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quinta-feira, 17 de julho de 2014

Recordar Henriques Nogueira:

Em baixo recordamos uma das facetas de Henriques Nogueira, a sua preocupação com a educação e o modelo educativo proposto ao longo dos seus vários estudos, num artigo por nós escrito e já divulgado há uns anos atrás.

Podem ler mais sobre José Félix Henriques Nogueira, Num estudo sobre a conjuntura histórica em que viveu, intitulado "Henriques Nogueira e a Conjuntura Portuguesa - 1846-1851", da autoria de José Esteves Pereira, publicado na Revista de História das Idéias me 1977, AQUI e uma breve, mas bem elaborada biografia AQUI.

Recomendamos ainda a leitura da obra de Vitor Neto "AS Idéias Políticas e Sociais de José Félix Henriques Nogueira", editada em 1999 conjuntamente pela Câmara de Torres Vedras e pela editora Colibri.

Podem ainda ser consultadas AQUI as suas obras digitalizadas pela Biblioteca Nacional.

Henriques Nogueira e a Educação

Introdução

Com este ensaio pretende-se dar a conhecer a importância dada por Henriques Nogueira à Educação e as propostas que ele idealizou nessa área.

Baseámo-nos para isso nas opiniões que, sobre esse tema, ele exprimiu em várias obras, nomeadamente no segundo volume de “Estudos sobre a reforma em Portugal”, editado em 1855, (quatro anos depois da saída do primeiro volume), n’ “O Município do século XIX”, editado em 1856 e ainda em vários textos dispersos publicados ao longo da década de 50 do século XIX em jornais como “A Revolução de Setembro”, “O Scalabitano” ou no “Jornal da Associação Industrial Portuense”.

Todos esses documentos encontram-se publicados nas “obras completas” (OC) editadas sob a orientação de António Carlos Leal da Silva.

Neste texto procurámos “deixar Henriques Nogueira falar”, organizando as suas opiniões dispersas sobre este tema como se de um discurso directo se tratasse, limitando-nos nós a dar-lhe alguma lógica estrutural.

A importância da educação

Para Henriques Nogueira, só uma “política democrática”, “revolucionária” e “da liberdade” podia  fazer com que o povo beneficiasse das vantagens do liberalismo. Mas “esta política não virá, enquanto o povo a não quiser. Não a quererá, enquanto a não conhecer. Não a conhecerá, enquanto, ao menos, não souber ler. Daqui deriva a suprema necessidade de o instruir”.[1]

Apontava três causas principais para a falta de instrução entre os seus contemporâneos: em primeiro lugar e à maior parte da população, “a falta de mestres – ao pé da porta”; em segundo lugar , a “ outros a cobiça e a rudeza dos pais e amos”; em terceiro lugar, “a dificuldade e aridez do ensino” que a muitos “desgostou desde as primeiras lições”.[2]

Associando a falta de instrução à ignorância, indicava as principais consequências funestas desta :
Provocada pelo analfabetismo, a ignorância levava o povo a “desprezar os seus melhores e mais importantes direitos políticos”, mantinha “o povo num estado mui vizinho da barbaridade” e, “com ela, não” podia “haver progresso nas artes, nem na administração, nem nos costumes”.[3]

 Era para combater a ignorância que a educação, “o segundo baptismo do povo”, representava várias vantagens par o “homem de trabalho”: “Umas vezes lhe ensina meios de depender menos suor e menos tempo e colher maior proveito em sua arte.

“Outras lhe aconselha receitas para os seus alimentos, ou remédios para as suas enfermidades.

“Muitas o instrui nos seus direitos e deveres para consigo, a sua família, e a sociedade.

“Não raras o consola no meio das privações ou injustiças de que é vitima pela esperança de tempos melhores.

“Bastantes lhe proporciona o poder de educar seus filhos nos sentimentos generosos e honrados, que são os brasões da humanidade”.[4]

 Competia à família e à sociedade a responsabilidade na educação dos jovens. “Natural e justa”, a autoridade dos pais para com os filhos não se podia considerar “absoluta e independente”. A sociedade tinha “um direito inquestionável a velar pela boa educação de todos os seus membros e principalmente dos que” estavam “em tenra idade: porque dela depende a felicidade de cada indivíduo e a harmonia e prosperidade do corpo social”.

Daí derivava o dever que tinham “todos os chefes de família, de mandarem às escolas públicas, durante um certo período, os seus filhos ou subordinados”.[5]

Em defesa de uma “Educação Popular”.

