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terça-feira, 26 de setembro de 2023

No Bicentenário do Nascimento de José Félix Henriques Nogueira

(Henriques Nogueira in Galeria Republicana-1882)

Passando este ano o bicentenário do nascimento de José Félix Henriques Nogueira, não podíamos deixar de invocar, nesta coluna, essa efeméride (1).

Nasceu na Bulegueira, aldeia da freguesia de Dois Portos, então pertencente ao julgado/concelho da Ribaldeira, em 15 de Janeiro de 1823.

Tendo ficado órfão de pai aos 7 anos,foi viver para Lisboa, na casa de um tio, onde começou a frequentar a escola secundária em 1835.

O seu primeiro acto político teve lugar aos 17 anos, em 1840, assinando um protesto contra a extinção do concelho da Ribaldeira (seria extinto em 1855).

Publicou o seu primeiro artigo em 1844 na revista Panorama, dirigida por Alexandre Herculano, uma evocação da Ericeira.

Nesse mesmo ano, na edição de 9 de Março dessa mesma revista, publica-se uma gravura da Ermida de Nª Srª do Socorro, da autoria de Henriques Nogueira, cumprindo a “promessa de outros desenhos seus, que estamparemos neste jornal”. Revela-se assim uma outra faceta de Henriques Nogueira, menos conhecida, a de desenhador.

O ano de 1851 foi crucial na sua biografia, editando nessa altura a sua primeira obra de fôlego, “Estudos Sobre a Reforma em Portugal”, obra em 2 volumes (o 2º Volume saiu em 1855),  iniciando uma actividade política mais consistente, editando uma “carta ao Centro Eleitoral Operário”, datada da Póvoa de Penafirme, onde incitou os operários a apresentarem uma candidatura própria às eleições para deputado, e candidatando-se, nesse mesmo ano, a deputado pelo Círculo de Alenquer, candidatura que repetiu no ano seguinte, desta vez pelo Círculo de Torres Vedras, mas sem êxito.

Em 1853, apenas com 30 anos, viajou para a Inglaterra, passando também pela Bélgica. Alemanha, França e Espanha. Em 1857 escreveu as suas recordações dessa viajem, embora referindo-se apenas à sua estadia no território britânico.

No jornal “O Progresso” começou a publicar, em 1855, um conjunto de crónicas intituladas “Estudos Políticos”, que vão dar origem à sua segunda obra de fôlego, “O Município do Século XIX”, obra editada em 1856.

No auge da sua actividade intelectual, morreu em Lisboa com uma doença do foro pulmonar, em 23 de Janeiro de 1858, apenas com 35 anos.

Henriques Nogueira está sepultado no cemitério dos Prazeres, em Lisboa, sepultura identificada com o seu busto, da autoria de Manuel Bordalo Pinheiro, pai de Bordalo e Columbano.

As suas obras foram pioneiras em muitas áreas do pensamento político e social, expressas em muitos artigos dispersos e, principalmente (2).

Nos “Estudos…”, no capítulo dedicado ao “Governo”, note-se a actualidade do que escreveu: “ Quando será que os destinos humanos se regularão pela força do direito, da justiça e da sabedoria, e não pelo abominável direito da força, do despotismo e da ignorância? Quando será que os graves negócios e pendências entre as nações se decidirão pelos princípios da equidade, sem o recurso bárbaro e estúpido da guerra?” (3).

Nessa obra defende muitas ideias que, se para altura eram inovadoras, hoje, sendo aceites, nem sempre são praticadas por esse mundo fora, como a defesa do voto livre e universal, do reforço do poder da Assembleia Legislativa, da valorização do trabalho e do direito ao trabalho através de um salário justo, reflectindo também sobre o trabalho feminino.

A defesa do mutualismo, da educação, da liberdade de imprensa, do reforço do poder municipal, são outros dos tópicos da sua reflexão. As preocupações com o papel da educação é, aliás, transversal a toda a sua obra (4).

Defensor do Iberismo, partindo do modelo federal da Suiça e dos Estados Unidos, revela-se um percursor, quase 10º anos antes, da idéia que esteve na base da construção da União Europeia e até da ONU, ideia que ele defende, com maior enfâse, em artigos publicados no Jornal “O Progresso”, em 1855, com os seguintes argumentos: “É tempo (…) que os povos se emancipem destes governos anacrónicos [baseados em fronteiras nacionais] que, pela compressão, pelo isolamento e pela miséria, obstam ao seu natural progresso. Um dos meios mais profícuos que com este santo fim têm sido lembrados é sem dúvida a formação de grandes nacionalidades que possam resistir com vantagem contra os estrangeiros que pretendam dominá-las. Estas nacionalidades serão depois outros tantos grupos de uma só família – o género humano. O que até hoje se decide pelo arbítrio de três ou quatro nações poderosas, será então resolvida num congresso geral, em que todos os povos terão representantes” (5). O que não é esta última frase, senão a defesa daquilo que se criou depois da 2ª Guerra, a ONU?

A outra sua obra fundamental, “O Município do Século XIX” é um esboço histórico pioneiro sobre a o municipalismo português, muito no seguimento dos estudos do seu amigo Alexandre Herculano.

Defendendo nessa obra a descentralização do poder, definiu nessa obra algumas das principais funções dessa instituição, que se devia basear em eleições democráticas, dando a cada freguesia o poder de eleger um vereador.

Entre essas funções, destaque  para a organização em cada município de um arquivo, de uma biblioteca, de um museu, de uma imprensa municipal, de uma escola municipal, de um teatro municipal, de um ginásio  e de associações municipais que representassem as várias áreas económicas ( agricultura, industria, comércio e as actividades artístico-literárias). Muitas dessas ideias só foram concretizadas no século XX, alguns mais de cem anos depois desse escrito.

Ficam aqui apenas alguns tópicos para quem queira continuara a explorar e conhecer a valiosa obra do autor torriense.

(1)    – Este texto baseou-se numa nossa comunicação apresentada em Janeiro deste ano, na Escola Secundária Henriques Nogueira. Sendo o nosso texto uma breve síntese, destacamos, entretanto, a publicação, nas páginas deste jornal, de três outros textos sobre Henriques Nogueira, abordando outras perspectivas, e com outra profundidade, da obra desse pensador: MATOS, Álvaro Costa de, “Henriques Nogueira: jornalista e publicista”, in Badaladas de 26 de Maio de 2023; CATARINO, Manuela, “Henriques Nogueira: defensor do Iberismo”, in Badaladas de 2 de Junho de 2023; DUARTE, Joaquim Moedas, “Henriques Nogueira : precursor do socialismo e do republicanismo”, in Badaladas de 16 de Junho de 2023 ;

(2)    – Toda a obra de Henriques Nogueira está reunida nas “Obras Completas” em 3 volumes, editadas em 1970, 1979 e 1980, pela INCM, sob orientação de António Carlos Leal da Silva, autor de um anexo com a cronologia da biografia do autor, editado em 1982. Entre muitos outros estudos sobre Henriques Nogueira, detacamos também a obra de Vitor Neto, As Ideias Políticas e Socias  de José Félix Henriques Nogueira, nº 6 da colecção H, editado pela Colibri e pela CMTV em 2005;

(3)    –“Estudos..” in Leal da Silva, Tomo I das “Obras Completas”, pág.29;

(4)    – Veja-se o nosso estudo sobre o papel da Educação na obra de Henriques Nogueira publicado na obra colectiva José Félix Henriques Nogueira, editada conjuntamente pela Escola Secundária Henriques Nogueira e pela Câmara Municipal de T. Vedras em 2008;

(5)    – in Leal da Silva, Tomo III das “Obras Completas”, pág.  83;

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

1846 – Os horrores da Guerra em Torres Vedras


Ao longo da sua História, a população de Torres Vedras assistiu e foi vítima de muitos conflitos militares, até porque deve muito da sua existência à importância estratégica da região em relação à defesa de Lisboa.

