores e cerca de 400 alunos.

Em 12 de Outubro de 1971 o Conselho de Ministros aprovou um decreto ( Decreto 447 de 25 de Outubro) que criou 21 liceus nacionais, entre os quais o de Torres Vedras, passando a escola secundária, então com 540 alunos incritos, a denominar-se, a partir do ano lectivo de 1972/73, Liceu Nacional de Torres Vedras, abrindo uma secção na Lourinhã, sendo nomeado como reitor o Dr. Joaquim Semedo Toco e tendo sessão inaugural em 2 de Outubro de 1972 (11).

Sobre este tema, registamos aqui uma recolha oral que fizemos junto do sr. Adão de Carvalho, em Abril de 1990, onde ele nos contou que, em meados de 1971, o sr. Fernando Leal se deslocou ao Ministério do Interior para que o ministro exigisse, junto do Ministro da Educação, José Hermano Saraiva,  a passagem da Escola Secundária a Liceu.

Uma das condições que Fernando Leal tinha posto para aderir à União Nacional tinha sido a de que a escola secundária fosse elevada a Liceu.

Como, nesse encontro, o Ministro referiu que Torres Vedras já tinha sido beneficiada em demasia, Fernando Leal ameaçou demitir-se a ele, a toda a direcção regional da União Nacional.

Quando vinha a sair desanimado do encontro, encontrou Marcelo Caetano, que regressou com ele ao ministério e pressionou a passagem da escola a Liceu Nacional.

Foi assim, no início da década de 70 do século passado, que  o “liceu” deixou de ser a escola elitista que tinha sido, para se “democratizar” e abrir à população que até aí tinha como única saída para os seus filhos o ensino técnico ou comercial, muito também devido à chamada reforma Veiga Simão, situação que levou a um grande aumento do número de alunos a frequentá-la.

No ano lectivo de 1971/1972 era frequentada por cerca de 540 alunos. No ano lectivo de 1973/1974 já a frequentavam mais de 800 alunos, ultrapassando o número de mil alunos nos anos seguintes.

Já em 1971 o jornal “Badaladas” referia que se impunha “com a maior urgência, a construção dum novo edifício para o Liceu”, propondo que ficasse para “a Escola Preparatória todo o imóvel municipal da Avenida 5 de Outubro”.

É em 1975 que o assunto voltou a merecer atenção, num artigo publicado por António Leal d’Ascensão intitulado “Liceu de Torres Vedras –Torres Vedras precisa e merece um Liceu Novo” (12).

Em sessão de 9 de Fevereiro de 1977 iniciou-se o debate sobre a criação das novas instalações para o Liceu, então designado por Escola Secundária nº 2, e para a Escola Preparatória, processo que vai ser liderado pela vereadora Ana Maria Bastos, coadjuvda pelo vereador António Leal d’Ascensão, durante o primeiro mandato de Alberto Avelino como presidente da Câmara (13).

O processo vai-se arrastar pelos anos seguintes e, em Março de 1978, a Direcção Geral das Construções Escolares informa a Câmara da previsão do concurso para esse ano e o início das obras para o final do ano ou início de 1979 (14).

Embora se defendesse uma maior participação dos pais no destino da escola, logo na sessão solene da criação do Liceu de Torres Vedras, só depois do 25 de Abril é que foi eleita a primeira comissão de pais, em 11 de Dezembro de 1974, tendo como primeiro presidente da direcção a Drª Maria Aldina Rebelo (15), altura em que surgiu igualmente a primeira associação de estudantes.

Em 2 de Abril de 1987,o Liceu passou a designar-se Escola Secundária Madeira Torres, três anos depois de ter mudado para novas instalações, no ano lectivo de 1983/1984, aquelas onde ainda hoje funciona (16).

Aqui ficam algumas notas de uma História por fazer, de uma escola centenária que ainda tem muito por contar.