Henriques Nogueira assentava o seu projecto educativo numa “educação popular”, que era para ele a melhor maneira de combater a ignorância:

O “homem ignorante (...) torna-se, quase sempre, instrumento brutal de violência e tiranias”.

Considerava que “a política obscurantista (...) do nosso e dos velhos tempos” tinha “deixado jazer e definhar na mais completa ignorância milhões e milhões de homens, entre os quais se perderam e se perdem ainda muitos que, aproveitados, seriam luminares de ciência e de génio” e, por isso, defendia uma “educação popular”. O trabalho era “mais fecundo sendo o operário instruído” e a moralidade crescia na “razão do desenvolvimento intelectual”, daí “a conveniência de se dar a todos, e em toda a parte, gratuitamente, comodamente, agradavelmente, a instrução necessária aos usos imediatos da vida”.[6] 

A Estrutura da “Educação Popular”

Na estrutura educativa proposta  por Henriques Nogueira (ver Quadro 1 [em anexo])  a “educação popular” assentava na “instrução primária” (que englobava as “escolas locais”, as “escolas de adultos” e as “escolas paroquiais”) e nas “escolas industriais”.

As “Escolas  Locais”

Destinavam-se estas escolas a acolher, ensinar, moralizar, corrigir e sustentar, “ durante o dia, as crianças dos dois sexos”[7] , dos 5 aos 10 anos.

Deviam localizar-se estas escolas em “cada lugar nos campos” e “em cada rua ou grupo de ruas nas cidades ou vilas”.[8]

Estas escolas eram orientadas por “mestras, mães de família” porque tinham a “docilidade natural para lidarem com as crianças, aptidão para ensinarem as meninas nos lavores do seu sexo, e sobretudo possibilidade de viverem com uma retribuição mais diminuta”.[9]

Referindo-se a estas escolas, tanto n’os “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, como n’ ”O Município no Século XIX”, defendia três disciplinas para este nível de ensino, de estrutura ligeiramente diferente, “leitura”, “escrita” e “numeração” na primeira daquelas obras, “ler, escrever e contar as 4 operações”, “doutrina cristã e civilidade” e “coser e cozinhar” na segunda.
Defendia que, para além do trabalho intelectual, era útil reunir outros “puramente físicos”, tais como: “recreações ginásticas” e “pequenos trabalhos rústicos e oficinais”, pois não bastava ensinar às crianças “os rudimentos das letras e do cálculo”. Também era importante dar-lhes “desenvolvimento, criação e vigor aos órgãos  físicos, de as habituar às fadigas do trabalho, e de lhes insinuar os hábitos e cuidados de asseio, de precaução e de higiene”.[10]

O método usado era o de estudos “simplesmente intuitivos, de objectos da natureza e da arte, mostrados em galerias coloridas e pequenos trabalhos rurais e artísticos”.[11]

A responsabilidade pela manutenção destas escolas era do município.[12]

Junto de cada “Escola Local” funcionava um “Asilo Infantil” onde se “agasalhavam”, “durante o dia, as crianças de peito, e as que não” chegavam “a 5 anos”, sendo “inspeccionado” pela mesma mestra que regia a escola local.[13]

As “Escolas de Adultos”

 Em todas as povoações deviam funcionar “escolas de adultos” onde “os homens de trabalho” que desejassem “aprender a ler, escrever e contar” iam “à noite receber lições gratuitas de qualquer pessoa zelosa de bem público, que dessa tarefa se “ quisesse “ encarregar”.[14] Os cursos eram ministrados durante quatro ou cinco meses, durante o inverno, convidando Henriques Nogueira os trabalhadores a tirar “algumas horas ao sono ou à taberna”, aplicando-as ao estudo, pois o futuro lhes mostraria “a vantagem desta substituição”. As vantagens residiam no “indizível prazer de pegar num livro, ou duma carta e decifrar o que neles está escrito, e não só para sua utilidade e às vezes salvação extrema”.[15]

Em complemento destas escolas funcionariam “gabinetes de leitura”, pequenas “bibliotecas populares”.

Nelas, aqueles que “soubessem ler”, podiam “nas compridas noites de Inverno dar pasto à sua curiosidade”.[16]

Deve-se, aliás, a Henriques Nogueira a primeira referência em Portugal à criação de “Bibliotecas Populares” que têm hoje a sua correspondência na  Rede Nacional de Leitura Pública.

