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sexta-feira, 8 de julho de 2022

Os “Largos” de Torres Vedras


À volta dos “largos”  têm lugar festas, procissões, encontros, mercados, feiras, movimentos sociais e neles concentram-se os lugares nobres e as principais instituições da vida urbana.

Muitas vezes são os “largos”, “praças” ou “adros” que definem a malha urbana e a direcção das ruas de uma vila ou cidade.

No caso torriense, a primeira referência à malha urbana surge nos finais do século XIV, pela pena de Fernão Lopes, descrevendo Torres Vedras como um lugar que “he hua fortalleza aseemtada em çima dhua fremosa mota, a quall natureza criou em tam hordenada igualdade, como sse a maão fosse feita artefiçialmente (…). A villa tem sua çerca arredor do monte, e na mayor alteza delle esta o castello; e emtre a villa e o castello moravam tam poucos (…) e toda sua poboraçom era em huu gramde arravalde de muitas e boas casas, em bem hordenadas rruas ao pee do monte” (1). Contudo, essa descrição, demasiado genérica, não faz referência à possível existência de “praças” ou “largos”

A partir do século XV, já existem vários estudos que documentam a realidade urbana de Torres Vedras, nomeadamente o da autoria de Ana Maria Rodrigues (2).

Nesse estudo são referidos vários adros, praças e largos na malha urbana de Torres Vedras: o “adro de Santa Maria”, em frente à entrada principal do Castelo, o “terreirinho”, no cruzamento da antiga rua da judiaria  com a “rua do cano real” ( a parte norte do actual “estacionamento de S.Tiago”), o “adro de Santiago”, em frente à Igreja do mesmo nome, o “Outeirinho”, no actual “largo da Havaneza”, junto à porta de Santana, o adro de S. Pedro, frente à igreja do mesmo nome e o largo da “praça de víveres”, actual praça do município.

Com as característica de “largo” também se podem referir o espaço frente ao Chafariz dos Canos e, fora das “muralhas”, o campo da feira perto da ermida de Nossa Senhora do Amial ou de Nª Srª de Rocamador.

Esses “largos” situavam-se junto das Igrejas paroquiais, das ermidas, das fontes e das “portas” da vila.

Escreve Ana Maria Rodrigues sobre o centro urbano de Torres Vedras que, situadas “na confluência de várias ruas, as praças constituíam, na densa malha urbana, espaços abertos, ainda que geralmente não muito amplos, cuja função se consubstanciava em dois tipos principais, por vezes unidos no mesmo lugar: a praça da igreja e a do mercado” (3)

Do primeiro tipo, a autora inclui os “adros das três matrizes intra-muros”, a saber, os de Stª Maria, S. Pedro e S. Tiago, embora refira que apenas encontrou testemunhos coevos sobre o de S. Pedro, demonstrando a importância comercial do largo em frente desta Igreja, com referências à existência no local de tendas de ferreiro e oleiro, de um forno e de um sapateiro.

A autora encontrou também documentação sobre outra “praça”, na “Corredoira”, junto ao Chafariz dos Canos.

Quanto ao segundo tipo, refere a Praça dos víveres ou do Município, local de realização do “mercado diário”, onde existiam o Paço do Concelho e o Pelourinho, a zona “mais animada e concorrida da vila” (4).

Com rara referência documental anterior ao século XIX, há que recordar outros dois Largos ou Praças muito antigos, o Largo dos Pelomes, ou dos “ferradores”, a norte da vila, e o Largo do Rosário, nas traseiras da Igreja de S. Pedro, onde existiu a praça do peixe.

Existe também referência ao Largo do Espírito Santo, a norte do “Outeirinho”, no adro da Igreja da Misericórdia.

Já no início do século XIX, num dos documentos mais completos existentes no Arquivo Municipal sobre a toponímia da vila, o Livro de Registo do Pagamento de Sizas do ano de 1821, são referidas, como praças ou largos existentes na zona urbana, o Largo da Graça, o Largo de Sant Ana, o Largo do Rosário e o Largo de São Pedro. As novidades , neste caso, são a referência ao Largo da Graça e, mais a norte, ao Largo de Santa Ana, na zona do antigo “outeirinho”, e a “primeira” (?) referência ao “Largo do Rosário”.

Para a segunda metade do século XIX é possível confirmar, não só a existência daqueles largos, praças e adros, como alargar a referência aos que existiam na vila, com base num documento manuscrito, existe no Arquivo Municipal, da autoria de Gama Leal, datado de 1864, e que serviu de base para delimitar administrativamente o concelho.

Neste documento registava-se, na área urbana da freguesia de S. Pedro, os Largos de Santana, da Graça, de S. Pedro, do Rosário, da Praça e dos Canos, na da freguesia de Santiago, o Largo de Santiago e a Praça de Stª Maria, na da freguesia de Stª Maria, o Largo do Serieiro, e na da Freguesia de S. Miguel, o Largo de S. Miguel.

Ainda no final do século XIX, com a inauguração do caminho-de-ferro, surgiu o chamado Largo da estação, de onde partiu “nova” avenida Casal Ribeiro, actual 5 de Outubro.

