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quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Há 210 anos, Torres Vedras ocupada pelas tropas francesas



6 de Dezembro de 1807 – Quando os Franceses ocuparam Torres Vedras


Há 110 anos os torrienses passaram o Natal sob ocupação francesa.

As tropas de Junot cruzaram a fronteira portuguesa em 19 de Novembro de 1807, só conseguindo entrar em Lisboa em 30 de Novembro.

A família real tinha saído de Lisboa a caminho do Barasil no dia 27.

Em Torres Vedras ficamos a dever ao padre Madeira Torres, testemunha coeva e observador atento, a descrição do modo como esses acontecimentos foram sentidos na localidade e da sua ocupação pelas tropas francesas.

Refere aquele autor que “Torres Vedras (...) foi a primeira em participar da consternação e saudade (…) pela ausencia do nosso adorado Principe”.

Ainda “os habitantes começavam a lamentar-se de tamanha perda,(…) logo no dia 6” de Dezembro “foram constrangidos a franquear quarteis, e munições de bôcca para a tropa de mais de duas brigadas, ou de quasi toda a segunda divisão, cujo commando ainda então estava (como o fóra pela marcha) provisoriamente no Brigadeiro Charlot, que o largou logo nos dias seguintes ao General Loison (…).

 No dia 8 do mesmo mez adiantou-se para a Praça de Peniche o General de Brigada Thomiers com dois batalhões, e passados alguns dias retrocederam dois para Mafra, onde Loison estabeleceo ordinariamente o seu Quartel General, e permaneceram aqui fixos os dois Batalhões dos regimentos 12 e 15 de infantaria ligeira”, que eram compostos por cerca de tres mil homens, sob o comando do Brigadeiro Charlot.

“Nos primeiros dias padeceo esta Villa não só os gravissimos incommodos do alojamento, mas quasi todo o pêso das requisições para a inteira subsistencia da tropa”.

A moderação do brigadeiro Charlot foi muito elogiada pelo ilustre pároco torriense, até porque “contribuio ella para nunca se interromperem as funcções do Culto, nem mesmo a do Natal, e para se fazerem com boa ordem, e até com esplendor”.

Com a proximidade da Primavera o mesmo brigadeiro aliviou a vila “d’algum pêzo de tropa, mandando destacar duas Companhias para a Lourinhã, e duas para o logar do Turcifal: Em fim nos ultimos dias de Maio levantou-se o quartel do General Charlot, quando partio com o Batalhão do regimento 12, e com os outros, que estavam em Mafra, para a frustrada expedição do Douro e Porto, commandado por Loison.

“Pelo mesmo tempo se transferio o Batalhão do Regimento 15 para Mafra, e veio para aqui um dos alojados na Praça de Peniche, de que era Commandante o Major Bertrand, o qual apenas se demorou um dia.

“Desde então ficou esta Villa alleviada de tropa effectiva; mas não deixou de ser frequentada, e incommodada por alguns destacamentos, pelo transito dos Officiaes do Estado Maior, e tambem de varios corpos do Exercito.” (1).

O bom tratamento dado à população pelo brigadeiro Charlot foi igualmente confirmado por outra testemunha coeva, Francisco Manuel Trigoso de Aragão Morato, um dos Grandes de Portugal, que se refugiou com toda a família na Quinta Nova, em Matacães, a pouca distância da então vila de Torres Vedras, onde recebeu “a noticia do embarque da Familia Real e da entrada dos francezes em Lisboa. Meu irmão e eu (...) assentámos em ficar aquelle inverno” (de 1807) “ no campo, sem virmos para Lisboa, como costumavamos vir todos os annos.

“Assim o fizemos e, permanecendo alli por todo o tempo que os francezes estiveram em Portugal, escusado é dizer que nem tivemos nem desejámos ter influencia alguma no seu Governo.

“Apenas tivemos a comunicação necessaria ou de civilidade com o General Charlot, que residia em Torres, e com os poucos officiaes que mais viviam com elle. Tambem vimos o general Loison, que por alli passou na sua espedição das Caldas da Rainha; não vimos mais nenhum General nem outro empregado, e até ao mez de Agosto seguinte” (de 1808) “não tivemos incommodo ou susto algum, porque Charlot não era mau homem e queria conservar a paz e o socego” (2).

Mas não foi apenas o ocupação militar alterar a vida dos habitantes desta vila. Cedo a ocupação se fez sentir em termos económicos.

Em Fevereiro de 1808 tomou-se conhecimento de uma ordem de Napoleão para lançar, sobre todo o teritório porugês, um imposto extraordinário para efeitos de guerra, dando-se início à sua execução em Abril desse ano.

As vilas da comarca de Torres Vedras, que ía da Lourinhã e Cadaval até Sintra e Cascais , foram constrangidas a pagar 8000$000.

Só as vilas de Torres Vedras e Ribaldeira, cujos domínios correspondem, aproximadamente, aos actuais limites administrativos do concelho de Torres Vedras, pagavam mais de metade do imposto a para toda a comarca (respectivamente 3000$000 e 1200$00), o que revela a importância económica desta região (3).

Em relação aos limites administrativos de Torres Vedras, aquele valor de 3000 réis foi subdividido entre as 38 vintenas do concelho, sendo que as cinco que mais contribuíram para aquele valor foram, respectivamente, a vila de Torres Vedras (907 réis), Turcifal (250 réis), Freiria (200 réis), Azueira, actualmente pertencente ao concelho de Mafra (150 réis) e Runa (140 réis) (4).

Torres Vedras só voltou a sentir o incómodo da presença militar em Agosto do ano seguinte, quando uma parte das tropas francesas, comandadas por Thomiers, atravessou Torres Vedras. Foram estas forças que se defrontaram com os ingleses na batalha da Roliça.

Mais uma vez Torres Vedras viveu estes acontecimentos à distância: “(...) na tarde de 17 d’Agosto de 1808, constou” (em Torres Vedras) “da batalha da Roliça (...) pelos que se retiravam feridos do Exército, e por alguns prisioneiros, que aqui vieram pernoitar, escoltados por uma patrulha commandada pelo Capitão Picton do Corpo da Polícia. N’essa acção era commandado o Corpo da Tropa Franceza pelo General Delaborde, o qual vendo-se obrigado a retirar-se depois de sustentar o resto do dia com evoluções, se aproveitou da noite para largar de todo o campo, e tomou a estrada, que diante da quinta da Bogalheira se dirige a Runa, onde descançou poucas horas, prosseguindo a marcha pelo Caminho da Cabeça. Em quanto o Corpo principal seguia, não deixavam de passar pela Villa em toda a noite soldados dispersos, que eram outras tantas testemunhas evidentes da victoria dos nossos alliados: pedio ella sem duvida publicos applausos, porém houve a necessaria prudencia em suffocal-os, o que servio para livrar a Villa d’algum severo castigo” (5).

Tomando conhecimento da Batalha da Roliça, Junot decidiu abandonar a capital, em direcção a Torres Vedras, para travar o avanço das forças inglesas.

“Junot, sendo informado por uns camponezes que Laborde estava combatendo só com as tropas inglêsas, suppoz que estas seguiam sobre Lisboa, pela estrada de Torres, emquanto o exercito português seguiria a estrada real de Rio Maior- Alcoentre.

“Como ligava mais importancia ao exercito inglês, resolveu atacar primeiro este, e, só depois de vencel-o, viria atacar o exercito português.

“D’esta forma determinou fazer a concentração de todas as suas forças em Torres Vedras” (5).

Estávamos nas vésperas da Batalha do Vimeiro, que teve lugar em 21 de Agosto de 1808, tema ao qual voltaremos em Agosto do próximo ano.

