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quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Largo Jaime Batista da Costa – o “Centro” da Praia de Santa Cruz

A actual localidade da Praia de Santa Cruz nasceu, em grande parte, à volta do actual Largo Jaime Baptista da Costa, mais conhecido pelo Largo da Havaneza.

Esse largo ocupa o centro da área maior de uma “plataforma” avançada, no topo de uma arriba, espécie de promontório, centro do cruzamento de várias ruas e edifícios icónicos dessa praia.

Está confinado, a oeste, pelo conhecido edifício da “Havaneza” e pela capela de Santa Helena, a sul pela azenha, existente já no século XV, a norte pelo “pisão” ou “ribeira da Estacada”, que recebia a água do casal dos Feros e que pertencia aos domínios do Convento de Penafirme, actual limite entre as freguesias de A-Dos-Cunhados  e Silveira, e a leste por uma vasta zona de dunas, hoje reduzida pela urbanização e pela abertura de uma extensa rua que segue para o Parque de Campismo.

Até ao século XIX, fazia-se a distinção entre a “Azenha”, o “Pisão” e  “Santa Cruz de Ribamar”, designação esta desde o século XVI, pois no século XV é referida com “S. Gião de Ribamar” .

Aquela distinção manteve-se ainda, pelo menos até 1862 (1). Só nos finais desse século é que aqueles três sítios distintos passaram a ser designados, no seu conjunto, por “Santa Cruz”.

Deve-se a Jaime Batalha Reis uma das primeiras descrições, datada de 1870, da “moderna” Santa Cruz: “A povoação reduzia-se a poucas casas espalhadas sobre as ribas (…) muito pitorescas, altas e de estratos vivamente coloridos” (2).

Essa descrição refere-se a uma estadia de Batalha Reis, na companhia de Antero de Quental, comprovando-se por ela ter sido à volta daquele largo que se desenvolveu o núcleo urbano de Santa Cruz: “morávamos n’uma casinhola térrea, das últimas habitações, ao sul, que voltava as costas a todas as outras”, isto é, as situadas à volta do largo.

A referida “casinhola” a “sul” situava-se na rua que desce para a praia, por detrás do demolido “casino” e que termina junto da “Torre”.

Grande parte desse núcleo urbano cresceu, de forma desordenado, à volta dessa plataforma natural:

“As habitações rebellaram-se contra as symetrias modernas e foram-se construindo ao acaso, trepadas nas alturas.

“Os proprietários, respigando ainda umas noções do Bello nos destroços das theorias realistas, foram escolhendo os bons sítios e d’ahi os bons panoramas que de todas ellas se disfructam” (3).

Ligada por estrada a Torres Vedras a partir de 1902, aquela praia atraiu cada vez mais as elites da vila, que aí construíram segundas habitações para passar o verão em Santa Cruz.

Entre as primeiras famílias referenciadas como proprietários de algumas dessas habitações encontravam-se as de apelido Bacelar, Miranda, Vilela, Roque Pedreira, Santos Bernardes, Bastos e Sousa Machado (4).

Pela sua centralidade, foi esse largo escolhido para ponto de chegada e partida das primeiras “carreiras” automóvel para a Praia de Santa Cruz, iniciadas no Verão de 1911 pela empresa de António Capote.


Outras empresas vão surgir ao longo do século XX para transportar veraneantes para Santa Cruz, escolhendo aquele Largo ou as sua proximidade como ponto de largada ou recolha de passageiros: João Henriques dos Santos a partir de 1923;  Empresa Sociedade Progresso de Santa Cruz a partir de 1925, tendo como sócios Joaquim Morais de Castro, Guimarães Júnior e José Duarte Capote sobrinho, cujos direito foram adquiridos por Ruy da Costa Lopes em 1928, sendo este o único operador em 1941, ano em que este, por sua vez, cede os direitos à empresa Capristanos da Caldas da Rainha, mais tarde adquirida pela empresa Claras, que operou esta linha de camionagem até 1975 (5).


Em 1917 António Batista da Costa referia-se ao crescimento da localidade:

“No século passado [XIX], à semelhança que as respectivas populações se iam pouco a pouco desenvolvendo, alguns indivíduos de Lisboa e Torres Vedras mandaram ali construir alguns prédios. Actualmente está um lugar grande e bonito com seu elegante salão onde se faz musica e dança, pertença do snr. Fernando Bacelar; um Hotel, propriedade do popular Maria Sabe Tudo [Hotel Miramar], mercearias, etc.

“Quasi todos os indivíduos mais ou menos abastados de Torres Vedras, ali tem mandado edificar a sua casa ou o seu chalet” (6).

Só nos anos 20 do século XX é que se tentou começar a planificar o crescimento urbano dessa localidade.

Em 1921 foi criada a “Comissão de Iniciativas das termas dos Cucos e Praia de Santa Cruz”, pela Lei nº 1152 de 23 de Abril .

Aquela Comissão nomeou, em 12 de Abril de 1923, para a “comissão de Iniciativas da Estância da Praia de Santa Cruz” um conjunto de notáveis para elaborarem, entre outros “melhoramentos”, um plano de urbanização para essa localidade, apresentado em 1924 (7).

Essa comissão durou até 1934, embora só tenha sido extinta oficialmente em 1936, passando as suas funções para a Comissão Municipal de Turismo, criada em 1937.