A agitada vida política do século XX reflectiu-se na alteração da toponímia de alguns daqueles largos e praças.

Durante a primeira República, o Largo de Santana, que tinha mudado a designação para Largo D. Carlos I no final do século XIX, foi baptizado como Largo da República;  o Largo de Santiago foi rebaptizado como Praça Machado dos Santos, embora continuasse popularizada como “praça da batata” e outro Largo próximo, mas em frente à fachada da Igreja de Santiago, foi baptizado como Largo Dr. Justino Xavier da Silva Freira. O popularmente conhecido Largo de Santo António, foi baptizado como Largo Estevam Feyo.

Durante o Estado Novo o Largo da República foi “dividido”, mantendo o “largo da Havaneza”, o antigo Outeirinho, a designação e passando o lado sul, antigo Largo de Santana, a designar-se por Praça do Império, incluindo o jardim da antiga cerca do Convento da Graça.

Também terá sido nessa época que o Largo do Rosário foi rebaptizado com Largo Wellington.

Com o 25 de Abril a Praça do Império passou a designar-se Praça 25 de Abril.

Com o acentuado crescimento urbano, a partir da 2º metade do século XX as antigas praças e largos  perderam muito da sua centralidade para as novas  pracetas, sendo a  mais antiga de todas a Praceta Dr. Afonso Vilela, inaugurada na década de 60 do século XX.

Actualmente, no centro histórico, ainda se mantêm muitos dos largos referenciados desde a Idade Média, embora, na maior parte dos casos, com topónimos e dimensões diferentes, alterados pelo crescimento urbano e pelas várias alterações registadas ao longo do tempo.

O largo de S. Pedro é o único que mantem o nome original e foi, até meados do século XX, o “centro cívico” da “vila”. Nas traseiras da Igreja de S.Pedro existe o Largo Wellington, antigo Largo do Rosário. No extremo norte dos antigos limites da “vila”, junto das medievais “ferrarias”, fica o Largo dos Pelomes, ocupando uma área muito atrofiada e incaracterística . O “adro de Santa Maria”, frente à entrada do Castelo, é o actual Largo Coronel Morais Sarmento. O antigo Largo de Santiago está hoje dividido em dois Largos, a “Praça Machado dos Santos”, a sul, e o Largo Dr. Justino Freire, a poente. Também no antigo “Outeirinho”, que marcava o limite urbano a sul da vila, existem hoje dois largos, a “praça da República”, também popularemente designado por “Largo da Havaneza” e, na sua continuidade, para sul, ocupando a zona da antiga cerca do Convento, a “praça 25 de Abril”, popularmente designada por “Largo da Graça”, local hoje considerado por muitos como o “centro” da cidade. Por sua vez, a medieval “praça de víveres” tem hoje a designação de Praça do Município. O Largo que já existira junto ao centenário Chafariz do Canos tem hoje a designação de “Largo Infante D. Henrique”. Ainda nos limites do antigo centro histórico surgiu recentemente a Praça Dr. Alberto Avelino, muito próxima do antigo Largo de S. Miguel. O Largo de Stª António mantem a sua designação popular.

Não se pretendeu fazer neste texto a História das praças e largos torrienses, pretendendo-se apenas alertar para a importância em dinamizar e recuperar esses espaços, muitos deles em risco de desertificação humana.

Se as “ruas” são as “veias” dum centro urbano, os seus largos são os “corações” que medem a vivência palpitantes dos seus habitantes.

(1)    LOPES, Fernão, Cronica del Rei Dom Joham I de Boa Memoria (…), ed de Anselmo Braamcamp Freire, Lisboa, 1973, p. 318;

(2)    RODRIGUES; Ana Maria, Torres Vedras – a vila e o termo nos finais da Idade Média, ed. Fundação Calouste Gulbenkian e Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica, 1995;

(3)    RODRIGUES, ob. cit, pp.146-147;

(4)    RODRIGUES, ob.cit. pp. 147-148;

domingo, 3 de janeiro de 2021

PARA A HISTÓRIA DO LARGO DA GRAÇA


A propósito das obras de requalificação a decorrer no velho Largo da Graça, aqui recordamos um pouco da história desse espaço.

Na sua origem esteve a parte norte da antiga cerca do Convento da Graça.

Neste local existiu a antiga  Gafaria de Stº André, já documentada em 1309 e, segundo Madeira Torres rodeada de uma “larga cêrca” (1).

Quando a gafaria foi doada aos eremitas de Stº Agostinho em 1544, que para aí se mudaram em 30 de Novembro desse ano, retirando-se do antigo convento na “Várzea Grande”, herdaram também a referida “cerca”.

A  primeira pedra do novo convento foi colocada em 7 de Setembro de 1578, e a obra foi concluída por volta de 1580 (2).

 “O edifício estava rodeado a norte, poente e sul pela sua cerca, onde os agostinhos tinham uma vinha, muitas árvores de fruto, oliveiras, parreiras, uma horta e um poço” (3).

 A parte norte dessa “cerca”, devido à proximidade em relação ao centro da vila, foi muitas vezes palco de desentendimentos entre a Câmara e os eremitas.