As “Escolas Paroquiais”

As “escolas paroquiais” ocupavam o lugar mais importante do “ensino popular” idealizado por Henriques Nogueira, nomeadamente no capítulo XVIII (“Instrução”) dos “Estudos sobre a Reforma em Portugal”[17]  e também, embora de forma menos aprofundada, em “O Município do século XIX”.[18] Funcionavam em cada paróquia,  e o seu curso tinha a duração de dois anos.[19]

De acordo com o capítulo “Instrução” dos “Estudos...”, os alunos dessas escolas aprendiam Gramática da Língua Materna [ ou Gramática Portuguesa, segundo a designação adoptada em “O Município...”], Aritmética, Geometria Prática [ em “O Município...” agrupava estas duas numa só disciplina: Aritmética e Geometria] , Geografia e História do País [ separada por três disciplinas em “ O Município...”: Geografia ; História e  Corografia Portuguesa], História Natural [ não referida em “O Município...”], Canto [Musica Vocal] e Moral Cristã [ Moral e Legislação Usual]. N’ “O Município...” acrescentava três outras disciplinas não referidas nos “Estudos...”: Física e Química, Agricultura e Caligrafia e desenho linear.

Em termos metodológicos, o ensino dessas matérias era auxiliado por “galerias pitorescas, quadros sinópticos, exercícios de desenho linear, experiências símplices de física, química e mecânica, modelos e exemplares do museu da escola”, actividades que davam “variedade ao ensino, falando à imaginação e gravando-se na memória”.

Os livros, “estampas e modelos” , necessários às lições, eram fornecidos pelo Estado.[20]

“Uma “biblioteca paroquial”, com obras fornecidas pela “Direcção de Instrução Pública” apoiava o estudo das matérias leccionadas.[21]

Os párocos eram os responsáveis  pela instrução nestas escolas para se aproveitar “ a intervenção oficiosa duma classe respeitável, cujos serviços, bem encaminhados, podiam ser altamente prestadios”. Para o auxiliar na sua tarefa, Henrique Nogueira propunha  que o professor instruísse “um pequeno número de meninos mais adiantados e mais inteligentes” a quem dava o nome de “monitores”, “que depois iam ensinar os mais atrasados”.[22]

 Escolas industriais

 No topo da chamada “educação popular” situava as Escolas Industriais e as Escolas Agrícolas.
Ás Escolas Industriais dedica o nosso autor algumas notas no já citado capítulo XVIII (“Instrução”) dos “Estudos...”.

Estas eram dirigidas aos operários e empreendedores agrícolas e fabris e funcionavam em dois lugares. Aos domingos na “escola paroquial” e, de semana, em noites intercaladas, na “escola local”.

Nestas aprendiam-se elementos de aritmética, geometria, mecânica aplicada, agricultura, tecnologia, e higiene e medicina do homem e dos animais.

A regência deste curso devia ser da responsabilidade do médico público da localidade, e os estudos das disciplinas deviam ser “mais práticos do que teóricos, acompanhados de experiências e demonstração de exemplares por um professor especial e dirigidas a melhorar a industria  local”.[23] 

Escola Agrícola

Este tipo de escola foi referenciado apenas uma vez por Henriques Nogueira, no capítulo dedicado á agricultura nos seus “Estudos...”.

Era um ensino prático, que tinha por objectivo dar aos agricultores “um certo número de verdades e de preceitos úteis” que existem “na arte de cultivar a terra, de manipular os seus produtos” e “de criar os animais de serviço”, cuja ignorância “muito prejudicava os agricultores”.[24]

Devia existir  uma escola destas em cada município, a funcionar numa “granja” modelo, onde se praticavam os melhores sistemas de cultura, se empregavam as máquinas e ferramentas mais perfeitas e se cultivavam as plantas úteis à localidade.

Em cada paróquia devia existir um “jardim” onde o pastor “aos domingos”, dava noções simples de agricultura e economia.

Finalmente, em cada lugar existia um pequeno “gabinete de leitura “ onde se reuniam os moradores para a “instrução comum”. 

A “Cúpula” do Edifício Educativo

Embora a “Educação Popular” fosse a parte mais importante e original do projecto de Henriques Nogueira para o sistema educativo em Portugal, ele não deixou de se preocupar com os níveis superiores de ensino, onde pontificavam as “Escolas Municipais”, as “Escolas Centrais” e o “Instituto das Ciências e Artes”.

Escolas Municipais

Uma primeira abordagem sobre estas escolas foi feita pelo autor nos “Estudos sobre a reforma em Portugal”.

