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quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Torres Vedras - Da ditadura de Pimenta de Castro à "2ª Revolução"(Jeneiro-Maio 1915)

(Imagem de populares na Revolta do 14 de Maio de 1915. Fonte: RTP)

Em 21 de Janeiro de 1915, na sequência do chamado "Movimento das Espadas", protesto pela demissão do então Major João Craveiro Lopes, o general Pimenta de Castro foi convidado a formar governo pelo presidente Manuel de Arriaga. Apoiado pelos "evolucionistas", pelos "unionistas", por parte do exército, por monárquicos e pela Igreja, cedo esse governo se revelou como tendo por objectivo principal combater a influência do Partido Democrático (PRP), perseguindo-os ferozmente. Em 4 de Março o governo entrou em ditadura, encerrando o parlamento. Os "democráticos" procuraram resistir, transferindo o parlamento para o Palácio da Mitra, em Santo Antão do Tojal, no concelho de Loures, onde, reunindo as duas câmaras, aprovaram por unanimidade uma moção apresentada por Afonso Costa, declarando o Governo fora da lei e nulos todos os actos governativos.

Em 1 de Março a Câmara de Torres Vedras, exclusivamente dominada pelo PRP, resolve enviar ao directório desse partido um telegrama onde dá conhecimento da deliberação tomada por unanimidade, na sua sessão plenária extraordinária, realizada nessa data, apoiando o "protesto contra medidas dictatoriais | do | actual governo"(1).

Por outro lado, não disfarçando o seu apoio ao governo de Pimenta de Castro, o jornal "A Vinha de Torres Vedras", então já sob direcção de Júlio Vieira, comentava  de forma irónica e em termos críticos aquela reunião:

"(…) reuniu extraordinariamente o Senado Municipal de Torres Vedras.

"Quando do caso soubémos, e já tarde, aprove-nos indagar que questão de alto interesse publico levou a camara a reunir em sessão extraordinária.

"Tratar-se-ia de resolver algum problema urgente em beneficio do concelho?

"Ir-se-ia representar ao governo, apresentando alguma reclamação em defesa da Lavoura, para atenuar a crise gravissima por que estamos passando? Iria a camara cuidar dos interesses dos munícipes, resolvendo algum problema para acudir á carestia dos generos?

"Nada disso.

"Tratou-se tão sómente de política...

"(...)O que resolveu a Camara? Protestar contra a Lei eleitoral e contra as arbitrariedades  do actual governo, em nome do concelho de Torres Vedras, como se o nosso concelho se prestasse, porventura, a forças desta natureza” (2).

A Câmara acabou por ser dissolvida em  22 de Abril,  substituída por uma comissão administrativa cuja posse, em 27 de Abril, teve de enfrentar uma forte resistência por parte dos "democráticos", acontecimento  descrito pelo porta-voz local do PRP, o jornal "A Voz de Torres":"(...) Também chegou a esta linda região de Torres o espadagão ferrugento do terribil  Pimenta. O velhote esbraveja em descompassadas convulsões. É um verdadeiro macaco dentro d'uma loja de louça(...).

"A obra patrioticamente republicana da estimada vereação do municipio d'esta vila foi vilipendiada, tristemente, pelos azedumes d'esse monstro que se chama Pimenta de Castro (...)" (3).

Uma outra versão dos acontecimentos era dada pelo presidente nomeado dessa comissão, em carta dirigida ao Governador Civil de Lisboa, datada de 29 de Abril, queixando-se principalmente da passividade do administrador do concelho:

"(...)Tendo-se dado nesta vila, acontecimentos de que poderiam ter resultado consequencias bem pouco agradaveis, no acto de posse da comissão a que tenho a honra de presidir,(...) e atribuindo esta Comissão tão lamentavel factor á falta de energia de quem tinha por dever assegurar a manutenção da ordem publica num acto que era de esperar fôsse concorrido e que muito mais o foi, devido ás hesitações da mesma autoridade que féz com que esta comissão tivesse de esperar 5 horas para lhe ser dada posse, demora esta que estabeleceu o ridiculo num acto que, por todos os motivos deveria ser praticado com respeito devido às ordens emanadas do Govêrno da República e que colocou esta comissão na contigencia de ter de ouvir no acto da posse frases menos respeitosas e, á saida dos Paços do Concelho, ser enxovalhada com vaias e assobios, acontecimentos estes que tiraram áquela autoridade todo o prestígio, não pode esta comissão deixar de vir perante V.Ex.ª narrar estes factos, para que V.Ex.ª se digne providenciar como tiver por conveniente(...)" (4).

A esmagadora maioria dos 14 membros da comissão administrativa fazia parte do Partido Evolucionista.

Contudo, esta comissão durou por pouco tempo, pois foi afastada em consequência da "Revolução de 14 de Maio" que derrubou Pimenta de Castro.

Temendo que o próximo acto eleitoral, marcado para Junho, viesse a realizar-se sob controle do governo,  possibilitando que , nessas condições, se legitimasse a perda de influência do PRP a favor dos seus adversários, enquanto, por outro lado, se temia a crescente tolerância do governo em relação aos monárquicos, cedo os "democráticos" encararam a necessidade de organizar um golpe de força para derrubar a ditadura e repor a situação anterior.

O rompimento do Partido Unionista com o governo, foi o pretexto para a conspiração avançar.

A Junta Militar que desencadeou a "Revolução de 14 de Maio" era dirigida por vários militares ligados maioritariamente à maçonaria, desempenhando Afonso Costa, nos bastidores, um papel fundamental na mobilização dos civis ligados ao Partido Democrático e à "Formiga Branca", enquadrados pela quase totalidade da Marinha de Guerra e da Guarda Fiscal e por parte do Exército, que foram a principal base de apoio militar que permitiu o êxito da revolução.

Para muitos republicanos esta revolução foi uma espécie de "refundação" do regime. Teve maior participação popular, foi muito mais violenta, de maior duração, abrangendo os seus combates uma área mais vasta que o 5 de Outubro, saldando-se por 102 mortos e 250 feridos graves (5).

Vitoriosa a revolução, o presidente Arriaga demitiu-se em 29 de Maio, elegendo o Congresso, para completar o mandato, Teófilo Braga, voltando a constituir-se um governo maioritariamente "democrático”.

Os republicanos torrienses estiveram activamente envolvidos nos acontecimentos pormenorizadamente descritos pelo anónimo correspondente local do "O Século":

"(...) Acordámos hoje |14 de Maio| sem comunicações telegraficas, cortados os fios em diferentes pontos, com exceção | sic | do Sobral do Mont' Agraço. Os jornaes de Lisboa á sua chegada vieram esclarecer a situação, sendo lidos com extrema anciedade | sic |.Pouco a pouco os animos exaltaram-se e começou a juntar-se gente no largo da Republica, comentando os acontecimentos.

"Ás 13 horas destacou-se d'ali uma comissão (…) dirigindo-se á administração onde foram recebidos pelo (…) administrador do concelho, a quem convidaram a demitir-se. Houve alteração e a comissão saiu sem ter conseguido o seu intuito (...).

"Pelas 18 horas, a estação do caminho de ferro foi invadida, esperando-se a chegada do comboio de Lisboa, que não veiu. E de novo a multidão seguiu para o largo da Republica, voltando a mesma comissão a procurar o administrador no hotel Natividade.