(1)    - Manuel Agostinho Madeira Torres, Descripção Historica e Economica da Villa e Termo de Torres Vedras, 2ª edição anotada, 1862, (1º edição em 1819), pp.164 a 171;
(2)   - Memórias de Francisco Manuel Trigoso de Aragão Morato (...) (1777 a 1826), ed. revista e coordenada por Ernesto de Campos de Andrade, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1933, p.52;
(3)   - Livro nº24 dos Acórdãos da Câmara de Torres Vedras (1802-1812), vereação de 17 de Abril de 1808, ff.164 e 164 v.;
(4)   - Livro nº24 dos Acórdãos da Câmara Municipal de Torres Vedras (1802-1812), vereação de 30 de Abril de 1808, ff.166v. a 170v.;
(5)   - Madeira Torres, obra citada,  pp. 171-17;
(6)   - Victoriano J. Cesar, Invasões Francesas em Portugal - 1ª parte (...) Roliça e Vimeiro, Lisboa 1904, pp. 112-113.

(texto publicado no jornal Badaladas, na série "Vedrografias", em 29 de Dezembro de 2017)


sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Este Sábado : Lançamento de "As Linhas de Torres Vedras"

LANÇAMENTO de “AS LINHAS DE TORRES VEDRAS”, de CARLOS MANUEL ANTUNES BERNARDES – SÁBADO, 8 de OUTUBRO, às 18 horas, na COOPERATIVA DE COMUNICAÇÃO E CULTURA, Rua da CRUZ, 13, TORRES VEDRAS.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Hoje nos Paços do Concelho: "Revisitar as Linhas" , conferência sobre as Linhas de Torres pela Drª Manuela Catarino

22 de fevereiro de 2016 | segunda | 18h00 às 19h30

Local: Auditório do Edifício Paços do Concelho 
"Sobre a importância das conhecidas “ Linhas de Torres Vedras” no contexto das invasões francesas se têm debruçado os historiadores. A linha de fortificações que susteve as tropas de Massena continua, ainda nos dias de hoje, a fascinar a imaginação dos que visitam os fortes e redutos que delas foram preservados. Apoiados em documentos vários, é possível recriar a sua operacionalidade militar e estratégica, tão importantes para o desfecho da guerra peninsular."
"Mas importa, igualmente, entrever os personagens que viveram os acontecimentos aí ocorridos. Homens decisivos, militares de génio, mas também anónimos que atrás delas se refugiaram; gentes que passaram por elas, ou as avistaram de longe; aliados numa causa comum ou inimigos ditados pelo confronto bélico. Na realidade, na ficção, nas cartas escritas à família distante, na correspondência militar, os testemunhos continuam vivos séculos depois. Revisitando alguns desses escritos, poderemos encontrar diferentes “visões” de Portugal, dos portugueses, de quotidianos críticos e contrastes de emoções. Poderemos, em suma, encontrar sinais de vida em cenários de guerra…"
Manuela Catarino
No dia 27 de fevereiro decorrerá uma saida de campo, incidindo sobre a mesma temática, e as inscrições para esta saida deverão ser realizadas no dia 22 de fevereiro, aquando da realização da conferência.
Organização:Centro de Formação das Escolas de Torres Vedras e Lourinhã
Informações: Centro de Formação das Escolas de Torres Vedras e Lourinhã, pelo tlf.: 261 315 905.
Conferência: Entrada livre

Auditório do Edifício Paços do Concelho
Praça do Município

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Lançado um novo volume da revista VISÃO HISTÓRIA, dedicado às Invasões Francesas


Foi colocado hoje nas bancas o nº 13 da única revista de divulgação histórica existente em Portugal, "Visão História", que dedica o tema desta edição às Invasões Francesas.
A revista publica vários estudos, acompanhados por mapas, imagens e quadros cronológicos bastante detalhados, da autoria de alguns dos mais conceituados especialistas nacionais sobre esse importante período histórico.
Como não podia deixar de ser, as Linhas de Torres Vedras ocupam um lugar de destaque nesta edição, incluindo-se um artigo da autoria de Carlos Guardado Silva , "As inexpugnáveis Linhas de Torres Vedras", onde se inclui o mapa que aqui reproduzimos.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Raúl Ruiz é o realizador de "As Linhas de Torres Vedras"



A notícia era conhecida desde Abril. Hoje, so seu suplemento "Ípsilon" o jornal Público desenvolve a notícia sobre a realização do filme sobre as Linhas de Torres, da autoria do consagrado cineasta chileno Raul Ruíz.
Ficamos a aguardar com expectativa essa interessante iniciativa.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

UM PASSEIO PELAS LINHAS DE TORRES (Fotografias de Ricardo Silva).


Conforme anteriormente anunciámos, o suplemento “Fugas” do jornal Público editou nas suas páginas uma reportagem sobre as rotas das Linhas de Torres.
Agora é possível aceder ás fotografias recolhidas para essa reportagem, da autoria de Ricardo Silva:

sábado, 9 de julho de 2011

AS LINHAS DE TORRES, Tema da reportagem principal do "Fugas" de hoje...


As Rotas das Linhas de Torres fazem parte do tema da reportagem central da suplemento do Público que sai hoje (Sábado) com o Público.
Da autoria do jornalista Carlos Pessoa, ficamos a conhecer algumas das principais rotas pelos vestígios que ainda restam dessa importante obra militar.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Concerto de encerramento das Comemorações do Bicentenário das Linhas de Torres

Um concerto a não perder este Sábado, 20 de Novembro às 21:30 no Teatro-Cine de Torres Vedras.

Com este concerto dá-se o encerramento das comemorações do Bicentenário das Linhas de Torres Vedras.

No programa oficial de divulgação desse evento podemos conhecer um pouco melhor o que vai ser esse concerto:

“Neste concerto de encerramento das Comemorações, serão ouvidas duas obras intimamente ligadas às invasões francesas: a Sinfonia nº 3, em Mi b Maior, opus 55, de Ludwig van Beethoven, composta em 1803 para 'festejar a recordação de um grande Homem' (palavras escritas em epígrafe pelo punho do próprio compositor, que no desejo de dedicar a obra a Napoleão, depois do acto invasivo a retirou veementemente), e a estreia absoluta da Oratória Popular, opus 40, de Nuno Côrte-Real, obra encomendada pelo Município de Torres Vedras no intuito de comemorar o Bicentenário das Linhas. de Torres Vedras.

“A obra em estreia é baseada nas tradições musicais da Estremadura, e tem como textos fragmentos e pequenos excertos de cartas, poesia e outros documentos da época das invasões; foi escrita para orquestra, coro e solistas, e usa as famosas gaitas-de-fole típicas da região, promovendo assim não só uma sonoridade específica, como também uma cultura ainda viva.

“O concerto contará com a presença da Orquestra do Norte, o Coro Sinfónico Lisboa Cantat, o aclamado pianista Filipe Pinto Ribeiro, o tenor João Rodrigues, o ator Jorge Sequerra, o Grupo de Gaiteiros da Estremadura, e terá direção musical de Nuno Côrte-Real”.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Há Duzentos Anos - As tropas de Massena retiravam-se das suas posições frente às Linhas de Torres Vedras

“(...) Na manhã de 15 de Novembro o posto avançado britânico notou que os lúgubres sentinelas tinham-se tornado estranhamente rígidos; um exame mais de perto mostrou que eram feitos de palha. Os franceses tinham-se retirado durante a noite a coberto do nevoeiro.”
(citada por A.H.Norris e R.W. Bremner, The Lines of Torres Vedras, Lisboa 1986, p.19, segundo tradução de Thomas Croft de Moura).

Passam hoje duzentos anos sobre a retiradas dos franceses da sua situação frente às Linhas de Torres, mantida durante pouco mais de um mês.

Iniciava-se assim a retirada do exército francês de Portugal e as Linhas de Torres Vedras entravam definitivamente na História.

Para comemorar essa data, resolvemos reproduzir aqui parte de uma colecção de gravuras inglesas que retratam, por vezes de forma fantasiosa, as Invasões Francesas na região de Torres Vedras .

A sua autoria é atribuída a vários gravadores ingleses, Landmann, W. Hesth e Viviane e foram reproduzidas num calendário editado nos anos 60 pela Casa Hipólito.

Os originais dessas gravuras pertenciam a António Hipólito Júnior.


