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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

1923 - O “Primeiro” Carnaval de Torres Vedras

(foto do Carnaval de 1924, Arquio Adão de Carvalho, BMTV)

Por norma, foi fixada a fundação do moderno Carnaval de Torres em 1923, ano em que, pela primeira vez nesta localidade, foi coroado um rei no Carnaval, acto considerado fundador.

Isto não quer dizer que a tradição de se comemorar o Carnaval nesta localidade não se tivesse registado em datas anteriores.

Há quem atribua a data de “fundação” ao ano de 1574, com base num documento datado desse ano, a primeira referência conhecida à realização, neste concelho, de uma brincadeira típica do entrudo. Contudo isso não quer dizer que a mesma brincadeira, ou outras, não se realizassem por estas bandas em épocas muito mais recuadas, pelo menos desde que o calendário cristão foi imposto no território português. É provável que, esquecidos nos arquivos nacionais, existam outros documentos, desse período ou até mais antigos, referentes ao mesmo tema, pois as notícias mais antigas da realização de brincadeiras típicas do entrudo em Portugal datam do século XIII. Esse documento não prova nenhuma especificidade nas comemorações do entrudo nesta região. Era o mesmo que datarmos as comemorações do Natal em Torres Vedras com base num documento medieval que as referisse em Torres Vedras.

Quanto à oficialização do centenário em 2023, penso que, sendo o Carnaval de Torres uma "tradição inventada", se socorra de um acto "fundador" e "unificador" para o "consolidar" e "comemorar" e esse acto, apesar de não ser original, mas que manteve alguma continuidade, apesar de algumas interrupções, sempre foi a coroação do 1º rei do Carnaval de Torres em 1923. A existência de um rei não é original de Torres (existe referência na imprensa torriense à coroação de um rei no Bombarral na década anterior, sem esquecer que o mesmo se passava, quer no Carnaval de Lisboa dessa época, quer no Carnaval de Nice, que foi o modelo para a maior parte dos carnavais portugueses dos "loucos anos 20").

Foi à volta desse acto e dessa data simbólica que se foram acrescentando, ao longo das décadas, muitas das iniciativas que hoje fazem parte do calendário e da identidade do Carnaval de Torres.

Foi também à volta desse novo tipo de Carnaval, "inaugurado" em 1923, que o Carnaval de Torres ganhou fama e dimensão, distinguindo-se das meras "paródias" e construindo a sua identidade, principalmente na década dos anos 30 do século passado, despertando a atenção da imprensa e da cinematografia nacional, fama que se aprofundou na década de 60 e princípio da de 70, e, em dimensões muito maiores, a partir de 1985.

À volta do Carnaval "fundado" em 1923 ( e quem funda alguma coisa, por vezes não tem a percepção daquilo que está a "inventar" e da dimensão que vai ganhar no futuro), fez-se a fusão de três dimensões que existiam anteriormente, mas "de costas voltadas", daí também a importância da nova etapa "fundada" há cem anos:- a dimensão dos "bailes de salão", realizado em casas particulares e nas colectividades; - a dimensão do carnaval rural, que mantinha muitas das características do entrudo medieval; - e a dimensão do carnaval urbano, que se vai construindo ao longo do século XIX e que vai integrar, além das tradicionais cegadas, o modelo dos já referidos Carnaval de Nice e Carnaval de Lisboa.

Não me parece, assim, haver qualquer problema, a não ser de tipo retórico, em considerar a comemoração do centenário do Carnaval de Torres neste ano de 2023.

Penso que atribuir o centenário ao primeiro desfile com o "rei " tem um mero sentido simbólico, que me parece pertinente e é um pretexto, não para desvalorizar a sua história, mas para reflectir sobre a sua importância.

Contudo, não deixa de ser significativo que os torrienses de então não se tenham apercebido da importância desse acto fundador. De facto, são muito escassas as referências ao que se passou em 1923.

Apenas uma pequena referência, quase despercebida, de dois parágrafos, numa página interior, a página 2, do jornal “O Torreense”,  publicada no Domingo de 4 de Fevereiro de 1923, fazendo parte de uma coluna intitulada “Coisas da Nossa Terra”, no meio de outras notícias, dá conta da realização, “amanhã”, 5 de Fevereiro, segunda-feira, de “um engraçado divertimento carnavalesco, que consta da recepção do Rei Carnaval, que deve chegar no comboio correio da manhã”. E conclui a notícia que a “recepção terá logar com inúmeras demonstrações festivas, percorrendo Sua Magestade as ruas da vila, acompanhado dum luzido cortejo”.

Curiosamente, esse desfile realizou-se uma semana antes da semana de Carnaval. De facto, segundo aquela notícia, essa “brincadeira” estava anunciada para 2ª feira 5 de Fevereiro, quando 3ª feira de Carnaval desse ano aconteceu em 13 de Fevereiro.

Estranhamente não se encontra, em edições futuras da imprensa da época, qualquer relato ou referência a esse mesmo desfile.

Existem mutas informações sobre o Carnaval desse ano, nenhuma sobre esse anunciado desfile, que apenas sabemos que se realizou por relatos futuros, de tradição oral ou publicada noutros anos, sobre o que aconteceu em 1923.

De facto, percorrendo as páginas do dito semanário torriense, publicadas na véspera ou nas semanas a seguir ao Entrudo desse ano, as referências que encontramos nada referem sobre o assunto. De notar que as edições de “O Torrense” de 11, 18 e 25 de Fevereiro desse ano, onde se relata o que se passou no Carnaval desse ano, desapareceram, misteriosamente, da colecção desse periódico existente na Biblioteca Municipal de Torres Vedras. Felizmente esses números podem ser consultados na hemeroteca da Biblioteca Nacional de Lisboa.

Na sua edição de 11 de Fevereiro apenas se refere que a “quadra carnavalesca nesta vila tem passado despercebida, a não ser nas sociedades de recreio onde se anda em preparativos para os três dias de festas por exelencia”, anunciando que nas “referidas sociedades, durante os três dias, haverá bailes e numerosas variedades, alguns dos quaes de êxito seguro”. É nos ditos “preparativos” que devemos enquadrar a anterior referência à recepção do rei do Carnaval anunciada para 5 de Fevereiro. Mas, á posteriori, não encontramos qualquer noticia que refira a dita recepção.

Pelo contrário,  na sua edição de 25 de Fevereiro, aquele semanário local refere que o “Carnaval este ano decorreu nesta vila insípido e sensaborão, principalmente nas ruas”, aos contrário das “Cazas de recreio”, onde “houve baile e outros divertimentos durante as três noites, que decorreram com um tal ou qual animação, embora muito inferior à dos anos anteriores”.

