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segunda-feira, 20 de abril de 2020

Há 50 anos: Inauguração do edifício da “Escola Técnica” na Rua Henriques Nogueira.



No dia 20 de Abril de 1970 era oficialmente inaugurado o novo edifício da Escola Industrial e Comercial de Torres Vedras, na rua Henriques Nogueira, pelo presidente da República de então, o almirante Américo Thomaz.

Era o culminar de uma história de décadas do chamado ensino técnico em Torres Vedras.

Aquela escola era herdeira da antiga Escola Comercial António Augusto Cabral, fundada e mantida, desde 1944, pelo Grémio do Comércio dos Concelhos de Torres Vedras, Cadaval e Sobral de Monte Agraço, a designação oficial da antiga Associação Comercial que se batia por uma escola desse tipo desde 1929.

Em 31 de Julho de 1952 a Escola Comercial António Augusto Cabral, até então uma escola particular, foi oficializada, de acordo com a nova lei em vigor, tornando-se Torres Vedras a primeira localidade do país a possuir uma escola particular oficializada, o que permitia aos seus alunos que realizassem os exames na sua escola (1).

Por essa altura, no início da década de 50, iniciou-se um debate nas páginas do jornal “Badaladas” com o objectivo de se criar um curso industrial que completasse o ensino comercial e correspondesse às novas necessidades económicas da região, chamando-se a atenção para o Decreto-Lei nº 36409 de 11 de Julho de 1947 que previa a criação de uma escola técnica em Torres Vedras (2).

Em 21 de Dezembro de 1954 uma “Comissão de representantes das actividades económicas deste concelho (…) avistou-se com o Presidente da Câmara Municipal” para lhe solicitar “os seus bons ofícios junto do Ministério da Educação para que seja criada a Escola Industrial e Comercial de Torres Vedras” (3).

Pressionada pela opinião pública, a Câmara Municipal iniciou uma série de diligências par conseguir esse objectivo e, em Setembro de 1956, enviava ao Ministério da Educação um bem fundamentado memorando em defesa da criação de uma “escola técnica” em Torres Vedras.

Propunha-se o município subsidiar com 50.000$00 anuais a formação de uma Escola Industrial e Comercial de Torres Vedras, criada a partir da Escola dirigida pelo Grémio do Comércio.

Propunha para essa escola o seguinte “plano de estudos”:
“1º - Ciclo Preparatório;
“2º - Curso Complementar de aprendizagem e electricidade;
“3º - Curso de formação : - de serralheiro; -  Geral do Comércio” (4).

Acedendo ao pedido do município torriense, o Ministério da Educação, através do decreto nº 41258 de 10 de Setembro de 1957, criava a Escola Industrial e Comercial de Torres Vedras, substituindo a Escola Comercial António Augusto Cabral, entretanto encerrada, da qual herdou alunos, professores e respectivos processos.

De imediato se iniciaram as obras de ampliação do edifício municipal situado na Av. 5 de Outubro, onde se localizavam as instalações da “Física” e das “escolas primárias” da vila.

Acrescentado de um andar, aí vieram a ser instaladas, a nascente a Escola Secundária Municipal e a poente a nova “Ecola Técnica”, enquanto as escolas do ensino primário eram instaladas nos novos edifícios a sul daquelas instalações.

No ano lectivo de 1958/1959 iniciaram-se as aulas da Escola Industrial e Comercial nas suas novas instalações com 261 alunos, número que quase duplicou no ano lectivo seguinte.

O rápido crescimento do número de alunos matriculados na “Escola Técnica”, bem como as crescentes necessidades de recursos educativos para desenvolver o projecto desta escola, rapidamente levaram a que se colocasse a questão da urgência em construir um edifício de raiz para o seu funcionamento.

No dia 1 de Fevereiro de 1962 foi apresentado, em sessão camarária, um projecto para as novas instalações, da autoria do professor do ensino técnico Luís Manuel Paulo Ferreira, exposto publicamente no ano seguinte.

O tempo foi passando e aquele projecto foi caindo no esquecimento.

