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quinta-feira, 24 de abril de 2025

TORRES VEDRAS E AS PRIMEIRAS ELEIÇÕES LIVRES – 25 de ABRIL de 1975


Passam agora 50 anos sobre a realização das primeiras eleições livres em Portugal, que ocorreram em 25 de Abril de 1975.

Foram então eleitos os deputados para a Assembleia Constituinte da qual resultou a constituição democrática de 1976.

Em Torres Vedras, tal como aconteceu por todo o país, essas eleições foram um êxito, com uma abstenção inferior a ...10%!

Note-se, a título de curiosidade, que nas últimas eleições para o Parlamento, realizadas em 10 de Março de 2024 a abstenção no concelho foi de 29,44%, um dos valores mais baixos registado em democracia. 

Torres Vedras tinha um corpo eleitoral com mais de 44 mil eleitores em condições de votarem (em 2024 estavam inscritos no concelho pouco mais de 70 mil eleitores) e a corrida às urnas foi idêntica ao que aconteceu em todo o país.

Concorriam ao círculo eleitoral de Lisboa 11 partidos políticos.

Em Torres Vedras as mesas de voto para essas eleições foram distribuídas do seguinte modo pelas freguesias do concelho:

A – Dos -Cunhados : 8 mesas de voto, 2 na localidade sede, 2 na Maceira, 1 na Boavista, 1 na Póvoa de Penafirme e 2 no Sobreiro Curvo, todas nas escolas dessas localidades e, nesta última, também na sede do grupo desportivo local;

Campelos – 2 mesas nas escolas;

Carmões – 1 mesa na escola;

Carvoeira – 3 mesas, 2 nas Carvoeira, respectivamente na sede da Junta e na Casa do Povo e uma nas Carreiras, na sede da Associação Dramática e Recreativa desta aldeia;

Dois Portos – 4 mesas distribuídas pelas escolas, 2 em Dois Portos, 1 na Ribaldeira e 1 na Bulegueira;

Freiria – 3 mesas todas a funcionar da sede do Sport Clube da Freiria;

Maxial – 5 mesas, 1 em cada uma das escolas da Aldeia Grande e do Outeiro e as outras 3 no Maxial, duas na escola e uma na sede da junta;

Matacães – 2 mesas, ambas na Casa do Povo;

Monte Redondo – 1 mesa na Casa do Povo;

Ponte do Rol – 3 mesas, todas no Salão Paroquial;

Ramalhal – 4 mesas, uma no Salão Paroquial de Vila Facaia, uma na escola do Amial e 2 da escola do Ramalhal;

Runa – 2 mesas na Casa do Povo;

Santa Maria – 3 mesas, 2 na Serra da Vila, respectivamente na escola e no salão do Grupo Desportivo e outra na escola da Orjariça;

S. Pedro da Cadeira – 5 mesas, todas em escolas, respectivamente 2 na de S. Pedro da Cadeira, e uma cada nas de Cambelas, Coutada e Assenta;

Silveira – 5 mesas, todas em escolas, 2 na dos Casalinhos de Alfaiata, 2 na da Silveira, e uma na Boavista;

Turcifal – 4 mesas, três no salão paroquial do Turcifal e outra na sede do Grupo Desportivo da Freixofeira;

Ventosa – 5 mesas, uma na escola do Bonabal, duas na escola da Pedra e duas no Salão Paroquial da Ventosa;

S. Pedro – a maior freguesia urbana com 19 mesas, distribuídas do seguinte modo: uma em cada uma das escolas do Varatojo, da Louriceira, e da Fonte Grada. As restantes 15 mesas distribuíam-se por vário locais da então vila: 11 mesas no edifício da Escola Técnica (a actual Henriques Nogueira), 2 nos antigos Paços do Concelho e duas na “Física Antiga” (1).

O Partido Socialista venceu a nível nacional, distrital e concelhio.

Em Torres Vedras o PS só não foi o partido mais votado em A-Dos-Cunhados, Campelos, Freiria, Silveira e S. Mamede da Ventosa, freguesias onde o então PPD foi o partido mais votado.

Votaram no PS 15 881 torrienses (43,59%) (Nas eleições de 2024 votaram, no PS, 12 174 (24,44%)).

O então PPD (hoje PPD/PSD) foi o segundo partido mais votado a nível nacional e local, tendo obtido 10 091 votos (27,70%) neste concelho (Nas últimas eleições parlamentares esse partido, em coligação como o CDS e o PPM, obteve 14 242 votos (28,60%)). Em 1975, tanto o CDS como o PPM concorreram em listas próprias. Neste concelho o CDS obteve 1 181 votos (3,24%) e o PPM 504 votos (1,38%).

O PCP foi então o terceiro partido mais votado no concelho, com 5 095 votos (13,99%). O seu futuro parceiro de coligações eleitorais, na FEPU,  o MDP, obteve 1 406 votos (3,85%), o que perfaz um total de 6 501 votos (17,84%) nessa área política (nas eleições de 2024 o PCP-PEV obteve, neste concelho, apenas 1 652 votos (3,32%)).

O PCP teve os seus melhores resultados nas freguesias de Dois Portos, Monte Redondo, Stª Maria (vila) e Runa, onde foi a segunda força política mais votada, as mesmas freguesias onde o PPD teve o seu pior resultado.

O pior resultado do PCP, que foi a terceira força política mais votada nas restantes freguesias, foi em Campelos, sendo ultrapassado pelo CDS, que nessa freguesia obteve o seu melhor resultado relativo.

Às eleições constituintes de 1975, com base nas quais se formou o primeiro parlamento democrático, concorreram mais cinco partidos conotados com a esquerda radical. Estes, no concelho de Torres Vedras obtiveram o seguinte resultado: o MES com 370 votos (1,01%), partido cujos militantes mais destacados vieram mais tarde a integrar o PS; a FSP, uma cisão à esquerda do PS, após o congresso de Janeiro desse ano, que obteve 794 votos (2,17%); o LCI, de tendência trotskista, obteve 307 votos (0,84%); o FEC (m-l) obteve 281 votos (0,77%) e a UDP 515 votos (1,41%), estes dois de tendência maoista, acabando o primeiro por se fundir no segundo. Por sua vez, após um longo processo de fusões, estes três últimos partidos (LCI, FEC (m-l) e UDP) acabariam por dar origem ao actual Bloco de Esquerda que também terá integrado eleitores oriundos do MES e da FSP. )A título de curiosidade, o BE obteve em Torres Vedras, nas últimas eleições parlamentares, 2 486 votos (4,99%)).

Se a maior parte dos partidos obteve a maior parte dos votos expressos na freguesia urbana de S. Pedro, tal não aconteceu,  curiosamente com o LCI que teve mais votos em A-Dos-Cunhados e com a UDP ( que elegeu dois deputados pelo círculo de Lisboa) que teve mais votos em 4 freguesias rurais do que nas freguesias urbanas, nomeadamente na Silveira, S. Mamede da Ventosa, A-Dos-Cunhados e S. Pedro da Cadeira.

Dois deputados de Torres Vedras foram eleitos para a Assembleia Constituinte, Alberto Avelino pelo PS e Afonso de Moura Guedes pelo PSD. Estes são os dois nomes de Torres Vedras que são referidos no site da Assembleia da República.

Contudo esta informação carece de correcção, que nos foi dada por José Damas Antunes:

"Moura Guedes não foi eleito directamente, o PPD só elegeu 9 deputados por Lisboa, o Afonso ía em 10º, entrou logo mas a substituir Magalhães Mota, que estava no governo. Há outro Deputado de Torres Vedras, o Furtado Fernandes, eleito por Santarém, e outros que morava em Torres Vedras, o Bento Gonçalves, eleito pelo Porto".

Aqui ficam alguns documentos para recordar esse momento fundador da democracia parlamentar, cujo cinquentenário se comemora este mês.

(1)      Os dados aqui referidos baseiam-se nas informações disponibilizadas nas páginas do jornal Badaladas publicadas nas edições de Março e Abril de 1975.

 

 

quarta-feira, 17 de julho de 2024

A Transição do Poder Municipal no 25 de Abril


Quando da imposição de uma ditadura militar, em 28 de Maio de 1926, foram dissolvidos todos os corpos administrativos, e nomeadas comissões administrativas para gerir o poder municipal. Esta situação conheceu várias vicissitudes e alterações, resultado da indefinição política saída desse golpe militar, situação que só se clarificou com a aprovação da Constituição de 1933, que inaugurou o regime do Estado Novo.

Só com a promulgação do Código Administrativo de 1936, desenvolvido no Código Administrativo de 1940, se estabilizou o modelo organizativo da administração municipal do Estado Novo.

Uma das medidas tomadas em 1936 foi abolir o cargo de Administrador do Concelho, que tinha sido criado em 1835. Sendo um cargo de nomeação governamental, desde longa data, a suas funções e competências passaram, naquela data, para os Presidentes da Câmara.

A partir de então, o Presidente e o vice-presidente  da Câmara passaram a ser de nomeação governamental. Por sua vez o Código de 1940 dividiu os órgãos de administração municipal em “comuns” e “especiais”.

Dos órgãos “comuns” faziam parte o Presidente da Câmara, a Câmara Municipal e o Conselho Municipal.

Dos órgãos “especiais” faziam parte as Juntas de Turismo e comissões especiais de Turismo, que tinham um papel importante a nível das decisões urbanísticas, as Comissões Municipais de Assistência, com funções caritativas de apoio a populações carenciadas, e um órgão municipal  com funções meramente consultivas nos domínios da arte, arqueologia, higiene e turismo.

Mas eram os chamados órgãos “comuns” que detinham um verdadeiro poder político a nível concelhio. Como vimos atrás, o Presidente e o Vice-presidente do município eram de nomeação governamental, com um mandato de 4 anos sem limites de renovação, liderando o executivo camarário, ao qual se juntavam 6 vereadores nomeados pelo Conselho Municipal. Este Conselho Municipal era um órgão com características corporativas, formado por representantes das juntas de freguesia, das ordens profissionais, dos sindicatos, dos grémios, das Casas do Povo e das misericórdias, todos com o necessário aval governamental.

Quando se deu o 25 de Abril, a câmara torriense era presidida por Joaquim Pedro Belchior Fernandes, que assumiu essas funções em Maio de 1971, vereador municipal desde 1963. O seu curto mandato conheceu algumas vicissitudes. O vice-presidente nomeado para esse cargo, um jovem militar sem experiência autárquica, demitir-se-ia do cargo em finais de 1973, desagradado com o modo como se viu envolvido no encerramento de um comício da oposição democrática, em Outubro de 1973. Foi substituído no cargo, oficialmente em Janeiro de 1974, por um dos vereadores mais antigos, António Maria de Sousa, vereador desde 1959.