Nessa obra referia que estas escolas tinham por objectivo dar “os conhecimentos preparatórios indispensáveis” àqueles que se destinavam “à ciência ou aos estudos superiores”, considerando a possibilidade de algumas das disciplinas serem leccionadas por empregados administrativos em acumulação, como forma de colmatar a falta de professores .

Aí considerava que as disciplinas a leccionar deviam ser as seguintes: gramática das línguas clássicas, latim, francês, alemão e inglês; elementos de filosofia geral; matemáticas puras; história natural; agricultura; geologia; mecânica industrial; legislação prática; higiene e medicina do homem e dos animais domésticos; arquitectura; construção civil; música vocal e instrumental.[25]

As suas ideias para este nível de ensino foram aprofundadas no capítulo VII (Instituições Municipais) de “O Município no século XIX”.

Aqui defendia que este nível de ensino era público e gratuito, que o curso completo durava 3 anos e  que cada disciplina tinha a duração de 3 meses, excepto a disciplina de aritmética, álgebra e geometria, que tinha a duração de 9 meses.

Apresentava uma estrutura de disciplinas ligeiramente diferente da apresentada anteriormente: aritmética, álgebra e geometria; história natural; medicina e veterinária; agricultura e economia rural; física e química; tecnologia e mecânica industrial; desenho e construção civil; história e legislação Pátria; língua francesa e inglesa; música.

As lições eram “teóricas e práticas”, ministradas pelos “delegados das direcções do ministério de Estado”, com a excepção da música, dada por um professor particular.

“Os compêndios” eram “feitos expressamente para o uso das escolas municipais” e cada um deles era “dividido em 50 lições, impresso economicamente e ilustrado, quando a matéria o pedir, com gravuras em madeira”.[26]

“Escolas Centrais” das Ciências e das Artes

Nestas escolas, situadas na capital, ensinavam-se “os ramos principais do saber humano”, preconizando o nosso autor que “o Estado deve por interesse seu e honra da humanidade, proteger e educar todas as grandes vocações para a ciência ou para a arte, que se manifestarem em indivíduos desprovidos de meios. À escola primária ou municipal ou a qualquer outra parte, onde aparecer um aluno ou indivíduo de esperanças, lá se deve ir buscar para as escolas superiores, como pensionista de mérito”.[27]

Instituto das Ciências e Artes

Este Instituto constituía o “remate do edifício literário, científico e artístico do País”.
Era um lugar onde os “homens de génio” faziam “prelecções” e se entregavam “ a estudos conscienciosos e profundos”, aquilo que hoje designaríamos como centros de investigação científica.[28] 

“Cursos Normais”

Em paralelo com os vários níveis de ensino acima analisados, realizar-se-iam “cursos normais”, durante “uma certa época do ano”, no “instituto” ou nas “escolas municipais”.
Destinavam-se aos funcionários públicos que, nesses “cursos normais”, recebiam lições e conselhos “que a ciência lhes puder dar em adiantamento ao que já sabiam”, algo que hoje designaríamos por “formação contínua”.

Os cursos aí ministrados incluíam  a medicina, a construção civil e a administração pública.[29]

Conclusão

O combate ao analfabetismo foi uma das principais razões que motivaram Henriques Nogueira a desenvolver as suas ideias no campo educativo, atitude que não é de estranhar num intelectual progressista do século XIX, se tivermos em conta que em Portugal, na década de 40 desse século, mais de 90% da sua população era analfabeta.

Tal situação explica a importância dada pelo nosso autor à defesa da difusão do ensino das primeiras letras através das suas “escolas locais” e “escolas de adultos”, como suporte dos outros níveis de ensino e do combate à ignorância.

Além disso, defendeu sempre um ensino popular, muito baseado na experiência prática.

Apresentou ainda, nem sempre de forma clara e insistente, algumas ideias inovadoras para a época e que, em muitos casos, só tiveram efeito prático mais de um século depois, a saber:

-          a defesa de um ensino nocturno para adultos. (As primeiras aulas de ensino nocturno em Portugal foram contemporâneas de Henriques Nogueira e tiveram lugar em 1858 em S. João da Pesqueira, mas só por portaria de 20 de Julho de 1866 foi oficializado esse tipo de ensino);

-          a defesa da criação de Bibliotecas e Museus como suporte do sistema educativo, ideia só agora institucionalizada;

-          a ideia pioneira da criação de “Bibliotecas Populares”;

-          a defesa de um sistema de ensino obrigatório e gratuito;

