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quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Data de 1729 a mais antiga “Monografia” sobre Torres Vedras


Talvez seja um pouco exagerado falar de “monografia” para referir um manuscrito que sistematiza várias informações sobre a História e o Património de Torres Vedras.

Mas existe nesse documento uma primeira tentativa de organizar um conjunto de informações históricas sobre o concelho, atitude que é pioneira em relação à História local deste concelho.

Referimo-nos ao manuscrito intitulado “Livro de Notícias Varias, composta por hum vario autor. Anno de 1729”, que esteve, primeiro, depositado na Biblioteca Municipal de Torres Vedras, e se encontra actualmente à guarda do Arquivo Municipal.

Quando consultámos pela primeira vez esse manuscrito, em 1988, encontrava-se junto um pequeno papel em anexo onde se indicava que esse “manuscrito foi feito pelo capitão Luiz Botto Pimentel Corte real e pertencia ao sr. Augusto Botto Pimentel, morador na casa da Ribeira, na Bulegueira, que em 1926 o mostrou a Júlio Vieira”.

Esta anotação, datada de 26 de Maio de 1976, era assinada pelo conhecido arqueólogo torriense, sr. Leonel Trindade.

Pouco se sabe sobre a vida do capitão Boto Pimentel. Terá vivido entre 1684 e 1741, a fazer fé na placa toponímica que se encontra na rua baptizada com o seu nome, e pertencia a uma das mais antigas famílias do concelho, ainda hoje existente.

Júlio Vieira afirmou que a família dos Bôtos “em 1729 era representada pelo capitão Luiz Bôto Pimentel Côrte Real, autor do manuscrito a que faço referência (…) e que naquela época era “vereador mais velho”.

Voltando ao manuscrito em causa, ele foi pela primeira vez mencionado com data e autoria correcta pelo citado Julio Vieira, na sua “Torres Vedras Antiga e Moderna”, obra editada em 1926.

Contudo, na 2ª edição da obra de Madeira Torres, “Descripção Historica e económica da villa e termo de Torres-Vedras”, publicada em 1862, os seus editores e anotadores, Dr. José António da Gama Leal e bacharel José Eduardo Cezar de faro e Vasconcelos, referem-se amiudadas vezes a uma “memória” de 1734 que nos parece ser o mesmo documento a que nos estamos a referir.

Comparando as informações por eles atribuídas à tal memória de 1734 com as informações do “Livro de Notícias Várias” de 1729, elas são , na grande generalidade, coincidentes.

Isto leva-nos a colocar duas hipóteses:

- ou aqueles editores copiaram mal os dois últimos algarismos do rosto do manuscrito, o que é perfeitamente possível, pois a forma como os números 2 e 9 estão grafados podem ser confundidos com os números 3 e 4;

- ou o manuscrito de 1729 foi uma primeira versão, uma espécie de “caderno de apontamentos”,  que serviu de base para uma outra versão, passada a limpo, com a data de 1734.

Esta última hipótese também é credível já que, em 1734, o capitão Boto Pimentel ainda estava vivo.

Porém, até hoje, nunca foi encontrada qualquer versão datada de 1734.

É igualmente importante analisar o “Livro de Notícias Várias (…)” no contexto da historiografia característica da época.

(excerto de uma passagem do documento)


Oliveira Marques, no volume primeiro da sua “Antologia da Historiografia Portuguesa”, editada em 1974 pelas Publicações D. Quixote, considera que, sendo a historiografia portuguesa de setecentos dominada por uma “ideologia clerical”, consequência do predomínio eclesiástico na historiografia da época, marcada pela profusão de “histórias monásticas (…) tradutoras de uma lamentável ausência de espírito crítico e de uma assombrosa guarida à lenda e à patranha”, já se registavam então alguns progressos na “maneira de redigir a história”, marcada pela influência humanista, concedendo o “documento como fonte primeira da história”.

Esta influência provoca, na época, apesar do domínio da tal “história clerical”, um “surto  de novos métodos críticos e comparativos com os primeiros passos das ciências auxiliares –a diplomática, a paleografia, a filologia, a arqueologia, a cronologia, etc”, atitude que se reflecte na historiografia portuguesa.

Apesara deste avanço, Oliveira Marques alerta para o facto de “que o recurso a essas “ciência auxiliares”, pelo estado mais que infantil em que se encontravam ainda, escondia perigos imensos, quais os de extrair conclusões e fomentar hipóteses a partir de dados que de verídico nada tinham”.

De facto, o documento por nós aqui recordado, revela algumas das novidades que começam a surgir em setecentos, pois o texto do capitão Boto Pimentel recorre a várias fontes, citando a sua origem (obras impressas, manuscritos existentes nos arquivos da Câmara, pedras tumulares, etc.), mas também comete alguns erros.

Quanto ao estilo, o “Notícias Várias (…)” parece estar mais de acordo com a caracterização feita por Oliveira Marques para as narrativas ao estilo medieval que ainda eram dominantes na época: o documento em causa apresenta uma “ordenação e abundância desconexa de factos”, residindo aqui um dos maiores defeitos do manuscrito.

O Manuscrito é um único caderno que se pode dividir em 3 partes distintas. Numa primeira parte intitulada “Reys de Portugal”, descreve-se, resumidamente, a vida dos nossos monarcas, desde Afonso Henriques até D. João V, com pouco interesse. Numa segunda parte, que é aquela que nos interessa, reúnem-se, de forma desordenada, várias informações sobre Torres Vedras, sendo a partir desta parte que o autor começou a numerar as páginas do caderno.