Esta Gravura mostra a entrada das tropas francesas, por de sul nesta gravura, em Torres Vedras, em 1808.
A gravura é algo fantasiosa. Nessa altura ainda não existia o forte de S. Vicente, o maior das linhas de Torres, avistado ao fundo. O Castelo parece exageradamente alto. É visivel o Convento da Graça, à direita.


Esta Gravura reproduz com muita fidelidade a vila de Torres Vedras, vista da zona do actual tribunal, na várzea. O forte de S. Vicente é igualmente visivel.


Esta gravura reproduz a Batalha da Roliça de 17 de Agosto de 1808.


Cena da Batalha do Vimeiro em 21 de Agosto de 1808


Vista de Torres Vedras, a partir do norte. Onde estão as árvores é hoje o Choupal.


Gravura algo fantasiosa de uma vista de Torres Vedras, vista de Nordeste.


Entrada dos negociadores franceses no Vimeiro, após a derrota das suas tropas. O edifício com a varanda, ao fundo à esquerda, ainda existe, sem o telheiro.


Cena da Batalha do Vimeiro


Cena da Batalha do Vimeiro

terça-feira, 19 de outubro de 2010

A "Origem" Das Linhas de Torres Vedras

(uma vista das Linhas de Torres em 1910)

Uma das questões que ainda hoje levante polémica é a da atribuição da paternidade das “Linhas de Torres”.

As condições naturais que fizeram do território a norte de Lisboa uma região com a importância estratégico-militar na defesa dessa cidade, foram observadas ao longo dos séculos por todos aqueles que percorreram a região.

Que dizer da profusão de castros do calcolítico na região? Ou da rede viária romana estrategicamente construida ao longo dos vales defendidos pelas serras circundantes que fizeram do sítio da actual cidade de Torres Vedras o centro neválgico dessa rede na chamada “Península de Lisboa”? Ou do conjunto de torres defensivas que os muçulmanos construíram neste território e que obrigaram D. Afonso Henriques a contorná-las, conquistando Lisboa a partir do mar e não da terra? Ou da importância estratégica do castelo de Torres Vedras nos episódios históricos de 1383-1385 ou de 1580-1640?

De facto essas condições naturais estiveram na origem do crescimento e desenvolvimento de Torres Vedras.

Não terá sido portanto de estranhar que Junot, depois de se apoderar de Lisboa em1807, e conhecendo as intenções inglesas de desembarcar em Portugal, encarregasse o coronel Vincent, chefe de engenheria do seu exército, de fazer um reconhecimento da região a norte de Lisboa, com o objectivo de defender a capital de um desembarque britânico.

“Vincent que era um engenheiro militar distincto e activo, não só fez o reconhecimento do terreno ao longo da costa, mas principalmente no seu regresso a Lisboa, da peninula entre o Tejo e o Oceano. Vincent reconhecendo o partido que podia tirar, para a defesa de Lisboa, da natureza do terreno entre o Tejo e o oceano, e não tendo uma planta d’esta região, pois a não havia no nosso Archivo que elle bem conhecia, tendo até augmentado o pessoal do gabinete e desenho para obter copias dos trabalhos existentes, encarregou o então tenente coronel do Real Corpo de Engenheiros, Francisco Bernardo de Caula, com dois officiaes a sua escolha de proceder ao levantamento d’esta planta” (Vieira Ribeiro, “Neves Costa e as Linhas de Torres Vedras”, 1ª parte, Revista de Engenheria Militar, nº 1-16º ano, Janeiro de 1911, pp.5-26).

Francisco Caula já tinha trabalhado anos antes num levantamaneto de carta geográfica do reino.

Caula escolheu para o acompanhar “os dois officiaes então em serviço no Archivo Militar, os majores do Real Corpo de Engenheiros José Maria das Neves Costa e Joaquim Norberto Xavier de Brito (...). Dos dois officiaes escolhidos apenas Neves Costa foi empregado n’este serviço, Caula fez a maior parte da triangulação, a parte restante, o estudo do detalhe e reconhecimento militar do terreno ficou a Neves Costa” (Vieira Ribeiro, “Neves Costa e as Linhas de Torres Vedras”, 1ª parte, Revista de Engenheria Militar, nº 1-16º ano, Janeiro de 1911, pp.5-26).

Quando da expulsão de Junot, em 1808, já se tinha procedido ao levantamento de uma parte da costa, trabalho que foi suspenso com a saída dos franceses.

Logo que a autoridade portuguesa foi reposta, Neves Costa fez uma “representação” ao Conde da Feira, secretário da regência, no sentido de defender as vantagens em continuar o trabalho iniciado pelos franceses.

O secretário da regência deu provimento à proposta de Neves Costa sendo este, por aviso assinado pelo comandante do real Corpo de Engenheiros, Antas Machado, com a data de 28 de Novembros de 1808, encarregado “do reconhecimento militar e levantamento da planta do terreno ao norte de Lisboa, sendo nomeado para o coadjuvar o 2º tenente José Feliciano Farinha; e o tenente Caula, auxiliado pelo major Joaquim Norberto Xaviar de Brito, é encarregado dos trabalhos de triangulação, isto é, da medida trignometrica dos pontos principaes d’aquelle terreno, para organisação da referida planta”. (Vieira Ribeiro, “Neves Costa e as Linhas de Torres Vedras”, 1ª parte, Revista de Engenheria Militar, nº 1-16º ano, Janeiro de 1911, pp.5-26).

Contudo “Antas Machado, assim como os officiaes portuguezes e estrangeiros d’aquella epocha, entendiam que Lisboa se devia defender por uma primeira linha de defensa proximo da capital, não tendo emgrande consideração os trabalhos de Neves Costa” mandando por isso interromper “os trabalhos de levantamento da planta e reconhecimento militar do terreno ao norte de Lisboa, sendo, Neves Costa, mandado servir, ás ordens do tenete general E Rodrigo de Lencastre, nas obras de fortificação de Lisboa (...) e o tenente coronel Caula nomeado Governador militar de Villa Franca”.

Finalmente, em “18 de fevereiro de 1809 conseguiu, Neves Costa, ser novamente encarregado de concluir o trabalho da planta do terreno ao norte de Lisboa, não sendo então nomeados os outros dois officiaes para o coadjuvarem; em 4 de março d’esse anno concluiu o trabalho da planta do terreno,que remetteu em officio ao Secretario da Guerra, Pereira Forjaz, ficando empregado na redacção da respectiva memoria; mas, em 17 de abril, Antas Machado mandava-o novamente para as fortificações de Lisboa (...), onde esteve, até que no principio de maio, por intervenção do Secretario da guerra, Pereira Forjaz, é dispensado do serviço para concluir a sua memoria, trabalho que concluiu e remetteu em oficio ao referido Secretario da Guerra, em 6 de Junho de 1809, sendo a sua memoria e planta do terreno presentes a Lord Wellington.

“Esta planta, apresentada em esboço, foi depois passada a limpo no Archivo Militar e accrescentada com a parte do terreno ao longo da costa, copiada d’uma planta da barra de Lisboa, que já existia, pelo major Franzini.

“Em 26 de outubro de 1810 apresentou-se no Archivo Militar o capitão dos Reaes Engenheiros britannicos, Dickinson, com um officio do tenente coronel Fletcher para, por ordem de Lord Wellington, lhe ser entregue uma copia a limpo dareferida planta”.

(Vieira Ribeiro, “Neves Costa e as Linhas de Torres Vedras”, 1ª parte, Revista de Engenheria Militar, nº 1-16º ano, Janeiro de 1911, pp.5-26, pp. 9 a 11).

Contudo Wellington, tentou posteriormente desvalorizar o papel de Neves Costa, como se conclui da leitura deste despacho da autoria desse general inglês:

“Nunca tive por habito deixar de elogiar os officiaes que estão debaixo das minhas ordens, quando o merecem, ou de os recommendar a lembrança e generosidade dos seus superiores e do seu soberano; mas protesto sollemnemente contra a pretensão do major Neves Costa e do coronel Caula, de se arrogarem a formação do plano, ou concepção do systema que se seguiu para a salvação de Lisboa, debaixo da minha direcção.

