Torres Vedras e a História (breves apontamentos, esboços, documentos, efemérides, estudos, fotografias, notícias...)
Mostrar mensagens com a etiqueta jornalismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta jornalismo. Mostrar todas as mensagens
segunda-feira, 25 de maio de 2026
quarta-feira, 20 de novembro de 2019
Ainda o 40º aniversário da CCC : um texto de Aurelindo Ceia
"ÁREA, BREVE HISTÓRIA DE RESISTÊNCIA
por AURELINDO CEIA
"Estávamos em finais de 1978. O Portugal
democrático estava em plena construção, num processo onde se cruzavam realizações, contradições,
insuficiências e desejos – esbracejando na aprendizagem (teórica e prática) do
viver em liberdade.
"Este processo, depois de quatro décadas do
fascismo lusitano, veio a revelar-se bem mais difícil do que a simples vontade
de o concretizar. Muitas alegrias, no meio de inúmeras decepções.
"Demora a
aprender o modo de passar do sonho à realidade, porque a liberdade tem que ser arduamente
construída, nunca nos é ofertada numa embalagem fácil. E é condição necessária
à democracia, mas não suficiente.
" O 25 de Abril cavou muito sobre a nossa
alegria ingénua e sobre as nossas fragilidades. Sair de quatro décadas de
obscurantismo implica longas marchas em vias abertas na esperança, mas detrás
de cujas margens começaram logo a emergir monstros diversos para assalto ao
poder. Isto para além do ressabiamento e desejo de vingança dos vencidos,
súbita e inesperadamente despojados das benesses e dos longos banquetes da
ditadura salazarenta.
"No dia 22 de Setembro de 1978 dezoito jovens
reuniram na praia de Santa Cruz, em casa do Fernando Mouro e da Manuela Ribeiro,
com o objectivo de fundar um jornal.
" Parecia fácil. Era, pelo menos bem
intencionado – concretizar algo para poder partilhar com os outros as alegrias,
as críticas e as expectativas da revolução de Abril, quatro anos depois.
" Ainda não era bem um jornal – a ideia era
mais a de uma “revista”, não se temiam quaisquer obstáculos. Todos se
dispuseram a colaborar nas diferentes secções de trabalho. A coisa era
ambiciosa: desde a história e a educação, até à música, literatura, cinema,
ecologia, religiões fotografia, psicologia, sociologia política, teatro, saúde...
Só.
" Primeira decisão: organizar um grupo para
marchar até Lisboa, onde se realizariam contactos com agências publicitárias,
gráficas, distribuidoras, sindicato dos jornalistas. Objectivo: perceber as
condições concretas para começar a construir um edifício com estruturas
sólidas.
" Na segunda reunião, uma semana depois,
analisaram-se as informações colhidas e percebeu-se que não adiantava avançar
nada por fora, sem estruturar a ideia
por dentro.
" Objectivos aprovados para a (ainda) revista?
Primeiro: ter como alvo a “população do distrito de Lisboa, especialmente
região do Oeste”. Restantes: complicado, seriam discutidos na reunião seguinte.
" Entretanto, achou-se por bem consultar a
“lei de imprensa” e, no terceiro encontro (6 de Outubro), as catorze pessoas então
presentes debateram os erros a evitar, abordaram algumas alternativas e
tentaram distribuir os colaboradores pelos principais temas entretanto
afinados.
" A 10 de Outubro foi enfim possível encontrar
os responsáveis pelos assuntos principais: criatividade, direito à diferença,
informação, teatro, sociedade em análise, bd, música...
" Será interessante que se mencionem alguns
dos nomes que resistiam então desde a primeira hora: Fernando Mouro, Manuela
Ribeiro, Venerando António, Guilhermina Pacheco, Armando Jorge, Joaquim
Esteves, Carlos Ferreira, Jorge Vareda, Travanca Rodrigues, Jorge Barata,
Constância Bataglia, Luis Filipe Rodrigues, o Ceia na parte gráfica. Outros se
lhe vieram juntar, como o Vitor-Luis Grilo (primeiro director indigitado, que
recusou por, aparentemente, não lidar muito bem com o razoável granel naturalmente instalado) e o José
Eduardo Miranda (que viria a ser o primeiro director).
" A ideia da revista desaparece das actas e, a
partir de 18 de Outubro já se fala de “jornal”.
" Um ano correrá ainda, antes do primeiro
número sair dos prelos, em Novembro. Entretanto, o trabalho não pára. Duas
questões importantes surgem. Uma, o contacto com a imprensa próxima, “Oeste
Democrático”, “Badaladas” e “Gazeta das Caldas”.