Foi mais uma vez nas páginas do “Badaladas” que o assunto volta a ser recordado, num artigo publicado em 12 de Fevereiro de 1966, assinado pelas iniciais R.M., com destaque de primeira página, e intitulado “Interesses Nossos – A Escola Nova”:

“(…) Lembramos hoje, um dos mais importantes [problemas de interesse regional] e que parece votado ao esquecimento: o da construção de um novo edifício para a Escola Industrial e Comercial de Torres Vedras.
“(…) Continuando adiada por mais tempo, a construção do novo edifício, colabora-se na mutilação do desenvolvimento profissional, didáctico e educacional, de mais de um milhar de alunos que frequentam actualmente a Escola Industrial e Comercial.
“(…) Sem salas de aula em número suficiente, sem espaço para a montagem de oficinas e laboratórios, sem um parque de jogos para a cultura física orientada, sem salão de festas ou reuniões com encarregados de educação e outros fins, entre os quais o uso de meios audi-visuais no ensino, não pode haver verdadeira Escola.
“(…) A nova Escola Industrial e Comercial de Torres Vedras é assunto que não pode nem deve continuar apenas no projecto e na miniatura que dela existe. (…) Que se iniciem diligencias para a erguer”.

O assunto voltou a ser abordado nas páginas do semanário torriense em 23 de Abril de 1966, num artigo não assinado e  intitulado “Interesses Nossos – Para quando a nova Escola Técnica de Torres Vedras”, onde se analisava, com dados, a dificuldade de funcionamento nas instalações da Avenida 5 de Outubro.

Em junho desse ano surge uma primeira boa noticia, a doação feita à Câmara, por José Nunes de Chaves “de uma área de terreno a ser ocupado pela futura escola industrial e comercial” (5).

No final desse ano, para reforçar a necessidade de iniciar a construção de um novo edifício para a escola, o jornal “Badaladas” publica um vasto dossier, baseado numa consulta aos alunos, completado com dados sobre o funcionamento da escola, traçando um interessante retracto da realidade social e pedagógica dessa escola no ano lectivo de 1965-1966 (6).  

Finalmente, na sua edição de 4 de Março de 1967 o “Badaladas” anuncia o lançamento de concurso para arrematação das obras de construção do novo edifício da “Escola Técnica”, marcado para “o dia 15 do corrente, na sede da Junta das Construções para o Ensino Técnico e Secundário, em Lisboa, cuja base de licitação é de 13 991 571$00”.

O jornal “A Voz” , na sua edição de 20 de Abril de 1967 anuncia o inicio das obras para a construção da nova escola Técnica “dentro de algumas semanas”.

No folheto editado pelo Ministério das Obras Públicas e Comunicações, por ocasião da inauguração oficial da “Escola Industrial e Secundária de Torres Vedras” indica que as obras de “construção civil foram iniciadas em 31/10/1967 tendo ficado concluídas em 30/10/1969”

A empreitada foi entregue à Sociedade de Construções ERG, Lda.

O primeiro ano lectivo nas novas instalações teve início em Novembro de 1969.

Finalmente, no dia 20 de Abril de 1970, foi solenemente inaugurada essa escola, com a presença do então Presidente da República Américo Tomás.


A deslocação de Américo Tomás a Torres Vedras foi a segunda de um chefe de Estado a esta localidade durante o Estado Novo.

Apesar desta ser a primeira visita oficial de Tomaz a Torres Vedras, não era a primeira vez que visitava o concelho, já tendo anteriormente visitado o Lar dos Veteranos Militares de Runa e o Convento do Varatojo (7).

Na sua deslocação a este concelho fez-se acompanhar pelo Ministro das Obras Públicas e Comunicações, Rui Sanches, pelo subsecretário de Estado da Administração escolar, pelo Governador Civil de Lisboa e pelo almirante Henrique Tenreiro, na qualidade de presidente da Junta Central da Legião Portuguesa, entre muitas outras individualidades.

Todos foram recebidos pelas autoridades locais pelas 15 horas desse dia 20 de Abril, à entrada da localidade da Freixofeira.

A inauguração da nova escola não foi o único motivo dessa visita. O outro foi a inauguração do sistema de abastecimento de água de Torres Vedras e Mafra.

Chagada à vila de Torres, a comitiva presidencial seguiu para os Paços do Concelho, para a sessão solene, antes de se deslocar às novas instalações da escola “Técnica”, inaugurada e visitada pelo presidente e sua comitiva, a partir das 16.30.