"D'esta vez não o convidaram a demitir-se, intimaram-no. Em face d'isto não havia outro remedio. O administrador seguiu em trem para Runa, com dois revolucionarios, esperando aí o comboio que o conduzisse a Lisboa.

"Foi então investido no cargo o dr. Aurelio Ricardo Belo, entre aclamações á Republica, á Patria e á Constituição.

"Depois a multidão dirigiu-se á praça do Municipio, entrando na camara os srs. dr. Aurelio Ricardo Belo, dr. Celestino da Silva Almendro, António Batista da Costa e Francisco Firmino, falando de uma das janelas os tres ultimos, sendo soltados novamente muitos vivas.

"D'ali foram, dividindo-se em pequenos grupos, que ficaram toda a noite de vigilancia"(6).

A "vigilância revolucionária" continuou  na vila por mais alguns dias e caracterizou-se pela perseguição, expulsão da vila ou saneamento dos cargos  ocupados por personalidades identificadas politicamente com a ditadura derrubada.

Este período excepcional  durou em Torres Vedras entre 14 e 17 de Maio.

Em 26 de Maio a Câmara "democrática", demitida pelo governo de Pimenta de Castro, voltou a reunir ordinariamente, terminando o seu mandato, de acordo com o previsto, em Dezembro de 1917, exactamente no momento em que uma nova ditadura , a de Sidónio Pais, se instalou.

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(1)Registo de Correspondência da Câmara(1-1-1915 a 8-11-1917),Telegrama de 1 de Março de 1915, AMTV.

(2) A Vinha de Torres Vedras, 4 de Março de 1915.

(3) A Voz de Torres, 2 de Maio de 1915.

(4)Registo de Correspondência da Câmara (1-1-1915 a 8-11-1917), carta nº 82 de 29 de Abril de 1915, AMTV.

(5) MARQUES, A. H. de Oliveira, Portugal da Monarquia para a República, pp.711-712.

(6) O Século, 18 de Maio de 1915.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

…era o Vinho! (breve evocação da produção vinícola na história torriense

 


A história de Torres Vedras é transversal à história da produção de vinho.

Contudo, não existe nenhuma monografia aprofundada e diacrónica sobre a história do vinho nesta região, apesar de muitas referência e estudos de tipo conjuntural.

Com este texto procuramos elaborar uma pequena síntese que, quem sabe, possa servir de base para uma história do impacto da produção vinícola na região de Torres Vedras.

Não se conhecendo quando é que esse produto foi introduzido na região ou se existia em estado selvagem, existem vestígio de videiras por altura da época de ocupação do Castro do Zambujal (c.2500 a 1700 aC.), como é referido por Margarethe Upermann  (UERPMANN, Margarethe, “A indústria da pedra lascada do Zambujal”, in KUNST, Michael (coord.), Origens, Estruturas e Relações das Culturas Calcolíticas da Península Ibérica, Actas das I Jornadas Arqueológicas de Torres Vedras, 3-5 Abril 1987, Trabalhos de Arqueologia 7, IPPAA, Lisboa 1995, pp.37-44).

Também Ana Arruda refere que a população indígena da região de Torres Vedras consumia vinho importado da Fenícia, durante a chamada Idade do Ferro europeia, no século VIII a.C (ARRUDA, Ana Maria, “O comércio fenício”, in História de Portugal – Dos Tempos Pré-Históricos aos Nossos Dias, dir. João Medina, 2º Vol, pp.17 a 34, Ediclube, 1993).

Contudo, em ambas as épocas referidas, se existem evidências de consumo, não existem provas de produção local.

Ao que parece, a produção local de vinho terá conhecido um grane incremento comercial durante a ocupação romana, e está na base da existência, nesta região, de várias villae, uma espécie de “quintas”, que abasteciam Olisipo, através de uma rede viária com alguma dimensão.

Contudo, é preciso esperar pelo foral de 1250 para encontrarmos a primeira referência documental à produção de vinho local:

“Aquele que arrombar o relego do vinho, e vender o vinho no seu relego, e provada a infracção (…) pague cinco soldos. E se for achado de novo em falta pela terceira vez, (…), todo o vinho seja entornado e os arcos dos tonéis sejam cortados. Do vinho de fora dêem um almude por cada carga e o outro seja vendido no relego”.

Pouco depois, surge o mais antigo documento conhecido que nos permite analisar, com algum rigor, a importância produtiva e a localização no concelho da produção vinícola na Idade Média, documento de 1309 ( Este documento foi publicado, analisado e divulgado por aqueles que se têm dedicado ao estudo da Idade Média em Torres Vedras: Félix Lopes, John Jonhson, Manuel Clemente, Manuela Catarino, Ana Maria Rodrigues, Carlos Guardado Silva…).

Pelos dados desse documento, calcula-se que o vinho, sendo produto importante, representava pouco mais de 30% do total dos produtos agrícolas produzidos no concelho, dominando a produção de cereis.

O Clero (com mais de 6 mil almudes) e a nobreza (com quase 5 mil almudes) dominavam a produção do vinho local (num total, nesse ano, de cerca de 16 mil almudes).

A zona do concelho onde se concentrava a maior parte da produção do vinho era no vale do Sizandro, principalmente o sudeste, na região entre Dois Portos e a Ribeira de Pedrulhos, estendendo-se para o Barro e a Orjariça, até ao Turcifal. As aldeias do Varatojo, Turcifal, Ribaldeira e Ribeira de Manjapão concentravam cerca de 20% de toda a produção vinícola.

Com a excepção desse documento, é muito escassa e dispersa a documentação existente sobre esse tipo de produção neste concelho.

De referir, no foral manuelino de Torres Vedras, doado em 1510, o destaque à produção de vinho, como se revela pela importância dada ao relego real, cuja venda tinha lugar privilegiado nos três primeiros meses do ano e cujo desrespeito motivava algumas das mais pesadas penas estabelecidas nesse foral, demonstrando a importância e o valor que o vinho da região começava a ter.

A abundância de vinho nesta região é referida em 1589, quando o  exército anglo-luso, onde se encontrava D. António Prior do Crato,  entrando em Torres Vedras, a caminho de Lisboa, com o objectivo de restaurar o trono português, aqui se demorou mais do que o necessário, porque muitos dos soldados “se embebedarão, por aver muito vinho nesta villa”. Beberam em tal excesso que muitos adoeceram e alguns chegaram mesmo a morrer, incidente que provocou um atraso no avanço dos Ingleses sobre Lisboa, dando tempo às tropas luso-castelhanas, que defendiam a capital, de se prepararem para a chegada dos apoiantes de D. António.

O  desenvolvimento da expansão portuguesa ao longo do século XVI parece ter contribuído para o crescimento da importância comercial da produção do vinho desta região, como o atesta Duarte Nunes de Leão, na sua obra datada de 1599 : “par carrego sam infiniros os vinhos que da Santarem, Alenquer e Torres Vedras e seu grande termo”, os quais “com os de Lamego e Monção poderiam bastecer um reino deixando à parte os que se dam na Beira”.

