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quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Ainda o 40º aniversário da CCC : um texto de Aurelindo Ceia


    "ÁREA, BREVE HISTÓRIA DE RESISTÊNCIA

por AURELINDO CEIA

    "Estávamos em finais de 1978. O Portugal democrático estava em plena construção, num  processo onde se cruzavam realizações, contradições, insuficiências e desejos – esbracejando na aprendizagem (teórica e prática) do viver em liberdade.

   "Este processo, depois de quatro décadas do fascismo lusitano, veio a revelar-se bem mais difícil do que a simples vontade de o concretizar. Muitas alegrias, no meio de inúmeras decepções.

 "Demora a aprender o modo de passar do sonho à realidade, porque a liberdade tem que ser arduamente construída, nunca nos é ofertada numa embalagem fácil. E é condição necessária à democracia, mas não suficiente.

  " O 25 de Abril cavou muito sobre a nossa alegria ingénua e sobre as nossas fragilidades. Sair de quatro décadas de obscurantismo implica longas marchas em vias abertas na esperança, mas detrás de cujas margens começaram logo a emergir monstros diversos para assalto ao poder. Isto para além do ressabiamento e desejo de vingança dos vencidos, súbita e inesperadamente despojados das benesses e dos longos banquetes da ditadura salazarenta.  
   
   "No dia 22 de Setembro de 1978 dezoito jovens reuniram na praia de Santa Cruz, em casa do Fernando Mouro e da Manuela Ribeiro, com o objectivo de fundar um jornal.

  " Parecia fácil. Era, pelo menos bem intencionado – concretizar algo para poder partilhar com os outros as alegrias, as críticas e as expectativas da revolução de Abril, quatro anos depois.

  " Ainda não era bem um jornal – a ideia era mais a de uma “revista”, não se temiam quaisquer obstáculos. Todos se dispuseram a colaborar nas diferentes secções de trabalho. A coisa era ambiciosa: desde a história e a educação, até à música, literatura, cinema, ecologia, religiões fotografia, psicologia, sociologia política, teatro, saúde... Só.

 "  Primeira decisão: organizar um grupo para marchar até Lisboa, onde se realizariam contactos com agências publicitárias, gráficas, distribuidoras, sindicato dos jornalistas. Objectivo: perceber as condições concretas para começar a construir um edifício com estruturas sólidas.

  " Na segunda reunião, uma semana depois, analisaram-se as informações colhidas e percebeu-se que não adiantava avançar nada por fora, sem estruturar a ideia por dentro.

 "  Objectivos aprovados para a (ainda) revista? Primeiro: ter como alvo a “população do distrito de Lisboa, especialmente região do Oeste”. Restantes: complicado, seriam discutidos na reunião seguinte.

 "  Entretanto, achou-se por bem consultar a “lei de imprensa” e, no terceiro encontro (6 de Outubro), as catorze pessoas então presentes debateram os erros a evitar, abordaram algumas alternativas e tentaram distribuir os colaboradores pelos principais temas entretanto afinados.

  " A 10 de Outubro foi enfim possível encontrar os responsáveis pelos assuntos principais: criatividade, direito à diferença, informação, teatro, sociedade em análise, bd, música...

  " Será interessante que se mencionem alguns dos nomes que resistiam então desde a primeira hora: Fernando Mouro, Manuela Ribeiro, Venerando António, Guilhermina Pacheco, Armando Jorge, Joaquim Esteves, Carlos Ferreira, Jorge Vareda, Travanca Rodrigues, Jorge Barata, Constância Bataglia, Luis Filipe Rodrigues, o Ceia na parte gráfica. Outros se lhe vieram juntar, como o Vitor-Luis Grilo (primeiro director indigitado, que recusou por, aparentemente, não lidar muito bem com o razoável granel naturalmente instalado) e o José Eduardo Miranda (que viria a ser o primeiro director).

 "  A ideia da revista desaparece das actas e, a partir de 18 de Outubro já se fala de “jornal”.

 "  Um ano correrá ainda, antes do primeiro número sair dos prelos, em Novembro. Entretanto, o trabalho não pára. Duas questões importantes surgem. Uma, o contacto com a imprensa próxima, “Oeste Democrático”, “Badaladas” e “Gazeta das Caldas”.

"Outra: “questões relacionadas com objectivos e viabilidade técnica e financeira da publicação”.

