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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

1923 - O “Primeiro” Carnaval de Torres Vedras

(foto do Carnaval de 1924, Arquio Adão de Carvalho, BMTV)

Por norma, foi fixada a fundação do moderno Carnaval de Torres em 1923, ano em que, pela primeira vez nesta localidade, foi coroado um rei no Carnaval, acto considerado fundador.

Isto não quer dizer que a tradição de se comemorar o Carnaval nesta localidade não se tivesse registado em datas anteriores.

Há quem atribua a data de “fundação” ao ano de 1574, com base num documento datado desse ano, a primeira referência conhecida à realização, neste concelho, de uma brincadeira típica do entrudo. Contudo isso não quer dizer que a mesma brincadeira, ou outras, não se realizassem por estas bandas em épocas muito mais recuadas, pelo menos desde que o calendário cristão foi imposto no território português. É provável que, esquecidos nos arquivos nacionais, existam outros documentos, desse período ou até mais antigos, referentes ao mesmo tema, pois as notícias mais antigas da realização de brincadeiras típicas do entrudo em Portugal datam do século XIII. Esse documento não prova nenhuma especificidade nas comemorações do entrudo nesta região. Era o mesmo que datarmos as comemorações do Natal em Torres Vedras com base num documento medieval que as referisse em Torres Vedras.

Quanto à oficialização do centenário em 2023, penso que, sendo o Carnaval de Torres uma "tradição inventada", se socorra de um acto "fundador" e "unificador" para o "consolidar" e "comemorar" e esse acto, apesar de não ser original, mas que manteve alguma continuidade, apesar de algumas interrupções, sempre foi a coroação do 1º rei do Carnaval de Torres em 1923. A existência de um rei não é original de Torres (existe referência na imprensa torriense à coroação de um rei no Bombarral na década anterior, sem esquecer que o mesmo se passava, quer no Carnaval de Lisboa dessa época, quer no Carnaval de Nice, que foi o modelo para a maior parte dos carnavais portugueses dos "loucos anos 20").

Foi à volta desse acto e dessa data simbólica que se foram acrescentando, ao longo das décadas, muitas das iniciativas que hoje fazem parte do calendário e da identidade do Carnaval de Torres.

Foi também à volta desse novo tipo de Carnaval, "inaugurado" em 1923, que o Carnaval de Torres ganhou fama e dimensão, distinguindo-se das meras "paródias" e construindo a sua identidade, principalmente na década dos anos 30 do século passado, despertando a atenção da imprensa e da cinematografia nacional, fama que se aprofundou na década de 60 e princípio da de 70, e, em dimensões muito maiores, a partir de 1985.

À volta do Carnaval "fundado" em 1923 ( e quem funda alguma coisa, por vezes não tem a percepção daquilo que está a "inventar" e da dimensão que vai ganhar no futuro), fez-se a fusão de três dimensões que existiam anteriormente, mas "de costas voltadas", daí também a importância da nova etapa "fundada" há cem anos:- a dimensão dos "bailes de salão", realizado em casas particulares e nas colectividades; - a dimensão do carnaval rural, que mantinha muitas das características do entrudo medieval; - e a dimensão do carnaval urbano, que se vai construindo ao longo do século XIX e que vai integrar, além das tradicionais cegadas, o modelo dos já referidos Carnaval de Nice e Carnaval de Lisboa.

Não me parece, assim, haver qualquer problema, a não ser de tipo retórico, em considerar a comemoração do centenário do Carnaval de Torres neste ano de 2023.

Penso que atribuir o centenário ao primeiro desfile com o "rei " tem um mero sentido simbólico, que me parece pertinente e é um pretexto, não para desvalorizar a sua história, mas para reflectir sobre a sua importância.

Contudo, não deixa de ser significativo que os torrienses de então não se tenham apercebido da importância desse acto fundador. De facto, são muito escassas as referências ao que se passou em 1923.

Apenas uma pequena referência, quase despercebida, de dois parágrafos, numa página interior, a página 2, do jornal “O Torreense”,  publicada no Domingo de 4 de Fevereiro de 1923, fazendo parte de uma coluna intitulada “Coisas da Nossa Terra”, no meio de outras notícias, dá conta da realização, “amanhã”, 5 de Fevereiro, segunda-feira, de “um engraçado divertimento carnavalesco, que consta da recepção do Rei Carnaval, que deve chegar no comboio correio da manhã”. E conclui a notícia que a “recepção terá logar com inúmeras demonstrações festivas, percorrendo Sua Magestade as ruas da vila, acompanhado dum luzido cortejo”.

