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quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Torres Vedras: Desequilíbrio entre rendimentos declarados e quantidade de Carros de Luxo

O jornal Expresso fez um levantamento, por concelho, da percentagem de carros de luxo em relação ao parque automóvel de cada concelho, e comparou a posição de cada concelho na posse desse bem em relação com o seu rendimento médio e o valor de IRS declarado e chegou à conclusão que existem concelhos onde ...alguma coisa não bate certo.

Um deles, embora não seja o pior, é o concelho de Torres Vedras. Aqui alguma coisa não bate certo na relação entre a declaração de rendimentos e esse sinal exterior de riqueza.

Esta é a situação deste concelho, referida por essa investigação (sem mais comentários):


"Tem 5,7 carros por cada 10 habitantes. 20,2% são luxo e premium (média nacional: 18%).

Declara um rendimento por habitante de €8 233 por ano. E há 1,4 carros luxo e premium por cada €100 mil de rendimento (média nacional: 1,2).

É o 45º concelho com poder de compra.

É o 46º com mais carros L&P e está em 58ª posição em termos de rendimento declarado no IRS (em 280 concelhos)".

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

A Origem do Automóvel e do transporte automóvel, em Torres Vedras


Data de 1895 a entrada do primeiro automóvel em Portugal, e não foi preciso esperar muito tempo para aparecer em Torres Vedras o primeiro agente de venda de automóveis, conforme se prova num anúncio publicado nas páginas do jornal "A Vinha de Torres Vedras" em 14 de Outubro de1897, anúncio publicado na edição seguinte e cuja publicação foi repetida por várias vezes ao longo de 1898.



Inicialmente o êxito do automóvel foi limitado e temos de esperar por 1902 para encontrarmos a primeira referência comprovada à circulação de um automóvel nas ruas de Torres Vedras.

Foi por ocasião da visita da rainha D. Amélia ao convento da Graça, a 12 de Maio desse ano, de passagem "em direcção à quinta das Lapas(...)em automóvel e (...)acompanhada pelos srs.  conde de Tarouca e condes de Figueiró(...)"(1) (foto em cima).

Só em finais da década de 10 é que o automóvel conheceu algum incremento neste concelho, levando a Câmara Municipal a iniciar, a partir de 1918, um registo de automóveis matriculados, oficialmente os primeiros existentes em Torres Vedras e dos quais registamos os 20 primeiros (2):

 (Nº de ordem de matricula;  Nº de Circulação, Ano, Mês e Dia do Registo, Nome do Proprietário e residência)

    1    1660       1918   Abril 18    D. Vasco Martins Sequeira   Q.ta Juncal
    2     2393      1918   Julho  5     Vasco de Moura Borges      Q.ta Paio Correia
    3      943       1919   Julho 12    João Henriques dos Santos  Torres Vedras
    4     1390      1919   Julho 19    Gonzaga Limitada               Q.ta Charneca
    5      ---         1919   Agos.  2    José Augusto Lopes & C.ª   Torres Vedras
    6     2270      1919   Sete.   2    José Duarte Capote               Torres Vedras
    7     2705      1919   Out.   10    José Augusto Lopes Jr.        Torres Vedras
    8       ---        1919   Dez.   26    Joaquim C. Rodrigues         Torres Vedras
    9     2811      1920   Jan.    12    João Henriques dos Santos  Torres Vedras
  10       ---        1920   Maio  22    António |...?| Oliveira           Torres Vedras
  11     4076      1920   Junho 15   António Emilio Cunha S.tos Torres Vedras
  12     4258     1920   Agos.   2    Alfredo Oliveira Luso           Lisboa
  13   4230    1920   Agos. 16    João Henriques dos Santos   Torres Vedras -   camioneta
  14     4614     1920   Set.      2    Faustino Policarpo Timóteo  Dois Portos   -camioneta
  15     4473     1920   Out.     2    Manuel Augusto Baptista      Torres Vedras
  16      2981      1920   Out.   14    José Botto Pimentel Carv.º    Q.ta do Paço
  17      2907      1920   Nov.  16    José Antunes Martins             Ramalhal
  18      3382       1921   Abril  13    Dr.Pereira Branco                  Ribaldeira
  19        218       1922   Maio  25    António Hipólito                    Torres Vedras
  20        ---         1922   Agos.  4     Amadeu dos Santos                Torres Vedras

Por este quadro é possível concluir que foi a partir da década de 20 que a aquisição de automóveis começou a aumentar neste concelho e que a primeira camioneta registada pertencia a João Henriques dos Santos. No ano de 1926, registavam-se 48 automóveis e 26 camionetas (2).

