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quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Na Quinta da Viscondessa (Turcifal) : Uma Escola Agrícola pioneira no Século XIX


(Quinta da Viscondessa na actualidade. Fotografia retirada do site oficial da Quinta)

Foi nos finais de 1888 que se inaugurou a “Escola Prática de Viticultura”, com sede na Quinta da Viscondessa, então propriedade da família Batalha Reis.

A escola foi criada de acordo com o “decreto orgânico de 30 de Junho de 1887” e o primeiro documento anunciando a sua existência data de 28 de Outubro de 1888, assinado pelo “director da escola” António Batalha Reis.

Esse documento é um “Aviso” publicado nas páginas do semanário local “Voz de Torres Vedras” de 3 de Novembro de 1888, informando “os indivíduos que requereram para ser admitidos como alunos da escola pratica de viticultura de Torres Vedras, para comparecerem no dia 3 de Novembro próximo [no próprio dia da publicação nas páginas desse jornal], na secretaria da mesma escola, para serem matriculados ou examinados em conformidade”.

Nessa mesma edição publicou-se o “Anuncio”, assinado por Elvino de Brito, director geral da Direcção Geral de Agricultura, datado de 25 de Setembro de 1888, indicando-se os objectivos e as condições de matricula nessa escola:

“A escola, de que se trata, habilita operários vitícolas e vinícolas , que possam servir como feitores e mestres práticos nos diversos serviços de vinha e da adega, taes como:
“1º - Cultura da vinha;
“2º - Vinificação, tratamento e conservação do vinho;
“3º - Destilação do vinho, agua-a pé de bagaço para álcool e aguardente de copo;
“4º - Utilização do bagaço, sarro, borra e rescaldo para tártaro, acido tartárico e acetato de cobre;
“5º - Acondicionamento da uva para embarque, sua seccagem artificial; preparação e conservação da passa e seu acondicionamento para exportação;
“6º - Cultura das arvores fructiferas próprias da região;
“7º - Culturas hortenses e arvenses usuaes na região;
“8º - Montagem, funcionamento e conservação de machinas, aparelho e instrumentos usados nas especialidades da escola;
9º - Manutenção e hygiene do gado de trabalho”.

Esse mesmo anuncio indica a formação de duas classes de alunos, internos e externos, obrigados a “frequentar o curso de operários, incluindo os exercícios no campo” ao longo de três anos, sendo admitidos 35 alunos externos e 15 “pensionistas do governo”, admitindo ainda alunos “voluntários” externos.

Para se matricularem tinham como condição “não terem menos de quatorze nem mais de dezoito annos de idade”, apresentarem certidão de “saúde e robustez para trabalhos rurais” e de exame de instrução primária elementar.

Os que não tivessem a instrução primária submetiam-se a um “exame especial na escola” para aprovação.

Pagavam uma mensalidade de 4$500 réis.

Os “pensionistas” tinham de apresentar “certidão de pobreza  passada pela camara municipal, administrador, parocho ou regedor”.

A Escola funcionou na Quinta da Viscondessa, próxima do Turcifal, aproveitando o facto de aí já funcionar, desde meados de 1888, a “estação ampelo-phylloxerica do sul”.

Nesta já se ministrava gratuitamente informações e formação “ a indivíduos, feitores ou creados dos lavradores, que ali concorram para se habilitarem no tratamento da vinha europea, e cultura da americana, a pratica de pesquiza de phylloxera e tratamento de vinhas phylloxeradas” (1).

Esta estação fornecia igualmente “alguns milheiros da casta Jacquez, Herbmont, York Madeira, Riparias, Rupestris e poucos de vialla e Solonis” (2), e foi uma das formas de responder ao combate à filoxera e à necessária renovação da vinhas da região.

A Escola foi oficialmente inaugurada no dia 5 de Novembro de 1888, mas inicialmente contou apenas com sete alunos matriculados, atribuindo a imprensa esse fracasso ao facto de o anuncio de abertura de matriculas só ter sido feito dois dias antes da abertura, ao mesmo tempo que se lamentava que para “ a inauguração nem a imprensa local” tivesse sido convidada e queixando-se de que as “cousas não se fazem assim, à porta fechada, como quem tem medo da attrair gente” (3).