Em 1736 a Câmara tentou mudar o mercado semanal, que se realizava às 3ªs feiras, para o Largo da Graça, mas sem êxito, por oposição dos frades.

Anos depois, em 1794, a Câmara contactou os frades para se colocar um chafariz a construir pelo município no “Largo do Convento”. “O chafariz de facto se construiu em forma de repuxo, mas nunca serviu, porque nunca se encanou a água “, tendo sido, “não há muitos annos[por volta de 1863]” demolido por inútil, e estorvar o tráfego do mercado que ali se faz mensalmente” (4).

Gravura Inglesa dos tempos da Guerra Peninsular, vendo-se o Convento a partir da Várzea(poente)

Em 1815 a Câmara voltou a designar o Largo da Graça para a realização do mercado mensal, por acórdão de 20 de Maio, “mandando também fazer barracas encostadas ao muro da Cerca do Convento e intimar todos os logistas para ali pôrem as suas lojas (…). As barracas chegaram com efeito a fazer-se mas n’ellas apenas os tendeiros, ou vendilhões  avulsos, hião por suas fazendas, e por fim foram mandados demolir por sentença, que os padres da Graça lançarão contra a Câmara, por serem feitas em terreno seu, e sem licença sua” (5).

Segundo Paula Silva os frades ainda chegaram a aceitar esse pedido da Câmara, mas na condição de as barracas se sustentarem por si “para evitar que o seu peso e balanço destruíssem o muro”, ao mesmo tempo que exigiram “que ficasse registado que aquele terreno lhes pertencia”. Ao que parece a Câmara não cumpriu o contrato e em 1824 os frades instauraram um processo contra a Câmara (6).

Em 20 de Março de 1832 a cerca foi arrendada por um período de 3 anos a Francisco de Assis e Silva e, depois da extinção do Convento em 1834, foi novamente arrendada em 21 de Julho deste ano, sendo finalmente vendida em hasta pública, juntamente com o Convento, em 1842, a Inácio Ferreira Campelo, pela quantia de 4 433$500 réis (7).

Gravura do Século XIX, vendo-se o sitio onde nasceu o jardim. Nota-se à esquerda, um aqueduto que transportava àgua a partir da "Fonte Nova" para o Convento e uma figura, no lado direito, junto de um poço.

Por deliberação de 1 de Abril de 1857, decidiu a Câmara expropriar a área norte da antiga cerca do Convento da Graça, com a finalidade de alargar o espaço do mercado mensal, decidindo que esse lugar servisse também de passeio público, plantando para isso algumas árvores nesse local.

Em 1863 a  Câmara deliberou e efectuou vários melhoramentos no Largo da Graça “na parte que faz frente para aquella rua [da Olaria] , e a parte que encabeça com a estrada de Lisboa, e dá entrada para a entrada para a Igreja da mesma Graça, aterrando-se de novo a parte maior do Largo, que não hé calçado, e ficando assim mais livres de lama, que por ocasião do Mercado ali se formava, e tirando-lhe as agoas por meio de grandes valetas calçadas do lado do Nascente e Poente” (8).

Em 1885 foi nesse largo instalado um coreto para a primeira actuação pública da “Fanfarra 24 de Julho” que ocorreu em 24 de Junho de 1885.Este coreto nada teve a haver com aquele que é mais conhecido, inaugurado em 1892 e que existiu até meados da década de 40 do século passado (9).

O Convento, tendo passado por várias mãos após a sua extinção, veio a ser comparado pela Câmara em 21 de Abril de 1887, instalando aí vários serviços e repartições públicas, tendo incluído na compra parte da cerca, onde está o jardim actual (10), embora, como vimos anteriormente, parte dela já tivesse sido expropriada em 1857. O resto da cerca, a que rodeava o Convento a sul e a poente, conhecida por “cerca do Doutor Freire”, foi comprada em 16 de junho de 1926 pela Câmara aos herdeiros do Dr. Justino Freire para construir abegoarias, logradouros, novas ruas municipais e as novas cocheiras da Guarda Nacional Repúblicana”(11).

Fotografia de meados do Século XIX, do lugar onde foi construído o Jardim, vendo-se a cerca norte do Convento.


Em
Janeiro de 1886 o largo da Graça foi notícia por causa da decisão camarária de mandar “construir um jardim na parte expropriada contigua ao largo da Graça. A planta será confeccionada pelo distincto engenheiro e nosso amigo, o sr. Mendes de Almeida, que esteve aqui tratando de outos estudos e melhoramentos públicos”, objectivo que ao que se sabe, não foi concretizado (12).

Finalmente, em 1892, um particular, D. Diogo de Nápoles, tomou a iniciativa de tornar aquele espaço, então praticamente abandonado, num ”Passeio Público”, com um corêto, encabeçando uma comissão para adquirir esse espaço por subscrição pública, apoiada pelo jornal “A Semana”.