A meio do século XVII também Rodrigo Mendez da Silva  anotava a abundância, na vila de Torres Vedras, por ordem de importência, de “pan, vino, azeyte, ganados [gado] y cazas [caça]”

As qualidades do vinho Torrienses foram igualmente gabado no principio de “setecentos”  por António Carvalho da Costa, indicando que “esta villa” de Torres Vedras, para além de ser “abundante de excelente trigo, frutas, gado, caça & vinho”, “lavra mais de seis mil pipas” de vinho “que vão para a Índia, por serem de grande substancia para passarem os mares”.

É igualmente no século XVIII, a partir de 1723, que o preço do vinho passa a ser regular e anualmente taxado nos acórdãos camarários, juntamente  com o trigo, a cevada, o milho e o azeite.

Contudo, na segunda metade desse século, durante o governo do Marquês de Pombal, a sua produção vai conhecer um período de incerteza, quando dois alvarás, um datado de 20 de Outubro de 1765 outro de 8 de Fevreiro de 1766, ordenam o arranque de vinhas, um pouco por todo o país, com o objectivo de libertar terras para o cultivo de “pão”, mas que visava, na realidade a produção do Douro. No primeiro desses alvarás a região de Torres Vedras, entre foi excluída dessa decisão, mas, no segundo, as terras cultivadas com vinhas neste concelho passam a ser consideradas impróprias para o seu cultivo.

Ao que parece, esta segunda decisão ficou sem efeito, pois, segundo Veríssimo Serrão, nesse ano de 1766 a coroa determinou “que se fizesse destinção no preço dos vinhos, de modo a não prejudicar a qualidade do fino tinto produzido no Alto Douro” medida essa que, entre outras consequências, valorizou “o produto da região estremenha (Santarém, Torres Vedras) e também Bairrada, que se tornaram ricas zonas vinícolas do País”.

Ao longo do século XVIII o vinho tornou-se um dos principais produtos da região, embora nunca ultrapasse muito os 30% de toda a produção agrícola, 39,1% em 1764 ou 32,2% em 1799.

Parece ter sido ao longo do século XIX, embora com variações, que o seu peso se tronou esmagador, rondando 50% de toda a produção agrícola local logo em 1812, em crescimento contínuo até ao final desse século. (1799 – Mapa do rendimento da Dízima eclesiástica publicada por João Pereira; 1812 – Dados publicados na parte económica de Madeira Torres, aferidos por João Pereira).

A crescente importância da produção vinícola foi observada ainda na primeira metada desse século por Madeira Torres, que escreveu , na parte económica da sua obra, escrita no primeiro quartel do século, refrindo-se a essa produção no “terreno da villa, e seu termo, he muito considerável, e até verdadeiramente singular na generalidade dos fructos que abrange. A producção do vinho he sobre todas a mais abundante” (p.246).

A tão temida filoxera, tema estudado com bastante detalhe por Célia Reis ( “Problemas dos Vinhos Torrienses no Final da Monarquia”, in Turres Veteras III- Actas de História Contemporânea, ed. CMTV/IERMAH-Un. Letras, T. Vedras 2000, pp.123 a 158).

A filoxera manifestou-se pela primeira vez no concelho em 1883, numa vinha da Quinta Nova, junto da Ordasqueira, expandindo-se no ano seguinte pelas vinhas de várias Quintas da freguesia da Ventosa, uma das mais importantes na produção do vinho do concelho, atingindo o seu auge em 1885, quando atingiu todo o concelho, obrigando à substituição das cepas afectadas pelo chamado bacelo americano a partir de 1886.

A crise da Filoxera, ao obrigar a grandes mudanças no tipo de vinhas e no modo de produção vinícola, parece terem contribuído para o rápido crescimento da sua produção local, ultrapassando em 80% o total de toda a produção agrícola ao longo da última década do século e contribuindo para uma profunda alteração na paisagem rural do concelho.

As freguesias de A-Dos-Cunhados, Matacães, Carmões, S.Pedro da vila e S.Mamede da Ventosa foram aquelas onde se iniciou esse processo de substituição.

Em 1888 a vinha “americana” era dominante em relação à “europeia” na maior parte das freguesias e em 1891 já não existia nenhuma vinha de bacelo “europeu” plantada e registada no concelho.

A acção dos viticultores torrienses foi assim rápida e eficaz. Para isso muito contribui a imprensa local, que surgiu em 1885 e dedicava grande parte do seu conteúdo aos problemas da viticultura, bem como a existência de uma escola vitivinícola na Quinta da Viscondessa, no Turcifal, dirigida pela família Batalha Reis, principalmente o irmão António, cujo papel na economia e na sociedade da região ainda está por estudar.

Com a plantação da vinha “americana” a região recuperou rapidamente da crise, tornando-se um importante centro de exportação de vinhos, não só para o Douro, mas também para Bordéus.

José de Campos Pereira, na sua obra publicada em 1915, baseada em dados de 1911, intitulada “A Propriedade Rústica em Portugal”, revela dados que colocam o concelho de Torres Vedras em primeiro lugar no distrito de Lisboa, que então incluía a área do actual distrito de Setúbal, quer quanto à área de cultivo da vinha (21 000 hectares, cerca de ¼ do total distrital), quer quanto ao rendimento (15 mil contos, pouco menos de 1/3 do total distrital ) quer quanto à produção (808 500 hectolitros, cerca de 1/3 do total distrital).

Todos os dados confirmam o peso da produção vinícola até meio do século XX, vinha, ocupando quase metade da superfície agrícola do concelho, seguindo-se o cultivo de batata, trigo e milho, que apesar de tudo, no seu conjunto, ocupavam menos área que a do vinho.

É na segunda metade do século que a produção do vinho vai conhecer profundas mudanças estruturais, reduzindo a área de cultivo mas, apostando-se na qualidade para expostação. Mas essa é outra história.

sábado, 4 de novembro de 2023

A História trágico-marítima do litoral torriense

                              

Naufrágios na Costa Torriense

Torres Vedras é um concelho com cerca de 20 quilómetros de costa marítima, pelo que não é de estranhar a existência de muitas memórias de naufrágios nesta zona.

Numa área entre dois importantes portos de pesca, como Peniche e Ericeira, próxima do estuário do rio Tejo e fazendo parte do litoral que, durante séculos, ligou o Mar do Norte com o Mediterrâneo, pela costa deste concelho terão passado milhares de navios ao longo dos tempos.

Com uma costa de grandes arribas, cortadas pela foz de dois rios de dimensões razoáveis, como o Sizandro e o Alcabrichel, famosa pela agitação marítima e pelos temporais violentos, com a existência de três históricos, embora pequenos, portos de pesca, como Porto Novo, Cambelas e Assenta, não será de estranhar que aqui se tenham registado vários naufrágios ao longo dos séculos.

Tema ainda por estudar e investigar, aqui deixamos um pequeno registo para a construção da “história trágico-marítima” do litoral do concelho torriense.

O mais antigo naufrágio registado nessa costa data de 28 de Agosto de 1650, o “encalhe no areal de Penafirme, perto da Ericeira [?]” do galeão S. Francisco, acabado de sair dos estaleiros a caminho da Índia (1) pouco mais se sabendo sobre esse acontecimento.

Vai ser preciso espera mais um século e meio para voltarmos a encontra referência a outro naufrágio no litoral do concelho torriense, o do navio inglês London “na Praia Formosa, em Rendide” , ocorrido no início de 1801 (2)

Um dos aspectos curiosos dessa notícia parece ser a mais antiga referência à Praia Formosa.

