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quarta-feira, 27 de maio de 2026

Homenagem a António Augusto Sales


No próximo Sábado, 30 de Maio, pelas 16 horas, nos Paços do Concelho, terá lugar uma sessão de homenagem a António Augusto Sales, que inclui o lançamento de uma nova obra da sua autorias

António Augusto Sales completou 90 anos de vida no passado dia 29 de Abril.

Nascido em Torres Vedras em 1936,  António Augusto Sales “estudou e viveu na sua terra natal até 1964. Exerceu a sua atividade profissional nas áreas da comunicação, marketing e publicidade. Foi fundador do Cineclube de Torres Vedras (1956) e do Suplemento Cultural do jornal «Badaladas» (1961). Escreveu contos, novelas e romances”. Em 1964 foi viver para Algueirão, onde vive actualmente, mas mantendo-se sempre ligado à sua terra natal

Foi autor  da biografia de António Botto, e de obras como “A Primeira Manhã”, contos, (1964;) “Uma longa e estranha pausa” romance, (1970) “Barcelona, cidade na Catalunha” crónicas, (1972), “Requiem pelos fieis defuntos”(1976) e “Corpo Enigmático”(1993), entre outros,

Publicou textos nos blogues «A Viagem dos Argonautas» e «Estrolábio». “Exerceu durante bastante tempo o papel de crítico de cinema em revistas da especialidade. Tem colaboração espalhada por diversos órgãos da imprensa nacional e regional, sobretudo crónicas de carácter político e social”.

Segundo o próprio, cometeu “um erro na juventude que infelizmente nunca mais o largou:levar a vida a sério.

Em sua homenagem, aqui recordamos o que na altura escrevemos sobre uma das suas obras mais emblemáticas, “Os Guardadores do Tempo”, as crónicas contemporâneas da cidade de Torres Vedras contadas à boa maneira de um Fernão Lopes

 


“OS GUARDADORES DO TEMPO”, de António Augusto Sales é uma daquelas obras que se lê de um fôlego, como se de um romance histórico se tratasse, cruzando personagens inventadas (ou talvez não), com personagens reais, enquadrando devidamente acontecimentos locais nas tendências sociais e culturais que marcaram o País e o mundo nos últimos cem anos.

Torres Vedras e a sua cultura, ao longo de um século, serve de fio condutor a este livro que é muito mais que um livro de História Local, que um Livro de Memórias ou um Romance Histórico, mas é tudo isto no seu melhor.

Historicamente o autor revela um exaustivo e rigoroso levantamento de fontes, cruzando fontes tradicionais com fontes menos ortodoxas como o são as notícias publicadas na imprensa, as fontes orais e a própria memória do autor.

O autor fez um levantamento exaustivo de tudo o que nesta terra marcou a cultura ao longo do último século, não esquecendo mesmo os acontecimentos aparentemente mais insignificantes, mas marcantes naquilo que revelaram de inovador e criativo, ou de fundamental para traçar a identidade desta cidade, fosse de forma meramente  conjuntural ou a um nível mais estrutural.

Tendo o livro nascido do interesse do autor em escrever a história do teatro torriense, acabou por ultrapassar esse âmbito, abordando todos os campos da cultura, das artes e das ideias que marcaram a realidade contemporânea de T. Vedras. Deixa mesmo algumas pistas incontornáveis para quem, por exemplo, tencione fazer a história da rádio, a história da fotografia ou das páginas culturais desta localidade, temáticas ainda pouco exploradas na historiografia local.

Enquanto memória, esta obra está mais próxima da memória colectiva desta cidade do que da mera autobiografia.

A memória, para António Augusto Sales, é, neste livro, mais um instrumento de trabalho, literariamente esculpida ao estilo vivo, divertido e impressionista que caracteriza a sua obra.

Esse mesmo estilo impressionista da escrita de Augusto Sales dispensa qualquer ilustração ou fotografia porque, ao lê-la, conseguimos “ver”, “ouvir” e “cheirar” cada um dos  momento da vida torriense ao longo de um século.

O autor, nesta obra, veste o papel clássico do cronista que, numa linguagem elegante, historicamente bem documentado, não disfarça a sua própria subjectividade, dando-nos, a nós torrienses, o raro privilégio de desfrutar um magnífico fresco histórico sobre esta nossa cidade.

quinta-feira, 24 de abril de 2025

TORRES VEDRAS E AS PRIMEIRAS ELEIÇÕES LIVRES – 25 de ABRIL de 1975


Passam agora 50 anos sobre a realização das primeiras eleições livres em Portugal, que ocorreram em 25 de Abril de 1975.

Foram então eleitos os deputados para a Assembleia Constituinte da qual resultou a constituição democrática de 1976.

Em Torres Vedras, tal como aconteceu por todo o país, essas eleições foram um êxito, com uma abstenção inferior a ...10%!

Note-se, a título de curiosidade, que nas últimas eleições para o Parlamento, realizadas em 10 de Março de 2024 a abstenção no concelho foi de 29,44%, um dos valores mais baixos registado em democracia. 

Torres Vedras tinha um corpo eleitoral com mais de 44 mil eleitores em condições de votarem (em 2024 estavam inscritos no concelho pouco mais de 70 mil eleitores) e a corrida às urnas foi idêntica ao que aconteceu em todo o país.

Concorriam ao círculo eleitoral de Lisboa 11 partidos políticos.

Em Torres Vedras as mesas de voto para essas eleições foram distribuídas do seguinte modo pelas freguesias do concelho:

A – Dos -Cunhados : 8 mesas de voto, 2 na localidade sede, 2 na Maceira, 1 na Boavista, 1 na Póvoa de Penafirme e 2 no Sobreiro Curvo, todas nas escolas dessas localidades e, nesta última, também na sede do grupo desportivo local;

Campelos – 2 mesas nas escolas;

Carmões – 1 mesa na escola;

Carvoeira – 3 mesas, 2 nas Carvoeira, respectivamente na sede da Junta e na Casa do Povo e uma nas Carreiras, na sede da Associação Dramática e Recreativa desta aldeia;

Dois Portos – 4 mesas distribuídas pelas escolas, 2 em Dois Portos, 1 na Ribaldeira e 1 na Bulegueira;

Freiria – 3 mesas todas a funcionar da sede do Sport Clube da Freiria;

Maxial – 5 mesas, 1 em cada uma das escolas da Aldeia Grande e do Outeiro e as outras 3 no Maxial, duas na escola e uma na sede da junta;

Matacães – 2 mesas, ambas na Casa do Povo;

Monte Redondo – 1 mesa na Casa do Povo;

Ponte do Rol – 3 mesas, todas no Salão Paroquial;

Ramalhal – 4 mesas, uma no Salão Paroquial de Vila Facaia, uma na escola do Amial e 2 da escola do Ramalhal;

Runa – 2 mesas na Casa do Povo;

Santa Maria – 3 mesas, 2 na Serra da Vila, respectivamente na escola e no salão do Grupo Desportivo e outra na escola da Orjariça;

S. Pedro da Cadeira – 5 mesas, todas em escolas, respectivamente 2 na de S. Pedro da Cadeira, e uma cada nas de Cambelas, Coutada e Assenta;

Silveira – 5 mesas, todas em escolas, 2 na dos Casalinhos de Alfaiata, 2 na da Silveira, e uma na Boavista;

Turcifal – 4 mesas, três no salão paroquial do Turcifal e outra na sede do Grupo Desportivo da Freixofeira;

Ventosa – 5 mesas, uma na escola do Bonabal, duas na escola da Pedra e duas no Salão Paroquial da Ventosa;

S. Pedro – a maior freguesia urbana com 19 mesas, distribuídas do seguinte modo: uma em cada uma das escolas do Varatojo, da Louriceira, e da Fonte Grada. As restantes 15 mesas distribuíam-se por vário locais da então vila: 11 mesas no edifício da Escola Técnica (a actual Henriques Nogueira), 2 nos antigos Paços do Concelho e duas na “Física Antiga” (1).