Terá sido aquele cidadão, de origem italiana e então a viver em Torres Vedras, falecido em São Tomé e Príncipe, que “a 29 de Junho (…) falou em que era bonito dar ao Largo da Graça o aspecto de um passeio público, terraplanando-o, colocando-lhe bancos e candeeiros, e pondo-lhe ao centro um coreto de alvenaria e ferro, para a musica ali se fazer ouvir”. Previa um gasto de 2:000$000 réis e por isso “dias depois, em começos de Julho, principiava a pôr em prática o seu plano com tenacidade, abrindo a subscrição pública, e andando de porta em porta a solicitar donativos para o melhoramento público”, contando com o apoio do semanário local “A Semana” (13).

A primeira pedra para a construção do jardim e do coreto teve lugar a 11 de Junho de 1892, sendo inaugurado em 21 de Agosto, com festa e Kermesse.

Excertos da planta do Coreto (AMTV)

Raphael Bordallo Pinheiro desenhou a “barraca” do jornal “A Semana” colocado nessa ocasião no recinto da Kermesse (14).

Esse espaço foi baptizado com o nome do monarca que então reinava, D. Carlos . Em 1818 era conhecido por Largo de Santana, por causa da ermida que aí existiu, situada no prédio onde funcionou a casa “Napoleão”, junto a uma das portas medievais da vila, com o mesmo nome. Essa ermida ficou arruinada pelas invasões francesas, nunca mais sendo recuperada. Popularmente já era conhecido por Largo da Graça, nome que tem sobrevivido a todas as mudanças toponímicas desse lugar, muito marcadas pela conjuntura política (foi rebaptizado como Largo da República em 1911 e chegou a ser proposta a designação de Largo Sidónio Pais em 1919, intenção que não vingou. Como veremos mais à frente, essas mudanças toponímicas não se ficaram por aqui.


Duas fotografias da Ermida de Santana.


Em 12 de Maio de 1902 este largo foi visitado pela rainha D. Amélia, que se fez deslocar de automóvel, talvez o primeiro a rodar em Torres Vedras.

visita da Rainha D. Amélia.


Várias vistas, em fotos e postais antigos, do Largo no tempo do Coreto

A decisão da Direcção Geral de Viação de instalar junto ao Jardim um posto fixo de fiscalização de trânsito, pelo ofício de 17 de Abril de 1934, (igual ao que hoje existe junto à capela de Nª Srª do Amial) provocou acesa polémica entre duas facções no seio da vereação camarária, alegando uns que aquele posto não ía colidir com o equilíbrio do Jardim, até porque, junto do mesmo, já existia um posto de abastecimento de gasolina (que aí esteve até há poucas décadas, como se recorda ainda o autor deste texto) e outros invocavam motivos estéticos para criticarem essa decisão, como foi o caso do Dr. Moura Guedes.

Esse posto acabaria mesmo por ser aí instalado, sendo visível nalguns postais de meio do século XX e foi retirado anos mais tarde (15).

postais onde se vê o posto de gasolina e o o posto da Direcção Geral de Trânsito.
O Largo da Graça visto a partir do sul, ainda com o cruzeiro que existiu junto à Igreja da Graça

A mais radical transformação daquele espaço, desde 1892, teve lugar em 1954.

Em 10 de Outubro de 1954, depois de grandes obras, que culminaram com a colocação no lugar do velho coreto de um obelisco comemorativo das Guerras Peninsulares, foi oficialmente inaugurado o novo jardim, sendo na mesma ocasião aquele largo rebaptizado com o nome de Praça do Império, mantendo o espaço a norte (“Outeirinho”) a designação de Praça da República (Com o 25 de Abril foi o Largo da Graça rebaptizada como Praça 25 de Abril).

O "novo" jardim, ainda sem o Obelisco

As festas de inauguração do Obelisco e desse espaço, totalmente remodelado,  foram revestidas da pompa característica da época, iniciando-se com “toque de alvorada, às oito horas, pelo terno de clarins da Legião Portuguesa, seguida de uma salva de vinte e um morteiros”. Às 10 horas teve lugar, no Salão Nobre dos Paços do Concelho, o descerramento do retrato do Presidente da República de então, Craveiro Lopes.

Depois desse acto, as “entidades oficias” dirigiram-se para a Freixofeira, limite norte do concelho para receber os “ilustres convidados” para a inauguração, com destaque para a “mais alta individualidade” a estar presente, o sub-secretário de Estado do Exército o tenente-coronel Sá Viana Rebelo, “que vinha presidir às cerimónias”.

O cortejo, com cerca de 200 automóveis, saiu então da Freixofeira a caminho da então vila onde chegou ao largo dos Paços do Concelho por volta das 12 horas. Aqui estavam formados “o Corpo dos Bombeiros Voluntários, com bandeira e banda de música, o Terço da Legião Portuguesa, a Banda Recreativa Torreense, a Mocidade Portuguesa, deputações das várias colectividades locais, com seus estandartes e grande concurso de povo que vitoriou os recém-chegados, enquanto o ilustre membro do Governo passava, em revista, a guarda de honra e as músicas faziam ouvir os acordes da “Maria da Fonte”.

Seguiu-se a cerimónia oficial, com os discursos das autoridades no Salão Nobre dos Paços do Concelho.

A cerimónia prosseguiu com um “Te-Deum” na Igreja de S.Pedro, seguindo-se um almoço no salão da Tuna Comercial.