Finalmente, temos uma terceira parte de apontamentos dispersos, uma descrição da evolução e valor das moedas portuguesas, onde aparecem dados dispersos sobre História Universal e de Portugal, sem nada de relevante. Contudo, no meio dessas notas dispersas, semeadas no conteúdo genérico desta terceira parte, encontram-se mais algumas informações sobre Torres Vedras.

Um dos aspectos a valorizar neste conjunto da apontamentos sobre Torres Vedras é o facto de eles terem sido escritos antes do incêndio do cartório da câmara, em 1745, e do efeito devastador do terramoto de 1755, pelo que, neste ensaio de monografia, se encontram transcritos, em primeira mão, documentos desaparecidos na voragem dos referido e trágicos acontecimentos, como é o caso, por exemplo, de uma carta de D. Afonso IV, integralmente citado neste documento, sobre a doação de uma vinha.

Há ainda a tentativa de reproduzir graficamente símbolos e letras de sepulturas, lápides e brasões, alguns já desaparecidos.

Seria interessante editar e tornar acessível ao público torriense este documento, anotado criticamente, mais por curiosidade do que pela novidade, pois, o que de mais importante nele se encontra, já foi usado por Júlio Vieira e pelos anotadores da 2ª edição da monografia de Madeira Torres  nas obras já citadas.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Baquero Moreno e a História Torriense – 2 – As elites torrienses no tempo do regente D. Pedro e da batalha de Alfarrobeira

( a figura do regente D. Pedro reproduzida no Padrão dos Descobrimentos em Belém)

Concluímos hoje um conjunto de dois textos de homenagem ao falecido historiador Humberto Baquero Moreno, onde recordamos a sua importância para a história local torriense.

Desta vez recordamos o seu contributo para nos dar a conhecer os reflexos em Torres Vedras da crise política ocorrida durante a regência de D. Pedro e que culminou dramaticamente na Batalha de Alfarrobeira.

Os dados aqui divulgados foram retirados da sua obra, em dois volumes, “A Batalha de Alfarrobeira – Antecedentes e significado histórico”, editados pela Universidade de Coimbra, respectivamente em 1979 e 1980.

Tudo começou com a morte de D. Duarte, filho de D. João I, que reinou pouco tempo, apenas cinco anos, entre 14 de Agosto de 1433 e 9 de Setembro de 1438.

O herdeiro á coroa, o futuro D. Afonso V, era menor e por isso colocou-se o problema da regência durante a menoridade do rei, questão politicamente importante já que a regência implicava o controle politico do país e da própria educação do futuro monarca.

Enfrentaram-se então duas facções, uma liderada pela rainha viúva D. Leonor, e outra liderada pelo irmão do falecido rei, o infante D. Pedro, facções que, grosso modo, representavam respectivamente uma corrente mais “conservadora” e “senhorial” e outra mais “progressista” e “burguesa”, ou, em termos das opções a tomar em relação ao rumo da expansão, iniciada com a Conquista de Ceuta em 1415, mais “militarista” ou mais “comercial”.

As cortes de Lisboa de 10 de Setembro de 1439 aprovaram a candidatura de D. Pedro às funções de regente, o que implicou o afastamento da rainha víuva.

Significativamente, segundo revela Baquero Moreno, entre as 72 cidades e vilas que comparecem às cortes não está nenhum representante de Torres Vedras, (vol.1 pp.56 e 57) situação que não está esclarecida mas que pode nãos ser estranha ao apoio que as elites locais deviam dar à rainha, já que este concelho era tradicionalmente “terra de rainhas”.

Uma das consequências para quem se colocava no lado errado da história era o confisco de bens e a perda de regalias e cargos, a nível das elites, já que o “povo”, geralmente, vivia  alheado dessas questões.

Baquero Moreno refere vários apoiantes de D.Leonor, ligados a Torres vedras, a quem foram confiscados bens após a tomada do poder, como regente, por D. Pedro:

D. Diogo Gomes de Abreu, “cavaleiro-fidalgo, que foi juiz em Torres Vedras e corregedor do rei [D. Duarte]na comarca da Estremadura” viu serem-lhe confiscados bens móveis e de raíz existentes na vila de T. Vedras, sendo estes doados a Huelxira Duarte “cavaleiro-fidalgo da casa do rei”. (vol 1 p.104).

Voltaria a recuperar mais tarde os seus bens por ter combatido ao lado de D. Afonso V em Alfarrobeira, recuperando também o cargo de Corregedor da Comarca da Estremadura. A partir de 1459 passou a receber uma tença anual de 6 mil “reais brancos”, que acrescentou ao ordenado mensal de 2 mil e cem “reais brancos” que usufruía como cavaleiro da casa real.

Era falecido em 1474, data em que a sua filha Mécia de Abreu “obteve doação de um casal na vila de Torres Vedras”. (vol 2, pp.676 e 677).

Por sua vez, João de Pallos, morador do Turcifal, exilado em Castela, viu serem-lhe confiscados, em Maio de 1443, bens móveis e de raíz existentes no Turcifal, entregues a Leonel de Lima, conselheiro do rei. (vol 1, p.122).