“V. Ex.ª deu-me em 1809 um plano do paiz em questão e uma memoria feita pelo major Neves. Todavia sou forçado a declarar que apenas examinei os logares, achei o plano e a memoria por tal maneira inexactas, que nenhuma confiança pude ter n’ellas. É um facto que, tendo-me referido n’uma única occasião ao citado plano e memoria, sem ter reconhecido os logares, vi-me obrigado a fazer uma segunda viagem a Lisboa no mez de fevereiro de 1810, de que resultou mandar destruir as obras que se tinham começado, levantando-se outras em seu logar”

(“Despacho do Duque de Wellington por Gurvoord”, Simão José da Luz Soriano, Historia da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal- segunda epocha- guerra peninsular, tomo II, Lisboa, Imprensa Nacional, 1871, p.532).

Também Luz Soriano desvaloriza o papel de Neves Costa:

“Pelo que respeita á promptificação da carta militar, feita pelo major Neves Costa, e á da sua memória descriptiva, não nos parece haver n’isto cousa que possa ser de gloria especial para o seu auctor, poisque qualquer outro official de engenheiros, a quem o governo commettesse similhantes trabalhos, seguramente os desempenharia por um modo analogo á sua capacidade: era uma cousa propria da sua profissão, e não podia haver n’ella outro merito mais do que o da sua maior ou menor exactidão e perfeito acabamento. Agora quanto a ter elle sido quem preveníra lord Wellington no seu projecto das linhas defensivas de Lisboa, e a ter sido o promotor da carta topographica do terreno ao norte da referida cidade e da respectiva memoria descriptiva; e finalmente a ter indicado na sua dita memoria a maior parte das posições que o dito lord mandára depois fortificar (...) são os tr~es pontos que verdadeiramente nos cumpre examinar.

“(...) a idéa de defender Lisboa por meio de linhas defensivas ou fortificações, segundo as circumstancias e o systema dos differentes tempos, nem é privativa de lord Wellington, nem d’elle major Neves Costa, pois data conhecidamente do dominio dos mouros em primeiro logar, e depois d’elles do reinado de el-rei D. fernando entre nós. (...) tambem já em tempos muito mais proximos ao nosso, como os dois reinados de el-rei D. João IV e D. Affonso VI, houve igualmente entre nós quem procurasse defende-la, mesmo pelo moderno systema de posições fortes pela natureza, como se prova por esse começo de fortificações que se vê, não só na quinta dos viscondes da Bahia, no sitio de Entremuros, na parte que olha para a baixa da Palhavã e quinta dos antigos marquezes de Louriçal, mas até mesmo em algumas partes da ribeira de Alcantara. (...) já no anno dd 1799 fôra apresentado ao governo portuguez um plano detalhado da defeza de Lisboa pelo general inglez, sir Carlos Stuard, pae do individuo que com o mesmo nome foi alguns annos depois ministro de Inglaterra junto aos governadores do reino, poisque o dito general viera em 1797 para Portugal com uma divisão auxiliar(...). Tambem (...) o general Gomes Freire de Andrade apresentara igualmente em 1801 um plano de defeza das Lisboa, por occasião da nossa desgraçada guerra com a Hespanha e a França n’aquelle anno. Acresce a isto que nos primeiros assomos de resistencia aos francezes, concebidos em 1806 pelo ministro de guerra, Antonio de Araujo de Azevedo, antes da partida da familia real para o Brazil, acha-se tambem incluida a idéa da defeza de Lisboa, apresentada por elle a D. Miguel Pereira Forjaz, que trabalhava no seu gabinete, e se diz ter para tal fim confeccionado um plano, de que nada resultou, em consequencia de se ter depois effeituado a referida partida, chegando todavia a realisar-se em esboço o mappa dos terrenos, que vão desde Villa Franca até Torres Vedras.

“Na falta porém de documentos com que possamos abonar a existencia dos tres planos que acabãmos de expor, diremos, fundando-nos para isso nos papeis officiaes, que já antes do major Neves Costa ter entregado a sua allegada memoria descriptiva, cuidava o mesmo D. Miguel Pereira Forjaz nas fortificações de Lisboa, como se prova pelo officio que na data de 1 de abril de 1809 dirigiu ao marechal Beresford, participando-lhe ter expedido as competentes ordens ao inspector das obras publicas, o major de engenheiros Duarte José Fava, para com os competentes louvados avaliar os prejuizos causados aos particulares com as obras das fortificações que se íam executar, e posto que ainda não tivesse recebido aviso de taes avaliações se terem feito, prevenia-o de que não devia por modo algum retardar a execução da fortificação, porque em todo o tempo se podia concluir aquella diligencia. Ao chefe dos engenheiros inglezes, o proprio tenente coronel Fletcher, chegado a Lisboa nos primeiros dias do citado mez de abril, se lhe haviam já por aquelle tempo commettido os trabalhos da fortificação da capital, como se vê de um outro officio, que na data de 12 do referido mez o mesmo D.Miguel Pereira Forjaz tornou a dirigir ao marechal Beresford, communicando haver-se-lhe apresentado o referido tenente coronel de engenheiros, o qual, tendo de acompanhar o exercito britannico, lhe dissera que deixaria em seu logar um official da sua confiança, para dirigir e vigiar a execução dos trabalhos da fortificação de Lisboa, e para que n’elles houvesse a precisa actividade e conveniente acordo, tencionava commissionar para aquelle fim, alem do dito official, o chefe dos engenheiros portuguezes, o marechal de campo José de Moraes Antas Machado. Era effectivamente d’este general e não do major Neves Costa o plano das obras defensivas com que no citado mez de abril de 1809 se buscou guarnecer Lisboa, por escolha de posições fortes pela natureza, entricheirando-as entre si, como se prova pela memoria descriptiva que da respectiva linha nos deixou o citado general. Acresce mais que alem d’elle tambem o lente da antiga academia de fortificação, Lourenço Homem da Cunha d’Eça, se mandou ouvir sobre a defeza de Lisboa, como se vê da memoria que atal respeito dirigiu ao goveno em março de 1809 , dizendo-lhe que a linha defensiva da capital devia passar pelas alturas de mafra, Cabeça e Bucellas, tendo a direita na Alhandra, a esquerda na Ericeira e o centro na Cabeça e Bucellas. Resulta pois do que temos dito que a idéa de defender Lisboa por meio das vantagens que offerecem os terrenos fortes pela natureza nas vizinhanças d’esta capital, quer seja na sua maior ou menor proximidade, nem é privativa de lord Wellington, nem tambem do major Neves Costa. Vejamos agora se a este official cabe ou póde caber alguma parte no que directamente diz respeito ás chamaas linhas de Torres Vedras.

“(...) Napier (...) diz (...) o seguinte: “As montanhas que cobrem a lingua de terra em que Lisboa está edificada deram a idéa original da defeza d’esta cidade.Lord Wellington tinha em seu poder bem feitas e exactas plantas, executadas em 1799 por sir Carlos Stuard, assim como as minutas do coronel Vincent, dos engenheiros francezes, mostrando a maneira como estas montanhas cobriam a capital e por ellas se podia defender. A estes preciosos documentos se attribue pois a idéa original das celebres linhas de Torres Vedras. Comtudo aquelles officiaes (Stuard e Vicent) só tinham considerado o terreno com relação á defeza, que n’elle podia fazer um exercito em movimento, na presença de um inimigo de forças iguaes ou superiores. Foi portanto lord Wellington o primeiro que concebeu o projecto de transformar estas vastas montanhas n’uma immensa e inexpugnavel cidadella, na qual se encerraria a independencia de toda a peninsula”.