Faziam parte dessa comissão o Dr. Justino Xavier da Silva Freire, como presidente, José António Baptista Ribeiro, como vice-presidente, José Lobo Mendes, como 1º secretário, José Pedro Veríssimo, como 2º secretário, José Pedro Lopes, como tesoureiro, e José Joaquim de Miranda, como administrador delegado. Essa comissão sofre uma ligeira remodelação, por falecimento do Dr. Freire, passando a ser presidida pelo Dr. Afonso Vilela, entrando também para ela José Duarte Capote Sobrinho. Dela fizeram parte, ao longo da sua duração, figuras como Victor Cesário da Fonseca ou Júlio Vieira, entre outras.

A planta desse plano de urbanização acima referiso, actualmente existente na Área de Planeamento da Câmara Municipal de Torres Vedras, confirma a centralidade do Largo no conjunto do núcleo urbano de Santa Cruz nos anos de 1920 (8).



Deve-se a essa comissão a renovação do largo, decidida numa reunião em 2 de Março de 1926 para tratar “da reforma do Largo principal de Santa Cruz que a Camara Municipal, com um muro que ali mandou construir, transformou para pior”, enviando-se um pedido à Câmara, feito “pelos proprietários e frequentadores da Praia”  para que se processem as obras necessárias para dar ao largo “um aspecto melhor do que tem desde que ali se construiu um muro de suporte de terras” (9).

Em 25 de  Novembro  desse ano, o livro de actas dessa Comissão refere a apresentação do “projecto da obra da muralha de Santa Cruz, feita pelo vogal desta comissão, senhor João dos Santos Ghira, engenheiro e vereador da Câmara”, projecto aprovado nessa sessão, obra adjudicada a “José Miguel Tigelinha” (10).

Em sessão de 21 de Maio 1930 essa comissão resolveu “adquirir duas pequenas casas abarracadas na praia de Santa Cruz, para serem demolidas, a fim de tornar mais ampla a entrada para o Largo principal” (11).

Em Agosto desse mesmo ano surgiu a primeira sugestão para a toponímia de Santa Cruz, onde se propõe batizar o referido Largo com o nome de Jaime Batista da Costa.

Essa proposta foi apresentada pelo tenente António Victorino França Borges em sessão ordinária da Comissão Executiva da Câmara Municipal de 1 de Agosto de 1930, para homenagear personalidades que tinham contribuído para a instalação da iluminação eléctrica nessa praia.

Foram assim aprovados, nessa sessão, os seguintes topónimos:

Rua nº 7 – José Guimarães Pinheiro;

Rua nº A – José Joaquim de Miranda;

Rua nº 4 – José Pedro Lopes;

Largo nº 3 – Jaime Batista da Costa;

Rua nº 14 – António Palha Figueirôa Rego;

Rua nº 8 – Júlio Vieira.

Em sessão de 22 de Agosto foi acrescentado:

Largo nº 4 – Francisco Maria Bacellar;

A justificação para a dar àquele Largo o nome de Jaime Batista da Costa foi por ter sido ele “o iniciador da iluminação e do saneamento da referida praia, sendo a sua morte em parte devido à sua dedicação por aquela povoação” (12).

Jayme Augusto Baptista da Costa foi secretário da Câmara Municipal entre 8 de Agosto de 1901 e 16 de Setembro de 1909, tendo falecido em Outubro deste ano.

Terá sido o técnico camarário responsável pala execução da instalação da iluminação pública na Praia de Santa Cruz, iluminação a gaz acetileno, com 8 candeeiros obtidos por subscrição pública, inaugurada em 27 de Setembro de 1909, poucos dias antes seu do falecimento (13).

Ainda nos anos 30 foram executadas várias obras naquele largo.

Em sessão camarária de 13 de Outubro de 1934 o concessionário da iluminação eléctrica da Praia de Santa Cruz informou que podia “fornecer iluminação pública ao Largo Jaime Baptista da Costa (…) com uma lâmpada de 50 velas, de 1 de Novembro a 30 de Junho, pela quantia de 100$00 mensais” (14).

No ano seguinte, em reunião de 17 de Julho de 1935, a Comissão de Iniciativas apreciou “o projecto da pavimentação e esgotos do Largo Baptista da Costa”, enviado à Câmara para aprovação. Contudo, dois anos depois, como se lê nas actas daquela Comissão, essa obra continuava por executar.

Hoje podemos apreciar, à volta desse Largo, alguns dos edifícios mais antigos e icónicos da localidade, raros sobreviventes do caos urbanístico das décadas de 70 e 80 do século passado que tanto descaracterizou muitas praias do litoral.

Como sobreviventes de uma Santa Cruz doutros tempos restam, à volta ou nas proximidades desse largo, edifícios como a capela de Stª Helena, o café Havaneza e a Pensão Mar Lindo, o chamado edifício Miranda, a casa do “alpendre”, a casa da “famílias Mota” , a Pensão Perpétua e, embora oficialmente fora dos limites troponómicos do largo, mas fisicamente integrada no mesmo, a casa da família “Santos Bernardes”.


A actual ermida de Stª Helena é de segunda fundação, já que existe referência a uma mais antiga, mais junto das arribas, que terá ruido por efeito da erosão, possuindo tombo feito em 1507 e reformado em 1540 (15).