"Outra:
“questões relacionadas com objectivos e viabilidade técnica e financeira da
publicação”.
"Pequenas
coisas, não é? O entusiasmo não esmorecia, talvez porque o mundo da realidade
estava ainda muito embalado no mundo dos sonhos. Mas, pergunta-se: não é assim
que deve ser? De outro modo, como avançar, como progredir, como inovar? E foi
isso mesmo que o futuro ÁREA procurou fazer, em boa parte o tendo conseguido.
“Viabilidade financeira”? Claro que havemos de lá chegar! Pensar, escrever,
paginar, editar, administrar, distribuir, vender – isso tudo se conseguirá,
verão! A verdade é que, nos primeiros tempos, o núcleo de trabalho inicial, com
mais uma ou duas aquisições, o conseguiu fazer.
"Ainda se não mencionou outro aspecto. Quem
ou que organização assumiria a propriedade legal da publicação? Achou-se que
este problema seria resolvido com a criação de uma Cooperativa cultural – que
vem a denominar-se “Cooperativa de Comunicação e Cultura” (1).
" O título do jornal começou a ser debatido
nas primeiras reuniões de Novembro.
" Avançam-se, em jeito de curiosidade, com
alguns dos nomes, dos mais de três dezenas sugeridos e sujeitos a votação do
grupo: Novoeste, Encontro, Diálogo, Interoeste, Ensaio, A Palavra, Novos Caminhos,
Evolução, Pesquisa, Novo, Oeste Regional, Fase 1, Gazetilha, Espaço, Terra
Cultura, Terra Nova...
" Um nome – ÁREA – curiosamente, nunca foi
mencionado e não aparece nas hipóteses em discussão registadas nos papéis do
Venerando, mas veio a ser o escolhido numa reunião em que foi proposto pelo A.
Ceia, que entretanto já apresentara uma maquette para a capa. Será aqui justo
que se registe ter o José Pedro Sobreiro sido entretanto proposto pelo
Vitor-Luis Grilo para responsável gráfico, ideia que não chegou a vingar.
" A Cooperativa assumiu o papel de suporte
legal do jornal e passou a promover diversas actividades culturais, para
apresentação da ideia à comunidade. A primeira realiza-se em 18 Novembro de
1979, já com Torres promovida a cidade, para lançamento do número 1 do ÁREA –
“1º. Passeio de Domingo - Um itinerário histórico em Torres Vedras”, liderado
por Cecília Travanca e Manuela Ribeiro.
" O jornal insiste numa tonalidade local,
aberta à modernidade e à diversidade cultural. O número inaugural publica uma
extensa mesa redonda (5 páginas) – “Torres Vedras, Cidade / Novos Rumos, Velhos
Problemas”, na qual participam Alberto Avelino, António Augusto Sales, Filomena
Moura Guedes, José António Gomes e Padre José Manuel. Durante muito tempo o público
se interrogou, perplexo sobre “quem estaria por trás deste arraial de putos” –
isto é: que partido movimentava estas tropas? Nunca o desvendaram, pela
elementar razão de não haver nenhum! Os jovens (na maioria estudantes e
professores) queriam agir, com prazer e sentido cívico, apenas. Pena que o tal pormenor “viabilidade financeira” tenha
sempre sido encarado com excessivo optimismo (sejamos simpáticos). Após a saída
dos dois primeiros números o gerente da tipografia “Sogratol” mandou parar as
máquinas, face às dificuldades em resolver a factura da respectiva produção.
" As coisas depois equilibraram-se, porque a
direcção da Cooperativa conseguiu encontrar uma gráfica alternativa (a
Grafibom, do Bombarral) e reunir fundos que fossem permitindo aguentar uma
publicação mais ou menos periódica. O jornal, “mensal”, publicaria até Junho de
1981 treze edições... Nesta altura assiste-se a uma cisão dentro do pessoal que
fazia e vendia o jornal, e que era, em boa parte, pessoal da Cooperativa. O seu
director, José Eduardo Miranda, publicou então um Editorial (assinado,
ironicamente, por “Os putos do ÁREA”), onde dizia, despedindo-se até Outubro: “Aliás, só nos lê quem gosta, quem quer, quem
pode. E, quem gosta, quer. E como ‘querer é poder’, somos um jornal difícil
para toda a gente.”
" O número seguinte sairia em... Junho de 1982, dirigido agora por
Luis Filipe Rodrigues.