"Pequenas coisas, não é? O entusiasmo não esmorecia, talvez porque o mundo da realidade estava ainda muito embalado no mundo dos sonhos. Mas, pergunta-se: não é assim que deve ser? De outro modo, como avançar, como progredir, como inovar? E foi isso mesmo que o futuro ÁREA procurou fazer, em boa parte o tendo conseguido. “Viabilidade financeira”? Claro que havemos de lá chegar! Pensar, escrever, paginar, editar, administrar, distribuir, vender – isso tudo se conseguirá, verão! A verdade é que, nos primeiros tempos, o núcleo de trabalho inicial, com mais uma ou duas aquisições, o conseguiu fazer.

   "Ainda se não mencionou outro aspecto. Quem ou que organização assumiria a propriedade legal da publicação? Achou-se que este problema seria resolvido com a criação de uma Cooperativa cultural – que vem a denominar-se “Cooperativa de Comunicação e Cultura” (1).

  " O título do jornal começou a ser debatido nas primeiras reuniões de Novembro.

  " Avançam-se, em jeito de curiosidade, com alguns dos nomes, dos mais de três dezenas sugeridos e sujeitos a votação do grupo: Novoeste, Encontro, Diálogo, Interoeste, Ensaio, A Palavra, Novos Caminhos, Evolução, Pesquisa, Novo, Oeste Regional, Fase 1, Gazetilha, Espaço, Terra Cultura, Terra Nova...

 "   Um nome – ÁREA – curiosamente, nunca foi mencionado e não aparece nas hipóteses em discussão registadas nos papéis do Venerando, mas veio a ser o escolhido numa reunião em que foi proposto pelo A. Ceia, que entretanto já apresentara uma maquette para a capa. Será aqui justo que se registe ter o José Pedro Sobreiro sido entretanto proposto pelo Vitor-Luis Grilo para responsável gráfico, ideia que não chegou a vingar.

"   A Cooperativa assumiu o papel de suporte legal do jornal e passou a promover diversas actividades culturais, para apresentação da ideia à comunidade. A primeira realiza-se em 18 Novembro de 1979, já com Torres promovida a cidade, para lançamento do número 1 do ÁREA – “1º. Passeio de Domingo - Um itinerário histórico em Torres Vedras”, liderado por Cecília Travanca e Manuela Ribeiro.

  " O jornal insiste numa tonalidade local, aberta à modernidade e à diversidade cultural. O número inaugural publica uma extensa mesa redonda (5 páginas) – “Torres Vedras, Cidade / Novos Rumos, Velhos Problemas”, na qual participam Alberto Avelino, António Augusto Sales, Filomena Moura Guedes, José António Gomes e Padre José Manuel. Durante muito tempo o público se interrogou, perplexo sobre “quem estaria por trás deste arraial de putos” – isto é: que partido movimentava estas tropas? Nunca o desvendaram, pela elementar razão de não haver nenhum! Os jovens (na maioria estudantes e professores) queriam agir, com prazer e sentido cívico, apenas. Pena que o tal pormenor “viabilidade financeira” tenha sempre sido encarado com excessivo optimismo (sejamos simpáticos). Após a saída dos dois primeiros números o gerente da tipografia “Sogratol” mandou parar as máquinas, face às dificuldades em resolver a factura da respectiva produção.

  " As coisas depois equilibraram-se, porque a direcção da Cooperativa conseguiu encontrar uma gráfica alternativa (a Grafibom, do Bombarral) e reunir fundos que fossem permitindo aguentar uma publicação mais ou menos periódica. O jornal, “mensal”, publicaria até Junho de 1981 treze edições... Nesta altura assiste-se a uma cisão dentro do pessoal que fazia e vendia o jornal, e que era, em boa parte, pessoal da Cooperativa. O seu director, José Eduardo Miranda, publicou então um Editorial (assinado, ironicamente, por “Os putos do ÁREA”), onde dizia, despedindo-se até Outubro: “Aliás, só nos lê quem gosta, quem quer, quem pode. E, quem gosta, quer. E como ‘querer é poder’, somos um jornal difícil para toda a gente.”

 "  O número seguinte sairia em... Junho de 1982, dirigido agora por Luis Filipe Rodrigues.

"   Número 15, Junho 1983; número 16, Novembro 1984; número 17, número 17, Abril 1990, número 18, Novembro 1999; número 19, Outubro 2009...