Embora só tenha sido inaugurada em Novembro de 1888, já existia uma referência anterior àquela escola, numa reportagem sobre a visita do “Sr. Visconde de Chancelleiros” realizada em 28 de Julho:

“No Sabbado passado esteve em Torres Vedras o opulento viticultor do concelho de Alenquer, sr. Visconde de Chancelleiros.

“S. Exª fez-se acompanhar pelos seus caseiros com o destino de visitarem  escola agricola da Quinta da Viscondessa, onde começará a funccionar o aparelho inventado pelos constructores Fafeur Fréres, e que serve para fazer a mistura do sulfureto na agua, distribuindo-lhe uma dose regulada”, técnica utilizada para melhor combater a filoxera.

“Sendo este systema, apesar de dispendioso, muito praticável nas varzeas, abeiradas de rebeiras, charcos, etc, o sr. Visconde de Chancelleiros tinha recomendado ao sr. ministro das obras publicas a acquisição do aparelho Fafeur, e já estão na Quinta da Viscondessa dois exemplares dos mais pequenos, fazendo ensaios, de que ainda se não conhecem os resultados, pela grande tardança que houve na montagem”(4).

Os primeiros tempos da Escola Agrícola terão sido de grandes dificuldades, como se revela numa notícia, publicada em Janeiro de 1889, dando conta que os “trabalhadores e mais empregados da quinta da Viscondessa” estavam “há mais de três mezes sem receber salários. A maior parte, ou quasi todos, segundo nos informaram, para se alimentarem e a suas famílias, rebatem as ferias, ficando por isso prejudicados em 50 réis diários” (5).

Recorde-se aqui que António Batalha Reis (1838-1917), co-proprietário da Quinta da Viscondessa, fundador e primeiro director da Escola Pratica de Viticultura, destacou-se como viticultor, com formação na área e autor de uma vasta bibliografia sobre o tema, desempenhando cargos importantes relacionados com essa actividade. Em 1874 integrou a primeira comissão nomeada pelo governo para estudar os efeitos da filoxera no Douro, onde adquiriu conhecimentos que foram muito uteis para os viticultores da região de Torres Vedras no combate à filoxera e contribui para o prestigio da Escola da Quinta da Viscondessa.

Deixou a direcção da Escola em 1890, partindo em comissão de serviço para a Itália e a França para estudar o funcionamento das Escolas Agrícolas e a plantação da cepa americana nesses países (6).
(reprodução da capa de uma das muitas obras de António Batalha Reis)

A fama do seu irmão mais novo, Jaime Batalha Reis (7), ofuscou um pouco a importância de António.

O Ensino agrícola foi criado pelo Decreto de Lei de 30 de Dezembro de  1852, mas teve de esperar 36 ano pela inauguração da sua primeira escola, exactamente a Escola Elementar de Viticultura Prática de Torres Vedras, o seu nome oficial .

Em 1892 foi rebaptizada como Escola de Viticultura Ferreira Lapa, uma homenagem ao conceituado cientista agrónomo.

Em 1899 o ensino agrícola foi reformado e aquela escola passou a designar-se Escola Operária Rural Ferreira Lapa, perdendo alguns dos cursos que ministrava e conhecendo a partir de então uma acentuada decadência que levaria à sua extinção.

Localmente, o ensino pioneiro ministrado na escola da Quinta da Viscondessa deu lugar, após um breve hiato de tempo, , ao Posto Agrário das Almoinhas, designado a partir de 1913 de Posto Agrário de Dois Portos(8).

A Escola da Quinta da Viscondessa deu um grande contributo para se ultrapassar, em termos locais, mas não só, os efeitos trágicos da filoxera que chegou a esta região em 1883 (9).

Hoje em dia o espaço daquela escola continua preservado numa Quinta que mantém a produção de vinho como actividade dominante.