" Número 15, Junho 1983; número 16, Novembro
1984; número 17, número 17, Abril 1990, número 18, Novembro 1999; número 19,
Outubro 2009...
" Esta
sequência diz tudo sobre a morte lenta – adiada – de um projecto editorial
cujas bases amadoras não foram suficientes. O entusiasmo precisava de
estrutura. Esgotou-se. A soma das ideias e dos sonhos sucumbiu à dureza da
realidade e, sejamos claros, à inexistência de uma orgânica profissional. Há
quem opine que o esforço feito para desenvolver o programa cultural da
Cooperativa terá matado o projecto jornalístico. Na realidade, os activistas
eram basicamente os mesmos. A verdade é que a Cooperativa foi crescendo, até à
construção de uma sede e do seu “Centro de Cultura Contemporânea” e a sua
dimensão e perspectivas foram também criando contradições internas, algumas
insanáveis. Hoje, o projecto cultural para Torres Vedras mantém-se e foi
acrescentado de novas instalações e novos objectivos com a “Câmara Escura”,
trabalhando na área da fotografia contemporânea, em torno de (outro) grupo de
jovens entusiastas.
" Quarenta anos se passaram. A sede da
Cooperativa de Comunicação e Cultura, na rua da Cruz, continua aberta e as
actividades sucedem-se, em menor número que há dez, vinte, trinta anos, mas
prosseguindo uma ideia teimosa: criação de um clima cultural.
" Torres Vedras, mesmo que o não queira ou não
saiba, merece o trabalho inovador destes novos putos...
" (1)
Designação sugerida por Aurelindo Ceia
" Nota:
Este texto foi escrito a partir dos
apontamentos e actas das reuniões, recolhidos por Venerando António".
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018
A Origem do Automóvel e do transporte automóvel, em Torres Vedras
Data de 1895 a entrada do primeiro
automóvel em Portugal, e não foi preciso esperar muito tempo para aparecer em
Torres Vedras o primeiro agente de venda de automóveis, conforme se prova num
anúncio publicado nas páginas do jornal "A Vinha de Torres Vedras" em
14 de Outubro de1897, anúncio publicado na edição seguinte e cuja publicação
foi repetida por várias vezes ao longo de 1898.
Inicialmente o êxito do automóvel foi
limitado e temos de esperar por 1902 para encontrarmos a primeira referência
comprovada à circulação de um automóvel nas ruas de Torres Vedras.
Foi por
ocasião da visita da rainha D. Amélia ao convento da Graça, a 12 de Maio desse
ano, de passagem "em direcção à quinta das Lapas(...)em automóvel e (...)acompanhada
pelos srs. conde de Tarouca e condes de
Figueiró(...)"(1) (foto em cima).
Só em finais da década de 10 é que o
automóvel conheceu algum incremento neste concelho, levando a Câmara Municipal
a iniciar, a partir de 1918, um registo de automóveis matriculados, oficialmente
os primeiros existentes em Torres Vedras e dos quais registamos os 20 primeiros
(2):
(Nº de ordem de matricula; Nº de Circulação, Ano, Mês e Dia do Registo,
Nome do Proprietário e residência)
1 1660 1918
Abril 18 D. Vasco Martins
Sequeira Q.ta Juncal
2 2393 1918
Julho 5 Vasco de Moura Borges Q.ta Paio Correia
3 943 1919
Julho 12 João Henriques dos
Santos Torres Vedras
4 1390 1919
Julho 19 Gonzaga Limitada Q.ta Charneca
5 --- 1919
Agos. 2 José Augusto Lopes & C.ª Torres Vedras
6 2270 1919
Sete. 2 José Duarte Capote Torres Vedras
7 2705
1919 Out. 10
José Augusto Lopes Jr. Torres
Vedras
8 --- 1919
Dez. 26 Joaquim C. Rodrigues Torres Vedras
9 2811 1920
Jan. 12 João Henriques dos Santos Torres Vedras
10 --- 1920
Maio 22 António |...?| Oliveira Torres Vedras
11 4076 1920
Junho 15 António Emilio Cunha
S.tos Torres Vedras
12 4258 1920
Agos. 2 Alfredo Oliveira Luso Lisboa
13 4230 1920
Agos. 16 João Henriques dos
Santos Torres Vedras - camioneta
14 4614 1920
Set. 2 Faustino Policarpo Timóteo Dois Portos
-camioneta
15 4473 1920
Out. 2 Manuel Augusto Baptista Torres Vedras
16 2981
1920 Out. 14
José Botto Pimentel Carv.º Q.ta do Paço
17 2907 1920
Nov. 16 José Antunes Martins Ramalhal
18 3382 1921
Abril 13 Dr.Pereira Branco Ribaldeira
19 218 1922
Maio 25 António Hipólito Torres Vedras
20 --- 1922
Agos. 4 Amadeu dos Santos Torres Vedras
Por este quadro é possível concluir
que foi a partir da década de 20 que a aquisição de automóveis começou a
aumentar neste concelho e que a primeira camioneta registada pertencia a João
Henriques dos Santos. No ano de 1926, registavam-se 48 automóveis e 26
camionetas (2).