A Ermida, junto à entrada sul do Largo, foi construída no século XVIII, sofrendo algumas alterações já no século XX, tendo sido pela mesma altura construídas as habitações que estão encostadas ao monumento.

Deve-se, aliás, à evocação de Santa Helena o nome do lugar.

Segundo a lenda, foi descoberta uma imagem de Santa Helena, por baixo de uma rocha na praia da Amoeira. A santa era mãe do Imperador Constantino, primeiro imperador cristão de Roma e a lenda atribui-lhe a descoberta, em Jerusalém da Cruz onde Cristo foi crucificado.

Junto dessa capela costumava-se realizar a Festa da Santa, em 3 de Maio, com círio saído de Torres Vedras, tendo como momento alto a bênção do gado.

Durante esse dia realizava-se festa junto à capela e a “a população comemorava a “Bela Cruz” colocando cruzes de flores nas portas e levava os animais para o adro da capela para serem benzidos” (16);


Outro edifício a delimitar o Largo pelo oeste, é o “Hotel Havaneza”, inaugurado em 1905, com salão de chá no 1º andar, conhecido mais tarde por “Mar-Lindo”, e onde existiu, nas suas traseira, o primeiro casino de Santa Cruz inaugurado em 5 de Agosto de 1925 (17).

No “Mar-Lindo” hospedou-se durante muitos anos, na décadas de 50, o poeta e escritor João de Barros, aí recebendo muitas vezes o seu genro, Marcelo Caetano, último presidente do conselho do Estado Novo.






No rés-do chão desse edifico, no lado esquerdo, existiu o edifício “A Veneza” de José Duarte Capote (18),  tendo funcionado nas traseira, viradas para o oceano, durante muitos anos, o posto de correios da localidade.

Por volta nos de 1950 foi o edifício aumentado com um andar.

Pelos anos de 1930 foi construído outro edifício icónico junto à “Havaneza”, o chamado Prédio Miranda, com fachada virada para norte decorada com 6 azulejos com vistas de Santa Cruz e Torres Vedras da autoria de Luís de Campos e encimada por uma estatueta, Nossa Senhora da Esperança (19).

A norte do largo está a “casa do alpendre”, da “família Loureiro”, com um original alpendre de 10 colunas e com azulejos nas paredes laterais da autoria de “R. Santos” produzidos na Fábrica Viúva Lamego, datados de 1927, um deles dedicado a Santa Margarida.

Virados para sul desse alpendre, temos, à nossa esquerda duas casas térreas, uma que pertenceu à família Miranda e outra, geminada, mais comprida, hoje de três portas viradas para o mar, a chamada casa “Mota”, já referenciada no século XIX, construída por João Pinto Mendes que a deixou a umas primas, uma delas avó de Joaquim Alberto Mota, falecido em 1995 com 87 anos (20).


Numa planta de Santa Cruz de 1940 a casa “Mota” está assinalada como “teatro”, mas é um conjunto de pinturas a fresco existentes no interior dessa casa que a tornam mais característica.

Os frescos são da autoria de Francisco Maria Peres (1847-1910), autor de muitas pinturas decorativas em vários edifícios civis e religiosos da região e discípulo de José Malhoa.


Existem trabalhos seus referenciados na Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras, no Convento do Varatojo, no Convento de S. Bernardino, na Igreja de Moita dos Ferreiros, no Lar de S. José e em várias residências particulares, como a do padre Sousa em S. Bernardino, a de Barros e Cunha em Runa, a residência de verão de José Gonçalves Dias Neiva na Azenha dos Cucos, esta infelizmente já destruída, representando um comboio (21).

A de Santa Cruz, na casa “Mota”  é uma “decoração a óleo” composta por “sete medalhões elípticos”, seis dos quais “representam aspectos fiéis e ingénuas perspectivas da velha Santa Cruz de Ribamar, preciosas para o estudo do seu desenvolvimento urbano”.

Um desses medalhões “representa uma sátira ao (…) Francisco Banheiro, em cuja casinha térrea se hospedaram Antero e Batalha Reis”, outro o Penedo do Guincho, tendo colaborado na execução os próprios Batalha Reis e Antero de Quental, quando estiveram nesta praia em 1870 (22).


Outro edifício icónico do Largo é o da antiga “Pensão Perpétua”, da Maria do Rosário Perpétua, localizado a sul, do lado contrário do quarteirão da ermida de Stª Helena, lugar de encontro de pescadores, caçadores e veraneantes, para apreciarem a sua galinha caseira e, como sobremesa, a especialidade da casa, os “sonhos” (23). 

Do lado oposto ao edifício da Havaneza, a leste do largo, ainda existe um dos edifícios mais antigos, documentado nalguns dos primeiros postais de santa Cruz, edifício de 1º andar, ao lado do qual um postal antigo localiza um antigo “Hotel”, numa casa térrea vizinha, assim designado em 1923, talvez a “casa de hospedes” de José Maria dos santos Menau, referida no Annuário da Folha de Torres Vedras  de 1907.

O edifício de primeiro andar, ainda existente, teve um alpendre, visível no postal, e foi construído por Francisco dos Santos Bernardes, conhecido por “Alfazema”, dono da antiga Fonte Nova em Torres Vedras. Aquele edifício ainda hoje pertence aos herdeiros de Santos Bernardes (24).