No ano de 1823 ocorreram dois naufrágios, os mais trágicos ocorridos nesta região, o primeiro o da fragata da armada francesa “La Cornaline”, ocorrido em 2 de Fevereiro, frente a Cambelas,  que custou a vida a cerca de cem marinheiros, e o segundo, na madrugada de 10 para 11 de Julho, a norte do chamado Cabo Rendide, o paquete “Lusitano”, “um dos primeiros barcos a vapor (…) da carreira de Lisboa ao Porto”, morrendo mais de 60  pessoas, entre os seus 200 passageiros e 16 tripulantes (3).

Só em 1885 voltamos a encontrar notícias de novo naufrágio na costa torriense, ocorrido na Praia de Santa Cruz, no dia 31 de  Outubro, quando “um forte pé de vento deitou por terra as barracas dos banhistas, que fugiram apressados para terra; e quando os banheiros José Rosa e José Pisco estavam tratando de reunir as barracas desmantelladas, ouviram gritos de soccorro no mar, dados por seis homens que formavam a tripulação de um barco de pesca em imminente risco de soçobrar, o que de facto succedeu.

“Apenas dois dos tripulantes sabiam nadar, e portanto poderam conseguir alcançar a terra; aos outros quatro acudiram os valentes e benemeritos banheiros, que arrostaram com o embate das ondas, indo arremessar pelo mar dentro o cabo salva vidas, a que se agarraram os naufragos, conseguindo assim a sua salvação”(4).

No dia 12 de Abril de 1902 registou-se outra tragédia marítima quando o barco de pesca “Boa Viagem”, ao entrar no porto de Assenta, se virou com uma onda, morrendo dois pescadores, salvando-se o terceiro, o único que sabia nadar (5).

Apenas dois anos depois, em 13 de Junho de 1904, o vapor espanhol Aviles, encalhou, devido ao nevoeiro “no porto Chão ao sul da Foz da Areia”. O navio carregava carvão, com destino a Barcelona. A tripulação de “20 homens e mais 5 passageiros” conseguiu salvar-se, mas, ao chegarem a terra “foram assaltados por muitos indivíduos, verdadeiros piratas que lhes roubaram as roupas, os comestíveis e até os próprios remos da embarcação” (6).

Cenas idênticas passaram-se quando no dia 7 de Março de 1917 ocorreu nova tragédia perto da praia da Assenta com o lugre “Lusitano”, oriundo da Guiné portuguesa, naufragando com um carregamento destinado à C.U.F , falecendo 11 marinheiros, registando-se a pilhagem “dos salvados que deram à costa” (7).

Aquele que foi, talvez, o mais famoso naufrágio nas praias torrienses ocorreu em 5 de Fevereiro de 1930, famoso, não só porque ainda é possível, em certas ocasiões, observar um dos mastros do navio naufragado, como esse naufrágio deu nome a uma das principais praias de Santa Cruz, a “praia do Navio”.

Tratou-se do naufrágio do navio norueguês Hav (“Oceano” em português), vindo de Cardiff para o porto de Leixões, com um carregamento de carvão, um naufrágio que ocorreu após um conjunto de acontecimentos rocambolescos, quando era rebocado de Leixões para Lisboa, para ser reparado, tendo-se salvado toda a tripulação de 11 homens (8).

No dia 1 de Maio de 1947 um violento temporal apanhou de surpresa embarcações de pesca da Assenta. Uma delas, a lancha Olinda afundou-se à entrada do porto da Ericeira, para onde se pretendia refugiar, matando os três pescadores da Assenta (9).

Na madrugada do dia 2 de Outubro de 1970, quando se encontrava em dificuldades, o capitão do cargueiro holandês Shamrock Reefer conseguiu encalhar, propositadamente, esse grande navio na praia de Porto Chão, a sul da foz do Sizandro, conseguindo assim salvar toda a tripulação (10).



Um dos últimos naufrágios registado na costa torriense ocorreu no dia 15 de Fevereiro de 1978.

Foi o do cargueiro alemão Alchimist Emden que ocorreu junto à praia de Cambelas, um novo contributo para a fama dessa praia como “a praia dos naufrágios”.

Não se registando vítimas nesse naufrágio, temeu-se, contudo, um desastre de grandes dimensões “dada a quantidade e natureza da carga – 1150 toneladas de hidrocarbonetos”, situação que, felizmente, não se concretizou (11).

Deixamos, assim, este breve e limitado registo de alguns dos naufrágios ocorridos na costa torriense, esperando que contribua como ponto de partida para uma investigação mais aprofundada sobre o tema.

(Já com este artigo feito, ontem o mar de SantaCruz ceifou mais 4 vidas:)

(1)    - ESPARTEIRO, comandante António Marques, Catálogo dos Navios Brigantinos (1640-1910), Centro de Estudos de Marinha, Lisboa 1976, pág. 7 (disponível na net);

(2)    - Ofício do Juiz de fora de Torres Vedras, José Pedro Quintela, ao secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar, datado de 20 de Fevereiro de 1801, no Arquivo Histórico Ultramarino (AHU CU Reino, Cx. 269, pasta 41);

(3)    - CUNHA, João Flores, “Estórias (especuladas) de Torres – Dois Naufrágios em 1823 junto ao Cabo Rendido”, in Badaladas de 5 de Abril de 2019. Sobre o naufrágio do Lusitano leia-se também CATARINO, Manuela, São Pedro da Cadeira – Histórias, Memórias e Património de uma freguesia torriense, ed. Junta de Freguesia de S. Pedro da Cadeira, Setembro de 2021, pág.143;

(4)    - in Jornal de Torres Vedras de 5 de Novembro de 1885;

(5)    - CATARINO, ob. Cit. pág. 143 e Folha de Torres Vedras de 20 de Abril de 1902;

(6)    - VIEIRA, Júlio, Torres Vedras Antiga e Moderna, 1926, pág.229;

(7)    - CATARINO, ob. Cit., pp. 143-144;

(8)    - ver uma interessante e completa reportagem sobre o assunto no site “Torres Vedras Antiga”, transcrita por Joaquim Ribeiro na reportagem “Pesquisa do blogue Torres Vedras Antiga revela novos dados – A História documentada da praia do Navio. Ver também a reportagem coeva do incidente nas páginas do jornal Gazeta de Torres de 9 de Fevereiro de 1930;

(9)    - CARÉ Jr., José, Memórias da Ericeira marítima e piscatória – séc. XIX-XX, pág. 43;

(10)                       - Ver Diário de Lisboa de 2 de Outubro de 1970. Baseei-me igualmente nas legendas de fotografias de Raul Guilherme, vendidas no site Delcampe;

(11)                       - CATARINO, ob. Cit, pág. 144.

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Agosto de 1931 - Uma Revolução que terminou em Torres Vedras


O ano de 1931 foi um ano decisivo para a consolidação da Ditadura Militar do 28 de Maio e para o fortalecimento de Salazar na liderança política do novo regime.

Foi também um ano marcado pela agitação política, registando a última grande revolta militar contra a Ditadura liderada pelos republicanos.