Contudo, o inicio desse registo camarário não quer dizer que a existência de torrienses  proprietários de automóveis se tivesse iniciado apenas em 1918. Antes desta data, e pelo menos desde 1901, que os automóveis eram registados, mas a nível distrital, no caso torriense pelo Governo Civil de Lisboa (3).

Existem  testemunhos de que João Henriques dos Santos possuiu um dos primeiros automóveis em Torres Vedras logo nos primeiros anos do século (por volta de 1908)(4).

Se a divulgação do automóvel foi lenta e demorada, os primeiros transportes usando o automóvel só começaram a obter algum êxito nos anos 20, quando começaram a poder bater o comboio no tempo de percurso, ou chegando a sítios onde o comboio não chegava, mas que ganhavam crescente importância turística e económica, como foram os casos de S.ta Cruz e Peniche.

Data de 1899 a primeira proposta de estabelecer uma carreira automóvel ligando Torres Vedras a Lisboa.

Em reunião camarária de 14 de Dezembro desse ano dava-se a informação de se ter recebido um requerimento, datado de 25 de Novembro, dirigido a esse orgão municipal de "Alfredo de Brito, - industrial, constructor electricista com fábrica em Lisboa, na rua de Santo António dos Capuchos, nºs 52/54" pedindo "à Camara Municipal de Torres Vedras, concessão por setenta e cinco annos, para si ou para a Companhia que está organisando, para a exploração (em toda a area actual do concelho de Torres Vedras e d' aquella que de futuro venha a pertencer-lhe), do transporte de pessoas, mercadorias, etc.,etc., por meio de vehiculos denominados automoveis. O requerente garante à câmara,  annualmente  três  por cento da receita bruta.

"Esta concessão facultando à Camara uma nova receita, proporcionará aos municipes as vantagens de usarem um meio de transporte rápido e commodo, e facultará o desenvolvimento da industria de carruageria |sic| , ha muitos annos estabelecida no país,e da industria mecanica pela fabricação dos motores e acessórios necessarios aos automoveis, fabrico que o requerente iniciou na sua fabrica(...)" (5).

A camara ficou de tratar deste assunto noutra sessão, nunca o tendo feito. Foi preciso esperar por 1915 para se inaugurar a primeira carreira automóvel. Pertenceu a iniciativa  à empresa da Malveira, Joaquim Jerónimo &Irmão: "Trata-se de uma carreira de auto-omnibus entre Torres e Lisboa, partindo do Largo da República, todos os dias ,às 3 horas da tarde", preenchendo assim "uma lacuna importante, que ha muito se fazia sentir, tanto mais que a companhia dos Caminhos de Ferro nunca quiz atender as reclamações constantes que lhe foram feitas, para restabelecer os comboios da tarde para Lisbos, que ela, há muito, desatenciosamente suprimiu(...)" (6).

Este serviço teve início a 18 de Abril de 1915 e nasceu em confronto directo com o transporte ferroviário. Contudo, fosse por fazer a viagem de Torres Vedras ao Lumiar em 3 horas, tanto tempo como o tempo de comboio, fosse por outras razões, esta iniciativa não teve o êxito esperado, sendo necessário esperar por nova iniciativa do género, nos anos 20, pela qual foi responsável João Henriques dos Santos.


Já referimos noutra parte do nosso artigo que João Henriques dos Santos não só foi o terceiro torriense a registar a posse de um automóvel, como foi o primeiro a adquirir uma camioneta.