Já fora do Largo, mais a norte do edifício acima referido, existem duas casas térreas, das mais antigas da povoação, conhecidas pelas “casas do jogo de “criquet”, por causa de um postal de 1923 que mostra um grupo de senhoras a praticar esse jogo junto dessas casas.


O largo foi alvo de uma intervenção de requalificação urbanística no início deste século, cujo projecto, da autoria do atelier “Cinco sentidos”, foi apresentado pelo vereador Jorge Ralha em sessão camarária de 15 de Dezembro de 1998, motivando alguma contestação.

O projecto foi muito criticado nas páginas do “Badaladas”, merecendo destaque um artigo da autoria de Andrade Santos onde se apontavam como principais pontos da discórdia, o facto do projecto assumir “uma ruptura perigosíssima com o lugar”, atentar “contra a história desse lugar”, desfigurar “o espaço e (…) desconcentrar o tempo do Largo e a sua envolvência”(25).

Essa contestação motivou também um abaixo-assinado subscrito por 90 habitantes, entregue no posto de turismo de Santa Cruz,  defendendo a manutenção de, pelo menos, dois pontos: “um canteiro que sempre existiu ali, e que já permanece há pelo menos três gerações” e “os toldos com os bancos que não estavam contemplados no projecto” (26).

Esse projecto integrava o plano de reconversão da orla costeira de Santa Cruz e da área urbana adjacente.

A execução desse projecto, no Largo Jaime Batista da Costa, foi da responsabilidade dos arquitectos Bruno Ferreira e Carlos Tomás e, integrando algumas das recomendações, as obras de reconversão foram assinaladas com uma lápide no centro do Largo, inaugurada em 1 de Julho de 2007.

Hoje esse Largo é um dos mais concorridos da praia de Santa Cruz, centro de alguns dos eventos mais marcantes dessa localidade, e um dos poucos locais a manter as característica da memória urbana e histórica do lugar (27).

(1)    - ver “relação por ordem alfabética dos lugares (…) que há no termo da villa de Torres Vedras (…) feita em 1862”, apêndice nº 9 elaborada pelos anotadores de Madeira Torrespara a 2ª edição, inédita, da parte económica da monografia desse autor, existente em manuscrito no arquivo municipal [AMTV];

(2)    - texto transcrito no jornal “Gazeta de Torres” em 5 de Maio de 1926;

(3)    – texto de Carlos Velloso publicado na “Voz de Torres Vedras” em 8 de Setembro de 1888;

(4)    - REIS, Célia, Cenas da Vida de Torres Vedras, ed.CMTV, 1999, p.95;

(5)    - CARVALHO, Adão e RODRIGUES, António, “A Praia de Santa Cruz em Tempos Idos”, suplemento especial de Toitorres Notícias, Janeiro/Fevereiro de 1999;

(6)    – António Batista da Costa, “Memórias de Torres Vedras”, obra inédita, manuscrita, escrita por volta de 1917, existente no AMTV;

(7)    – seguimos as indicações das actas dessa comissão, existentes no Arquivo Municipal;

(8)    – agradecemos ao sr. arquitecto Nuno Patrício a cedência de cópias dessa e doutras plantas de Santa Cruz;

(9)    – Livro de Actas da Comissão de Iniciativas, AMTV;

(10)   – Livro de Actas da Comissão de Iniciativas, AMTV;

(11)    – Livro de Actas da Comissão de Iniciativas, AMTV;

(12)  – Sessão camarária de 1 de Agosto de 1930, Livro de Actas da Câmara, Livrº 41, fl. 81v e 82, AMTV;

(13)   – ver “A Vinha de Torres Vedras” de 9 e 30 de Setembro e de 14 de Outubro de 1909;

(14)  - Livro de Actas da Câmara de 1934, AMTV;

(15)   – anotadores da parte histórica da monografia de Madeira Torres, 2ª edição, p.110:

(16)    - LUÍS, Maria dos Anjos, in Vários Autores,  Azenha de Santa Cruz- o Espaço, a História e as Gentes, ed. CMTV, 2006;, p.22;

(17)    – in “A Nossa Terra” de 16 de Agosto de 1925;

(18)  - CALLIXTO, Vasco, “Toponímia de Santa Cruz”, in “Badaladas” de 20 de março de 2009;

(19)   – CALLIXTO, Vasco in Badaladas de 22 de Agosto de 2008;

(20)  - MOEDAS DUARTE, Joaquim, “Memórias de Santa Cruz –as pinturas do mestre Peres na casa dos Motas”, in “Lugar Onde”, jornal Badaladas de 24 de Setembro de 2010;

(21) - CARVALHO, Adão de , “Francisco Maria Peres, pintor torriense, condiscípulo de José Malhoa nas Belas Artes”, in Badaladas de 9 de Junho de 1995;

(22) – SALINAS CALADO, Raphael, “Um Pintor Contemporâneo” in Boletim da Junta Distrital de Lisboa, nº 10, 2º semestre de 1945, pp. 399-402;

(23) – Adão de Carvalho, “Um Burro Caçador”, in Badaladas, 17 de Junho de 1994, e Vasco Callixto, “Adeus Perpétua – mais um crime urbanístico em Santa Cruz”, in Badaladas de 16 de Abril de 2004;

(24) – Agradeço as informações prestadas sobre este edifício, bem como sobre a outra “casa do alpendre”,  pela srª Maria Luísa dos Santos da Costa Bastos Bouza Serrano, em comunicação envida pelo chat do facebook em 23 e 24 de Julho de 2020;