Felizmente, há quase 180 anos que a região não é palco de combates militares de grandes dimensão, e só indirectamente as suas populações sofreram as agruras da guerra, tendo muitos torrienses participado na 1ª Guerra e na Guerra Colonial, conflitos que, pelo menos, pouparam os habitantes de Torres Vedras de serem vítimas directas de crimes de guerra e da destruição dos seus bens em conflitos militares.

A última vez em que a região foi palco de uma batalha de grandes dimensões e que provocaram a destruição, o medo e a aflição dos seus habitantes aconteceu nos dias 22 e 23 de Dezembro de 1846, na célebre Batalha de Torres Vedras, episódio da “Patuleia” ao qual já nos referimos em crónicas e estudos anteriores.

O que pretendemos aqui abordar é o efeito que esse conflito teve junto das populações locais da época, principalmente com uma referência aos eventuais crimes de guerra contra civis torrienses, alguns deles ainda com a memória dos conturbados tempos das Invasões Francesas (1808-1810)  e da guerra civil entre liberais e absolutistas (1832-1834).

A presença de tropas neste concelho durante vários dias, bem como a sua movimentação, já seria, só por si, motivo de preocupação e incómodo para os habitantes, tendo em conta a necessidade de acomodar e alimentar os militares.

Ainda por cima a principal Batalha, ao contrário do que aconteceu durante as Invasões Francesas, teve lugar dentro da própria vila, com o confronto de artilharia entre o Forte, dominado por Saldanha, e o Castelo, dominado por Bonfim.

Os tiros entre os dois exércitos e o bombardeamento do Castelo terá atingido muito provavelmente alvos civis, embora não existam muitas notícias sobre esta situação.

Sabe-se também que a entrada das tropas fiéis à rainha na vila foi acompanhada de intensos combates pelas ruas de Torres Vedras, ao longo do final da tarde desse dia 22 de Dezembro, onde algumas casas de civis foram usadas como pontos de defesa e ataque (1).

José Eduardo César, na sua conhecida memória manuscrita sobre a batalha, refere a noite de 22 de Dezembro, a que se seguiu à Batalha ganha pelo exército de Saldanha, como uma “noite de horrorosa recordação para os moradores da vila”, onde “todas as portas eram arrombadas indistintamente” e “todas as casas roubadas”.

O jornal O Espectro, órgão de propaganda Patuleia, vai ainda mais longe, referindo os “horrores” vividos pelos habitantes de Torres Vedras, e o “saque” das “forças da rainha”, que “não respeitaram mulher nem donzela” (2), ideia reforçada pelo mesmo jornal na sua edição de 30 de Dezembro, insistindo no “saque de Torres Vedras” e sublinhando “a violação de mulheres e donzelas” apelando a que se vingasse “a honra de nossos irmãs, de nossas mulheres, de nossas filhas”.

Numa memória posterior, mas publicada ainda em vida de muitos torrienses que tinham vivido aquele momento (3) , não se faz referência a tais “violações”, alegação que parece falsa e de mera propaganda, que designaríamos hoje por “fake news”, mas descreve, de forma mais realista, a forma como a população civil foi incomodada pela batalha e pela entrada das tropas de Saldanha:

“Se o dia (…) tinha sido de horror para os habitantes de Torres Vedras, pelo estampido da arti- Iheria e fuzilaria, que dizimava tantas vidas, e pelos projecteis e balas, que tinham cahido em cima de seus telhados, e até mesmo dentro em suas casas; a noite, que estava bastante escura, não foi menos horrorosa (…)  pela bulha e estrondo das coronhadas com que a deshoras o exercito vencedor batia, e pretendia arrombar as portas, como de facto muitas arrombou; pelo espirito de. saque, e vertigem de que vinha possuido e cheio, julgando conquista sua esta villa, como se os seus habitantes tivessem culpa em vir o exercito vencido tomar aqui posições, ou concorresse na sua generalidade para as desgraças, que acabavam de sofrer. Com effeito o saque não foi ordenado, mas parecia tolerado; muitas casas foram limpas de tudo, e não se fazia duvida em lançar mão das cousas, à vista mesmo de seus donos, que se davam pressa em socorrer os seus hospedes com a comida que tinham; de maneira que por alguns dias se não abriu loja alguma, que vendesse comestíveis, chegando a haver falta para o exercito e para os habitantes, até que o duque de Saldanha as mandou abrir com sentinellas às portas, para que seus donos podessem vender sem ser roubados, e desde então appareceu a abundancia. Não foram só estas as desgraças que teve a sentir esta villa, pois teve também a de sentir a morte de quatro dos seus habitantes inermes e pacíficos, um dos quaes, que era um taverneiro, se achou morto na rua, segundo parece, de baionetadas, e os outros tres foram atravessados com balas à entrada d’essa pouca força, que penetrou na villa quasi à noite. E soffreu tambem o peso do aboletamento de toda a divisão do exercito da rainha, por muitos dias, até que o general fez sahir da villa vários corpos para os logares visinhos, a fim de allivial-a”.

O mesmo articulista fazia justiça ao Duque de Saldanha, considerando que, se não fosse o seu espírito de “moderação e cavalheirismo”, sempre “prompto em dar guardas e attender a quem receiava violências, ou se queixava das que lhe faziam”, “muito pior teria sido a sorte dos habitantes d’esta terra”.

Ficamos assim a saber que não se terão registado violações de “donzelas” e que morreram 4 civis, três, ao que parece, vítimas de balas perdidas durante os confrontos nas ruas da vila por ocasião da entrada nela das tropas de Saldanha, e apenas um eventualmente morto na sequência de um assalto a um estabelecimento por soldados.

Nada que se compare aos horrores e aos verdadeiros crimes de guerra que, nos nossos dias, vemos serem cometidos por esse mundo fora.

Esperamos que aquela tenha sido a última vez que esta vila e os seus habitantes conheceram os horrores da guerra.

(1)    – “A Noite Horrível e o Dia de Gloria”, in Diário do Governo nº 302 de 22 de Dezembro de 1847;

(2)    - O Espectro de 28 de Dezembro de 1846;

(3)    – “Antiguidades de Torres Vedras”, in A Semana de 21 de Abril de 1887.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Primórdios dos movimentos sociais, de base “operária”, em Torres Vedras


Neste breve ensaio pretende-se fazer um breve balanço de alguns movimentos sociais, de cariz “operário” e sindical, registados em Torres Vedras no século XIX e nas primeiras décadas do século XX.

Claro que, para falar em “movimento operário”, é preciso que existam “operários”, isto é, assalariados ligados à actividade industrial.