Referindo-nos apenas à cerimónia de inauguração da “Escola Técnica”, e seguindo a reportagem publicada no jornal “Badaladas” de (ironia do destino) 25 de Abril de 1970, a recepção de Américo Tomaz e da sua comitiva foi feita à entrada da escola, sendo recebido pelo director da escola, o Dr. Francisco  Quaresma de Almeida, “rodeado do corpo docente e dicente”, sendo descerrada uma “lápide alusiva ao acto”.

Seguiu-se uma visita “às suas principais dependências”, tendo o Presidente da República “entrado em diversas salas de aulas e oficinas, em funcionamento, onde travou animado diálogo com professores e alunos”.

Visitou também no último piso “o interessantíssimo museu, com curiosas peças naturais e humanas, desde a pré-história até ao presente”.

A visita terminou pelas 19.15 com a deslocação da comitiva à Serra da Vila, para a inauguração das instalações de abastecimento de água ao concelho.

(1)   – in Badaladas, 15/08/1952;
(2)   – “Escola Industrial e Comercial de Torres Vedras – Quando a teremos?”, in Badaladas, 15/12/1954;
(3)   – “Representantes do Comércio, da Indústria e da Agricultura pediram (…) a criação duma ESCOLA DE ENSINO TÉCNICO PROFISSIONAL nesta vila” in Badaladas, 1/1/1955;
(4)   - Relatório de Gerência da Câmara no ano de 1956, CMTV;
(5)   - Acta da reunião camarária de 28-6-1966, citada pelo Badaladas, 16/7/1966;
(6)   - “O Valor Social da Escola Técnica”, in Badaladas,  19/11/1966.
(7)    - Sobre essa visita, baseámo-nos das edições do jornal “Badaladas” de 18 e 25 de Abril de 1970.

ANEXO:
Reportagem fotográfica da visita de Américo Tomás a Torres Vedras em 20 de Abril de 1970 (Fonte: Biblioteca Municipal de Torres Vedras, a partir de fotografias tiradas e tratadas pelo autor aos originais): 



























segunda-feira, 20 de junho de 2016

"4242", Uma curta-metragem torriense premiada, agora a concurso nos Estados Unidos





"4242"é uma curta-metragem realizada por uma jovem torriense, Sara Eustáquio, de 16 anos, que conquistou o prémio especial do júri de revelação no Festival Internacional de Cinema Near Nazarteth, em Israel.
 
O filme conta também com a interpretação de uma jovem actiz romena de 18 anos, a residir no Sobral de Monte Agraço.
 
Ambas são alunas de artes na Escola Secundária Henriques Nogueira de Torres Vedras (uma escola pública).
 
O filme está a concurso noutro festivais e tem sido muito elogiado na imprensa especializada, um pouco por todo o lado.
 
O filme "retrata os sentimentos contraditórios de uma adolescente que chega a um novo país como emigrante (...) onde tem de lidar com uma mudança que acaba por ser muito mais difícil do que ela pensa" e que é também "uma metáfora sobre a solidão  e as angustias  dos adolescentes na transição para a vida adulta".
 
Esta curta metragem foi rodada em Torres Vedras, Óbidos, Peniche e Lisboa
 

quinta-feira, 19 de março de 2015

Edifício da Escola Secundária Henriques Nogueira entre os 52 Finalistas do 3º Prémio Nacional de Reabilitação Urbana.



Ao longo deste mês estão a ser divulgados os 52 finalistas da 3ª edição do Prémio Nacional de Reabilitação Urbana.

Na edição do suplemento "Imobiliário" do jornal Público de 18 de Março começaram a ser apresentados todos os 52 finalistas, entre os quais está a obra de requalificação da Escola Secundária Henriques Nogueira na categoria "impacto social".

Esta obra de requalificação teve lugar no âmbito do Programa  de Modernização do Parque Escolar, obra concluída em 2013, com projecto de Sousa Santos Arquitectos e construção do consórcio MRG/JJ Tomé/Tecniarte.

Segundo a apresentação da sua candidatura ao prémio, "a reabilitação pretendeu intervir sobre os edifícios existentes, além de introduzir novas valências".


quinta-feira, 17 de julho de 2014

Recordar Henriques Nogueira:

Em baixo recordamos uma das facetas de Henriques Nogueira, a sua preocupação com a educação e o modelo educativo proposto ao longo dos seus vários estudos, num artigo por nós escrito e já divulgado há uns anos atrás.