O Partido Socialista venceu a nível nacional, distrital e concelhio.

Em Torres Vedras o PS só não foi o partido mais votado em A-Dos-Cunhados, Campelos, Freiria, Silveira e S. Mamede da Ventosa, freguesias onde o então PPD foi o partido mais votado.

Votaram no PS 15 881 torrienses (43,59%) (Nas eleições de 2024 votaram, no PS, 12 174 (24,44%)).

O então PPD (hoje PPD/PSD) foi o segundo partido mais votado a nível nacional e local, tendo obtido 10 091 votos (27,70%) neste concelho (Nas últimas eleições parlamentares esse partido, em coligação como o CDS e o PPM, obteve 14 242 votos (28,60%)). Em 1975, tanto o CDS como o PPM concorreram em listas próprias. Neste concelho o CDS obteve 1 181 votos (3,24%) e o PPM 504 votos (1,38%).

O PCP foi então o terceiro partido mais votado no concelho, com 5 095 votos (13,99%). O seu futuro parceiro de coligações eleitorais, na FEPU,  o MDP, obteve 1 406 votos (3,85%), o que perfaz um total de 6 501 votos (17,84%) nessa área política (nas eleições de 2024 o PCP-PEV obteve, neste concelho, apenas 1 652 votos (3,32%)).

O PCP teve os seus melhores resultados nas freguesias de Dois Portos, Monte Redondo, Stª Maria (vila) e Runa, onde foi a segunda força política mais votada, as mesmas freguesias onde o PPD teve o seu pior resultado.

O pior resultado do PCP, que foi a terceira força política mais votada nas restantes freguesias, foi em Campelos, sendo ultrapassado pelo CDS, que nessa freguesia obteve o seu melhor resultado relativo.

Às eleições constituintes de 1975, com base nas quais se formou o primeiro parlamento democrático, concorreram mais cinco partidos conotados com a esquerda radical. Estes, no concelho de Torres Vedras obtiveram o seguinte resultado: o MES com 370 votos (1,01%), partido cujos militantes mais destacados vieram mais tarde a integrar o PS; a FSP, uma cisão à esquerda do PS, após o congresso de Janeiro desse ano, que obteve 794 votos (2,17%); o LCI, de tendência trotskista, obteve 307 votos (0,84%); o FEC (m-l) obteve 281 votos (0,77%) e a UDP 515 votos (1,41%), estes dois de tendência maoista, acabando o primeiro por se fundir no segundo. Por sua vez, após um longo processo de fusões, estes três últimos partidos (LCI, FEC (m-l) e UDP) acabariam por dar origem ao actual Bloco de Esquerda que também terá integrado eleitores oriundos do MES e da FSP. )A título de curiosidade, o BE obteve em Torres Vedras, nas últimas eleições parlamentares, 2 486 votos (4,99%)).

Se a maior parte dos partidos obteve a maior parte dos votos expressos na freguesia urbana de S. Pedro, tal não aconteceu,  curiosamente com o LCI que teve mais votos em A-Dos-Cunhados e com a UDP ( que elegeu dois deputados pelo círculo de Lisboa) que teve mais votos em 4 freguesias rurais do que nas freguesias urbanas, nomeadamente na Silveira, S. Mamede da Ventosa, A-Dos-Cunhados e S. Pedro da Cadeira.

Dois deputados de Torres Vedras foram eleitos para a Assembleia Constituinte, Alberto Avelino pelo PS e Afonso de Moura Guedes pelo PSD. Estes são os dois nomes de Torres Vedras que são referidos no site da Assembleia da República.

Contudo esta informação carece de correcção, que nos foi dada por José Damas Antunes:

"Moura Guedes não foi eleito directamente, o PPD só elegeu 9 deputados por Lisboa, o Afonso ía em 10º, entrou logo mas a substituir Magalhães Mota, que estava no governo. Há outro Deputado de Torres Vedras, o Furtado Fernandes, eleito por Santarém, e outros que morava em Torres Vedras, o Bento Gonçalves, eleito pelo Porto".

Aqui ficam alguns documentos para recordar esse momento fundador da democracia parlamentar, cujo cinquentenário se comemora este mês.

(1)      Os dados aqui referidos baseiam-se nas informações disponibilizadas nas páginas do jornal Badaladas publicadas nas edições de Março e Abril de 1975.

 

 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Torres Vedras - Da ditadura de Pimenta de Castro à "2ª Revolução"(Jeneiro-Maio 1915)

(Imagem de populares na Revolta do 14 de Maio de 1915. Fonte: RTP)

Em 21 de Janeiro de 1915, na sequência do chamado "Movimento das Espadas", protesto pela demissão do então Major João Craveiro Lopes, o general Pimenta de Castro foi convidado a formar governo pelo presidente Manuel de Arriaga. Apoiado pelos "evolucionistas", pelos "unionistas", por parte do exército, por monárquicos e pela Igreja, cedo esse governo se revelou como tendo por objectivo principal combater a influência do Partido Democrático (PRP), perseguindo-os ferozmente. Em 4 de Março o governo entrou em ditadura, encerrando o parlamento. Os "democráticos" procuraram resistir, transferindo o parlamento para o Palácio da Mitra, em Santo Antão do Tojal, no concelho de Loures, onde, reunindo as duas câmaras, aprovaram por unanimidade uma moção apresentada por Afonso Costa, declarando o Governo fora da lei e nulos todos os actos governativos.

Em 1 de Março a Câmara de Torres Vedras, exclusivamente dominada pelo PRP, resolve enviar ao directório desse partido um telegrama onde dá conhecimento da deliberação tomada por unanimidade, na sua sessão plenária extraordinária, realizada nessa data, apoiando o "protesto contra medidas dictatoriais | do | actual governo"(1).

Por outro lado, não disfarçando o seu apoio ao governo de Pimenta de Castro, o jornal "A Vinha de Torres Vedras", então já sob direcção de Júlio Vieira, comentava  de forma irónica e em termos críticos aquela reunião:

"(…) reuniu extraordinariamente o Senado Municipal de Torres Vedras.

"Quando do caso soubémos, e já tarde, aprove-nos indagar que questão de alto interesse publico levou a camara a reunir em sessão extraordinária.

"Tratar-se-ia de resolver algum problema urgente em beneficio do concelho?