Acontece que, no concelho, de acordo com vários dados conhecidos (inquéritos indústrias, recenseamentos de população com dados sociais, quer oficias, quer registados em monografias várias, como na parte económica da “Madeira Torres”), a percentagem de população registada como profissional do sector secundário, entre 1817 e 1930, ronda os 10%, ou menos, do total de activos (8,2% em 1817, 9,3% em 1862, 11,9% em 1890, 11% em 1911 e 8,2% em 1930).

Não se conhecendo dados entre 1930 e 1960, só neste último recenseamento a percentagem era ligeiramente superior, 16%, ultrapassando finalmente os 20% em 1970 (23%) e chegando ao seu máximo do século XX em 1981 ( 36,5%), entrando depois em declínio.

Registe-se, contudo, que, pelo menos até 1930, a esmagadora maioria dos profissionais registados no sector secundário deste concelho eram meros artesãos, trabalhando em “micro-empresas” de base familiar, longe das características sociais do “operariado” contemporâneo, base do desenvolvimento dos movimentos sociais de tipo “socialista” e sindical que aqui pretendemos registar.

O Inquérito Industrial de 1881 regista apenas 4 empresas desse ramo no concelho, empregando um total de 16 assalariados (uma média de 4 por empresa). No inquérito camarário de 1913 registam-se 11 estabelecimentos indústrias, empregando 96 “operários”, sendo de registar que a única empresa ligada à indústria metalúrgica empreguava 12 pessoas e uma outra, classificada com da indústria de alimentos”, empregava um total de 14 trabalhadores. Estes números são pouco diferentes dos registados para o concelho no inquérito nacional de 1917, 15 estabelecimentos empregando um total de 99 assalariados, destacando-se, neste caso, a “indústria metalúrgica”, onde 2 empresas empregavam 25 trabalhadores. No inquérito industrial de 1930 esses números já são mais significativos, 68 empresas empregando 230 trabalhadores, 46 empregados nas 7 empresas ligadas à metalurgia e 97 às 41 empresas de fabrico alimentar, apesar de tudo uma média por empresa abaixo dos 10 trabalhadores.

Não serão assim de estranhar os raros registos de lutas sociais, de cariz sindical e operário, ocorridos durante o período abordado, entre a implantação do liberalismo e o início do Estado Novo.

Quase todas as revoltas e movimentações sociais registadas na primeira metade do século XIX, neste concelho, são de base camponesa, lideradas pelas elites locais de pequenos proprietários rurais, pela Igreja ou pela pequena burguesia urbana, revoltas dessas muitas vezes de cariz político (miguelismo, setembrismo, “patuleia”, …), ou contra os impostos (como a “janeirinha” de 1868).

Só nos finais do século XIX se registam as primeiras revoltas com reivindicações salariais e por melhoria de condições de trabalho, despoletadas pelos trabalhadores do caminho-de-ferro, como aconteceu no dia 5 de Maio de 1885 quando “à noite, marchando até à Quinta das Fontainhas”, os operários exigiram o pagamento dos salários em atraso, partindo os vidros dessa quinta onde vivia o engenheiro responsável pelas obras, Abel Marty. O jornal que descreveu essa revolta considerava que “os operários têm tido bastante razão de queixa à pontualidade do pagamento” (1).

Os conflitos sociais provocados por essa situação acabaram, aliás, de forma trágica, pouco menos de um ano depois, com o assassinato daquele engenheiro em 26 de Abril de 1886, na sequência de uma violenta discussão com um alguns operários que lhe exigiam o pagamento do salário em atraso, tema já por nós abordado em crónica anterior.

Data, aliás, desse mesmo ano de 1885 a fundação de uma colectividade de cariz operária, a “Associação de Socorros Mútuos 24 de Julho de 1884”,  fundada em 27 de Dezembro de 1885, tema também por nós tratado noutro estudo.

Não é de estranhar que surja por essa altura, num artigo do jornal “A Voz de Torres Vedras” de 6 de Julho de 1889, intitulado “As Classes”, a primeira referência local à obra e pensamento de Karl Marx, a propósito do qual o articulista se interrogava : “Quem não sente o arruído das classes escravizadas pelo salário, classes que em altos brados reclamam por toda a parte o seu quinhão no banquete social, apresentando-se para tomarem nas suas mãos o destino d’este mundo (…)?”.

Nos finais do século XIX, início do século XX o descontentamento popular e as reivindicações sociais vão ser absorvidos pelo crescente movimento republicano.

Neste concelho, o movimento operário só volta a ter alguma iniciativa autónoma nos anos da Primeira Guerra, devido às dificuldades económicas que atingem principalmente os assalariados, a chamada “questão das subsistência” ( tema que abordámos noutro estudo).

A primeira greve local registada aconteceu nesse ano de  1917, no dia 27 de Fevereiro, uma greve dos operários tanoeiros da viúva de António da Silva.

Ao crescente despertar do incipiente movimento operário local não terá sido estranho à criação do “Núcleo de Propaganda Socialista de Torres Vedras”, criado em Abril de 1917, inaugurando a sede, na Rua Mouzinho de Albuquerque nº 32, em Setembro desse mesmo ano, com a execução do “hino operário A Internacional” (2).

Na sequência dessa iniciativa, o núcleo local do Partido Socialista, liderado localmente pelo marceneiro António Vicente Santos Júnior, concorreu, pela primeira vez,  às eleições autárquicas em Maio de 1919, obtendo 45 votos.

Por outro lado, está por conhecer a influência local e  a sua implantação, nos anos da República, do movimento sindical anarcossindicalista, enquanto a influência local do PCP, fundado em 1921, só comece a ter algum impacto junto dos trabalhadores deste concelho a partir dos finais da década de 1930, situação também já abordado anteriormente.

Sabe-se, contudo, que, quando da publicação da legislação corporativa de 1933, que acabou com a independência do movimento sindical, existiam em Torres Vedras representações da Associação de classe dos caixeiros, do Sindicato único dos operários da Industria e construção civil e do Sindicato único dos metalúrgicos (3).

Ficam assim registadas algumas pistas para quem queira investigar as origens do movimento social de cariz operário e sindical neste concelho.

(1)    – in “Jornal de Torres Vedras” de 7 de Maio de 1885;

(2)    - leiam-se as edições de 5 de Abril e 19 de Julho de 1917 de “A Vinha de Torres Vedras”;

(3)    – leia-se RAMOS, Hélder Ribeiro, A Consolidação do Estado Novo em Torres Vedras – Poder e oposição – 1926/1949, T. Vedras, ed. Colibri/CMTV, 2019.

 

 

 

terça-feira, 3 de maio de 2022

1846 - As “milícias” da “Patuleia” na Região de Torres Vedras

(lugares, na região de Torres Vedras, onde se registaram movimentações de guerrilhas da Patuleia)

Na sequência do movimento da “Maria da Fonte”, a conhecida revolta popular iniciada no Minho em 15 de Abril de 1846, provocada pelo aumento de impostos e pela lei dos enterramentos, um pouco por todo o país formaram-se juntas populares de apoio à revolta.