Podem ler mais sobre José Félix Henriques Nogueira, Num estudo sobre a conjuntura histórica em que viveu, intitulado "Henriques Nogueira e a Conjuntura Portuguesa - 1846-1851", da autoria de José Esteves Pereira, publicado na Revista de História das Idéias me 1977, AQUI e uma breve, mas bem elaborada biografia AQUI.

Recomendamos ainda a leitura da obra de Vitor Neto "AS Idéias Políticas e Sociais de José Félix Henriques Nogueira", editada em 1999 conjuntamente pela Câmara de Torres Vedras e pela editora Colibri.

Podem ainda ser consultadas AQUI as suas obras digitalizadas pela Biblioteca Nacional.

Henriques Nogueira e a Educação

Introdução

Com este ensaio pretende-se dar a conhecer a importância dada por Henriques Nogueira à Educação e as propostas que ele idealizou nessa área.

Baseámo-nos para isso nas opiniões que, sobre esse tema, ele exprimiu em várias obras, nomeadamente no segundo volume de “Estudos sobre a reforma em Portugal”, editado em 1855, (quatro anos depois da saída do primeiro volume), n’ “O Município do século XIX”, editado em 1856 e ainda em vários textos dispersos publicados ao longo da década de 50 do século XIX em jornais como “A Revolução de Setembro”, “O Scalabitano” ou no “Jornal da Associação Industrial Portuense”.

Todos esses documentos encontram-se publicados nas “obras completas” (OC) editadas sob a orientação de António Carlos Leal da Silva.

Neste texto procurámos “deixar Henriques Nogueira falar”, organizando as suas opiniões dispersas sobre este tema como se de um discurso directo se tratasse, limitando-nos nós a dar-lhe alguma lógica estrutural.

A importância da educação

Para Henriques Nogueira, só uma “política democrática”, “revolucionária” e “da liberdade” podia  fazer com que o povo beneficiasse das vantagens do liberalismo. Mas “esta política não virá, enquanto o povo a não quiser. Não a quererá, enquanto a não conhecer. Não a conhecerá, enquanto, ao menos, não souber ler. Daqui deriva a suprema necessidade de o instruir”.[1]

Apontava três causas principais para a falta de instrução entre os seus contemporâneos: em primeiro lugar e à maior parte da população, “a falta de mestres – ao pé da porta”; em segundo lugar , a “ outros a cobiça e a rudeza dos pais e amos”; em terceiro lugar, “a dificuldade e aridez do ensino” que a muitos “desgostou desde as primeiras lições”.[2]

Associando a falta de instrução à ignorância, indicava as principais consequências funestas desta :
Provocada pelo analfabetismo, a ignorância levava o povo a “desprezar os seus melhores e mais importantes direitos políticos”, mantinha “o povo num estado mui vizinho da barbaridade” e, “com ela, não” podia “haver progresso nas artes, nem na administração, nem nos costumes”.[3]

 Era para combater a ignorância que a educação, “o segundo baptismo do povo”, representava várias vantagens par o “homem de trabalho”: “Umas vezes lhe ensina meios de depender menos suor e menos tempo e colher maior proveito em sua arte.

“Outras lhe aconselha receitas para os seus alimentos, ou remédios para as suas enfermidades.

“Muitas o instrui nos seus direitos e deveres para consigo, a sua família, e a sociedade.

“Não raras o consola no meio das privações ou injustiças de que é vitima pela esperança de tempos melhores.

“Bastantes lhe proporciona o poder de educar seus filhos nos sentimentos generosos e honrados, que são os brasões da humanidade”.[4]

 Competia à família e à sociedade a responsabilidade na educação dos jovens. “Natural e justa”, a autoridade dos pais para com os filhos não se podia considerar “absoluta e independente”. A sociedade tinha “um direito inquestionável a velar pela boa educação de todos os seus membros e principalmente dos que” estavam “em tenra idade: porque dela depende a felicidade de cada indivíduo e a harmonia e prosperidade do corpo social”.

Daí derivava o dever que tinham “todos os chefes de família, de mandarem às escolas públicas, durante um certo período, os seus filhos ou subordinados”.[5]

Em defesa de uma “Educação Popular”.

Henriques Nogueira assentava o seu projecto educativo numa “educação popular”, que era para ele a melhor maneira de combater a ignorância:

O “homem ignorante (...) torna-se, quase sempre, instrumento brutal de violência e tiranias”.