“(...) os trabalhos do reconhecimento do coronel Vincent, como tambem succede aos de neves Costa, não tinham por fim a ligação de linhas intrincheiradas, que lord Wellington deu ás posições que lhe pareceram convenientes para formar taes linhas, e constituirem a cidadella inexpugnavel de que falla Napier. E tendo o citado major Neves Costa acompanhado o coronel Vincent nas suas incursões ao respectivo terreno, é um facto que a carta topographica e a memoria descriptiva por elle apresentadas a D. miguel Pereira Forjaz, são em tudo modeladas pelo mesmo systema do referido coronel, tendo por principal objecto, como este diz, mostrar as differentes estradas que pelos terrenos ao norte de Lisboa se dirigem para esta cidade, e provar a facilidade que há em lhe defender o accesso, cousa que o mesmo Neves Costa pela sua parte confirma igualmente, quando nos diz que o alvo dos seus trabalhos não era designar um determinado plano de defeza, mas sim descrever todas as posições fortes pela natureza, que se podiam aproveitar para formar outros tantos systemas ou planos particulares defensivos.Possuindo pois lord Wellington as minutas do coronel Vincent, como afirma Napier, de pouco lhe poderiam servir a carta topographica e a memoria descriptiva do major Neves Costa, já por estar senhor das minutas do coronel francez, e já porque a inspecção que pessoalmente fez do respectivo terreno lhe dispensava até mesmo as citadas minutas, a não o termos por tão inhabil, que lhe fosse preciso quem lhe demonstrasse o que os seus olhos viam, ou as posições que mais lhe convinha incluir nas linhas que pretendia levantar.

“(...)

“Um outro argumento que o major Neves Costa apresenta no seu folheto, parecendo ter grande força, para provar ter elle sido o iniciador das linhas de Torres Vedras, é o dizer que a maior parte das posições comprehendidas por lord Wellington nas referidas linhas já por elle tinham sido indicadas na sua memória de reconhecimento. Este argumento não é para nós convincente, porque as posições fortes de qualquer terreno, que se pretenda defender, a todo o homem entendido na materia por si mesmas se lhe fazem reconhecer como taes, apenas lance os olhos sobre o referido terreno (...).”

(Simão José da Luz Soriano, Historia da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal- segunda epocha- guerra peninsular, tomo II, Lisboa, Imprensa Nacional, 1871, pp. 521-530).

Perante o peso dos seus argumentos, o próprio Luz Soriano acaba por ignorar o papel de Neves Costa, atribuindo as origens das Linhas de Torres “ 1º, à muralha com que el-rei D. Fernando carcára Lisboa e ao bom resultado qu aoabrigo d’ella tirou seu irmão, el-rei D. João I, quando em 1384 resistiu aos exercitos castelhanos; 2º, á conducta de Francisco I, rei de França, quando em 1536 se oppoz á invasão que o imperador Carlos V fez na Provença; 3º ao mappa topographico dos terrenos ao norte de Lisboa, levantado ou mandado levantar pelo general Stuard, mappa que acompanhava sir Arthur Wellesley, quando em 1808 veiu para Portugal, segundo o seu proprio testemunho, mencionado no seu relatorio á commissão de inquerito, instituida em Londres n’aquelle mesmo anno, 4º, finalmente de novo ao referido mappa, de que tornou a munir-se no anno de 1809, quando por segunda vez veiu a Portugal, e ás minutas do coronel Vincent, que tambem comsigo trazia(...)”.

(Simão José da Luz Soriano, Historia da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal- segunda epocha- guerra peninsular, tomo II, Lisboa, Imprensa Nacional, 1871, 531).

Vieira Ribeiro, por sua vez, repões Neves Costa no lugar que, quanto a nós, merece:

“(...) podemos pois concluir que as linhas de Torres se devem a Vincent que, conhecendo as vantagens que podia tirar para a defesa de Lisboa da natureza do terreno ao norte, mandou levantar a sua planta.

“A Neves Costa que, primeiro por ordem de Vincent e depois por iniciativa propria, levantou a planta do terreno e escreveu uma Memoria do seu reconhecimento militar em que detalhadamente descreve as differentes posições com valor militar que cada uma d’ellas tem; a qual foi entrgue a Lord Wellington em junhio de 1809 e o levou ao estudo e organisação das Linhas.

“A Fletcher que, pela sua intelligencia, actividade e boa organisação dos trabalhos, pôde em tão curto espaço de tempo, oprganisar tão completamente as duas linhas de entrincheiramento.

“Ao nosso povo que, animado do maior patriotismo, a tudo se sacrificou para defesa da patria”.

(Vieira Ribeiro, “Neves Costa e as Linhas de Torres Vedras”, 2ª parte, Revista de Engenheria Militar, nº 2-16º ano, Fevereiro de 1911, pp.49-59, p.58).

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

No Bicentenário da Batalha de Dois Portos

A “Batalha de Dois Portos”, uma batalha “quase” esquecida



Por vezes são os momentos menos espectaculares, ou até quase esquecidos, que se revelam decisivos num guerra prolongada.
Foi o caso da chamada “Batalha de Dois Portos”, episódio pouco conhecido da terceira invasão francesa.
No dia 9 de Outubro de 1810 o exército aliado chegava às Linhas de Torres, sempre seguido de perto pela cavalaria francesa em distância à vista.
Alguns oficiais e soldados da guarnição das Linhas, a cavalo, aguardavam pelas diferentes unidades para as guiarem para as obras ou localidades que lhes eram destinadas.
Desde o dia 7 ou 8, conforme as fontes, chovia copiosamente, obrigando as tropas anglo-lusas, recém chegadas, “a buscar arrebatadamente o abrigo das casas, que pela maior parte estavam abandonadas”, queixando-se o autor desta descrição, o padre torriense Madeira Torres, de “então se perderam, e” serem “preza dos soldados nacionaes, e alliados, os fructos não só pendentes, e mal começados a colher, como vinho e azeite,” bem como “os mesmos recolhidos nos celleiros publicos e particulares, que não eram guardados immediatamente por seus donos, e munidos de sentinellas, chegando o excesso a serem a maior parte das casas despejadas dos seus moveis, quasi todos os cartorios publicos, e particulares parcialmente roubados, o do Escrivão das Sizas, e de um da Correição totalmente destruídos” (in Manuel Agostinho Madeira Torres, Descripção Historica e Economica da Villa e Termo de Torres Vedras, 2ª edição anotada, 1862, (1º edição em 1819), p. 178).

Com a chuva, encheu-se rapidamente o lado direito do rio Sizandro “tornando-se pelo lado de Torres Vedras n’um formidavel obstaculo defensivo sobre o flanco esquerdo da citada linha, não lhe restando então em toda ella, desde o Oceano até ao Tejo, mais do que um intervallo de duas leguas e meia, pouco mais ou menos, não fortificado, ao sul do valle de Runa, entre a villa de Torres Vedras e Monte Agraço”(in  Simão José da Luz Soriano, Historia da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal- segunda epocha- guerra peninsular, tomo III, Lisboa, Imprensa Nacional, 1874, pp. 217-218).