Do programa carnavalesco realizado nas colectividades locais, destaca a “representação, por alunos da Escola  Secundária, duma peça da autoria do Snr. José do Nascimento Neves, professor deste estabelecimento de ensino”, embora se refira à representação da peça como “uma verdadeira desilusão”, de uma “extraordinária banalidade”. Ao jornal terá desagradado especialmente o “julgamento que o autor fez exibir no 2ª acto”, principalmente “o julgamento de O Torreense”. De positivo, o citado articulista refere “as artísticas e lindas ornamentações dos salões de baile do Grémio e da Tuna”.

Mas aquela que é a mais curiosa referência ao Carnaval desse ano é a um desfile de “um cortejo” em Dois Portos “parodiando a procissão dos passos”, situação muito criticada nas páginas do dito semanário “O Torreense” de 25 de Fevereiro: “Custa a crer que tal cortejo não fosse proibido (…). O cortejo a que vimos de aludir constitui para os católicos uma afronta”, tanto mais que a verdadeira Procissão dos Passos desse ano tinha sido proibida pelas autoridades.

Seja como for, foi esse Carnaval de 1923 que deu inicio a um caminho que nos levou até ao Carnaval actual, para além de contribuir, com já referimos, para a "fusão" e "síntese" de várias caracteristicas do Carnaval, o mais antigo, o rural, o urbano, o de salão e o que se fazia em muitos sítios, de Nice a Lisboa ou Coimbra  e até no Brasil (curiosamente, este último foi influenciado pelo Carnaval português, fundindo-se com as origens africanas de grande parte do seu povo).

ANEXO

DESCRIÇÃO DO SEGUNDO CARNAVAL COM "REI" (e primeiro com "rainha") - 1924

"Foram este ano revestidas de extraordinario brilhantismo as festas carnavalescas,realisadas por ocasião da chegada de Sua Magestade D.Carnaval II,rei da Folia e da gargalhada e imperador dos Estados Unidos de todas as encabadelas  em uso nesta temporada -como rezava o respectivo programa.

"Muito antes da hora anunciada para a chegada de S.M.,que,acompanhado pelos membros do seu ministerio ,devia desembarcar na estação do caminho de ferro ,já o largo fronteiro se encontrava replecto de gente.

"Pouco depois chegava o comandante da policia (Gil Lourenço),que acompanhado  por alguns guardas civiscos  era encarregado do policiamento.

"Logo a seguir desembocava na Avenida 5 de Outubro o esquadrão de cavalaria e burraria, sob o comando de João Duarte ,tendo como subalternos Eurico Pinto e Alberto Nobre e como porta-estandarte Jaime Alves e que fórma ao longo da Avenida.

"Pouco depois surge o batalhão de marinheiros de agua doce  ,sob o comando de Francisco J.Lucio.

"As forças fazem a continencia e o batalhão vai formar em frente da estação.A sua organização é elogiada; apresentam-se bem equipados, desfilam com garbo e obedecem prontamente ás  vozes de comando.

"Começam a chegar então os coches dos altos dignatarios .Sua eminencia  o cardeal (Sancho da Costa).Bispo (Ruy Garrett).Conego (Antonio Trindade).Acolito(Manuel Vidal).

"Cada  vez é maior a afluencia de povo .Aparece a seguir o carro da burguezia  ,uma graciosa charge  que provoca risos na assistencia.

"A Chegada de Sua Magestade

"Eram 10 horas e 17 minutos quando o comboio entrou na estação.Sobem ao ar muitos foguetes.A banda musical atroa os ares com uma marcha real   .

"Sua Magestade desembarca e é recebido pelos altos dignatarios , dirigindo-se depois dos cumprimentos de boas vindas para o coche que o aguarda.

"A guarda de honra é feita ,fóra da estação,pelo batalhão de marinheiros de agua doce.

"Estralejam mais foguetes.A banda entoa ainda os ultimos compassos da marcha real.As forças militares fazem a continencia.

"Na assistencia ha palmas e gargalhadas.

 "O Cortejo.

"Organisa-se então o cortejo ,que ha de acompanhar Sua Magestade na sua visita ás sociedades de recreio.

"Á frente um termo de trombeteiros ,levando o emblema real,nos seus instrumentos .

"A seguir o batalhão de cavalaria e burraria de penachos ao vento.

"Seguia o estandarte real escoltado por dois soldados de cavalaria montados em burros.

"No primeiro carro seguia o ministério: Ministro da marinha (José Pedro Costa),do trabalho (António Trigueiros Junior) e do Interior (Tomaz dos Santos).

 "O carro do clero ,cujos tripulantes já mencionámos.

 "O carro dos embaixadores ,no qual merece especial menção Amílcar Guerreiro com embaixador  do Celeste Império.Seguiam no mesmo carro os embaixadores  dos Peles Vermelhas  (Alfredo de Almeida), Turquia (Jose Castanho) ,Hespanha (Luiz Santana).

 "Coche real ,no qual seguiam,além de Sua Magestade, o presidente do ministerio  (Antonio Hipolito Junior) e o chefe do protocolo  (M.Silva); ministro da guerra  (Leonel Trindade).Cavalgavam á estribeira os generais Eurico Pinto e Guilherme Nobre. 

"Seguia o batalhão de marinheiros de agua doce.

"Carro da burguezia ,conduzido por Raul Lucas e D.Imiro "(?sic)"Rodrigues e tripulado por António de Oliveira e Julio da Silva.

 "Fechava o cortejo a Filarmonica Torreense.

"Começou então a visita ás colectividades de recreio começando pelo Casino.

"Aqui foi Sua Magestade recebido pelo Ex.mo. Sr. Dr. José de Bastos que agradeceu em nome da Direcção a gentileza da visita.

 "Seguiu-se o Grémio Artístico - Comercial na qual o representante da Direcção era o sr.Justino Alves de Almeida que agradeceu a visita a Sua Magestade em resposta ao discurso do presidente do ministério.

"Na Tuna Comercial Torreense que a seguiu foi honrada com a visita de Sua Magestade ,foi servida pela direcção um delicado copo,d'água.

"A seguir dirigiu-se o cortejo para o Largo da Republica onde ,depois de serem passados em revista as suas forças militares ,se dissolveu.

"VISITA ÁS COLECTIVIDADES "(Sic)

"Pelas 13 horas teve logar no vasto salão de festas do Hotel Natividade o banquete de gala oferecido em honra de Sua Magestade,que decorreu no meio da maior animação e durante a qual sua excelencia o senhor Visconde da Horta-Nova exerceu ao piano algumas repetições  do fado corrido.

"Foram levantados muitos brindes havendo o Embaixador dos Peles Vermelhas  (Alfredo de Almeida) tido palavras de elogio para a imprensa local,ali representada,o que agradecemos.