1931 ficou assim conhecido como o  “ano de todas as revoltas” (ver FARINHA, Luís, O Reviralho – Revoltas Republicanas contra a Ditadura e o Estado Novo – 1926-1940, Lisboa, ed. Estampa, 1998, em especial o capítulo “IV.1931 – O Ano de Todas as Revoltas”, pp. 127 a 208), com destaque para a “Revolta da Madeira”  (ver REIS, Célia , A Revolta da Madeira e Açores, Lisboa,  Livros Horizonte, 1990) iniciada em 4 de Abril e liderada por vários oposicionistas aí deportados, entre eles o General Sousa Dias, conseguindo ocupar e dominar a ilha durante alguns dias, seguida de vários pronunciamentos militares em várias ilhas do arquipélago dos Açores, entre 7 e 10 de Abril,  e na Guiné em 17 de Abril , falhando uma mesma tentativa em São Tomé em 12 de Abril.

O regime da ditadura militar enviou reforços militares para recuperarem as ilhas, começando por dominar a revolta açoriana entre 17 e 20 de Abril, e desembarcando depois na Madeira em 27 de Abril, conseguindo dominar os revoltosos, após confrontos violentos, em 2 de Maio, rendendo-se os insurrectos da Guiné em 6 de Maio.

Animados pelo impacto desses pronunciamentos da oposição, mas também pela proclamação da República em Espanha em 14 de Abril, a agitação política alargou-se ao continente, com a greve universitária iniciada em 25 de Abril, como protesto pela morte de um estudante, e com a crescente agitação nas ruas de Lisboa e Porto a partir do  1º de Maio, prolongando-se até ao fim do mês, , com confrontos violentos entre os manifestantes, maioritariamente comunistas e anarco-sindicalistas,  e a GNR.

Em 26 de Agosto estalou nova revolta militar, desta vez no Continente, mas que acabou por falhar, em parte pela divisão dos republicanos, entre os exilados na Galiza e os “Budas” de Paris, para além de alguma hesitação dos republicanos do continente, ainda abalados pelo fracasso da revolta da Madeira e anestesiados pela promessa de poderem concorrer a eleições municipais prometidas para finais desse ano.

A revolta iniciou-se pelas 7 da manhã dessa 4ª feira com a ocupação, por parte de grupos de civis e militares, dos quartéis de Metralhadoras nº 1, de Artilharia nº 3 e da Penitenciária, em Lisboa, e os quartéis de sapadores mineiros de Queluz e da Pontinha . A partir desses quartéis saíram vários militares, acompanhados de civis, para tomar posição em vários lugares da capital. A reacção das forças fiéis ao governo permitiu dominar a revolta em Lisboa a partir do final da manhã, acções que se prolongaram pela tarde desse dia. Cercados por tropas fiéis ao governo, aqueles quartéis acabariam por se render ao fim de algumas horas de sangrenta resistência.

Por outro lado, coube ao tenente coronel da aviação Sarmento de Beires, na clandestinidade desde 1928, ocupar e assumir o comando do campo de aviação de Alverca, tendo os militares revoltosos ocupado a estação local de caminho de ferro, revistando todos os comboios que por aí passavam a caminho de Lisboa.

Desse campo de aviação partiram dois aviões que bombardearam as peças de artilharia de Almada, fiéis ao governo, e o Castelo de S. Jorge, onde estavam outras forças governamentais. A falta de pontaria desses bombardeamentos causaria muitas mortes entre os civis, principalmente em Almada e no bairro lisboeta de Alfama.

Devido à ofensiva das tropas governamentais, que bombardearam aquelas instalações de Alverca com uma peça de artilharia de Sacavém, Sarmento de Beires e os revoltosos sob o seu comando retiraram-se a caminho de Lisboa no início da tarde, mas tomando conhecimento de que a revolta já tinha sido dominada em Lisboa, dirigiram-se por Bucelas para Loures, onde chegaram por volta das 11 e 30 da manhã, sendo recebidos pelos seus apoiantes locais, demitindo a câmara e requisitando mantimentos.

Apanhada de surpresa, a população de Loures “sofreu momento de verdadeiro pânico, ao contemplar as manobras militares. Imediatamente foram estabelecidas vedetas em todos os pontos da vila, ao mesmo tempo que era tomada a estação telégrafo-postal, a Associação de Bombeiros Voluntários e a Câmara Municipal e cortadas, exteriormente, as linhas da estação telefónica”. Sarmento de Beires tomou os Paços do Concelho, dando ordem de prisão ao administrador do concelho e a vários funcionários municipais, içando a bandeira nacional na fachada do edifício, onde se reuniram vários populares “trocando-se nesse momento muitos “vivas” á Pátria e á República de mistura com morras á Ditadura”.

Muitos habitantes da vila, pelo contrário, fugiram para lugares vizinhos, temendo um confronto violento entre revoltoso e forças fiéis à ditadura (“O Século”, 28 de Agosto de 1931).

Perante a aproximação de forças da  infantaria e de cavalaria da GNR, fiéis ao governo, os revoltosos retiraram-se daquela localidade por volta das 2 da manhã do dia 27, a caminho de Torres Vedras, com o objectivo de rumarem a Caldas da Rainha.

Acompanhavam Sarmento de Beires cerca de 200 homens (outras fontes jornalísticas falam, ora em 150, ora em 250), transportados em cinco camionetas. (“Novidades” de 28 de Agosto de 1931).

Na madrugada do dia 27 de Agosto, uma 5ª feira, pelas 5 horas da madrugada, deu entrada na vila de Torres Vedras a coluna militar comandada pelo tenente-coronel Sarmento de Beires, que se posicionou com sentinelas nas principais entradas da vila, impedindo a entrada e saída de pessoas e veículos.

Segundo alguns relatos, aquelas tropas eram acompanhadas por civis armados, “estranhos a esta vila” de Torres Vedras (DN, 30 de Agosto de 1931).

Sabe-se, contudo, que os revoltosos contavam com apoio local (para um melhor enquadramento da situação política torriense nesse período leia-se RAMOS, Hélder Ribeiro , A Consolidação do Estado Novo em Torres Vedras – Poder e Oposição – 1926-1949, Ed. Colibri/CMTV, 2019). Num relatório da PVDE sobre a situação política em Torres Vedras, onde se registam aos acontecimento vividos nesta localidade, refere-se que a coluna de Sarmento de Beires “tomou rumo a Torres Vedras devido” ao compromisso de “levantamento revolucionário” nesta localidade e em Caldas da Rainha, assumidos, respectivamente, por Victor Cesário da Fonseca, “Negociante e director do jornal “Gazeta de Torres” e “elemento mais perigoso de Torres Vedras”, e por Maldonado de Freitas, encontrando-se este último na casa de Victor Cesário da Fonseca, em Torres Vedras, quando da chegada da coluna revoltosa a esta localidade.

Sarmento de Beires teria ainda contado com o apoio local de João Caldeira, professor primário, “braço direito do VICTOR CESARIO DA FONSECA” e Galileu da Silva, caixeiro-viajante na linha do Oeste, elemento de ligação com Lisboa e concelhos vizinhos. O mesmo relatório acusa, estranhamente quanto a nós, o Dr. Moura Guedes de ser elemento de ligação com vários “reviralhistas de Oeste”. Contaria ainda com o apoio de outros notáveis civis republicanos nos concelhos vizinhos da Lourinhã e do Bombarral (ANTT/PVDE, Proc. Nº 1483/SR- Sarmento de Beires).

A “coberto de um denso nevoeiro” (O Século, 28 de Agosto de 1931) começaram por tomar o quartel da GNR e a estação de correios e telégrafos.