-          o primeiro a referir-se à criação de Jardins de Infância, por ele designados por “asilos infantis”;

-          a valorização de um ensino prático, como o “ensino industrial” e o “ensino agrícola”, com o objectivo de dar uma formação prática e básica aos que não quisessem  prosseguir estudos superiores;

-          a defesa da formação contínua, subjacente à ideia de “cursos normais”;

-          a importância que deu, em vários níveis de ensino, à educação física e à educação musical;

-          a ideia de usar todos os recursos existentes na sociedade para resolver a falta de professores em quantidade suficiente para pôr em prática a generalização do ensino: o recurso às mulheres, aos párocos, aos funcionários administrativos e até a “alunos monitores”.

Encerramos este nosso trabalho citando uma frase de Henriques Nogueira, tão actual como hoje : “estamos convencidos que a felicidade pública, de todos os indivíduos e de todas as classes, depende de um plano vasto de educação, que permita a  cada um o desenvolvimento das suas faculdades”.[30]

Venerando Aspra de Matos

Obras consultadas:

-     CARVALHO, Rómulo de, História do Ensino em Portugal, ed. Fundação Calouste Gulbenkian, 1986.

-      REBELO, Carlos Alberto, A Difusão da Leitura Pública, ed. Campo de Letras, 2002.

-     SILVA, António Carlos Leal e (org.), Obras Completas de Henriques Nogueira, 3 tomos + 1 de biografia, INCM, 1979.




[1] “Instrução Primária” in O Scalabitano, 21 de Junho de 1857, OC, Vol. II, pp. 273 e 274.
[2] texto de “crítica literária” à 2º edição do “Método Castilho”, in A Revolução de Setembro, 6 de Julho de 1853, OC, Vol. II, p. 215.
[3] texto de “crítica literária” à 2º edição do “Método Castilho”, in A Revolução de Setembro, 6 de Julho de 1853, OC, Vol. II, p. 214.
[4] “Necessidade da instrução primária e vantagens do “Método Castilho”, dito da leitura repentina”, in Jornal da Associação Industrial Portuense, 15 de Dezembro de 1852, OC, Vol. II, p. 223.
[5] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XXV – Família, OC, Vol. I, p. 147.
[6] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII – Instrução, OC, Vol. I, p. 112-113.
[7] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII – Instrução, OC, Vol. I, pp. 113-114.
[8] “O Município do século XIX”, editado em 1856, OC, Vol 2, p. 95.
[9] “Instrução Primária”, in “O Scalabitano”, 21 de  Junho de 1857, OC, Vol. 2, p. 274.
[10] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVI – Salubridade, OC, Vol. I, p.102.
[11] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII– Instrução, OC, Vol. I, pp.113 e 114.
[12] “O Município do século XIX”, Cap. VI – O Município Novo, OC, Vol 2, p. 74
[13] “O Município do século XIX”, OC, Vol 2, p. 96.
[14]  “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII– Instrução, OC, Vol. I, p.  114.
[15] “Necessidade da instrução primária e vantagens do “Método Castilho”, dito de leitura repentina”, in “Jornal da Associação Industrial Portuense”, 15 de Dezembro de 1852, OC, Vol. II, pp. 222 e 223.
[16] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII– Instrução, OC, Vol. I, p.  114.
[17] 2º volume, OC, Vol. I, pp. 114-115
[18] OC, Vol 2, pp. 94 e 95.
[19] “O Município do século XIX”, OC, Vol 2, p. 94.
[20] Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII– Instrução, OC, Vol. I, pp.  114-115.
[21] “O Município do século XIX”, OC, Vol 2, p. 95.
[22] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII– Instrução, OC, Vol. I, pp.  114-115.
[23] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII– Instrução, OC, Vol. I, p.115.
[24]  “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XII– Agricultura, OC, Vol. I, p.81.
[25] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII– Instrução, OC, Vol. I, p.115.
[26] “O Município do século XIX”, OC, Vol 2, pp. 82-83.
[27] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII– Instrução, OC, Vol. I, p.117.
[28] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII– Instrução, OC, Vol. I, p.116.
[29] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII– Instrução, OC, Vol. I, p.116.
[30] texto de crítica literária à 2ª edição do “Método Castilho ...”, publicado no “A Revolução de setembro”, de 6 de Setembro de 1853, in OC, 2º volume, p. 215

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Lançado um novo volume da revista VISÃO HISTÓRIA, dedicado às Invasões Francesas