Se os dois membros do executivo de nomeação governamental, acima referidos, eram políticos experientes, seis dos  restantes sete vereadores, nomeados pela Conselho Municipal em 1972, não tinham experiência anterior nesse cargo, reflectindo uma certa tentativa de renovação do executivo, característico do período “marcelista” em vigor.

As divergências entre os nomeados pelo governo e os nomeados pelo conselho municipal corporativo vão-se tornar evidentes nos dias a seguir ao 25 de Abril.

A primeira reunião desse executivo, no pós 25 de Abril, teve lugar no dia 29 de Abril, com a presença de vários cidadãos, dentro e fora do edifício, que exigiam a demissão dessa câmara.

Sob a presidência de Joaquim Belchior Fernandes e com a presença da maior parte dos vereadores, um dos seus membros, o vereador Guia, levantou o problema da legitimidade das funções desse executivo, principalmente do seu presidente e do vice-presidente, devido à destituição do governo e do ministro que os tinham nomeado, respondendo-lhe o presidente que se considerava em situação legitima, já que o governador civil de Lisboa, do qual dependia directamente, não tinha sido demitido.

O então jovem vereador Guia apresentou uma moção de apoio à Junta de Salvação Nacional, propondo que a Câmara se colocasse à disposição da mesma, com um voto de apoio ao 25 de Abril, moção aprovada pelos vereadores presentes.

Contudo, essa manobra foi de imediato denunciada por Francisco Fernandes, intervenção aplaudida e apoiada pelo público presente.

Nos dias seguintes a situação evoluiu rapidamente.

No dia 30 de Abril os oposicionistas locais, organizados à volta do CDE, publicam um comunicado intitulado “Saudação ao povo de Torres Vedras” (1), apelando à urgência de se formar uma nova instituição politica e administrativa, tema de muitas das intervenções da grande manifestação do 1º de Maio que percorreu as ruas da vila de Torres Vedras, encerrando com intervenções de , entre outros, Afonso de Moura Guedes, João Carlos, e Francisco Fernandes, responsáveis, nos meses seguintes, pela implantação em Torres Vedras dos três principais partidos fundadores do regime pós-25 de Abril, PSD, PS e PCP (2).

No dia 2 de Maio é publicada um portaria da JSN exonerando todos os presidentes de Câmara, mas não se definindo em relação à restante vereação.

No dia 6 de Maio a Câmara ainda em funções volta a reunir, digladiando-se mais uma vez as duas facções, uma liderada pelo ex-presidente Belchior Fernandes, outra pelo engenheiro Guia, confronto provocado em parte por se ter sabido que o presidente, sem consultar a restante vereação, tinha contactado o Governo Civil, do qual teria recebido ordens para continuar em funções. A facção Guia, criticando essa iniciativa, defende uma deslocação de toda a vereação a Lisboa para contactar a JSN, para porem os seus lugares à disposição da mesma, mas oferecendo-se para continuar a dirigir o executivo camarário até à realização de eleições municipais(3).  

Essa manobra, de tentativa de colagem ao novo regime, habitual noutros momentos históricos (vejam-se as actas da Câmara torriense na primeira metade do século XIX), acabou por fracassar, ultrapassada pelos acontecimentos.

Já sem poderes, mais para encerrar actividade, a câmara deposta ainda se reuniu uma última vez em 13 de Maio, presidida pelo vice-presidente, “presidente” por um dia.

As forças oposicionistas, legitimadas pelo derrube do regime em 25 de Abril, ainda unidas à volta do CDE, depois de várias reuniões públicas, acaba por convocar uma grande Assembleia Popular para 12 de Maio, que decorreu no estádio do Torreense, depois de um jogo do clube, e que contou com mais de duas mil pessoas, para propor a aprovar uma comissão provisória de 18 personalidades, para dirigir o executivo camarário (4).

Depois de uma deslocação a Lisboa, essa comissão reuniu em 14 de Maio com um delegado da JSN, na sede local do CDE (antiga sede local da ANP, ocupada em 26 de Abril), para efectivar a constituição de uma comissão administrativa, reduzida para 9 membros, por sugestão desse delegado, tendo-se escolhido para a presidir Francisco Fernandes.

Essa Comissão Administrativa tomou posse do cargo no dia 15 de Maio, realizando a primeira sessão em 20 de Maio (5).

Essa comissão administrativa conheceu algumas vicissitudes ao longo da sua existência, mas foi responsável por muitos melhoramento e obras de saneamento, de que o concelho carecia, apoiada no voluntarismo da população organizada em dinâmicas comissões de moradores e nas comissões administrativas das juntas de freguesia.

Esteve em funções até Janeiro de 1977, substituída pela primeira Câmara Municipal eleita em 12 de Dezembro de 1976.Mas esta é outra história (6).

(1)    – Documento do aquivo pessoal do autor;

(2)    - CARLOS, João, “Dia 1º de Maio – Festa do Trabalho”, reportagem publicada nas páginas do Jornal “Badaladas” de 11 de Maio de 1974;

(3)    - acta da reunião camarária de 6 de Maio de 1974, in “Voz do Município”, “Badaladas” de 25 de Maio de 1974. Consultem-se igualmente os livros de acta da Câmara, depositados no Arquivo Municipal para acompanhar o que se passou nas referidas reuniões do executivo. Leia-se também o conjunto de artigos da autoria do ex-vereador Guia no jornal “Badaladas”, sob o título de “Os actos incómodos a as actas malditas”, provocatoriamente assinados como “a ex-vereação “Fascista” e a polémica que eles provocaram com vários “oposicionistas”, publicadas nas páginas daquele  semanário entre as edições de 18 de Maio e 29 de Junho de 1974;

(4)    - Convocatória para a assembleia popular de 12 de Maio. Arquivo do autor;

(5)    - CARLOS, João, “Democratas de Torres Vedras aprovaram a nomeação de uma comissão para a gerência da Câmara”, in “Badaladas” de 18 de Maio de 1974;

(6)    - Para acompanhar os vários episódios deste período leia-se a obra fundamental de Andrade Santos, CRÓNICA DE TANTOS FEITOS, 1ª edição, Livros Horizonte, 1986, e com mais duas reedições.

segunda-feira, 15 de julho de 2024

Os primeiros tempos do PPD em Torres Vedras


Num relatório confidencial da secção torriense da Legião Portuguesa, relatava-se a forma como tinha decorrido, em Torres Vedras, no dia 23 de Março de 1973, uma sessão pública da SEDES, onde “o tema foi eleições” e, na “assistência, encontrava-se um tal Dr. Gomes Mota, de Lisboa, que fez várias intervenções tendenciosas de forma a deixar compreender que a única solução política seria ir para a revolução” (1).

O “Dr. Gomes Mota” era o deputado da ala liberal Magalhães Mota, já em ruptura com o regime. A chamada ala liberal foi eleita nas listas da União Nacional nas eleições de 1969, disputadas na esperança de uma evolução do regime. Dela faziam parte, entre outros, para além de Magalhães Mota, Francisco Sá Carneiro e Pinto Balsemão que tinham começado a abandonar o seu lugar de deputados ao longo dos primeiros meses de 1973, em protesto pelo endurecimento do regime.

A SEDES era a “Associação para o Desenvolvimento Económico e Social” criada em 25 de Janeiro de 1970, à volta da chamada ala liberal e visava o debate público de uma liberalização do regime e da sua evolução para um regime democrático.

O advogado torriense, mas com escritório na Lourinhã, Dr. Afonso de Moura Guedes, e a sua esposa Maria Filomena Moura Guedes, foram sócios fundadores daquela associação, respectivamente com os números 109 e 110 (2).

Afonso de Moura Guedes teve uma activa participação na vida cívica torriense desde o início dos anos de 1970, participando em debates nas páginas do jornal “Badaladas”, promovendo debates públicos em Torres Vedras, em nome da SEDES e debatendo a situação social e política com oposicionistas locais.

Chegou a organizar mesmo uma mesa redondo sobre os destinos do município torriense, mas que foi proibido de publicar no “Badaladas” por intervenção do poder local e da censura.

Alguns oposicionistas, como o pai do articulista, foram avisados telefonicamente do 25 de Abril por esse dinâmico advogado.

Quando, em 6 de Maio de 1974, alguns dos membros da antiga “ala liberal”, como Sá Carneiro, Magalhães Mota e Pinto Balsemão, anunciam a criação do PPD (Partido Popular Democrático), um dos primeiros partidos políticos criado após o 25 de Abril, Moura Guedes está na primeira linha da criação de um núcleo local desse partido, contribuindo para que muitos dos membros locais dessa associação também aderissem a esse partido.

A fundação local do PPD foi “a base de partida para a implantação do PPD no Oeste” (3).

Dias antes, na grande manifestação popular do 1º de Maio de 1974, que percorreu as ruas de Torres Vedras, Afonso de Moura Guedes foi um dos oradores.

Oficialmente o PSD de Torres Vedras nasceu no dia 20 de Junho de 1974, data da inscrição do seu militante número um neste concelho, Afonso de Moura Guedes.

O militante nº 2 do concelho foi Luís Afonso Miranda, empregado de escritório, inscrito no dia 2 de Julho de 1974.

No dia 5 de Julho inscreveram-se mais quatro militantes: António Martins Bento, gerente comercial, Armando dos Santos Gomes, comerciante, José Monteiro Gomes, gerente de seguros, Maria do Espírito Santo Simão Miranda, professora, e que foi também a primeira mulher inscrita localmente nesse partido.

José Manuel Lopes Figueiredo, funcionário público, José Rodrigues, controlador industrial. Rui Rola Coelho, electicista, e Francisco Manuel Elias de Carvalho, empregado bancário, que se inscreveram , respectivamente em 20 de Julho, 20 de Agosto, 27 de Agosto e 10 de Setembro de 1974, completam a lista dos primeiros dez militantes do concelho de Torres Vedras.

Sobre esses primeiros tempos, referiu António Bento, que esteve “na fundação do Partido, no início de Maio de 1974, numa reunião realizada no escritório do Dr. Afonso de Moura Guedes, sobre o Café Império”, que a “adesão foi subscrita numa lista, por não existirem propostas”, seguindo-se a constituição da secção de Torres Vedras” (4).

Em Dezembro de 1974, em data não especificada, num Domingo, teve lugar a eleição da primeira comissão política do PPD de Torres Vedras, num plenário presidido pelo Dr. Afonso de Moura Guedes.