Entretanto, fustigados pelo mau tempo, as tropas francesas iam-se aproximando lentamente das Linhas, cuja existência desconheciam:“Vinha à frente, comandando a cavalaria de reserva, o general Montbrun, que na manhã de 11, depois de na véspera à tarde ter repelido as últimas fracções do exército anglo-luso, sob o comando de Craufurd (…), mandára reconhecer a estrada em direcção de Vila Franca”. Foi o brigadeiro Pedro Soult, encarregado desta missão, que o informou “dos fortes entricheiramentos que vira em Alhandra. A exploração feita na direcção do Sobral, Arruda e Zibreira trouxe-lhe notícias análogas, o que levou o aludido general, por sua vez, a informar o comandante chefe, então ainda longe, à rectaguarda, de que tinha na sua frente uma linha contínua de fortes entricheiramentos e estendendo-se até um ponto, para oeste, que não podia ainda precisar.
“Os reconhecimentos continuaram nos dias 12 e 13, ocasionando escaramuças, algumas de certa importância, como a que se travou na vila do Sobral (…)” (in J.J. Teixeira Botelho, História Popular da Guerra da Península, Porto, 1915, pp. 415-416)

No dia 12 de Outubro marchou a vanguarda do exercito francês para Vila Franca de Xira, “tomando lá as posições que julgou convenientes, distribuindo as tropas pela dita villa, por Povos e Castanheira”. O oitavo corpo marchou de Alenquer para o Sobral, apoderando-se desta vila onde, durante a noite, construiu algumas trincheiras para defesa própria, sendo no Sobral que Massena estabeleceu o seu quartel general.
“Para alem de Runa a serra do Barregudo e os fortes que se tinham levantado em Torres Vedras não permittiam ao marechal Massena movimento algum de flanco por aquelle lado, não lhe restando portanto mais que a possibilidade de dispor as suas tropas entre Villa Franca e o Sobral, com a vantagem de que emquanto a testa das suas columas ameaçava as partes mais fracas da linha, podia elle em poucas horas concentrar todo o seu exercito no ponto que mais lhe conviesse atacar entre o Tejo e a citada serra do Barregudo. O segundo corpo, continuando a occupar as serras fronteiras da Alhandra, estendia a sua direita até á villa da Arruda, sobre um terreno bastante aberto. Um forte posto de cavallaria, collocado na dita villa, cobria a extremidade da sua direita, ligando-a com o oitavo corpo, cuja frente se achava para diante do Sobral, occupando as menores alturas da citada serra do Barregudo, e guarnecendo tambem as duas margens do rio Sizandro até ás Duas Portas” (sic) “, sobre a estrada de Runa” ( in  Simão José da Luz Soriano, Historia da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal- segunda epocha- guerra peninsular, tomo III, Lisboa, Imprensa Nacional, 1874, pp. 236 e 237).

É na sequência deste posicionamento que tem lugar, em 13 de Outubro, a chamada “batalha de Dois Portos”.

O combate foi travado entre as tropas de um dos postos avançados das Linhas Torres Vedras, e uma “considerável força inimiga”, que, na tarde do dia 13, avançando sobre o mesmo posto, provocou a batalha. Nela participaram, pela parte aliada, duas companhias do regimento n.ºs 11 e 23.(in Claudio de Chaby, Excertos Historicos e Collecção de Documentos relativos á Guerra Denominada da Peninsula (...), Lx. Imprensa Nacional, 1871, vol.III, pp.237-238).
Sabe-se que a posição definida para esses regimentos era, respectivamente, a Portela e a Patameira, entre as posições da Ribaldeira e do Sobral ( in Simão José da Luz Soriano, Historia da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal- segunda epocha- guerra peninsular, tomo III, Lisboa, Imprensa Nacional, 1874, p. 222).

O registo dessa batalha deve-se à memória anónima de um oficial português que a ela assistiu:

“ Por ordem anterior fomos de madrugada formar para o outro lado da ponte de Dois Portos, a qual, assim como outra que ha do lado direito, estão já minadas para saltarem em caso de necessidade. Sendo já dia claro [13 de Outubro] retirámo-nos para os quarteis. - Pelas duas horas da tarde, tendo-se percebido já que os francezes tentavam algum reconhecimento pelo lado do Sobral, para onde tinhamos as nossas avançadas, principiou-se a ouvir fogo, entre elles e uma avançada ingleza que havia à nossa esquerda: viu-se que um forte corpo de tropas francezas, tomava uma altura junto a um moinho. Eu que tinha sido mandado em observação, dei d’isto parte ao general e ao brigadeiro, e quando elles chegaram era já respeitavel a força inimiga, que se apresentava contra as nossas avançadas. A poucos minutos principiou o fogo com os nossos, pois que os estrangeiros se tinham retirado; e tanto valor mostravam as nossas tropas, que obrigaram os francezes a desistir da tentativa depois de bem destroçados. - Não tive eu a fortuna de tomar parte no calor da acção, porque tinha sido mandado pelo general encaminhar a brigada ao alto da outra parte, pelo caminho que no dia 12 tinha reconhecido para retirada, receiando elle que a isso fossemos depois obrigados. Tivemos a sensivel perda do coronel Harvey commandante da brigada, que na acção ficou ferido, a ponto de lhe ser necessario ir tratar de si com todo o cuidado. Esta perda é geralmente sentida por toda a brigada e mesmo pelos officiaes generaes do exercito. - Á noite tornou o inimigo para as suas antigas guardas; nós não baixámos: fizemos saltar as pontes.”. ( in Simão José da Luz Soriano, Historia da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal- segunda epocha- guerra peninsular, tomo III, Lisboa, Imprensa Nacional, 1874, p. 222).

Ao mesmo acontecimento referiu-se o duque de Wellington nos seguintes termos: “O inimigo atacou hoje [13 de Outubro] os piquetes da divisão do general Cole, ao pé do Sobral, porém não teve muito effeito este seu ataque. Tenho sabido com maior satisfação, que as tropas portuguezas da brigada do coronel Harvey, composta dos regimentos 11 e 23, outra vez se hão distinguido n’esta occasião; o coronel Harvey ha infelizmente ficado ferido, porém espero que o haja sido levemente (...)” (in Claudio de Chaby, Excertos Historicos e Collecção de Documentos relativos á Guerra Denominada da Peninsula (...), Lx. Imprensa Nacional, 1871, vol.III, pp.237-238).

Ao combate referiu-se igualmente Beresford na sua “Ordem do Dia” de 16 de Outubro:

“Sua Excellencia o Senhor Marechal Commandante em Chefe do Exercito Portuguez, não póde deixar de fazer menção da excellente conduta de hum Piquete Composto de duas Companhias dos Regimentos de Infantaria N. 11 e 23, Commandado pelo Major Miller do ultimo destes Regimentos, em hum choque contra o Inimigo na tarde de 13 do corrente. O Senhor Major General Cole fez a Sua Excellencia os maiores elogios do comportamento desta pequena força contra outra consideravelmente superior, a qual atacou de Boioneta , repulsou e seguio atá á sua reserva. O valor e sangue frio das referidas duas Companhias foi admirável bem como a do Major Miller, e o Capitão Joaquim Telles do Regimento N.11 se distinguio muito. He com o maior pezar, que Sua Excellencia recebeo a participação de que neste choque o Commandante da Brigada, o Senhor Coronel Harvey tinha sido consideravelmente ferido; a perda dos serviços deste excellente Official na presente conjuntura lhe he sensível com particularidade, e S. Excellencia sabe que esta perda não he menos sentida pelos Officiaes e Soldados da Brigada, que conhecem a vantagem que lhe tem resultado de o terem por Commandante” (In “Collecção das Ordens do Dia do Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Guilherme Carr Beresford (…)”, Segundo Anno, Coimbra, na Real Imprensa da Universidade, 1810, Ordem do Dia de 16 de Outubro de 1810, no Quartel Gereral de Enxara do Bispo, pág. 118).

No dia seguinte ainda se registaram alguns recontros esporádicos à volta do Sobral, chegando nesse mesmo dia o grosso do exército francês.
Depressa os franceses se aperceberam da impossibilidade de se movimentarem mais para sul, lutando desesperadamente contra a falta de mantimentos.
A situação era descrita por Wellington nos seguintes termos: “As difficuldades que o inimigo experimenta em procurar subsistencias, o que é devido a elle por haver invadido este paiz sem o apoio de depositos, e sem que adoptasse medidas para segurar a sua retaguarda, ou as suas communicações com Hespanha, o tem posto na necessidade de que os seus soldados se extraviem com o fim de procurarem com que se mantenham, e por isto mesmo não passa dia sem que venham desertores e prisioneiros”( in “officio do marechal general lord Wellington a D. Miguel Pereira Forjaz”, de 20 de Outubro, in Claudio de Chaby, Excerptos Historicos e Collecção de Documentos relativos á Guerra denominada da Peninsula (...), Vol. VI, Lisboa, Imprensa Nacional, 1882, Documento nº74, pp.190 a192).

Rotos, esfomeados, acossados pela guerrilha, as tropas comandadas por Massena iniciaram, em 15 de Novembro, a sua retirada da frente das linhas.