(25) – SANTOS, Andrade “As opções urbanísticas em Torres Vedras – Análise a um estudo Prévio para a reestruturação do “Largo da Havaneza” em Santa Cruz”, in Badaladas de 15 de Outubro de 1999;

(26)  – ver Badaladas de 29 de Outubro de 1999;

(27)  – Para além dos textos e documentos referidos nas notas anteriores, também nos baseámos na leitura de outras obras fundamentais para conhecer a história de santa Cruz: Azenha de Santa Cruz – o espaço, a História e as gentes, obra colectiva, ed. CMTV, 2006; ;LINO, Artur da Silva, Uma Ermida Histórica na Praia de Santa Cruz, in Estremadura – Boletim Cultural, nº 55-56, de 1961, pp. 137-142;

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Torres Vedras em 1940, numa edição especial da "Gazeta dos Caminhos de Ferro"

A revista "Gazeta dos Caminhos de Ferro" foi uma das publicações que mais longa duração conheceu em Portugal.

Surgiu em 1888 com o título de "Gazeta dos Caminhos de Ferro de Portugal e Espanha", tendo retirado a referência ibérica em 1899.

Publicou-se até 1971.

Editou na década de 40 algumas edições monográficas dedicadas a localidades onde existia caminho-de-ferro, com aconteceu com Torres Vedras, na edição de 16 de Abril de 1940 (nº1256)que hoje aqui divulgamos.

Ao longo da sua história, cujo início que coincide com os primeiros anos do caminho-de-ferro da linha do Oeste, é possível encontrar muitas notícias sobre esse tema relacionadas com Torres Vedras.

Nesta edição destacamos a entrevista com o presidente da Câmara de então, o Conde Tarouca, e as referências ao Museu, à Biblioteca, ao Carnaval e à Casa Hipólito. Chamamos ainda a atenção para os anuncios comercias de várias empresas torrienses.

A maior parte das edições da "Gazeta..." estão disponíveis online através do site da hemeroteca de Lisboa, de onde retirámos as páginas dessa edição especial que em baixo divulgamos:











(Clicar sobre as imagens para as ler em ponto grande)

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A praia Formosa é um oásis no vendaval de Santa Cruz


A Praia Formoso, em Santa Cruz, foi o tema de uma reportagem publicada recentemente no jornal "i", e que aqui reproduzimos: 

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O Golfe do "Vimeiro".

Neste último Fim-de-Semana o jornal Público dedicou duas páginas do seu suplemento "Fugas" ao campo de Golfe do "Vimeiro", cujo texto pode ser lido integralmente AQUI.
Apenas um erro a reparar. O campo de golfe referido, que fica junto a Porto Novo e pertence ao Hotel Golf Mar, não pertence ao concelho da Lourinhã. Fica nos limites do concelho de Torres Vedras e pertence à recentemente criada freguesia da Maceira.
A confusão é antiga e deve-se ao facto de se ter adoptado o nome de Vimeiro, não só para a empresa de àguas com sede na Maceira, mas também para as piscinas e para aquele Hotel, então pertencentes àquela empresa.
Nada disto fica na freguesia vizinha do Vimeiro, esta sim pertencente ao concelho da Lourinhã, mas na actual freguesia da Maceira, tendo a região pertencido à freguesia de A Dos Cunhados, também de Torres Vedras, durante séculos, de onde foi desanexada para formar aquela nova freguesia.
A escolha comercial do nome de Vimeiro para as àguas, as piscina e o Hotel teve como objectivo rentabilizar a importância histórica da Batalha do Vimeiro, sendo que a movimentação das tropas anglo-lusas envolveu também Porto Novo e a Maceira.
A fotografia que ilustra este post foi retirada do blogue Portugal Lusitânia, onde descobrimos ESTA página dedicada a uma visita ao Hotel Golf Mar, com outras excelentes fotografias do local

sexta-feira, 30 de julho de 2010

SANTA CRUZ DE HÁ CEM ANOS - Notícias históricas entre 1820 e 1910

No início do século XIX, Santa Cruz era ainda um modesto e pouco povoado lugar do litoral do concelho, longe ainda de se tornar num dos mais atractivos centros turísticos da região.

Aliás, o “turismo” não fazia parte da realidade desse tempo. Não existiam férias e viajar era privilégio de poucos e, mesmo estes, estavam limitados pelas dificuldades geográficas, físicas e técnicas para ultrapassar longas distâncias.

Sem pesca comercial de vulto, ou riqueza agrícola, apenas as suas azenhas proporcionavam algum rendimento económico aos seus habitantes.

Os actuais limites de Santa Cruz incluíam, no início do século XIX, três locais distintamente referenciados: Pizão, Casal d’Azenha de Santa Cruz e Santa Cruz.

Num recenseamento de 1843 (1) registavam-se 6 “fogos” (2) em Santa Cruz e 2 no Pizão, enquanto um outro recenseamento de 1862 (3) registava 4 “fogos” com 21 “almas” (4) em Santa Cruz, 1 “fogo” com 6 “almas” no Pizão e 1 “fogo” com 7 “almas” no casal d’Azenha de Santa Cruz. Como termo de comparação, tendo por base os recenseamentos oficiais da população portuguesa, Santa Cruz, abrangendo já os três lugares referidos, possuía, em 1911 10 fogos e 62 pessoas, em 1940 168 fogos e 157 pessoas, e, em 1991, 972 edifícios e 950 pessoas. Repare-se na proporção entre habitações e pessoas nos dois últimos censos referidos, reveladores do facto da maior parte das habitações funcionarem como segunda morada, situação que ainda não se registava no início do século XX.