De uma lista de 17 nomes foram escolhidos o presidente e os 6 vogais da primeira Comissão política concelhia e 3 membros da Mesa do plenário, a saber:

Presidente : – Afonso de Moura Guedes (advogado);

Vogais : – Manuel César Candeias (funcionário judicial); Luís Afonso Miranda (empregado de escritório);António Martins Bento (profissional de seguros); José Manuel Lopes Figueiredo (canalizador); Secundino Outeiro Pereira (professor do ensino liceal); João Flores da Cunha (farmacêutico);

Mesa do Plenário: - Joaquim José Severino (empregado de escritório); Maria Espírito Santo Miranda (professora); José Joaquim Ferreira da Silva.

Coube a esta comissão, em funções até Janeiro de 1976, organizar, implementar, divulgar e expandir o crescimento do partido a nível local (5).

Enfrentou também um dos períodos mais críticos do pós 25 de Abril, enfrentando as condições difíceis do chamado PREC, entre o 11 de Março e o 25 de Novembro de 1975.

Entretanto, em 4 de Dezembro de 1974 forma-se, oficialmente, o núcleo local da Juventude Social-democrática, com 15 filiados fundadores, e para cuja fundação teve papel de destaque o então jovem estudante do liceu de Torres Vedras, Emílio Gomes (6), com um passado de colaboração com a oposição local ao Estado Novo e ligado à renovação do Cine-Clube de Torres Vedras nos inícios da década de 1970.

Por essa altura também se procurou uma sede local para o partido, que começou por funcionar entre o escritório do Dr. Moura Guedes e o escritório de António Bento, na Rua Dr. Carlos França, nºs 7 e 9, até se instalar num rés-do-chão de uma loja na Praceta Calouste Gulbenkian, em frente à “Física”, espaço cedido gratuitamente pelo Dr. Francisco Bastos, outro histórico desse partido a nível local. Em 1978 mudou a sede para o sito mais conhecido dos torrienses como sede do PPD de Torres Vedras, no último andar do edifício por cima do café Havaneza, de onde apenas se mudou recentemente, em 2023, para a sua sede local (7).

A primeira prova de fogo teve lugar durante a campanha para as eleições para a Assembleia Constituinte que tiveram lugar em 25 de Abril de 1975.

A essas eleições foram candidatos, na lista do partido do Distrito de Lisboa, os torrienses Moura Guedes, Maria Lucília Miranda Santos, conhecida advogada, defensora de presos políticos, Manuel Candeias, Rogério Calhamar e Luís Afonso Miranda, enquanto José Furtado Fernandes, economista ligado a esta região, foi candidato por Santarém.

A Drª Lucília, como era carinhosamente conhecida, foi uma figura de destaque na oposição local ao Estado Novo e chegou a estar ligada à comissão jurídica do partido, acabando por sair do PPD ainda em 1975.

Afonso de Moura Guedes acabou por ser eleito como deputado nessas eleições, tornando-se num dos mais destacados dirigentes do partido (8). Foi reeleito como deputado nas 2ª, 3ª, 4ª, 5ª e 6ª legislatura, e assumindo, durante 8 anos, o cargo de Governador-Civil de Lisboa.

Nessas “Constituintes” de 1975, que foram as eleições mais participadas até aos nossos dias, o PSD foi a segunda força política mais votada no concelho, com 10.091 votos (27,7%), sendo a força vencedora nas freguesias de A-Dos-Cunhados, Campelos, Freiria, Silveira e Ventosa.

O seu pior resultado, nestas eleições, foi registado em Dois Portos, Monte Redondo, Runa e Stª Maria do Castelo, onde ficou em terceiro lugar, atrás do PS e do PCP (9).

Nas primeiras eleições autárquicas, realizadas em 12 Dezembro de 1976, o PSD foi a segunda força política mais votada no concelho, tanto para a Câmara (9 498 votos, 34,4%), como para a Assembleia Municipal (8 255, 30,1%) e no conjunto da votação para as Assembleias de Freguesia (9 898, 36,1%).

Para a Câmara elegeu 3 vereadores, o mesmo número do PS, o partido mais votado. Foram eleitos vereadores o Dr. João Francisco Ribeiro Correias, o engº Ângelo Custódio Rodrigues e Ana Maria Bastos, esta a primeira mulher a exercer estas funções no concelho de Torres Vedras.

Para a Assembleia Municipal elegeu directamente 7 membros, aos quais se juntaram mais 6 presidentes de Juntas de Freguesia.

Elegeu ainda 57 membros de assembleias de freguesia, vencendo nas freguesias de A-Dos-Cunhados, Campelos, Carvoeira, Freiria, Ventosa e Silveira. As freguesias onde obteve os piores resultados foram as de Dois Portos, Stª Maria e Turcifal, ficando atrás do PS e do PCP, não tendo concorrido em Runa (9).

Tendo por base a publicação das listas de candidatos a essas eleições, publicadas na imprensa local, principalmente no jornal “Oeste Democrático”, é possível fazer um retrato aproximado da base sociológica do PPD dos primeiros anos, no concelho de Torres Vedras:

26,7% eram classificados por agricultores e rurais;

15,2% eram comerciantes ou empregados de comércio.

Desagregando as actividades, as cinco mais numerosas eram: agricultor-69; comerciante-28; técnico superior-14; industrial-13; empregado de escritório -11.

Nas elites dirigentes dominavam os técnicos superiores e elementos do sector terciário.

Registe-se ainda, a título de curiosidade, que o partido apresentava 16 mulheres como candidatas, representando 6,1%, a maior percentagem entre todos os partidos concorrentes.

Aqui registamos, no seu cinquentenário, algumas notas sobre os primórdios da vida desse partido neste concelho.

A sua longa história pode ser acompanhada lendo as duas obras de José Damas Antunes citadas nas notas deste ensaio (11).

José Damas Antunes alia, nestas duas obras, o seu grande conhecimento sobre o funcionamento do partido, onde tem exercido um papel activo em termos locais e regionais , com o rigor e objectividade da investigação histórica, área onde já revelou experiência através da autoria de estudos sobre a freguesia de Campelos.

(1)    documento datado de 6 de Abril de 1973, disponível no site “Casa Comum”, da Fundação Mário Soares;

(2)     informação referida no site da SEDES;

(3)    ANTUNES, José Damas, 40 anos de democracia – o PPD/PSD de Torres Vedra, ed. Da Comissão Política Concelhia de Torres Vedras, Abril de 2015, pág.9;

(4)    ANTUNES, José Damas, Contributos para a História do PSD, na Área do Oeste , 1974-2014, Comissão Política Distrital do Oeste, ed.Sinapis, Abril de 2015;

(5)    ANTUNES, in “40 anos…”, pp.17 a 19;

(6)    ANTUNES, “40 anos…”, pág. 39;

(7)    ANTUNES, “40 anos…”, pág.9;

(8)    ANTUNES, “Contributos…”, pp.53 a 55;

(9)    Documentação do arquivo pessoal do autor;

(10) “Eleições para as autarquias locais. Distrito de Lisboa. 1976” ed. Imprensa Nacional, 1976.

(11)esses livros, acima citados, reúnem uma vasta documentação sobre esse partido, recolhendo depoimentos de vários militantes históricos da zona Oeste e de Torres Vedras, histórias e factos que, cronologicamente, marcaram a história política regional.

 

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Torrienses na Coluna de Salgueira Maia.


Por ocasião do 25º aniversário do 25 de Abril de 1974, o jornal Público editou uma revista sobre a acção decisiva da coluna militar da Escola Prática de Cavalaria de Santarém, comandada por Salgueiro Maia, no derrube do regime salazarista.

Nessa revista, para cuja elaboração aquele diário reuniu a maior parte dos 240 militares da dessa coluna militar, encontramos 6 torrienses, de nascimento ou adopção, que nela participaram, aos quais podemos juntar um sétimo nome, resgatado do esquecimento em recente reportagem do jornal Público..

Como escreveu José Manuel Fernandes no editorial dessa publicação, eram “240. Todos quantos foram necessários para fazer cair um regime velho de duas gerações, tão velho que quase nem resistiu.

“Eram os 240 de Salgueiro Maia. Apenas um punhado de soldados que há 25 anos saíram, madrugada alta, de Santarém para descerem à capital, ocuparem o Terreiro do Paço, subirem ao Carmo e aceitarem a rendição de Marcelo Caetano”.

À data da publicação da revista, Salgueiro Maia já tinha falecido, tal, como na altura, em 25 de Abril de 1999, também tinha acontecido com outros 11 elementos dessa coluna saída de Santarém. Outros 28 não foram encontrados e 15 faltaram ao encontro com o jornal, realizado no dia 27 de Março.

Entre os que compareceram, viviam e trabalhavam então em Torres Vedras seis membros da coluna de Salgueiro Maia.

Contudo, é provável que entre os que não foram encontrados ou já tinham falecido nessa data, existissem outros militares ligados a Torres Vedras.

Também pode acontecer que, entre todos os militares identificados nessa publicação, alguns fossem naturais ou estivessem ligados a Torres Vedras, pois essa publicação indica apenas o local de trabalho e residência dos membros daquela coluna militar à data da publicação da revista, 25 anos depois daqueles acontecimentos.

Aqui recordamos os seis nomes registados nessa publicação:

Carlos Alberto da Costa Ferreira, que era instruendo do Curso de Sargentos Milicianos (CSM), então com 20 anos, fazendo a especialidade de atirador de cavalaria, vendedor de profissão, 25 anos depois, à data daquela publicação, e que tinha como habilitação o 2º ano da secção preparatória do Instituto Industrial, e viva em Torres Vedras: “foi das melhores coisas que me aconteceram na vida. Para além da liberdade que passou a haver, foi o fim da guerra colonial”;

Hélder Aniceto Correia, tinha 24 anos na altura e comandava uma secção do 8º pelotão de atiradores. Com o bacharelato, 25 anos depois era professor do ensino secundário: “O que se viveu na EPC antes, durante e depois foi maravilhoso. Nunca esquecerei e não me inibo de divulgar aos jovens o que era essa época , para que possam comparar”;

João Maria Figueiras Constantino, com 20 anos, era instruendo da CSM, fazendo a especialidade de atirador de cavalaria, desenhador projectista à datada reportagem, com o curso industrial como habilitação, vivendo em T. Vedras. Para ele o 25 de Abril “derrubou o regime e deu-nos a liberdade ansiada há muitos anos”;

José Morais Travassos, com 25 anos era instruendo do CSM, a fazer a especialidade  de atirador de cavalaria. À data da reportagem tinha o 5º ano do curso industrial e era encarregado em serralharia mecânica: “Estava condenado a ir para as províncias  ultramarinas  e com o 25 de Abril ficámos livres dessa guerra. Houve liberdade para os civis”;

Luís Ferreira, era soldado atirador, de 23 anos, com a 4ª classe como habilitação. 25 anos depois era sucateiro em S. Pedro da Cadeira: “Pusemos fim a um regime de repressão e por isso valeu a pena”;

Vasco Ferreira Andrade Lopes, era instruendo do CSM e, com 21 anos, à data do 25 de Abril fazia a especialidade de atirador de Cavalaria. Vinte e cinco anos depois era professor de musica em A-Dos-Cunhados, tendo por habilitações o Curso de Formação de Montador-Electricista. Sobre o 25 de Abril afirmou ao jornal: “Foi uma boa jogada, porque na altura não estava preparado para fazer o que fizemos e acabou por correr tudo bem”.