"Ir-se-ia representar ao governo, apresentando alguma reclamação em defesa da Lavoura, para atenuar a crise gravissima por que estamos passando? Iria a camara cuidar dos interesses dos munícipes, resolvendo algum problema para acudir á carestia dos generos?

"Nada disso.

"Tratou-se tão sómente de política...

"(...)O que resolveu a Camara? Protestar contra a Lei eleitoral e contra as arbitrariedades  do actual governo, em nome do concelho de Torres Vedras, como se o nosso concelho se prestasse, porventura, a forças desta natureza” (2).

A Câmara acabou por ser dissolvida em  22 de Abril,  substituída por uma comissão administrativa cuja posse, em 27 de Abril, teve de enfrentar uma forte resistência por parte dos "democráticos", acontecimento  descrito pelo porta-voz local do PRP, o jornal "A Voz de Torres":"(...) Também chegou a esta linda região de Torres o espadagão ferrugento do terribil  Pimenta. O velhote esbraveja em descompassadas convulsões. É um verdadeiro macaco dentro d'uma loja de louça(...).

"A obra patrioticamente republicana da estimada vereação do municipio d'esta vila foi vilipendiada, tristemente, pelos azedumes d'esse monstro que se chama Pimenta de Castro (...)" (3).

Uma outra versão dos acontecimentos era dada pelo presidente nomeado dessa comissão, em carta dirigida ao Governador Civil de Lisboa, datada de 29 de Abril, queixando-se principalmente da passividade do administrador do concelho:

"(...)Tendo-se dado nesta vila, acontecimentos de que poderiam ter resultado consequencias bem pouco agradaveis, no acto de posse da comissão a que tenho a honra de presidir,(...) e atribuindo esta Comissão tão lamentavel factor á falta de energia de quem tinha por dever assegurar a manutenção da ordem publica num acto que era de esperar fôsse concorrido e que muito mais o foi, devido ás hesitações da mesma autoridade que féz com que esta comissão tivesse de esperar 5 horas para lhe ser dada posse, demora esta que estabeleceu o ridiculo num acto que, por todos os motivos deveria ser praticado com respeito devido às ordens emanadas do Govêrno da República e que colocou esta comissão na contigencia de ter de ouvir no acto da posse frases menos respeitosas e, á saida dos Paços do Concelho, ser enxovalhada com vaias e assobios, acontecimentos estes que tiraram áquela autoridade todo o prestígio, não pode esta comissão deixar de vir perante V.Ex.ª narrar estes factos, para que V.Ex.ª se digne providenciar como tiver por conveniente(...)" (4).

A esmagadora maioria dos 14 membros da comissão administrativa fazia parte do Partido Evolucionista.

Contudo, esta comissão durou por pouco tempo, pois foi afastada em consequência da "Revolução de 14 de Maio" que derrubou Pimenta de Castro.

Temendo que o próximo acto eleitoral, marcado para Junho, viesse a realizar-se sob controle do governo,  possibilitando que , nessas condições, se legitimasse a perda de influência do PRP a favor dos seus adversários, enquanto, por outro lado, se temia a crescente tolerância do governo em relação aos monárquicos, cedo os "democráticos" encararam a necessidade de organizar um golpe de força para derrubar a ditadura e repor a situação anterior.

O rompimento do Partido Unionista com o governo, foi o pretexto para a conspiração avançar.

A Junta Militar que desencadeou a "Revolução de 14 de Maio" era dirigida por vários militares ligados maioritariamente à maçonaria, desempenhando Afonso Costa, nos bastidores, um papel fundamental na mobilização dos civis ligados ao Partido Democrático e à "Formiga Branca", enquadrados pela quase totalidade da Marinha de Guerra e da Guarda Fiscal e por parte do Exército, que foram a principal base de apoio militar que permitiu o êxito da revolução.

Para muitos republicanos esta revolução foi uma espécie de "refundação" do regime. Teve maior participação popular, foi muito mais violenta, de maior duração, abrangendo os seus combates uma área mais vasta que o 5 de Outubro, saldando-se por 102 mortos e 250 feridos graves (5).

Vitoriosa a revolução, o presidente Arriaga demitiu-se em 29 de Maio, elegendo o Congresso, para completar o mandato, Teófilo Braga, voltando a constituir-se um governo maioritariamente "democrático”.

Os republicanos torrienses estiveram activamente envolvidos nos acontecimentos pormenorizadamente descritos pelo anónimo correspondente local do "O Século":

"(...) Acordámos hoje |14 de Maio| sem comunicações telegraficas, cortados os fios em diferentes pontos, com exceção | sic | do Sobral do Mont' Agraço. Os jornaes de Lisboa á sua chegada vieram esclarecer a situação, sendo lidos com extrema anciedade | sic |.Pouco a pouco os animos exaltaram-se e começou a juntar-se gente no largo da Republica, comentando os acontecimentos.

"Ás 13 horas destacou-se d'ali uma comissão (…) dirigindo-se á administração onde foram recebidos pelo (…) administrador do concelho, a quem convidaram a demitir-se. Houve alteração e a comissão saiu sem ter conseguido o seu intuito (...).

"Pelas 18 horas, a estação do caminho de ferro foi invadida, esperando-se a chegada do comboio de Lisboa, que não veiu. E de novo a multidão seguiu para o largo da Republica, voltando a mesma comissão a procurar o administrador no hotel Natividade.

"D'esta vez não o convidaram a demitir-se, intimaram-no. Em face d'isto não havia outro remedio. O administrador seguiu em trem para Runa, com dois revolucionarios, esperando aí o comboio que o conduzisse a Lisboa.

"Foi então investido no cargo o dr. Aurelio Ricardo Belo, entre aclamações á Republica, á Patria e á Constituição.

"Depois a multidão dirigiu-se á praça do Municipio, entrando na camara os srs. dr. Aurelio Ricardo Belo, dr. Celestino da Silva Almendro, António Batista da Costa e Francisco Firmino, falando de uma das janelas os tres ultimos, sendo soltados novamente muitos vivas.

"D'ali foram, dividindo-se em pequenos grupos, que ficaram toda a noite de vigilancia"(6).

A "vigilância revolucionária" continuou  na vila por mais alguns dias e caracterizou-se pela perseguição, expulsão da vila ou saneamento dos cargos  ocupados por personalidades identificadas politicamente com a ditadura derrubada.

Este período excepcional  durou em Torres Vedras entre 14 e 17 de Maio.

Em 26 de Maio a Câmara "democrática", demitida pelo governo de Pimenta de Castro, voltou a reunir ordinariamente, terminando o seu mandato, de acordo com o previsto, em Dezembro de 1917, exactamente no momento em que uma nova ditadura , a de Sidónio Pais, se instalou.

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(1)Registo de Correspondência da Câmara(1-1-1915 a 8-11-1917),Telegrama de 1 de Março de 1915, AMTV.

(2) A Vinha de Torres Vedras, 4 de Março de 1915.

(3) A Voz de Torres, 2 de Maio de 1915.

(4)Registo de Correspondência da Câmara (1-1-1915 a 8-11-1917), carta nº 82 de 29 de Abril de 1915, AMTV.

(5) MARQUES, A. H. de Oliveira, Portugal da Monarquia para a República, pp.711-712.