Convém recordar, para facilitar, que entre os liberais, vencedores da guerra civil contra o absolutismo “miguelista”, se formaram duas tendências, uma a dos defensores do regresso à Contituição de 1822, que limitava os poderes do rei, outra a dos defensores da Carta Constitucional de 1826, que dava ao rei um “quarto poder”, o “moderador”, sendo esta “Carta” que vigorou desde 1834 e, com algumas interrupções e alterações, até 1910.

Em Setembro de 1836 deu-se uma revolta dos liberais anti-“cartistas”, que passaram a ser designados por “setembristas”, e, em 1842, numa novo “golpe palaciano”, os defensores da “Carta” voltaram ao poder, liderados por Costa Cabral, passando a ser conhecidos também por “cabralistas”.

Desde então, a até à “regeneração” de 1851, confrontaram-se essas duas tendências do “liberais”, os “setembristas”, também “patuleias” a partir de 1846, e os “cartistas” ou “cabralistas”, respectivamente, e para simplificar, a “esquerda” e a “direita” dos “liberais”.

Para responder aos “anseios populares” desencadeados pela “Maria da Fonte”, em 20 de Maio de 1846  a rainha D. Maria II exonerou o governo “cabralista” e nomeou o “setembrista” Duque de Palmela (1).

Torres Vedras não foi excepção no levantamento anti cabralista e no dia 25 de Maio realizou-se uma sessão camarária extraordinária para a subscrição de um “Auto de Proclamação” de adesão “aos princípios do Grito Popular, principiado na Provincia do Minho contra o sistema governativo no Ministério Cabral”, jurando os 198 cidadãos torrienses subscritores dessa proclamação “não mais obedecer” às ordens desse governo.

Nessa mesma sessão foi nomeada uma “junta” provisória presidida por um jovem advogdo da vila, apenas com 27 anos, sem passado político conhecido, o Dr. Francisco Maria de Carvalho, junta essa formada por 7 elementos, entre eles o futuro Visconde de Balsemão.

Essa junta não tinha por objectivo substituir a Câmara em funções, presidida desde a sua eleição, em Janeiro de 1845, por Francisco Tavares de Medeiros, um “liberal” da velha guarda, mas apenas supervisionar a actividade dessa Câmara.

Pelo contrário, uma  das decisões mais importantes dessa sessão foi nomear um novo administrador do concelho, cargo de nomeação governamental, representante local do Governo Civil de Lisboa.

A escolha recaiu no “cirurgião” Maurício José da Silva, homem com simpatias “setembristas” e que vai ter um papel de destaque, como veremos mais à frente, na organização de milícias na “Patuleia” (2).

(Maurício José da Silva)

Chegado ao poder, logo Palmela procurou dissolver as “juntas revolucionárias” e em Junho, segundo Oliveira Martins, já todas tinham sido dissolvidas, datando de 6 de Junho a última referência à “Junta” torriense.

Apesar da dissolução das Juntas, em Torres Vedras manteve-se em funções o acima mencionado administrador “Patuleia” que, presente em sessão camarária em 28 de Julho, mandou dissolver o executivo torriense, nomeando uma vereação provisória, para ficar em funções até ser eleita uma nova Câmara nas eleições municipais previstas para 27 de Setembro.

Para presidir a essa comissão foi escolhido o ex-presidente da “Junta revolucionária” torriense, o jovem Francisco Maria de Carvalho.

Entre os membros dessa comissão administrativa apenas um deles tinha passado político conhecido, como vereador substituto numa Câmara “setembrista”, todos bastante jovens, tendo em conta a habitual média de idades dos anteriores ocupantes desse cargo municipal.

Quando se deu a Batalha de Torres Vedras, em 22 de Dezembro, era essa a comissão administrativa que se mantinha em funções, já que a Câmara eleita em 27 de Setembro, liderada por José Eduardo César e maioritariamente composta por antigos “miguelistas”. nunca assumiu funções, isto porque o panorama político voltou a mudar.

Na noite de 6 de Outubro, a cinco dias da data prevista para a eleição dos deputados, com poderes constitucionais, a rainha demitiu o Duque de Palmela e nomeou, para chefiar o governo, o Duque de Saldanha, apoiado por “cartistas moderados”, acto considerado pelos “setembristas” um golpe de estado dos “cabralistas”, conhecido pela “emboscada”.

Em 9 de Outubro, a renascida “Junta do Porto”, presidida pelo Conde das Antas, proclamou-se como “Junta Provisória do Governo Superior do Reino” e declarou guerra ao governo de Lisboa, dando início à “Patuleia”, que se transformou numa guerra civil entre “cartistas” e ”cabralistas” de um lado, e “miguelistas” e “setembristas” do outro, apesar das divisões iniciais entre estes duas tendências.

Um pouco por todo o país, mas maioritariamente a norte, surgiram pronunciamentos a favor da Junta do Porto.


Também a região a norte de Lisboa assistiu ao levantamento de várias “guerrilhas” populares em defesa da “Patuleia”, registando-se uma situação de duplicação de poderes.

Por um lado, o governo de Lisboa nomeou como governador civil do Distrito de Lisboa o Marquês de Fronteira que nomeou como administrador do concelho de Torres Vedras Ignácio Campelo, um antigo liberal ant-miguelistas, substituído em 13 de Dezembro por um natural de Vila Franca de Xira, José Hippolyto d’Almeida, que só entraria em Torres Vedras depois da derrota dos “Patuleias” na Batalha de 22 de Dezembro, substuido localmente, até essa data e interinamente, por João Ferreira Rijo.

Por outro lado, a Junta do Porto nomeou para o cargo de Governador Civil de Lisboa Anselmo José Braamcamp que, segundo Oliveira Martins, na companhia do Conde de Vila Real, andou pelo distrito, de terra em terra “aliciando sectários, fomentando a revolta”, mantendo Maurício José da Silva com “administrador Patuleia” de Torres Vedras, liderando uma guerrilha local bastante activa na região, entre Outubro e Novembro,  recrutando partidários para a causa da “Junta do Porto” (3).

A acção dessas guerrilhas “Patuleias” na região, está bem documentada na correspondência envida pelo Marquês da Fronteira para o Duque de Saldanha, existente no Arquivo Histórico Militar (4).

Ficamos assim a saber algumas das movimentações das guerrilhas “setembristas” em Torres Vedras e nos concelhos próximos.

A primeira notícia refere uma fracassada tentativa de assalto ao deposito de armas do Quartel de Mafra em 14 de Outubro, data em que se registou também a passagem de “alguns indivíduos com direcção para o Norte”. Por essa altura, em documento de 19 de Outubro, a mesma fonte denuncia o clima “insurrecional” nos concelhos de Sintra, Torres Vedras e “noutros limítrofes”, ligado a “hum foco de insurreição proveniente de Caldas da Rainha”, registando o “aparecimento” do Visconde de Sá da Bandeira em Torres Vedras, responsabilizado pela “grande agitação” que grassava na região.

Por essa altura, a “sublevação” armada das forças “patuleias” estava generalizada entre os “povos” de Torres Vedras e da Lourinhã, estendendo-se aos concelhos próximos, chegando ao “arrojo de atacar o destacamento” governamental “de infantaria nº8” que, da Lourinhã “se recolhia para a capital”, pretendendo os sublevados juntarem-se aos de Caldas e Óbidos, estes últimos liderados pelo capitão José Estevão.