  1. (1)    – leia-se  FONSECA, Victor Cesário da ,  Retalhos Para a História de Torres Vedras, ed. Associação da Defesa do Património de Torres Vedras, 1979;
  2. (2)    –PEREIRA, Dr. Paulino, “Porque se espera para planear a comemoração do cinquentenário da Escola Secundária ?”, in Badaladas, de 26 de Abril de 1969;
  3. (3)    – in “Folha de Torres Vedras”, edições de 13 de Agosto , 10 de Setembro e 15 de Outubro de 1911;
  4. (4)    Sob a designação de “Fragmentos”, “Cinquentenário da Escola Secundária Municipal! e “Recordar é viver” publicaram-se no jornal “Badaladas”, ao longo do ano de 1969, vários documentos relativos aos primeiros anos do funcionamento da escola secundária, artigos não assinados mas que foram escritos pelo Dr. João Carlos Cunha, autoria que ele me revelou. Chama-se a atenção para os dados publicados nas edições de 14 de Junho, 5 de Julho, 2 de Agosto e 1 de Novembro de 1969 do jornal “Badaladas”; Leia-se igualmente “A História da E.S.M. E A Homenagem Aos Municípios e Fundadores”, da autoria do então Conta-almirante Lino Paulino Pereira, comunicação lida por ocasião da sessão solene comemorativa do cinquentenário da escola municipal, realizadas em Junho de 1970 e transcrita integralmente na reportagem, da autoria de Francisco Vieira Jerónimo, publicada na edição de 20 de Junho de 1970 do jornal “Badaladas”;  
  5. (5)    – in “A Vinha de Torres Vedras” de 8 de Novembro de 1919;
  6. (6)    – Livros de Matriculas da Escola Secundária existentes no Arquivo Municipal de Torres Vedras.
  7. (7)    – in SALGUEIRO, Teresa Barata, “Documentos para o Ensino – A Área de Influência da Escola Secundária de Torres Vedras”, separata de Finisterra, Vol.VI - 12, Lx, 1971, pp. 302 a 307;
  8. (8)    – in Arquivo Municipal de Torres Vedras, Elementos de Estudo do Presidente da Câmara, Frequência da Escola Secundária Municipal de Torres Vedras, 7 de Maio de 1969;
  9. (9)    – in “Badaladas”  de 10 de Janeiro de 1970;
  10. (10)                       – in “Badaladas” de 28 de Março de 1970;
  11. (11)                       - in “Badaladas” de 16 de Outubro de 1971, 30 de Setembro e  7 de Outubro de 1972;
  12. (12)                       – in “Badaladas” de 22 de Março de 1975;
  13. (13)                       – in “Badaladas” de 24 de Fevereiro de 1977;
  14. (14)                       – in “Badaladas” de 16 de Março de 1978;
  15. (15)                       – in “Badaladas” de 28 de Dezembro de 1974;
  16. (16)                       – sobre o patrono e o processo de escolha do nome, leia-se a publicação, de autoria colectiva, “O Patrono da Escola Secundária Madeira Torres, Manoel Agostinho Madeira Torres”, editada em Fevereiro de 2006 conjuntamente pela escola e pela Câmara Municipal.


sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A "Escola" de Torres Vedras - reflexão sobre a historiografia local.