Ás 15 horas procedeu-se ao acto de inauguração do Obelisco “junto do qual formavam, em guarda de honra, uma companhia do regimento de infantaria nº1, e um grupo de soldados com os fardamentos usados na época das Guerras Peninsulares, vendo-se ainda, no local, uma peça de artilharia, que nessas guerras serviu, vindo expressamente do Buçaco”.

Foi então lido o auto de inauguração:

“Saibam quantos este público auto virem, que no ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, de mil novecentos e cinquenta e quatro - Ano XXVIII da Revolução Nacional - pelas 15 horas, nesta mui nobre e antiga Vila de Torres Vedras, no Jardim da Graça, que doravante se passou a denominar Praça do Império, Sua Excelência o Tenente-Coronel Horácio de Sá Viana Rebelo, Ilustre Sub-Secretário do Estado do Exército, procedeu à inauguração solene deste monumento comemorativo das Campanhas da Guerra Peninsular -1808 a 1814- e especialmente das “Linhas de Torres Vedras” (...).

“A construção deste monumento teve a comparticipação dos ministérios das Obras Públicas e do Exército e a sua concepção foi do arquitecto Miguel Jacobety, e nele trabalharam o tenente coronel de Engenheiros Manuel Braz Martins, Engenheiro Altino Aldo Gromicho, o construtor civil José Pedro Lopes e os operários, Sebastião Pedro Henriques, Jaime Simões, Joaquim Miranda, José da Silva, José Correia, João Alves Carregueiro e António Chá. As cantarias foram fornecidas pela Firma Pardal Monteiro, Limitada, de Pero Pinheiro (...)”.

Seguiu-se um desfile militar junto à tribuna de honra montada numa das ruas próximas do jardim.

A cerimónia terminou com a inauguração no “Museu e Biblioteca Municipal” da exposição histórico-biblio-iconográfica dedicada às Linhas de Torres (16).




Cerimónias de inauguração do Obelisco

Vivendo-se em ditadura e em regime de censura, não se encontra registada qualquer crítica pública àquele que foi, ainda hoje, para uns, um atentado ao património, retirando o único corêto existente dentro da cidade, para outros, uma obra inovadora e de referência.

O silêncio sobre reacções criticas não quer dizer que não tivessem existido manifestações de desagrado.

António Augusto Sales, jovem nessa época, refere-se às criticas então manifestadas nas mesas dos cafés, a “rede social” da época:

“Quando José Figueiroa Rêgo, no último ciclo do seu mandato de quatorze anos como presidente da Câmara decidiu derrubar o velho coreto e arrasar o antigo jardim para construir o actual colocando no meio um enorme obelisco em memória da Guerra Peninsular e das Linhas de Torres, muito e apaixonadamente se discutiu a deliberação. Técnicos que por  o serem entendiam as suas opiniões acima de qualquer critica, idosos que sentiam o desaparecimento do velho jardim como perca da sua identidade geracional, intelectuais, que viam monumento uma manifestação da arquitectura fascista, estetas da ironia que lhe vislumbravam uma grandeza fálica, assanhados conservadores incapazes de aceitar o bulir de uma pedra, músicos das bandas que sem o coreto perdiam o mais simbólico palco para a exibição da sua arte, gente nova fazendo parte de uma geração voltada decididamente para um novo conceito de jardim que introduzia na vila modernidade, todos discutiam o assunto e lançavam “bocas de bancada” pelos cafés que naquele tempo, eram os templos por onde passava qualquer iniciativa, escândalo público ou privado. No meio de uma guerra de opiniões a obra foi em frente (…)” (17).

Várias vistas do Jardim após a inauguração do Obelisco.

É preciso esperar por 1970 e por alguma “abertura” da “Primavera marcelista” para encontrarmos a publicação pública de um texto crítico sobre o jardim:

“Se me perguntarem o que penso daquele mini-jardim, responderei que é o único local aprazível da parte urbanística da vila. Mas não posso deixar de dizer que tem ali verdadeiras aberrações (…).

“Já repararam que as árvores que o circundam escondem a fachada da Graça, ofuscando-lhe toda a graça e austeridade que são uma mensagem da fé dos nossos antepassados?

“Já repararam que essas mesmas árvores escondem também o belo obelisco (…)?

“Já repararam que, por sua vez, o referido obelisco não se enquadra bem no mini-espaço que o circunda e donde só é visível?

“Contudo, benditas sejam aquelas árvores que protegem com a sua sombra os que procuram aquele local porque outro não há onde se possa ter a sensação de frescura nos dias de calmaria ou onde se possa refazer o corpo das fadigas que o dia a dia acarreta.

“Quando um dia houver jardins com árvores (…) talvez possam ficar ali só arbustos que não ofusquem a graça da Graça que serve de fundo àquele largo.

“Talvez que o obelisco se apresente, então, com toda a sua beleza, e bem enquadrado (18). Nas décadas de 70 e 80, período em que a vila, tornada cidade em 1979, conheceu um grande crescimento urbano, o jardim perdeu importância e tornou-se quase um “saguão” gigante no meio de uma urbanização caótica que cresceu à sua volta, rompendo-se o diálogo visual entre a fachada do velho Convento e o Castelo, um equilíbrio que devia ter sido garantia de preservação da identidade da terra.