Outros apoiantes da rainha foram presos, como Afonso Dinis, morador em Torres Vedras, conseguindo fugir para Castela, porque “dissera e fizera alguuas cousas contra o Iffante dom Pedro”. (vol 1, p.134).

Um tal Fernão Gonçalves de Miranda, casando-se em Torres Vedras, foi igualmente detido por apoiar a rainha, acabando por conseguir fugir para o norte do país e depois para a Galiza (vol 1, pág. 136). Um escudeiro desse Fernão Gonçalves, João Paulo, seria  perdoado pelo regente em 5 de Maio de 1445 (vol 1, p.182), não seguindo assim o seu senhor.

Houve  outros casos de criados que não seguiram os seus senhores no apoio à rainha, como foi o caso de João Gonçalves, criado de Vasco Martins de Resende, morador em Torres Vedras. Este Vasco de Resende também viu os seus bens confiscados em 20 de Julho de 1443 a favor de Rui Fernandes, escudeiro de D. Pedro, tendo de se exilar em Castela (vol 1, p.113).

Mas nem todos os que foram nomeados pela rainha para exercer cargos em Torres Vedras foram afastados dos seus cargos. Foi o caso de Gil Vasques, que se viu confirmado pelo regente em 19 de Setembro de 1442 no cargo de tabelião da vila de Torres Vedras, para o qual tinha sido nomeado por D. Leonor em 10 de Junho de 1434, bem como noutros cargos que já possuía, como o de contador dos órfãos e de escrivão das ovelhas dos pobres na mesma vila. (vol. 1 p. 138).

O mesmo aconteceu a Vicente Martins, tabelião das terras da vila de Torres Vedras, que tendo obtido o privilégio de D. Leonor de isenção de pagamento de pensão pelo exercício do cargo e viu esse privilégio confirmado por D. Pedro em 24 de Abril de 1422 (vol.1, p. 145).

Também Pero Martins, merceeiro da rainha na vila, nomeado por esta em 7 de Agosto de 1435 foi confirmado no cargo pelo regente em 2 de Maio de 1442 (vol1, p.141).

Outras merceeira da rainha, Maria Afonso, nomeada por ela em 22 de Dezembro de 1433, foi confirmada no cargo pelo regente em 24 de Março de 1442.(vol 1 . p. 142), assim como Isabel Pires e Catarina Eanes, ambas nomeadas por ela naquela mesma data, foram confirmadas no cargo pelo regente , respectivamente em 20 e 21 de Junho de 1442 (vol.1, p 143), não deixando de ser significativo, numa época como aquela, o exercício de cargos públicos por mulheres.

Por sua vez, pelo apoio dado ao regente, foram nomeado para cargos em Torres Vedras, pela primeira vez, Rui Fernandes, criado e escudeiro do infante D. Pedro, para coudel da vila de Torres Vedras(vol 1, pag.278). Além desse cargo, o mesmo Rui Fernandes recebeu vários bens no reino, entre os quais alguns no concelho de Torres Vedras que haviam pertencido a João Gonçalves, exilado em Castela na companhia da Rainha D. Leonor.(vol 1 – p.308).

Em 21 de Julho de 1443 o infante D. Pedro  designou-o  “vedor  dos vassalos  do rei na vila de Torres Vedras “ e termo. Dois anos depois foi nomeado para coudel da dita vila, substituindo  Fernão Álvares de Sarria, que terminou o mandato. Acompanhou D. Pedro em Alfarrobeira, pelo que viu os seus bens confiscados, doados a João Vasques Francês. Conseguiu obter do rei, D. Afonso V, uma carta de perdão em 4 de Agosto de 1451. (vol.2 ,pp. 1037 e 1038).

Durante esta época era alcaide de Torres Vedras Martim Afonso de Miranda “rico-homem do conselho de el-rei”, nomeado para o cargo antes de Alfarrobeira e que seria confirmado no cargo pelo rei D. Afonso V(vol. 1 , pág.417).Era senhor do morgado da Patameira. Tinha estado em Ceuta em 1429 . Inicialmente esteve ao lado de D. Pedro, mas lutou ao lado de D. Afonso V em Alfarrobeira. Por uma carta de perdão de 4 de Fevereiro de 1446, sabe-se que, nesta data, já era alcaide-mor de Torres Vedras. (vol 2 pp. 890 e 891).

Ainda durante a regência de D. Pedro, em 1443, as duas facções até aí em confronto conciliam-se e o infante manteve as suas funções até D. Afonso V atingir a maioridade, o que aconteceu em 9 de Junho de 1448. De forma pacífica D. Pedro larga o poder e entrega-as ao sobrinho. Contudo, na corte desenvolve-se a intriga política para afastar o antigo regente da corte, intriga promovida pelo Duque de Bragança e por outros que tinham estado ao lado da rainha, pelo que D. Pedro resolve retirar-se para o seu ducado de Coimbra. Apesar de ter jurado fidelidade ao rei, este é levado, pela intriga do Duque de Bragança e outros que tinham perdido poder e privilégios durante a regência, a considerar o tio inimigo a eliminar.

No meio de outros episódios que não interessa agora aprofundar, D. Pedro avança com os seus apoiantes de Coimbra para Lisboa e encontra as tropas e os apoiantes do rei em Alfarrobeira, perto de Alverca, onde se dá o recontro armado conhecido por Batalha de Alfarrobeira, em 20 de Maios de 1449. D. Pedro é morto na batalha (ou assassinado, segundo outras versões) e os inimigos do infante consolidam a sua influência e poder junto do rei.