O seu entusiasmo por esse então novo meio de transporte revelou-se em diversas ocasiões. Uma das mais conhecidas aconteceu em 1922, a 3 de Dezembro. Tendo passado então pelo Vilar, ouviu foguetes e, perguntando o que se passava, disseram-lhe que anunciavam a realização das festas do lugar do Pereiro. Logo aí manifestou interesse em deslocar-se no seu automóvel a essas festas."É claro, pessoas conhecedoras do lugar e do caminho existente para ali, tentaram dissuadi-lo, mas foi como se chovesse no molhado. Não o demoveram do seu intento. Os companheiros também não ligaram importância aos conselhos, e lá seguiram, por uma estrada vicinal, que em Dezembro só poderia ser transitada por cabras ou por corvos, pois só servia às vezes para carros de bois.

"João Henriques dos Santos, com o carro cheio de amigos, começou subindo aquêle pseudo-caminho, embóra com dificuldade. Mas, mais para cima, o caminho complicou-se e não havia meio de poderem prosseguir. Retroceder muito menos. Então a situação era crítica. Nem para diante, nem para tráz.

"Enfim, como era boa a disposição que tinham adquirido pelo caminho, lá foram removendo uma pedra aqui, colocando outra ali, escangalhando um calço acolá, evantando o carro além para o tirar da situação crítica ou  de se despenhar de qualquer ribanceira, e depois de extenuantes esforços, lá conseguiram chegar ao Pereiro.

"Grande festa, entre a população, por ali ser visto, pela primeira vez, um automóvel, foguetes e o resto que se póde imaginar, em tais casos(...)" (7).

Em finais dos anos 40, em homenagem a essa odisseia, o povo do Pereiro mandou colocar uma lápide comemorativa da chegada do primeiro automóvel a esse lugar bem como a João Henriques.

Exemplo do mesmo espírito ousado que marcaria a sua vida, ficou célebre aquela vez em que desceu de carro as escadinhas do castelo, ganhando uma aposta de cem escudos.

A ele ficou a dever-se o início da primeira carreira regular de automóvel, para Santa Cruz, que se iniciou em 1 de Agosto de 1923. Partia da estação de caminho de ferro "após a chegada do comboio correio da capital",saindo depois daquela praia "a tempo dos passageiros poderem regressar à capital pelo comboio correio da noite" (8). Custava a viagem para S.ta Cruz a quantia de 5 escudos.

Se essa iniciativa muito contribuiu para o grande desenvolvimento turístico que essa praia conheceu desde então, mais importante terá sido para o desenvolvimento desta região o facto de ter iniciado a regular ligação rodoviária de Torres Vedras a Lisboa, em Novembro de 1928.Gastou na viagem inaugural duas horas. Custava o bilhete 11 escudos,"custando o lugar ao lado do condutor 15$00!Indicava-se a chegada e partida no Largo de S.Domingos, depois no Largo da Anunciada e, posteriormente, na Rua da Palma. Avisavam-se ainda os passageiros de que deveriam ocupar os seus lugares 15 minutos antes da partida".

O êxito desse empreendimento foi tal, que logo no ano seguinte surgiram dois concorrentes, Ruy Lopes e Francisco Capote, concorrência que foi benéfica para os habituais passageiros desse percurso, pois os três proprietários esmeravam-se por apresentarem as melhores e mais cómodas camionetas. Pouco tempo depois, João Henriques dos Santos conseguia monopolizar a ligação com Peniche.



Reside nesta ligação com Peniche um dos episódios mais marcantes da bondade da sua personalidade ao ajudar os presos políticos de Peniche, transportando gratuitamente as encomendas  que lhes eram enviadas pelos familiares.

Dentro do mesmo espírito, de ajudar os que precisavam, tomou igualmente a iniciativa de "na sua carreira da manhã, que passa por Montachique," conceder "nos dias úteis, a todas as crianças do lugar de Malgas, do visinho concelho do sobral de Monte Agraço e que " frequentavam" a escola primária de Pêro Negro, passagem gratuíta", procedendo de igual modo com os passageiros pobres que procuravam tratamento nos hospitais de Lisboa (7).