Com a data de 23 de Outubro, Saldanha recebeu um relatório do Governo Civil de Lisboa informando que, em Torres Vedras, “os agitadores” patuleias eram “comandados por um Mayor, Escrivão do Juizo de Direito” e estavam “combinados com os das Caldas para darem um assalto à Praça de Peniche, com o fim de se apoderarem de algumas armas e petrechos de guerra e a fazer ahi fortes”, constando igualmente que se propunham “exigir um empréstimo forçado aos Negociantes e Proprietários do concelho de Torres Vedras”, situação que teria provocado a fuga de muitos desses negociantes e proprietários”, deixando “desamparadas” as suas residências.

Continuando a registar a situação em Torres Vedras, o relatório refere que “os Povos olhão com indiferença para os movimentos que fazem os revoltosos, e que a maior parte dos a eles reunidos são atraídos com a promessa de 120 réis diários, em uma época em que os trabalhadores não teem serviço rural onde se empregarem”.

Um outro relatório de 2 de Novembro refere a saída de Leiria de um grupo de 400 guerrilheiros armados, liderados por César Vasconcelos,  em direcção a Torres Vedras, com passagem por  Montejunto, detectando-se ordens enviadas às “forças populares” de Caldas, Pederneira (Nazaré), Alcobaça, Óbidos e Ourém para se juntarem em Torres Vedras àquela força.

Nos primeiros dias de Novembro continuaram a ser detectadas, pelos informadores do Governo Civil de Lisboa, vários movimentos de “forças populares”, entre os quais a entrada de um grupo de “patuleias” no Cadaval e Alenquer a “aprontar rações” e fazer “várias extracções, principalmente de cavalgaduras”.

Em 1 de Novembro, “pelas 6 horas da manhã”, tinha-se apresentado na Ericeira “Huma força de mais de trezentos guerrilheiros armados”, vindos de Sintra, exigindo dinheiro ao presidente da Câmara, retirando-se “pelas 11 horas”.

No dia 17 de Novembro apresentou-se ao administrador do concelho do Cadaval o governador civil patuleia, Anselmo José Braamcamp , exigindo que se preparassem “trezentas rações para os guerrilheiros de Cintra e Torres Vedras”, que chegariam no dia seguinte, ao mesmo tempo que “apreendeu” dinheiro, “tirou” cavalos e armas e nomeou um novo administrador para esse concelho.

De facto, aquelas “forças populares” chegaram à vila do Cadaval no dia 18, retiram-se no dia 20, dirigindo-se para Torres Vedras, de onde acabaram por “fugir”, no dia 25 de Novembro, a mesma data em que os guerrilheiros que ocupavam Caldas da Rainha deixam esta localidade.

Talvez influenciada pela presença daquela força em Torres Vedras, no dia 24, noticia-se a formação de  “uma guerrilha no lugar do Sobreiro [de Mafra]” que tinha “como objectivo entrar em Mafra”, e a presença de “150 guerrilheiros na Encarnação”.

Saídos de Torres Vedras os “poucos guerrilheiros do Batalhão popular de Torres Vedras, de que se diz comandante o Administrador do Conselho [Maurício José da Silva]”, são localizados em Patais, na região de Caldas da Rainha, no dia 27, depois de terem ido “quebrar as pontes do rio de S. Martinho”, vindos da Nazaré, para onde regressaram.

Em 28 de Novembro o governador civil de Lisboa anuncia a Saldanha que “já não há guerrilheiros entre Lisboa e Leiria”.

Ao que se supõe, essas guerrilhas patuleias foram juntar-se às forças de Bonfim e do Conde da Antas que, em Santarém, preparavam o seu avanço sobre Lisboa e que voltaram a Torres Vedras, onde chegaram em 19 de Dezembro, integrados na força militar “Patuleia” comandada por Bonfim, que nesta localidade combateram na Batalha de Torres Vedras em 22 de Dezembro desse ano de 1846.

Sabe-se que os  “batalhões populares de Alcobaça e Torres Vedras”, guerrilheiros, comandados pelo Conde de Vila Real, D. Fernando, em número de “mil”, se posicionaram, maioritariamente, no Forte de S. Vicente.

Derrotadas em Torres Vedras, as forças “patuleias” que não foram mortas ou presas, fugiram e juntaram-se às forças do Conde das Antas, que estavam estacionadas em Vila Franca de Xira, acompanhando-as em direcção ao Porto, de onde continuaram a resistir até meados do ano seguinte, ficando esta região, definitivamente livre da influência dessas guerrilhas populares (5).

Há, contudo, uma enigmática referência,  no jornal “O Espectro”, partidário dos “patuleias”, na sua edição de 11 de Janeiro de 1847, ao aparecimento, após aquela batalha,  de “uma guerrilha junto a Torres Vedras”, apontada como “espectro das victimas [da Batalha de Torres Vedras] que se levantam a pedir vingança”.

A “Patuleia” terminou com a assinatura da Convenção do Gramido em 29 de Junho de 1847.

Desconhece-se quase tudo sobre o destino dos “guerrilheiros” torrienses da “patuleia” a não ser o do seu líder, o administrador Maurício José da Silva que, após a “regeneração” de 1851, voltou a ocupar o lugar de administrador do concelho, ficando desta feita “famoso” por ter derrubado o pelourinho de Torres Vedras, em Maio de 1852, para “facilitar a passagem” da comitiva da monarca que ele tinha combatido, a rainha D. Maria II, em visita a este concelho em 13 de Maio de 1852 (6).

(1)    Para um conhecimento da história deste período recomendamos a leitura da obra de Maria de Fátima Bonifácio “História da Guerra Civil da Patuleia, 1846-1847”, ed. Estampa, 1993, e de Oliveira Martins,  no 2º Volume do seu “Portugal Contemporâneo”, do qual existem várias edições;

(2)    Para saber mais sobre a conjuntura local, leia-se o ensaio de José Travanca Rodrigues, “A Restauração do cartismo. Os dramas da Maria da Fonte e da Patuleia”, publicado  o 1º volume de “Torres Vedras – Passado e Presente”;

(3)    Para saber mais sobre este período consulte-se o meu ensaio “Torres Vedras – da “Maria da Fonte” à Patuleia (1846) – a sociedade, a política e a Batalha de Torres Vedras”, in Turres Veteras V – História Militar e da Guerra;

(4)    “Correspondência do marquês da Fronteira, governador civil de Lisboa, para o marques de Saldanha (…) sobre as acções da guerrilha em diversas localidades, nomeadamente (…) Torres Vedras (…)”, 1 d e Agosto a 30 de Novembro de 1846, Arquivo Histórico Militar de Lisboa, disponível na internet;

(5)    Sobre a “Batalha de Torres Vedras de 22 de Dezembro de 1846” leia-se o meu ensaio com esse título publicado na “Revista Militar” nº 2 459 de Dezembro de 2006, também disponível na internet, onde também se indicam algumas das fontes primárias sobre o tema;

(6)    Sobre o administrador “patuleia” Maurício José da Silva existem dois bons ensaios, um da autoria de Rafael Salinas Calado, “o administrador patuleia Maurício José da Silva e o pelourinho quinhentista”, publicado na revista “Estremadura”, 2ª série, nº13, de 1946, outro, mais actualizado, da autoria de Andrade Santos, intitulado “O Pelourinho de Torres Vedras e as Lutas Liberais (1820-1852)”, publicado no jornal “Badaladas” de 27 de Novembro de 1992.