Curiosamente, esse desfile realizou-se uma semana antes da semana de Carnaval. De facto, segundo aquela notícia, essa “brincadeira” estava anunciada para 2ª feira 5 de Fevereiro, quando 3ª feira de Carnaval desse ano aconteceu em 13 de Fevereiro.

Estranhamente não se encontra, em edições futuras da imprensa da época, qualquer relato ou referência a esse mesmo desfile.

Existem mutas informações sobre o Carnaval desse ano, nenhuma sobre esse anunciado desfile, que apenas sabemos que se realizou por relatos futuros, de tradição oral ou publicada noutros anos, sobre o que aconteceu em 1923.

De facto, percorrendo as páginas do dito semanário torriense, publicadas na véspera ou nas semanas a seguir ao Entrudo desse ano, as referências que encontramos nada referem sobre o assunto. De notar que as edições de “O Torrense” de 11, 18 e 25 de Fevereiro desse ano, onde se relata o que se passou no Carnaval desse ano, desapareceram, misteriosamente, da colecção desse periódico existente na Biblioteca Municipal de Torres Vedras. Felizmente esses números podem ser consultados na hemeroteca da Biblioteca Nacional de Lisboa.

Na sua edição de 11 de Fevereiro apenas se refere que a “quadra carnavalesca nesta vila tem passado despercebida, a não ser nas sociedades de recreio onde se anda em preparativos para os três dias de festas por exelencia”, anunciando que nas “referidas sociedades, durante os três dias, haverá bailes e numerosas variedades, alguns dos quaes de êxito seguro”. É nos ditos “preparativos” que devemos enquadrar a anterior referência à recepção do rei do Carnaval anunciada para 5 de Fevereiro. Mas, á posteriori, não encontramos qualquer noticia que refira a dita recepção.

Pelo contrário,  na sua edição de 25 de Fevereiro, aquele semanário local refere que o “Carnaval este ano decorreu nesta vila insípido e sensaborão, principalmente nas ruas”, aos contrário das “Cazas de recreio”, onde “houve baile e outros divertimentos durante as três noites, que decorreram com um tal ou qual animação, embora muito inferior à dos anos anteriores”.

Do programa carnavalesco realizado nas colectividades locais, destaca a “representação, por alunos da Escola  Secundária, duma peça da autoria do Snr. José do Nascimento Neves, professor deste estabelecimento de ensino”, embora se refira à representação da peça como “uma verdadeira desilusão”, de uma “extraordinária banalidade”. Ao jornal terá desagradado especialmente o “julgamento que o autor fez exibir no 2ª acto”, principalmente “o julgamento de O Torreense”. De positivo, o citado articulista refere “as artísticas e lindas ornamentações dos salões de baile do Grémio e da Tuna”.

Mas aquela que é a mais curiosa referência ao Carnaval desse ano é a um desfile de “um cortejo” em Dois Portos “parodiando a procissão dos passos”, situação muito criticada nas páginas do dito semanário “O Torreense” de 25 de Fevereiro: “Custa a crer que tal cortejo não fosse proibido (…). O cortejo a que vimos de aludir constitui para os católicos uma afronta”, tanto mais que a verdadeira Procissão dos Passos desse ano tinha sido proibida pelas autoridades.

Seja como for, foi esse Carnaval de 1923 que deu inicio a um caminho que nos levou até ao Carnaval actual, para além de contribuir, com já referimos, para a "fusão" e "síntese" de várias caracteristicas do Carnaval, o mais antigo, o rural, o urbano, o de salão e o que se fazia em muitos sítios, de Nice a Lisboa ou Coimbra  e até no Brasil (curiosamente, este último foi influenciado pelo Carnaval português, fundindo-se com as origens africanas de grande parte do seu povo).

ANEXO

DESCRIÇÃO DO SEGUNDO CARNAVAL COM "REI" (e primeiro com "rainha") - 1924

"Foram este ano revestidas de extraordinario brilhantismo as festas carnavalescas,realisadas por ocasião da chegada de Sua Magestade D.Carnaval II,rei da Folia e da gargalhada e imperador dos Estados Unidos de todas as encabadelas  em uso nesta temporada -como rezava o respectivo programa.