"Findo o banquete,Sua Magestade D.Carnaval II,"atendendo ao que lhe expozeram os membros do seu ministerio e considerando que o sr.Carlos Alexandre Capucho como armazenista de vinhos tem sempre concorrido para que o saboroso nectar continue sempre espalhando a alegria na Humanidade,entende por bem condecorá-lo com a medalha de ouro de Beneficiencia Mundial.Pede desculpa de a medalha de ouro ser de cobre mas que isso é devido á pobreza do erário real"

"Uma estrondosa salva de palmas coroou as palavras de Sua Magestade.

 "O DESAFIO DE FOOT-BALL

"Ás 15 horas teve logar no vasto campo da Varzea o desafio de foot-ball entre o Femina - Sport-Club e o Imperio-Mania-Foot-Ball Club ,servindo de arbitro Gil Lourenço.

"Assistiu ,de uma tribuna expressamente armada para esse efeito ,Sua  Magestade D.Carnaval II acompanhado pelos membros do seu ministerio ,embaixadores ,altos dignatarios ,etc.

"No decorrer do desafio Sua Magestade devido ao excessivo "calor" do sol(?) sentiu-se ligeiramente indisposto pelo que foi obrigado a recolher aos seus aposentos.

 "Comparecendo o medico da real camara apenas receitou trez horas de sono para fazer evaporar os ultimos "calores" cerebrais de Sua Magestade.

"D.Carnaval II ficou muito grato para com os tripulantes do "carro da burguezia" que gentilmente se prestaram a conduzi-lo ao seu palacio.

"O BAPTISMO DO PRÍNCIPE REI

"Teve logar no salão de baile do Grémio Artistico Comercial o ultimo numero das festas organisadas pela comissão de festejos e na qual merece especial menção o esforço dispendido pelo sr.Leonel Trindade.

"Foi o baptismo de sua alteza real.O salão encontrava-se completamente apinhada.

 "Pouco depois da hora anunciada deu-se começo á cerimonia á qual assistiu Sua Magestade a Rainha (Jaime Alves).

"Conduzindo o neofito (Alfredo de Almeida) ao colo de sua aia (Gil Lourenço) ao palco ,foi o batismo realisado por Sua Iminencia o Cardeal ,acolitado pelos outros "ministros" da religião que tomaram parte no cortejo.

"Em seguida teve logar o baile que se dançou animadamente até de madrugada".

(sublinhados nossos).

In "O Torreense" de 12-03-1924

(NOTA : É de notar que a referência à presença rainha (Jaime Alves)  só aparece na cerimónia final, também não se vendo na fotografia de 1924 que ilustra este texto)

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Carnaval de Torres de 1968


No site "Fotold.com" podemos encontrar muitas fotografias antigas de Torres Vedras.

Esse site é um banco de imagens, orientado por Anabela Silva (curadoria@fotold.com), com fotografias de todo o país.

Entre as fotografias de Torres Vedras encontra-se um conjunto de fotografias do carnaval de Torres Vedras de 1968, parte das quais aqui divulgamos.

Um dado curioso é, ao percorrermos os olhos pelo público presente, raros são os mascarados e nem uma matrafona.








segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

A Caricatura Política e a Censura no Carnaval de Torres (pequeno esboço para enquadramento)


Não existem muitos indícios e documentos sobre a caricatura política no Carnaval de Torres, antes do 25 de Abril.

Existem, quanto muito, referências dispersas, na imprensa local, no início do século XX, sobre algumas criticas a acontecimentos locais e a alguns conflitos com as autoridades por causa de algumas “pulhas” carnavalescas, mais criticas em relação à monarquia, às autoridades, à Igreja, ou a atitudes de caracter brejeiro.

Há registo de grande animação no Carnaval de rua em 1908, realizado poucos dias depois do assassinato de D. Carlos, onde houve uma mascarada ridicularizando políticos monárquicos, locais e nacionais.

A mais antiga fotografia conhecida dos festejos carnavalescos regista uma paródia a um acontecimento político.

Foi em 1912, uma fotografia publicada na “Ilustração Portuguesa” (nº 315 de Março de 1912), acompanhada da seguinte legenda: “Em Torres Vedras: Paródia carnavalesca. Invasão dos Paivantes. O exército afugentado pelo Zé Povinho que lhes atira uma bomba de 5 réis”.

Era uma alusão a uma das incursões de Paiva Couceiro nesse ano.



Em 1923 surge o primeiro Carnaval organizado, com a presença de um “rei” “coroado”, passando a ser acompanhado pela “rainha” no ano seguinte, “rainha” essa que, até aos dias de hoje, é sempre um homem mascarado. Muitas das personalidades identificadas como organizadores desses primeiros desfiles estavam conotados com o republicanismo histórico local.

Não deixa de ser curioso que, entre 1923 e 1926, a Câmara Municipal Torriense tenha sido presidida por um monárquico, podendo interpretar-se a forma como se apresentavam os “reis” no Carnaval, a partir dessa data, como uma assumida forma de ironizar e ridicularizar a monarquia, uma critica ao poder autárquico.

Acrescente-se que, por essa altura, a “corte” era acompanhada por várias figuras “religiosas”, uma forma de “gozar” com a Igreja, situação esta que foi proibida e banida durante os anos da ditadura.

Com a instauração da ditadura militar interrompeu-se, durante alguns anos (1927, 1928, 1929), a realização do Carnaval de rua organizado, dando-se o regresso em 1930, mas agora sujeito aos limites impostos pela censura.

O órgão local da recém formada União Nacional, por ocasião do Carnaval de 1933, chegou mesmo a fazer algumas ameaças veladas a quem se atrevesse a aproveitar o Carnaval para fazer critica política: “Se aparecerem carros com fins reservados, atacando pessoalmente, este ou aquele individuo, este ou aquela instituição (…) as autoridades (…) proibirão terminantemente, decididamente, estes e outos quaisquer abusos que possam deslustrar os extraordinários festejos, mas sempre é bom este aviso para evitar escusadas despezas a quem se prepara para tais brincadeiras de mau gosto (…). De forma categórica, podemos desde já garantir que estes abusos não se darão durante o Carnaval, a menos que os seus autores se queiram sujeitar aos rigores das medidas administrativas (…). Aqui fica, pois, o aviso”.

O “aviso”, juntamente com a acção da censura, da PIDE e do medo, terá surtido o seu efeito, não se conhecendo, até ao 25 de Abril, a existência de criticas ou caricaturas de carácter político no Carnaval de Torres Vedras.

Existe apenas uma excepção, documentada por Joaquim Vieira, no volume dedicado aos anos 1930-1940 do seu “Portugal – Século XX – Crónica em Imagens” (círculo de Leitores, ed. 1999), onde se inclui uma imagem, retirada do arquivo do DN, com a seguinte legenda: “No entrudo em Torres Vedras em 1939, evoca-se os homens de Munique (Chamberlain, Mussolini, o francês Daladier e Hitler)” (pág. 169).



Foi a partir de 1985 que o Carnaval de Torres ganhou a dinâmica actual e a caricatura política, local, nacional e internacional, se tornou habitual e recorrente, com a qualidade que se conhece, integrando os carros alegóricos e o “monumento”.