 

terça-feira, 19 de abril de 2022

Petróleo em Torres Vedras


Data de 1862 a primeira referência à existência de “óleo-petróleo” no território torriense, “junto aos banhos dos Cucos  e dos Coxos e no sítio dos Amiais” que “merecia ser explorado”. (1).

É preciso esperar pelo final do século XIX para surgirem os primeiros registos da descoberta de locais no concelho, com potencial na exploração de petróleo.

Foi em 1878 que um tal João José de Corpas registou a descoberta de uma mina de “calcário betuminoso” na Serra do Cabaço, na então freguesia de Matacães, cuja exploração foi concedida, por alvará do Diário do Governo de 23 de Novembro de 1880 à sociedade António Pinto & Companhia, constituída pelo descobridos e por João António Pinto, Joaquim Wagner Russel e Joaquim Maria de Oliveira Vale. Da exploração dessa “mina” pouco mais se sabe, a não ser que naquela serra, como ainda é visível actualmente, “se explorou durante alguns anos em pedreira a céu aberto” calcário e de onde se extraiu “matéria betuminosa que era depois utilizada e aplicada como asfalto”.

A mina da Serra do Cabaço foi declarada abandonada em Diário do Governo de 23 de Maio de 1898 e “em campo livre dois anos mais tarde” em Diário do Governo de 10 de Abril de 1900.

No relatório de reconhecimento dessa mina, feito no ano da sua descoberta, em 30 de Dezembro de 1878, da autoria do engenheiro Francisco Ferreira Roquette, chamava-se também a atenção para a “presença de numerosas e extensas galerias antigas praticadas nas rochas impregnadas de betume no sítio denominado da Cova da Moura” (2).

Por ocasião da abertura do túnel do Cabeço do Cabrito, em 1885, durante a construção do caminho-de-ferro, tanto nesse túnel com nas escavações efectuadas  junto do mesmo foram encontradas “fendas e geodes cheios de hidrocarboneto líquido, de que os operários se utilizavam como petróleo” (3).

Uma nova mina de “calcário Betuminoso” em Torres Vedras foi registada em 1900 com a designação de “Vale Escuro”, abrangendo uma área que “se sobrepunha, em grande parte, à da Serra do Cabaço” e integrada na freguesia de Santa Maria do Castelo.

Foi declarado “descobridor legal” um tal Rafael da Cruz Lezameta, tendo concedido os direitos de exploração dessa mina a uma companhia inglesa a “The Portuguese Petroleum Syndicate, Ltd.”,por alvará publicado em Diário do Governo de 28 de Abril de 1906.

A relação com aquela companhia inglesa teve origem no facto do tal Lezameta, que estava em tratamento nas Termas dos Cucos, ter conhecido um inglês, Coll Taylor que, conhecendo aquela descoberta “emitiu opinião de se tratar dum indício de petróleo em profundidade, pelo que fizeram em comum um manifesto de descoberta de petróleo” (4).

Segundo o autor que temos estado a citar, Fernando Macieira, “Lezameta e Coll Taylor se podem considerar os pioneiros do petróleo em Torres Vedras, e que o ano de 1901 em que, segundo Paul Choffat, se desenrolaram estes acontecimentos, é um marco na história do petróleo em Portugal” (5).

Em 1902 Lazameta pediu a Paul Choffat um relatório “sobre as condições geológicas de Torres Vedras, a fim de ser submetido a especialistas de pesquisa de petróleo” (6).

A notícia espalhou-se e “Torres Vedras atraiu a atenção dos pesquisadores. Local onde aparecesse presumível indício de petróleo logo era registado, e assim o País foi coberto de registos mineiros”, principalmente nos distritos de Lisboa e Leiria, estando registados em 1907, nestes distritos, 215 registos mineiros (7).

Contudo, não há notícias de se terem efectuado trabalhos e exploração no “Vale Escuro”, apenas a realização de duas sondagens, em 1905, as duas primeiras de pesquisa de petróleo na região, dirigidas pela concessionária inglesa, uma a nordeste do casal do Repelão, outra, depois de abandonarem aquela,  a sul da Quinta das Conquinhas.

A sondagem a nordeste do Repelão, dirigida pelo inglês William Calder,  foi “a primeira sondagem profunda para pesquisa de petróleo em Portugal”, tendo parado “ a uma profundidade vizinha dos 200 metros”, devido a uma avaria no “trépano”, mas tendo encontrado vestígios petróleo e de gás.

Abandonada aquela, iniciou-se nova sondagem, desta vez a sul da Quinta das Conquinhas e do actual Asilo de S. José, chegando à profundidade de 480 metros, sendo interrompida por novo acidente, “encravamento do trépano, hastes e tubagem”. Perante este fracasso, a companhia inglesa passou os seus direitos para a Sociedade Portuguesa de Terrenos Petrolíferos, a qual, “após ter resolvido o acidente, prosseguiu a perfuração até aos 518 metros, profundidade a que a sondagem parou definitivamente, em Dezembro de 1912, devido a novo acidente” (8).

Entretanto. aquela Sociedade, por fusão com outra, deu origem à Companhia Petrolífera Portuguesa, formada em 1908, que foi a responsável, a partir dessa data, pelas referidas prospecções e por novas perfurações, uma, realizada entre 1908 e 1910 até uma profundidade de 721 metros, perto da Quinta das Fontainhas e dos Cucos, e outra no Vale do Cabrito, junto à Quinta da Certã, realizada entre 1911 e 1912, até uma profundidade de 363 metros, interrompida devido a um acidente e por falta de capitais.

“Os resultados obtidos com estas sondagens não foram além da obtenção de indícios da existência de petróleo em profundidade, testemunhado pelo aparecimento de betuminosos na água de injecção da sondagem, acompanhados, por vezes, de emanações de gás” (9).

Foi necessário esperar pelo final da década de 1930 para se voltarem a realizar sondagens no concelho de Torres Vedras.

Por portaria de 7 de Abril de 1937 foi aberto concurso “para prospecção, pesquisa e concessão de hidrocarbonetos e substâncias betuminosas na área cativa” onde se incluíam as área de Torres Vedras, concurso esse ganho pelas companhias “Henry Joshua Pierce e Claude Hope Morley” e  “Anglo-Ecuadorian Oilfields, Lda.”, incumbindo os concessionários, à firma inglesa “A. Beeby Thompson & Partners” a realização de estudos geológicos no país, cujo resultado foi publicado em 1938, colocando em relevo, entre outras áreas do país a serem pesquisadas, “por entenderem que oferecem condições mais favoráveis à existência de petróleo”, o “Vale de Abadia”, em Torres Vedras (10).

Neste “Vale de Abadia”, a sul do actual Hospital de Torres, a oeste da estrada para Lisboa, na encosta do actual Bairro Vila Morena, realizaram-se duas sondagens.

A primeira sondagem teve início em 18 de Dezembro de 1939, parando a pouco mais de mil e cem metros, em 14 de Setembro, devido à “fraca potência da sonda”, mas, apesar “de não ter sido atingida a profundidade projectada, os resultados obtidos (…) foram bastante interessantes”, tendo encontrado “indicações de petróleo desde cerca de 96 metros” e de forma mais acentuada na profundidade entre os 581 e 630 metros.