Contudo, o inicio desse registo
camarário não quer dizer que a existência de torrienses proprietários de automóveis se tivesse
iniciado apenas em 1918. Antes desta data, e pelo menos desde 1901, que os automóveis
eram registados, mas a nível distrital, no caso torriense pelo Governo Civil de
Lisboa (3).
Existem testemunhos de que João Henriques dos Santos
possuiu um dos primeiros automóveis em Torres Vedras logo nos primeiros anos do
século (por volta de 1908)(4).
Se a divulgação do automóvel foi lenta
e demorada, os primeiros transportes usando o automóvel só começaram a obter
algum êxito nos anos 20, quando começaram a poder bater o comboio no tempo de
percurso, ou chegando a sítios onde o comboio não chegava, mas que ganhavam
crescente importância turística e económica, como foram os casos de S.ta Cruz e
Peniche.
Data de 1899 a primeira proposta de
estabelecer uma carreira automóvel ligando Torres Vedras a Lisboa.
Em reunião camarária de 14 de Dezembro
desse ano dava-se a informação de se ter recebido um requerimento, datado de 25
de Novembro, dirigido a esse orgão municipal de "Alfredo de Brito, - industrial,
constructor electricista com fábrica em Lisboa, na rua de Santo António dos
Capuchos, nºs 52/54" pedindo "à Camara Municipal de Torres Vedras, concessão
por setenta e cinco annos, para si ou para a Companhia que está organisando, para
a exploração (em toda a area actual do concelho de Torres Vedras e d' aquella
que de futuro venha a pertencer-lhe), do transporte de pessoas, mercadorias, etc.,etc.,
por meio de vehiculos denominados automoveis. O requerente garante à câmara, annualmente três por cento da receita bruta.
"Esta concessão facultando à
Camara uma nova receita, proporcionará aos municipes as vantagens de usarem um
meio de transporte rápido e commodo, e facultará o desenvolvimento da industria
de carruageria |sic| , ha muitos annos estabelecida no país,e da industria
mecanica pela fabricação dos motores e acessórios necessarios aos automoveis, fabrico
que o requerente iniciou na sua fabrica(...)" (5).
A camara ficou de tratar deste assunto
noutra sessão, nunca o tendo feito. Foi preciso esperar por 1915 para se
inaugurar a primeira carreira automóvel. Pertenceu a iniciativa à empresa da Malveira, Joaquim Jerónimo
&Irmão: "Trata-se de uma carreira de auto-omnibus entre Torres e
Lisboa, partindo do Largo da República, todos os dias ,às 3 horas da
tarde", preenchendo assim "uma lacuna importante, que ha muito se
fazia sentir, tanto mais que a companhia dos Caminhos de Ferro nunca quiz
atender as reclamações constantes que lhe foram feitas, para restabelecer os
comboios da tarde para Lisbos, que ela, há muito, desatenciosamente
suprimiu(...)" (6).
Este serviço teve início a 18 de Abril
de 1915 e nasceu em confronto directo com o transporte ferroviário. Contudo, fosse
por fazer a viagem de Torres Vedras ao Lumiar em 3 horas, tanto tempo como o
tempo de comboio, fosse por outras razões, esta iniciativa não teve o êxito
esperado, sendo necessário esperar por nova iniciativa do género, nos anos 20, pela
qual foi responsável João Henriques dos Santos.
Já referimos noutra parte do nosso
artigo que João Henriques dos Santos não só foi o terceiro torriense a registar
a posse de um automóvel, como foi o primeiro a adquirir uma camioneta.