Sarmento de Beires, “que apesar de ir fardado de tenente-coronel, levava sobre aos ombros uma capa alentejana” (O Século, 28 de Agosto 1931) notificou o comandante do posto da GNR, o então 2º sargento José da Silva Anacleto “que ficava daquele momento em diante sob o seu comando, assim como todo o posto”.

Segundo a versão do Diário de Notícias os rebelde prenderam os 14 soldados da GNR desse posto, que, à sua chegada dormiam na caserna, bem como o referido sargento que estava no seu quarto. “Os prisioneiros quiseram reagir, mas, perante a força numericamente superior, tiveram de desistir do seu intento” (Diário de Notícias, 28 de Agosto de 1931).

A estação “telegrafo-postal” foi ocupada, sem resistência por volta das 6 da manhã, “tendo a telefonista de serviço, Maria de Lourdes Albino, chamado o chefe, sr. Evaristo Silva, o qual, perante a força, foi obrigado a submerter-se” (“O Século”, 29 de Agosto de 1931).

De seguida mandou homens seus ao Hotel Central, situado na Avenida 5 de Outubro, para ordenar ao administrador do concelho, o tenente França Borges, que aí estava hospedado, para se apresentar naquele posto. (“A Revolução – Torres Vedras, assiste na passada quarta feira, ao desfazer da ultima coluna revolucionária, do comando de Sarmento de Beires”, in Jornal de Torres Vedras de 30 de Agosto de 1931, pág.3).


Segundo o relato do jornalista d’”O Século” (28 de Agosto 1931) coube ao sargento-ajudante Machado a responsabilidade de ir buscar o tenente França Borges, eram 10 horas da manhã. Este, contudo, conseguiu fugir, usando como estratagema, quando acompanhava os seus captores, a desculpa de se ter esquecido da sua carteira e relógio no hotel. “Ante a sinceridade das palavras do sr. tenente França Borges, o sargento ajudante Machado autorizou-o a ir sozinho, em procura de aqueles objectos, aproveitando o referido tenente a oportunidade para se pôr a salvo”.

França Borges aproveitou a fuga para se dirigir à estação de caminho-de-ferro “de onde conseguiu telegrafar para Lisboa e Caldas da Rainha, a prevenir do que se passava. Em seguida, afastou-se da vila até a saída dos revoltosos. Foi a sua comunicação telegráfica que serviu de aviso ao regimento de Infantaria 5, que desconhecia, por completo, o que se passava” (O Século, 29 de Agosto de 1931).

Segundo a reportagem do Diário de Notícias (28 de Agosto de 1931) a “população da vila, que só dera pela tropa rebelde quando começava os seus afazeres quotidianos, ficou surpreendida e alarmada com aquele aspecto bélico, tanto mais que nunca tinha presenciado ali qualquer revolta. A calma na população foi-se refazendo por não se ter disparado um único tiro”.

Eram já perto da 8 da noite (?), quando Sarmento de Beire, após conferenciar com um civil,  soube do fracasso da revolução, percebendo que estava isolado.

Por volta das 9 da noite (?) “reuniu os sargentos e comunicou-lhes a derrota, ordenando-lhes que se fossem entregar com os soldados à sua unidade, em Alverca, mas ocultando-lhes a situação. E em camiões lá foram a caminho.

“Libertos os soldados e o sargento do posto da G.N.R., este último imediatamente conseguiu comunicar com Caladas da Rainha, dando conta do sucedido.

“Algum tempo depois voavam sobre Torres Vedras e arredores dois aeroplanos da aviação militar, afim de fazerem observação” (DN, 28/8/1931).

O horário indicado pelo repórter do Diário de Notícia não corresponde com o referido no jornal torriense “Gazeta de Torres” de 30 de Agosto, que coloca o abandono de Sarmento de Beires de Torres Vedras pelas 10 horas da manhã desse dia, e não à noite, parecendo-nos aliás mais credível esta versão.

Seja qual tenha sido o momento, assim que se decidiu retirar da vila, Sarmento de Beires, acompanhado por um oficial, tomou um automóvel a caminho da Aldeia Grande (DN 30/8/ 1931).

Entretanto, acompanhado pelo sargento Anacleto, da GNR, foi a vez de França Borges partir de automóvel em perseguição de Sarmento de Beires (“O Século”, 28 de Agosto 1931).

Existe uma história curiosa, de tradição oral,  passada entre a fuga de França Borges, acima descrita,  e a fuga posterior  de Sarmento de Beires.

Depois de ter avisado o Regimento de Infantaria 5 de Caldas da Rainha e o Governador Civil de Lisboa, através do telegrafo do caminho de ferro, do que se passava em Torres Vedras, após ter escapado à voz de prisão, França Borges foi ajudado por um adversário político, mas que era seu amigo, António Vicente dos Santos, conhecido por “Mafalda”, e levado para o Ramalhal, escondendo-se na casa de José Antunes Martins, o “José Marujo”.

Entretanto, depois de abandonar a vila, num carro de praça, Sarmento de Beires teve a colaboração do mesmo “Mafalda”, que o levou também para o Ramalhal, para a casa do mesmo “José Marujo”.

Assim, durante alguns momentos ou horas, os dois adversários estiveram escondidos na mesma casa, em salas diferentes, sem saberem um do outro ( a história foi contada ao sr. Adão de Carvalho por Maria do Carmo C. da Silva, filha do José Marujo e referidos pelo mesmo Adão de Carvalho, numa crónica da sua autoria publicada no jornal “Badaladas” em 29 de Abril de 1994, “Recordando…Uma “revolução” que morreu em Torres Vedras).

Ao contrário do que se disse na altura, os revoltosos nunca ocuparam o edifício municipal, nem prenderam o Presidente da Câmara, nem, muito menos, se apoderaram do dinheiro do cofre do município, mentiras lançadas pelo “situacionista” jornal “A Voz” na sua edição de  28 de Agosto.

Coube ao próprio França Borges, em reunião da comissão administrativa da Câmara Municipal, realizada no dia 28, desmentir essa calúnia. (O Século 29 de Agosto 1931), o mesmo fazendo, de forma indignada, o jornal torriense “Gazeta de Torres” na sua edição de 30 de Agosto.

Sarmento de Beires foi avistado na noite do dia 27 em Óbidos, na companhia de um outro oficial, onde jantou numa pensão, deslocando-se depois para a zona de Leiria (“O Século” de 29 de Agosto de 1931 e “Novidades”, 30 de Agosto de 1931).

Segundo o acima mencionado relatório da PVDE, Sarmento de Beires ter-se-á refugiado na casa do engenheiro agrónomo Adolfo Bordalo na Lourinhã, para onde foi conduzido por Victor Cesário da Fonseca, tendo este subsidiado o líder revolucionário em fuga durante alguns meses “com mil escudos por mês”, tal como o fizeram um tal Vilhena da Quinta do Calvel, o referido engenheiro Adolfo Bordalo da Lourinhã e o já referido Maldonado de Freitas de Caldas da Rainha.