"Muito antes da hora anunciada para a chegada de S.M.,que,acompanhado pelos membros do seu ministerio ,devia desembarcar na estação do caminho de ferro ,já o largo fronteiro se encontrava replecto de gente.

"Pouco depois chegava o comandante da policia (Gil Lourenço),que acompanhado  por alguns guardas civiscos  era encarregado do policiamento.

"Logo a seguir desembocava na Avenida 5 de Outubro o esquadrão de cavalaria e burraria, sob o comando de João Duarte ,tendo como subalternos Eurico Pinto e Alberto Nobre e como porta-estandarte Jaime Alves e que fórma ao longo da Avenida.

"Pouco depois surge o batalhão de marinheiros de agua doce  ,sob o comando de Francisco J.Lucio.

"As forças fazem a continencia e o batalhão vai formar em frente da estação.A sua organização é elogiada; apresentam-se bem equipados, desfilam com garbo e obedecem prontamente ás  vozes de comando.

"Começam a chegar então os coches dos altos dignatarios .Sua eminencia  o cardeal (Sancho da Costa).Bispo (Ruy Garrett).Conego (Antonio Trindade).Acolito(Manuel Vidal).

"Cada  vez é maior a afluencia de povo .Aparece a seguir o carro da burguezia  ,uma graciosa charge  que provoca risos na assistencia.

"A Chegada de Sua Magestade

"Eram 10 horas e 17 minutos quando o comboio entrou na estação.Sobem ao ar muitos foguetes.A banda musical atroa os ares com uma marcha real   .

"Sua Magestade desembarca e é recebido pelos altos dignatarios , dirigindo-se depois dos cumprimentos de boas vindas para o coche que o aguarda.

"A guarda de honra é feita ,fóra da estação,pelo batalhão de marinheiros de agua doce.

"Estralejam mais foguetes.A banda entoa ainda os ultimos compassos da marcha real.As forças militares fazem a continencia.

"Na assistencia ha palmas e gargalhadas.

 "O Cortejo.

"Organisa-se então o cortejo ,que ha de acompanhar Sua Magestade na sua visita ás sociedades de recreio.

"Á frente um termo de trombeteiros ,levando o emblema real,nos seus instrumentos .

"A seguir o batalhão de cavalaria e burraria de penachos ao vento.

"Seguia o estandarte real escoltado por dois soldados de cavalaria montados em burros.

"No primeiro carro seguia o ministério: Ministro da marinha (José Pedro Costa),do trabalho (António Trigueiros Junior) e do Interior (Tomaz dos Santos).

 "O carro do clero ,cujos tripulantes já mencionámos.

 "O carro dos embaixadores ,no qual merece especial menção Amílcar Guerreiro com embaixador  do Celeste Império.Seguiam no mesmo carro os embaixadores  dos Peles Vermelhas  (Alfredo de Almeida), Turquia (Jose Castanho) ,Hespanha (Luiz Santana).

 "Coche real ,no qual seguiam,além de Sua Magestade, o presidente do ministerio  (Antonio Hipolito Junior) e o chefe do protocolo  (M.Silva); ministro da guerra  (Leonel Trindade).Cavalgavam á estribeira os generais Eurico Pinto e Guilherme Nobre. 

"Seguia o batalhão de marinheiros de agua doce.

"Carro da burguezia ,conduzido por Raul Lucas e D.Imiro "(?sic)"Rodrigues e tripulado por António de Oliveira e Julio da Silva.

 "Fechava o cortejo a Filarmonica Torreense.

"Começou então a visita ás colectividades de recreio começando pelo Casino.

"Aqui foi Sua Magestade recebido pelo Ex.mo. Sr. Dr. José de Bastos que agradeceu em nome da Direcção a gentileza da visita.

 "Seguiu-se o Grémio Artístico - Comercial na qual o representante da Direcção era o sr.Justino Alves de Almeida que agradeceu a visita a Sua Magestade em resposta ao discurso do presidente do ministério.

"Na Tuna Comercial Torreense que a seguiu foi honrada com a visita de Sua Magestade ,foi servida pela direcção um delicado copo,d'água.

"A seguir dirigiu-se o cortejo para o Largo da Republica onde ,depois de serem passados em revista as suas forças militares ,se dissolveu.