(6) O Século, 18 de Maio de 1915.

quarta-feira, 17 de julho de 2024

A Transição do Poder Municipal no 25 de Abril


Quando da imposição de uma ditadura militar, em 28 de Maio de 1926, foram dissolvidos todos os corpos administrativos, e nomeadas comissões administrativas para gerir o poder municipal. Esta situação conheceu várias vicissitudes e alterações, resultado da indefinição política saída desse golpe militar, situação que só se clarificou com a aprovação da Constituição de 1933, que inaugurou o regime do Estado Novo.

Só com a promulgação do Código Administrativo de 1936, desenvolvido no Código Administrativo de 1940, se estabilizou o modelo organizativo da administração municipal do Estado Novo.

Uma das medidas tomadas em 1936 foi abolir o cargo de Administrador do Concelho, que tinha sido criado em 1835. Sendo um cargo de nomeação governamental, desde longa data, a suas funções e competências passaram, naquela data, para os Presidentes da Câmara.

A partir de então, o Presidente e o vice-presidente  da Câmara passaram a ser de nomeação governamental. Por sua vez o Código de 1940 dividiu os órgãos de administração municipal em “comuns” e “especiais”.

Dos órgãos “comuns” faziam parte o Presidente da Câmara, a Câmara Municipal e o Conselho Municipal.

Dos órgãos “especiais” faziam parte as Juntas de Turismo e comissões especiais de Turismo, que tinham um papel importante a nível das decisões urbanísticas, as Comissões Municipais de Assistência, com funções caritativas de apoio a populações carenciadas, e um órgão municipal  com funções meramente consultivas nos domínios da arte, arqueologia, higiene e turismo.

Mas eram os chamados órgãos “comuns” que detinham um verdadeiro poder político a nível concelhio. Como vimos atrás, o Presidente e o Vice-presidente do município eram de nomeação governamental, com um mandato de 4 anos sem limites de renovação, liderando o executivo camarário, ao qual se juntavam 6 vereadores nomeados pelo Conselho Municipal. Este Conselho Municipal era um órgão com características corporativas, formado por representantes das juntas de freguesia, das ordens profissionais, dos sindicatos, dos grémios, das Casas do Povo e das misericórdias, todos com o necessário aval governamental.

Quando se deu o 25 de Abril, a câmara torriense era presidida por Joaquim Pedro Belchior Fernandes, que assumiu essas funções em Maio de 1971, vereador municipal desde 1963. O seu curto mandato conheceu algumas vicissitudes. O vice-presidente nomeado para esse cargo, um jovem militar sem experiência autárquica, demitir-se-ia do cargo em finais de 1973, desagradado com o modo como se viu envolvido no encerramento de um comício da oposição democrática, em Outubro de 1973. Foi substituído no cargo, oficialmente em Janeiro de 1974, por um dos vereadores mais antigos, António Maria de Sousa, vereador desde 1959.

Se os dois membros do executivo de nomeação governamental, acima referidos, eram políticos experientes, seis dos  restantes sete vereadores, nomeados pela Conselho Municipal em 1972, não tinham experiência anterior nesse cargo, reflectindo uma certa tentativa de renovação do executivo, característico do período “marcelista” em vigor.

As divergências entre os nomeados pelo governo e os nomeados pelo conselho municipal corporativo vão-se tornar evidentes nos dias a seguir ao 25 de Abril.

A primeira reunião desse executivo, no pós 25 de Abril, teve lugar no dia 29 de Abril, com a presença de vários cidadãos, dentro e fora do edifício, que exigiam a demissão dessa câmara.

Sob a presidência de Joaquim Belchior Fernandes e com a presença da maior parte dos vereadores, um dos seus membros, o vereador Guia, levantou o problema da legitimidade das funções desse executivo, principalmente do seu presidente e do vice-presidente, devido à destituição do governo e do ministro que os tinham nomeado, respondendo-lhe o presidente que se considerava em situação legitima, já que o governador civil de Lisboa, do qual dependia directamente, não tinha sido demitido.

O então jovem vereador Guia apresentou uma moção de apoio à Junta de Salvação Nacional, propondo que a Câmara se colocasse à disposição da mesma, com um voto de apoio ao 25 de Abril, moção aprovada pelos vereadores presentes.

Contudo, essa manobra foi de imediato denunciada por Francisco Fernandes, intervenção aplaudida e apoiada pelo público presente.

Nos dias seguintes a situação evoluiu rapidamente.

No dia 30 de Abril os oposicionistas locais, organizados à volta do CDE, publicam um comunicado intitulado “Saudação ao povo de Torres Vedras” (1), apelando à urgência de se formar uma nova instituição politica e administrativa, tema de muitas das intervenções da grande manifestação do 1º de Maio que percorreu as ruas da vila de Torres Vedras, encerrando com intervenções de , entre outros, Afonso de Moura Guedes, João Carlos, e Francisco Fernandes, responsáveis, nos meses seguintes, pela implantação em Torres Vedras dos três principais partidos fundadores do regime pós-25 de Abril, PSD, PS e PCP (2).

No dia 2 de Maio é publicada um portaria da JSN exonerando todos os presidentes de Câmara, mas não se definindo em relação à restante vereação.

No dia 6 de Maio a Câmara ainda em funções volta a reunir, digladiando-se mais uma vez as duas facções, uma liderada pelo ex-presidente Belchior Fernandes, outra pelo engenheiro Guia, confronto provocado em parte por se ter sabido que o presidente, sem consultar a restante vereação, tinha contactado o Governo Civil, do qual teria recebido ordens para continuar em funções. A facção Guia, criticando essa iniciativa, defende uma deslocação de toda a vereação a Lisboa para contactar a JSN, para porem os seus lugares à disposição da mesma, mas oferecendo-se para continuar a dirigir o executivo camarário até à realização de eleições municipais(3).  

Essa manobra, de tentativa de colagem ao novo regime, habitual noutros momentos históricos (vejam-se as actas da Câmara torriense na primeira metade do século XIX), acabou por fracassar, ultrapassada pelos acontecimentos.

Já sem poderes, mais para encerrar actividade, a câmara deposta ainda se reuniu uma última vez em 13 de Maio, presidida pelo vice-presidente, “presidente” por um dia.

As forças oposicionistas, legitimadas pelo derrube do regime em 25 de Abril, ainda unidas à volta do CDE, depois de várias reuniões públicas, acaba por convocar uma grande Assembleia Popular para 12 de Maio, que decorreu no estádio do Torreense, depois de um jogo do clube, e que contou com mais de duas mil pessoas, para propor a aprovar uma comissão provisória de 18 personalidades, para dirigir o executivo camarário (4).

Depois de uma deslocação a Lisboa, essa comissão reuniu em 14 de Maio com um delegado da JSN, na sede local do CDE (antiga sede local da ANP, ocupada em 26 de Abril), para efectivar a constituição de uma comissão administrativa, reduzida para 9 membros, por sugestão desse delegado, tendo-se escolhido para a presidir Francisco Fernandes.

Essa Comissão Administrativa tomou posse do cargo no dia 15 de Maio, realizando a primeira sessão em 20 de Maio (5).