A empresa que fundou continuou ligada ao ramo automóvel, tendo abandonado os transportes públicos em 1972, cedendo as suas concessões à empresa Claras, absorvida, depois do 25 de Abril de 1974, pela empresa pública Rodoviária Nacional.

(1)   – in Folha de Torres Vedras, 8 de Maio de 1902;
(2)   – In Livro de Registo de Matriculas, Arquivo Municipal de Torres Vedra;
(3)   – Decreto de 3 de Outubro de 1901;
(4)   - RODRIGUES, António, com Adão de Carvalho,”O Princípio do automóvel em Torres Vedras”, in Toitorres Notícias, nº 39 de Setembro/Outubro de 1996;
(5)   - In Actas da Câmara Municipal de Torres Vedras (CMTV), Livro nº 35, sessão de 14 de Dezembro de 1899, fol. 247 verso, AMTV;
(6)   - In A Vinha de Torres Vedras, 22 de Abril de 1915;
(7)   –In Badaladas [data desconhecida];
(8)   – in O Torreense, 5 de Agosto de 1923.

Nota: uma versão mais resumida deste texto foi publicada na série “Vedrografias”, no jornal Badaladas de 26 de Janeiro de 2018. Por sua vez o texto que aqui se reproduz tem origem num capítulo do meu livro sobre o Impacto da chegada do Caminho de ferro em Torres Vedras, actualizado e já publicado neste blog, mas que agora foi refeito e actualizado com base em novas informações.




quinta-feira, 27 de maio de 2010

Quando o verdadeiro Rally de Portugal, que ainda era da TAP, passava por Torres Vedras

Nos anos 60-70, numa pequena vila como Torres Vedras, em que os ritmos dos dias eram marcados pela regularidade dos acontecimentos anuais (como a passagem do ano numa colectividade local (Operário, Grémio ou Tuna, conforme o estrato social de cada um), o Carnaval, a Procissão do Senhor dos Passos, o Festival da Canção na RTP, as fogueiras de Stº António nos vários bairros da vila, a Feira de S.Pedro, as Férias de Verão em Santa Cruz, o Natal… ), a passagem dos “bólides” do Rally TAP pelas ruas da vila era aguardado com excitação e expectativa .

Nas noites do Rally TAP, enchiam-se as duas principais artérias da vila, a Av. 5 de Outubro e a Rua Santos Bernardes.

O local mais “espectacular” era a curva de ligação entre aquelas duas artérias, frente ao Café Império, onde eram frequentes as derrapagens.

Quem quisesse um bom lugar tinha de se posicionar algumas horas antes da passagem prevista. Depois era esperar. A multidão começava a agitar-se quando se começavam a ouvir ao longe os roncos dos potentes motores, acabados de sair de Montejunto.

Era o tempo dos Lancia Fulvia, dos Morris Mini Cooper, dos Alpine Renault, dos Fiat 124 Abarth ou dos primeiros Datsuns e Toyotas.

Todos procuravam ver um Tony Fall, um Jean –Pierre Nicolas, um Bjorn Waldegaard, um Sandro Munari ou o português Francisco Romãozinho.

Havia mesmo quem procurasse entre as fabulosas máquinas que por cá passavam o carro do Michel Vaillant!

De facto o misticismo do rally tinha levado a que Jean Graton tivesse incluído numa aventura dessa personagem de Banda Desenhada o Rally TAP.

Com um pouco de sorte, um daqueles bólides parava para se abastecer numa das bombas de gasolina existentes dentro da vila, uma no final da Avenida, frente ao “Napoleão”, onde hoje fica o stand da Fiat, a outra a meio da Santos Bernardes, no local da Caixa de Crédito Agrícola, e então era a corrida para rodear o carro e conhecer os pilotos, muitas vezes estrangeiros, uma possibilidade de se contactar com um outro mundo no Portugal fechado de então, e pedir autógrafos àqueles verdadeiros deuses da miudagem.

A passagem por Torres Vedras não era uma classificativa, apenas um local de passagem entre as míticas classificativas de Montejunto e as do Gradil ou Sintra.