A estes nomes devemos acrescentar outro nome recentemente recuperado do esquecimento (não constava daquela investigação) o de Francisco João Ferreira natural , a trabalhar e a viver da agricultura em A-Dos-Cunhado, e que foi o condutor do jipe onde seguia Sagueiro Maia, cuja história foi contada no jornal Público no suplemento dominical P2, do dia 21 de Abril de 2004, numa reportagem assinada por João Pedro Pincha, intitulada “O Militar que Parou no Vermelho a Caminho da Revolução”.

Recorde-se ainda que, desse grupo, faziam parte outros militares que, à data da reportagem, vivam em concelhos vizinhos de Torres Vedras:

José Manuel de Carvalho Clímaco Pereira, professor do ensino secundário no Bombarral, à data da reportagem;

Orlando Miguel Ribeiro Lourenço, empresário agrícola no Cadaval, à data da reportagem.

Lembramos, contudo, que essa publicação regista apenas a coluna de Salgueiro Maia. Outros torrienses terão participado no 25 de Abril, incluídos noutras forças militares, trabalho de levantamento que está por fazer.

Para além da coluna de Salgueiro Maia (ou Escola Prática de Cavalaria de Santarém), fizeram o 25 de Abril os militares da Escola Prática de Transmissões de Lisboa, da  Escola Prática de Cavalaria de Vendas Novas, da Unidade do Regimento de Artilharia Ligeira 1 (RAL 1), do Regimento de Engenharia nº1 (RE1), de Lanceiros 2,  da Escola Prática de Administração Militar (EPAM), da Escola Prática de Infantaria de Mafra (EPI), do Batalhão de Caçadores (BC9), do Regimento de Infantaria 14 de Viseu, do Regimento de Infantaria 10 de Aveiro, do RAP 3 da Figueira da Foz, de 2 companhias operacionais do Batalhão de Caçadores 5 de Lisboa, da Escola Prática de Artilharia, de uma Companhia de Comandos do CIOE de Lamego, de uma força do CICA 1 do Porto, , do Regimento de Cavalaria 3 de Estremoz, do Regimento de Artilharia Ligeira 3 de Évora e da Companhia de Caçadores  4242 e 4246 de Santa Margarida.

Esta lista, que pode estar incompleta ou com algumas imprecisões, serve de mote para que um dia se faça um levantamento dos militares torrienses que, não tendo feito parte da coluna de Salgueiro Maia, participaram nas operações do 25 de Abril como membros daquelas forças, sem esquecer que muitos outro terão participado noutras forças que, não estando na origem desse movimento militar, a ele terão aderido ainda ao longo desse dia, participando noutras acções.

Para além de Victor Alves, “capitão” de Abril, a quem já nos referimos em crónica anterior, e desse 6 torrienses da coluna de Salgueiro Maia, seria importante que se aproveitasse o cinquentenário da data para homenagear todos os torrienses que fizeram estiveram na rua a “fazer” o 25 de Abril, sem esquecer os muitos que, noutras lutas, pagando com a prisão ou a marginalização social e económica, muito contribuíram para que se chegasse a esse dia “inicial inteiro e limpo” (Sphia Mello Breyner).

segunda-feira, 5 de junho de 2023

As Origens do Partido Socialista em Torres Vedras


Fundado em 19 de Abril de 1973, no exílio alemão, o actual Partido Socialista só surgiu em Torres Vedras já depois do 25 de Abril, embora tenha existido, no início do século XX um primitivo Partido Socialista com alguma actividade em Torres Vedras.

Em Portugal as primeiras manifestações do ideário socialista ocorreram na década de 70 do século XIX, na sequência da “Comuna de Paris”, acontecimento que teve lugar entre Março e Maio de 1871, que acabou com a repressão sangrenta sobre os revolucionários franceses.

Nesse mesmo ano de 1871, em Agosto, o genro de Karl Marx, Paul Lafargue, deslocou-se a Portugal para reunir com os membros locais da Associação Internacional dos Trabalhadores, organização fundada por ocasião da Primeira Internacional (1864-1876), visita que motivou a fundação da “Fraternidade Operária”(FO)  em Janeiro de 1872.

Devido às perseguições policiais e ao incipiente peso social e económico do operariado português, a FO extinguiu-se em 1873.

Muitos dos membros da FO, apoiantes em Portugal da Primeira Internacional, fundaram , em 1875, o primeiro Partido Socialista português.

Entre os fundadores estiveram Aznedo Gneco, José Fontana e, entre cerca de uma vintena, um homem que veio a estar muito ligado a Torres Vedras, Manuel do Nascimento Celestino Aspra.

Foi este Celestino Aspra, tipógrafo de profissão, que esteve ligado à divulgação de algumas ideias associadas a esse primeiro socialismo, como o mutualismo operário, sendo um dos fundadores da "Associação Mutualista 24 de Julho de 1884” (1).

Fundador da primeira tipografia torriense, a esta estiveram ligados os dois primeiros jornais editados em Torres Vedras, “O Jornal de Torres Vedras” (Janeiro de 1885 a Dezembro de 1886) e “Voz de Torres Vedras” (Fevereiro de 1887 a Janeiro de 1890).

Foi num artigo do jornal “ Voz de Torres Vedras”, de 6 de Julho de 1889, intitulado “As Classes”, que se publicou a  primeira referência local à obra e pensamento de Karl Marx, a propósito do qual o articulista se interrogava : “Quem não sente o arruído das classes escravizadas pelo salário, classes que em altos brados reclamam por toda a parte o seu quinhão no banquete social, apresentando-se para tomarem nas suas mãos o destino d’este mundo (…)?”.

Em plena 1ª República, o candidato socialista pelo Círculo de Torres Vedras às eleições para deputado de 1915, Raul dos Santos Palermo, recebeu um total de 20 votos neste concelho, de um total de 1644 expressos. Esse mesmo candidato, o único “socialista”, voltou a apresentar-se por este círculo em 1919, recebendo 23 votos de um total de 860 (2).

Foi em Abril de 1917 que se fundou um “Núcleo de Propaganda Socialista de Torres Vedras”, iniciativa acolhida “com viva satisfação pela classe operária”, ficando as adesões a cargo de José Augusto Correia Lemos, na Rua Mouzinho da Albuquerque, nº 32, r/c. A inauguração desse Núcleo ficou marcado para 1 de Setembro, numa “sessão de propaganda, numa colectividade”, estando programada a actuação de um “sexteto” de Lisboa que “executará o hino operário “A Internacional” (3).

Na sequência dessa iniciativa, o núcleo local do Partido Socialista, liderado localmente pelo marceneiro António Vicente Santos Júnior, concorreu, pela primeira vez, e única durante esse regime, às eleições autárquicas, em Maio de 1919, obtendo 45 votos.

Em 1931, por ocasião da tentativa de formação de uma frente única republicana para enfrentar a recém criada União Nacional nas eleições para o parlamento prometidas pela ditadura do 28 de Maio,  (4) foi eleito como representante local da chamada Frente Republicano-Socialista, em sessão realizada no Teatro-Cine em 28 de Junho desse ano, pelo núcleo local do Partido Socialista, aquele mesmo António Vicente (5).

A partir da década de 30 do século passado não se regista qualquer actividade do Partido Socialista em Torres Vedras, proibido que estava pelo Estado Novo. A partir dessa década a oposição é liderada por republicanos históricos e pelo cada vez mais influente Partido Comunista Português.

Muitos dos fundadores do actual PS torriense vieram da oposição ao Estado Novo e, em vésperas do 25 de Abril, participaram em eventos unitários, ora nas acções da oposição, ora assinando documentos contra a “situação”, junto com outros oposicionista locais, como foi o caso, por exemplo, de um João Carlos, um Dr. Augusto Troni, uma Leonia Rodrigues ou um Sérgio Simões.

Foi em documento de 4 de Maio de 1974 que a “Comissão Concelhia de Torres Vedras do Partido Socialista” apresentou “À População do Concelho de Torres Vedras” a “declaração de princípios” do partido, anunciando para breve a inauguração da sua sede local, que se situou numa vivenda na Av. 5 de Outubro, que existiu a poente do “Pacar”.

Em documento de 7 de Junho de 1974, apresentou-se publicamente a lista de nomes que integraram a “Comissão Provisória da Secção Concelhia de Torres Vedras”, composta por 26 nomes (ver imagem em anexo).

Concorrendo pela primeira vez a eleições, nas “Constituintes” de 25 de Abril de 1975, o Partido Socialista foi o mais votado no concelho, com 15 881 votos (43,59%), embora não tenha vencido em todas as freguesias (foi derrotado pelo PPD em A-Dos-Cunhados, Campelos, Freiria, Silveira e Ventosa).

Nas primeiras eleições autárquicas, realizadas em 12 de Dezembro de 1976, o PS venceu, sem maioria absoluta, com 10 073 votos (36,73%), em lista encabeçada por Alberto Avelino (6).

Para além de ter sido o primeiro presidente eleito da Câmara Torriense, Alberto Avelino tinha sido deputado na Constituinte de 1975, voltando a estas funções de deputado mais tarde e exercendo, durante 12 anos, o cargo de Governador Civil de Lisboa, sendo uma das figuras históricas do novo PS.

Em termos locais, esse partido tem dominado a liderança municipal desde essas eleições de 1976, caso raro em Portugal.

(1)    - leia-se “Associação de Socorros Mútuos 24 de Julho de 1884. Nos primórdios do associativismo operário em Torres Vedras”, in Turres Veteras X - História do Sagrado e do Profano, Lisboa, ed. Colibri-CMTV, 2008, pp.231-245;

(2)    - ver  “Republicanos de Torres Vedras”, ed. Colibri e CMTV, 2003;

(3)    - leiam-se as edições de 5 de Abril e 19 de Julho de 1917 de “A Vinha de Torres Vedras”;

(4)    -  as tão esperadas eleições para a Assembleia Nacional realizaram-se apenas em 16 de Dezembro de 1934, “disputadas” unicamente pelo  movimento da ditadura, a União Nacional, força política que se manteria como “partido” único até ao 25 de Abril;

(5)    - ver Gazeta de Torres de 14 de Junho de 1931;

(6)    – muitas destas informações foram recolhidas no arquivo pessoal do autor.