[texto publicado na secção "Vedrografias" do jornal "Badaladas" em 28 de Dezembro de 2018]

(1)    –“Voz de Torres Vedras” de 17 de Novembro de 1888;
(2)    - “Voz de Torres Vedras”, 10 de Novembro de 1888;
(3)    -”Voz de Torres Vedras”, 1 de Dezembro de 1888;
(4)    -“A Semana”, 2 de Agosto de 1888;
(5)    –“A Semana”, 26 de Janeiro de 1889;
(6)    – Baseámo-nos numa biografia de António Batalha Reis da autoria de Isabel Zilhão, respigada da net.
(7)    – Existe uma vasta  bibliografia sobre Jaime Batalha Reis, Destacamos, contudo, o estudo de Andrade Santos sobre a ligação deste destacado intelectual e diplomata com a Quinta da Viscondessa publicado em 1994: SANTOS, Andrade, “Batalha Reis no Turcifal”, in Torres Cultural, nº 6, 1994, pp.22 a 47.
(8)    – Um importante estudo sobre essa escola, contextualizada na realidade económica e social deste concelho à época, pode ser lido num ensaio recente, disponível na internet, da autoria do Dr. António Francisco Baixinho em: BAIXINHO, A. F. A Escola de Viticultura Ferreira Lapa e o associativismo regional em Torres Vedras: suas organizações e objetivos nos finais do século XIX. EccoS, São Paulo, n. 33, p. 17-41. jan/abr. 2014.
(9)    Sobre os efeitos da Filoxera em Torres Vedras leia-se: REIS, Célia, “A Filoxera No Concelho de Torres Vedras” (texto copiografado, sem data) e REIS, Célia, “Problemas dos Vinhos Torrienses no Final da Monarquia”, in Turres Veteras III- Actas de História Contemporânea, ed. CMTV/IERMAH-Un. Letras, T. Vedras 2000, pp.123 a 158;

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

TORRES VEDRAS HÁ 120 ANOS NA IMPRENSA LOCAL

NOVEMBRO 1889
(Largo da Estação)

Festas populares e caçadas eram algumas das poucas distracções desse tempo.

No primeiro domingo do mês tinha lugar “na Ermida da Casa e Quinta do Juncal, em Matacães, festa ao Sagrado Coração de Jesus” (A Semana, 7-11-1889).

A caça era uma actividade mais burguesa, realizando-se a meio da semana, como se pode ler na seguinte notícia, interessante também pela descrição que faz do lugar de Porto Novo:

“Na terça-feira, 5 do corrente, o sr. Dr. Justino Xavier da Silva Freire convidou alguns dos seus amigos (…) para uma caçada nas suas propriedades da Maceira.

“Foi escolhido o sítio do cazal do Porto Novo junto à Foz, nos mattos que em grande vastidão se estendem até ao alto do Seixo. D’este ultimo ponto começaram-se a bater os pinhaes até à enseada da Foz, tendo começado os exercícios às 10 horas da manhã e terminando às 5 da tarde, matando-se 38 coelhos e uma lebre” (A Semana, 7-11-1889).

Torres Vedras conhecia um assinalável crescimento urbano, mercê da chegada do caminho-de-ferro à então vila. A notícia do nascimento da futura Avenida Tenente Valadim, então designada por “Rua Nova”, era uma das notícias do mês:

“Já se anda preparando o solo para collocar a tubagem de ferro que substituirá o acqueducto de pedra por onde corriam as aguas, na parte contigua à Commenda, e que foi preciso demolir para fazer uma rua nova que seguirá do começo da Avenida do Caminho de ferro, do lado do nascente, e que virá desembocar à rua da Cerca, contigua ao largo do Rosário.

“Esta nova rua que será somente para transito de peões, é uma excellente serventia da estação do caminho de ferro para a parte baixa da villa”. (A Semana, 14-11-1889)

Outras obras acompanharam essa expansão urbana :“Vae ser reparada por conta da Companhia dos Caminhos de Ferro o largo em frente das portas da estação, que, quando chove, é um grande lameiro. As obras a fazer-se é terraplanar as covas, e dar escoante às aguas. Depois será bom também que os dois lampiões que ornam a fachada da estação não sirvam só para vista (A Semana, 28 de Novembro 1889).

Um dos monumentos mais emblemáticos da vila era igualmente alvo de reparações :“Estão-se fazendo obras nos telhados da egreja da Graça, que tanto careciam de ser reparados” (A Semana, 21-11-1889).

Curiosa é ainda uma notícia sobre o valor das “Jornas” dos trabalhadores rurais:

“(…) os trabalhadores estão-se actualmente pagando aqui 360 a 400 réis diários” (A Semana, 14-11-1889).