Considerava que “a política obscurantista (...) do nosso e dos velhos tempos” tinha “deixado jazer e definhar na mais completa ignorância milhões e milhões de homens, entre os quais se perderam e se perdem ainda muitos que, aproveitados, seriam luminares de ciência e de génio” e, por isso, defendia uma “educação popular”. O trabalho era “mais fecundo sendo o operário instruído” e a moralidade crescia na “razão do desenvolvimento intelectual”, daí “a conveniência de se dar a todos, e em toda a parte, gratuitamente, comodamente, agradavelmente, a instrução necessária aos usos imediatos da vida”.[6] 

A Estrutura da “Educação Popular”

Na estrutura educativa proposta  por Henriques Nogueira (ver Quadro 1 [em anexo])  a “educação popular” assentava na “instrução primária” (que englobava as “escolas locais”, as “escolas de adultos” e as “escolas paroquiais”) e nas “escolas industriais”.

As “Escolas  Locais

Destinavam-se estas escolas a acolher, ensinar, moralizar, corrigir e sustentar, “ durante o dia, as crianças dos dois sexos”[7] , dos 5 aos 10 anos.

Deviam localizar-se estas escolas em “cada lugar nos campos” e “em cada rua ou grupo de ruas nas cidades ou vilas”.[8]

Estas escolas eram orientadas por “mestras, mães de família” porque tinham a “docilidade natural para lidarem com as crianças, aptidão para ensinarem as meninas nos lavores do seu sexo, e sobretudo possibilidade de viverem com uma retribuição mais diminuta”.[9]

Referindo-se a estas escolas, tanto n’os “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, como n’ ”O Município no Século XIX”, defendia três disciplinas para este nível de ensino, de estrutura ligeiramente diferente, “leitura”, “escrita” e “numeração” na primeira daquelas obras, “ler, escrever e contar as 4 operações”, “doutrina cristã e civilidade” e “coser e cozinhar” na segunda.
Defendia que, para além do trabalho intelectual, era útil reunir outros “puramente físicos”, tais como: “recreações ginásticas” e “pequenos trabalhos rústicos e oficinais”, pois não bastava ensinar às crianças “os rudimentos das letras e do cálculo”. Também era importante dar-lhes “desenvolvimento, criação e vigor aos órgãos  físicos, de as habituar às fadigas do trabalho, e de lhes insinuar os hábitos e cuidados de asseio, de precaução e de higiene”.[10]

O método usado era o de estudos “simplesmente intuitivos, de objectos da natureza e da arte, mostrados em galerias coloridas e pequenos trabalhos rurais e artísticos”.[11]

A responsabilidade pela manutenção destas escolas era do município.[12]

Junto de cada “Escola Local” funcionava um “Asilo Infantil” onde se “agasalhavam”, “durante o dia, as crianças de peito, e as que não” chegavam “a 5 anos”, sendo “inspeccionado” pela mesma mestra que regia a escola local.[13]

As “Escolas de Adultos”

 Em todas as povoações deviam funcionar “escolas de adultos” onde “os homens de trabalho” que desejassem “aprender a ler, escrever e contar” iam “à noite receber lições gratuitas de qualquer pessoa zelosa de bem público, que dessa tarefa se “ quisesse “ encarregar”.[14] Os cursos eram ministrados durante quatro ou cinco meses, durante o inverno, convidando Henriques Nogueira os trabalhadores a tirar “algumas horas ao sono ou à taberna”, aplicando-as ao estudo, pois o futuro lhes mostraria “a vantagem desta substituição”. As vantagens residiam no “indizível prazer de pegar num livro, ou duma carta e decifrar o que neles está escrito, e não só para sua utilidade e às vezes salvação extrema”.[15]

Em complemento destas escolas funcionariam “gabinetes de leitura”, pequenas “bibliotecas populares”.

Nelas, aqueles que “soubessem ler”, podiam “nas compridas noites de Inverno dar pasto à sua curiosidade”.[16]

Deve-se, aliás, a Henriques Nogueira a primeira referência em Portugal à criação de “Bibliotecas Populares” que têm hoje a sua correspondência na  Rede Nacional de Leitura Pública.