"VISITA ÁS COLECTIVIDADES "(Sic)

"Pelas 13 horas teve logar no vasto salão de festas do Hotel Natividade o banquete de gala oferecido em honra de Sua Magestade,que decorreu no meio da maior animação e durante a qual sua excelencia o senhor Visconde da Horta-Nova exerceu ao piano algumas repetições  do fado corrido.

"Foram levantados muitos brindes havendo o Embaixador dos Peles Vermelhas  (Alfredo de Almeida) tido palavras de elogio para a imprensa local,ali representada,o que agradecemos.

"Findo o banquete,Sua Magestade D.Carnaval II,"atendendo ao que lhe expozeram os membros do seu ministerio e considerando que o sr.Carlos Alexandre Capucho como armazenista de vinhos tem sempre concorrido para que o saboroso nectar continue sempre espalhando a alegria na Humanidade,entende por bem condecorá-lo com a medalha de ouro de Beneficiencia Mundial.Pede desculpa de a medalha de ouro ser de cobre mas que isso é devido á pobreza do erário real"

"Uma estrondosa salva de palmas coroou as palavras de Sua Magestade.

 "O DESAFIO DE FOOT-BALL

"Ás 15 horas teve logar no vasto campo da Varzea o desafio de foot-ball entre o Femina - Sport-Club e o Imperio-Mania-Foot-Ball Club ,servindo de arbitro Gil Lourenço.

"Assistiu ,de uma tribuna expressamente armada para esse efeito ,Sua  Magestade D.Carnaval II acompanhado pelos membros do seu ministerio ,embaixadores ,altos dignatarios ,etc.

"No decorrer do desafio Sua Magestade devido ao excessivo "calor" do sol(?) sentiu-se ligeiramente indisposto pelo que foi obrigado a recolher aos seus aposentos.

 "Comparecendo o medico da real camara apenas receitou trez horas de sono para fazer evaporar os ultimos "calores" cerebrais de Sua Magestade.

"D.Carnaval II ficou muito grato para com os tripulantes do "carro da burguezia" que gentilmente se prestaram a conduzi-lo ao seu palacio.

"O BAPTISMO DO PRÍNCIPE REI

"Teve logar no salão de baile do Grémio Artistico Comercial o ultimo numero das festas organisadas pela comissão de festejos e na qual merece especial menção o esforço dispendido pelo sr.Leonel Trindade.

"Foi o baptismo de sua alteza real.O salão encontrava-se completamente apinhada.

 "Pouco depois da hora anunciada deu-se começo á cerimonia á qual assistiu Sua Magestade a Rainha (Jaime Alves).

"Conduzindo o neofito (Alfredo de Almeida) ao colo de sua aia (Gil Lourenço) ao palco ,foi o batismo realisado por Sua Iminencia o Cardeal ,acolitado pelos outros "ministros" da religião que tomaram parte no cortejo.

"Em seguida teve logar o baile que se dançou animadamente até de madrugada".

(sublinhados nossos).

In "O Torreense" de 12-03-1924

(NOTA : É de notar que a referência à presença rainha (Jaime Alves)  só aparece na cerimónia final, também não se vendo na fotografia de 1924 que ilustra este texto)

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

A Caricatura Política e a Censura no Carnaval de Torres (pequeno esboço para enquadramento)


Não existem muitos indícios e documentos sobre a caricatura política no Carnaval de Torres, antes do 25 de Abril.

Existem, quanto muito, referências dispersas, na imprensa local, no início do século XX, sobre algumas criticas a acontecimentos locais e a alguns conflitos com as autoridades por causa de algumas “pulhas” carnavalescas, mais criticas em relação à monarquia, às autoridades, à Igreja, ou a atitudes de caracter brejeiro.

Há registo de grande animação no Carnaval de rua em 1908, realizado poucos dias depois do assassinato de D. Carlos, onde houve uma mascarada ridicularizando políticos monárquicos, locais e nacionais.

A mais antiga fotografia conhecida dos festejos carnavalescos regista uma paródia a um acontecimento político.

Foi em 1912, uma fotografia publicada na “Ilustração Portuguesa” (nº 315 de Março de 1912), acompanhada da seguinte legenda: “Em Torres Vedras: Paródia carnavalesca. Invasão dos Paivantes. O exército afugentado pelo Zé Povinho que lhes atira uma bomba de 5 réis”.

Era uma alusão a uma das incursões de Paiva Couceiro nesse ano.