A importância da actividade vinícola era ainda patente numa outra notícia onde se referia o movimento comercial da região de Torres:

“A procura existe, e as offertas attingem para os vinhos de 1888, entre 10 e 12 libras por tonnel. Para os vinhos novos os preços variam, não nos constando vendas por valor inferior a 8 libras por tonnel, e sempre d’ahi para cima conforme a qualidade; os vinhos brancos vendem-se de 500 a 600 réis o almude, conforme a sua riqueza alcoólica” (A Semana, 21 de Novembro de 1889).

DEZEMBRO DE 1889

A vida religiosa marcava o quotidiano torriense :“No domingo, 8 do corrente, fez-se no templo da Collegiada de S.Pedro, com a devida solemnidade, a festa a Nossa Senhora da Conceição, a expensas da irmandade do mesmo titulo, instituída em 25 de Outubro de 1820.” (A Semana, 12-12- 1889).

Mas o profano ganhava terreno através do associativismo, como se percebe pela seguinte notícia:

“Theatro Chalet

“No CLUB d’esta villa houve no sabbado uma reunião de differentes pessoas, d’onde se apurou mais uma tentativa para a construcção d’uma casa de espectáculos de edificação ligeira e moderna.

“Para dirigir os trabalhos preliminares foram acclamados os sr.s dr. Luís António Martins, Manoel Francisco Marques e Augusto dos Santos Ferreira” (A Semana, 12-12-1889).

As obras no Convento da Graça prosseguiam a bom ritmo:

“O templo pertencente à Irmandade do Senhor Jesus dos Paços, vae apparecer com as gallas que dão o aceio e o cuidado. O telhado foi todo reparado; o interior e o exterior do templo será caiado e a cantaria lavada.

“Da torre foi apeiado o sino grande que estava fendido, e serão gateiadas as cantarias.

“O sino vae ser vendido para com o donnativo Luiz de Abreu occorrer às despezas que alli se andam fazendo.

“Será bom pensar em seguida em realizar n’aquelle vasto templo os officios do culto Divino, aproveitando a sua excellente localisação, e offerecendo grande commodidade aos moradores da villa” (A Semana, 26 de Dezembro de 1889).

Sobre o tal sino “ apeado da torre da egreja da Graça (…) tem a nota de fabricado em 1787 nas officinas de um tal Oliveira. Pesa 978, 800 kilos” ( A Voz de Torres Vedras, 28-12-1889).

JANEIRO 1890

Preocupações com o estado sanitário da vila marcaram as primeiras notícias do ano:

“É rara a casa em Torres Vedras onde não haja um doente, e em algumas acontece que estão de cama todas as pessoas de família.

“Pelos diversos logares das freguezias do concelho há egualmente uma sensível alteração no estado sanitário, que accusa indiscutivelmente uma corrente, se não epidémica, pelo menos endémica.

“O carácter das doenças dominantes são: as bronchites e as tracheites, em casos exporadicos; a grippe e a influenza atacando com tenacidade.

“A provação dos doentes não é, porem, para desesperar. Os ataques, posto sejam intensos, são logo succedidos de melhora. As crises fabris não se fazem demorar, e é notável a declinação no período agudo da doença, que deixa, comtudo, demorados estragos no organismo.

“Nas pharmacias teem-se vendido arrobas de flor de borragem, e milheiros de sinapismos Rigollot.

“Os arsenais da therapeutica teem soffrido ataques medolhos nas seivas de pinheiro, nos xaropes de lactucario, nas antipyrinas e aconittus” (A Semana, 9-1-1890).

Nesse mês teve lugar o tradicional mercado de S. Vicente

“Não foi das mais concorridas, mas com tudo o gado suíno vendeu-se quasi todo.

“O preço da carne começou a 2$800 e chegou a 3$100” (A Semana, 23-1-1890).

Frequentemente, muitas vezes acompanhando a realização de festas ou feiras, a vila era visitada por artistas ambulantes:

“Em uma casa na rua dos Celleiros d’esta villa, está uma pequena troupe d’artistas dramáticos dando uns espectáculos que são limitadamente concorridos, porque,infelizmente, ao presente em Torres Vedras, tudo quanto se apura é para pharmacos” (A Semana, 23-1-1890).