A batalha de Dois Portos foi assim, apesar de pequena, decisiva para impedir que as tropas francesas lograssem romper as Linhas de Torres.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Os homens das posições fortificadas de Torres Vedras

Durante a 3ª Invasão Francesa (1810-1811), mais concretamente entre Outubro de 1810 e Março de 1811,  o território de Torres Vedras foi ocupado por vários regimentos de milícias para guarneceram as posições fortificadas das Linhas de Torres Vedras. À data da sua chegada existiam 12 fortes construídos (Forte de Olheiros, Forte de S. Vicente, Forte da Forca, Forte da Ordasqueira, Castelo, reduto de S. João, Forte do Grilo, Forte da Alquiteira, Forte de S. Pedro da Cadeira, Forte do Paço, Forte das Gentias e a bateria  da foz do Sizandro), guarnecidos pelos Regimentos de Milícias de Alcácer do Sal, Regimento de Milícias de Setúbal,  Regimento de Milícias de Voluntários a Pé de Lisboa Ocidental , Regimento de Milícias de Voluntários a Pé de Lisboa Oriental e uma companhia do Regimento de Milícias de Torres Vedras (as restantes companhias deste regimento guarneciam outras posições das Linhas de Torres Vedras).

Sobre a localização exacta destes regimentos ao longo das doze posições, apenas se sabe que o Regimento de Milícias de Voluntários Reais a Pé de Lisboa Ocidental  guarneceu o forte de S. Vicente. Este regimento, organizado por voluntários de Lisboa em 1809, era comandado pelo coronel José Sebastião Pereira Coutinho e composto por 969 elementos, sendo 661 praças. Por uma carta do comandante do regimento de 24 de Outubro de 1810, verifica-se que este corpo militar estava muito mal armado, na medida em que se pediu 720 armas ao Secretário da Guerra para substituir as existentes, muito danificadas e incapazes para o serviço militar. Nos meses de Outubro e Novembro os soldados voluntários permaneceram acampados no interior do forte, mas a partir de Dezembro até 22 de Março passaram a ficar aquartelados nas casas da então vila de Torres Vedras e sítio do Paúl, nas proximidades do forte.

Para além dos regimentos de milícias, a guarnição dos fortes compunha-se por artilheiros. Os artilheiros tinham duas origens distintas: uns eram artilheiros de linha, ou seja, provenientes das forças regulares, nomeadamente do Regimento de Artilharia n.º 1 e Regimento de Artilharia n.º 2. Com a função de os auxiliar nas manobras e operações da artilharia, o Comandante em Chefe do Exército Português, general Beresford ordenou a criação dos artilheiros ordenanças, compostos por elementos retirados das ordenanças existentes em cada capitania mór. Recebiam treino e formação dos artilheiros de linha  para o apoio nas operações das peças de fogo. Os artilheiros ordenanças (ou milicianos) estavam organizados em 24 companhias que cobriam as duas linhas de defesa. Cada companhia era formada por 1 capitão, 1 alferes, 2 sargentos, 4 cabos e 50 soldados que recebiam por dia 1 pão e 40 réis de soldo. No distrito de Torres Vedras existiam 10 companhias, comandadas a partir de 10 de Setembro de 1810 pelo major de engenharia Lourenço Homem da Cunha de Eça. Após a fim da Guerra Peninsular e o subsequente desartilhamento das Linhas de Torres Vedras a partir de 1818, as companhias de artilheiros ordenanças continuaram a existir com a função de vigilância e conservação das posições fortificadas até ao período das Guerras Liberais (1832-1834).


Fontes:

Arquivo Histórico Militar (AHM)

AHM- DIV-1-14-156-19
AHM-DIV-1-14-354-03
AHM-DIV-1-14-096-025
AHM-DIV-1-14-097-02
AHM-DIV-1-14-096-095




terça-feira, 7 de setembro de 2010

A História das Linhas de Torres segundo John Jones.

 
(Richard Fletcher, o superior de John Jones nas Construção das Linhas de Torres)

O coronel John Thomas Jones veio para Portugal como assistente de Richard Fletcher na construção das chamadas "Linhas de Torres".
Acabou por deixar escrita uma memória, editada em Londres em 1829, intitulada "The Lines Thrown up the Cover Lisbon in 1810 e que está disponível na internet AQUI.
É mais um contributo para a divulgação de fontes sobre as Linhas de Torres Vedras.

(Mapa das Linhas de Torres publicado na Wikipedia)

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

No Regresso

Regressamos hoje aqui para retomar este espaço dedicado a Torres Vedras, às suas actividades culturais, à sua história e património.

Os próximos meses vão ser marcados por duas efemérides, o Bicentenário das Linhas de Torres Vedras e o Centenário da República.

A primeira está directamente relacionada com esta região, e a segunda, embora muitos dos seus acontecimentos estejam centralizados em Lisboa, afectaram igualmente, de modo profundo, as relações sociais, económicas, políticas e culturais de um concelho com este próximo de Lisboa.

À medida das nossas possibilidades, vamos dar um destaque mais intenso neste blogue, durante os próximos meses, a essas duas efemérides e ao seu impacto na região de Torres Vedras.

Para começar, divulgamos hoje AQUI um interessante e estudo, publicado na Revista Militar, revista que tem dedicado um espaço assinalável do seu espaço ao Bicentenário das Invasões francesas, sobre a importância de Neves Costa para a construção das Linhas de Torres.

Esperamos que vos interesse.

Até Breve.

domingo, 9 de maio de 2010

Turres Veteras XIII - 14 a 15 de Maio

A não perder no próximo fim-de-semana mais uma edição de "TURRES VETERAS", que já vai na sua 13ª edição.
O tema deste ano é "A Vida Quotidiana nas Linhas de Torres Vedras", realizando-se nos Paços do Concelho com o seguinte programa:
(Clicar na imagem para ver em ponto grande)

terça-feira, 23 de março de 2010

Descendente de Wellington visita as Linhas de Torres Vedras.

(Duque de Wellington, aliás Lord Douro, regressa às Linhas de Torres - Foto Público)

Decorreu este fim de semana um raid hipico, percorrendo as Linhas de Torres Vedras, que contou com a presença do descendente do Duque de Wellington.
O Público de hoje inclui uma grande reportagem sobre mais esse acontecimento comemorativo das "Linhas de Torres", cuja reprodução integral incluimos em baixo, como mais um documento importante para este ano do bicentenário:

"A cavalo pelas linhas onde começou a derrota de Napoleão



Lord Douro é descendente directo de Arthur Wellesley, o general britânico que entrou para a história como herói das guerras napoleónicas. No sábado, montou a cavalo e visitou as Linhas de Torres, o palco onde começou a derrota final de Napoleão. Foi uma viagem no tempo. Por Luís Francisco (texto) e Raquel Esperança (fotografia)
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Um general inglês, tropas portuguesas e inglesas, mão-de-obra lusitana. A mais antiga aliança militar da Europa produziu os efeitos gloriosos há exactamente dois séculos, quando a terceira invasão francesa partiu os dentes às portas de Lisboa. Em apenas um ano, a visão de Arthur Wellesley (futuro duque de Wellington) e o suor dos portugueses criaram uma das mais notáveis linhas de defesa da História. Para comemorar o feito, decorre um extenso programa de celebrações, que no sábado passado incluiu a visita de Lord Douro, o descendente directo do homem que travou Napoleão. Tal como o seu antepassado, o nobre britânico montou um cavalo castanho (emprestado por um criador português de cavalos de raça árabe). Ao peito tinha o número 33, exactamente o mesmo do regimento do seu tetravô. E foi assim que largou para o Raid dos 200 Anos das Linhas de Torres Vedras, prova de resistência hípica que juntou algumas dezenas de participantes num percurso pelas fortificações erguidas no início do século XIX e que agora vão sendo recuperadas.