As “Escolas Paroquiais”

As “escolas paroquiais” ocupavam o lugar mais importante do “ensino popular” idealizado por Henriques Nogueira, nomeadamente no capítulo XVIII (“Instrução”) dos “Estudos sobre a Reforma em Portugal”[17]  e também, embora de forma menos aprofundada, em “O Município do século XIX”.[18] Funcionavam em cada paróquia,  e o seu curso tinha a duração de dois anos.[19]

De acordo com o capítulo “Instrução” dos “Estudos...”, os alunos dessas escolas aprendiam Gramática da Língua Materna [ ou Gramática Portuguesa, segundo a designação adoptada em “O Município...”], Aritmética, Geometria Prática [ em “O Município...” agrupava estas duas numa só disciplina: Aritmética e Geometria] , Geografia e História do País [ separada por três disciplinas em “ O Município...”: Geografia ; História e  Corografia Portuguesa], História Natural [ não referida em “O Município...”], Canto [Musica Vocal] e Moral Cristã [ Moral e Legislação Usual]. N’ “O Município...” acrescentava três outras disciplinas não referidas nos “Estudos...”: Física e Química, Agricultura e Caligrafia e desenho linear.

Em termos metodológicos, o ensino dessas matérias era auxiliado por “galerias pitorescas, quadros sinópticos, exercícios de desenho linear, experiências símplices de física, química e mecânica, modelos e exemplares do museu da escola”, actividades que davam “variedade ao ensino, falando à imaginação e gravando-se na memória”.

Os livros, “estampas e modelos” , necessários às lições, eram fornecidos pelo Estado.[20]

“Uma “biblioteca paroquial”, com obras fornecidas pela “Direcção de Instrução Pública” apoiava o estudo das matérias leccionadas.[21]

Os párocos eram os responsáveis  pela instrução nestas escolas para se aproveitar “ a intervenção oficiosa duma classe respeitável, cujos serviços, bem encaminhados, podiam ser altamente prestadios”. Para o auxiliar na sua tarefa, Henrique Nogueira propunha  que o professor instruísse “um pequeno número de meninos mais adiantados e mais inteligentes” a quem dava o nome de “monitores”, “que depois iam ensinar os mais atrasados”.[22]

 Escolas industriais

 No topo da chamada “educação popular” situava as Escolas Industriais e as Escolas Agrícolas.
Ás Escolas Industriais dedica o nosso autor algumas notas no já citado capítulo XVIII (“Instrução”) dos “Estudos...”.

Estas eram dirigidas aos operários e empreendedores agrícolas e fabris e funcionavam em dois lugares. Aos domingos na “escola paroquial” e, de semana, em noites intercaladas, na “escola local”.

Nestas aprendiam-se elementos de aritmética, geometria, mecânica aplicada, agricultura, tecnologia, e higiene e medicina do homem e dos animais.

A regência deste curso devia ser da responsabilidade do médico público da localidade, e os estudos das disciplinas deviam ser “mais práticos do que teóricos, acompanhados de experiências e demonstração de exemplares por um professor especial e dirigidas a melhorar a industria  local”.[23] 

Escola Agrícola

Este tipo de escola foi referenciado apenas uma vez por Henriques Nogueira, no capítulo dedicado á agricultura nos seus “Estudos...”.

Era um ensino prático, que tinha por objectivo dar aos agricultores “um certo número de verdades e de preceitos úteis” que existem “na arte de cultivar a terra, de manipular os seus produtos” e “de criar os animais de serviço”, cuja ignorância “muito prejudicava os agricultores”.[24]

Devia existir  uma escola destas em cada município, a funcionar numa “granja” modelo, onde se praticavam os melhores sistemas de cultura, se empregavam as máquinas e ferramentas mais perfeitas e se cultivavam as plantas úteis à localidade.

Em cada paróquia devia existir um “jardim” onde o pastor “aos domingos”, dava noções simples de agricultura e economia.

Finalmente, em cada lugar existia um pequeno “gabinete de leitura “ onde se reuniam os moradores para a “instrução comum”. 

A “Cúpula” do Edifício Educativo

Embora a “Educação Popular” fosse a parte mais importante e original do projecto de Henriques Nogueira para o sistema educativo em Portugal, ele não deixou de se preocupar com os níveis superiores de ensino, onde pontificavam as “Escolas Municipais”, as “Escolas Centrais” e o “Instituto das Ciências e Artes”.

Escolas Municipais

Uma primeira abordagem sobre estas escolas foi feita pelo autor nos “Estudos sobre a reforma em Portugal”.