  " Esta sequência diz tudo sobre a morte lenta – adiada – de um projecto editorial cujas bases amadoras não foram suficientes. O entusiasmo precisava de estrutura. Esgotou-se. A soma das ideias e dos sonhos sucumbiu à dureza da realidade e, sejamos claros, à inexistência de uma orgânica profissional. Há quem opine que o esforço feito para desenvolver o programa cultural da Cooperativa terá matado o projecto jornalístico. Na realidade, os activistas eram basicamente os mesmos. A verdade é que a Cooperativa foi crescendo, até à construção de uma sede e do seu “Centro de Cultura Contemporânea” e a sua dimensão e perspectivas foram também criando contradições internas, algumas insanáveis. Hoje, o projecto cultural para Torres Vedras mantém-se e foi acrescentado de novas instalações e novos objectivos com a “Câmara Escura”, trabalhando na área da fotografia contemporânea, em torno de (outro) grupo de jovens entusiastas.

 "  Quarenta anos se passaram. A sede da Cooperativa de Comunicação e Cultura, na rua da Cruz, continua aberta e as actividades sucedem-se, em menor número que há dez, vinte, trinta anos, mas prosseguindo uma ideia teimosa: criação de um clima cultural.

 "  Torres Vedras, mesmo que o não queira ou não saiba, merece o trabalho inovador destes novos putos...

 "  (1)  Designação sugerida por Aurelindo Ceia
  
"   Nota:
   Este texto foi escrito a partir dos apontamentos e actas das reuniões, recolhidos por Venerando António".



    

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

A Origem do Automóvel e do transporte automóvel, em Torres Vedras


Data de 1895 a entrada do primeiro automóvel em Portugal, e não foi preciso esperar muito tempo para aparecer em Torres Vedras o primeiro agente de venda de automóveis, conforme se prova num anúncio publicado nas páginas do jornal "A Vinha de Torres Vedras" em 14 de Outubro de1897, anúncio publicado na edição seguinte e cuja publicação foi repetida por várias vezes ao longo de 1898.



Inicialmente o êxito do automóvel foi limitado e temos de esperar por 1902 para encontrarmos a primeira referência comprovada à circulação de um automóvel nas ruas de Torres Vedras.

Foi por ocasião da visita da rainha D. Amélia ao convento da Graça, a 12 de Maio desse ano, de passagem "em direcção à quinta das Lapas(...)em automóvel e (...)acompanhada pelos srs.  conde de Tarouca e condes de Figueiró(...)"(1) (foto em cima).

Só em finais da década de 10 é que o automóvel conheceu algum incremento neste concelho, levando a Câmara Municipal a iniciar, a partir de 1918, um registo de automóveis matriculados, oficialmente os primeiros existentes em Torres Vedras e dos quais registamos os 20 primeiros (2):

 (Nº de ordem de matricula;  Nº de Circulação, Ano, Mês e Dia do Registo, Nome do Proprietário e residência)

    1    1660       1918   Abril 18    D. Vasco Martins Sequeira   Q.ta Juncal
    2     2393      1918   Julho  5     Vasco de Moura Borges      Q.ta Paio Correia
    3      943       1919   Julho 12    João Henriques dos Santos  Torres Vedras
    4     1390      1919   Julho 19    Gonzaga Limitada               Q.ta Charneca
    5      ---         1919   Agos.  2    José Augusto Lopes & C.ª   Torres Vedras
    6     2270      1919   Sete.   2    José Duarte Capote               Torres Vedras
    7     2705      1919   Out.   10    José Augusto Lopes Jr.        Torres Vedras
    8       ---        1919   Dez.   26    Joaquim C. Rodrigues         Torres Vedras
    9     2811      1920   Jan.    12    João Henriques dos Santos  Torres Vedras
  10       ---        1920   Maio  22    António |...?| Oliveira           Torres Vedras
  11     4076      1920   Junho 15   António Emilio Cunha S.tos Torres Vedras
  12     4258     1920   Agos.   2    Alfredo Oliveira Luso           Lisboa
  13   4230    1920   Agos. 16    João Henriques dos Santos   Torres Vedras -   camioneta
  14     4614     1920   Set.      2    Faustino Policarpo Timóteo  Dois Portos   -camioneta
  15     4473     1920   Out.     2    Manuel Augusto Baptista      Torres Vedras
  16      2981      1920   Out.   14    José Botto Pimentel Carv.º    Q.ta do Paço
  17      2907      1920   Nov.  16    José Antunes Martins             Ramalhal
  18      3382       1921   Abril  13    Dr.Pereira Branco                  Ribaldeira
  19        218       1922   Maio  25    António Hipólito                    Torres Vedras
  20        ---         1922   Agos.  4     Amadeu dos Santos                Torres Vedras