O próprio Obelisco, obra polémica, perdeu fulgor no meio do caos urbano à sua volta, atarracado pelo arvoredo cada vez mais denso.

Em 2002 gerou-se nova “ronda” polémica, devido à publicação de uma sugestão de requalificação defendida pelo então vereador do planeamento Carlos Miguel, propondo a retirada do Obelisco daquele espaço e substituir as árvores de grande porte por outras de dimensões mais reduzidas, com o objectivo de alargar a zona pedonal e realçar a fachada do velho Convento.

A ideia acabou por não ira para a frente, devido à reacção popular e da imprensa, ficando-se por alguns arranjos na parte norte do jardim(19).

Ficou-se também a saber que a remoção do Obelisco era tecnicamente impossível sem destruir por completo o monumento.

Hoje, as obras de requalificação que estão a decorrer, mantêm o Obelisco, passam pelo alargamento da zona pedonal à custa do estreitamento da faixa rodoviária, embora se tema pelo futuro do arvoredo.

Desta vez as reacções públicas tem sido moderadas, talvez devido às preocupações com a actual situação pandémica. Destaque-se, contudo, um dos raros textos críticos sobre essa obra, da autoria de Jorge Ralha(20).

Pela nossa parte…esperemos que o popular Largo da Graça volte a ganhar…alguma graça!

 

(1)    - TORRES, Madeira, parte histórica da sua conhecida monografia, 2ª edição, página 126;

(2)    - SILVA, Paula Correia da, O Convento da Graça de Torres Vedras, a comunidade eremítica e o património, Livro do Dia/CMTV, Abril 2007, capítulo “A segunda fundação”, pp.34 a 36.Esta é a melhor e mais completa e actualizada obra sobre o dito Convento;

(3)    – SILVA, Paula Correia, ob.cit., pág.38;

(4)    – anotadores de Madeira Torres, parte económica, manuscrita, 5º caderno, f.6, AMTV;

(5)    - anotadores de MT, parte económica, manuscrita, 8º caderno, f.7, AMTV;

(6)    – SILVA, Paula Correia, ob.cit., pág.65;

(7)    – SILVA, Paula Correia, ob.cit., pág.114;

(8)    - anotadores de MT, parte económica, manuscrita, 2º caderno f.6, AMTV;

(9)    – in  Jornal de Torres Vedras, 30 de Julho de 1885;

(10) – SILVA, Maria Manuela Gonçalves Silva, Convento da Graça - Torres Vedras, parte 1, tese na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1997, dactilografada;

(11)  – SILVA, Paula Correia, ob.cit.,, pág.115;

(12)   – in Jornal de Torres Vedras, 22 de Janeiro de 1886;

(13) - in A Semana, número comemorativo da Kermesse de abertura do novo jardim,  Domingo 21 de Agosto de 1892. Ver também o suplemento do nº 46 de  “Toitorres Notícias” de Maio/Junho de 1998, coordenado por António Rodrigues e Adão de Carvalho;

(14)  CARVALHO, Adão de e PAULO, Joaquim, “Ontem e Hoje – Rafael Bordallo Pinheiro e o Coreto da Graça”, in Badaladas de 27 de Março de 1992;

(15) – leia-se, sobre o tema,  o texto assinado por Moura Guedes, “O Jardim do Largo da Graça – uma “nota” oficiosa”, in Alta Extremadura, 20 de Março de 1935;

(16)– CUNHA, Augusto M. Lopes da, Memória das Festas da inauguração do obelisco comemorativo da guerra peninsular e Catálogo da exposição hiistórico-biblio-iconográfica, ed. Biblioteca Municipal de Torres Vedras, 10 de Outubro de 1954;

(17) – SALES, António Augusto, “Um referendo para o Jardim da Graça e o seu Obelisco”, in Frente Oeste de 2 de Maio de 2002;

(18)  – DIOGO, A., “As tarimbas do mini-jardim da Praça do Império”, in Badaladas de 27 de Junho de 1970;

(19)   – ver Badaladas de 12 de Abril de 2002 e Torres Vedras em Revista, nº1, Março de 2002;

(20)   – RALHA, Jorge, “A desgraça da Graça”, in Badaladas de 20 de Novembro de 2020.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Há 75 anos, o presidente Carmona visitou Torres Vedras