ANEXO:

Documentos para a História do PS em Torres Vedras 





segunda-feira, 24 de abril de 2023

Vitor Alves, um “capitão” de Abril em Torres Vedras


Ainda está por fazer um levantamento dos militares nascidos ou criados em Torres Vedras que participaram no “25 de Abril”.

Um há, contudo, que foi decisivo, não só para a concretização desse golpe militar, que pôs fim a 48 anos de ditadura, como para o rumo democrático dessa revolução.

Chamou-se Vitor Manuel Rodrigues Alves, nascido em Mafra em 30 de Setembro de 1935, mas que viveu parte da sua infância e juventude em Torres Vedras.

O major Vitor Alves foi uma das figuras cruciais para o êxito do “25 de Abril”, mas, muitas vezes, o seu papel nesse acontecimento e na evolução dessa revolução não tem sido devidamente valorizado, em grande parte devido à sua personalidade discreta e sóbria.

Contudo, como se revela na excelente biografia que Carlos Ademar lhe dedicou (1), a sua acção foi crucial, quer para o êxito do golpe de estado que pôs fim ao regime salazarista, quer para o rumo democrático e liberal do regime saído do “25 de Abril”.

Formado na Escola do Exército, participou na Guerra Colonial, onde combateu durante mais de uma década nos mais difíceis cenários de guerra, apercebendo-se da incapacidade do regime para encontrar uma saída política para esse conflito, o que o levou a ser um dos pioneiros na formação do que veio a ser o MFA e um dos principais responsáveis pela elaboração do programa político desse movimento.

Depois do movimento vitorioso, integrou cargos em várias estruturas, como o Conselho de Estado, o Conselho dos Vinte e, mais tarde, o Conselho da Revolução, foi ministro sem pasta,exercendo também várias funções diplomáticas. Foi um dos fundadores do Grupo dos Nove, sendo um dos “vencedores “ do 25 de Novembro e ministro da educação no IV Governo Provisório, liderado por Pinheiro de Azevedo. Foi mais tarde conselheiro presidencial de Ramalho Eanes, candidato pelo PRD nas eleições de 1985, 1986 e 1989, e fundador da Associação 25 de Abril, entre muitas outras actividades cívicas em prol da defesa da comunidade portuguesa no mundo, de um bom relacionamento com as antigas colónias e em defesa dos Direitos Humanos.

Toda esta acção está bem documentada na referida biografia, uma obra que é também um fiel retrato da vida política e social de Portugal entre o final da década de 1960 e da década de 1980, durante as quais Vitor Alves foi uma figura decisiva

Neste artigo não pretendemos fazer uma história dessa importante personalidade, mas referir as suas ligações a Torres Vedras.

Nascido em Mafra, a sua família, depois se uma curta passagem por Vila Franca de Xira, mudou-se para Torres Vedras na década de 1940, vivendo na Rua Conde Tarouca, nº 28, 1º andar. “Era num prédio de três pisos. A família Alves residia no 1º andar e a senhoria no 2º. Teresa, a mulher de Vítor Alves durante 50 anos (…) refere-se-lhe como a “casa do risco ao meio”, por ter um corredor longo e muitas divisões de um e outro lado”. Nessa casa existia uma grande biblioteca, propriedade do avô paterno Alexandre, figura tutelar de Vitor Alves, com quem conviveu de perto durante os 4 ou 5 anos que este viveu na casa paterna em Torres Vedras. “O seu ingresso na Escola do Exército, em 1954, ocorreu dois ou três anos após a morte dessa figura tutelar” (2).

O pai de Vitor Alves, Eduardo, era escriturário da Junta Nacional dos Vinhos, falecendo em 1968. A mãe, Maria Palmira, “foi o grande motor da família”, exercendo “funções de telefonista nos CTT e passou posteriormente para o apoio à secretaria”.

Os pais de Vitor Alves tiveram 11 filhos, dos quais cinco morreram à nascença. Os dois mais novos, dos 6 sobreviventes, José Manuel e Carlos António, foram os únicos a nascer em Torres Vedras. Após a morte do pai, a mãe e os irmãos mudaram-se para Oeiras.

Vitor Alves conclui os estudos primários e secundários em Torres Vedras (3), recordando, numa entrevista concedida a Manuela Cruzeiro em 2004, a sua passagem pelo Liceu de Torres Vedra e a memória com que ficou de alguns professores: “O professor Mesquita, de Português, era extraordinário, bem como o de Matemática. Ambos eram de esquerda”. Referia-se ao professor José Carvalho Mesquita, que conheceu a prisão e foi saneado. O “professor de matemática” era o Dr. Albarran Grilo. Na mesma entrevista o “capitão de Abril” recordou igualmente com simpatia o professor de ginástica Carlos Dieguez. Já em relação ao director do liceu, o Dr. João Carlos Cunha, a sua opinião não era tão simpática. Para além da sua ligação à Legião Portuguesa, Alves desconfiava que ele era informador da PIDE, opinião que não é verdadeira (4).

A causa da desconfiança de Vitor Alves em relação ao Dr. Cunha prende-se com o facto de ter conhecimento, depois do 25 de Abril, da existência, nos arquivos da PIDE, de uma denuncia anónima contra si e um amigo do liceu, João Antunes, descrevendo as conversas entre ambos. “João Antunes tinha três ou quatro anos a mais do que Vitor Alves e ambos eram colegas do liceu. Morava na mesma rua, quase em frente da casa do Dr. Cunha. Os dois ficavam a conversar até altas horas da noite, à porta de um e do outro, o que não passaria despercebido ao director” (5), nascendo desta situação a infundada desconfiança em relação ao Dr. Cunha.

Como vimos, Vitor Alves deixou Torres Vedras em 1954, para ingressar na Escola do Exército, e a sua família deixou esta localidade em 1968, após a morte do pai.

Vitor Alves faleceu no dia 9 de Janeiro de 2011.

Em vésperas do cinquentenário do 25 de Abril, seria interessante, no mínimo, colocar uma placa evocativa da sua passagem por Torres Vedras na casa onde viveu.

(1)    – ADEMAR, Carlos, Vitor Alves – o Homem, o Militar, O Político, ed. Parsifal, 2015 (com o apoio, entre outros, da Câmara Municipal de Torres Vedras;

(2)    – ADEMAR, pág.40;

(3)    – ADEMAR, pág. 41;

(4)    - o autor desta rubrica teve oportunidade de consultar os arquivos da PIDE, onde, pelo contrário, o Dr. Cunha era alvo das desconfianças da policia politica e dos seus informadores torrienses, apesar de ser um apoiante do regime. Também sei, de boa fonte, que o mesmo Dr. Cunha, amigo de alguns oposicionistas, lhes indicou quem eram os informadores da PIDE em Torres Vedras, para eles se poderem defender melhor da perseguição dessa polícia;

(5)    – ADEMAR, pág.44

 

sexta-feira, 5 de março de 2021

PCP - Um Partido Centenário em Torres Vedras.

(um dos primeiro cartazes do PCP de Torres Vedras)

Existem alguns estudos parciais sobre partidos políticos que tiveram actividade em Torres Vedras no século XIX e na primeira metade do século XX (1).

Já em relação aos partidos activos neste concelho depois do 25 de Abril, os estudos rareiam, havendo uma única excepão,  um excelente estudo sobre o PPD/PSD (2).

No mês em que se comemora o centenário do mais antigo partido ainda em actividade, o Partido Comunista Português, um caso de longevidade, não só em Portugal, mas no mundo, não podíamos deixar de evocar essa efeméride, divulgando algumas notas sobre a origem e a evolução histórica desse partido em Torres Vedras até ao 25 de Abril.

O PCP foi fundado em 6 de Março de 1921 e, ao contrário do que se passou em quase toda a parte, surgiu de uma cisão no seio do movimento operário, então liderado em Portugal pelos anarco-sindicalistas, e não de uma cisão num partido social-democrático ou num  partido socialista. Recorde-se que o primeiro Partido Socialista em Portugal foi fundado em 1875 e teve actividade até 1933 (3).

A primeira referência conhecida sobre a presença do PCP em Torres Vedras data de 1924, uma lacunar notícia sobre a presença em Lisboa, para uma reunião da “Federação Comunal de Lisboa”, programada para 15 e 16 de Março desse ano, mas adiada para 19 e 20 de Abril, de representantes de várias “comunas” de concelhos do distrito de Lisboa, entre os quais se menciona a representação da “comuna de Torres Vedras”(4).

Contudo, é preciso esperar pelos anos 30 do século XX para se encontrarem as primeiras referências à actividade do PCP neste concelho.

A primeira tentativa de formar uma célula do PCP em Torres Vedras terá acontecido em 1935, por iniciativa de Tomás Ferreira Rato, ferroviário, Jaime Delfim, guarda-livros da empresa Florêncio Augusto Chagas e outro indivíduo de nome Vilaça, tentativa que não teve êxito (5).

Data igualmente de Abril desse ano a referência à organização, em Torres Vedra, de um núcleo da Federação da Juventude Comunista (6).

Nesse mesmo ano de 1935, numa das mais importantes revoltas populares de camponeses n região contra o Estado Novo, a chamada “Guerra do Bacêlo”, com epicentro na freguesia de A-Dos-Cunhados, teve, se não a orientação, o apoio de comunistas locais.

Este acontecimento também é o primeiro referido no concelho de Torres Vedras pelo jornal “Avante”, na sua edição clandestina de Maio de 1935.

Essa revolta popular foi provocada pelo Decreto Lei nº 24 976 de 1935, que proibia a plantação de vinhas novas , obrigando a que até 30 de Março de 1936 se efectuasse o arranque das existentes.

No dia 8 de Abril de 1935 a GNR acompanhou a A-Dos-Cunhado os agrónomos que íam fazer o levantamento das vinhas ilegalmente plantadas, para serem arrancadas, tendo de enfrentar a revolta popular.

Em resultado dessa revolta, que se estendeu também às populações do Sobreiro Curvo,  foram presas cerca de 2 dezenas de pessoas e houve muitos feridos e, pelo menos, um morto (7).