Este mês de Janeiro foi igualmente marcado pela decisão de se iniciar a constituição de uma nova associação, tendo por base uma mais antiga, que deu origem ao ainda hoje existente Clube Artístico e Comercial, a mais antiga em funcionamento:

“Na segunda-feira [27 de Janeiro], a requerimento de precioso numero de sócios reuniu a assembleia geral do Club Torrense para tomar conhecimento do desejo por elles manifestado de que fosse substituído aquella antiga denominação pelo de Grémio de Torres Vedras.

“Assim foi resolvido por unanimidade” (A Semana, 30-1-1890).

As edições de Janeiro dão conta dos “protestos patrióticos” (A Semana de 23 de Janeiro), contra o Ultimato britânico, publicando mesmo, na sua edição de 30 de Janeiro, um texto de Jayme Batalha Reis intitulado “O Movimento Patriótico”.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Recordando Jaime Batalha Reis


Por cá pasou quase despercebido o 75º aniversário da morte de Jaime Batalha Reis, que ocoreu no passado dia 24 de Janeiro, uma das figuras mais importantes da vida cultural e política portuguesa com ligação a Torres Vedras.
Aqui possuia uma Quinta, a Quinta da Viscondessa, junto ao Turcifal, onde veio a viver os seus últimos anos de vida, estando sepultado no cemitério daquela vila, e foi o responsável pela visita efectuada por Antero de Quental à praia de Santa Cruz.
Em sua memória transcrevemos uma breve biografia da autoria da investigadora do Instituto Camões Maria José Marinho:

Jaime Batalha Reis: sua vida e obra

Por Maria José Marinho
(Instituto Camões)