TERRA DE AZENHAS

No princípio do século XIX, grande parte dos terrenos do litoral, junto a Santa Cruz, pertenciam à Igreja de S. Miguel, compreendendo de comprimento “de Norte a Sul huns três quartos de legoa, que he o que vae desde o pisão de Penafirme (…) pela costa do mar até à foz do sizandro, e de largura de nascente até ao mar hum quarto de legoa pouco mais, ou menos”. Do ponto de vista agrícola essa faixa de terreno “pela maior parte he fraco, e está ainda por cultivar, por causa do ar do mar” (5), bem como do avanço das areias, situação confirmada noutro documento da mesma época que, referindo “o areial da foz do Sizandro, e o que de Santa Cruz e Foz-Velha, a Oeste e nordeste de Torres Vedras”, regista que “estes areais estão completamente desguarnecidos, e as areias movem-se n’elles livremente” (6).

Em contrapartida os “arêaes próximos ás ribas da costa do Occeano no nosso concelho, especialmente nos nomeados sítios de S. Cruz e pizão, são muito abundantes d’agoa boa e perenne, e até de nascente copiosas, algumas das quaes fazem mover os pisões (…).Muitas dessas nascentes porem são desaproveitadas, por incúria dos habitantes d’aquelle sitio; a maior, e que faz mover a azenha do Pisão (…), e de óptima àgoa, hé a chamada fonte da Estacada, que nasce no fundo dum monte d’arêa. Hé pelo motivo da sua abundância d’agoas, que esta nossa costa se torna muito singular (…)” (7).

A existência de Azenhas no litoral do concelho, próximas de Santa Cruz, vem de longa data e parece ter constituído a principal riqueza desses sítios, fazendo mover engenhos de apisoar panos, dois dos quais ainda funcionavam na segunda metade do século XIX, enquanto um terceiro já se encontrava arruinado : “Os dois engenhos mencionados pelo A” (A= autor, Madeira Torres) não herão situados na raia meridional do terreno do convento, mas sim na occidental; hum próximo do cazal de Valle de Janelas sobre as ribas do mar, o qual tinha também azenha, e já não existe, por estar tudo demolido; e outro próximo da Aldêa de S. Cruz de Ribamar, mas ao Norte della, a extrema do dito terreno, o qual ainda existe, e tem juntamente azenha, movendo-se tudo ao mesmo tempo, quando convem, pela agoa da chamada fonte da Estacada (…). Mas em vez d’aquelle demolido há outro mais moderno (…) na Azenha da dita S. Cruz, o qual está no terreno do casal pertencente á Freg.ª de S. Miguel d’esta villa, de quem he foreiro” (8). Esta última azenha mencionada deverá ser aquela que existe restaurada junto à “Torre”.

Os mesmos autores que temos citado, referem ainda a existência de algumas importantes riquezas naturais, descobertas ou exploradas no século XIX, junto ao litoral de Stª Cruz: “Nas ribas do occeano na nossa costa (…) encontrão-se muitos veios de carvão de pedra, que temos visto, como por ex. na da praia chamada Formosa, próximo à povoação de S. Cruz de Ribamar da parte do Sul, donde há poucos annos Antonio Jacintho da Gama Leal desta villa mandou extrahir alguns sacos d’elle que se consumio em sua casa ( e até mais pela terra dentro junto a huma das fontes da dita povoação de Stª Cruz chamada de agoa férrea, onde apparece também enxofre). E são estes os veios, ou minas de carvão de pedra, que em 3 de Junho de 1858 registou a p 73vº do Lº 31 do Reg.º da nossa câmara, Antonio Melchior Olivero de Lisboa, dizendo existir = no sitio das ribas do Occeano chamado oiteiro da vela, Freguezia de S. Pedro da Cadeira, mas em terreno da de S. Miguel desta villa, e com os veios em toda a extensão do dito oiteiro, e immediação tanto na direcção do penedo do Guincho, como no da Fóz da Arêa = (i.e., foz do Sizandro). E bem assim se encontra na riba da praia chamada Mexilhoeira ao Norte da nomeada Stª Cruz (…)” (9).

Confirmando referências de outras épocas sobre esta praia, não encontramos qualquer registo de actividade piscatória de vulto nesse lugar, não porque o mar que a banhava não fosse rico, mas porque as condições geológicas da costa, neste sítio, não eram propícias a abrigar barcos de pesca. Nas proximidades, apenas o lugar de Porto Novo oferecia tais condições. A única riqueza marítima explorada parece ter sido apenas a apanha de algas, usadas como fertilizante, documentada no início do século XX.

Sem pesca comercial ou riqueza agrícola, apenas as suas azenhas proporcionavam algum rendimento económico aos habitantes desta praia.