Em plena Segunda Guerra Mundial, no auge do Estado Novo, em 18 de Julho de 1943, um Domingo, Torres Vedras recebeu a visita do então presidente da República Óscar Carmona. 
O objectivo dessa visita foi a inauguração oficial do novo Hospital da Misericórdia e do novo edifício dos Correios. 
Esse acontecimento mereceu grande destaque na imprensa nacional, com honra de primeira página em quase todos, e no único jornal que então se editava no concelho, embora de periodicidade anual, “O Torrense”. 
(reportagem em "O Torreense") 
Com base na leitura de alguns desses jornais é possível reconstituir o pulsar desse dia em Torres Vedras. 
Refere o jornal “Novidades”, na sua edição de 19 de Julho, que, logo “de manhã cedo a vida começou a movimentar-se com a chegada de forasteiro das (…) freguesias do concelho, que utilizavam os mais variados meios de transporte”. 
Aliás, para que fosse possível a utilização de transportes pelos habitantes do concelho e dos concelhos vizinhos foi interrompido o racionamento a que estava sujeito o abastecimento de combustíveis, uma consequência do período de guerra em que se vivia, como o refere o mesmo jornal na sua edição de dia 18: 
“o Serviço de Racionamento do Instituto Português de Combustíveis comunica-nos que por motivo da visita do sr. Presidente da República a Torres Vedras, foi pelo sr.  ministro da Economia autorizado o abastecimento, durante o dia de hoje naquele concelho a todos os motociclos e carros ligeiros de particulares”. 
Ainda na edição do dia 19 daquele diário situacionista refere-se que, às “11 horas fez-se no Município a recepção  às bandas dos Bombeiros Voluntários da Lourinhã, Ermegeira, Aldeia Grande e Ribaldeira e dos legionários de Mafra, que foram aqui recebidos pela subcomissão de festas, presidida pelo sr. Joaquim Oliveira Manarte”. 
“Ás 13 horas fez-se no vasto Largo de S. Pedro a concentração de trinta carros que haviam de tomar parte no grande cortejo regional”, seguindo para os limites do concelho, na Freixofeira, onde foi recebido o Presidente e a sua comitiva aí chegados às 16 e 15. 
Carmona era acompanhado nessa visita pelo Ministro do Interior, pelo Subsecretário de assistência e Obras Públicas e pelo Governador Civil de Lisboa, entre muitas outras entidades oficiais e corporativas.
À sua chegada à Freixofeira, Carmona foi saudado pelo presidente da Câmara de Torres Vedras, D. José Maria Teles da Silva (Tarouca). 
“Momentos após esta cerimónia o estralejar dos foguetes e o ribombar dos morteiros marcaram o início da festa” (1) . 
A caminho de Torres, a comitiva foi surpreendida com uma manifestação não prevista de boas-vindas no Turcifal, sendo recebida pela população do lugar que se concentrou junto ao adro da Igreja, onde a “banda da Casa do Povo tocou o hino nacional” (2). 
Chegando à vila “foram lançadas flores em grande profusão”  sobre o carro presidencial (3). 
À entrada da vila “erguia-se um arco triunfal com a saudação – Salvé Carmona- “ (4). 
“Toda a vila estava engalanada de bandeiras, galhardetes, festões e das janelas pendiam lindas colgaduras” (5).  
Seguindo a comitiva pelas Avenidas 5 de Outubro e Tenente Valadim, “que se encontrava vistosamente engalanada com bandeiras”, chegou ao largo de S.Pedro “onde se encontrava formando um terço da “Legião Portuguesa”, com bandeira, banda de musica e  terno de corneteiros (…) que prestou as devidas honras militares ao Chefe do Estado entre vibrantes e patrióticas manifestações da multidão que no local se aglomerava”. 
Carmona, “apeando-se do seu automóvel, passou em revista a guarda de honra e, em seguida, dirigiu-se, pela Rua Miguel Bombarda, para o Largo do Município onde se achava uma formação constituída pela Corporação dos Bombeiros Voluntários com a respectiva banda de musica.” 
Ao longo do percurso, das “janelas, as senhoras lançam flores à passagem do cortejo, enquanto o povo apinhado junto aos passeios aumenta de entusiasmo”, entre o qual as “crianças das escolas, todas as colectividades, bombeiros, agremiações desportivas e de beneficência, com os seus estandartes, prestam também homenagem o Chefe de Estado” (6). 
Seguiu-se uma sessão no salão nobre dos  Paços do Concelho, onde discursaram o então presidente da Câmara, “D. José Maria Teles da Silva (Tarouca)”, o Ministro do Interior e, a encerrar, o general Carmona. 
De seguida o Presidente da República e a comitiva seguiu em “carro aberto”, pelas ruas Serpa Pinto e pelo Largo Graça, dirigindo-se ao “Novo Edifício dos Correios”, inaugurado na ocasião (7). 
“Ao longo do trajecto alinhavam-se os alunos das escolas primárias do concelho, elementos da “Mocidade Portuguesa”, Juntas de Freguesia, Juventude Católica, Bombeiros, Casas do Povo, Sindicatos, União Nacional, Associações desportivas e de beneficência, Grémios e a banda dos Bombeiros da Lourinhã” . 
Chegado ao edifício dos CTT o Presidente procedeu à tradicional corta da fita, percorrendo depois as instalações do edifício. De “linhas modernas e sóbrias” (8).    
(in "O Torreense". Autoria: Foto Rocha)