Mas a velocidade era vertiginosa, para os hábitos dos poucos automóveis que, em dias normais, atravessavam as pacatas ruas da vila. Existia então o chamado circuito de manutenção com controle do horário de passagem entre dois troços, e os pilotos tinham de se manter velozes para não chegarem atrasados a esse controle.

Depois o Rally, que passou a ser “de Portugal”, deixou de passar por Torres Vedras. Com um pouco de sorte podíamos ir vê-lo em Montejunto ou ao Gradil. Ainda consegui assistir a uma classificativa em Sintra, um ano antes dos trágicos acontecimentos que acabaram com essa mítica prova.

Hoje o Rally de Portugal é cada vez mais um Rally regional, longe desses tempos “heróicos”.

AQUI é possível recordar as fotografias de alguns desses bólides do passado, ou conhecer AQUI a emoção da classificativa de Sintra.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Nos primórdios do transporte automóvel em Torres Vedras

Data de 1895 a entrada do primeiro automóvel em Portugal, e não foi preciso esperar muito tempo para aparecer em Torres Vedras o primeiro agente de venda de automóveis, conforme se prova num anúncio publicado nas páginas do jornal "A Vinha de Torres Vedras" em 6 de Janeiro de 1898.
Inicialmente o êxito do automóvel foi limitado e temos de esperar por 1902 para encontrarmos a primeira referência comprovada à circulação de um automóvel nas ruas de Torres Vedras. Foi por ocasião da visita da rainha D. Amélia ao convento da Graça, a 12 de Maio desse ano, de passagem "em direcção à quinta das Lapas(...)em automóvel e (...)acompanhada pelos srs. conde de Tarouca e condes de Figueiró(...)"[1].
Só em finais da década de 10 é que o automóvel conheceu algum incremento neste concelho, levando a Câmara Municipal a iniciar, a partir de 1918, um registo de automóveis matriculados, oficialmente os primeiros existentes em Torres Vedras e dos quais registamos os 20 primeiros[2]:

(Nº de ordem de matricula; Nº de Circulação; Ano, Mês e Dia do Registo; Nome do Proprietário e residência)
1 1660 1918 Abril 18 D. Vasco Martins Sequeira Q.ta Juncal
2 2393 1918 Julho 5 Vasco de Moura Borges Q.ta Paio Correia
3 943 1919 Julho 12 João Henriques dos Santos Torres Vedras
4 1390 1919 Julho 19 Gonzaga Limitada Q.ta Charneca
5 --- 1919 Agos. 2 José Augusto Lopes & C.ª Torres Vedras
6 2270 1919 Sete. 2 José Duarte Capote Torres Vedras
7 2705 1919 Out. 10 José Augusto Lopes Jr. Torres Vedras
8 --- 1919 Dez. 26 Joaquim C. Rodrigues Torres Vedras
9 2811 1920 Jan. 12 João Henriques dos Santos Torres Vedras
10 --- 1920 Maio 22 António ...? Oliveira Torres Vedras
11 4076 1920 Junho 15 António Emilio Cunha S.tos Torres Vedras
12 4258 1920 Agos. 2 Alfredo Oliveira Luso Lisboa
13 4230 1920 Agos. 16 João Henriques dos Santos Torres Vedras - camioneta
14 4614 1920 Set. 2 Faustino Policarpo Timóteo Dois Portos -camioneta
15 4473 1920 Out. 2 Manuel Augusto Baptista Torres Vedras
16 2981 1920 Out. 14 José Botto Pimentel Carv.º Q.ta do Paço
17 2907 1920 Nov. 16 José Antunes Martins Ramalhal
18 3382 1921 Abril 13 Dr.Pereira Branco Ribaldeira
19 218 1922 Maio 25 António Hipólito Torres Vedras
20 --- 1922 Agos. 4 Amadeu dos Santos Torres Vedras