Essa mesma edição do “Avante” refere várias acções desencadeadas no concelho por ocasião do 1º de Maio, nomeadamente a pintura de foices e martelos em várias paredes das ruas da então vila, a colocação de bandeiras vermelhas nos postes telefónicos, em tal quantidade que aos “automobilistas que passavam vindos de Lisboa e do Norte, causava espanto, pois que houvesse quem julgasse que estava implantado o bolchevismo”. Foi ainda colocada uma grande bandeira vermelha no Castelo.

Acções do mesmo género foram repetidas durante o 1º de Maio de 1936.

Nessa ocasião foram içadas em vários pontos da vila bandeiras vermelhas, entre os quais, uma bem visível no Forte de S. Vicente. Houve ainda o roubo simbólico das fotografias de Carmona e Salazar que estavam na escola primária feminina e várias pichagens na parede dessa escola, registando-se ainda a distribuição de propaganda do PCP.

Segundo relatório da polícia política sobre esses acontecimentos, estiveram envolvidos nesses actos Mário de Almeida Carvalhosa, alfaiate, Pedro Caldeira, Luís Vicente, Júlio dos Santos Salomé, José Caetano de Melo, Augusto dos Santos, Miguel Alves e Evaristo Alfredo da Silva(8).

A edição de Julho do jornal “Avante” desse mesmo ano confirma essas iniciativas de agitação e propaganda: “Em Torres Vedras foram editados várias dezenas de protestos que os trabalhadores enviaram às autoridades. As paredes das ruas da localidade, bem como outras localidades vizinhas, apareceram repletas de inscrições com palavras de ordem do nosso partido”. Essa notícia confirma ainda a retirada das fotografias de Carmona e Salazar da escola primária, acrescentando a notícia de terem sido rasgadas. Refere ainda que o jornal clandestino do partido, “O Camponês”, “publicado pelos nossos camaradas de Torres, esclarecia as massas camponesas, em especial o significado do 1º de Maio e publicava as suas reivindicações”.

A actividade local da Organização Revolucionária de Sargentos nesse mesmo ano, com a colaboração de comunistas locais, levou à prisão de Maria da Purificação, a célebre “Maria Cachucha”, e do já mencionado Mário Carvalhosa, embora só este fosse identificado como “comunista” pela PVDE (a primeira designação da polícia política).

Só em 1940 foi possível formar um “comité” local do PCP, liderado por uma das figuras carismáticas do partido, muito influente nesse partido em termos nacionais, Raimundo Porta, serralheiro de profissão e elemento de ligação como “Comité Regional do Oeste Sul”.

Desse primeiro “comité” faziam também parte Manuel Guedes, Júlio Santos, comerciante e responsável pelo núcleo de Torres Vedras, Álvaro Ramalho Alves, escriturário do tribunal e João Mesquita, então ainda um estudante.

A organização de Torres Vedras terá tido um papel bastante activo durante o período da chamada “reorganização” e da luta interna contra a “direcção”, no início dos anos de 1940 (1940-1943), como se revela pela realização de encontros e troca de informações, envolvendo a presença do próprio Júlio Fogaça na então vila e envolvendo a organização torriense (9) .

Depois da chamada “reorganização” e da afirmação da liderança de Júlio Fogaça, natural do Cadaval e com contactos na região, registou-se um crescimento rápido do PCP neste concelho: “Em Torres Vedras, havia uma organização desde os anos trinta e foi aí que se travaram alguns embates  da “reorganização”. Os “reorganizadores” fizeram aí algumas das suas primeiras reuniões, com a participação, entre outros, de Fogaça. Controlado por Piteira Santos, Raimundo Porta “reorganiza” Torres Vedras. Depois, a organização estende-se a zonas rurais limítrofes através da criação de “células camponesas” (10).

Essa situação terá tido lugar em 1941, em Torres Vedras, talvez numa casa clandestina à entrada de Runa, onde se realizou a reunião do Comité Central, onde se tomaram as principais decisões para “renovar” o partido (11).

Esse rápido crescimento do PCP em termos locais levou também à formação de um “subcomité” local orientado pelo tipógrafo Frederico Ribeiro e formado por Júlio Albino, caldeireiro da empresa Francisco António da Silva, Joaquim Queirós, empregado de comércio, e pelo barbeiro Teodoro Costa. Este subcomité foi dissolvido em 1945.

A importância de Torres Vedras nesta fase da história do PCP revela-se pelo facto de Raimundo Porta ter sido um dos 19 participantes no 3º Congresso do PCP, o primeiro na clandestinidade, realizado entre 10 e 13 de Novembro de 1943 no Monte Estoril.

Raimundo Porta era identificado com o pseudónimo de “Vitor”, com a profissão de “caixeiro” então com 29 anos (12).

Entre 1944 e 1945 realizaram-se em Torres Vedras, numa vivenda perto de Runa, várias reuniões clandestinas do secretariado e do Comité Central, com uma frequência que “chegou a cerca de duas ou três por trimestre” (13).

Uma dessas reuniões, do Comité Central, teve lugar noutra casa, esta na Praia de Santa Cruz, em 30 de Maio de 1944, tendo por objectivo principal “estudar a acção do partido no quadro cada vez mais previsível de uma crise do regime suscitada pela previsível vitória aliada na guerra” (14). Existia também, pelo menos em 1944, uma tipografia clandestina no Ramalhal.

Durante a Guerra, com o apoio do PCP local, houve vários movimentos populares de revolta contra o racionamento, o aumento dos preços e, principalmente, contra os especuladores (a “candonga”), havendo noticias de protestos generalizados em Julho de 1943, em Abril e, a principal, em 26 de Julho de 1944, uma manifestação de mulheres no Largo de S. Pedro que acabou no assalto a uma mercearia de um especulador candongueiro (15).

No dia 8 de Maio de 1945, por ocasião da tomada de Berlim pelo Exército Vermelho, numa iniciativa liderada por Raimundo Porta, foram lançadas do Castelo 21 salvas de fogo de artíficio, mas explodiu tudo antes de tempo, provocando grande alarme na região .

Na manifestação popular comemorativa da paz, que percorreu as ruas de Torres Vedras, os manifestantes transportavam bandeiras dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha e uns paus sem bandeira, uma forma de homenagear o outro aliado vencedor, a União Soviética, cuja bandeira estava proibida de exibir.

Com o final da 2ª Guerra aumentou muito a influência do PCP no seio da oposição, graças ao prestígio que o Exército Vermelho conseguiu granjear como um dos exércitos vencedores, desconhecendo-se na altura muitas das atrocidades cometidas pelo regime stalinista.

O fim das ditaduras “nazi-fascista” abalou o Estado Novo e fez aumentar a esperança da queda do salazarismo.

Revelador do grande crescimento da influência do PCP em Torres Vedras, entre 1945 e 1950 foram cosntituidas 11 células do partido, 5 de “empresa” (na camionagem João Henriques, na fábrica Francisco António da Silva, na Casa Hipólito, na Sociedade Progresso Industria e na Fundição de Dois Portos) e 5 “camponesas” (na Caixaria, na Ribaldeira, na Feliteira, na Patameira e em Matacães) (16).

Este crescimento conheceu um enorme revês nos anos 1950, quando uma onda de prisões provocou o desmantelamento de todas essas células.

A candidatura presidencial de Arlindo Vicente em 1958, deu um novo alento à actividade local  do PCP. Na sua edição de 13 de Maio, o jornal “República” divulgou um manifesto de apoio à candidatura de Arlindo Vicente , o candidato escolhido pelo PCP, distribuído no concelho de Torres Vedras, transcrevendo-o na integra.

Apresentando Arlindo Vicente como o “candidato próprio” da “Oposição Democrática” e o seu programa da candidatura, esse “manifesto” apelava à formação de “uma ampla Comissão Eleitoral Concelhia pró-Candidatura”, era assinado, em nome dessa Comissão, por António Catarino, Arnaldo Pedro Faria Rodrigues, Carlos Augusto Bernardes, Carlos Augusto Bernardes Portela, Emílio Luís Costa, Fernando Coelho da Silva, Fernando Vicente, Francisco Matias, João Carvalho Mesquita, João Ferreira dos Santos, João de Oliveira, Joaquim Augusto de Oliveira, Luís Adelino, Luís Perdigão, Mário de Almeida Carvalhosa, Miguel Cunha, Pedro Mendes Fernandes, Reinaldo Ferreira da Silva e Rui da Costa Tomás dos Santos. 

Em 18 de Maio teve lugar, a partir das 21 horas, no Teatro-Cine Ferreira da Silva, uma sessão de apoio a Arlindo Vicente, com a presença do candidato, sessão anunciada nas páginas do jornal “República”, na sua edição de 17 de Maio, e que mereceu amplo destaque de primeira página naquele mesmo diário, destacando o “Grande Entusiamo” que se viveu nessa sessão, perante uma sala “completamente cheia”. 

A sessão foi aberta pelo próprio candidato que convidou para a mesa “João Carvalho Mesquita, Mário Carvalhosa, Pedro Fernandes, Arnaldo Pedro Faria, Fernando Vicente e D. Leónia Augusta Rodrigues todos membros da comissão concelhia de Torres Vedras”. Usaram da palavra Luís de Almeida Perdigão, João Carvalho Mesquita, José Prudêncio, a escritora Lília da Fonseca e Arnaldo Faria.

Pelo meio “uma comissão de senhoras subiu ao palco para oferecer ao candidato três ramos de rosas vermelhas, atadas com fitas das cores nacionais”, sendo igualmente oferecido ao candidato “um artístico barril, com vinho da região”.

Arlindo Vicente acabou por desistir a favor de Huberto Delgado, passando o PCP local a dedicar-se, de forma empenhada, a apoiara este candidatura unitária da oposição 

Entre 1935 e 1974, através da leitura do “Avante” clandestino, é possível acompanhar a acção do PCP em Torres Vedras. Algumas dessas actividades não foram lideradas ou exclusivas do PCP, mas eram por ele apoiadas e divulgadas:

Data

Lutas Políticas

Lutas Sindicais e operárias

Lutas Camponesas

Maio de 1935

Comemorado o 1º de Maio (situação já referida acima)

 

Revolta camponesa em A-Dos Cunhado (já referida acima)

Junho de 1936

 

 

Denuncia a Federação dos Vinhos de Torres Vedras pelo imposto sobre as tabernas.

Julho de 1936

Comemorações do1º de Maio (referidas em cima)

 

 

Novembro de 1936

 

Denuncia um despedimento injusto na “fábrica de caldeireiro” de Francisco António da Silva

 

1ª quinzena de Agosto de 1943

Anuncia que a população “assaltou uma mercearia onde havia sabão e açúcar açambarcado, distribuindo-o pelo povo”. 