AS SUAS FESTAS

Pelo menos em duas ocasiões anuais Santa Cruz animava-se com a presença de gentes das redondezas: uma, no início de Maio, com a festa em honra de Santa Helena, também conhecida pela Festa de Vera Cruz, descrita pelo cronista J. Tavares no jornal “A Semana” de 10 de Maio de 1888: “Havia festa a Santa Helena, na (…) praia de Santa Cruz. Cá da villa tinham-se organizado caravanas que realisaram corajosamente a trajectória por leitos tão escabrosos e descurados (…). Vamos dar entrada em Santa Cruz. São 7 horas da manhã: Chegámos ao Alto dos moinhos, e o Occeano troou numa salva marulhanta. Os nossos carros, em bicha, puchados a duplo tiro, na frente arautos a cavalo, ao lado moços d’estribeira (…).

“As casinhas brancas do logar, pittorescamente amontoadas sobre o dorso do monte arenoso, encheram a nossa vista, cançada de ver plainos de matto razo, ou massiços de pinhaes rachiticos (…).

“Àquella hora a modesta população não dava ainda siignaes de festa. Apenas notei, como denuncia, o caminho em redor da tosca ermida todo atapetado de malva roza”. Depois do almoço “cá fora começava a desenvolver-se a animação festiva. A musica cumpria furibundamente os seus deveres arraialegos. Quando sahi estava já o largo mesclado de barretes, trajes garridos de mulheres feias, pontas de varapaus ferrados, tudo em grupos falladores, rodeando as quintandas de vendedores de vinho e polvos fritos que, em numero de 16, estavam disseminados pelo chão.

“Nas varandas das testadas as raparigas dançavam ao som do harmonium, e os rapazes no largo jogavam a bola, indiferentes à festa d’ermida, que foi só para meio cento de pessoas que lá poderam apertar-se dentro, a ouvir a missa de festa, esmagando as camarinhas de suor no rosto com os signaes da cruz.

“O aspecto da meia encosta que vae morrer à praia, para onde olha a ermida, era deveras pittoresco, pelo matriz tumultuoso que a animava (…).

Outra festa, ao que parece já extinta nos finais do século XIX, pelo menos nos moldes que passamos a descrever, realizava-se pelo S. João. Nesse dia “dirigem-se homens e mulheres com um junco verde, que também atão ao pescoço dos seus animais do gado bovino, vaccum e asinino e nas bocas das quartas da agoa, espetão caniços no meio das suas searas, põem flores , e plantas aromáticas nos telhados sobre as portas : fazem no sítio de Santa Cruz na véspera do Sancto fogueiras, não todos ao mesmo tempo, mas cada hum por sua vez, depois do seu vizinho, n’ellas defumão os seus bois como o fumo das plantas aromáticas, que ahi tem e vão finalmente banhál-os ao mar no dia Sancto, em cuja véspera concorre igualmente muita gente a banhar-se”(10).

BANHOS DE PRAIA

A frequência de Santa Cruz por banhistas, antes da primeira metade do século XIX, acontecia apenas em raras ocasiões, como a anteriormente descrita. Contudo, um acórdão da Câmara, de Outubro de 1828, refere a ausência, em Torres Vedras, do cirurgião Joaquim Teles de Miranda, facultativo do partido médico municipal, por estar “em banhos do mar no cítio de Santa Cruz” (11).

Em 1870 a praia de Santa Cruz foi visitada por dois ilustres banhistas, Antero de Quental e Jaime Batalha Reis, que aí permaneceram durante os meses de Agosto e Setembro. Essa visita foi descrita pelo próprio Batalha Reis nas páginas da “Gazeta de Torres” em 5 de Maio de 1925:

“A povoação reduzia-se então a poucas casas espalhadas sobre as ribas, como se sabe muito pitorescas, altas e de estratos vivamente coloridos (…).

“Moravamos n’uma casinhola terea, das ultimas habitações, ao sul, que voltava as costas a todas as outras, de telha van e adobes rebocados, porta sempre aberta para um campo valado de piteiras, á beira d’uma quebrada profunda, por onde, de inverno a agua corria em torrente. O pequenino prédio pertencia ao Francisco Banheiro, que, com a Madalena, sua mulher, nos tratava dos quartos, da cosinha e das roupas [esta casa ficava situada por detrás da actual Torre e ainda existiam há poucos anos].

“O Antero já então estava doente (…). Tomava experimentalmente, banhos de mar, que o não melhoravam, e nadava ainda com vigor. Caminhava muito para se fatigar em longos passeios (…)- chegávamos assim, frequentemente ao alto da vela, á Silveira, á Ponte do Rol a ao Porto Novo, através das Dunas (…)” (12).

Na década de 80 do século XIX começou a acentuar-se a frequência regular de Santa Cruz, por banhistas, situação que levou o município torriense a mandar construir, em 1883, uma fonte de água e uma estrada municipal de ligação entre Torres Vedras e aquela praia, concluída em 1902 (13).

O percurso por essa estrada foi descrito por Gabriel Pereira, que a percorreu em 27 de Setembro de 1905: “A estrada vae ao campo do Amial, pelo sopé do nome de S. Vicente, que nos fica á direita; depois pela esquerda a falda do Varatojo. A estrada segue na grande várzea, comprida e ampla, importante, onde o Sizandro abre o seu leito.

“Vinhas magnificas, cepas fortíssimas carregadas de esplêndida uva. A estrada incómmoda pela muita poeira (…).

“(…) Passamos por boas propriedades, e alguns grupos de casaes.

“Os campos estão animados, as estradas concorridas; é uma festa agora; a grande festa das vindimas(…).