Em 1923 surge o primeiro Carnaval organizado, com a presença de um “rei” “coroado”, passando a ser acompanhado pela “rainha” no ano seguinte, “rainha” essa que, até aos dias de hoje, é sempre um homem mascarado. Muitas das personalidades identificadas como organizadores desses primeiros desfiles estavam conotados com o republicanismo histórico local.

Não deixa de ser curioso que, entre 1923 e 1926, a Câmara Municipal Torriense tenha sido presidida por um monárquico, podendo interpretar-se a forma como se apresentavam os “reis” no Carnaval, a partir dessa data, como uma assumida forma de ironizar e ridicularizar a monarquia, uma critica ao poder autárquico.

Acrescente-se que, por essa altura, a “corte” era acompanhada por várias figuras “religiosas”, uma forma de “gozar” com a Igreja, situação esta que foi proibida e banida durante os anos da ditadura.

Com a instauração da ditadura militar interrompeu-se, durante alguns anos (1927, 1928, 1929), a realização do Carnaval de rua organizado, dando-se o regresso em 1930, mas agora sujeito aos limites impostos pela censura.

O órgão local da recém formada União Nacional, por ocasião do Carnaval de 1933, chegou mesmo a fazer algumas ameaças veladas a quem se atrevesse a aproveitar o Carnaval para fazer critica política: “Se aparecerem carros com fins reservados, atacando pessoalmente, este ou aquele individuo, este ou aquela instituição (…) as autoridades (…) proibirão terminantemente, decididamente, estes e outos quaisquer abusos que possam deslustrar os extraordinários festejos, mas sempre é bom este aviso para evitar escusadas despezas a quem se prepara para tais brincadeiras de mau gosto (…). De forma categórica, podemos desde já garantir que estes abusos não se darão durante o Carnaval, a menos que os seus autores se queiram sujeitar aos rigores das medidas administrativas (…). Aqui fica, pois, o aviso”.

O “aviso”, juntamente com a acção da censura, da PIDE e do medo, terá surtido o seu efeito, não se conhecendo, até ao 25 de Abril, a existência de criticas ou caricaturas de carácter político no Carnaval de Torres Vedras.

Existe apenas uma excepção, documentada por Joaquim Vieira, no volume dedicado aos anos 1930-1940 do seu “Portugal – Século XX – Crónica em Imagens” (círculo de Leitores, ed. 1999), onde se inclui uma imagem, retirada do arquivo do DN, com a seguinte legenda: “No entrudo em Torres Vedras em 1939, evoca-se os homens de Munique (Chamberlain, Mussolini, o francês Daladier e Hitler)” (pág. 169).



Foi a partir de 1985 que o Carnaval de Torres ganhou a dinâmica actual e a caricatura política, local, nacional e internacional, se tornou habitual e recorrente, com a qualidade que se conhece, integrando os carros alegóricos e o “monumento”.

Mesmo assim, tirando a presença regular nos carros da organização e no “monumento”, a critica politica espontânea não é tão frequente como seria de prever em democracia, surgindo de forma mais acentuada em determinadas conjunturas como durante os governos de Cavaco Silva, muito criticado ( e gozado) por ter retirado o decreto de tolerância da 3ª feira de Carnaval, a durante os anos da “troika”, quando se voltou a recusar o decreto de tolerância em nome da austeridade,

De resto, como há décadas que o carnaval de Torres obedece a uma temática unificadora, esta acaba também por condicionar a critica e a caricatura política, que nem sempre encaixa nessa temática.

Já em liberdade, também se registaram alguns significativos actos de censura, um na década de 80, exercida sobre um carro da Associação do Património, onde se assumiam criticas à acção camarária, outro durante o governo de Sócrates, quando uma zelosa juíza local obrigou a retirar imagens de teor pornográfico colocadas numa imitação do célebre computador Magalhães, e outra, mais recentemente, quando o monumento incluiu uma imagem caricaturada da Nossa Senhora de Fátima.

quinta-feira, 25 de maio de 2023

As memórias do Carnaval de António Carneiro

                                               

Se há acontecimento que une todas as gerações torrienses vivas, ele é o Carnaval de Torres.

Toda a gente que tenha nascido ou vivido em Torres Vedras tem histórias da sua vida relacionadas com esse evento.