ESTUDOS VEDROGRÁFICOS: A “Escola de Torres Vedras”.
 Por aquilo que conheço no país, poucas localidades, como Torres Vedras, se podem gabar da quantidade e qualidade de estudos, entre a divulgação e a investigação, sobre os mais variados aspectos e épocas da sua história local.
Existe uma longa tradição de estudos sobre a sua história e o seu património, que remonta à primeira tentativa de escrever uma primeira monografia ainda no século XVIII, um estudo e recolha de notícias da autoria do capitão  Luiz Botto Pimentel Corte Real, datado de 1729, “Livro de Notícias Várias…”, que infelizmente não chegou a conhecer a luz do dia, mas continua preservado no Arquivo Municipal de Torres Vedras.
A primeira obra impressa que versa a história local, embora num tema muito específico, é uma “História do [convento] do Varatojo”, da autoria de Frei Manuel Maria Santíssima, editada em 1799.
Contudo, devemos  balizar o primeiro período historiográfico torriense ente  monografia de Madeira Torres do início do século XIX e a de Júlio Vieira, do início do século XX e recentemente reeditada.
O padre Madeira Torres, que foi deputado da primeira constituinte, bom conhecedor dos arquivos paroquiais e municipais locais, publicou dois artigos, nas “Memórias da Academia Real das Sciencias de Lisboa”, sobre Torres Vedras, um primeiro, em 1819, de carácter histórico, e um segundo, em 1835,  de carácter económico, justamente considerados o “actos fundadores” da historiografia torriense .
A meio do século XIX dois “notáveis” torrienses, homens activos na vida política e municipal durante a afirmação do liberalismo, José António da Gama Leal e José Eduardo César de Vasconcelos,  pegaram nos artigos de Madeira Torres e, acrescentando-lhes um conjunto de valiosíssimas notas de rodapé, que tiveram como base, principalmente, o ainda hoje valiosíssimo arquivo municipal, ao qual tiveram acesso por causa das suas funções municipais, assim como a recolha na tradição oral e à memória  da própria vivência pessoal, e editaram o primeiro livro de História Torriense, tendo como base a parte histórica dos artigos de Madeira Torres, intitulado “Descripção Histórica e Económica da Villa e Termo de Torres Vedras – parte histórica”, publicado em 1862, e que passou à história como “a monografia de Madeira Torres”.
Os mesmos anotadores prepararam a edição de um segundo volume, com a parte económica do estudo Madeira Torres, com as mesmas valiosíssimas anotações, mas nunca a conseguiram editar. Felizmente os originais dessa segunda parte da obra de Madeira Torres, devidamente organizados em vários cadernos, prontos para edição, existem no Arquivo Municipal de Torres Vedras e, segundo nos constou, serão em breve editados.
Há quem diga que a quantidade e a qualidade de informação que os anotadores de Madeira Torres acrescentaram aos dois textos deste, são muito mais valiosas e interessantes do que os originais de Madeira Torres.
A Monografia de Madeira Torres, anotada por aqueles dois torrienses, conheceu uma edição fac-similada em 1988, por iniciativa da Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras.
Ainda no século XIX é de registar outra obra, de temática muito específica, a “Descripção do Real Asylo de Inválidos Militares de Runa”, da autoria de Souza Escrivanis e editada em 1882.
Não nos podemos esquecer das muitas memórias editadas por essa Europa fora, em especial na Grã-Bretanha, versando a passagem pela região de Torres Vedras, entre 1807 e 1810, por ocasião das Guerras Peninsulares, de militares de todo o “mundo” e de várias patentes, muitas delas reveladas nos últimos anos, por ocasião do bicentenário desses acontecimentos, nos quais esta região desempenhou um papel importante e fundamental.
À  precocidade no interesse pela história local torriense, para além da existência  e divulgação daquelas obra, não terá sido estranho o facto de, desde muito cedo, a partir de 1885, ter existido uma imprensa local regular, contando muitas vezes com mais do que um título semanal, situação que se prolongou até ao princípio dos anos 30 do século XX, onde, desde sempre, se revelou interesse em divulgar todo o tipo de documentos e ensaios sobre a histórias local e o seu património.
Aliás, esses mesmos jornais são hoje uma valiosíssima fonte para a história local contemporânea.