Tendo interrompido aquela sondagem, e enquanto aguardava por material mais resistente para a prosseguir, foi efectuada uma segunda sondagem, a uns 400 metros a nordeste da primeira, que se iniciou em 23 de Janeiro de 1941, mas que teve de ser interrompida em 15 de Fevereiro dessa ano, quando já estava à profundidade de 160 metros, devido aos efeitos do ciclone que teve lugar nesta data, tempestade que danificou as torres de ambas as sondagens, bem como “a máquina de sonda  e outro material” (11).

Devido a esse facto e a outros problemas, aquela prospecção foi interrompida por mais de 6 anos, até a Repartição de Minas receber um requerimento, datado de 8 de Fevereiro de 1946, da Anglo-Portuguese Oil Company, Ltd.”solicitando autorização para efectuar trabalhos de prospecção geofísica na área da concessão”, autorização concedida de imediato, mas a título precário.

Os trabalhos de prospecção foram entregues por aquela companhia a uma empresa sueca especializada, tendo escolhido como primeira região escolhida para investigação, usando o método sísmico, o Vale da Abadia em Torres Vedras, começando os trabalhos em 26 de Março de 1946, os quais duraram até 19 de Julho desse ano.

Nesse período a companhia contratou um engenheiro inglês para iniciar a perfuração daquele local, aproveitando, depois de o reparar, o material que aí se encontrava, que tinha sido danificado pelo ciclone de 1941, trabalho iniciado em Julho de 1946, mas, não obtendo resultados, estes foram interrompidos em Outubro.

Esse mesmo engenheiro procedeu também “ a um reconhecimento geológico  em Torres Vedras, compreendendo as regiões de Runa, Matacães, Ordasqueira, Benfica, Gibraltar e Varatojo, durante o qual abriu 70 pequenos furos, num total de 250 metros”.

Com base nas suas investigações esse engenheiro, J.L. Mac Leod, aventou a teoria segundo a qual o “petróleo estaria muito mais à superfície” do que aquilo que sondagens anteriores revelavam. Baseado nessa teoria iniciou, em Maio de 1947, uma nova campanha de sondagens na zona do Varatojo, “campanha” que decorreu até Novembro, efectuando-se nove sondagens, revelando todas elas vestígios de petróleo.

No final desse ano os direitos dessa prospecção passaram para a Companhia dos Petróleos de Portugal que tinha sido fundada em 25 de Junho desse ano e que continuou a realizar sondagens (12).

Na década de 50 do século XX, continuaram a fazer-se prospecções, uma delas, realizada em 1951 no Vale da Abadia, “com profundidade de 2 340 metros produziu óleo nos testes” e, outras duas realizadas em 1954, uma “com 147 metros produziu (…) 170 400 litros durante 8 meses” e outra, a 190 metros, “produziu 4 000 m3/dia de gaz” (13).

A fraca rentabilidade económica dessa exploração levou ao abandono definitivo dessas estações de prospecção no final da década de 1950.

Foi preciso esperar mais de 50 anos para, já neste século XXI, se voltarem a fazer prospecções e sondagens, para procurar petróleo e gás neste concelho, duas em 2005, outras em 2011 nas freguesias de S. Pedro da Cadeira e Ventosa e, entre 2011 e 2012, em vários locais do concelho, usando a técnica de “propecção sísmica”, sob responsabilidade de uma companhia canadiana (14).

Numa altura de crise energética, mas também de crescentes preocupações ambientais, este é um tema que volta a ganhar actualidade, até porque essas prospecções não revelaram apenas a existência de petróleo, mas também de gás.

Como diria um amigo nosso, com preocupações ambientais e na defesa do nosso património, “só cá nos faltava o petróleo”!!

(1)    os editores de MADEIRA TORRES, Manuel Agostinho, Descrição Económica da Vila e Termo de Torres Vedras, (1ª edição em 1835, 2ª edição com notas dos editores, manuscrita, terminada em 1865, 3ª edição impressa em Dezembro de 2020 pela CMTV e ed. Colibri), nota 64 dos editores, pág. 117;

(2)    MACIEIRA; Fernando A. C. Gonçalves, Planificação Histórico- Cronológica das Pesquisas de Petróleo em Portugal, saparata do fasc. II do Vol. IV de “Estudos, Notas e Trabalhos do Serviço de Fomento Mineiro”, Porto 1948, págs.14-15;

(3)    MACIEIRA, ob. cit, pág.17;

(4)    MACIEIRA, ob. cit., pág.18;

(5)    MACIEIRA, ob. cit., pág.19;

(6)    MACIEIRA, ob. cit., pág.19;

(7)    MACEIRA, ob.cit., pág.19;

(8)    MACIEIRA, ob. cit., pág.25;

(9)    MACIEIRA, ob. cit. Pág.26; 

(10)  MACIEIRA, ob. cit., pp. 64 a 66;

(11) MACIEIRA, ob. cit. pp. 66 a 70;

(12) MACIEIRA, ob. cit. pp.70 a 74;

(13)PIRES; Pedro Miguel Paiva Trancha Correia, Estudo do Potencial Petrolífero de uma região no Onshore da Bacia Lusitânica : Sub-bacia Arruda, Vale da Abadia, Anticlinal de Montejunto, dissertação de Mestrado em Engenharia de Petróleos, Outubro de 2012, Instituto Superior Técnico, pág.5;

(14)PIRES, ob. cit.

ANEXO FOTOGRÁFICO (Fonte: MACIEIRA, ob. Cit.):













quinta-feira, 10 de março de 2022

1865 – Um “Carnaval torriense” que acabou à pancada.

São raras as notícias sobre o modo como o Carnaval era comemorado em Torres Vedras, antes do aparecimento da imprensa local, em 1885.

Existe uma referência, em 1574, à realização de brincadeiras de carnaval em Torres Vedras , uma queixa contra abusos cometidos numa dessas brincadeiras, comuns no resto do país. As referências, na imprensa local, a partir da segunda metade da década de 80 do século XIX, referem a falta de animação e de “graça, passada nesses dias, nesta localidade.

O carnaval de rua limitava-se ao desfile de uns raros grupos de mascarados. Onde a animação era maior era nos salões de baile, em casas particulares, em teatros improvisados ou no Clube Torreense, onde também se realizavam teatros e récitas humorísticas.

É provável que, na correspondência local de jornais lisboetas, seja possível encontrar referências à forma como se celebrava a época carnavalesca, em Torres Vedras, entes de 1885.

Contudo, recorrendo apenas à imprensa acessível na internet, encontra-se uma rara referência aos “festejos carnavalescos” em Torres Vedras antes dessa data, em 1865, não tanto motivada pelos festejos em si, mas pela forma como eles acabaram, em sessão de pancadaria.

Tudo aconteceu no Domingo 26 de Fevereiro de 1865, quando cerca de oitenta populares, vindos do Barro, do Varatojo e da Serra da Vila, armados (de varapaus?), assaltaram “o pequeno teatro de curiosos da villa de Torres Vedras” onde decorria uma récita carnavalesca (1).