É uma viagem no tempo, um relance sobre o passado que em muito deve às tecnologias do futuro. "Os moinhos dão um jeitão", explica Clive Gilbert, vice-presidente da Bitish Historical Society of Portugal. A paisagem explica o resto: nas ventosas cumeeiras das serras do Oeste alinham-se os ciclópicos moinhos da era moderna, os geradores eólicos. Para os colocar no local e garantir a sua manutenção, os proprietários construíram estradas que rendilham os pontos mais elevados. E foi exactamente aqui que Wellington mandou construir as fortificações das Linhas de Torres.

São, na sua esmagadora maioria, redutos escavados nos pontos mais elevados, protegidos por fossos e parapeitos e munidos de seteiras para permitir a instalação de peças de artilharia. Foram construídos às dezenas (152 no total) num curto lapso de tempo e travaram as tropas napoleónicas lideradas pelo general francês Massena.

As invasões francesas

Um pouco de enquadramento. As ambições territoriais de Napoleão Bonaparte levaram-no a assinar um pacto com Espanha (em Outubro de 1807) e a invadir Portugal, cujo destino seria ser dividido pelas nações conquistadoras. A ideia era isolar ainda mais a Grã-Bretanha, histórica aliada dos portugueses. O primeiro acto foi pouco heróico para as cores lusas: os franceses chegaram, a família real fugiu para o Brasil (levando 15 mil pessoas consigo) e o general Junot tomou as rédeas do país.

Mas então a história começou a mudar. Os franceses não respeitaram a autoridade real de Carlos IV de Espanha e, perante a insatisfação popular, tiveram de concentrar forças no país vizinho. O desembarque em Portugal de Arthur Wellesley e 10 mil soldados britânicos permitiu expulsar os franceses, entretanto já acossados por vários focos de rebelião popular. Era o fim da 1.ª Invasão e a segunda, menos de ano e meio depois, quase não teve história.

Mas em 1810 os franceses voltaram à carga. Desta vez, porém, havia um plano específico para os travar antes de chegarem à capital. Wellington decidiu que as populações das Beiras retirariam das suas casas e propriedades, recolhendo-se a sul das Linhas de Torres. Para trás não deixaram nada que pudesse sustentar as tropas de Massena. A política da "terra queimada" era apenas um dos pormenores da estratégia. Outros eram a formação de linhas sucessivas de fortificações e o estabelecimento de sistemas de comunicação que permitiam saber rapidamente o que fazia o inimigo e movimentar as tropas para fazer face à ameaça.

Começou aqui a ideia de que a informação é poder, um princípio basilar da guerra moderna. O primeiro correspondente de guerra, no sentido mais actual do termo, foi Henry Crabb Robinson, que exerceu a sua actividade para o jornal The Times, primeiro na Alemanha e depois na península Ibérica, incluindo Portugal. Diz-se mesmo que, desconfiando dos relatos que lhe eram fornecidos pelos seus generais, Napoleão tinha espiões em Londres cuja missão era ler os jornais ingleses e reportar ao imperador o que realmente se passava no teatro de guerra...

A história a cavalo

Em Portugal, nos idos de 1810, o que se passava era um jogo de xadrez militar. Wellington organizou a defesa nas Linhas de Torres de forma exemplar. "Era um homem extraordinário", explica Clive Gilbert. "Capaz de ver o quadro geral, mas também de estar atento aos pequenos detalhes."

Clive, um inglês nascido em Lisboa - "sou alfacinha, da freguesia de Santa Isabel" -, fala durante o périplo por várias das fortificações instaladas na região. Mostra como as defesas estavam organizadas em duas linhas sucessivas, mas com alguns fortins pelo meio. "Neste [o número 28, tal como o 29], havia forças preparadas para retardar o inimigo se a primeira linha cedesse, permitindo o reagrupamento das milícias na segunda."

O corpo principal do Exército estacionava por perto, pronto a intervir nos pontos críticos. "As Linhas de Torres eram dinâmicas e essa foi a grande diferença", explica Gilbert. Os generais sabiam sempre o que se passava, porque os postos de observação comunicavam entre si através de um sistema de telégrafo visual (com balões e bandeiras) que utilizava os códigos da Marinha britânica. Um código ainda hoje tão secreto que, ao pedir informações para replicar o sistema no alto da serra do Socorro, as equipas portuguesas receberam apenas dois ou três exemplos concretos de mensagens.

Por esta altura, claro, o descendente de Wellington já não vai a cavalo. Ele cumpriu apenas o sector curto da prova, 20 km por montes e vales, menos de metade do que o grande general palmilhava todos os dias durante a guerra. "Já tinha visitado as Linhas, mas fazê-lo a cavalo é muito especial", assume Lord Douro, enquanto petisca qualquer coisa após a chegada. É por esta altura que lhe dizem que foi o vencedor da competição curta, uma vez que o seu cavalo era o que apresentava melhores índices físicos no final do percurso.

É claro que os outros dois "competidores" se limitaram a fazer-lhe escolta e o ilustre visitante não esconde isso. "Mas eu nem corri... Quem quer que tenha visto a velocidade a que passei percebe logo que não se pode usar essa palavra", graceja. Contou com um cavalo de excelente nível, cujo destino será agora o Qatar. "E era da mesma cor do do meu antepassado, o Copenhagen!"

Uma guerra moderna

"Foi uma sensação fantástica, cavalgar pelos locais onde o meu tetravô andou. Ele não deixou memórias, mas era muito prolífico em relatórios e cartas. Por isso, ao ver esta paisagem, foi como se estivesse a reviver o que ele contava." Bom, com algumas limitações... "Não gostei de ver tantos moinhos; sou a favor das energias renováveis, mas não em paisagens belas e históricas como esta. Na Escócia, acontece o mesmo..."

A boa disposição de Lord Douro (nome que adoptou entre os vários títulos honoríficos da família, retirando o "do" da denominação portuguesa) percebe-se. Quando lhe perguntam se a memória de um herói de guerra como Wellington é um fardo ou uma honra, não hesita: "Não pude escolher de quem descendo. Fiz a minha vida independente disso, nos negócios, na política [foi eurodeputado durante dez anos]. Mas a verdade é que me tem sido proporcionada a possibilidade de visitar e conhecer sítios fantásticos, por causa das homenagens ao meu antepassado."

Sempre com um sorriso para as objectivas dos fotógrafos, o herdeiro de Wellington não se coibiu de brincar com os espectadores que se aglomeravam junto de uma descida particularmente íngreme: "Portanto, vieram até aqui só para me verem cair!" Apesar de já não ser um jovem (fará 65 anos em Agosto), não só não caiu como cumpriu aqueles exigentes (e escorregadios) metros na sela, ao contrário de outros participantes, que desmontaram e levaram o cavalo pela arreata.

É tempo de regressar aos carros e continuar o périplo pelas Linhas de Torres, sempre encontrando pelo caminho alguns dos participantes da prova equestre. Entramos no forte do Alqueidão, onde escavações recentes começam a dar melhor uma ideia do que era este grande reduto a mais de 430 metros de altitude, em linha de vista com a serra do Socorro (395 metros), onde, horas depois, se inaugurou uma réplica do telégrafo visual que tanto ajudou no tempo das invasões francesas. "Belo trabalho dos engenheiros portugueses", realça Lord Douro, perante a velha calçada da estrada militar.

Foi neste e noutros cenários, como as quintas onde se instalavam os generais, que se decidiu a batalha que marcou o fim das ambições napoleónicas de dominar a Europa. Era uma guerra de antigamente. Uma guerra que parava no Inverno. Nessas alturas, os piquetes luso-britânicos e franceses encontravam-se. "Os franceses queriam jornais, os britânicos brandy...", ri-se Clive Gilbert. Já os generais ofereciam-se outros requintes. "Os franceses convidavam os britânicos para assistirem a peças de Moliére em Santarém; os britânicos recebiam os franceses para corridas de cavalos e jogos de futebol [um futebol arcaico, antecessor do actual]."

Era, de facto, uma guerra à antiga. Mas que lançou muitas das bases da guerra moderna. E o seu testemunho jaz, em tantos casos ainda escondido, nas serranias do Oeste. À espera que os portugueses o descubram".