Nesta batalha participaram vários elementos de Torres Vedras, uns ao lado do infante, outros ao lado do rei.

Entre os primeiros estiveram João Pires Diogo, cavaleiro-fidalgo (vol 1, p 432), o já mencionado  Rui Fernandes escudeiro-criado, “vedor dos vassalos da coroa na vila de Torres Vedras” (perdeu os bens e obteve posteriormente, em 4 de agosto de 1451, carta de perdão) (vol.1 p. 442 e 640).

Por sua vez, por estarem  lado de D. Afonso V contra o regente, foram perdoados os seguintes homiziados:

- Fernando Eanes, morador na “Hordasqueira” , no termo de Torres Vedras, perdoado de homicídio na Ordasqueira, por carta de perdão de 2 de Abril de 1450 (vol.1, p.377);

- Rodrigo Eanes, escudeiro de Vasco Martins de Resende, perdoado por homicídio cometido em Torres Vedras, por carta de perdão de 15 de Dezembro de 1452 (vol.1, p. 379).

Consolidado o poder de D. Afonso V, invertem-se agora as situações este concede vários “bens móveis e de raiz confiscados aos partidários  do Infante D. Pedro” como foi o caso de João Vasques Francês, escudeiro do rei, recebeu bens confiscados a Rui Fernandes, escudeiro de D. Pedro, morador em T. Vedras já mencionado em cima, por carta de 20 de Agosto de 1450. (vol.1 p. 602);

Também João Martins , escudeiro do rei Afonso V, morador em T. Vedras, recebeu deste bens confiscados a João Esteves , aposentador de D. Pedro, morador em Alenquer, por carta de 20 de Julho de 1450 (vol. 1, p. 552 e 605).

A memória de D.Pedro, denegrida pelos partidários de D. Afonso V durante o reinado deste (1438-1481), seria recuperado durante o reinado de D. João II que exerceu o poder ainda em vida do pai, em 1477, afastando o Duque de Bragança e matando com as próprias mãos o Duque de Viseu, os representantes das duas casas que mais haviam combatido D. Pedro.


Aqui na região esse período de transição, entre a regência e a coroação de D. João II, seria marcada pela chamada “guerra de bandos”, que trouxe ao de cima as velhas rivalidades das elites locais durante o período da regência de D. Pedro. Mas isto já é outra história à qual talvez voltemos um dia destes.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Baquero Moreno e a História Torriense -1 - Os itinerários de D. João I e o Conselho de Ceuta


Recentemente falecido, Humberto Baquero Moreno foi um dos mais inovadores historiadores portugueses, especializado no estudo do início da Dinastia de Aviz.

Duas das sua obras fundamentais, “Os Itenerários de El-Rei Dom João I” (ed. Instituto de Cultura Portuguesa,Lx, 1988) e “A Batalha de Alfarrobeira” (2 volumes editados pela Universidade de Coimbra, em 1979 e 1980) deram um contributo importante não só para o conhecimento da História Portuguesa mas, para o caso que nos interessa, para o esclarecimento de alguns aspectos da história local torriense.

Hoje escrevemos sobre o primeiro caso, a presença de D. João I em Torres Vedras.

Baquero Moreno esclareceu,  quase em definitivo, um erro persistente na historiografia torriense durante os três primeiros quartéis do século XX, o da data da realização do célebre conselho de Ceuta que teve lugar em Torres Vedras.

Zurara não indicava com precisão a data daquele evento e, por cá, foi avançado o ano de 1413 como o da sua realização, erro que foi repetido até à exaustão, inclusive numa placa que, durante décadas, ainda neste século,  invocava, no presumível local desse conselho, tal facto, marcante na memória histórica local.

Não teria sido necessário esperar pela edição da obra de Baquero Moreno para corrigir o erro, bastava uma leitura atenta da obra de Zurara para se perceber que esse evento nunca poderia ter tido lugar em 1413, mas sim em 1414, como o diz a lógica cronológica dos acontecimento nacionais relatados na célebre crónica.

De qualquer maneira, com a precisão documental que lhe é conhecida, ficámos em definitivo esclarecidos sobre a realização desse conselho.

Diz Baquero Moreno, no capítulo dedicado ao itinerário de D. João I no ano de 1414, e passamos a citar, que, de “acordo com o testemunho de Zurara o rei deliberou “pera o Sam Joham [24 de Junho] a Deos prazemdo fazer ajumtamento de comsselhos em Torres Vedras homde emtendeo propoer este feito e determinar o termo certo em que com a graça de Deos ajamos de partir” [in Gomes Eannes de Zurara, “Crónica da Tomada de Ceuta…”, Lisboa 1915, cap. XXV, p.75]. Contudo, e continuando a citá-lo, Baquero Moreno questiona essa data: “Deve haver, no entanto, engano do cronista na medida em que o conselho apenas terá reunido por Santiago, 24 de Julho”, já que, e segundo os itinerários, o rei chegou a Sintra a 22 de Junho e aqui continuava em 21 de Julho, antes de vir para Torres Vedras, como refere a crónica. Sendo assim, o dito conselho terá terminado “por volta de 24 de Julho” de 1414. [Baquero Moreno, ob.cit, pág. 141].