Por este quadro é possível concluir que foi a partir da década de 20 que a aquisição de automóveis começou a aumentar neste concelho e que a primeira camioneta registada pertencia a João Henriques dos Santos. No ano de 1926, registavam-se 48 automóveis e 26 camionetas[3].
Se a divulgação do automóvel foi lenta e demorada, os primeiros transportes usando o automóvel só começaram a obter algum êxito também nos anos 20, quando começaram a poder bater o comboio no tempo de percurso, ou chegando a sítios onde o comboio não chegava, mas que ganhavam crescente importância turística e económica, como foram os casos de S.ta Cruz e Peniche.
Data de 1899 a primeira proposta de estabelecer uma carreira automóvel ligando Torres Vedras a Lisboa.
Em reunião camarária de 14 de Dezembro desse ano dava-se a informação de se ter recebido um requerimento, datado de 25 de Novembro, dirigido a esse orgão municipal de "Alfredo de Brito, - industrial, constructor electricista com fábrica em Lisboa, na rua de Santo António dos Capuchos, nºs 52/54" pedindo "à Camara Municipal de Torres Vedras, concessão por setenta e cinco annos, para si ou para a Companhia que está organisando, para a exploração (em toda a area actual do concelho de Torres Vedras e d' aquella que de futuro venha a pertencer-lhe), do transporte de pessoas, mercadorias, etc.,etc., por meio de vehiculos denominados automoveis. O requerente garante à câmara, annualmente três por cento da receita bruta.
"Esta concessão facultando à Camara uma nova receita, proporcionará aos municipes as vantagens de usarem um meio de transporte rápido e commodo, e facultará o desenvolvimento da industria de carruageria sic , ha muitos annos estabelecida no país,e da industria mecanica pela fabricação dos motores e acessórios necessarios aos automoveis, fabrico que o requerente iniciou na sua fabrica(...)"[4].
A camara ficou de tratar deste assunto noutra sessão, nunca o tendo feito. Foi preciso esperar por 1915 para se inaugurar a primeira carreira automóvel. Pertenceu a iniciativa à empresa da Malveira, Joaquim Jerónimo &Irmão: "Trata-se de uma carreira de auto-omnibus entre Torres e Lisboa, partindo do Largo da República, todos os dias ,às 3 horas da tarde", preenchendo assim "uma lacuna importante, que ha muito se fazia sentir, tanto mais que a companhia dos Caminhos de Ferro nunca quiz atender as reclamações constantes que lhe foram feitas, para restabelecer os comboios da tarde para Lisbos, que ela, há muito, desatenciosamente suprimiu(...)"[5].
Este serviço teve início a 18 de Abril de 1915 e nasceu em confronto directo com o transporte ferroviário. Contudo, fosse por fazer a viagem de Torres Vedras ao Lumiar em 3 horas, tanto tempo como o tempo de comboio, fosse por outras razões, esta iniciativa não teve o êxito esperado, sendo necessário esperar por nova iniciativa do género, nos anos 20, pela qual foi responsável João Henriques dos Santos.
Já referimos noutra parte do nosso artigo que João Henriques dos Santos não só foi o terceiro torriense a registar a posse de um automóvel, como foi o primeiro a adquirir uma camioneta.
O seu entusiasmo por esse então novo meio de transporte revelou-se em diversas ocasiões. Uma das mais conhecidas aconteceu em 1922, a 3 de Dezembro. Tendo passado então pelo Vilar, ouviu foguetes e, perguntando o que se passava, disseram-lhe que anunciavam a realização das festas do lugar do Pereiro. Logo aí manifestou interesse em deslocar-se no seu automóvel a essas festas."É claro, pessoas conhecedoras do lugar e do caminho existente para ali, tentaram dissuadi-lo, mas foi como se chovesse no molhado. Não o demoveram do seu intento. Os companheiros também não ligaram importância aos conselhos, e lá seguiram, por uma estrada vicinal, que em Dezembro só poderia ser transitada por cabras ou por corvos, pois só servia às vezes para carros de bois.