(Edificio dos Correios inaugurado por Carmona. Fotos de Mário Novais, arquivo da Fundação Calouste Gulbenkian) .
Depois, pela rua Santos Bernardes, seguiu a comitiva até ao lugar do “Novo Hospital da Misericórdia”, igualmente inaugurado oficialmente nessa data. 
O  Hospital foi “construído por contribuição do Estado e da Câmara Municipal”, e com a contribuição de vários beneméritos locais, homenageados numa lápide comemorativa descerrada na ocasião, no átrio do hospital. Entre os beneméritos foram citados os “srs. Álvaro Galrão, dr. José Alberto Bastos, Joaquim Vaquinhas, dr. Júlio Lucas e D. Teresa de Jesus Pereira” (9) . 
(Gravura do edificio original do Hospital de Torres Vedras. Fonte: Site da Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras) 
Foi também descerrada outra lápide de homenagem a Carmona pelo acto de inauguração. 
O corpo clinico foi constituído por “uma chefe e cinco enfermeiras das irmãs hospitaleiras portuguesas da Ordem de S. Francisco” e pelos médicos “drs. Alberto José de Bastos, Boaventura Dias Sarreira e Afonso Pedreira Vilela”. 
Carmona acabou por ser o primeiro “doente” assistido no Hospital, por se ter magoado num dedo ao fechar a porta do seu carro. (10). 
(o Dr. Dias Sarreira tratando do dedo ferido de Carmona. Foto retirada do blog Concept Board , num artigo biográfico sobre aquele médico torriense)
Na estrada que ligava o Largo da Graça ao novo Hospital, “em longa fila, alinhavam-se os carros  das freguesias com oferendas  para a Misericórdia, sendo: 5 do Ramalhal, 3 de Matacães, 3 de São Pedro da Cadeira, 3 da Carvoeira, 2 do Maxial, 2 da Casa do Povo e Freguesia de Runa e de São Domingos de Carmões e vários outros da Silveira, Turcifal, Dois Portos, Campêlos (Santa Maria), A-dos-Cunhados, da Quinta da Macheia ( e veraneantes dos Cucos), Ponte do Rol, Freiria, Monte Redondo, Santa Maria e São Pedro”. 
“Os carros, artisticamente ornamentados, com o folclórico das respectivas freguesias, traziam de tudo e com abundância: batatas, feijão, hortaliça, coelhos, galinhas, uma vitela, roupas e enxovais para crianças, e, até dinheiro” (11) . 
(Fonte: "O Torreense". Autoria "Foto Rocha"). 
Após inauguração do novo Hospital a comitiva regressou à Praça da República, à sede da Santa Casa da Misericórdia, para um “Torres de Honra”. 
“Antes de entrar na Misericórdia o Chefe do Estado, apeando-se do automóvel (…) condecorou a bandeira dos Bombeiros Voluntários com a Ordem de Benemerência e o operário da Casa Hipólito sr. André Ferreira com a Ordem de Mérito Industrial”. 

(Fonte: Jornal "O Torreense". Autoria de "Foto Rocha") 
O salão nobre da Misericórdia estava decorada com bandeiras e flores e aí discursaram o Dr. Afonso Vilela, presidente da Comissão concelhia da União Nacional, após o qual o presidente Carmona condecorou o Presidente da Câmara com a Ordem de Cristo (12). 
A seguir, Carmona e a sua comitiva abandonaram a vila, a caminho de Lisboa, sendo acompanhados pelas entidades locais até ao limite do concelho, na Freixofeira. 
Na passagem pelo Turcifal, “vistosamente engalanado com colgaduras e festões, foi Sua Ex.ª alvo de uma verdadeira manifestação de carinho, caíndo-lhe uma autêntica chuva de flôres” (13) . 
À noite “as bandas de musica “ da Lourinhã e de Torres Vedras deram concertos na Praça da República e Avenida 5 de Outubro”, queimando-se “um esplendido fogo de artificio” (14). 
Foi uma das últimas grandes manifestações locais de apoio ao Estado Novo, como se comprova pelo tom apologético das reportagens da imprensa nacional. 
Parafraseando ironicamente a obra do cineasta Ettore Scola, foi “um dia inesquecível” para os torrienses, o regime e os seus apoiantes (15). 
(1)    – in Diário da Manhã de 19 de Julho de 1943:
(2)    – in O Século de 19 de Julho de 1943;
(3)    – in Novidades de 19 de Julho de 1943;
(4)    - in O Torrense de 11 de Outubro de 1943;
(5)    - In O Século de 19 de Julho de 1943;
(6)    -  in Diário da Manhã de 19 Julho 1943;
(7)     - in Novidades de  19 de Julho de 1943;
(8)    – in  Diário da Manhã 19 Julho 1943;
(9)    – in Novidades de 19 de Julho de 1943;
(10)    - in Diário da Manhã 19 Julho 1943;
(11)     - in O Torreense de 11 de Outubro de 1943;
(12)     - in Diário da Manhã de 19 Julho 1943;
(13)      - in O Torreense, de 11 de Outubro de 1943;
(14)     - in Diário da Manhã de 19 de Julho de 1943.
(15)    - O filme “Um Dia Inesquecível”, de 1977,  relata a história de um amor adultero entre a esposa de um camisa negra fascista e um antifascista a caminho do exílio, em Roma, no dia 6 de Maio de 1938, dia em que a cidade  se engalanou para o encontro entre o Duce e Hitler.
(NOTA: um texto mais resumido foi publicado no Jornal "Badaladas" de 13 de Julho de 2018,    na secção Vedrografias de Julho de 2018).