"Jaime Batalha Reis nasceu em 24 de Dezembro de 1847, numa família da burguesa lisboeta, de pai liberal com alguns teres e haveres, proprietário no Turcifal, onde era um conhecido produtor de vinhos. Depois de frequentar, em regime de internato, o colégio alemão Roeder, matriculou-se no Instituto Geral de Agricultura onde, depois de um brilhante percurso escolar, se formou em agronomia.
"Uma noite, prestes a acabar o curso, tendo ido à redacção da Gazeta de Portugal, encontrou Eça de Queirós, com quem se travou de amizade para a vida inteira. Essa relação ampliou-lhe o círculo de amigos, e a sua casa, na Travessa do Guarda-Mór, em pleno Bairro Alto, passou a ser o local de encontro de uma juventude intelectual e boémia, o núcleo do que viria a ser a “Geração de 70”. Mas foi principalmente o encontro com Antero de Quental, por volta de 1868, que lhe veio permitir colmatar algumas fragilidades culturais e desenvolver os conhecimentos filosóficos.
"O brilho da carreira estudantil, durante a qual arrancara vários prémios, e o interesse dos professores, principalmente Ferreira Lapa e Andrade Corvo, haviam-lhe alimentado a esperança de ser convidado para a carreira docente. Mas isso não iria acontecer, pelo menos nessa altura, talvez pelas opiniões expressas numa dissertação em que defendera as teorias de Darwin. No entanto os seus conhecimentos profissionais vão a pouco e pouco permitindo-lhe movimentar-se nessa área, sendo convidado para integrar júris que avaliavam a qualidade da produção agrícola e fazer prelecções aos agricultores. Especializou-se no estudo da nova moléstia da vinha - a filoxera - e começou a colaborar em revistas e jornais. Esta actividade, porém, não o afastava das suas preocupações literárias e artísticas. Foi em 1869 que Eça, Antero e Batalha Reis inventaram, num delírio criativo, “o poeta satânico” Carlos Fradique Mendes; e das poesias publicadas uma, “Velhinha”, era da autoria de Jaime Batalha Reis.
"Já por essa altura encontrara o amor da sua vida, com quem viria a casar, depois de um longo e atribulado namoro. Chamava-se ela Celeste Cinatti e era filha de um dos mais célebres cenógrafos da época – José Cinatti. A necessidade de conseguir a estabilidade económica para “noivar” e casar acicataram-no na procura de emprego, e depois de várias tentativas infrutíferas – administrador de uma propriedade da Casa de Bragança, deputado, agrónomo em Viseu, professor no Brasil - resolveu concorrer à carreira consular. Apesar das esperanças que alimentara, não conseguiu provimento, pois ficou em terceiro lugar. Voltou por isso a intensificar a sua actividade profissional.
"Entretanto Antero e Batalha Reis, tornados inseparáveis, tinham ido morar para uma sobreloja em S. Pedro de Alcântara, lugar que sendo frequentado, na época, pela burguesia lisboeta, se tornara muito barulhento, incomodando Antero. Mudaram-se e no início de 1871 já estavam instalados numa casa na Rua dos Prazeres, sítio sossegado, onde passaram a vir os conviventes habituais – Eça de Queirós, José Fontana, Augusto Fuschini, Manuel de Arriaga, Oliveira Martins, Augusto Machado, Guerra Junqueiro. Foi aqui que se gizou o programa das “Conferências Democráticas do Casino Lisbonense” ou, mais simplesmente, as “Conferências do Casino”. Depois das intervenções de Antero, Augusto Soromenho, Eça de Queirós e Adolfo Coelho, a continuação das palestras foi proibida por uma portaria assinada pelo Marquês de Ávila e Bolama, então presidente do conselho de ministros. Esta interrupção não permitiu que Jaime Batalha Reis fizesse a sua prelecção que versava sobre o “Socialismo”. A atitude do governo, verberada pela opinião pública, seria reforçada pela publicação de dois folhetos dirigidos a Ávila e Bolama, um de Antero de Quental e outro de Jaime Batalha Reis, que começando por afirmar “Eu sou socialista” terminava dizendo: “O que V. Exª fez obriga-me a descrer ou da sua ilustração ou da sua probidade. Eu descri da ilustração. Todos os actos da vida de V.Exª me autorizavam a fazê-lo.”
"Em fins de 1871, depois de se haver esfumado a possibilidade de um consulado itinerante, projecto que não chegou a ser apresentado na Câmara dos Deputados, Jaime Batalha Reis acabou por ser convidado para chefe do Serviço Agrícola do Instituto Geral de Agricultura, cargo administrativo que ocupou em Fevereiro de 1872. Não que fosse o lugar desejado, mas permitia-lhe a entrada para a instituição onde fora um brilhante aluno e a possibilidade de casamento com Celeste Cinatti, que se realizou em Setembro desse mesmo ano. Logo no Outono viria a ser designado para substituir Andrade Corvo nas cadeiras de Botânica, Economia Rural e Florestal, e continuando a carreira docente ocupou, muito mais tarde, depois do respectivo concurso, em 1882, o lugar de lente de Microscopia e Nosologia Vegetal.
"O ano de 1874 e parte de 1875 vai ser preenchido pela elaboração de um projecto também muito caro a Antero de Quental e Oliveira Martins: a publicação de uma revista que reunisse a colaboração de intelectuais portugueses e espanhóis. Depois de muitos contratempos, que Batalha Reis ultrapassou com a habitual tenacidade, o 1º número da Revista Ocidental saiu em Fevereiro 1875, e foi nas suas colunas que Eça de Queirós publicou a 1ª versão de “O Crime do Padre Amaro”. Além de Eça, nela colaboraram Batalha Reis, Antero, Oliveira Martins, Adolfo Coelho, Sousa Martins, Maria Amália Vaz de Carvalho, intelectuais e políticos espanhóis como Pi y Margall, Fernandez de los Rios, Rafael de Labra, Canovas del Castillo. Porém, as dificuldades de coordenar a colaboração, e a falta de financiamento, situação crónica neste tipo de publicações, derrotou o projecto, que não ultrapassou o mês de Julho.