Se essa memória for a de alguém que esteve por dentro da organização e da expansão que o Carnaval de Torres conheceu nas últimas décadas, estão reunidas as condições para que essas memórias se tornem um documento fundamental para conhecer a evolução, a transformações e o espírito desse acontecimento único que é o Carnaval de Torres.

É o que acontece com António Carneiro, que acaba de nos brindar com um surpreendente livro de memórias sobre o Carnaval de Torres: “Aconteceu assim…memórias e …outras histórias”.

Este livro, tratado graficamente pelo Antero Valério e ilustrado com um conjunto de fotografias ,  muitas da autoria de Carlos Miguel (cronista visual do nosso carnaval das últimas décadas, como se revela pela extraordinária fotografia que foi escolhida para capa do livro), é já uma obra fundamental para se conhecer como é que o Carnaval de Torres atingiu a sua actual dimensão e notoriedade.

Como responsável activo pela fase moderna do nosso Carnaval, António Carneiro dá-nos uma obra fundamental para quem queira construir, para memória futura, uma História do Carnaval de Torres.

O memorialismo não é um género muito cultivado por estas bandas, muito menos na forma despretensiosa, mas bem documentada e experienciada, como o faz o nosso amigo “Toni” Carneiro.

Para além de António Carneiro, temos, felizmente, João Maria Brandão de Melo que nos vai deliciando, nas páginas do jornal  Badaladas, de forma irregular, com as suas memórias carnavalescas, trabalho que também merecia ser reunido em livro.

Pena temos nós que não houvesse outras figuras históricas do nosso Carnaval que publicassem as suas memórias (lembramo-nos de um Amílcar, de um Luís Faria, de um Jaime Alves, de um Levy dos Santos, de um Verino, de  um Renato Valente…e tantos outos que construíram o nosso Carnaval).

O livro de António Carneiro lê-se de um trago. Lê-lo, para além do grande prazer que nos deu, é um forma de penetrarmos  no espírito do centenário Carnaval de Torres, pois as saborosas histórias que ele nos  revela não são as  de um mero observador exterior, mas muitas delas tiveram a cumplicidade activa do autor e foram “estruturantes”  para a identidade actual do nosso Carnaval.

Este é um livro fundamental na estante de qualquer torriense, goste-se ou não do Carnaval.

 

terça-feira, 21 de março de 2023

AFINAL, QUANDO COMEÇOU O CARNAVAL DE TORRES? por Jorge Ralha

                                  

Com a autorização do próprio, publicamos em baixo um texo do professor e investigador de história local Jorge Ralha, um contibuto informado para o debate sobre o "centenário" e a história do Carnaval de Torres

"Nos últimos meses, inúmeras vezes fui questionado por amigos e conhecidos, sobre o início do Carnaval de Torres no século XVI. Fui explicando que uma coisa é “carnaval em Torres”; outra, “Carnaval de Torres”. O primeiro, (quase) sempre houve; o segundo, tem caraterísticas próprias (como, no último documento, se procura identificar, previamente à resposta à questão).

Para não perturbar os festejos de um centenário no mínimo questionável, e que pode configurar uma enorme fraude cultural coletiva, o que se publica agora e de seguida, são documentos – todos eles existentes na Biblioteca Municipal - sobre o Carnaval de Torres.

Tudo o que é opinião, cabe ao leitor.

O cidadão que goste de questionar-se, em que conceito se revê?

a)Na descrição do século XVI em que se bate num galo (a perseguição de animais e, eventualmente, o seu manjar, não é uma raridade na Europa);

b)Na descrição de 1923 em que um rei de Carnaval chega à estação de caminho de ferro, forma-se um cortejo e visita as coletividades;

c)Na descrição de 1931 em que o rei acompanhado da rainha, assistem ao corso com carros alegóricos e batalha de flores, com entradas pagas cuja receita é a favor da Colónia Balnear Infantil (da Física).

Quando começou, afinal, o Carnaval de Torres Vedras: no século XVI? Em 1923? Ou serão os torrienses tão “à frente” que começam a comemorar o centenário do Carnaval de Torres oito anos antes?

Estranho, é que tantos sábios e experientes reunidos, ainda não tenham dito nada!!! (exceto Venerando Matos no Badaladas de 20.01.23, porem não retirando as lógicas conclusões). Ficará para o futuro o anacronismo de nas comemorações aparecerem um conjunto de casais reais cuja rainha só aparecerá no ano seguinte (1924).