Essa comissão administrativa conheceu algumas vicissitudes ao longo da sua existência, mas foi responsável por muitos melhoramento e obras de saneamento, de que o concelho carecia, apoiada no voluntarismo da população organizada em dinâmicas comissões de moradores e nas comissões administrativas das juntas de freguesia.

Esteve em funções até Janeiro de 1977, substituída pela primeira Câmara Municipal eleita em 12 de Dezembro de 1976.Mas esta é outra história (6).

(1)    – Documento do aquivo pessoal do autor;

(2)    - CARLOS, João, “Dia 1º de Maio – Festa do Trabalho”, reportagem publicada nas páginas do Jornal “Badaladas” de 11 de Maio de 1974;

(3)    - acta da reunião camarária de 6 de Maio de 1974, in “Voz do Município”, “Badaladas” de 25 de Maio de 1974. Consultem-se igualmente os livros de acta da Câmara, depositados no Arquivo Municipal para acompanhar o que se passou nas referidas reuniões do executivo. Leia-se também o conjunto de artigos da autoria do ex-vereador Guia no jornal “Badaladas”, sob o título de “Os actos incómodos a as actas malditas”, provocatoriamente assinados como “a ex-vereação “Fascista” e a polémica que eles provocaram com vários “oposicionistas”, publicadas nas páginas daquele  semanário entre as edições de 18 de Maio e 29 de Junho de 1974;

(4)    - Convocatória para a assembleia popular de 12 de Maio. Arquivo do autor;

(5)    - CARLOS, João, “Democratas de Torres Vedras aprovaram a nomeação de uma comissão para a gerência da Câmara”, in “Badaladas” de 18 de Maio de 1974;

(6)    - Para acompanhar os vários episódios deste período leia-se a obra fundamental de Andrade Santos, CRÓNICA DE TANTOS FEITOS, 1ª edição, Livros Horizonte, 1986, e com mais duas reedições.

segunda-feira, 15 de julho de 2024

Os primeiros tempos do PPD em Torres Vedras


Num relatório confidencial da secção torriense da Legião Portuguesa, relatava-se a forma como tinha decorrido, em Torres Vedras, no dia 23 de Março de 1973, uma sessão pública da SEDES, onde “o tema foi eleições” e, na “assistência, encontrava-se um tal Dr. Gomes Mota, de Lisboa, que fez várias intervenções tendenciosas de forma a deixar compreender que a única solução política seria ir para a revolução” (1).

O “Dr. Gomes Mota” era o deputado da ala liberal Magalhães Mota, já em ruptura com o regime. A chamada ala liberal foi eleita nas listas da União Nacional nas eleições de 1969, disputadas na esperança de uma evolução do regime. Dela faziam parte, entre outros, para além de Magalhães Mota, Francisco Sá Carneiro e Pinto Balsemão que tinham começado a abandonar o seu lugar de deputados ao longo dos primeiros meses de 1973, em protesto pelo endurecimento do regime.

A SEDES era a “Associação para o Desenvolvimento Económico e Social” criada em 25 de Janeiro de 1970, à volta da chamada ala liberal e visava o debate público de uma liberalização do regime e da sua evolução para um regime democrático.

O advogado torriense, mas com escritório na Lourinhã, Dr. Afonso de Moura Guedes, e a sua esposa Maria Filomena Moura Guedes, foram sócios fundadores daquela associação, respectivamente com os números 109 e 110 (2).

Afonso de Moura Guedes teve uma activa participação na vida cívica torriense desde o início dos anos de 1970, participando em debates nas páginas do jornal “Badaladas”, promovendo debates públicos em Torres Vedras, em nome da SEDES e debatendo a situação social e política com oposicionistas locais.

Chegou a organizar mesmo uma mesa redondo sobre os destinos do município torriense, mas que foi proibido de publicar no “Badaladas” por intervenção do poder local e da censura.

Alguns oposicionistas, como o pai do articulista, foram avisados telefonicamente do 25 de Abril por esse dinâmico advogado.

Quando, em 6 de Maio de 1974, alguns dos membros da antiga “ala liberal”, como Sá Carneiro, Magalhães Mota e Pinto Balsemão, anunciam a criação do PPD (Partido Popular Democrático), um dos primeiros partidos políticos criado após o 25 de Abril, Moura Guedes está na primeira linha da criação de um núcleo local desse partido, contribuindo para que muitos dos membros locais dessa associação também aderissem a esse partido.

A fundação local do PPD foi “a base de partida para a implantação do PPD no Oeste” (3).

Dias antes, na grande manifestação popular do 1º de Maio de 1974, que percorreu as ruas de Torres Vedras, Afonso de Moura Guedes foi um dos oradores.

Oficialmente o PSD de Torres Vedras nasceu no dia 20 de Junho de 1974, data da inscrição do seu militante número um neste concelho, Afonso de Moura Guedes.

O militante nº 2 do concelho foi Luís Afonso Miranda, empregado de escritório, inscrito no dia 2 de Julho de 1974.

No dia 5 de Julho inscreveram-se mais quatro militantes: António Martins Bento, gerente comercial, Armando dos Santos Gomes, comerciante, José Monteiro Gomes, gerente de seguros, Maria do Espírito Santo Simão Miranda, professora, e que foi também a primeira mulher inscrita localmente nesse partido.

José Manuel Lopes Figueiredo, funcionário público, José Rodrigues, controlador industrial. Rui Rola Coelho, electicista, e Francisco Manuel Elias de Carvalho, empregado bancário, que se inscreveram , respectivamente em 20 de Julho, 20 de Agosto, 27 de Agosto e 10 de Setembro de 1974, completam a lista dos primeiros dez militantes do concelho de Torres Vedras.

Sobre esses primeiros tempos, referiu António Bento, que esteve “na fundação do Partido, no início de Maio de 1974, numa reunião realizada no escritório do Dr. Afonso de Moura Guedes, sobre o Café Império”, que a “adesão foi subscrita numa lista, por não existirem propostas”, seguindo-se a constituição da secção de Torres Vedras” (4).

Em Dezembro de 1974, em data não especificada, num Domingo, teve lugar a eleição da primeira comissão política do PPD de Torres Vedras, num plenário presidido pelo Dr. Afonso de Moura Guedes.

De uma lista de 17 nomes foram escolhidos o presidente e os 6 vogais da primeira Comissão política concelhia e 3 membros da Mesa do plenário, a saber:

Presidente : – Afonso de Moura Guedes (advogado);

Vogais : – Manuel César Candeias (funcionário judicial); Luís Afonso Miranda (empregado de escritório);António Martins Bento (profissional de seguros); José Manuel Lopes Figueiredo (canalizador); Secundino Outeiro Pereira (professor do ensino liceal); João Flores da Cunha (farmacêutico);

Mesa do Plenário: - Joaquim José Severino (empregado de escritório); Maria Espírito Santo Miranda (professora); José Joaquim Ferreira da Silva.

Coube a esta comissão, em funções até Janeiro de 1976, organizar, implementar, divulgar e expandir o crescimento do partido a nível local (5).

Enfrentou também um dos períodos mais críticos do pós 25 de Abril, enfrentando as condições difíceis do chamado PREC, entre o 11 de Março e o 25 de Novembro de 1975.