Sarmento de Beires conseguiu manter-se na clandestinidade durante mais dois anos, sendo localizado em Espanha. Só seria preso em 21 de Novembro de 1933 e deportado para Angra do Heroísmo. Após várias peripécias, transferências para as colónias e fugas, ainda participou na Guerra Civil espanhola ao lado das forças republicanas. Mais tarde passou pelo Brasil e por França, residindo em Paris em 1940, regressando ao Brasil após a ocupação da França pelos nazis. Em 1951 conciliou-se com o regime, regressando a Portugal, sendo reintegrado no posto de major . Faleceu poucos dias depois do 25 de Abril, em 9 de Junho de 1974.(Processo de Sarmento de Beires no arquivo da PIDE do ANTT e FARINHA, Luís, “Beires, José Manuel Sarmento de” Dicionário de História de Potugal, vol 7-suplemento, ed. Figueirinhas. 1999, pág.178).

A derrota do movimento revolucionário de 26 de Agosto de 1931 terminou com a esperança de uma transição da ditadura para um novo regresso à “normalidade” republicana e contribui para a consolidação dos sectores mais radicais da ditadura militar.

Foram efectuadas centenas de prisões entre oposicionistas, aceleraram-se os saneamentos políticos no exército e na função pública, envolvendo mesmo muita gente que nada teve a haver com aquela revolta, reorganizou-se a censura e a polícia política, consolidou-se a recém criada União Nacional e iniciaram-se os trabalhos para a promulgação da Constituição de 1933 que criou o Estado Novo, que seguiu de perto o modelo institucional do fascismo italiano.

Pouco menos de um ano após aqueles acontecimentos, o até então todo poderoso Ministro das Finanças e  líder da facção mais radical dos anteriores governos da ditadura militar, António de Oliveira Salazar, tornou-se Presidente do Conselho de Ministros, cargo do qual tomou posse em 5 de Julho de 1932, só o abandonando por doença súbita em 1968.

 

                                                                                                                                      

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Carnaval de Torres (anos de 1931 a 1935)

(Torre do Tombo, património fotográfico do jornal "O Século").

Podem ver em baixo um conjunto de filmes, existentes na Cinemateca Portuguesa, visíveis no seu site (CINEMATECA DIGITAL)

Em Baixo temos a reprodução desses filmes, num única montagem, onde se incluem as reportagens de 1932, 1933, 1934 e 1935, editada no Youtube pela Câmara Municipal de Torres Vedras.

A reprodução do filme mais antigo, o de 1931, pode ser visto a partir do próprio site da Cinemateca, não incluído nessa colectânea  clicando NESTE SÍTIO.

Divirtam-se.



sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Sábado, na Biblioteca municipal, às 18.30 - Lançamento do Livro “Em Sentido Contrário” – uma biografia de Venerando Ferreira de Matos.



Amanhã, Sábado, 15 de Fevereiro, vai realizar-se, pelas 18.30, na Biblioteca Municipal de Torres Vedras, o lançamento do livro “Em Sentido Contrário – Venerando Ferreira de Matos (1926-1975) – Um oposicionista na província”.

Venerando Ferreira de Matos foi um dos mais activos colaboradores do jornal “Badaladas” nos anos de 1960 e no início dos anos de 1970 , assim como na vida cultural e associativa torriense desse período.

Nas páginas do “Badaladas”, com o apoio do padre Joaquim Maria de Sousa, defendeu projectos locais, denunciou os abusos do poder, defendeu a liberdade e a democracia, divulgou e participou em projectos culturais, tendo de enfrentar muitas vezes o lápis azul da censura.

Esta biografia revela muito daquilo que era a realidade do Estado Novo, tendo o biografado sentido na pele uma pena de prisão, cumprida em Peniche durante dois anos, e a vigilância permanente da PIDE.

Também se revela nesta biografia a realidade cultural da então vila de Torres Vedras, tendo o biografado participado activamente nalguns dos projectos mais marcantes das duas últimas décadas da ditadura, desde os debates animados nas páginas do “Badaladas” sobre a cultura local, à sua colaboração num dos projectos mais dinâmicos de então, o “Pelouro Cultural da Física”.

Para apresentarem esse livro vão estar presentes o Dr. José Pacheco Pereira, responsável pelas edições “Ephemera” que produziu esse livro, o Dr. Fernando Pereira Marques, antigo preso político, antigo deputado e professor universitário, e os Drs. José e Cecília Travanca Rodrigues, que apresentarão o livro no contexto da vida cultural e política torriense da época.

O livro “Em Sentido Contrário” é o terceiro publicado nos “Cadernos do Ephemera”, publicação a Associação Cultural Ephemera, uma colecção destinada a divulgar ensaios originais que se enquadram no trabalho deste Arquivo/Biblioteca.

Esta biografia é a primeira que os Cadernos Ephemera dedicam aos chamados “oposicionistas na província”, “aqueles que  são mais facilmente esquecidos porque não viveram nos centros do poder, mas que deram dimensão nacional à resistência ao Estado Novo” (do prefácio, assinado por José Pacheco Pereira).

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Hoje, ás 19 horas, na Biblioteca de Torres Vedras : - lançamento do livro "A República Possível" de Fernando Pereira Marques e apresentação de José Pacheco Pereira


É hoje apresentado em Torres Vedras o livro “A República Possível” da autoria do Dr. Fernando Pereira Marques, na Biblioteca Municipal de Torres Vedras, em sessão aberta ao público que terá início às 19 horas.
Essa sessão contará com a presença do autor e do Dr. José Pacheco Pereira que o apresentará.
A obra tem muitas referências à situação torriense nesse período em “não pretende fazer (mais) uma história de 1ª República”, apresentando um novo olhar crítico sobre esse período curto, mas fundamental, da nossa história recente.
“A situação em Portugal entre 1910 e 1926 não foi muito diferente da generalidade de situações coetâneas noutras sociedades europeias, do ponto de vista da radicalização da conflitualidade social e da instabilidade política.

“É, pois, redutor atribuir a queda da I República a erros, a faltas, a desvios - segundo as versões benignas de tipo historicista -, ou à perversidade jacobina, anticlerical, ou até autoritária dos políticos republicanos, segundo as versões de outros historiadores.

“Em termos mais simples, não foi a balbúrdia de que falam alguns textos referindo-se a esse período, o caos ou a catástrofe que a propaganda salazarista descrevia ou que ainda vários sustentam, nem foi uma Cousa Santa traída por militares e por um ditador perverso.
Foi a República possível no contexto da sociedade portuguesa com as suas características e problemáticas específicas, um processo complexo mas modernizador que a ditadura militar e o salazarismo travaram eficazmente”.
O autor, Fernando Pereira Marques nasceu em Coruche a 16 de abril de 1948. É diplomado pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris e Doutor de Estado em Sociologia pela Universidade de Picardie – Amiens (França), professor catedrático convidado na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias (Lisboa), onde dirigiu o 2.º Ciclo de Ciência Política, e investigador integrado no Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa. 
Entre outros cargos, foi deputado à Assembleia da República, dirigente nacional do Partido Socialista, presidente da Subcomissão Parlamentar de Cultura e membro da delegação portuguesa na União da Europa Ocidental (UEO) e na Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa. É autor de várias obras nas áreas do ensaísmo e da investigação, colaborador em publicações periódicas e diretor-adjunto da revista Finisterra.
Algumas obras do autor: Exército e Sociedade em Portugal, 1991 (1981, 1.ª ed.); O Elogio da Inquietude, 1985; Um Golpe de Estado – Contributo para a Questão Militar no Portugal de Oitocentos, 1989; De que Falamos quando Falamos de Cultura?, 1995; Exército, Mudança e Modernização na Primeira Metade do Século XIX, 1999; A Praia sob a Calçada – Maio de 68 e a «Geração de 60», 2005; Esboço de um Programa para os Trabalhos das Novas Gerações, 2007; Sobre as Causas do Atraso Nacional, 2010; Cultura e Política(s), 2014; Uma Nova Conceção de Luta, Materiais para história da LUAR e da resistência armada em Portugal, 2


segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

A História da Casa Hipólito em livro

No passado Sábado, 16 de Dezembro, foi feito o lançamento oficial da obra de Joaquim Moedas Duarte “Casa Hipólito – História, memórias e Património de uma fábrica torriense”.