Aliás, no levantamento que o autor fez nesta obra dos itinerários de D. João I, este só tinha estado em Torres Vedras, ainda enquanto Mestre de Aviz, por ocasião do cerco posto ao castelo de Torres Vedras, tendo assinado documentos neste sítio entre 18 de Dezembro de 1384 e 13 de Fevereiro de 1385. Como se sabe o mestre de Aviz deixou o cerco ao castelo de Torres Vedras , sem o ter tomado aos partidários de Castela, para se deslocar às Cortes de Coimbra que o aclamaram rei.

Como já vimos, na recolha feita por Baquero Moreno, onde é possível reconstituir os itinerários do primeiro monarca da segunda dinastia, só se sabe da presença do rei na então vila de Torres Vedras para a realização do Conselho referido através da crónica de Zurara, não surgindo mais nenhum documento que refira a presença do rei neste lugar, onde a sua presença só aparece documentada  em 10 e 11 de Janeiro de 1417, e novamente em 25 de Janeiro e 6 de Fevereiro desse ano, mas só depois de permanecer cerca de um mês num outro lugar pertencente ao concelho, no Turcifal, entre 6 de Dezembro de 1416 e 9 de Janeiro de 1417 (com uma deslocação a Belas pelo meio). A estadia no Turcifal deve estar relacionada com a Quinta régia do Manjapão, localizada nessa freguesia do concelho.

A presença do rei em Torres Vedras só volta a estar documentada já nos últimos anos do seu reinado, em 25 de Março, 26 e 29 de Abril , 1 e 31 de Maio de 1432 e, duas últimas vezes, no ano seguinte, em 24 de Março e 26 de Abril.

Pode-se especular, como justificação para a longa ausência do rei por estas bandas, sobre o facto de Torres Vedras se ter mantido fiel à causa de castenhana durante a crise de 1384-85, e  a perda de influência deste concelho que se seguiu  durante o reinado D.JoãoI.

Em próxima ocasião recordaremos o outro contributo dos estudos de Baquero Moreno sobre a história torriense, desta vez sobre o período da regência de D. Pedro, quase a meio do século XV.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Uma Homenagem à Memória de Emílio Costa (1931-2012)

Foi com surpresa que tomei conhecimento, quase uma semana depois, do falecimento de Emílio Luís Costa, ocorrido no passado dia 22 de Novembro.
Emílio Luís Costa, ou “o sr. Emílio”, como carinhosamente era chamado no seio da minha família, foi talvez das primeiras pessoas que conheci fora do círculo familiar, aí pelos anos 60
Com regularidade, nessa época, ele reunia-se com o meu pai à volta da mesa da nossa sala de jantar, juntando gravuras várias e provas de texto que depois, com tesoura e cola, eram montados para dar forma ao “Boletim da Física”. O meu pai era responsável pelo texto e o sr.Emílio pela parte gráfica.
Emílio Luís Costa foi um exímio tipógrafo, numa terra como Torres Vedras onde a actividade de tipógrafo teve grande prestígio. Aliás, foi um antepassado meu, do lado da minha mãe, que fundou, nesta terra, a primeira tipografia em 1884 e que foi responsável pela edição do primeiro jornal torriense, um ano depois.
Dessas reuniões em minha casa ficou muito do meu gosto pelos “papéis”, pela actividade editorial, pelo espaço quase mágico, com aquele cheiro a tinta e aquele ruido das rotativas característicos das tipografias da “era” pré-informática.
O sr. Emílio nasceu em Torres Vedras em 20 de Dezembro de 1931, tendo começado a trabalhar com 11 anos na Tipografia de Victor Cesário da Fonseca, passando depois por outras tipografias, até ter criado a sua própria empresa, a Tipoeste, fundada em 2 de Março de 1973.
Para além da sua actividade profissional, Emílio Costa esteve muito ligado ao associativismo local, principalmente aos Bombeiros de Torres Vedras, instituição fundada pelo seu avô no início do século XX, principalmente como musico da sua Banda, onde ingressou aos 13 anos.
Um outro campo dos seus interesses foi o memorialismo e a divulgação sobre a história local, colaborando activamente no jornal “Badaladas” e noutras publicações locais.
Em 1995 realizou parte do seu sonho de transformar em livro parte da memória da sua rica vivência pessoal nesta vila, ao editar a obra “ESCRITOS DE TORRES VEDRAS”, onde reuniu várias histórias por si vividas, mas onde se cruzam alguns dos mais marcantes acontecimentos históricos dos anos 40 e 50.
A sua obra é tanto mais importante, quanto não existem muitos registos, a não ser os meramente burocráticos, sobre a vida local naquele período. Se Torres Vedras tem um historial rico de publicações periódicas desde 1885, chegando em certas ocasiões, a publicar-se mais do que um título semanal, o período entre a primeira metade dos anoa 30 e o principio dos anos 50 do século passado é um período em que existe um verdadeiro “buraco negro” do memorialismo, do qual a imprensa é um importante reportório.