Entretanto, em 4 de Dezembro de 1974 forma-se, oficialmente, o núcleo local da Juventude Social-democrática, com 15 filiados fundadores, e para cuja fundação teve papel de destaque o então jovem estudante do liceu de Torres Vedras, Emílio Gomes (6), com um passado de colaboração com a oposição local ao Estado Novo e ligado à renovação do Cine-Clube de Torres Vedras nos inícios da década de 1970.

Por essa altura também se procurou uma sede local para o partido, que começou por funcionar entre o escritório do Dr. Moura Guedes e o escritório de António Bento, na Rua Dr. Carlos França, nºs 7 e 9, até se instalar num rés-do-chão de uma loja na Praceta Calouste Gulbenkian, em frente à “Física”, espaço cedido gratuitamente pelo Dr. Francisco Bastos, outro histórico desse partido a nível local. Em 1978 mudou a sede para o sito mais conhecido dos torrienses como sede do PPD de Torres Vedras, no último andar do edifício por cima do café Havaneza, de onde apenas se mudou recentemente, em 2023, para a sua sede local (7).

A primeira prova de fogo teve lugar durante a campanha para as eleições para a Assembleia Constituinte que tiveram lugar em 25 de Abril de 1975.

A essas eleições foram candidatos, na lista do partido do Distrito de Lisboa, os torrienses Moura Guedes, Maria Lucília Miranda Santos, conhecida advogada, defensora de presos políticos, Manuel Candeias, Rogério Calhamar e Luís Afonso Miranda, enquanto José Furtado Fernandes, economista ligado a esta região, foi candidato por Santarém.

A Drª Lucília, como era carinhosamente conhecida, foi uma figura de destaque na oposição local ao Estado Novo e chegou a estar ligada à comissão jurídica do partido, acabando por sair do PPD ainda em 1975.

Afonso de Moura Guedes acabou por ser eleito como deputado nessas eleições, tornando-se num dos mais destacados dirigentes do partido (8). Foi reeleito como deputado nas 2ª, 3ª, 4ª, 5ª e 6ª legislatura, e assumindo, durante 8 anos, o cargo de Governador-Civil de Lisboa.

Nessas “Constituintes” de 1975, que foram as eleições mais participadas até aos nossos dias, o PSD foi a segunda força política mais votada no concelho, com 10.091 votos (27,7%), sendo a força vencedora nas freguesias de A-Dos-Cunhados, Campelos, Freiria, Silveira e Ventosa.

O seu pior resultado, nestas eleições, foi registado em Dois Portos, Monte Redondo, Runa e Stª Maria do Castelo, onde ficou em terceiro lugar, atrás do PS e do PCP (9).

Nas primeiras eleições autárquicas, realizadas em 12 Dezembro de 1976, o PSD foi a segunda força política mais votada no concelho, tanto para a Câmara (9 498 votos, 34,4%), como para a Assembleia Municipal (8 255, 30,1%) e no conjunto da votação para as Assembleias de Freguesia (9 898, 36,1%).

Para a Câmara elegeu 3 vereadores, o mesmo número do PS, o partido mais votado. Foram eleitos vereadores o Dr. João Francisco Ribeiro Correias, o engº Ângelo Custódio Rodrigues e Ana Maria Bastos, esta a primeira mulher a exercer estas funções no concelho de Torres Vedras.

Para a Assembleia Municipal elegeu directamente 7 membros, aos quais se juntaram mais 6 presidentes de Juntas de Freguesia.

Elegeu ainda 57 membros de assembleias de freguesia, vencendo nas freguesias de A-Dos-Cunhados, Campelos, Carvoeira, Freiria, Ventosa e Silveira. As freguesias onde obteve os piores resultados foram as de Dois Portos, Stª Maria e Turcifal, ficando atrás do PS e do PCP, não tendo concorrido em Runa (9).

Tendo por base a publicação das listas de candidatos a essas eleições, publicadas na imprensa local, principalmente no jornal “Oeste Democrático”, é possível fazer um retrato aproximado da base sociológica do PPD dos primeiros anos, no concelho de Torres Vedras:

26,7% eram classificados por agricultores e rurais;

15,2% eram comerciantes ou empregados de comércio.

Desagregando as actividades, as cinco mais numerosas eram: agricultor-69; comerciante-28; técnico superior-14; industrial-13; empregado de escritório -11.

Nas elites dirigentes dominavam os técnicos superiores e elementos do sector terciário.

Registe-se ainda, a título de curiosidade, que o partido apresentava 16 mulheres como candidatas, representando 6,1%, a maior percentagem entre todos os partidos concorrentes.

Aqui registamos, no seu cinquentenário, algumas notas sobre os primórdios da vida desse partido neste concelho.

A sua longa história pode ser acompanhada lendo as duas obras de José Damas Antunes citadas nas notas deste ensaio (11).

José Damas Antunes alia, nestas duas obras, o seu grande conhecimento sobre o funcionamento do partido, onde tem exercido um papel activo em termos locais e regionais , com o rigor e objectividade da investigação histórica, área onde já revelou experiência através da autoria de estudos sobre a freguesia de Campelos.

(1)    documento datado de 6 de Abril de 1973, disponível no site “Casa Comum”, da Fundação Mário Soares;

(2)     informação referida no site da SEDES;

(3)    ANTUNES, José Damas, 40 anos de democracia – o PPD/PSD de Torres Vedra, ed. Da Comissão Política Concelhia de Torres Vedras, Abril de 2015, pág.9;

(4)    ANTUNES, José Damas, Contributos para a História do PSD, na Área do Oeste , 1974-2014, Comissão Política Distrital do Oeste, ed.Sinapis, Abril de 2015;

(5)    ANTUNES, in “40 anos…”, pp.17 a 19;

(6)    ANTUNES, “40 anos…”, pág. 39;

(7)    ANTUNES, “40 anos…”, pág.9;

(8)    ANTUNES, “Contributos…”, pp.53 a 55;

(9)    Documentação do arquivo pessoal do autor;

(10) “Eleições para as autarquias locais. Distrito de Lisboa. 1976” ed. Imprensa Nacional, 1976.

(11)esses livros, acima citados, reúnem uma vasta documentação sobre esse partido, recolhendo depoimentos de vários militantes históricos da zona Oeste e de Torres Vedras, histórias e factos que, cronologicamente, marcaram a história política regional.

 

quinta-feira, 11 de julho de 2024

A “Guerra do Bacêlo” (A-Dos-Cunhados - 1935)

(Gravura alusiva à referida revolta . Fonte - Povo Jovem- Janeiro 1975)

A “Guerra do Bacêlo” foi uma revolta popular, que aconteceu em 1935, com principal foco na freguesia de A-Dos-Cunhados (1).

Essa revolta popular foi provocada pelo Decreto Lei nº 24 976 de 1935, que proibia a plantação de vinhas novas, obrigando a que, até 30 de Março de 1936, se efectuasse o arranque das existentes, medida que se enquadrava na chamada “campanha do trigo” do Estado Novo, a qual, segundo os que estudaram essa medida, redundou num enorme fracasso social, económico e ambiental.