Foi colocado hoje nas bancas o nº 13 da única revista de divulgação histórica existente em Portugal, "Visão História", que dedica o tema desta edição às Invasões Francesas.
A revista publica vários estudos, acompanhados por mapas, imagens e quadros cronológicos bastante detalhados, da autoria de alguns dos mais conceituados especialistas nacionais sobre esse importante período histórico.
Como não podia deixar de ser, as Linhas de Torres Vedras ocupam um lugar de destaque nesta edição, incluindo-se um artigo da autoria de Carlos Guardado Silva , "As inexpugnáveis Linhas de Torres Vedras", onde se inclui o mapa que aqui reproduzimos.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A "Escola" de Torres Vedras - reflexão sobre a historiografia local.


ESTUDOS VEDROGRÁFICOS: A “Escola de Torres Vedras”.
 Por aquilo que conheço no país, poucas localidades, como Torres Vedras, se podem gabar da quantidade e qualidade de estudos, entre a divulgação e a investigação, sobre os mais variados aspectos e épocas da sua história local.
Existe uma longa tradição de estudos sobre a sua história e o seu património, que remonta à primeira tentativa de escrever uma primeira monografia ainda no século XVIII, um estudo e recolha de notícias da autoria do capitão  Luiz Botto Pimentel Corte Real, datado de 1729, “Livro de Notícias Várias…”, que infelizmente não chegou a conhecer a luz do dia, mas continua preservado no Arquivo Municipal de Torres Vedras.
A primeira obra impressa que versa a história local, embora num tema muito específico, é uma “História do [convento] do Varatojo”, da autoria de Frei Manuel Maria Santíssima, editada em 1799.
Contudo, devemos  balizar o primeiro período historiográfico torriense ente  monografia de Madeira Torres do início do século XIX e a de Júlio Vieira, do início do século XX e recentemente reeditada.
O padre Madeira Torres, que foi deputado da primeira constituinte, bom conhecedor dos arquivos paroquiais e municipais locais, publicou dois artigos, nas “Memórias da Academia Real das Sciencias de Lisboa”, sobre Torres Vedras, um primeiro, em 1819, de carácter histórico, e um segundo, em 1835,  de carácter económico, justamente considerados o “actos fundadores” da historiografia torriense .
A meio do século XIX dois “notáveis” torrienses, homens activos na vida política e municipal durante a afirmação do liberalismo, José António da Gama Leal e José Eduardo César de Vasconcelos,  pegaram nos artigos de Madeira Torres e, acrescentando-lhes um conjunto de valiosíssimas notas de rodapé, que tiveram como base, principalmente, o ainda hoje valiosíssimo arquivo municipal, ao qual tiveram acesso por causa das suas funções municipais, assim como a recolha na tradição oral e à memória  da própria vivência pessoal, e editaram o primeiro livro de História Torriense, tendo como base a parte histórica dos artigos de Madeira Torres, intitulado “Descripção Histórica e Económica da Villa e Termo de Torres Vedras – parte histórica”, publicado em 1862, e que passou à história como “a monografia de Madeira Torres”.
Os mesmos anotadores prepararam a edição de um segundo volume, com a parte económica do estudo Madeira Torres, com as mesmas valiosíssimas anotações, mas nunca a conseguiram editar. Felizmente os originais dessa segunda parte da obra de Madeira Torres, devidamente organizados em vários cadernos, prontos para edição, existem no Arquivo Municipal de Torres Vedras e, segundo nos constou, serão em breve editados.
Há quem diga que a quantidade e a qualidade de informação que os anotadores de Madeira Torres acrescentaram aos dois textos deste, são muito mais valiosas e interessantes do que os originais de Madeira Torres.
A Monografia de Madeira Torres, anotada por aqueles dois torrienses, conheceu uma edição fac-similada em 1988, por iniciativa da Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras.
Ainda no século XIX é de registar outra obra, de temática muito específica, a “Descripção do Real Asylo de Inválidos Militares de Runa”, da autoria de Souza Escrivanis e editada em 1882.
Não nos podemos esquecer das muitas memórias editadas por essa Europa fora, em especial na Grã-Bretanha, versando a passagem pela região de Torres Vedras, entre 1807 e 1810, por ocasião das Guerras Peninsulares, de militares de todo o “mundo” e de várias patentes, muitas delas reveladas nos últimos anos, por ocasião do bicentenário desses acontecimentos, nos quais esta região desempenhou um papel importante e fundamental.