Saiu exactamente do jornalismo de divulgação a segunda monografia marcante  sobre a história e o património de Torres Vedras, a obra de Júlio Vieira de 1926, e reeditada este ano, “Torres Vedras Antiga e Moderna”.
Com este obra fechava-se o primeiro ciclo, que consolidou o interesse e a divulgação da história torriense.
Entre os anos 20 e 60 do século passado poucas inovações se podem registar ao estilo, metodologia e informações reveladas naquelas duas obras.
Não devem contudo ser desprezados algumas iniciativas dispersas e pontuais de interesse pela história local, através da publicação de vários ensaios na imprensa local, ou em separatas ou folhetos, da autoria de um Rafael Salinas Calados (com destaque para o seu estudo sobre a Misericórdia de Torres Vedras, editado em 1936), de um Rogério de Figueiroa Rêgo, este nos domínios da genealogia, e da afirmação de uma historiografia regionalista e elitista, mas onde se revela um especial cuidado no tratamento e divulgação de fontes, principalmente sobre a época moderna e o início do século XIX, afirmando tardiamente a metodologia positivista em termos de história local. A sua obra “Alguns Sumários das Notas de Vários Tabeliães da Vila de Torres Vedras nos séculos XVI e XVIII”, editada em 1970, é ainda hoje uma importante obra de referência para o estudo do Antigo Regime.
Ao longo da primeira metade do século XX, com cultores que continuaram nas décadas seguintes, muitos foram aqueles que revelaram curiosidade pela História local, recorrendo a um certo “coleccionismo” de factos e documentos e à recolha dispersa de memórias e acontecimentos, destacando-se neste caso um Gabriel Pereira, dedicando um interessante capítulo da sua obra “Pelos Subúrbios e Vizinhanças de Lisboa” , editada em 1910, à história e património torrienses,  um  Artur da Silva Lino, um Pedro Garcia Anacleto, um França Borges  ou, mais recentemente, um Adão de Carvalho.
Algumas publicações revelaram-se um importante centro de divulgação do publicismo da história torriense, como as edições especiais da revista “Hora” nos anos 30 e 50, ou o Boletim da junta Distrital da Estremadura que se editou entre os anos 40 e 80 do século passado.
Não nos podemos esquecer, entretanto, do grande desenvolvimento e da grande ruptura cronológica que representou, sobre o conhecimento do passado local, o elaborado trabalho arqueológico de Leonel Trindade e Aurélio Ricardo Belo.
Ao primeiro deveu-se a importante descoberta do Castro do Zambujal  e ao segundo a descoberta do povoado eneolítico do Penedo, nos anos 30. Essas descobertas atraíram o interesse do prestigiado Instituto Arqueológico Alemão, que ainda hoje mantém uma laboriosa parceria com as autoridades locais em várias campanhas arqueológicas que ainda hoje continuam, bem como na publicação de uma vasta bibliografia, muito dela na língua alemã, sobre a pré-história da região de Torres Vedras.
A fundação do Museu Municipal em 1929 conheceu então uma grande projecção com as descobertas arqueológicas daqueles dois torrienses.
Recorde-se que a primeira grande descoberta arqueológica em Torres Vedras tinha acontecido em 1909, com a descoberta do Tholos do Barro pelo frade jesuíta Lapierre.
Com o aparecimento do jornal “Badaladas” em 1948, o interesse pela historia e pelo património locais conhecerem um novo fôlego, habituando-se aquele jornal, que se tornou semanário no início da década de 60, a acolher nas suas páginas trabalhos de investigação e divulgação, alguns de grande fôlego e que não teriam grandes possibilidades de conhecer a luz do dia se não fosse o interesse que o padre Joaquim Maria de Sousa , fundador desse jornal, sempre demonstrou pela história local.
Quem quiser fazer história local sem consultar muitos desses ensaios publicados nas páginas desse semanário não está a fazer um trabalho completo, científico e sério.
Para além de podermos acompanhar nas suas páginas o trabalho arqueológico de um Leonel Trindade, aí foram publicados vários artigos valiosos para a história local, como por exemplo os estudos de Aurélio Ricardo Belo sobre os vestígios romanos no concelho.