Essa revolta foi uma das mais importantes revoltas populares de camponeses na região, uma das primeiras contra o Estado Novo, a primeira luta social do concelho de Torres Vedras referida pelo jornal “Avante”, na sua edição clandestina de Maio de 1935.

Uma força de trinta praças da GNR, com elementos locais, das Caldas da Rainha e de Peniche, tinha-se concentrado em Tores Vedras no dia 7 de Abril de 1935, para acompanharem os agrónomos das “brigadas das vinhas” que íam fazer o levantamento das vinhas ilegalmente plantadas em várias freguesias do concelho, para serem arrancadas posteriormente.

No dia 8 de Abril de 1935, essa força da GNR saiu de Torres Vedras a caminho de A-Dos-Cunhados, por onde se tinha decidido iniciar a ronda pelo concelho, com o objectivo da “manutenção da ordem pública durante os trabalhos da brigada dos vinhos” (2).

Nessa localidade tiveram de enfrentar a ira dos populares, que se opunham ao arranque das vinhas, para muitos o único ganha-pão num tempo de grandes dificuldades económicas.

Ao aproximarem-se daquela localidade, foram ouvidos alguns “morteiros”, lançados pelos populares para avisarem da aproximação daquela força (3).

Os populares, oriundos de “Cunhados, Sobreiro Curvo, Bombardeira, Palhagueiras, Casais, etc.”(4), avisados antecipadamente da deslocação, vinda de Torres Vedras, dessa força da GNR, já se tinham juntado no Largo da Cruz e lançado foguetes de aviso e repicado os sinos.

Entrando la localidade, por volta das 11 horas da manhã, a GNR ocupou o largo principal,  ao mesmo tempo que se destacava “um esquadra para ocupar as imediações da Egreja a fim de evitar que o sino tocasse a rebate, como é costume no concelho de Torres Vedras, e ainda “ proteger o flanco esquerdo do local onde se encontrava o comandante dessa força, “visto que o direito estava apoiado numa edificação e a rectaguarda protegida por outra edificação”.

Também as mulheres que se juntaram aos homens na manifestação, incitaram com gritos “a bradar que “que tinham fome”, que ninguém lhes dava trabalho, “que nunca consentiriam no arranque de uma única cepa” (5).

Aos gritos, os rurais que aí se tinham concentrado, “começaram o ataque à força” da GNR, a quem arremessaram pedras, usando “forquilhas, enxadas, varapaus, machados, pás e rodas de forno, entre outras”, mas sem armas de fogo(6), para enfrentaram as autoridades, estas bem armadas, repelem o ataque “pelo fogo”(7) e à coronhada, redundando o confronto em vários feridos entre os populares e os guardas.

“Guardas mandam tiros para o ar com o fim de assustar o povo que começa já a aparecer em grande número. Alguns fogem. Os que ficam estão sob o seu olhar e armas (…). Eis que aparece o Sr. José Ferreira do Sobreiro Curvo, já de idade avançada que grita para os guardas: “Ah, seus sacanas, com que então querem arrancar o bacelo?!!!...Levanta ameaçadoramente a enxada que traz consigo, na direcção dos mesmos e…Este  acto tem a força de uma forte ventania ao passar por uma fogueira prestes a extinguir-se. Ateiam-se as brasas de uma guerra entre G.N.R e povo” (8).

Os confrontos estenderam-se à localidade vizinha do Sobreiro Curvo, pois as “mulheres do Sobreiro Curvo apetrechadas dos seu armamento”, rodos e pás de forno, “escondem-se debaixo da ponte mais próxima da igreja. Atravessam a rigueira para o lado de A-Dos-Cunhados e passam para a confusão (…).Instalam-se alguns guardas na estrada em frente do átrio da igreja não deixando passar quem quer que seja vindo do S. Curvo”, mas muitos ainda conseguiram passar.

Entre as mulheres envolvidas nos confrontos contra os guardas destacou-se uma tal “Victória Ferrador”, “a quem o povo chamou “ a padeira de Aljubarrota”, mulher de “grande relevo”, que, no confronto, salvou “um homem indefeso de apanhar tareia, onde intervêm seis guardas. Com um rodo de forno põe todos em debandada”(9).

Do confronto resultaram feridos 35 “rurais”, “mais ou menos gravemente”, e um soldado da GNR “ferido na cabeça por uma enxada” (10).

A maior parte dos feridos populares desse confronto foram conduzidos para os hospitais da Lourinhã e de Torres Vedras. Neste último, os “18 ou 20” que recorreram aos serviços hospitalares desta vila, foram presos pela GNR, enviados para a cadeia do posto local desse guarda. Alguns dos feridos foram enviados para o hospital de S. José.

Imposta a “ordem”, no dia 9 efectuou-se o levantamento das vinhas ilegais naquela freguesia, para se proceder ao seu arranque.

Para os dias seguintes foi programado o mesmo trabalho para outras freguesias do concelho, chegando a informação ao comandante da força da GNR que estava em Torres Vedras que “os rurais de Aldeia Grande, Maxial e Ermigeira, armados, marchavam sobre Torres Vedras”, pelo que foram colocadas forças da GNR, bem armadas, nas entradas da vila que faziam ligação com aquelas aldeias, o que demoveu os “sublevados”. No dia 12 de Abril a GNR avançou para aquelas localidades, prendendo “os cabeças de motim da sublevação”, apreendendo-lhes espingardas de caça e os “respectivos cartuchos”.

Correram igualmente rumores de que “Dois Portos queria resistir e impedir o trabalho da brigada”, para aí se deslocou a força da GNR, mas não se tendo aí registado “a menor manifestação de desagrado”.

A partir de então o serviço daquelas brigadas “correu sem novidade”, retirando-se as forças da GNR de fora do concelho após o fim do levantamento das brigadas das vinhas neste concelho no dia 24 de Abril (11).

(1)    Ver:  obra colectiva “A-Dos-Cunhado – Itinerário da Memória”, ed. 2002 ;  “Guerra do Bacelo (…)”, recolha oral por António Moreira, Maria do Céu Nunes e António Vassalo, nas edições nº 1 e nº 2, de Janeiro e  Fevereiro de 1975, do jornal “Povo Jovem”;   SANTOS, Andrade, “Revolução e morte no Convento da Graça” in Badaladas de 8/1/2021;  relatório dos acontecimentos enviado pelo posto da GNR de Caldas da Rainha para o Ministério do Interior datado de 1 de Maio de 1935, existente no arquivo Nacional da Torres do Tombo (o autor agradece a oferta que lhe foi feita por João Flores da Cunha de uma cópia deste relatório);

(2)    relatório da GNR, acima referido;

(3)    relatório da GNR;

(4)    in Povo Jovem de Janeiro de 1975;

(5)    relatório da GNR;

(6)    in Povo Jovem de Fevereiro de 1975;

(7)    relatório da GNR;

(8)    in Povo Jovem de Fevereiro de 1975;

(9)    in Povo Jovem de Fevereiro de 1975;

(10)relatório da GNR;

(11)relatório da GNR.

segunda-feira, 5 de junho de 2023

As Origens do Partido Socialista em Torres Vedras


Fundado em 19 de Abril de 1973, no exílio alemão, o actual Partido Socialista só surgiu em Torres Vedras já depois do 25 de Abril, embora tenha existido, no início do século XX um primitivo Partido Socialista com alguma actividade em Torres Vedras.