Nessa obra referia que estas escolas tinham por objectivo dar “os conhecimentos preparatórios indispensáveis” àqueles que se destinavam “à ciência ou aos estudos superiores”, considerando a possibilidade de algumas das disciplinas serem leccionadas por empregados administrativos em acumulação, como forma de colmatar a falta de professores .

Aí considerava que as disciplinas a leccionar deviam ser as seguintes: gramática das línguas clássicas, latim, francês, alemão e inglês; elementos de filosofia geral; matemáticas puras; história natural; agricultura; geologia; mecânica industrial; legislação prática; higiene e medicina do homem e dos animais domésticos; arquitectura; construção civil; música vocal e instrumental.[25]

As suas ideias para este nível de ensino foram aprofundadas no capítulo VII (Instituições Municipais) de “O Município no século XIX”.

Aqui defendia que este nível de ensino era público e gratuito, que o curso completo durava 3 anos e  que cada disciplina tinha a duração de 3 meses, excepto a disciplina de aritmética, álgebra e geometria, que tinha a duração de 9 meses.

Apresentava uma estrutura de disciplinas ligeiramente diferente da apresentada anteriormente: aritmética, álgebra e geometria; história natural; medicina e veterinária; agricultura e economia rural; física e química; tecnologia e mecânica industrial; desenho e construção civil; história e legislação Pátria; língua francesa e inglesa; música.

As lições eram “teóricas e práticas”, ministradas pelos “delegados das direcções do ministério de Estado”, com a excepção da música, dada por um professor particular.

“Os compêndios” eram “feitos expressamente para o uso das escolas municipais” e cada um deles era “dividido em 50 lições, impresso economicamente e ilustrado, quando a matéria o pedir, com gravuras em madeira”.[26]

“Escolas Centrais” das Ciências e das Artes

Nestas escolas, situadas na capital, ensinavam-se “os ramos principais do saber humano”, preconizando o nosso autor que “o Estado deve por interesse seu e honra da humanidade, proteger e educar todas as grandes vocações para a ciência ou para a arte, que se manifestarem em indivíduos desprovidos de meios. À escola primária ou municipal ou a qualquer outra parte, onde aparecer um aluno ou indivíduo de esperanças, lá se deve ir buscar para as escolas superiores, como pensionista de mérito”.[27]

Instituto das Ciências e Artes

Este Instituto constituía o “remate do edifício literário, científico e artístico do País”.
Era um lugar onde os “homens de génio” faziam “prelecções” e se entregavam “ a estudos conscienciosos e profundos”, aquilo que hoje designaríamos como centros de investigação científica.[28] 

“Cursos Normais”

Em paralelo com os vários níveis de ensino acima analisados, realizar-se-iam “cursos normais”, durante “uma certa época do ano”, no “instituto” ou nas “escolas municipais”.
Destinavam-se aos funcionários públicos que, nesses “cursos normais”, recebiam lições e conselhos “que a ciência lhes puder dar em adiantamento ao que já sabiam”, algo que hoje designaríamos por “formação contínua”.

Os cursos aí ministrados incluíam  a medicina, a construção civil e a administração pública.[29]

Conclusão

O combate ao analfabetismo foi uma das principais razões que motivaram Henriques Nogueira a desenvolver as suas ideias no campo educativo, atitude que não é de estranhar num intelectual progressista do século XIX, se tivermos em conta que em Portugal, na década de 40 desse século, mais de 90% da sua população era analfabeta.

Tal situação explica a importância dada pelo nosso autor à defesa da difusão do ensino das primeiras letras através das suas “escolas locais” e “escolas de adultos”, como suporte dos outros níveis de ensino e do combate à ignorância.

Além disso, defendeu sempre um ensino popular, muito baseado na experiência prática.

Apresentou ainda, nem sempre de forma clara e insistente, algumas ideias inovadoras para a época e que, em muitos casos, só tiveram efeito prático mais de um século depois, a saber:

-          a defesa de um ensino nocturno para adultos. (As primeiras aulas de ensino nocturno em Portugal foram contemporâneas de Henriques Nogueira e tiveram lugar em 1858 em S. João da Pesqueira, mas só por portaria de 20 de Julho de 1866 foi oficializado esse tipo de ensino);

-          a defesa da criação de Bibliotecas e Museus como suporte do sistema educativo, ideia só agora institucionalizada;

-          a ideia pioneira da criação de “Bibliotecas Populares”;

-          a defesa de um sistema de ensino obrigatório e gratuito;