"João Henriques dos Santos, com o carro cheio de amigos, começou subindo aquêle pseudo-caminho, embóra com dificuldade. Mas, mais para cima, o caminho complicou-se e não havia meio de poderem prosseguir. Retroceder muito menos. Então a situação era crítica. Nem para diante, nem para tráz.
"Enfim, como era boa a disposição que tinham adquirido pelo caminho, lá foram removendo uma pedra aqui, colocando outra ali, escangalhando um calço acolá, evantando o carro além para o tirar da situação crítica ou de se despenhar de qualquer ribanceira, e depois de extenuantes esforços, lá conseguiram chegar ao Pereiro.
"Grande festa, entre a população, por ali ser visto, pela primeira vez, um automóvel, foguetes e o resto que se póde imaginar, em tais casos(...)"[6].
Em finais dos anos 40, em homenagem a essa odisseia, o povo do Pereiro mandou colocar uma lápide comemorativa da chegada do primeiro automóvel a esse lugar bem como a João Henriques.
Exemplo do mesmo espírito ousado que marcaria a sua vida, ficou célebre aquela vez em que desceu de carro as escadinhas do castelo, ganhando uma aposta de cem escudos.
A ele ficou a dever-se o início da primeira carreira regular de automóvel, para Santa Cruz, que se iniciou em 1 de Agosto de 1923. Partia da estação de caminho de ferro "após a chegada do comboio correio da capital",saindo depois daquela praia "a tempo dos passageiros poderem regressar à capital pelo comboio correio da noite"[7].Custava a viagem para S.ta Cruz a quantia de 5 escudos.
Se essa iniciativa muito contribuiu para o grande desenvolvimento turístico que essa praia conheceu desde então, mais importante terá sido para o desenvolvimento desta região o facto de ter iniciado a regular ligação rodoviária de Torres Vedras a Lisboa, em Novembro de 1928.Gastou na viagem inaugural duas horas. Custava o bilhete 11 escudos,"custando o lugar ao lado do condutor 15$00!Indicava-se a chegada e partida no Largo de S.Domingos, depois no Largo da Anunciada e, posteriormente, na Rua da Palma. Avisavam-se ainda os passageiros de que deveriam ocupar os seus lugares 15 minutos antes da partida".
O êxito desse empreendimento foi tal, que logo no ano seguinte surgiram dois concorrentes, Ruy Lopes e Francisco Capote, concorrência que foi benéfica para os habituais passageiros desse percurso, pois os três proprietários esmeravam-se por apresentarem as melhores e mais cómodas camionetas. Pouco tempo depois, João Henriques dos Santos conseguia monopolizar a ligação com Peniche.
Reside nesta ligação com Peniche um dos episódios mais marcantes da bondade da sua personalidade ao ajudar os presos políticos de Peniche, transportando gratuitamente as encomendas que lhes eram enviadas pelos familiares.
Dentro do mesmo espírito, de ajudar os que precisavam, tomou igualmente a iniciativa de "na sua carreira da manhã, que passa por Montachique," conceder "nos dias úteis, a todas as crianças do lugar de Malgas, do visinho concelho do sobral de Monte Agraço e que " frequentavam" a escola primária de Pêro Negro, passagem gratuíta", procedendo de igual modo com os passageiros pobres que procuravam tratamento nos hospitais de Lisboa.
A empresa que fundou continua hoje ligada ao ramo automóvel, tendo abandonado os transportes públicos em 1972, cedendo as suas concessões à empresa Claras, absorvida, depois do 25 de Abril de 1974, pela empresa pública Rodoviária Nacional.


[1] In Folha de Torres Vedras, 8 de Maio de 1902.
[2] In Arquivo Municipal de Torres Vedras (AMTV).
[3] In AMTV.
[4] In Actas da Câmara Municipal de Torres Vedras (CMTV), Livro nº 35, sessão de 14 de Dezembro de 1899, fol. 247 verso, AMTV.
[5] In A Vinha de Torres Vedras, 22 de Abril de 1915.
[6] In Badaladas [em data desconhecida].
[7] In O Torreense, 5 de Agosto de 1923.

Nos primórdios do transporte automóvel em Torres Vedras


Uma das primeiras "camionetas" de João Henriques dos Santos (anos 20)

Camioneta de Ruy da Costa Lopes


Uma "paragem" frente ao Convento da Graça



Uma camioneta de passageiros em Stª Cruz - início do século XX