Por este quadro é possível concluir que foi a partir da década de 20 que a aquisição de automóveis começou a aumentar neste concelho e que a primeira camioneta registada pertencia a João Henriques dos Santos. No ano de 1926, registavam-se 48 automóveis e 26 camionetas (2).

Contudo, o inicio desse registo camarário não quer dizer que a existência de torrienses  proprietários de automóveis se tivesse iniciado apenas em 1918. Antes desta data, e pelo menos desde 1901, que os automóveis eram registados, mas a nível distrital, no caso torriense pelo Governo Civil de Lisboa (3).

Existem  testemunhos de que João Henriques dos Santos possuiu um dos primeiros automóveis em Torres Vedras logo nos primeiros anos do século (por volta de 1908)(4).

Se a divulgação do automóvel foi lenta e demorada, os primeiros transportes usando o automóvel só começaram a obter algum êxito nos anos 20, quando começaram a poder bater o comboio no tempo de percurso, ou chegando a sítios onde o comboio não chegava, mas que ganhavam crescente importância turística e económica, como foram os casos de S.ta Cruz e Peniche.

Data de 1899 a primeira proposta de estabelecer uma carreira automóvel ligando Torres Vedras a Lisboa.

Em reunião camarária de 14 de Dezembro desse ano dava-se a informação de se ter recebido um requerimento, datado de 25 de Novembro, dirigido a esse orgão municipal de "Alfredo de Brito, - industrial, constructor electricista com fábrica em Lisboa, na rua de Santo António dos Capuchos, nºs 52/54" pedindo "à Camara Municipal de Torres Vedras, concessão por setenta e cinco annos, para si ou para a Companhia que está organisando, para a exploração (em toda a area actual do concelho de Torres Vedras e d' aquella que de futuro venha a pertencer-lhe), do transporte de pessoas, mercadorias, etc.,etc., por meio de vehiculos denominados automoveis. O requerente garante à câmara,  annualmente  três  por cento da receita bruta.

"Esta concessão facultando à Camara uma nova receita, proporcionará aos municipes as vantagens de usarem um meio de transporte rápido e commodo, e facultará o desenvolvimento da industria de carruageria |sic| , ha muitos annos estabelecida no país,e da industria mecanica pela fabricação dos motores e acessórios necessarios aos automoveis, fabrico que o requerente iniciou na sua fabrica(...)" (5).

A camara ficou de tratar deste assunto noutra sessão, nunca o tendo feito. Foi preciso esperar por 1915 para se inaugurar a primeira carreira automóvel. Pertenceu a iniciativa  à empresa da Malveira, Joaquim Jerónimo &Irmão: "Trata-se de uma carreira de auto-omnibus entre Torres e Lisboa, partindo do Largo da República, todos os dias ,às 3 horas da tarde", preenchendo assim "uma lacuna importante, que ha muito se fazia sentir, tanto mais que a companhia dos Caminhos de Ferro nunca quiz atender as reclamações constantes que lhe foram feitas, para restabelecer os comboios da tarde para Lisbos, que ela, há muito, desatenciosamente suprimiu(...)" (6).

Este serviço teve início a 18 de Abril de 1915 e nasceu em confronto directo com o transporte ferroviário. Contudo, fosse por fazer a viagem de Torres Vedras ao Lumiar em 3 horas, tanto tempo como o tempo de comboio, fosse por outras razões, esta iniciativa não teve o êxito esperado, sendo necessário esperar por nova iniciativa do género, nos anos 20, pela qual foi responsável João Henriques dos Santos.


Já referimos noutra parte do nosso artigo que João Henriques dos Santos não só foi o terceiro torriense a registar a posse de um automóvel, como foi o primeiro a adquirir uma camioneta.