"No ano seguinte, em 1876, recebeu a nomeação para comissário do sector agrícola da Exposição de Filadélfia, que comemorava o centenário da independência dos Estados Unidos da América. A essa missão a portaria acrescentava a incumbência de estudar a cultura da vinha, do algodão e do tabaco. Porém, uma mudança de ministério obrigou-o a um regresso precipitado sem haver concluído as necessárias pesquisas.
"A par da actividade profissional, nunca descurou o interesse pela cultura portuguesa colaborando em jornais e revistas com crónicas sobre ópera, pintura e literatura. Nesse âmbito participou na comissão executiva do centenário de Camões e foi delegado da Sociedade de Geografia nas comemorações de Calderón de la Barca.
"Mas em 1882, quando já era professor catedrático de Microscopia e Nosologia Vegetal no Instituto Geral de Agricultura, viu-se finalmente provido na carreira consular, recebendo a nomeação para 1º cônsul em Newcastle, onde estivera Eça de Queirós que, entretanto, passara para a cidade de Bristol. Jaime Batalha Reis, abandonando o percurso docente e a agronomia, partiu em Agosto do ano seguinte, com a família, para o novo posto, mantendo-se na carreira diplomática perto de trinta anos, até se aposentar em 1921.
"A actividade como cônsul em Inglaterra centrou-se na defesa dos nossos interesses em África, estudando a fundo, para o bom desempenho dessa função, história e geografia. O reconhecimento, a nível oficial, do domínio dessa problemática valeu-lhe a nomeação, como perito, para a Conferência Anti-Esclavagista, que se realizou em Berlim de 1889 a 1891. O seu mérito como diplomata levou-o a desempenhar missões confidenciais em Berlim e Paris ligadas a dois problemas cruciais nesta época para Portugal – as negociações com a Inglaterra sobre África e a situação do nosso crédito na Europa. É no meio desta frenética actividade que recebe a notícia do suicídio de Antero. O texto que escreveu para o In Memoriam do seu amigo - “Anos de Lisboa: algumas lembranças” - será uma peça fundamental para a biografia do poeta e um importante testemunho sobre a geração a que pertenceu, enviado de Newcastle quatro dias antes da morte do seu outro amigo Oliveira Martins. Supomos que foi principalmente graças a esse texto e ao que veio a escrever sobre Eça, prefaciando as Prosas Bárbaras, que o nome de Jaime Batalha Reis voltou a ser reconhecido como um dos activos elementos desta Geração. E no ano em que representava Portugal na Conferência Internacional para a Protecção da Fauna Africana, com onze dias de intervalo, morreu-lhe a mulher e o seu companheiro de muitos anos, Eça de Queirós.
"Até à implantação da República continuou a manter uma intensa actividade. Já fellow da Royal Geographical Society, apresentou em 1895 uma comunicação “On The Definition of Geography as a Science [...]” que teve grande repercussão nos meios científicos. Na reunião da Association Scientifique Internationale d’Agronomie propôs um estudo sobre o trabalho agrícola e o emprego indígena nos países tropicais, sendo relator principal. Como ele próprio explicou, não se pretendia quantificar a mão de obra agrícola, mas estudar as condições da sua existência e o destino dos trabalhadores agrícolas na colónias e países tropicais.
"Depois da implantação da República, Bernardino Machado chamou-o a Lisboa para participar na remodelação do ministério. Em Julho é enviado como ministro plenipotenciário a S. Petersburgo, onde apresentou as credenciais a Nicolau II. Mas logo no mês seguinte regressou para desempenhar comissões em Paris e Londres. No fim do ano de 1813 é enviado de novo à Rússia como representante de Portugal nas comemorações da dinastia Romanov, levando consigo duas das filhas, Celeste e Beatriz. Foi assim apanhado no vórtice da Revolução de 1917 e envolvido nos acontecimentos diplomáticos que então ocorreram. Só em 1818 conseguiu sair por Murmansk.
"Nomeado delegado plenipotenciário à conferência de Paz em Paris, e a seguir representante de Portugal na comissão que iria elaborar o Pacto da Sociedade das Nações, multiplicou a sua actividade pelas comissões a que pertencia, enviando para o respectivo ministro português numerosos relatórios sobre as matérias aí tratadas. No regresso a Portugal criou o Secretariado da Sociedade das Nações e lançou as bases da Associação Portuguesa para a Sociedade das Nações, de que viria a ser vice-presidente.
"Só se aposentou em Agosto de 1821, depois de uma cirurgia aos dois olhos. Retirou-se para a Quinta da Viscondessa, no Turcifal, com as duas filhas solteiras, para se poder dedicar à sua “filosofia”, que no dizer do amigo Viana da Mota se chamaria Explicação do Universo. Mas a aterradora visão dos 19 armários da sua sala de trabalho, repletos de milhares de cartas e rascunhos, tornou-o incapaz de levar a tarefa a bom porto. Seria a filha Beatriz quem, após a sua morte, em 1935, organizou pacientemente o Espólio, oferecendo-o depois à Biblioteca Nacional.