Em sua homenagem, revelamos aqui uma das passagens daquela sua obra, onde se fala nas condições miseráveis de trabalho a que estavam sujeitos os trabalhadores rurais da região, tema tanto mais actuais quando se houve falar, por aí, de animo leve, na “necessidade de empobrecimento” e de retirar direitos a quem trabalha:
“.. .Vamos recuar no tempo, uns bons pares de anos!...
“Este texto é uma singela homenagem aos "heróicos" trabalhadores rurais, esses ignorados homens que durante décadas e décadas ajudaram, com o seu esforço, suor e lágrimas, ao progresso do país e a alimentar riquezas de muitos senhores, alguns considerados feudalistas.
“Ilustres desconhecidos, esses, a quem poucos davam valor, que lutaram de enxada na mão, sem horário certo de "tantas" horas semanais, sujeitando-se a um horário rígido, de "sol a sol". Usufruindo uns miseráveis 12/15/18$00 diários, mal alimentados, comendo parcas refeições e só depois do feitor ou patrão lhes darem ordem, à sombra de uma árvore ou dalgum qualquer pardieiro, e após des­cansarem um pouco o corpo, entregando-se a pequena sesta, revolviam a terra com uma enxada, preparando-a para a sementeira desejada.
“Nos dias de chuva não trabalhavam, e a jorna era-lhes negada como manda­vam as regras impostas por outros senhores... Se não ganhavam, a maior parte deles não comia! Era o lema infeliz destes trabalhadores.
“E mais...
“Sujeitavam-se a vir à vila oferecer o seu corpo para serem explorados. Era triste ver dezenas de homens, de enxada na mão, vindos a pé e descalços, do Varatojo, Paul, Fonte Grada, Ponte do Rol, Silveira, Louriceira, Cambelas e outras localidades, à espera dos senhores feudais para escolherem os mais aptos para o trabalho.
“Primeiro eram preferidos os mais novos; depois, se necessário, alargava-se a escolha aos mais idosos. Homens de quarenta e mais anos era certo e sabido que seriam os últimos a serem contratados, ou então ficavam ali horas, à espera de alguém que lhes oferecesse trabalho. Muitos, pensando na família, esperavam por uns míseros escudos para a compra do pão. Sujeitavam-se a receber uma jorna muitas vezes à vontade do seu contratante.
“Um dos mais abastados proprietários da região, quando tinha necessidade de homens para trabalhar nas suas propriedades, vinha à "praça" e levava con­sigo todos aqueles que não tinham arranjado patrão, mas... calcule-se, ao preço que ele entendia. Algumas vezes até por metade da jorna que corria na altura! Escravidão, não de negros, mas de homens de raça branca, infelizes por terem nas­cido pobres e nos meios rurais, não tinham outra possibilidade de sobrevivência, que não fosse sujeitando-se à exploração de outros homens (?) da mesma raça.
“***
“Era tão triste e degradante o espectáculo que se oferecia diariamente aos torrienses, ali mesmo no largo da Câmara Municipal, que um dia foi transferido para junto da entrada do lado nascente do Mercado Municipal1.
"A "praça" acabou, e muito bem, por volta de 1954.
"Infelizmente, assistimos, algumas vezes à escolha desses homens. (obra citada, pág. 74).
 
Nos últimos tempos encontrava o “sr. Emílio” com alguma regularidade, frequentando a zona onde moro por viver aqui um casal amigo que ele visitava. Contudo, de há uns meses para cá deixei de o ver com a mesma frequência, até me ter chagado a triste notícia.
Ele contava-me muitas vezes da mágoa que sentia pelo facto de lhe negarem apoio para editar um segundo livro de memórias, que completava aquela primeira obra, onde reunia novas e curiosas “estórias”.
Talvez agora, com justa homenagem a um homem bom de Torres Vedras, que muito amou a sua terra, que se interessou em passar à escrita as suas recordações de uma vida rica em acontecimentos, haja por aí alguém interessado em completar o seu sonho.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A "Escola" de Torres Vedras - reflexão sobre a historiografia local.