O seu entusiasmo por esse então novo meio de transporte revelou-se em diversas ocasiões. Uma das mais conhecidas aconteceu em 1922, a 3 de Dezembro. Tendo passado então pelo Vilar, ouviu foguetes e, perguntando o que se passava, disseram-lhe que anunciavam a realização das festas do lugar do Pereiro. Logo aí manifestou interesse em deslocar-se no seu automóvel a essas festas."É claro, pessoas conhecedoras do lugar e do caminho existente para ali, tentaram dissuadi-lo, mas foi como se chovesse no molhado. Não o demoveram do seu intento. Os companheiros também não ligaram importância aos conselhos, e lá seguiram, por uma estrada vicinal, que em Dezembro só poderia ser transitada por cabras ou por corvos, pois só servia às vezes para carros de bois.

"João Henriques dos Santos, com o carro cheio de amigos, começou subindo aquêle pseudo-caminho, embóra com dificuldade. Mas, mais para cima, o caminho complicou-se e não havia meio de poderem prosseguir. Retroceder muito menos. Então a situação era crítica. Nem para diante, nem para tráz.

"Enfim, como era boa a disposição que tinham adquirido pelo caminho, lá foram removendo uma pedra aqui, colocando outra ali, escangalhando um calço acolá, evantando o carro além para o tirar da situação crítica ou  de se despenhar de qualquer ribanceira, e depois de extenuantes esforços, lá conseguiram chegar ao Pereiro.

"Grande festa, entre a população, por ali ser visto, pela primeira vez, um automóvel, foguetes e o resto que se póde imaginar, em tais casos(...)" (7).

Em finais dos anos 40, em homenagem a essa odisseia, o povo do Pereiro mandou colocar uma lápide comemorativa da chegada do primeiro automóvel a esse lugar bem como a João Henriques.

Exemplo do mesmo espírito ousado que marcaria a sua vida, ficou célebre aquela vez em que desceu de carro as escadinhas do castelo, ganhando uma aposta de cem escudos.

A ele ficou a dever-se o início da primeira carreira regular de automóvel, para Santa Cruz, que se iniciou em 1 de Agosto de 1923. Partia da estação de caminho de ferro "após a chegada do comboio correio da capital",saindo depois daquela praia "a tempo dos passageiros poderem regressar à capital pelo comboio correio da noite" (8). Custava a viagem para S.ta Cruz a quantia de 5 escudos.

Se essa iniciativa muito contribuiu para o grande desenvolvimento turístico que essa praia conheceu desde então, mais importante terá sido para o desenvolvimento desta região o facto de ter iniciado a regular ligação rodoviária de Torres Vedras a Lisboa, em Novembro de 1928.Gastou na viagem inaugural duas horas. Custava o bilhete 11 escudos,"custando o lugar ao lado do condutor 15$00!Indicava-se a chegada e partida no Largo de S.Domingos, depois no Largo da Anunciada e, posteriormente, na Rua da Palma. Avisavam-se ainda os passageiros de que deveriam ocupar os seus lugares 15 minutos antes da partida".

O êxito desse empreendimento foi tal, que logo no ano seguinte surgiram dois concorrentes, Ruy Lopes e Francisco Capote, concorrência que foi benéfica para os habituais passageiros desse percurso, pois os três proprietários esmeravam-se por apresentarem as melhores e mais cómodas camionetas. Pouco tempo depois, João Henriques dos Santos conseguia monopolizar a ligação com Peniche.



Reside nesta ligação com Peniche um dos episódios mais marcantes da bondade da sua personalidade ao ajudar os presos políticos de Peniche, transportando gratuitamente as encomendas  que lhes eram enviadas pelos familiares.

Dentro do mesmo espírito, de ajudar os que precisavam, tomou igualmente a iniciativa de "na sua carreira da manhã, que passa por Montachique," conceder "nos dias úteis, a todas as crianças do lugar de Malgas, do visinho concelho do sobral de Monte Agraço e que " frequentavam" a escola primária de Pêro Negro, passagem gratuíta", procedendo de igual modo com os passageiros pobres que procuravam tratamento nos hospitais de Lisboa (7).

A empresa que fundou continuou ligada ao ramo automóvel, tendo abandonado os transportes públicos em 1972, cedendo as suas concessões à empresa Claras, absorvida, depois do 25 de Abril de 1974, pela empresa pública Rodoviária Nacional.