O seu entusiasmo por esse então novo
meio de transporte revelou-se em diversas ocasiões. Uma das mais conhecidas
aconteceu em 1922, a 3 de Dezembro. Tendo passado então pelo Vilar, ouviu
foguetes e, perguntando o que se passava, disseram-lhe que anunciavam a
realização das festas do lugar do Pereiro. Logo aí manifestou interesse em
deslocar-se no seu automóvel a essas festas."É claro, pessoas conhecedoras
do lugar e do caminho existente para ali, tentaram dissuadi-lo, mas foi como se
chovesse no molhado. Não o demoveram do seu intento. Os companheiros também não
ligaram importância aos conselhos, e lá seguiram, por uma estrada vicinal, que
em Dezembro só poderia ser transitada por cabras ou por corvos, pois só servia
às vezes para carros de bois.
"João Henriques dos Santos, com o
carro cheio de amigos, começou subindo aquêle pseudo-caminho, embóra com
dificuldade. Mas, mais para cima, o caminho complicou-se e não havia meio de
poderem prosseguir. Retroceder muito menos. Então a situação era crítica. Nem
para diante, nem para tráz.
"Enfim, como era boa a disposição
que tinham adquirido pelo caminho, lá foram removendo uma pedra aqui, colocando
outra ali, escangalhando um calço acolá, evantando o carro além para o tirar da
situação crítica ou de se despenhar de
qualquer ribanceira, e depois de extenuantes esforços, lá conseguiram chegar ao
Pereiro.
"Grande festa, entre a população,
por ali ser visto, pela primeira vez, um automóvel, foguetes e o resto que se
póde imaginar, em tais casos(...)" (7).
Em finais dos anos 40, em homenagem a
essa odisseia, o povo do Pereiro mandou colocar uma lápide comemorativa da
chegada do primeiro automóvel a esse lugar bem como a João Henriques.
Exemplo do mesmo espírito ousado que
marcaria a sua vida, ficou célebre aquela vez em que desceu de carro as
escadinhas do castelo, ganhando uma aposta de cem escudos.
A ele ficou a dever-se o início da
primeira carreira regular de automóvel, para Santa Cruz, que se iniciou em 1 de
Agosto de 1923. Partia da estação de caminho de ferro "após a chegada do
comboio correio da capital",saindo depois daquela praia "a tempo dos
passageiros poderem regressar à capital pelo comboio correio da noite" (8).
Custava a viagem para S.ta Cruz a quantia de 5 escudos.
Se essa iniciativa muito contribuiu
para o grande desenvolvimento turístico que essa praia conheceu desde então, mais
importante terá sido para o desenvolvimento desta região o facto de ter
iniciado a regular ligação rodoviária de Torres Vedras a Lisboa, em Novembro de
1928.Gastou na viagem inaugural duas horas. Custava o bilhete 11
escudos,"custando o lugar ao lado do condutor 15$00!Indicava-se a chegada
e partida no Largo de S.Domingos, depois no Largo da Anunciada e, posteriormente,
na Rua da Palma. Avisavam-se ainda os passageiros de que deveriam ocupar os
seus lugares 15 minutos antes da partida".
O êxito desse empreendimento foi tal, que
logo no ano seguinte surgiram dois concorrentes, Ruy Lopes e Francisco Capote, concorrência
que foi benéfica para os habituais passageiros desse percurso, pois os três
proprietários esmeravam-se por apresentarem as melhores e mais cómodas
camionetas. Pouco tempo depois, João Henriques dos Santos conseguia monopolizar
a ligação com Peniche.
Reside nesta ligação com Peniche um
dos episódios mais marcantes da bondade da sua personalidade ao ajudar os
presos políticos de Peniche, transportando gratuitamente as encomendas que lhes eram enviadas pelos familiares.
Dentro do mesmo espírito, de ajudar os
que precisavam, tomou igualmente a iniciativa de "na sua carreira da
manhã, que passa por Montachique," conceder "nos dias úteis, a todas
as crianças do lugar de Malgas, do visinho concelho do sobral de Monte Agraço e
que " frequentavam" a escola primária de Pêro Negro, passagem
gratuíta", procedendo de igual modo com os passageiros pobres que
procuravam tratamento nos hospitais de Lisboa (7).
A empresa que fundou continuou ligada
ao ramo automóvel, tendo abandonado os transportes públicos em 1972, cedendo as
suas concessões à empresa Claras, absorvida, depois do 25 de Abril de 1974, pela
empresa pública Rodoviária Nacional.