ESTUDOS VEDROGRÁFICOS: A “Escola de Torres Vedras”.
 Por aquilo que conheço no país, poucas localidades, como Torres Vedras, se podem gabar da quantidade e qualidade de estudos, entre a divulgação e a investigação, sobre os mais variados aspectos e épocas da sua história local.
Existe uma longa tradição de estudos sobre a sua história e o seu património, que remonta à primeira tentativa de escrever uma primeira monografia ainda no século XVIII, um estudo e recolha de notícias da autoria do capitão  Luiz Botto Pimentel Corte Real, datado de 1729, “Livro de Notícias Várias…”, que infelizmente não chegou a conhecer a luz do dia, mas continua preservado no Arquivo Municipal de Torres Vedras.
A primeira obra impressa que versa a história local, embora num tema muito específico, é uma “História do [convento] do Varatojo”, da autoria de Frei Manuel Maria Santíssima, editada em 1799.
Contudo, devemos  balizar o primeiro período historiográfico torriense ente  monografia de Madeira Torres do início do século XIX e a de Júlio Vieira, do início do século XX e recentemente reeditada.
O padre Madeira Torres, que foi deputado da primeira constituinte, bom conhecedor dos arquivos paroquiais e municipais locais, publicou dois artigos, nas “Memórias da Academia Real das Sciencias de Lisboa”, sobre Torres Vedras, um primeiro, em 1819, de carácter histórico, e um segundo, em 1835,  de carácter económico, justamente considerados o “actos fundadores” da historiografia torriense .
A meio do século XIX dois “notáveis” torrienses, homens activos na vida política e municipal durante a afirmação do liberalismo, José António da Gama Leal e José Eduardo César de Vasconcelos,  pegaram nos artigos de Madeira Torres e, acrescentando-lhes um conjunto de valiosíssimas notas de rodapé, que tiveram como base, principalmente, o ainda hoje valiosíssimo arquivo municipal, ao qual tiveram acesso por causa das suas funções municipais, assim como a recolha na tradição oral e à memória  da própria vivência pessoal, e editaram o primeiro livro de História Torriense, tendo como base a parte histórica dos artigos de Madeira Torres, intitulado “Descripção Histórica e Económica da Villa e Termo de Torres Vedras – parte histórica”, publicado em 1862, e que passou à história como “a monografia de Madeira Torres”.
Os mesmos anotadores prepararam a edição de um segundo volume, com a parte económica do estudo Madeira Torres, com as mesmas valiosíssimas anotações, mas nunca a conseguiram editar. Felizmente os originais dessa segunda parte da obra de Madeira Torres, devidamente organizados em vários cadernos, prontos para edição, existem no Arquivo Municipal de Torres Vedras e, segundo nos constou, serão em breve editados.
Há quem diga que a quantidade e a qualidade de informação que os anotadores de Madeira Torres acrescentaram aos dois textos deste, são muito mais valiosas e interessantes do que os originais de Madeira Torres.
A Monografia de Madeira Torres, anotada por aqueles dois torrienses, conheceu uma edição fac-similada em 1988, por iniciativa da Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras.
Ainda no século XIX é de registar outra obra, de temática muito específica, a “Descripção do Real Asylo de Inválidos Militares de Runa”, da autoria de Souza Escrivanis e editada em 1882.
Não nos podemos esquecer das muitas memórias editadas por essa Europa fora, em especial na Grã-Bretanha, versando a passagem pela região de Torres Vedras, entre 1807 e 1810, por ocasião das Guerras Peninsulares, de militares de todo o “mundo” e de várias patentes, muitas delas reveladas nos últimos anos, por ocasião do bicentenário desses acontecimentos, nos quais esta região desempenhou um papel importante e fundamental.
À  precocidade no interesse pela história local torriense, para além da existência  e divulgação daquelas obra, não terá sido estranho o facto de, desde muito cedo, a partir de 1885, ter existido uma imprensa local regular, contando muitas vezes com mais do que um título semanal, situação que se prolongou até ao princípio dos anos 30 do século XX, onde, desde sempre, se revelou interesse em divulgar todo o tipo de documentos e ensaios sobre a histórias local e o seu património.
Aliás, esses mesmos jornais são hoje uma valiosíssima fonte para a história local contemporânea.
Saiu exactamente do jornalismo de divulgação a segunda monografia marcante  sobre a história e o património de Torres Vedras, a obra de Júlio Vieira de 1926, e reeditada este ano, “Torres Vedras Antiga e Moderna”.
Com este obra fechava-se o primeiro ciclo, que consolidou o interesse e a divulgação da história torriense.
Entre os anos 20 e 60 do século passado poucas inovações se podem registar ao estilo, metodologia e informações reveladas naquelas duas obras.
Não devem contudo ser desprezados algumas iniciativas dispersas e pontuais de interesse pela história local, através da publicação de vários ensaios na imprensa local, ou em separatas ou folhetos, da autoria de um Rafael Salinas Calados (com destaque para o seu estudo sobre a Misericórdia de Torres Vedras, editado em 1936), de um Rogério de Figueiroa Rêgo, este nos domínios da genealogia, e da afirmação de uma historiografia regionalista e elitista, mas onde se revela um especial cuidado no tratamento e divulgação de fontes, principalmente sobre a época moderna e o início do século XIX, afirmando tardiamente a metodologia positivista em termos de história local. A sua obra “Alguns Sumários das Notas de Vários Tabeliães da Vila de Torres Vedras nos séculos XVI e XVIII”, editada em 1970, é ainda hoje uma importante obra de referência para o estudo do Antigo Regime.
Ao longo da primeira metade do século XX, com cultores que continuaram nas décadas seguintes, muitos foram aqueles que revelaram curiosidade pela História local, recorrendo a um certo “coleccionismo” de factos e documentos e à recolha dispersa de memórias e acontecimentos, destacando-se neste caso um Gabriel Pereira, dedicando um interessante capítulo da sua obra “Pelos Subúrbios e Vizinhanças de Lisboa” , editada em 1910, à história e património torrienses,  um  Artur da Silva Lino, um Pedro Garcia Anacleto, um França Borges  ou, mais recentemente, um Adão de Carvalho.
Algumas publicações revelaram-se um importante centro de divulgação do publicismo da história torriense, como as edições especiais da revista “Hora” nos anos 30 e 50, ou o Boletim da junta Distrital da Estremadura que se editou entre os anos 40 e 80 do século passado.