(1)   – in Folha de Torres Vedras, 8 de Maio de 1902;
(2)   – In Livro de Registo de Matriculas, Arquivo Municipal de Torres Vedra;
(3)   – Decreto de 3 de Outubro de 1901;
(4)   - RODRIGUES, António, com Adão de Carvalho,”O Princípio do automóvel em Torres Vedras”, in Toitorres Notícias, nº 39 de Setembro/Outubro de 1996;
(5)   - In Actas da Câmara Municipal de Torres Vedras (CMTV), Livro nº 35, sessão de 14 de Dezembro de 1899, fol. 247 verso, AMTV;
(6)   - In A Vinha de Torres Vedras, 22 de Abril de 1915;
(7)   –In Badaladas [data desconhecida];
(8)   – in O Torreense, 5 de Agosto de 1923.

Nota: uma versão mais resumida deste texto foi publicada na série “Vedrografias”, no jornal Badaladas de 26 de Janeiro de 2018. Por sua vez o texto que aqui se reproduz tem origem num capítulo do meu livro sobre o Impacto da chegada do Caminho de ferro em Torres Vedras, actualizado e já publicado neste blog, mas que agora foi refeito e actualizado com base em novas informações.




quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Breve evocação do Padre Joaquim Maria de Sousa



Há trinta anos, no dia 6 de Novembro de 1987, faleceu uma das figuras mais marcante do século XX torriense, o padre Joaquim Maria de Sousa.

O padre Joaquim, como era popularmente conhecido, merece há muito uma biografia aprofundada, nãos sendo o caso desta nossa breve evocação .

Ainda criança conheci o padre Joaquim, não tanto pelas suas funções religiosas, porque eu não era católico praticante, mas como meu professor na disciplina de “Religião e Moral”, durante anos, no Liceu de Torres Vedras.

E logo aí revelou a sua faceta humanista e tolerante, pois, apesar de a disciplina ser obrigatória e a maioria dos alunos serem frequentadores assíduos da Igreja, nunca procurou impor uma visão ortodoxa da disciplina, nem nunca marginalizou os poucos alunos não católicos ou não praticantes.

Além disso, as suas aulas eram um dos poucos espaços de liberdade no seio de uma escola e de um ensino marcados pelo autoritarismo e por métodos pedagógicos que não promoviam a liberdade nem a criatividade.

Foi o padre Joaquim que nos levou à descoberta do espaço envolvente, ocupando grande parte das aulas a mostrar-nos o património histórico e natural do concelho, sempre que o tempo o permitia.

Quando tínhamos de ficar na sala, as aulas nunca eram aborrecidas, mas animadas pelo recurso a pedagogias inovadoras, como o uso dos meios audiovisuais disponíveis, o que representava uma autêntica “revolução” pedagógica para a época.

Devo-lhe o meu interesse pela história e pelo património locais e também pelos audiovisuais, nomeadamente pelo cinema e pela fotografia.

Uma outra faceta sua que conheci foi a de homem do jornalismo, em parte devido   à ligação do meu pai com o jornal “Badaladas”, sendo o padre Joaquim uma das figuras mais respeitadas e apontadas como exemplo de tolerância em conversas de família.

Havia um enorme respeito e amizade entre o padre Joaquim e o meu pai, que era um homem da oposição e que sempre encontrou nas páginas do “Badaladas” espaço para exprimir as suas ideias e a sua criatividade literária.

Por norma, o padre Sousa publicava todos os artigos do meu pai sem os sujeitar à censura, como, a partir de certa altura, como veremos mais abaixo, passou a ser obrigação legal.

Quando, por vezes, o conteúdo, abordava temas sensíveis que podiam provocar problemas ao jornal, o padre Joaquim comunicava ao meu pai, pedindo humildemente desculpa, que “aquele” artigo tinha de ser submetido à comissão de censura. Uns passavam, outros eram publicados com cortes, alguns eram integralmente cortados.

Quando, depois do 25 de Abril, alguns “ferro-em-brasa”, numa assembleia popular onde se decidia a futura administração do concelho, alguém apelou a que se ocupasse o “Badaladas” e se expulsasse o padre Joaquim, o meu pai foi um dos que se levantou em defesa dele, conseguindo que se travasse aquela proposta e prevalecesse o bom senso.

Mas não foi o meu pai o único homem da oposição a encontrar nas páginas do “Badaladas” um espaço de expressão e criatividade, situação que custou alguns dissabores ao padre Joaquim, mas onde revelou toda a sua firmeza na defesa dos valores liberais e de tolerância que o caracterizaram.