À  precocidade no interesse pela história local torriense, para além da existência  e divulgação daquelas obra, não terá sido estranho o facto de, desde muito cedo, a partir de 1885, ter existido uma imprensa local regular, contando muitas vezes com mais do que um título semanal, situação que se prolongou até ao princípio dos anos 30 do século XX, onde, desde sempre, se revelou interesse em divulgar todo o tipo de documentos e ensaios sobre a histórias local e o seu património.
Aliás, esses mesmos jornais são hoje uma valiosíssima fonte para a história local contemporânea.
Saiu exactamente do jornalismo de divulgação a segunda monografia marcante  sobre a história e o património de Torres Vedras, a obra de Júlio Vieira de 1926, e reeditada este ano, “Torres Vedras Antiga e Moderna”.
Com este obra fechava-se o primeiro ciclo, que consolidou o interesse e a divulgação da história torriense.
Entre os anos 20 e 60 do século passado poucas inovações se podem registar ao estilo, metodologia e informações reveladas naquelas duas obras.
Não devem contudo ser desprezados algumas iniciativas dispersas e pontuais de interesse pela história local, através da publicação de vários ensaios na imprensa local, ou em separatas ou folhetos, da autoria de um Rafael Salinas Calados (com destaque para o seu estudo sobre a Misericórdia de Torres Vedras, editado em 1936), de um Rogério de Figueiroa Rêgo, este nos domínios da genealogia, e da afirmação de uma historiografia regionalista e elitista, mas onde se revela um especial cuidado no tratamento e divulgação de fontes, principalmente sobre a época moderna e o início do século XIX, afirmando tardiamente a metodologia positivista em termos de história local. A sua obra “Alguns Sumários das Notas de Vários Tabeliães da Vila de Torres Vedras nos séculos XVI e XVIII”, editada em 1970, é ainda hoje uma importante obra de referência para o estudo do Antigo Regime.
Ao longo da primeira metade do século XX, com cultores que continuaram nas décadas seguintes, muitos foram aqueles que revelaram curiosidade pela História local, recorrendo a um certo “coleccionismo” de factos e documentos e à recolha dispersa de memórias e acontecimentos, destacando-se neste caso um Gabriel Pereira, dedicando um interessante capítulo da sua obra “Pelos Subúrbios e Vizinhanças de Lisboa” , editada em 1910, à história e património torrienses,  um  Artur da Silva Lino, um Pedro Garcia Anacleto, um França Borges  ou, mais recentemente, um Adão de Carvalho.
Algumas publicações revelaram-se um importante centro de divulgação do publicismo da história torriense, como as edições especiais da revista “Hora” nos anos 30 e 50, ou o Boletim da junta Distrital da Estremadura que se editou entre os anos 40 e 80 do século passado.
Não nos podemos esquecer, entretanto, do grande desenvolvimento e da grande ruptura cronológica que representou, sobre o conhecimento do passado local, o elaborado trabalho arqueológico de Leonel Trindade e Aurélio Ricardo Belo.
Ao primeiro deveu-se a importante descoberta do Castro do Zambujal  e ao segundo a descoberta do povoado eneolítico do Penedo, nos anos 30. Essas descobertas atraíram o interesse do prestigiado Instituto Arqueológico Alemão, que ainda hoje mantém uma laboriosa parceria com as autoridades locais em várias campanhas arqueológicas que ainda hoje continuam, bem como na publicação de uma vasta bibliografia, muito dela na língua alemã, sobre a pré-história da região de Torres Vedras.
A fundação do Museu Municipal em 1929 conheceu então uma grande projecção com as descobertas arqueológicas daqueles dois torrienses.
Recorde-se que a primeira grande descoberta arqueológica em Torres Vedras tinha acontecido em 1909, com a descoberta do Tholos do Barro pelo frade jesuíta Lapierre.
Com o aparecimento do jornal “Badaladas” em 1948, o interesse pela historia e pelo património locais conhecerem um novo fôlego, habituando-se aquele jornal, que se tornou semanário no início da década de 60, a acolher nas suas páginas trabalhos de investigação e divulgação, alguns de grande fôlego e que não teriam grandes possibilidades de conhecer a luz do dia se não fosse o interesse que o padre Joaquim Maria de Sousa , fundador desse jornal, sempre demonstrou pela história local.
Quem quiser fazer história local sem consultar muitos desses ensaios publicados nas páginas desse semanário não está a fazer um trabalho completo, científico e sério.
Para além de podermos acompanhar nas suas páginas o trabalho arqueológico de um Leonel Trindade, aí foram publicados vários artigos valiosos para a história local, como por exemplo os estudos de Aurélio Ricardo Belo sobre os vestígios romanos no concelho.