“Todos estes terrenos são de alluvião moderno, mas passadas três quartas partes do caminho começa a apparecer a areia marítima. Cultiva-se milho, feijão frade, grão de bico.

“Passamos junto de alguns moinhos em grande businada, as cordas cheias de louça, dezenas de vasos de barro; os moleiros destes sitíos são grandes amadores d’esta musica.

“Passamos por alguns pinhaes, e chegamos a Santa Cruz, logar formado por algumas casas antigas, e bastantes modernas (…)” (14).

O aumento do movimento desta praia, a partir dos primeiros anos do século XX esteve na origem da iniciativa do vereador António Cabral levar à aprovação pela Câmara, em 1909, de uma decisão, segundo a qual, “durante os meses d’Agosto, Setembro e Outubro de cada anno a câmara mantivesse a illuminação publica do logar e praia de Santa Cruz, dos candieiros que por subscrição da colónia balnear d’alli, fossem adquiridos e collocados não indo o seu numero alem de 8” (15).

O mês de Setembro era então o mais movimentado e animado naquela praia. Frequentavam então aquele sítio as famílias mais abastadas de Torres Vedras, que aí construíam segunda habitação. Os menos abonados ficavam-se pelos banhos no rio Sizandro, junto aos Cucos, só se deslocando àquela praia em ocasiões especiais, em burricadas.

Desde que, em 1885, se iniciou a publicação do primeiro periódico torriense, que se encontram inúmeras referências nas suas páginas, nos meses de verão, à deslocação de personalidades e famílias “ilustres” de Torres Vedras para “banhos” em Santa Cruz ou às várias festas que aí se organizavam para os receber, com se referia na seguinte notícia:

“Reina grande animação na encantadora praia de Santa Cruz, onde se acham já muitas famílias do nosso Concelho.

“É admirável o tempo que ali se passa, sem o ruído que se nota em outras praias (…). As distracções succedem-se (…).De manhã o banho, os passeios pelas ribas, durante o dia os jogos, as conversas de algum bom cavaqueador; os jantares, as merendas ao ar livre, os bailes improvisados; enfim, passa-se ali uma vida amena e aprazível” (16).

A partir dos finais do século XIX acentuou-se o crescimento urbano do lugar, já de modo desordenado, como nos revelava um cronista da época: “As habitações rebelaram-se contra as symetrias modernas e foram-se construindo ao acaso, trepadas nas alturas; os proprietários, respigando ainda umas noções do Bello nos destroços das theorias relistas, foram escolhendo os bons sítios e d’ahi os bons panoramas que de todas ellas se disfructam” (17).

Praia das elites torriense dos finais do século XIX, princípios do século XX, é a partir dos anos 20 deste século que uma Comissão de Iniciativas desenvolve turisticamente aquela praia , embora o turismo de massas, que tanto contribuiu nos últimos anos para descaracterizar esta praia, só se tenha iniciado já na década de 60 do século passado.

Ao respigarmos de vários documentos as referências que serviram de base a este artigo, quisemos recordar uma outra Santa Cruz, temporalmente ainda não muito distante de nós, mas tão diferente do reboliço actual.

(Nas transcrições dos documentos mantivemos a grafia original)

(Este texto foi anteriormente publicado no FrenteOeste de 15 de Agosto de 1996)

NOTAS:

(1) – Recenseamento de todos os cidadãos desta Freguezia – S. Pedro da Cadeira (…) de 1843, Arquivo Municipal de Torres Vedras (AMTV).

(2) – Um “fogo” era a designação tradicional de uma residência familiar.

(3) – Relação por ordem alphabetica dos lugares, aldêas, quintas e casais, que há no termo da Villa de Torres Vedras (…) feita em 1862, apêndice nº9 do manuscrito de anotações à parte económica da Descripção Historica (…) de Madeira Torres.

(4) – Uma “alma” era uma pessoa.

(5) – Citada nas anotações manuscritas de José Eduardo Cezar e António Jacinto da Gama Leal, à parte económica de Madeira Torres, obra inédita, concluída por volta de 1865, depositada no AHTV, página 11 do 6º caderno [daqui para afrente designada por AM(anotação manuscrita)].

(6) – Relatório Àcerca da Arborização Geral do País, 1868, pág.43.

(7) –AM, pág. 8 do 5º caderno.

(8) – AM, pág. 8 e 9 do 7º caderno.

(9) – AM, pág.14 do 8º caderno.

(10) – AM, pág. 5 e 6 do 7º caderno.

(11) Livro nº 26-A dos acórdãos da Câmara, 1 de Outubro de 1828, folha 275 (AMTV).

(12) Jayme Batalha Reis, “Antero de Quental em Santa Cruz (Recordação)”, in Gazeta de Torres, 5 de Maio de 1929.

(13) Julio Vieira, Torres Vedras Antiga e Moderna, 1926, pág. 184 e 185.

(14) Gabriel Pereira, “Torres Vedras – Notas d’arte e archeologia – (1906)”, in Pelos Suburbios e Visinhanças de Lisboa, 1910, pág.297 e 298.

(15) Livro de Actas da Câmara nº 36, sessão de 26 de Agosto de 1909, folha 286 vº (AMTV).

(16) Voz de Torres Vedras, 1 de Setembro de 1888.

(17) Carlos Velloso, “AS Festas de Santa Cruz”, in Voz de Torres Vedras, 8 de Setembro de 1888.