A partir da década de 60 um outro período da história torriense vai conhecer um significativo desenvolvimento, a Idade Média. O interesse por esse período, que leva à publicação de alguns trabalhos de âmbito universitário, está relacionado com a vasta documentação sobre este concelho existente no Arquivo da Torre do Tombo, com destaque para uma completa inquirição de 1309 que abrange, detalhadamente, toda a área do concelho de Torres Vedras na Idade Média. Destacam-se os estudos de H.B. Johnson em 1970, um historiador colaborador dos “Annales”, os trabalhos do padre franciscano Félix Lopes na “Lusitânia Sacra”, nos anos 60 e 70, a tese de Maria Julieta de Oliveira em 1970 e, mais recentemente, o trabalho de Ana Maria Rodrigues, “Torres Vedras – A vila e o termo nos finais da Idade Média”, editado em 1995.
Importante para o interesse por essa época foi igualmente a recolha de J. Cordeiro de Sousa, feita nos anos 50, e editada em 1957, de “Fontes Medievais de História Toreana”.
Ainda nos finais da década de 60, início da de 70, não podemos esquecer outras teses universitárias, como a de Lígia Maria Gouveia Barreto sobre Torres Vedras no século XVIII, com base na análise dos livros de décimas, ou a tese de Teresa Barata Salgueiro sobre a urbanização de Torres Vedras.
Mas foi, quanto a nós,  uma outra tese, abordando  a época medieval, que, em termos locais, representou uma ruptura com a historiografia local tradicional, a tese de licenciatura em História do actual Bispo do Porto, D. Manuel Clemente, apresentada em  1974, “Torres Vedras no 1º Quartel do século XIV”.
Por coincidência esse foi o ano da revolução democrática do 25 de Abril, que muito contribui para uma nova abordagem da história local e para o aparecimento do espírito daquilo que, em artigo recente, Joaquim Moedas Duarte designou como “Escola De Torres Vedras”.
De facto, o que assistimos até essa data, foi um trabalho, sem dúvida importante e laborioso, mas quase sempre individual e disperso.
Quanto a nós houve um conjunto de condições, a partir daquela data, que permitiram o desenvolvimento de uma maior colaboração e qualificação do trabalho de investigação e divulgação historiográficas:
    - a afirmação do ensino secundário, inicialmente em duas escolas locais, o antigo Liceu e a antiga Escola Técnica, tendo por base uma renovação historiográfica dos programas de história e a chegada de uma geração mais jovem e metodologicamente inovadora de professores, valorizando a investigação, a história ao vivo e a história local;
    - a constituição de uma Associação de Defesa do Património, fundada em 1979, incentivando o estudo, a divulgação e a edição de temáticas relacionadas com a história e o património locais;
    - uma crescente afirmação do poder local, levando à edição de vários estudos sobre a História Local, destacando-se o papel relevante da revista “Torres Cultural”.
Tudo isto contribuiu para a afirmação de um espírito de “escola”, já que existia um autêntico sistema local de “vasos comunicantes”  entre aquelas instituições.
Estavam criadas condições para a afirmação consciente desse espírito.
O primeiro grande sinal foi dado com a obra colectiva “Torres Vedras – Passado e Presente”, editada em 1996.
Seguiu-se a  criação oficial do Arquivo Histórico de Torres Vedras nos anos 90, sob a direcção de Carlos Guardado Silva.
O principal resultado desse espírito de escola está na realização, a partir de 2000, dos Encontros anuais de História, “Turres Veteras”, numa parceria com o Instituto Alexandre Herculano da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Essa colaboração tem contribuído para um crescente interesse do meio universitário pelo estudo da História local, que tem resultado também na colecção “Linhas de Torres”, responsável por 13 títulos, editados desde 1999. Uma outra parceria recente com uma editora muito ligada à edição de temáticas de História, a Colibri, tem contribuído para projectar a “escola de Torres Vedras” e para o desenvolvimento da “vedrografia” (termo por nós inventado para definir a historiografia de temática torriense) .
Esperamos com este texto motivar o interesse e a discussão sobre este tema.
Uma nota final para referir que este texto foi escrito de memória, recorrendo apenas a uma ou outra consulta para confirmar datas, nome ou títulos, pelo que poderá registar algumas lacunas.
Deve por isso ser lido como um esboço, sujeito a correcções e críticas.