Mesmo assim, tirando a presença regular nos carros da organização e no “monumento”, a critica politica espontânea não é tão frequente como seria de prever em democracia, surgindo de forma mais acentuada em determinadas conjunturas como durante os governos de Cavaco Silva, muito criticado ( e gozado) por ter retirado o decreto de tolerância da 3ª feira de Carnaval, a durante os anos da “troika”, quando se voltou a recusar o decreto de tolerância em nome da austeridade,

De resto, como há décadas que o carnaval de Torres obedece a uma temática unificadora, esta acaba também por condicionar a critica e a caricatura política, que nem sempre encaixa nessa temática.

Já em liberdade, também se registaram alguns significativos actos de censura, um na década de 80, exercida sobre um carro da Associação do Património, onde se assumiam criticas à acção camarária, outro durante o governo de Sócrates, quando uma zelosa juíza local obrigou a retirar imagens de teor pornográfico colocadas numa imitação do célebre computador Magalhães, e outra, mais recentemente, quando o monumento incluiu uma imagem caricaturada da Nossa Senhora de Fátima.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

…era o Vinho! (breve evocação da produção vinícola na história torriense

 


A história de Torres Vedras é transversal à história da produção de vinho.

Contudo, não existe nenhuma monografia aprofundada e diacrónica sobre a história do vinho nesta região, apesar de muitas referência e estudos de tipo conjuntural.

Com este texto procuramos elaborar uma pequena síntese que, quem sabe, possa servir de base para uma história do impacto da produção vinícola na região de Torres Vedras.

Não se conhecendo quando é que esse produto foi introduzido na região ou se existia em estado selvagem, existem vestígio de videiras por altura da época de ocupação do Castro do Zambujal (c.2500 a 1700 aC.), como é referido por Margarethe Upermann  (UERPMANN, Margarethe, “A indústria da pedra lascada do Zambujal”, in KUNST, Michael (coord.), Origens, Estruturas e Relações das Culturas Calcolíticas da Península Ibérica, Actas das I Jornadas Arqueológicas de Torres Vedras, 3-5 Abril 1987, Trabalhos de Arqueologia 7, IPPAA, Lisboa 1995, pp.37-44).

Também Ana Arruda refere que a população indígena da região de Torres Vedras consumia vinho importado da Fenícia, durante a chamada Idade do Ferro europeia, no século VIII a.C (ARRUDA, Ana Maria, “O comércio fenício”, in História de Portugal – Dos Tempos Pré-Históricos aos Nossos Dias, dir. João Medina, 2º Vol, pp.17 a 34, Ediclube, 1993).

Contudo, em ambas as épocas referidas, se existem evidências de consumo, não existem provas de produção local.

Ao que parece, a produção local de vinho terá conhecido um grane incremento comercial durante a ocupação romana, e está na base da existência, nesta região, de várias villae, uma espécie de “quintas”, que abasteciam Olisipo, através de uma rede viária com alguma dimensão.

Contudo, é preciso esperar pelo foral de 1250 para encontrarmos a primeira referência documental à produção de vinho local:

“Aquele que arrombar o relego do vinho, e vender o vinho no seu relego, e provada a infracção (…) pague cinco soldos. E se for achado de novo em falta pela terceira vez, (…), todo o vinho seja entornado e os arcos dos tonéis sejam cortados. Do vinho de fora dêem um almude por cada carga e o outro seja vendido no relego”.

Pouco depois, surge o mais antigo documento conhecido que nos permite analisar, com algum rigor, a importância produtiva e a localização no concelho da produção vinícola na Idade Média, documento de 1309 ( Este documento foi publicado, analisado e divulgado por aqueles que se têm dedicado ao estudo da Idade Média em Torres Vedras: Félix Lopes, John Jonhson, Manuel Clemente, Manuela Catarino, Ana Maria Rodrigues, Carlos Guardado Silva…).

Pelos dados desse documento, calcula-se que o vinho, sendo produto importante, representava pouco mais de 30% do total dos produtos agrícolas produzidos no concelho, dominando a produção de cereis.

O Clero (com mais de 6 mil almudes) e a nobreza (com quase 5 mil almudes) dominavam a produção do vinho local (num total, nesse ano, de cerca de 16 mil almudes).

A zona do concelho onde se concentrava a maior parte da produção do vinho era no vale do Sizandro, principalmente o sudeste, na região entre Dois Portos e a Ribeira de Pedrulhos, estendendo-se para o Barro e a Orjariça, até ao Turcifal. As aldeias do Varatojo, Turcifal, Ribaldeira e Ribeira de Manjapão concentravam cerca de 20% de toda a produção vinícola.

Com a excepção desse documento, é muito escassa e dispersa a documentação existente sobre esse tipo de produção neste concelho.

De referir, no foral manuelino de Torres Vedras, doado em 1510, o destaque à produção de vinho, como se revela pela importância dada ao relego real, cuja venda tinha lugar privilegiado nos três primeiros meses do ano e cujo desrespeito motivava algumas das mais pesadas penas estabelecidas nesse foral, demonstrando a importância e o valor que o vinho da região começava a ter.

A abundância de vinho nesta região é referida em 1589, quando o  exército anglo-luso, onde se encontrava D. António Prior do Crato,  entrando em Torres Vedras, a caminho de Lisboa, com o objectivo de restaurar o trono português, aqui se demorou mais do que o necessário, porque muitos dos soldados “se embebedarão, por aver muito vinho nesta villa”. Beberam em tal excesso que muitos adoeceram e alguns chegaram mesmo a morrer, incidente que provocou um atraso no avanço dos Ingleses sobre Lisboa, dando tempo às tropas luso-castelhanas, que defendiam a capital, de se prepararem para a chegada dos apoiantes de D. António.

O  desenvolvimento da expansão portuguesa ao longo do século XVI parece ter contribuído para o crescimento da importância comercial da produção do vinho desta região, como o atesta Duarte Nunes de Leão, na sua obra datada de 1599 : “par carrego sam infiniros os vinhos que da Santarem, Alenquer e Torres Vedras e seu grande termo”, os quais “com os de Lamego e Monção poderiam bastecer um reino deixando à parte os que se dam na Beira”.

A meio do século XVII também Rodrigo Mendez da Silva  anotava a abundância, na vila de Torres Vedras, por ordem de importência, de “pan, vino, azeyte, ganados [gado] y cazas [caça]”

As qualidades do vinho Torrienses foram igualmente gabado no principio de “setecentos”  por António Carvalho da Costa, indicando que “esta villa” de Torres Vedras, para além de ser “abundante de excelente trigo, frutas, gado, caça & vinho”, “lavra mais de seis mil pipas” de vinho “que vão para a Índia, por serem de grande substancia para passarem os mares”.