A sua relação problemática com o regime então vigente está bem documentada no arquivo da Censura (1)  e no arquivo da PIDE, actualmente disponíveis na Torre do Tombo.


Os problemas com a censura começaram logo por altura da fundação do jornal, cuja primeira edição saiu em Maio de 1948, como boletim mensal da paróquias de Stª Maria e S.Pedro de Torres Vedras, cujas paróquias dirigia desde 1939.

Por uma questão de principio e de mera informação e cortesia, o padre Joaquim enviou uma carta à comissão de censura, datada de 6 de Maio de 1948, informando-a daquela iniciativa .

Essa carta mereceu uma resposta burocrática daqueles serviços, mas em tom de ameaça se não fossem cumpridos certos preceitos legais, e só depois se pronunciaram sobre qualquer autorização para a publicação do “Badaladas”.

De imediato, e de forma frontal, o padre Joaquim informou que já tinha publicado o boletim, porque não precisava de autorização daqueles serviços para o fazer, já que, tratando-se de um boletim paroquial, e de acordo com a Concordata, apenas respondia perante o Bispo, não precisando de ser submetido à censura.

Daí para afrente,  a correspondência entre o jornal e os serviços de censura discutiam se o “Badaladas” era “apenas” um boletim paroquial ou um órgão de informação “regional”, já que, neste último caso, era obrigado a responder perante a censura, interpretando o padre Joaquim que várias informações e reportagens que se publicavam diziam respeito às preocupações sociais e culturais de uma paróquia, enquanto a censura interpretava essa publicações como textos de caracter “regional” que extravasavam o âmbito de um boletim paroquial.

No debate entrou o responsável local pela União Nacional, denunciando, em carta “confidencial”, datada de 5 de Abril de 1954, o jornal “Badaladas”. por não se confinar “nos limites dum jornal exclusivamente religioso”, nem ter um “procedimento correcto, imparcial e justo para com a U.N. e a sua comissão concelhia” (2).

Nesse mesmo ano de 1954 o jornal “Badaladas” passou a ser autorizado a “tratar assuntos de carácter regionalista”, mas, por essa via, passou a ficar “sujeito à censura prévia e ao envio de 2 exemplares de cada nº publicado” (3).

Mas não era apenas a censura ou a União Nacional a desconfiarem do padre Joaquim.

No próprio arquivo da PIDE surgem várias denuncias contra o Badaladas, como por exemplo num relatório datado de 28 de Março de 1960, onde se referia o “periódico regionalista de Torres Vedras “Badaladas”, cujo director, proprietário e editor é o padre Joaquim Maria de Sousa, que também consta não ser afecto à Situação, o que, efectivamente, deixa perceber pela atitudes que tem tomado”, exemplificando com o conteúdo do jornal (4).

Concluindo e resumindo, não pretendemos fazer aqui um análise biográfica do padre Joaquim,  apenas referir, em sua homenagem, algumas das suas facetas talvez menos conhecidas e, em parte, invocando a memória pessoal.

(1)-Ver a obra, abaixo referida, de Carlos Guardado da Silva;
(2)-Carta confidencial de 5/4/1954, in Caixa nº 552 , Badaladas- arquivo da Censura-SNI- Torres do Tombo. Transcrita na referida obra de Carlos Guardado;
(3)-Carta de 24/4/1954, na mesma Caixa nº 552;
(4)- in Relatório Confidencial do Posto do Entroncamento da PIDE, Relatório Semanal nº13/60, de 28 de Março de 1960, no Processo 3194-SR/56, de Armando Pedro Lopes, in Arquivo da Pide, Torres do Tombo.

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Nota: para um aprofundamentos obre a vida do Padre Joaquim Maria de Sousa e sobre a história do Badaladas, recomendamos a consulta das seguintes obras, que serviram igualmente de base para esta evocação :
- “Badaladas – 52 anos de Comunicação Regional”, trabalho  realizado para a disciplina de Relações Públicas e Comunicação Social da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico da Guarda, da autoria de Anabela Saraiva Neto, Cristina Alexandra Barros e Vanessa Sofia Antunes Lourenço, Guarda, 8 de Junho de 2000;,
-MATOS, Venerando Aspra de “Badaladas – um contributo para a identidade Torriense”, in “Badaladas,50 anos depois… - Notícias, Histórias, Factos”, nº 3, 29 de Maios de 1998;
-RIBEIRO, Joaquim (coord,) , “Badaladas,50 anos depois… - Notícias, Histórias, Factos”, conjunto de suplementos integrados nas várias edições do jornal Badaladas ao longo do ano de 1998;
- SANTOS, Andrade, entrevista com o padre Joaquim Maria de Sousa publicada na edição nº 908 do Badaladas, de 19 de Maio de 1973, comemorativa do 25º aniversário do jornal;
- SILVA, Carlos Guardado da, “A Censura e o jornal Badaladas durante o Estado Novo”, suplemento do jornal Badaladas de 25 de Abril de 2008.




quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Novas edições de "CLIC", a revista torriense on-line (nº 3 e nº4)

Estas são as últimas edições da revista torriense on-line "CLIC" (podem ser consultadas clicando no endereços em baixo):

 

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

A VIDA TORRIENSE NOS FINAIS DO SÉCULO XIX, nos caracteres da imprensa local (1885-1890) - 13.


JANEIRO DE 1886

O ano inicia-se com a posse de um novo elenco camarário presidido pelo Visconde de Balsemão e a respectiva distribuição de pelouros:

O presidente ficou com o pelouro da “instrução”, o vice-presidente, Alberto José de Bastos e Silva, com o pelouro das obras, partilhado com o vereador Filippe de Carvalhosa.

O vereador  “Paula Gumarães” ficou com a responsabilidade da praça “mercado, passeios, arvoredos, limpeza, iluminação” e àguas.

Augusto dos Santos Ferreira ficou com a responsabilidade dos “açougues, matadouro, cemitérios, incêndios e transgressões”, enquanto os “srs. Magalhães e Valle”   partilharam os baldios e “bens a cargo da camara” (JTV, 14-1-1886).

Esse mês de Janeiro registou o primeiro casamento civil no concelho: “verificou-se na Feliteira, segundo nos informam, no dia 18, o primeiro casamento celebrado pela forma regulada na lei civil, n’este concelho”.

“Os nubentes foram os srs. Augusto Ignacio Correia Torres e D. Germana Amélia Correia Lopes” (JTV, 22-1-1886).

Nesse mesmo mês chegou à vila “uma companhia dramática de vinte e tantas pessoas, que se propõe dar algumas récitas n’um teatro barracão que pretendem construir no largo da Graça” (JTV, 22-1-1886).

O largo da Graça seria também notícia por causa da decisão camarária de ter mandado “construir um jardim na parte expropriada contigua ao largo da Graça. A planta será confeccionada pelo distincto engenheiro e nosso amigo, o sr. Mendes de Almeida, que esteve aqui tratando de outos estudos e melhoramentos públicos”.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Mila Gaipa - o Jornal do Centro Histórico de Torres Vedras

Cada vez mais desertificado em termos comercias, mas cada vez mais animado em termos culturais, o centro histórico de Torres Vedras tem agora o seu jornal.

Chama-se "Mila Gaipa" e os eu título é uma homenagem a uma das figuras tipicas que viveu no Centro Histórico, uma lavadeira aí nascida na segunda metade do século XIX.

De distribuição gratuita, esta publicação bimestral é dinamizada por várias associações que tem a sua sede nessa zona antiga da cidade, o Académico de Torres Vedras, a Associação para a Defesa do Património, o Atlético Clube Torriense, Coisa -Espaço de Criação da Companhia de Teatro JGM, a Cooperativa de Comunicação e Cultura, o Grupo 129 dos Escoteiros de Portugal, Estufa - Plataforma Cultural e a Transforma.

Uma agenda de eventos para estes dois meses de Junho e Julho, reportagens sobre gente, ruas e colectividades com sede nesta zona da cidade, são algumas das sugestões deste primeiro número.

Saindo para a rua no passado Sábado 7 de Junho, ditribuido durante a realização da mensal "Feira Rural", o seu lançamento coincidiu também com um fim-de-semana de grande animação dessa zona com a realização do festival de cinema de animação, e com a inauguração do novo espaço, nas antigas instalações do Operário, do Fórum de Associações Culturais, que inclui algumas das associações parceiras do jornal.

As associações que surgem como parceiras deste projecto não esgotam todo o conjunto de associações com sede na zona histórico, esperando-se que as que faltam também se venham a integrar no projecto para o enriquecerem.

Daqui desejamos uma longa vida a este original e interessante projecto jornalistico.