Assentemos que a história se constrói segundo processos cumulativos no tempo, até se fixar numa matriz, mesmo assim, dinâmica. Exemplifico para melhor compreensão: a humanização percorreu um caminho até assentar na versão conhecida como homo sapiens sapiens. Ainda ninguém se lembrou de estabelecer o aparecimento do Homem nos espécimes anteriores do australopitecos ou do “homem” de Neanderthal, pois não?. Assim, o Carnaval de Torres, como todos os processos humanos. Quanto ao argumento da tradição, também houve tempo em que se considerava que o Sol girava em volta da Terra! O conhecimento humano emendou o erro, até hoje!

Uma nota de otimismo: talvez possamos começar a preparar convenientemente o centenário do Carnaval de Torres, em 2031, cujos cem anos se celebrarão obviamente no ano seguinte.

a)O Carnaval de Torres começou no sec. XVI?

(…) “andando uns moços folgando com um galo no dia de Entrudo de 1574 … trazendo os moços paus como é costume no tal dia para matarem o galo (…) passando pela porta do mestre de gramática … chegaram outros moços doutra escola e ali se juntaram uns com os outros, onde tiveram os seus passatempos e brincadeiras de brigas com o galo como sempre houve e (…) em zombaria (um estudante)  para rirem pegou na besta … e por acidente, atirando ao galo acertara no beiço dum moço de nome João criado de João Luís, barbeiro, morador na dita vila (…)”

FONTE: Documento citado por Venerando de Matos, Carnaval de Torres. Uma história com tradição (1923 – 1998), CMTV, 1998, p. 26 (adaptado)

b)O Carnaval de Torres Vedras começou em 1923?

(O relato dos acontecimentos de 1923 não está acessível na Biblioteca Municipal. Está o mesmo jornal – O Torreense - que é a fonte, também, para o ano seguinte que decorreu de forma semelhante, seguramente melhorada). Eis o que se escreve:

“Eram 10 horas e 17 minutos quando o comboio entrou na estação. Sobem ao ar muitos foguetes. A banda musical atroa os ares com uma marcha.

Sua Magestade* desembarca e é recebido pelos altos dignatários, dirigindo-se depois … para o coche que o aguarda.

A guarda de honra é feita, fora da estação, pelo batalhão de marinheiros de água doce.

(…) Organiza-se então o cortejo, que há de acompanhar Sua Magestade na sua visita às sociedades de recreio.

À frente um terno de trombeteiros … A seguir o batalhão de cavalaria e burraria de penachos ao vento.

Seguia o estandarte real escoltado por dois soldados de cavalaria montados em burros.

No primeiro carro seguia o ministério (depois) o carro do clero (…) o carro dos embaixadores (…)

Coche real , no qual seguiam, além de Sua Magestade, o presidente do ministério (…) e o chefe do protocolo (…) ministro da guerra. Cavalgavam à estribeira os generais (…)

Seguia o batalhão de marinheiros de água doce. (…)

Carro da burguesia (…)

Fechava o cortejo a Filarmonica Torreense.

Começa então a visita das colectividades começando pelo Casino (…) Seguiu-se o Grémio Artístico Comercial  (…) Na Tuna Comercial Torreense que a seguir foi honrada (…)

A seguir dirigiu-se o cortejo para o Largo da República onde, depois de serem passadas em revista as suas forças militares, se dissolveu. (…)**

*O rei, em 1923, ainda sem rainha que aparece em 1924

**Os atos que se seguem reportam-se especificamente a 1924

FONTE: O Torreense de 02.03.1924 (existe original do jornal na Biblioteca Municipal)

c)O Carnaval de Torres Vedras começou em 1931?

“Terá também realização este ano esta parodia a que se chama “O Rei Carnaval”.(…)

Suas Magestades (…) dignar-se hão também assistir ao corso que terá logar na Avenida, pelas 15 horas, destinando-se o producto da portagem à Colónia Balnear Infantil na Praia de Santa Cruz.