Maria José Marinho

Fontes e Bibliografia

"Espólio Jaime Batalha Reis (Esp.E4) BN:ALPC.; Cartas Inéditas de Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, Batalha Reis [...] (intr., coment. e notas de Beatriz Berrini), Lisboa: Ed. “O Jornal”, 1987; Correspondência entre Antero de Quental e Jaime Batalha Reis. (int., org. e notas de M. Staack) Lisboa: Assírio e Alvim, 1982; Costa, Fernando Marques da, "Sobre um possível Jaime Batalha Reis [...]", Revista da Biblio­teca Nacional, Lisboa, 3 (1-2), 1983; Cunha, Isabel Férin, "Sobre a estante de Jaime Batalha Reis: o homem e o seu círculo", Revista da Biblioteca Nacional, Lisboa, S.2, 8 (2) 1993; Eça de Queiroz e Jaime Batalha Reis: cartas e recordações do seu convívio. ( colig. e apres. por Beatriz C. Batalha Reis) Porto: Lello & Irmão Ed.,1966; Quental, Antero de, Cartas I e II. (org., int. e notas de Ana Maria Almeida Martins) Lisboa: Universidade dos Açores/Ed. Comunicação, 1989.

Espólio Jaime Batalha Reis (Esp.E4) BN:ALPC.; Antero de Quental: In Memoriam, Lisboa: Presença/Casa dos Açores, 1993, (facsimile); Batalha Reis na Rússia dos sovietes [...]. (análise crítica, recolha e notas de J. Palminha da Silva) Porto: Afrontamento, 1984 ; Carreiro, José Bruno, Antero de Quental, subsídeos para a sua biografia, Lisboa: Ed. do Inst.de Ponta-Delgada, 1948; Cartas Inéditas de Eça de Queiroz [...] (intr., coment. e notas de Beatriz Berrini), Lisboa: Ed. “O Jornal”, 1987; Correspondência entre Antero de Quental e Jaime Batalha Reis. (int., org. e notas de M. Staack) Lisboa: Assírio e Alvim, 1982; Correspondência de J. Batalha Reis para Barbosa Du Bocage. (int., org. e notas de Alice Godinho Rodrigues) Lisboa: INIC, 1990; Costa, Fernando Marques da, "Sobre um possível Jaime Batalha Reis [...]", Revista da Biblio­teca Nacional, Lisboa, 3 (1-2), 1983; Cunha, Isabel Férin, "Sobre a estante de Jaime Batalha Reis: o homem e o seu círculo", Revista da Biblioteca Nacional, Lisboa, S.2, 8 (2) 1993; Eça de Queiroz e Jaime Batalha Reis: cartas e recordações do seu convívio. ( colig. e apres. por Beatriz C. Batalha Reis) Porto: Lello & Irmão Ed.,1966; Garcia, João Carlos, "Jaime Batalha Reis, geógrafo esquecido", Finisterra, Lisboa, XX, 49, 1985; Marinho, Maria José, "A 'Revista Ocidental', 1875: um projecto da Geração de 70", Revista da Biblioteca Nacional, Lisboa, S.2, 7 (1) 1992; Queiroz, Eça de, Prosas Bárbaras. Porto: Liv. Char­dron, 1903; Quental, Antero de, Cartas I e II. (org., int. e notas de Ana Maria Almeida Martins) Lisboa: Universidade dos Açores/Ed. Comunicação, 1989, Reis, Jaime Batalha, Descobrimento do Brasil Intelectual pelos Portugueses do Século XIX. (org., pref. e notas de Elza Miné), Lisboa: Publ. D.Quixote, 1987, Exmo Snr. Marques d'Avila e Bolama, Porto, Tip.Comercial, 1871; Estudos Geográficos e Históricos, Lisboa: Agência. Geral das Colónias, 1941; Revista Inglesa: crónicas. (org., int. e notas de Maria José Marinho), Lisboa: Publ. D.Quixote/BN, 1988; Rodrigues, Alice Godinho, Jaime Batalha Reis geógrafo, historiador, político e diplomata, Porto: [s.n.], 1988; Santos, Andrade, Batalha Reis no Turcifal, Torres Vedras: Tip. A União; Serrão, Joel, O primeiro Fra­dique Mendes, Lisboa: Liv. Horizonte, 1985.