Em Portugal as primeiras manifestações do ideário socialista ocorreram na década de 70 do século XIX, na sequência da “Comuna de Paris”, acontecimento que teve lugar entre Março e Maio de 1871, que acabou com a repressão sangrenta sobre os revolucionários franceses.

Nesse mesmo ano de 1871, em Agosto, o genro de Karl Marx, Paul Lafargue, deslocou-se a Portugal para reunir com os membros locais da Associação Internacional dos Trabalhadores, organização fundada por ocasião da Primeira Internacional (1864-1876), visita que motivou a fundação da “Fraternidade Operária”(FO)  em Janeiro de 1872.

Devido às perseguições policiais e ao incipiente peso social e económico do operariado português, a FO extinguiu-se em 1873.

Muitos dos membros da FO, apoiantes em Portugal da Primeira Internacional, fundaram , em 1875, o primeiro Partido Socialista português.

Entre os fundadores estiveram Aznedo Gneco, José Fontana e, entre cerca de uma vintena, um homem que veio a estar muito ligado a Torres Vedras, Manuel do Nascimento Celestino Aspra.

Foi este Celestino Aspra, tipógrafo de profissão, que esteve ligado à divulgação de algumas ideias associadas a esse primeiro socialismo, como o mutualismo operário, sendo um dos fundadores da "Associação Mutualista 24 de Julho de 1884” (1).

Fundador da primeira tipografia torriense, a esta estiveram ligados os dois primeiros jornais editados em Torres Vedras, “O Jornal de Torres Vedras” (Janeiro de 1885 a Dezembro de 1886) e “Voz de Torres Vedras” (Fevereiro de 1887 a Janeiro de 1890).

Foi num artigo do jornal “ Voz de Torres Vedras”, de 6 de Julho de 1889, intitulado “As Classes”, que se publicou a  primeira referência local à obra e pensamento de Karl Marx, a propósito do qual o articulista se interrogava : “Quem não sente o arruído das classes escravizadas pelo salário, classes que em altos brados reclamam por toda a parte o seu quinhão no banquete social, apresentando-se para tomarem nas suas mãos o destino d’este mundo (…)?”.

Em plena 1ª República, o candidato socialista pelo Círculo de Torres Vedras às eleições para deputado de 1915, Raul dos Santos Palermo, recebeu um total de 20 votos neste concelho, de um total de 1644 expressos. Esse mesmo candidato, o único “socialista”, voltou a apresentar-se por este círculo em 1919, recebendo 23 votos de um total de 860 (2).

Foi em Abril de 1917 que se fundou um “Núcleo de Propaganda Socialista de Torres Vedras”, iniciativa acolhida “com viva satisfação pela classe operária”, ficando as adesões a cargo de José Augusto Correia Lemos, na Rua Mouzinho da Albuquerque, nº 32, r/c. A inauguração desse Núcleo ficou marcado para 1 de Setembro, numa “sessão de propaganda, numa colectividade”, estando programada a actuação de um “sexteto” de Lisboa que “executará o hino operário “A Internacional” (3).

Na sequência dessa iniciativa, o núcleo local do Partido Socialista, liderado localmente pelo marceneiro António Vicente Santos Júnior, concorreu, pela primeira vez, e única durante esse regime, às eleições autárquicas, em Maio de 1919, obtendo 45 votos.

Em 1931, por ocasião da tentativa de formação de uma frente única republicana para enfrentar a recém criada União Nacional nas eleições para o parlamento prometidas pela ditadura do 28 de Maio,  (4) foi eleito como representante local da chamada Frente Republicano-Socialista, em sessão realizada no Teatro-Cine em 28 de Junho desse ano, pelo núcleo local do Partido Socialista, aquele mesmo António Vicente (5).

A partir da década de 30 do século passado não se regista qualquer actividade do Partido Socialista em Torres Vedras, proibido que estava pelo Estado Novo. A partir dessa década a oposição é liderada por republicanos históricos e pelo cada vez mais influente Partido Comunista Português.

Muitos dos fundadores do actual PS torriense vieram da oposição ao Estado Novo e, em vésperas do 25 de Abril, participaram em eventos unitários, ora nas acções da oposição, ora assinando documentos contra a “situação”, junto com outros oposicionista locais, como foi o caso, por exemplo, de um João Carlos, um Dr. Augusto Troni, uma Leonia Rodrigues ou um Sérgio Simões.

Foi em documento de 4 de Maio de 1974 que a “Comissão Concelhia de Torres Vedras do Partido Socialista” apresentou “À População do Concelho de Torres Vedras” a “declaração de princípios” do partido, anunciando para breve a inauguração da sua sede local, que se situou numa vivenda na Av. 5 de Outubro, que existiu a poente do “Pacar”.

Em documento de 7 de Junho de 1974, apresentou-se publicamente a lista de nomes que integraram a “Comissão Provisória da Secção Concelhia de Torres Vedras”, composta por 26 nomes (ver imagem em anexo).

Concorrendo pela primeira vez a eleições, nas “Constituintes” de 25 de Abril de 1975, o Partido Socialista foi o mais votado no concelho, com 15 881 votos (43,59%), embora não tenha vencido em todas as freguesias (foi derrotado pelo PPD em A-Dos-Cunhados, Campelos, Freiria, Silveira e Ventosa).

Nas primeiras eleições autárquicas, realizadas em 12 de Dezembro de 1976, o PS venceu, sem maioria absoluta, com 10 073 votos (36,73%), em lista encabeçada por Alberto Avelino (6).

Para além de ter sido o primeiro presidente eleito da Câmara Torriense, Alberto Avelino tinha sido deputado na Constituinte de 1975, voltando a estas funções de deputado mais tarde e exercendo, durante 12 anos, o cargo de Governador Civil de Lisboa, sendo uma das figuras históricas do novo PS.

Em termos locais, esse partido tem dominado a liderança municipal desde essas eleições de 1976, caso raro em Portugal.

(1)    - leia-se “Associação de Socorros Mútuos 24 de Julho de 1884. Nos primórdios do associativismo operário em Torres Vedras”, in Turres Veteras X - História do Sagrado e do Profano, Lisboa, ed. Colibri-CMTV, 2008, pp.231-245;

(2)    - ver  “Republicanos de Torres Vedras”, ed. Colibri e CMTV, 2003;

(3)    - leiam-se as edições de 5 de Abril e 19 de Julho de 1917 de “A Vinha de Torres Vedras”;

(4)    -  as tão esperadas eleições para a Assembleia Nacional realizaram-se apenas em 16 de Dezembro de 1934, “disputadas” unicamente pelo  movimento da ditadura, a União Nacional, força política que se manteria como “partido” único até ao 25 de Abril;

(5)    - ver Gazeta de Torres de 14 de Junho de 1931;

(6)    – muitas destas informações foram recolhidas no arquivo pessoal do autor.

ANEXO:

Documentos para a História do PS em Torres Vedras