Não nos podemos esquecer, entretanto, do grande desenvolvimento e da grande ruptura cronológica que representou, sobre o conhecimento do passado local, o elaborado trabalho arqueológico de Leonel Trindade e Aurélio Ricardo Belo.
Ao primeiro deveu-se a importante descoberta do Castro do Zambujal  e ao segundo a descoberta do povoado eneolítico do Penedo, nos anos 30. Essas descobertas atraíram o interesse do prestigiado Instituto Arqueológico Alemão, que ainda hoje mantém uma laboriosa parceria com as autoridades locais em várias campanhas arqueológicas que ainda hoje continuam, bem como na publicação de uma vasta bibliografia, muito dela na língua alemã, sobre a pré-história da região de Torres Vedras.
A fundação do Museu Municipal em 1929 conheceu então uma grande projecção com as descobertas arqueológicas daqueles dois torrienses.
Recorde-se que a primeira grande descoberta arqueológica em Torres Vedras tinha acontecido em 1909, com a descoberta do Tholos do Barro pelo frade jesuíta Lapierre.
Com o aparecimento do jornal “Badaladas” em 1948, o interesse pela historia e pelo património locais conhecerem um novo fôlego, habituando-se aquele jornal, que se tornou semanário no início da década de 60, a acolher nas suas páginas trabalhos de investigação e divulgação, alguns de grande fôlego e que não teriam grandes possibilidades de conhecer a luz do dia se não fosse o interesse que o padre Joaquim Maria de Sousa , fundador desse jornal, sempre demonstrou pela história local.
Quem quiser fazer história local sem consultar muitos desses ensaios publicados nas páginas desse semanário não está a fazer um trabalho completo, científico e sério.
Para além de podermos acompanhar nas suas páginas o trabalho arqueológico de um Leonel Trindade, aí foram publicados vários artigos valiosos para a história local, como por exemplo os estudos de Aurélio Ricardo Belo sobre os vestígios romanos no concelho.
A partir da década de 60 um outro período da história torriense vai conhecer um significativo desenvolvimento, a Idade Média. O interesse por esse período, que leva à publicação de alguns trabalhos de âmbito universitário, está relacionado com a vasta documentação sobre este concelho existente no Arquivo da Torre do Tombo, com destaque para uma completa inquirição de 1309 que abrange, detalhadamente, toda a área do concelho de Torres Vedras na Idade Média. Destacam-se os estudos de H.B. Johnson em 1970, um historiador colaborador dos “Annales”, os trabalhos do padre franciscano Félix Lopes na “Lusitânia Sacra”, nos anos 60 e 70, a tese de Maria Julieta de Oliveira em 1970 e, mais recentemente, o trabalho de Ana Maria Rodrigues, “Torres Vedras – A vila e o termo nos finais da Idade Média”, editado em 1995.
Importante para o interesse por essa época foi igualmente a recolha de J. Cordeiro de Sousa, feita nos anos 50, e editada em 1957, de “Fontes Medievais de História Toreana”.
Ainda nos finais da década de 60, início da de 70, não podemos esquecer outras teses universitárias, como a de Lígia Maria Gouveia Barreto sobre Torres Vedras no século XVIII, com base na análise dos livros de décimas, ou a tese de Teresa Barata Salgueiro sobre a urbanização de Torres Vedras.
Mas foi, quanto a nós,  uma outra tese, abordando  a época medieval, que, em termos locais, representou uma ruptura com a historiografia local tradicional, a tese de licenciatura em História do actual Bispo do Porto, D. Manuel Clemente, apresentada em  1974, “Torres Vedras no 1º Quartel do século XIV”.
Por coincidência esse foi o ano da revolução democrática do 25 de Abril, que muito contribui para uma nova abordagem da história local e para o aparecimento do espírito daquilo que, em artigo recente, Joaquim Moedas Duarte designou como “Escola De Torres Vedras”.
De facto, o que assistimos até essa data, foi um trabalho, sem dúvida importante e laborioso, mas quase sempre individual e disperso.
Quanto a nós houve um conjunto de condições, a partir daquela data, que permitiram o desenvolvimento de uma maior colaboração e qualificação do trabalho de investigação e divulgação historiográficas:
    - a afirmação do ensino secundário, inicialmente em duas escolas locais, o antigo Liceu e a antiga Escola Técnica, tendo por base uma renovação historiográfica dos programas de história e a chegada de uma geração mais jovem e metodologicamente inovadora de professores, valorizando a investigação, a história ao vivo e a história local;
    - a constituição de uma Associação de Defesa do Património, fundada em 1979, incentivando o estudo, a divulgação e a edição de temáticas relacionadas com a história e o património locais;
    - uma crescente afirmação do poder local, levando à edição de vários estudos sobre a História Local, destacando-se o papel relevante da revista “Torres Cultural”.
Tudo isto contribuiu para a afirmação de um espírito de “escola”, já que existia um autêntico sistema local de “vasos comunicantes”  entre aquelas instituições.
Estavam criadas condições para a afirmação consciente desse espírito.
O primeiro grande sinal foi dado com a obra colectiva “Torres Vedras – Passado e Presente”, editada em 1996.
Seguiu-se a  criação oficial do Arquivo Histórico de Torres Vedras nos anos 90, sob a direcção de Carlos Guardado Silva.
O principal resultado desse espírito de escola está na realização, a partir de 2000, dos Encontros anuais de História, “Turres Veteras”, numa parceria com o Instituto Alexandre Herculano da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Essa colaboração tem contribuído para um crescente interesse do meio universitário pelo estudo da História local, que tem resultado também na colecção “Linhas de Torres”, responsável por 13 títulos, editados desde 1999. Uma outra parceria recente com uma editora muito ligada à edição de temáticas de História, a Colibri, tem contribuído para projectar a “escola de Torres Vedras” e para o desenvolvimento da “vedrografia” (termo por nós inventado para definir a historiografia de temática torriense) .
Esperamos com este texto motivar o interesse e a discussão sobre este tema.
Uma nota final para referir que este texto foi escrito de memória, recorrendo apenas a uma ou outra consulta para confirmar datas, nome ou títulos, pelo que poderá registar algumas lacunas.
Deve por isso ser lido como um esboço, sujeito a correcções e críticas.