 

 

2ª quinzena de Abril de 1944

 

 

“o povo da Maceira foi em massa à Administração de Torres Vedras conseguir que lhe fosse fornecidos 40 quilos de pão por dia”.

1ª quinzena de Fevereiro de 1945

Denuncia um “germanófilo” de Matacães  de falsificar o fabrico do pão.

 

 

1ª quinzena de Setembro de 1948

 

 

Com o título de “os grandes agrários roubam os camponeses e arruínam a lavoura” denunciam-se os proprietário da quinta das Lapas de tirar terras aos rendeiros para plantar eucaliptos.

Junho de 1950

Anuncia uma manifestação de homenagem aos mortos na Guerra de 1914-1918 no dia 9 de Abril.

Anuncia a proibição de uma manifestação pela paz em Torres Vedras

 

 

Julho de 1950

Comemoração do 31 de Janeiro.

 

 

Julho de 1954

 

Refere como “luta da classe operária” a iniciativa de 25 aprendizes da Casa Hipólito que exigiram ao patrão “uma aula técnica”, tendo este garantido a “compra de material necessário”.

 

Setembro de 1954

 

Os operário da “Ford” de Torres Vedras “conquistaram pela luta” um aumento de salário “de 5$00 a 10$00 por dia”

 

Março de 1955

“Luta pela Paz”.Num almoço de confraternização de passagem do ano, realizada por jovens de T. Vedras foi exigida a libertação do “comité central do MDN” e a negociação com a União Indiana.

 

 

2ª quinzena de Outubro de 1957

Anuncia a realização da celebração do 5 de Outubro em T. Vedras

 

 

Maio de 1958

Participação em manifestação a favor da candidatura de Humberto Delgado

 

 

2ª quinzena de Outubro de 1958

Comemorando o 5 de Outubro “em Torres Vedras os democratas reuniram-se em jantares e fizeram sair bandas de musica pelas ruas”.

 

 

Maio de 1960

 

Denuncia as difíceis condições de trabalho na Casa Hipólito com “muitos castigos, suspensões, cortes nos salários” e despedimentos.

 

Agosto de 1960

 

Anuncia “um reivindicação vitoriosa em Torres Vedras” por parte dos operários e empregados dos Stands e oficinas de automóveis da semana inglesa, com a excepção da empresa Capristanos, apelando por isso a uma “acção firme e unida de todos os trabalhadores”.

 

Outubro de 1960

Noticia a realização de jantares comemorativos e romagens no 5 de Outubro, “com alvorada de foguetes e morteiros”. Refere também que nessa data se realizaram várias assembleias onde foram recolhidas centenas de assinatura “reclamando amnistia para os presos políticos”

Anuncia que, juntando-se à anterior vitória do “pessoal dos Stands” na conquista da semana inglesa, “os operários das oficinas das diversas empresas de camionagem desta localidade conseguiram finalmente” aquele direito, regalia conquistada igualmente pelos “operários da maioria das oficinas de mecânica e recauchutagem”

 

2ª quinzena de Julho de 1961

 

 

Anuncia que “mil vinhateiros da Estremadura” se manifestaram contra o governo num reunião em Torres Vedras contra os efeitos da crise de exportações, levando a que “a PSP e a Legião” tivessem lançado “provocações” e “o governo”  tivesse ordenado “a concentração de forças da GNR em Torres Vedras”.

1ª quinzena de Outubro de 1961

Anuncia a realização de um jantar de confraternização para comemorar o 5 de Outubro, “onde participaram 140 democratas”.

 

 

Novembro de 1962

Refere que no 5 de Outubro, em Torres Vedras, “mais  de 100 pessoas que se dirigiam a um jantar de confraternização democrática foram dispersas pela polícia”.

 

 

Abril de 1964

 

Cerca de 40 operário da Casa Hipólito “de duas secções recusaram fazer horas extraordinárias”.

 

Fevereiro de 1965

 

 

Protesto dos viticultores do concelho contra a JNV e o governo devido a “uma taxa de 40 centavos sobre cada litro de vinho, protesto que se estendeu a A-Dos-Cunhados, onde houve “a paralisação quase geral do trabalho nos campos”.

Março de 1970

 

Luta dos operários da Casa Hipólito por aumento salarial, que “formaram comissão” em cada secção “para reivindicarem junto da gerência aumento geral compatível com a subida do custo de vida”.

 

Maio de 1971

Na noite de 5 para 6 de Março a “Bandeira Vermelha” foi içada em Torres Vedras, bem como a realização de inscrições  nos muros da vila, para comemorar o aniversário do PCP.

Em 8 de Março realizou-se um colóquio com 150 pessoas para comemorar o Dia da Mulher.

Refere conflito laboral na Casa Hipólito.

 

Junho de 1971

Para comemorar o 1ºde Maio “milhares de manifestos e tarjetas” foram “lançadas em torres Vedras” e, “na maior parte das empresas ninguém trabalhou”.

Na Casa Hipólito “foram formadas comissões em todas as secções” para reivindicar aumento salarial, tendo conseguido alcançar “um aumento médio de 12$50 para os homens e 10$00 para as mulheres

 

Abril de 1972

 

Anuncia uma greve às horas extraordinárias dos operários da “Fábrica Hipólito” e outras acções reivindicativas dos trabalhadores da “For-Este” e da Francisco António da Silva.

 

Maio de 1972

Comemoração do 1º de Maio.

 

 

Maio de 1973

Luta pelo direito de voto aos 18 anos

 

 

Junho de 1973

Anuncia que dezenas de operários da Casa Hipólito e quase toda a secção mecânica da Francisco António da Silva faltaram ao trabalho para comemorar o 1º de Maio “tendo havido convívio”

“Na Casa HIPÓLITO, continua  luta por aumentos de salários, semana das 45 horas e feriado no 1º de Maio”

 

Setembro 1973

 

Refere que os operários da Casa Hipólito conseguiram aumento de salário, “em resultado da luta que vinham travando há meses”, embora se mantivesse o descontentamento pelo facto de “o aumento ser inferior ao que reivindicaram”

 

Março de 1974

 

Anuncia a luta nacional dos sindicatos dos metalúrgicos  pela revisão da tabela “de retribuição”, indicando Torres Vedras como um dos concelhos em “luta”

 

Abril de 1974

 

Greve nas “oficinas Fonsecas” feita pelos “mecânicos”, e dos trabalhadores da “Adega Cooperativa e Grémio da Lavoura”, por aumento de salário

 

34 números do Avante com referências a Torres Vedras

18

19

6

1935-1944

7

3

1

3

1945-1954

4

2

2

0

1955-1964

13

7

4

1

1965-1974

20

6

12

2

Este quadro parece confirmar um certo abrandamento da actividade do PCP neste concelho no início da década de 50.

É a partir da candidatura de Humberto Delgado que começa novamente a crescer a actividade do “partido” na região.

Nota-se também uma forte presença e influência junto do meio operário torriense, principalmente na Casa Hipólito. 9 das 19 referências a “lutas operárias e sindicais”, entre 1954 e 1974, referem-se à  situação nessa fábrica metalúrgica.

Note-se também a importância de datas comemorativas, como o 5 de Outubro e, principalmente, o 1º de Maio.

Por esta altura em 1959/1960, estão referenciadas duas casas clandestinas em Runa (17).

Nesta nova fase de implantação local do PCP, ganha vulto uma outra figura, Fernando Vicente, nascido no Paúl em 1914, preso em 1936 por estar ligado à conhecida “Revolta dos Marinheiro” de 8 de Setembro desse ano, tendo cumprido uma pena de 17 anos no Tarrafal e que voltou à actividade política depois de libertado em Dezembro de 1953.Voltou a ser preso em Setembro de 1963, cumprindo 6 meses de prisão. Foi libertado por se encontra gravemente doente ,porque a PIDE temia que ele morresse à sua guarda, o que seria “incómodo” para o regime. Acabou por falecer em 23 de Janeiro de 1965 (18).

(folheto apelando a uma homenagem a Fernando Vicente)


A última prisão de Fernando Vicente em 1963 está ligada a uma grande onda de prisões no país, que atingiu gravemente a região Oeste e Torres Vedras, provocadas pela  traição de Rolando Verdial, antigo membro do Comité Central do PCP  e que passou a colaborar com a PIDE.

Além da actividade clandestina o PCP teve participação, mais ou menos activa, através de militantes e simpatizantes locais, em muitas iniciativas associativas e culturais, nomeadamente no Cine-Clube, nos anos de 1956 a 1962, no Clube de Campismo e Caravanismo , nos grupos de teatro da Sociedade Recreativa do Operário  e mais tarde do Grémio Artístico e Comercial, e na Associação de Educação Física e Desportiva de Torres Vedras.

Existia ainda uma biblioteca clandestina a funcionar na casa “do chapeleiro Narciso” e na Física de Torres.

Era “uma biblioteca viva”, onde autores censurados pelo regime eram lidos e discutidos em reuniões, também clandestinas. Algumas papelarias da cidade colaboravam também com a biblioteca e “mal recebiam os livros censurados procuravam logo os leitores para eles”(19).

Torres Vedras esteve também ligado às actividades da ARA (20).

A ARA (Acção Revolucionária Armada) foi uma organização de luta armada, controlada pelo PCP mas gozando de alguma autonomia, que surgiu em 1970 para realizar actos de sabotagem contra símbolos do regime e para combater a participação na Guerra Colonial. Foi uma forma de responder a outros grupos de luta armada, surgidos à sua esquerda, como a LUAR e as Brigadas Revolucionárias, ao mesmo tempo que respondia a sectores mais radicais do PCP, evitando dissidências à sua esquerda. O objectivo era boicotar a Guerra Colonial e o regime, mas procurando evitar o assassinato político, recorrendo apenas a actos de sabotagem em locais e horas em que não estivesse ninguém. Extinta no dia 1 de Maio de 1973, realizou 13 acções, havendo a registar uma morte acidental, alguém que, deparando-se com um engenho explosivo que devia rebentar junto das instalações da Escola Técnica da PIDE, em vez de avisar as autoridades, resolveu ir mexer no mesmo, que explodiu e lhe provocou a morte.

A primeira acção da ARA foi um acto de sabotagem que danificou gravemente o navio Cunene, o mais moderno cargueiro ao serviço da Guerra Colonial, em 20 de Outubro de 1970.

Um dos líderes dessa organização foi Raimundo Narciso, nascido na maternidade de Torres Vedras, mas tendo vivido a sua infância e inicio da juventude no Vilar. A mãe era natural de uma aldeia do concelho de Torres Vedras e, por isso, Raimundo Narciso tinha conhecimentos neste concelho, até porque frequentou o Liceu de Torres Vedras entre 1950 e 1956.