A partir da década de 60 um outro período da história torriense vai conhecer um significativo desenvolvimento, a Idade Média. O interesse por esse período, que leva à publicação de alguns trabalhos de âmbito universitário, está relacionado com a vasta documentação sobre este concelho existente no Arquivo da Torre do Tombo, com destaque para uma completa inquirição de 1309 que abrange, detalhadamente, toda a área do concelho de Torres Vedras na Idade Média. Destacam-se os estudos de H.B. Johnson em 1970, um historiador colaborador dos “Annales”, os trabalhos do padre franciscano Félix Lopes na “Lusitânia Sacra”, nos anos 60 e 70, a tese de Maria Julieta de Oliveira em 1970 e, mais recentemente, o trabalho de Ana Maria Rodrigues, “Torres Vedras – A vila e o termo nos finais da Idade Média”, editado em 1995.
Importante para o interesse por essa época foi igualmente a recolha de J. Cordeiro de Sousa, feita nos anos 50, e editada em 1957, de “Fontes Medievais de História Toreana”.
Ainda nos finais da década de 60, início da de 70, não podemos esquecer outras teses universitárias, como a de Lígia Maria Gouveia Barreto sobre Torres Vedras no século XVIII, com base na análise dos livros de décimas, ou a tese de Teresa Barata Salgueiro sobre a urbanização de Torres Vedras.
Mas foi, quanto a nós,  uma outra tese, abordando  a época medieval, que, em termos locais, representou uma ruptura com a historiografia local tradicional, a tese de licenciatura em História do actual Bispo do Porto, D. Manuel Clemente, apresentada em  1974, “Torres Vedras no 1º Quartel do século XIV”.
Por coincidência esse foi o ano da revolução democrática do 25 de Abril, que muito contribui para uma nova abordagem da história local e para o aparecimento do espírito daquilo que, em artigo recente, Joaquim Moedas Duarte designou como “Escola De Torres Vedras”.
De facto, o que assistimos até essa data, foi um trabalho, sem dúvida importante e laborioso, mas quase sempre individual e disperso.
Quanto a nós houve um conjunto de condições, a partir daquela data, que permitiram o desenvolvimento de uma maior colaboração e qualificação do trabalho de investigação e divulgação historiográficas:
    - a afirmação do ensino secundário, inicialmente em duas escolas locais, o antigo Liceu e a antiga Escola Técnica, tendo por base uma renovação historiográfica dos programas de história e a chegada de uma geração mais jovem e metodologicamente inovadora de professores, valorizando a investigação, a história ao vivo e a história local;
    - a constituição de uma Associação de Defesa do Património, fundada em 1979, incentivando o estudo, a divulgação e a edição de temáticas relacionadas com a história e o património locais;
    - uma crescente afirmação do poder local, levando à edição de vários estudos sobre a História Local, destacando-se o papel relevante da revista “Torres Cultural”.
Tudo isto contribuiu para a afirmação de um espírito de “escola”, já que existia um autêntico sistema local de “vasos comunicantes”  entre aquelas instituições.
Estavam criadas condições para a afirmação consciente desse espírito.
O primeiro grande sinal foi dado com a obra colectiva “Torres Vedras – Passado e Presente”, editada em 1996.
Seguiu-se a  criação oficial do Arquivo Histórico de Torres Vedras nos anos 90, sob a direcção de Carlos Guardado Silva.
O principal resultado desse espírito de escola está na realização, a partir de 2000, dos Encontros anuais de História, “Turres Veteras”, numa parceria com o Instituto Alexandre Herculano da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Essa colaboração tem contribuído para um crescente interesse do meio universitário pelo estudo da História local, que tem resultado também na colecção “Linhas de Torres”, responsável por 13 títulos, editados desde 1999. Uma outra parceria recente com uma editora muito ligada à edição de temáticas de História, a Colibri, tem contribuído para projectar a “escola de Torres Vedras” e para o desenvolvimento da “vedrografia” (termo por nós inventado para definir a historiografia de temática torriense) .
Esperamos com este texto motivar o interesse e a discussão sobre este tema.
Uma nota final para referir que este texto foi escrito de memória, recorrendo apenas a uma ou outra consulta para confirmar datas, nome ou títulos, pelo que poderá registar algumas lacunas.
Deve por isso ser lido como um esboço, sujeito a correcções e críticas.