É igualmente no século XVIII, a partir de 1723, que o preço do vinho passa a ser regular e anualmente taxado nos acórdãos camarários, juntamente  com o trigo, a cevada, o milho e o azeite.

Contudo, na segunda metade desse século, durante o governo do Marquês de Pombal, a sua produção vai conhecer um período de incerteza, quando dois alvarás, um datado de 20 de Outubro de 1765 outro de 8 de Fevreiro de 1766, ordenam o arranque de vinhas, um pouco por todo o país, com o objectivo de libertar terras para o cultivo de “pão”, mas que visava, na realidade a produção do Douro. No primeiro desses alvarás a região de Torres Vedras, entre foi excluída dessa decisão, mas, no segundo, as terras cultivadas com vinhas neste concelho passam a ser consideradas impróprias para o seu cultivo.

Ao que parece, esta segunda decisão ficou sem efeito, pois, segundo Veríssimo Serrão, nesse ano de 1766 a coroa determinou “que se fizesse destinção no preço dos vinhos, de modo a não prejudicar a qualidade do fino tinto produzido no Alto Douro” medida essa que, entre outras consequências, valorizou “o produto da região estremenha (Santarém, Torres Vedras) e também Bairrada, que se tornaram ricas zonas vinícolas do País”.

Ao longo do século XVIII o vinho tornou-se um dos principais produtos da região, embora nunca ultrapasse muito os 30% de toda a produção agrícola, 39,1% em 1764 ou 32,2% em 1799.

Parece ter sido ao longo do século XIX, embora com variações, que o seu peso se tronou esmagador, rondando 50% de toda a produção agrícola local logo em 1812, em crescimento contínuo até ao final desse século. (1799 – Mapa do rendimento da Dízima eclesiástica publicada por João Pereira; 1812 – Dados publicados na parte económica de Madeira Torres, aferidos por João Pereira).

A crescente importância da produção vinícola foi observada ainda na primeira metada desse século por Madeira Torres, que escreveu , na parte económica da sua obra, escrita no primeiro quartel do século, refrindo-se a essa produção no “terreno da villa, e seu termo, he muito considerável, e até verdadeiramente singular na generalidade dos fructos que abrange. A producção do vinho he sobre todas a mais abundante” (p.246).

A tão temida filoxera, tema estudado com bastante detalhe por Célia Reis ( “Problemas dos Vinhos Torrienses no Final da Monarquia”, in Turres Veteras III- Actas de História Contemporânea, ed. CMTV/IERMAH-Un. Letras, T. Vedras 2000, pp.123 a 158).

A filoxera manifestou-se pela primeira vez no concelho em 1883, numa vinha da Quinta Nova, junto da Ordasqueira, expandindo-se no ano seguinte pelas vinhas de várias Quintas da freguesia da Ventosa, uma das mais importantes na produção do vinho do concelho, atingindo o seu auge em 1885, quando atingiu todo o concelho, obrigando à substituição das cepas afectadas pelo chamado bacelo americano a partir de 1886.

A crise da Filoxera, ao obrigar a grandes mudanças no tipo de vinhas e no modo de produção vinícola, parece terem contribuído para o rápido crescimento da sua produção local, ultrapassando em 80% o total de toda a produção agrícola ao longo da última década do século e contribuindo para uma profunda alteração na paisagem rural do concelho.

As freguesias de A-Dos-Cunhados, Matacães, Carmões, S.Pedro da vila e S.Mamede da Ventosa foram aquelas onde se iniciou esse processo de substituição.

Em 1888 a vinha “americana” era dominante em relação à “europeia” na maior parte das freguesias e em 1891 já não existia nenhuma vinha de bacelo “europeu” plantada e registada no concelho.

A acção dos viticultores torrienses foi assim rápida e eficaz. Para isso muito contribui a imprensa local, que surgiu em 1885 e dedicava grande parte do seu conteúdo aos problemas da viticultura, bem como a existência de uma escola vitivinícola na Quinta da Viscondessa, no Turcifal, dirigida pela família Batalha Reis, principalmente o irmão António, cujo papel na economia e na sociedade da região ainda está por estudar.

Com a plantação da vinha “americana” a região recuperou rapidamente da crise, tornando-se um importante centro de exportação de vinhos, não só para o Douro, mas também para Bordéus.

José de Campos Pereira, na sua obra publicada em 1915, baseada em dados de 1911, intitulada “A Propriedade Rústica em Portugal”, revela dados que colocam o concelho de Torres Vedras em primeiro lugar no distrito de Lisboa, que então incluía a área do actual distrito de Setúbal, quer quanto à área de cultivo da vinha (21 000 hectares, cerca de ¼ do total distrital), quer quanto ao rendimento (15 mil contos, pouco menos de 1/3 do total distrital ) quer quanto à produção (808 500 hectolitros, cerca de 1/3 do total distrital).

Todos os dados confirmam o peso da produção vinícola até meio do século XX, vinha, ocupando quase metade da superfície agrícola do concelho, seguindo-se o cultivo de batata, trigo e milho, que apesar de tudo, no seu conjunto, ocupavam menos área que a do vinho.

É na segunda metade do século que a produção do vinho vai conhecer profundas mudanças estruturais, reduzindo a área de cultivo mas, apostando-se na qualidade para expostação. Mas essa é outra história.

terça-feira, 28 de novembro de 2023

As “Festas” de Torres Vedras de 1929 -Inauguração do Mueu Municipal e rede telefónica

 

Inauguração da Linha Telefónica em T. Vedras - (Fonte: Torre do Tombo)

“Dois dias duraram elas.

“E se a função não foi de espavento, nem coisa de encher o olho (…) aos mais exigentes, foi, no entanto, qualquer coisa decente e compostinha, que não deixou em mal o bom nome da vila”(1).

Essas “festas”, realizadas em 28 e 29 de Julho de 1929, foram as da inauguração da rede telefónica urbana e do Museu Municipal de Torres Vedras, incluindo uma visita às obras do novo Hospital e a realização do 1º Concurso Hípico de Torres Vedras, contando com a presença do Governador Civil de Lisboa, o coronel Morais Sarmento, e do major João Luís de Moura, entre outras “altas individualidades.

Esse evento deu continuidade à inauguração da ligação telefónica entre Torres Vedras e Lisboa que ocorreu em 4 de Março, ocasião para a qual chegou a estar anunciada a presença do Presidente da República, o general Óscar Carmona, que acabou por faltar por “razões de saúde (2).

Vivia-se então o terceiro ano da  Ditadura Militar iniciada em 28 de Maio de 1926.

Esta enfrentava então um momento de encruzilhada quanto ao seu futuro, digladiando-se várias facções e várias tendências.

Uns viam no modelo da ditadura espanhola, liderada por Primo de Rivera, apoiada pelo rei Afonso XIII, uma possibilidade de restaurar a monarquia mantendo a ditadura, outros desejavam o regresso a uma República conservadora e democrática “regenerada” pela ditadura, mas o modelo cada vez mais presente era o de adaptar a realidade portuguesa ao fascismo italiano de Mussolini.