Tendo entrado para o PCP em 1959, quando estudava em Lisboa no Instituto Superior Técnico, e depois de ter estado na União Soviética e em Cuba, foi incumbido pelo partido de organizar e executar as acções da ARA.

A sua ligação a Torres Vedras terá então sido importante, pois o paiol principal da organização, onde se preparavam os engenhos explosivos para os actos de sabotagem, estavam escondidos num casa no Maxial, aldeia do concelho torriense.

Correndo o risco de alguma imprecisão, pois nem todos seriam militantes oficiais do PCP, e faltando muitos outros sobre os quais não temos notícias, aqui registamos alguns dos nomes de pessoas do concelho de Torres Vedras, para além de algumas já anteriormente referidas, que tiveram actividade significativa no seio do “partido” neste concelho:

- Adalberto Simões de Carvalho;

- Alberto Capão ;

- Armando Pedro Lopes,  (pseudónimo “Pinho”) preso nos anos 60,usou o seu automóvel para levar vários funcionários do partido a reuniões clandestinas. Foi um dos responsáveis por transportar um membro do Comité Central de pseudónimo  “Daniel” (Álvaro Cunhal ?), por várias ocasiões. Iniciou a sua actividade política como apoiante e membro da comissão concelhia de apoio a Arlindo Vicente;

- Artur António da Silva Lino. Entrou no finais de 1961. A sua principal função foi guardar funcionários do partido (Pseudónimo “Raul”). Detido em 9 de Maios de 1963;

-Carlos Augusto Bernardes;

- Carlos Simões;

- Duarte Nuno Clímaco Pinto, (responsável por um tipografia clandestina nos anos 60), sindicalista, funcionário clandestino do partido, preso anos 60 durante total de 5 anos;

- Evaristo Alfredo da Silva, muito activo nos anos 30 e 40;

- Firmino Rosa Santos (Runa) – preso em 22 de Abril de 1964, pena de 6 anos;

- Francisco Manuel Fernandes – membro do comité local do PCP entre 1972 e 1974, na clandestinidade, procurado pela PIDE, no 25 de Abril;

- Graça Oliveira – jovem quadro ao 25 de Abril, pertencente à União da Juventude trabalhadora;

- Hélio Samorrinha – membro da UEC ao 25 de Abril, ligado à célula do PCP no Liceu de Torres Vedras;

- Herculano Neto Silva.Tinha casa de apoio a clandestinos do PCP preso;

- Jaime Simões (“Varela” na clandestinidade), (canteiro) (21);

-Jerónimo Albarran Grilo. Ingressou no partido em finais de 1960.Em 1961 realizou-se uma reunião clandestina na sua casa, usada como casa de apoio (pseudónimo “Pato”);

- João Mesquita;

- João Pedro Capão – preso vários meses (22);

- João Ramos Martins  (“Viana” ou “Viena”) , comerciante, entrou em 1959 e foi preso nos ano 60. Apoiava a actividade clandestina recebendo membros do PCP na clandestinidade em sua casa onde se realizaram várias reuniões clandestinas;

- Joaquim Alberto Fernandes Bandeira responsável por arranjar transportes e casas de apoio para clandestinos (“Chico”), preso em 1955, em 1957, em 1959 e em 1963;

- Joaquim Ângelo Caldeira Rodrigues (engenheiro civil) (preso pela 1º vez em 1947. Terá colaborado com o PCP, mas não como militante (?) (23);

- Joaquim de Oliveira – preso em 1967;

- Jorge Ralha Leitão– ligado à juventude do partido, participando em reuniões clandestinas do PCP;

- José António  Martins;

- José Carvalho Mesquita – professor, preso várias vezes;

- José da Costa Sá. Entrou por vota e 1961. A sua residência foi um dos pontos de apoio do partido. Transportou 2 funcionários do PCP a Paris em Agosto de 1961;

- José Rodrigues Barco Perdigão – (nome de código “Zarco”);

- José Travanca Rodrigues, professor, era elemento de apoio à estrutura clandestina;

- Júlio Zacarias (operário no FAS ?) –primeira prisão nos anos 50 (24);

- Levy Miguel dos Santos;

- Luís Manuel de Almeida Perdigão. (pseudónimo “Temperado”). Entrou em 1957 e foi preso anos 9 de Maio de 1963. Usou o seu automóvel para transportar funcionários do partido a reuniões clandestinas. A Farmácia da sua família era um dos lugares de encontro de membros do PCP. Em 1961 foi incumbido de arranjar vários pontos de apoio em Torres Vedras para funcionários do partido;

- Manuel Lourenço (chefe de lanço na estação do CF de Runa) – preso por 2 meses , guardava matérias de uma tipografia clandestina (25);

-- Manuel Luís Pereira (“simpatizante”);

- Manuel Paulo dos Santos (“Félix” na clandestinidade) (Runa)- proprietário de fábrica de colchoaria –tinha um casa clandestina em Runa (26);

- Maria Alzira Gomes Boavida, farmacêutica, de Runa, presa nos anos 40 e seguintes. Participou na delegação portuguesa ao Festival de Moscovo de 1957;

- Miguel Simões (ferreiro), preso em Março de 1967(27);

- Pedro Mendes Fernandes –  proprietário,  preso pela primeira vez em 1958 por estar ligado à candidatura da Arlindo Vicente. Filiou-se no PCP em finais de 1958. Voltou a ser preso em Setembro de 1963 e outras vezes e estava preso no 25 de Abril. Transportava no seu automóvel funcionários do partido para reuniões clandestinas. (pseudónimo “Leal”). Em 1961 cedeu a sua residência como ponto de apoio às actividades do partido;

- Polidório Correia (carpinteiro), preso em Outubro de 1950(28);

- Rui da Costa Tomás dos Santos (Rui “Atleta”) (pseudónimo no partido – “Viana”) .Entrou em 1960;

- Vicente dos Santos (“Mafalda”) (marceneiro) – preso várias vezes (29);

- Victor Hugo da Costa Tomás dos Santos, preso nos anos 60.

(39 nomes identificados, fora os dos anos 30 acima referidos) (30).

No Verão de 1973 realizou-se um “plenário unitário” clandestino no “pinhal de Santa Cruz” para prepara a campanha do CDE às eleições de 1973 (31).

Uma das últimas iniciativas locais do PCP antes do 25 de Abril, fez deslocar a Torres Vedras a policia de choque e um vasto aparato policial, raro por estas bandas, mesmo nos tempos áureos da ditadura.

O motivo do aparato policial, junto ao cemitério de S. João, foi a romagem à campa do antifascista, tarrafalista e militante comunista, natu­ral de Paul, Fernando Vicen­te, que se realizou em 20 de Janeiro de 1974.

Surpreendentemente, o convite para que o povo de Torres Vedras participasse nessa homenagem foi pu­blicado nas páginas do jornal “Badaladas”:

“Ali, entre ciprestes, pe­las 11 horas do dia 20 de Janeiro, num minuto de re­colhimento, a vida não pa­recerá aquele vazio do quo­tidiano, sem ideais, apenas virada para a materialida­de da existência.

“Fernando Vicente mere­ce a simples homenagem póstuma que lhe vai ser tri­butada” (32).

Foram alguns os torrienses com coragem para com­parecer, mesmo assim menos que os “pides” e polícias de choque, presentes por “razões” diferentes.

Com o 25 de Abril, o PCP abandonou a clandestinidade e Francisco Fernandes, então jovem quadro do PCP, presidiu à Comissão Administrativa da primeira Câmara Municipal do pós 25 de Abril (33).

(primeiro comício do PCP em T.Vedras, depois do 25 de Abril)


Pelo 25 de Abril, o PCP tinha em Torres Vedras cerca de 30 militantes, vendendo-se por essa altura 25 exemplares de “O Militante” (34).

Em 22 de Janeiro de 1975 realizou-se o primeiro plenário concelhio em liberdade do PCP de Torres Vedras (35).

Nas primeiras eleições em liberdade, realizadas em 25 de Abril de 1975, o PCP concorreu sozinho e obteve um total de 5 095 votos, sendo a terceira força política no concelho. O MDP, que veio a formar mais tarde a primeira aliança partidária com o PCP, a FEPU, antepassada da CDU, obteve 1 406 votos. O PCP foi o segundo partido mais votado nas freguesias de Dois Portos, Monte Redondo, Runa, Santa Maria, e ficou muito perto dessa posição nas freguesias da Carvoeira, Matacães, Maxial, Ramalhal, S.Pedro e Turcifal.

Colagem de cartazes para as eleições de 25 de Abril de 1975 (foto de Ezequiel Santos)


A primeira Assembleia da Organização Concelhia de Torres Vedras do PCP, realizada em democracia, teve lugr em 22 de Janeiro de 1978. Nela, para  além de se fazer um balanço histórico da actuação do partido no concelho durante ao anos de ditadura, definiram-se as linhas de orientação para a acção do PCP torriense em democracia.

Nesse ano, o PCP contava no Concelho de Torres Vedras com mais de mil militantes , distribuídos por 56 “células”, e com a seguinte estrutura social : Operários industrias – 40,10%; “empregados” – 24,17%; “mulheres” – 13,48%; operários agrícolas – 8,25%; “técnicos e intelectuais” – 3,03%; camponeses – 2,6%.

Nesse mesmo ano  vendiam-se  375 “Avantes” e 80 “Militantes”.

A venda do “Avante” distribuía-se dos seguinte modo: Casa Hipólito -102; Francisco António da Silva – 30; Câmara Municipal – 25; Runa – 23; Comissão da sede – 18; Lusoceram – 16; “pequenos e médios comerciantes e industrias” – 15; Lourinhã – 15; Serviços Municipalizados – 14; Amial (Ramalhal) – 12; Fundição de Dois Portos – 12; Tipografia “A União” – 12; Casa Damião – 10; C.T.T. – 10; Banca de venda – 10; Caixaria (Dois Portos) – 8; Montengrão (S. Mamede da Ventosa) – 7; Carvoeira – 6; Biblioteca- 6 ; Recauchutagem Torreense – 5; Saúde – 5; Monte Redondo – 5; Vila Facaia – 5; Maxial – 4. (relatório da “1ª Assembleia da Organização do Concelho de Torres Vedras” realizada em 22 de Janeiro de 1978.

Não se pretendeu com este texto, em que abordámos apenas uma parte da sua história, a da clandestinidade e, de forma ainda mais resumida, os primeiros passos em democracia, fazer a história do PCP em Torres Vedras, mas apenas deixar alguns tópicos, que sirvam de base para quem o queira fazer.