Para o corso consta estarem já inscritos bastantes carros alegóricos, cujos nomes oportunamente informaremos. Por este motivo se espera que esta festa, pela primeira vez realizada em Torres Vedras, venha a ter grande brilhantismo (…)

Fonte; Gazeta de Torres, 25.01.1931

(…)

A recepção e o cortejo de S. Magestade D. Carnaval VI

(…)

Meio dia. Largo da Estação e a Avenida 5 de Outubro formam um mar de cabeças. Esperam Ss. Magestades perto de 50 carros, entre automóveis e camionetes (…)

Largo da Graça. Recepção de S. Magestade a toda a Corte. Chegada de S. A. Real o Príncipe D. Pimpalhudo. Discurso-elogio do Duque de Al-Miar … E o cortejo põe-se outra vez em marcha para visitar as colectividades de recreio.

(…)3 horas – Abertura do Côrso e começo da Batalha de Flores. Todos os carros do cortejo. Muitos carros alegóricos, artísticos e lindíssimos (…)

S.Majestade com um cerimonial interessante corta a fita que veda a passagem do publico e inicia-se a Batalha de Flores. É agora a ocasião para enumerarmos e apreciarmos certos carros de reclame. Apontamos em primeiro lugar o monumental carro de Raul Rocha, de reclame à sua acreditada fotografia (…) o de João Rufino dos Santos, um grande e lindo sapato (…)

Sousa & Manarte, um enorme bacalhau (…) o de João Henriques dos Santos com seus 5 diabos malditos (…) o carro do vinho, com vindimadeiras e vindimadores (…) o carro das Ceifeiras (…) e muitos outros de real valor, dando ao côrso uma vida verdadeiramente agradável e interessante.

Brincou-se até às (…) 5 horas, num constante batalhar frenético e aguerrido. Presume-se receita regular em benefício da Colonia Balnear Infantil. Assistiram à Batalha mais de 3 mil pessoas.

(…)

Fonte: O Jornal de Torres Vedras, 22.02.1931 (existe original do jornal na Biblioteca Municipal)

d)A identidade do Carnaval de Torres

“O Carnaval de Torres acompanha o modelo de Nice mediado pelos de Lisboa e do Porto que a imprensa divulgava. É um Carnaval composto por “Corso” e “Batalha de Flores”, tendo o cocote uma feição local.

O “Rei Carnaval” é distinguido pela numeração ordinal, até 1961, como em Nice e em Lisboa. A partir de 1935 (é gralha; o ano correto é 1924), o Rei será acompanhado por uma “Rainha”, na composição de um travesti, tal como se tinha experimentado no Carnaval de estudantes de Lisboa. Mais tarde, aparecem as designações irónicas, cacafonias e de inspiração brejeira, iniciadas pelos estudantes de Lisboa e Porto.

Em Torres Vedras os reis iniciam o Carnaval, sendo recebidos, quase sempre, no “Largo da Estação”, que se equipara à Praça do Comércio, em Lisboa, e antes, à Praça Massena, em Nice. Mais tarde ser-lhes-á atribuída a “Chave da Cidade”, como se fazia em Nice e acabará queimado, como em Nice e outras personagens de muitas manifestações de Entrudo em Portugal.

A animação musical dos Corsos é feita em Torres Vedras, como em Lisboa, por bandas filarmónicas. Provavelmente, só a partir de 1960 aparecem “Zés Pereiras”, como em Lisboa e Porto, e “Gigantones” (porventura, também, cabeçudos), como em Nice e Lisboa. Nesta época instala-se um circuito sonoro ao longo do Corso que emite música de samba.

No “Corso” concorrem inicialmente viaturas particulares, “carros reclame” e carros alegóricos, tal como em Lisboa e no Porto (…)

Tudo concorre para ter existido, também em Torres Vedras, uma separação entre Entrudo “bárbaro” e Carnaval “civilizado”. As matrafonas, com raízes no Entrudo tradicional acabam por se impor (,,,)

O Enterro do Entrudo, com realizações anteriores, só é integrado no programa do Carnaval de Torres a partir de 1978 (…)

Uma originalidade tem o Carnaval de Torres: a ausência de separação entre atores e espetadores.

Apesar de todas as vicissitudes, em quase um século, o Carnaval de Torres deixou marcas no envolvimento cívico dos cidadãos na sua construção, na contribuição beneficente para instituições locais, no impacto económico ao longo dos tempos, na projeção da imagem do território e da sua notoriedade, e no clima social local de tolerância.”

Jorge Ralha, À espera do Carnaval de Torres (…) in Carnaval – História e Identidade, Turres Veteras XVIII, CMTV – Colibri – IAH, 2016, pp. 156 e 157

 por JORGE RALHA