(1) – in Folha de Torres Vedras, 8 de Maio de
1902;
(2) – In Livro
de Registo de Matriculas, Arquivo Municipal de Torres Vedra;
(3) – Decreto de
3 de Outubro de 1901;
(4) - RODRIGUES,
António, com Adão de Carvalho,”O Princípio do automóvel em Torres Vedras”, in
Toitorres Notícias, nº 39 de Setembro/Outubro de 1996;
(5) - In Actas
da Câmara Municipal de Torres Vedras (CMTV), Livro nº 35, sessão de 14 de
Dezembro de 1899, fol. 247 verso, AMTV;
(6) - In A Vinha de Torres Vedras, 22 de Abril de
1915;
(7) –In Badaladas [data desconhecida];
(8) – in O
Torreense, 5 de Agosto de 1923.
Nota: uma versão mais resumida deste
texto foi publicada na série “Vedrografias”, no jornal Badaladas de 26 de
Janeiro de 2018. Por sua vez o texto que aqui se reproduz tem origem num
capítulo do meu livro sobre o Impacto da chegada do Caminho de ferro em Torres
Vedras, actualizado e já publicado neste blog, mas que agora foi refeito e
actualizado com base em novas informações.
quinta-feira, 30 de novembro de 2017
Breve evocação do Padre Joaquim Maria de Sousa
Há trinta anos, no dia 6 de Novembro de 1987, faleceu uma das figuras
mais marcante do século XX torriense, o padre Joaquim Maria de Sousa.
O padre Joaquim, como era popularmente conhecido, merece há muito uma
biografia aprofundada, nãos sendo o caso desta nossa breve evocação .
Ainda criança conheci o padre Joaquim, não tanto pelas suas funções
religiosas, porque eu não era católico praticante, mas como meu professor na
disciplina de “Religião e Moral”, durante anos, no Liceu de Torres Vedras.
E logo aí revelou a sua faceta humanista e tolerante, pois, apesar de a
disciplina ser obrigatória e a maioria dos alunos serem frequentadores assíduos
da Igreja, nunca procurou impor uma visão ortodoxa da disciplina, nem nunca
marginalizou os poucos alunos não católicos ou não praticantes.
Além disso, as suas aulas eram um dos poucos espaços de liberdade no
seio de uma escola e de um ensino marcados pelo autoritarismo e por métodos
pedagógicos que não promoviam a liberdade nem a criatividade.
Foi o padre Joaquim que nos levou à descoberta do espaço envolvente,
ocupando grande parte das aulas a mostrar-nos o património histórico e natural
do concelho, sempre que o tempo o permitia.
Quando tínhamos de ficar na sala, as aulas nunca eram aborrecidas, mas
animadas pelo recurso a pedagogias inovadoras, como o uso dos meios
audiovisuais disponíveis, o que representava uma autêntica “revolução”
pedagógica para a época.
Devo-lhe o meu interesse pela história e pelo património locais e
também pelos audiovisuais, nomeadamente pelo cinema e pela fotografia.
Uma outra faceta sua que conheci foi a de homem do jornalismo, em parte
devido à ligação do meu pai com o
jornal “Badaladas”, sendo o padre Joaquim uma das figuras mais respeitadas e
apontadas como exemplo de tolerância em conversas de família.
Havia um enorme respeito e amizade entre o padre Joaquim e o meu pai,
que era um homem da oposição e que sempre encontrou nas páginas do “Badaladas”
espaço para exprimir as suas ideias e a sua criatividade literária.
Por norma, o padre Sousa publicava todos os artigos do meu pai sem os
sujeitar à censura, como, a partir de certa altura, como veremos mais abaixo,
passou a ser obrigação legal.
Quando, por vezes, o conteúdo, abordava temas sensíveis que podiam
provocar problemas ao jornal, o padre Joaquim comunicava ao meu pai, pedindo
humildemente desculpa, que “aquele” artigo tinha de ser submetido à comissão de
censura. Uns passavam, outros eram publicados com cortes, alguns eram
integralmente cortados.
Quando, depois do 25 de Abril, alguns “ferro-em-brasa”, numa assembleia
popular onde se decidia a futura administração do concelho, alguém apelou a que
se ocupasse o “Badaladas” e se expulsasse o padre Joaquim, o meu pai foi um dos
que se levantou em defesa dele, conseguindo que se travasse aquela proposta e
prevalecesse o bom senso.
Mas não foi o meu pai o único homem da oposição a encontrar nas páginas
do “Badaladas” um espaço de expressão e criatividade, situação que custou
alguns dissabores ao padre Joaquim, mas onde revelou toda a sua firmeza na
defesa dos valores liberais e de tolerância que o caracterizaram.
A sua relação problemática com o regime então vigente está bem
documentada no arquivo da Censura (1) e
no arquivo da PIDE, actualmente disponíveis na Torre do Tombo.