A obra resultou do trabalho de dissertação de Mestrado em Estudos do Património da Universidade Aberta, tese defendida por Moedas Duarte no passado dia 17 de Maio.

A história da Casa Hipólito confunde-se com a História de Torres Vedras no século XX, tal a sua importância do ponto de vista económico social e até cultural que teve para este concelho.

Raras serão as famílias torrienses que não tiveram um familiar ou amigo que trabalhou nessa empresa ou, pelo menos, adquiriu um produto dessa fábrica.

O texto de Moedas Duarte não aborda apenas a memória patrimonial da "Hipólito", mas analisa todos os aspectos relacionados com o impacto social e económico dessa empresa na região.

Recorrendo a todo o tipo de fontes, manuscritas, impressas,orais, fotográficas e iconográficas, dá-nos um muito bem documentado e aprofundado registo sobre as marcas que essa empresa deixou na memória colectiva torriense.

A obra divide-se em quatro capítulos.

No primeiro, intitulado “O Homem e a  circunstância”, traça a biografia de António Hipólito (1882-1954), enquadrada na conjuntura da vida torriense de então.

O segundo capítulo dedica-se à História da Empresa, que o autor divide em três grande fases: a primeira de 1902 a 1944, a fase de afirmação de “A Industrial”, nome de origem, fase em que assume grande importância uma figura como Vasco Parreira; a segunda fase, de 1944 a 1980, a fase áurea da empresa, marcada pela afirmação do nome a que passou para a história, a “Casa Hipólito”, e de afirmação nacional e internacional; a terceira fase, de 1980 a 1999, a fase de decadência, que acabaria na sua dramática falência.

O terceiro capítulo avança com a proposta e “projecto para um museu de memórias do trabalho em Torres Vedras", tendo em vista a preservação do valioso património associado à rica vida empresarial torriense.

O quarto e último capítulo faz a recolha de “memórias de quem trabalhou na fábrica”, um conjunto de 22 memórias pessoais de quem este, "por dentro", naquela empresa.

Uma bem elaborada cronologia, um levantamento bibliográfico  rigoroso para quem queira aprofundar o estudo sobre algumas temáticas abordadas no livro e um levantamento iconográfico e fotográfico sobre a Casa Hipólito, completam esta obra fundamental para quem queira conhecer ou estudar a vida torriense.

O livro de Joaquim Moedas Duarte foi editada em parceria entre a Associação para a Defes e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras e a Associação Portuguesa de Arqueologia Industrial, iniciando o projecto daquela associação torriense de lançar uma linha editorial “com novos títulos de estudo de outras empresas, de biografias de torrienses notáveis ou de abordagem de temas culturais de carácter local".

A Casa Hipólito continua bem viva na memória dos torrienses, existindo mesmo alguma empresas, das mais importantes do concelho, herdeiras da dinâmica da “Hipólito”, como são os casos da Eugster & Frismag, ou da “Transportes Paulo Duarte”, esta última, aliás uma das patrocinadoras desta obra (juntamente com D. Ana Paula Hipólito Carreira Duarte, bisneta do fundador).

Joaquim Moedas Duarte, numa escrita quase poética, como a descrição inicial da saída da fábrica ao som da sirenes, deixa-nos assim uma obra que passa a ser  uma das obras de referência que testemunha uma época marcante na memória de grande parte dos torrienses.  

Em baixo deixamos um resumo da obra, retirado da página da Universidade Aberta:

 “Em 1902 António Hipólito, jovem migrante de Alcobaça para Torres Vedras, fundou uma empresa de metalomecânica ligeira, em nome individual, à qual chamou A Industrial.

“Latoeiro de folha branca, rapidamente se apercebeu das oportunidades facultadas por uma sociedade marcada pela ruralidade em que a vitivinicultura tinha lugar de destaque.

“Começando pelo fabrico de lanternas de acetileno, expandiu-se para os equipamentos necessários à lavoura: pulverizadores, prensas de lagar, bombas de trasfega, torpilhas, etc.

“Apostando na qualidade e em preços acessíveis, ao mesmo tempo que dava atenção especial à divulgação dos seus fabricos através de publicidade na imprensa e participação em mostras e exposições, conquistou paulatinamente mercado local e nacional.

“De tal modo se notabilizou que o Governo Português o distinguiu em 1930 com a Comenda da Ordem de Mérito Agrícola e Industrial.

“Quando, por motivos de saúde, o Comendador António Hipólito, em 1944, entregou a gerência da fábrica aos filhos e ao genro, a empresa passou a sociedade por quotas com a designação de Casa Hipólito.

“Nessa altura já fabricava fogões e lanternas a petróleo, equipamentos domésticos que viriam a torná-la famosa em Portugal e no estrangeiro para onde passou a exportar parte significativa da sua produção.

“Nos anos 50 a 70 atingiu o auge da sua actividade e expansão através da licença exclusiva de fabrico da marca alemã Petromax e alargando a gama de produtos ao sector de gás em parceria com a Cidla, primeiro e a Shell depois.

“Construindo novas instalações e empregando centenas de trabalhadores, tornou-se a maior empresa do concelho de Torres Vedras e uma das principais do país no seu ramo.

“Em 1972 passou a Sociedade Anónima de Responsabilidade Limitada. Todavia, o impacto do ano de 1974 com a Revolução de Abril veio pôr a nu as deficiências estruturais de que já padecia: progressiva incapacidade de autofinanciamento, obsolescência do parque de máquinas e dos produtos fabricados, dificuldade em enfrentar a concorrência no sector vinícola, dificuldades em substituir o modelo de gestão familiar por outro mais adaptado ao crescimento da empresa.

“Nos anos 80 acentuou-se o percurso descendente. Em 1987 os credores impuseram um plano de recuperação e o controlo da gestão por via judicial. Iniciou-se um processo imparável de decadência que só terminou com a declaração de falência em Abril de 1999.

“Do que foi a actividade fabril da Casa Hipólito restam as memórias de quem lá trabalhou, os numerosos e variados testemunhos da imprensa local e um Fundo Documental à guarda do Museu Municipal Leonel Trindade de Torres Vedras.


“Este trabalho que ora se apresenta resulta de uma investigação realizada sobre estas fontes informativas com uma dupla finalidade: preservar a memória social da Casa Hipólito, descrevendo o seu percurso de quase cem anos e registando as memórias de alguns que nela trabalharam; e propor formas concretas de tratamento museológico do património que dela foi possível salvar (texto/resumo da defesa de mestrado de Joaquim Moedas Duarte, feita na Universidade Aberta em 17 de Maio de 2017, publicado na página da internet desta Universidade)”.