Uma versão mais detalhada foi apresentada nas “Cortes” pelo deputado Barros e Cunha, onde este contou que, estando alguns habitantes de Torres Vedras no “teatro da vila”, nesse Domingo Gordo, “representando uma comedia inocente, das muitas que por ahi há, sem alusão alguma religiosa, e que não servem senão para fazer rir e passar tempo às pessoas do campo, nos dias destinados a estes folguedos nacionais”, no  “momento em que se achavam no teatro”, a vila foi invadida por “habitantes do Barro e Varatojo armados completamente em numero mais de oitenta gritando – mata, mata os casacas que estam a escarnecer Nosso Senhor Jesus Christo e a Santissima Virgem” (2).

Algumas pessoas que estavam dentro do teatro saíram do edifício e foram receber os manifestantes para tentar acalmar os ânimos, mas foram insultadas e agredidas, algumas com gravidade (3).

Entre os agredidos estava o presidente da Câmara, o vice-presidente e o “recebedor”, pondo os agressores em “debandada” os cabos de polícia. Só mais tarde, “depois de muita gente ferida e de grande perturbação no animo de todos aquelles povos, conseguiram po-los fôra da villa pelos meios que n’aquella ocasião poderam obter do socorro dos cidadãos, que generosa e denodadamente se arriscaram, sem distinção de classe ou de cor política” (4).

“Aquelles allucinados maltrataram homens respeitados da terra, que se dirigirão  eles para os convencerem a retirar-se e só a muito custo a autoridade pôde, reunindo cabos de polícia e outros auxiliares, faze-los sahir, e evitar grandes desgraças que estiverão iminentes” (5) .Correio Mercantil)

A razão da revolta das populações daquelas aldeias, próximas da vila, estava relacionada com o rumor, segundo o qual se ia representar, no teatro, uma paródia à acção local dos frades do Barro e que, “no fim da representação se fuzilariam as imagens de Christo e da Virgem” (6).

Recorde-se que, cinco anos antes desses acontecimentos, e depois de expulsos em 1834, os frades tinham voltado a ocupar os conventos do Barro e do Varatojo.

Segundo algumas notícias , dizia-se que os “frades do Barro não eram estranhos a esta scena de barbárie, excitando o fanatismo dos povos com intento de provocarem uma grave questão religiosa” (7).

Essa versão foi confirmada pelo deputado Barros e Cunha que alargava a acusação, na instigação desses actos, não apenas aos frades do Barro, mas também os do Varatojo, “dois ninhos onde se abriga uma reacção politica debaixo do manto da religião”, cujos “missionários, fanatizando o povo em nome da religião, têem o único fim de tomar conta das consciências, que não estão suficientemente illustradas  para conhecerem onde acaba e principia a autoridade da terra, a fim de poderem depois lança-las n’esta luta barbara” (8).

Os acontecimentos tiveram grande impacto na imprensa portuguesa, chegando mesmo a ser divulgados na imprensa brasileira, sendo também, como referimos,  tema   de uma intervenção nas “Cortes” do deputado João Gualberto de Barros e Cunha, na sessão de 1 de Março de 1865.

Barros e Cunha tinha sido eleito pelo círculo que representava Torres Vedras e pertencia ao Partido Progressista, oriundo do extinto Partido Histórico, apoiante do Duque de Loulé durante a Patuleia, chegando mesmo a ministro, era proprietário nascido em Runa, em 1827, local onde veio a falecer em 1882.

Barros e Cunha já havia denunciado antes, nas suas intervenções parlamentares, aquilo que ele considerava como sendo fanatismo doutrinário e religiosa dos frades do Barro, e apresentou este caso como prova das suas preocupações.

Nessa sessão, o referido deputado apresentou um voto de louvor aos cidadãos que “se distinguiram na ocasião dos perigos”, enfrentando os atacantes, “o nobre presidente da Camara, o sr. Luiz Augusto Martins, (…) o vice-presidente José Avellino Nunes de Carvalho, que se acha perigosamente ferido, (…) o sr. Tavares de Medeiros Junior, recebedor da Câmara; o dr. Ribeiro, advogado em Torres Vedras; o sr. Henrique Francisco Bizarro”, sendo estes os nomes que lhe foram indicados pelas autoridades, mas acrescentando que o “que já sei com certeza é que todo o povo, ricos e pobres, tudo se comportou de maneira que mereceu o louvor do representante do paiz” (9).

Outras versões não incriminavam directamente os frades do Barro nesses acontecimentos:

“Dizem outros que houve quem abusasse da influencia que os padres alcançaram no povo, empregando o nome deles para provocar o mesmo povo a estes excessos, a fim de os comprometerem”, acrescentando “que isto se confirma, porque as pessoas que se amotinaram maltratarão, não são desafeiçoadas aos frades” (10).

Para acalmar os animos foi enviada para Torres Vedras “uma força de caçadores 5 e um piquete de cavalaria da Guarda Nacional” (11).

Sobre as consequência penais desse acto, talvez só consultando as correspondência do Governo Civil de Lisboa, depositada na Torres do Tombo se possa saber algo mais, já que, infelizmente, todo o arquivo da administração do concelho de Torres Vedras, onde se publicavam os relatórios e se arquivava a correspondência sobre as ocorrências locais, foi destruído por ocasião da “Janeirinha”, em 1868, pelo que não existe, em Torres Vedras, esse tipo de documentação, anterior a essa data.

Em anexo publicamos uma reprodução daquela que é a mais antiga imagem sobre um acontecimento relacionado com o Carnaval em Torres Vedras.

Foi publicada no citado “Annuario do Archivo Pittoresco”, em primeira página, na edição nº15, de Março de 1865 (página 113 da edição anual, encadernada) e é da autoria de um dos mais consagrados desenhadores e gravadores da imprensa no século XIX, João Barbosa de Lima.

Essa gravura foi realizada por esse desenhador, a partir do esboço de uma testemunha dos factos, deslocando-se Barbosa de Lima a Torres Vedras para rectificar o desenho com tal testemunha.

A gravura revela um largo, ladeado à esquerda por uma parede, que parece a estrutura de uma Igreja, na qual está um candeeiro. O único largo que conhecemos, que se parece com o do desenho, é o Largo de Santiago. As figuras em confronto usam aquilo que parecem varapaus, uma “arma” muito popular por essa altura.

Esta é, assim, uma das mais antigas descrições de um acontecimento local, ocorrido durante um Carnaval, revelando, igualmente, que já, nessa altura, os habitantes da vila de Torres Vedras reuniam-se num espaço teatral, para assistir a récitas e representações humorísticas e satíricas.



(1)    – Annuario do Archivo Pittoresco [AAP], nº15, Março de 1865, pág.120;

(2)    – in Diário do Governo [DG]  – Cortes – Camara dos Senhores Deputados, sessão de 1 de Março de 1865, p. 575;

(3)    – [AAP], ob. cit.,  p. 120;

(4)    – [DG], ob. cit, p. 575;

(5)    – in Correio Mercantil [CM], Rio de Janeiro, 4 de Abril de 1865;

(6)    – [AAP], ob. cit., p. 120;

(7)    – [AAP], ob. cit., p. 120;

(8)    – [DG], ob. cit., p.576;

(9)    – [DG], ob. cit, p. 577;

(10)                       – [CM], ob. cit.;

(11)                        - [CM], ob. cit;