Os problemas com a censura começaram logo por altura da fundação do
jornal, cuja primeira edição saiu em Maio de 1948, como boletim mensal da
paróquias de Stª Maria e S.Pedro de Torres Vedras, cujas paróquias dirigia
desde 1939.
Por uma questão de principio e de mera informação e cortesia, o padre
Joaquim enviou uma carta à comissão de censura, datada de 6 de Maio de 1948, informando-a
daquela iniciativa .
Essa carta mereceu uma resposta burocrática daqueles serviços, mas em
tom de ameaça se não fossem cumpridos certos preceitos legais, e só depois se
pronunciaram sobre qualquer autorização para a publicação do “Badaladas”.
De imediato, e de forma frontal, o padre Joaquim informou que já tinha
publicado o boletim, porque não precisava de autorização daqueles serviços para
o fazer, já que, tratando-se de um boletim paroquial, e de acordo com a
Concordata, apenas respondia perante o Bispo, não precisando de ser submetido à
censura.
Daí para afrente, a
correspondência entre o jornal e os serviços de censura discutiam se o
“Badaladas” era “apenas” um boletim paroquial ou um órgão de informação
“regional”, já que, neste último caso, era obrigado a responder perante a
censura, interpretando o padre Joaquim que várias informações e reportagens que
se publicavam diziam respeito às preocupações sociais e culturais de uma
paróquia, enquanto a censura interpretava essa publicações como textos de
caracter “regional” que extravasavam o âmbito de um boletim paroquial.
No debate entrou o responsável local pela União Nacional, denunciando,
em carta “confidencial”, datada de 5 de Abril de 1954, o jornal “Badaladas”.
por não se confinar “nos limites dum jornal exclusivamente religioso”, nem ter
um “procedimento correcto, imparcial e justo para com a U.N. e a sua comissão
concelhia” (2).
Nesse mesmo ano de 1954 o jornal “Badaladas” passou a ser autorizado a
“tratar assuntos de carácter regionalista”, mas, por essa via, passou a ficar
“sujeito à censura prévia e ao envio de 2 exemplares de cada nº publicado” (3).
Mas não era apenas a censura ou a União Nacional a desconfiarem do
padre Joaquim.
No próprio arquivo da PIDE surgem várias denuncias contra o Badaladas,
como por exemplo num relatório datado de 28 de Março de 1960, onde se referia o
“periódico regionalista de Torres Vedras “Badaladas”, cujo director, proprietário
e editor é o padre Joaquim Maria de Sousa, que também consta não ser afecto à
Situação, o que, efectivamente, deixa perceber pela atitudes que tem tomado”,
exemplificando com o conteúdo do jornal (4).
Concluindo e resumindo, não pretendemos fazer aqui um análise biográfica
do padre Joaquim, apenas referir, em sua
homenagem, algumas das suas facetas talvez menos conhecidas e, em parte,
invocando a memória pessoal.
(1)-Ver a obra, abaixo referida, de Carlos Guardado da Silva;
(2)-Carta confidencial de 5/4/1954, in Caixa nº 552 , Badaladas-
arquivo da Censura-SNI- Torres do Tombo. Transcrita na referida obra de Carlos
Guardado;
(3)-Carta de 24/4/1954, na mesma Caixa nº 552;
(4)- in Relatório Confidencial do Posto do Entroncamento da PIDE,
Relatório Semanal nº13/60, de 28 de Março de 1960, no Processo 3194-SR/56, de
Armando Pedro Lopes, in Arquivo da Pide, Torres do Tombo.
--
Nota: para um aprofundamentos obre a vida do Padre Joaquim Maria de
Sousa e sobre a história do Badaladas, recomendamos a consulta das seguintes
obras, que serviram igualmente de base para esta evocação :
- “Badaladas – 52 anos de Comunicação Regional”, trabalho realizado para a disciplina de Relações
Públicas e Comunicação Social da Escola Superior de Educação do Instituto
Politécnico da Guarda, da autoria de Anabela Saraiva Neto, Cristina Alexandra
Barros e Vanessa Sofia Antunes Lourenço, Guarda, 8 de Junho de 2000;,
-MATOS, Venerando Aspra de “Badaladas – um contributo para a identidade
Torriense”, in “Badaladas,50 anos depois… - Notícias, Histórias, Factos”, nº 3,
29 de Maios de 1998;
-RIBEIRO, Joaquim (coord,) , “Badaladas,50 anos depois… - Notícias,
Histórias, Factos”, conjunto de suplementos integrados nas várias edições do
jornal Badaladas ao longo do ano de 1998;
- SANTOS, Andrade, entrevista com o padre Joaquim Maria de Sousa
publicada na edição nº 908 do Badaladas, de 19 de Maio de 1973, comemorativa do
25º aniversário do jornal;
- SILVA, Carlos Guardado da, “A Censura e o jornal Badaladas durante o
Estado Novo”, suplemento do jornal Badaladas de 25 de Abril de 2008.