Ainda no início desse mês de Julho de 1929 tinha tomado posse o 6º governo da Ditadura, liderado pelo general Ivens Ferraz, fruto de mais uma crise política provocada por essa “guerra” surda entre fações da ditadura, da qual saiu mais reforçada a figura de Salazar.

Mas voltando às “Festas” de Torres Vedras, estas tiveram inicio pelas 11 da manhã do Domingo 28 de Julho, com a chegada dos “ilustres convidados”, o coronel Morais Sarmento, antigo Ministro da Guerra, ocupando nesta data o cargo de Governador Civil de Lisboa, e o major João Luís de Moura, “que fizeram a viagem de automóvel”, deslocando-se aos Paços do Concelho para uma sessão solene, onde aqueles dois militares do 28 de Maio receberam o título de cidadãos honorários de Torres Vedras.

No primeiro discurso dessa sessão, proferido pelo vice-presidente da Câmara, o Dr. António Freire, este recordou a acção de Morais Sarmento a favor da vila de Torres Vedras, quando ocupou o cargo de Ministro da Guerra, destacando a entrega “aos cuidados do Município do vetusto Castelo da Vila, cedendo ainda importantes parcelas de terreno” dependentes daquele ministério, enaltecendo o facto de, como Governador Civil, ter também beneficiando, com vários donativos, a Associação de Educação Física, os Bombeiros Voluntários e a sua Banda, a “Cantina Escolar”, o “hospital em construção” e a escola primária da freguesia do Maxial, entre outros apoios.

Após essa sessão solene, pautada por vários discursos de elogio aos convidados e aos feitos da Ditadura Militar, “os visitantes subiram ao segundo piso do edifício camarário a fim de ser inaugurada a rêde telefonica dentro da vila. E que conta com 65 subscritores”.

A primeira chamada foi efectuada, simbolicamente, por Morais Sarmento para o Hotel dos Cucos, para o “sr. General Trindade, presidente da Junta Autónoma das Estradas, aproveitando para “ lhe pedir “a conclusão da estrada de Vilar” para Torres Vedras.

Depois o Governador Civil efectuou um segundo telefonema para “o sr. General Ivens Ferraz”, o recém empossado Presidente do Concelho de Ministros do 6º governo da ditadura.

Recorde-se que estamos a falar da inauguração da rede pública telefónica. Em Março deste ano, como referimos, foi efectuada a primeira ligação simbólica entre Torres Vedras e Lisboa. Já existiam telefones em Tores Vedras, mas eram particulares, tendo  a primeira ligação sido  efectuada em 24 de Dezembro de 1885, ligando o casal das Lapas, em A-Dos-Cunhados, à vila. Antes já existia um sistema de comunicação por telégrafo inaugurado em 23 de Junho de 1865, ligando Torres Vedras a Caldas da Rainha e a Mafra, com uma estação provisória instalada no Largo do Terreirinho.

Continuando com as “festas”, por volta do meio-dia aquelas individualidades deslocaram-se à sala Irmandade dos Clérigos Pobres, anexa à Igreja de S. Pedro, para inaugurar o Museu Municipal, dirigido por Salinas Calado, destacando a citada reportagem do jornal Gazeta de Torres os principais objectos expostos ao público, como o bufete da Maceira, o foral manuelino de Torres Vedras, vários objectos de arte sacra, uma imagem em marfim, colecções arqueológicas de várias épocas e os oito quadros quinhentistas, então ainda atribuídos a Gregório Lopes.

Após essa inauguração, os “ilustres hospedes visitaram (…) as obras do novo edifício hospitalar, em construção, e cujo corpo central se encontra já bastante adiantado”, sendo recebidos “pelo sr. Joaquim dos Santos Vaquinhas, presidente da comissão edificadora e uma das pessoas que mais se tem esforçado para dotar a vila com uma instituição hospitalar digna, e que possa satisfazer as crescentes necessidades da população”. Contudo, esta obra só foi concluída e inaugurada em 1943.

Após essas visitas e inaugurações, seguiu-se um almoço no Hotel dos Cucos, que terminou com mais uma ronda de “uso da palavra” para enaltecer os convidados e a obra da Ditadura.

O programa de festas desse dia culminou com a realização do Primeiro Concurso Hípico de Torres Vedras, ao qual concorreram 40 cavaleiros, realizado em terrenos pertencentes ao proprietário das Termas dos Cucos, José António Vieira, e próximos desse empreendimento.

“Três escassas semanas atraz estava o campo ainda em cultura de grão. E os pinheiros ainda firmes e erectos em seu enraizado.

“Na altura devida, porem, as pistas estavam prontas, os obstáculos em seus sítios próprios, as vedações e ripados devidamente colocados”, tudo graças à “boa vontade” daquele proprietário e ao “esforço e trabalho incansável do capitão sr. José Lúcio Nunes”.

No dia seguinte teve lugar o programa religioso das “festas”, dedicadas a “S. Gonçalo, padroeiro da vila”, iniciando-se este segundo dia com uma missa solene, pelas 13 horas, e uma procissão a partir das 19 horas, que “percorreu as principais ruas da vila, sempre no meio do maior respeito, repicando os sinos festivamente e estralejando no ar constantes girandolas de foguetes.

“Muitas das janelas do percurso encontravam-se engalanadas com ricas colchas de seda e damasco”.

As “festas” terminaram à noite com iluminações no Largo da República “aonde os extensos relvados se coalhavam de tigelinhas minhotas e o arvoredo ostentava centenas de balões multicores”, com as bandas dos Bombeiros de Torres Vedras e de Infantaria 5 das Caldas da Rainha a tocarem alternadamente.

A encerrar, um “magnifico fogo de artifício fornecido pelo pirotécnico local sr. José de Oliveira Nunes” e “bouquets” coloridos “lançados do alto do Castelo de Torres Vedras”.

Ao longo dos dois dias a vila foi invadida “por muitos milhares de forasteiros vindos de toda a parte” e que, ao alvorecer da madrugada de terça-feira ainda deambulavam pelo Largo da República, antes de apanharem as “varias careiras de camioneta não só para Lisboa, como para outras terras”.

Este foi um dos primeiros casos, ocorridos em Torres Vedras, de uma prática comum ao longo do regime surgido no 28 de Maio, a das inaugurações de vários “melhoramentos locais”, com a presença de “altas individualidades” do regime, uma constante da propaganda política junto das populações da “província”, ao mesmo tempo que servia para demonstrar a fidelidade a esse mesmo regime, por parte das “elites” e autoridades locais.