-          o primeiro a referir-se à criação de Jardins de Infância, por ele designados por “asilos infantis”;

-          a valorização de um ensino prático, como o “ensino industrial” e o “ensino agrícola”, com o objectivo de dar uma formação prática e básica aos que não quisessem  prosseguir estudos superiores;

-          a defesa da formação contínua, subjacente à ideia de “cursos normais”;

-          a importância que deu, em vários níveis de ensino, à educação física e à educação musical;

-          a ideia de usar todos os recursos existentes na sociedade para resolver a falta de professores em quantidade suficiente para pôr em prática a generalização do ensino: o recurso às mulheres, aos párocos, aos funcionários administrativos e até a “alunos monitores”.

Encerramos este nosso trabalho citando uma frase de Henriques Nogueira, tão actual como hoje : “estamos convencidos que a felicidade pública, de todos os indivíduos e de todas as classes, depende de um plano vasto de educação, que permita a  cada um o desenvolvimento das suas faculdades”.[30]

Venerando Aspra de Matos

Obras consultadas:

-     CARVALHO, Rómulo de, História do Ensino em Portugal, ed. Fundação Calouste Gulbenkian, 1986.

-      REBELO, Carlos Alberto, A Difusão da Leitura Pública, ed. Campo de Letras, 2002.

-     SILVA, António Carlos Leal e (org.), Obras Completas de Henriques Nogueira, 3 tomos + 1 de biografia, INCM, 1979.




[1] “Instrução Primária” in O Scalabitano, 21 de Junho de 1857, OC, Vol. II, pp. 273 e 274.
[2] texto de “crítica literária” à 2º edição do “Método Castilho”, in A Revolução de Setembro, 6 de Julho de 1853, OC, Vol. II, p. 215.
[3] texto de “crítica literária” à 2º edição do “Método Castilho”, in A Revolução de Setembro, 6 de Julho de 1853, OC, Vol. II, p. 214.
[4] “Necessidade da instrução primária e vantagens do “Método Castilho”, dito da leitura repentina”, in Jornal da Associação Industrial Portuense, 15 de Dezembro de 1852, OC, Vol. II, p. 223.
[5] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XXV – Família, OC, Vol. I, p. 147.
[6] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII – Instrução, OC, Vol. I, p. 112-113.
[7] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII – Instrução, OC, Vol. I, pp. 113-114.
[8] “O Município do século XIX”, editado em 1856, OC, Vol 2, p. 95.
[9] “Instrução Primária”, in “O Scalabitano”, 21 de  Junho de 1857, OC, Vol. 2, p. 274.
[10] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVI – Salubridade, OC, Vol. I, p.102.
[11] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII– Instrução, OC, Vol. I, pp.113 e 114.
[12] “O Município do século XIX”, Cap. VI – O Município Novo, OC, Vol 2, p. 74
[13] “O Município do século XIX”, OC, Vol 2, p. 96.
[14]  “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII– Instrução, OC, Vol. I, p.  114.
[15] “Necessidade da instrução primária e vantagens do “Método Castilho”, dito de leitura repentina”, in “Jornal da Associação Industrial Portuense”, 15 de Dezembro de 1852, OC, Vol. II, pp. 222 e 223.
[16] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII– Instrução, OC, Vol. I, p.  114.
[17] 2º volume, OC, Vol. I, pp. 114-115
[18] OC, Vol 2, pp. 94 e 95.
[19] “O Município do século XIX”, OC, Vol 2, p. 94.
[20] Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII– Instrução, OC, Vol. I, pp.  114-115.
[21] “O Município do século XIX”, OC, Vol 2, p. 95.
[22] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII– Instrução, OC, Vol. I, pp.  114-115.
[23] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII– Instrução, OC, Vol. I, p.115.
[24]  “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XII– Agricultura, OC, Vol. I, p.81.
[25] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII– Instrução, OC, Vol. I, p.115.
[26] “O Município do século XIX”, OC, Vol 2, pp. 82-83.
[27] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII– Instrução, OC, Vol. I, p.117.
[28] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII– Instrução, OC, Vol. I, p.116.
[29] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII– Instrução, OC, Vol. I, p.116.
[30] texto de crítica literária à 2ª edição do “Método Castilho ...”, publicado no “A Revolução de setembro”, de 6 de Setembro de 1853, in OC, 2º volume, p. 215