Etiquetas:
Badaladas,
jornalismo,
Padre Joaquim,
Personalidades.
quinta-feira, 15 de setembro de 2016
sexta-feira, 22 de janeiro de 2016
A VIDA TORRIENSE NOS FINAIS DO SÉCULO XIX, nos caracteres da imprensa local (1885-1890) - 13.
O ano inicia-se com a posse de um novo elenco camarário presidido pelo
Visconde de Balsemão e a respectiva distribuição de pelouros:
O presidente ficou com o pelouro da “instrução”, o vice-presidente,
Alberto José de Bastos e Silva, com o pelouro das obras, partilhado com o vereador
Filippe de Carvalhosa.
O vereador “Paula Gumarães”
ficou com a responsabilidade da praça “mercado, passeios, arvoredos, limpeza, iluminação”
e àguas.
Augusto dos Santos Ferreira ficou com a responsabilidade dos “açougues,
matadouro, cemitérios, incêndios e transgressões”, enquanto os “srs. Magalhães
e Valle” partilharam os baldios e “bens
a cargo da camara” (JTV, 14-1-1886).
Esse mês de Janeiro registou o primeiro casamento civil no concelho: “verificou-se
na Feliteira, segundo nos informam, no dia 18, o primeiro casamento celebrado
pela forma regulada na lei civil, n’este concelho”.
“Os nubentes foram os srs. Augusto Ignacio Correia Torres e D. Germana
Amélia Correia Lopes” (JTV, 22-1-1886).
Nesse mesmo mês chegou à vila “uma companhia dramática de vinte e
tantas pessoas, que se propõe dar algumas récitas n’um teatro barracão que
pretendem construir no largo da Graça” (JTV, 22-1-1886).
O largo da Graça seria também notícia por causa da decisão camarária de
ter mandado “construir um jardim na parte expropriada contigua ao largo da
Graça. A planta será confeccionada pelo distincto engenheiro e nosso amigo, o
sr. Mendes de Almeida, que esteve aqui tratando de outos estudos e
melhoramentos públicos”.
segunda-feira, 9 de junho de 2014
Mila Gaipa - o Jornal do Centro Histórico de Torres Vedras
Cada vez mais desertificado em termos comercias, mas cada vez mais animado em termos culturais, o centro histórico de Torres Vedras tem agora o seu jornal.
Chama-se "Mila Gaipa" e os eu título é uma homenagem a uma das figuras tipicas que viveu no Centro Histórico, uma lavadeira aí nascida na segunda metade do século XIX.
De distribuição gratuita, esta publicação bimestral é dinamizada por várias associações que tem a sua sede nessa zona antiga da cidade, o Académico de Torres Vedras, a Associação para a Defesa do Património, o Atlético Clube Torriense, Coisa -Espaço de Criação da Companhia de Teatro JGM, a Cooperativa de Comunicação e Cultura, o Grupo 129 dos Escoteiros de Portugal, Estufa - Plataforma Cultural e a Transforma.
Uma agenda de eventos para estes dois meses de Junho e Julho, reportagens sobre gente, ruas e colectividades com sede nesta zona da cidade, são algumas das sugestões deste primeiro número.
Saindo para a rua no passado Sábado 7 de Junho, ditribuido durante a realização da mensal "Feira Rural", o seu lançamento coincidiu também com um fim-de-semana de grande animação dessa zona com a realização do festival de cinema de animação, e com a inauguração do novo espaço, nas antigas instalações do Operário, do Fórum de Associações Culturais, que inclui algumas das associações parceiras do jornal.
As associações que surgem como parceiras deste projecto não esgotam todo o conjunto de associações com sede na zona histórico, esperando-se que as que faltam também se venham a integrar no projecto para o enriquecerem.
Daqui desejamos uma longa vida a este original e interessante projecto jornalistico.
Etiquetas:
associativismo,
Centro Histórico,
cultura,
jornalismo,
Mila Gaipa
Subscrever:
Mensagens (Atom)

