(1)    – “AS festas em Torres Vedras”, in Gazeta de Torres, 4 de Agosto de 1928. A maior parte as citações deste artigo têm origem nessa reportagem;

(2)    - Ver edições de 4 e 14 de Março de 1929 de “O Jornal de Torres Vedras”;

sábado, 4 de novembro de 2023

A História trágico-marítima do litoral torriense

                              

Naufrágios na Costa Torriense

Torres Vedras é um concelho com cerca de 20 quilómetros de costa marítima, pelo que não é de estranhar a existência de muitas memórias de naufrágios nesta zona.

Numa área entre dois importantes portos de pesca, como Peniche e Ericeira, próxima do estuário do rio Tejo e fazendo parte do litoral que, durante séculos, ligou o Mar do Norte com o Mediterrâneo, pela costa deste concelho terão passado milhares de navios ao longo dos tempos.

Com uma costa de grandes arribas, cortadas pela foz de dois rios de dimensões razoáveis, como o Sizandro e o Alcabrichel, famosa pela agitação marítima e pelos temporais violentos, com a existência de três históricos, embora pequenos, portos de pesca, como Porto Novo, Cambelas e Assenta, não será de estranhar que aqui se tenham registado vários naufrágios ao longo dos séculos.

Tema ainda por estudar e investigar, aqui deixamos um pequeno registo para a construção da “história trágico-marítima” do litoral do concelho torriense.

O mais antigo naufrágio registado nessa costa data de 28 de Agosto de 1650, o “encalhe no areal de Penafirme, perto da Ericeira [?]” do galeão S. Francisco, acabado de sair dos estaleiros a caminho da Índia (1) pouco mais se sabendo sobre esse acontecimento.

Vai ser preciso espera mais um século e meio para voltarmos a encontra referência a outro naufrágio no litoral do concelho torriense, o do navio inglês London “na Praia Formosa, em Rendide” , ocorrido no início de 1801 (2)

Um dos aspectos curiosos dessa notícia parece ser a mais antiga referência à Praia Formosa.

No ano de 1823 ocorreram dois naufrágios, os mais trágicos ocorridos nesta região, o primeiro o da fragata da armada francesa “La Cornaline”, ocorrido em 2 de Fevereiro, frente a Cambelas,  que custou a vida a cerca de cem marinheiros, e o segundo, na madrugada de 10 para 11 de Julho, a norte do chamado Cabo Rendide, o paquete “Lusitano”, “um dos primeiros barcos a vapor (…) da carreira de Lisboa ao Porto”, morrendo mais de 60  pessoas, entre os seus 200 passageiros e 16 tripulantes (3).

Só em 1885 voltamos a encontrar notícias de novo naufrágio na costa torriense, ocorrido na Praia de Santa Cruz, no dia 31 de  Outubro, quando “um forte pé de vento deitou por terra as barracas dos banhistas, que fugiram apressados para terra; e quando os banheiros José Rosa e José Pisco estavam tratando de reunir as barracas desmantelladas, ouviram gritos de soccorro no mar, dados por seis homens que formavam a tripulação de um barco de pesca em imminente risco de soçobrar, o que de facto succedeu.

“Apenas dois dos tripulantes sabiam nadar, e portanto poderam conseguir alcançar a terra; aos outros quatro acudiram os valentes e benemeritos banheiros, que arrostaram com o embate das ondas, indo arremessar pelo mar dentro o cabo salva vidas, a que se agarraram os naufragos, conseguindo assim a sua salvação”(4).

No dia 12 de Abril de 1902 registou-se outra tragédia marítima quando o barco de pesca “Boa Viagem”, ao entrar no porto de Assenta, se virou com uma onda, morrendo dois pescadores, salvando-se o terceiro, o único que sabia nadar (5).

Apenas dois anos depois, em 13 de Junho de 1904, o vapor espanhol Aviles, encalhou, devido ao nevoeiro “no porto Chão ao sul da Foz da Areia”. O navio carregava carvão, com destino a Barcelona. A tripulação de “20 homens e mais 5 passageiros” conseguiu salvar-se, mas, ao chegarem a terra “foram assaltados por muitos indivíduos, verdadeiros piratas que lhes roubaram as roupas, os comestíveis e até os próprios remos da embarcação” (6).

Cenas idênticas passaram-se quando no dia 7 de Março de 1917 ocorreu nova tragédia perto da praia da Assenta com o lugre “Lusitano”, oriundo da Guiné portuguesa, naufragando com um carregamento destinado à C.U.F , falecendo 11 marinheiros, registando-se a pilhagem “dos salvados que deram à costa” (7).

Aquele que foi, talvez, o mais famoso naufrágio nas praias torrienses ocorreu em 5 de Fevereiro de 1930, famoso, não só porque ainda é possível, em certas ocasiões, observar um dos mastros do navio naufragado, como esse naufrágio deu nome a uma das principais praias de Santa Cruz, a “praia do Navio”.

Tratou-se do naufrágio do navio norueguês Hav (“Oceano” em português), vindo de Cardiff para o porto de Leixões, com um carregamento de carvão, um naufrágio que ocorreu após um conjunto de acontecimentos rocambolescos, quando era rebocado de Leixões para Lisboa, para ser reparado, tendo-se salvado toda a tripulação de 11 homens (8).

No dia 1 de Maio de 1947 um violento temporal apanhou de surpresa embarcações de pesca da Assenta. Uma delas, a lancha Olinda afundou-se à entrada do porto da Ericeira, para onde se pretendia refugiar, matando os três pescadores da Assenta (9).

Na madrugada do dia 2 de Outubro de 1970, quando se encontrava em dificuldades, o capitão do cargueiro holandês Shamrock Reefer conseguiu encalhar, propositadamente, esse grande navio na praia de Porto Chão, a sul da foz do Sizandro, conseguindo assim salvar toda a tripulação (10).



Um dos últimos naufrágios registado na costa torriense ocorreu no dia 15 de Fevereiro de 1978.

Foi o do cargueiro alemão Alchimist Emden que ocorreu junto à praia de Cambelas, um novo contributo para a fama dessa praia como “a praia dos naufrágios”.

Não se registando vítimas nesse naufrágio, temeu-se, contudo, um desastre de grandes dimensões “dada a quantidade e natureza da carga – 1150 toneladas de hidrocarbonetos”, situação que, felizmente, não se concretizou (11).

Deixamos, assim, este breve e limitado registo de alguns dos naufrágios ocorridos na costa torriense, esperando que contribua como ponto de partida para uma investigação mais aprofundada sobre o tema.

(Já com este artigo feito, ontem o mar de SantaCruz ceifou mais 4 vidas:)

(1)    - ESPARTEIRO, comandante António Marques, Catálogo dos Navios Brigantinos (1640-1910), Centro de Estudos de Marinha, Lisboa 1976, pág. 7 (disponível na net);

(2)    - Ofício do Juiz de fora de Torres Vedras, José Pedro Quintela, ao secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar, datado de 20 de Fevereiro de 1801, no Arquivo Histórico Ultramarino (AHU CU Reino, Cx. 269, pasta 41);

(3)    - CUNHA, João Flores, “Estórias (especuladas) de Torres – Dois Naufrágios em 1823 junto ao Cabo Rendido”, in Badaladas de 5 de Abril de 2019. Sobre o naufrágio do Lusitano leia-se também CATARINO, Manuela, São Pedro da Cadeira – Histórias, Memórias e Património de uma freguesia torriense, ed. Junta de Freguesia de S. Pedro da Cadeira, Setembro de 2021, pág.143;

(4)    - in Jornal de Torres Vedras de 5 de Novembro de 1885;

(5)    - CATARINO, ob. Cit. pág. 143 e Folha de Torres Vedras de 20 de Abril de 1902;

(6)    - VIEIRA, Júlio, Torres Vedras Antiga e Moderna, 1926, pág.229;

(7)    - CATARINO, ob. Cit., pp. 143-144;

(8)    - ver uma interessante e completa reportagem sobre o assunto no site “Torres Vedras Antiga”, transcrita por Joaquim Ribeiro na reportagem “Pesquisa do blogue Torres Vedras Antiga revela novos dados – A História documentada da praia do Navio. Ver também a reportagem coeva do incidente nas páginas do jornal Gazeta de Torres de 9 de Fevereiro de 1930;

(9)    - CARÉ Jr., José, Memórias da Ericeira marítima e piscatória – séc. XIX-XX, pág. 43;

(10)                       - Ver Diário de Lisboa de 2 de Outubro de 1970. Baseei-me igualmente nas legendas de fotografias de Raul Guilherme, vendidas no site Delcampe;

(11)                       - CATARINO, ob. Cit, pág. 144.

terça-feira, 3 de outubro de 2023

Piratas na Costa Torriense

                                                 

(Actual Praia de Santa Rita, local de desembarque de piratas mouros)

Pirataria, corso ou…comércio marítimo?

Se cada uma dessas actividades é distinta, já não é tão fácil classificar quem a elas se dedicou ao longo da história. Por exemplo, o que dizer de Fernão Mendes Pinto? Pirata por conta própria nos mares asiáticos, corsário ao serviço da coroa portuguesa ou comerciante marítimo?

E que dizer da construção dos grandes Impérios Marítimos Europeus, como o Francês, o Holandês ou o Britânico, construídos com o recurso a corsários, meros piratas aos olhos de portugueses e espanhóis, detentores da exclusividade marítima pelo Tratado de Tordesilhas?

Passando por cima da controvérsia da designação, o que abordamos hoje aqui é a “pirataria” magrebina que assolou a costa deste concelho nos séculos XVII e XVIII (1).

A costa, junto ao velho convento de Penafirme, hoje em ruínas, foi por várias vezes assaltada por piratas “mouros”, principalmente no verão e ao longo do século XVII.

O facto de nesse local existirem várias fontes de água e de se situar longe de povoações que pudessem rapidamente defender a costa, terá motivado esses assaltos.

Segundo a opinião de frei Agostinho de Santa Maria, os corsários que frequentavam esta costa “vinhão muitas vezes a fazer nella água em suas lanchas, e a furtar o gado que podião, e também a cativar alguns pescadores, que fugindo delles se hião recolher no Porto Novo, ou estavão naquella praza reparando seus barcos & redes & por vezes intentarão acometer o Convento, para roubar, & cativar os religiosos”(2).

O próprio mosteiro antigo dos frades de Penafirme era alvo do ataque dos ditos piratas, não só para o roubarem, como “levarem os frades cativos” (3).

Por causa desses assaltos os frades de Penafirme tomaram várias iniciativas para se protegerem : reforçaram as portas do convento com trancas de ferro, armaram-se e passaram a vigiar a costa de dia e de noite.

Se avistassem os piratas durante o dia, faziam tocar a rebate o sino da torre da Igreja. Se os avistassem durante a noite, usavam como sinal um facho que acendiam, colocado na mesma torre.

No caso de ataques de maior gravidade usava-se um sistema de sinalização luminosa, com fachos que eram acesos nos locais mais altos, desde a costa até Torres Vedras. Daí os nomes ainda hoje conhecidos, de “ponta da Vigia”, em Vale de Janelas, “Alto da Vela”, em Santa Cruz, ou “Casal do facho”, no Varatojo.

Nesses tempos, os habitantes de Penafirme estavam isentos da prestação do serviço militar, para ocorrerem à defesa da costa.

Data dessa época o episódio que imortalizou o frade Roque da Gama. Ajudado por quatro lavradores, defendeu o convento de um ataque de 14 piratas, em 30 de Junho de 1620, conseguindo aprisioná-los (4).

Terá sido em resultado desse acontecimento que o rei Filipe III decretou “que ouvesse no Convento hua (...) praça de armas (...) & assim mandou dessem para o convento hus tantos mosquetes, & lanças, hum tambor, & frascos, que alli se conservão para esse fim; & ordem para cobrarem em Lisboa cada hum anno certa quantidade de polvora & balas” (5).

Mais do que o saque e a recolha de mantimentos, um dos principais objectivos desses ataques de piratas magrebinos era fazer cativos, actividade que alimentava um lucrativo negócio de resgate de cativos.

Embora com avanços e recuos, em relação à sua autonomia, desde o século XIII que a responsabilidade de recolher “esmolas” para resgatar cativos cabia à Ordem da Santíssima Trindade (6).

Do resgate de cativos efectuado por essa ordem, nas cidades muçulmanas do norte de África, existem vários “relações” acessíveis na net, disponibilizadas no site da Biblioteca Nacional de Lisboa.

Ao contrário do que aconteceu na costa da Ericeira ou mesmo na região de Peniche, esta última próxima de um dos principais refúgios desses piratas, as Berlengas, de onde partiam para as suas incursões nesta costa, não existem muitas referências a cativos “torrienses”. Mas elas, apesar de raras, existem.

Em 1739 foram resgatadas da cidade de Argel Sebastianna João de 46 anos, “casada com Pascoal Ferreira”, natural de S. Pedro da Cadeira, cativa havia 2 anos e meio, pela quantia de 630$000 réis, juntamente com a sua filha Maria Ferreira, com 12 anos, pelo mesmo valor (7).

Numa outra lista, de 1754, encontramos, entre os resgatados da cidade de Argel, um Domingos João que “tem ofício”, natural da Assenta, casado com Helena Francisca, de 60 anos, com 14 anos de cativeiro, resgatado pela quantia de 284$000 réis (8).

João Flores da Cunha, investigador da história torriense, encontrou nas suas buscas, além dos acima mencionados, mais os seguintes cativos “torrienses” resgatados: em 1674, de Argel, Estevão Lourenço de 42 anos, marinheiro, com 3 anos de cativeiro, liberto por 110.000 reis; em 1729, de Marrocos, Domingos Jorge, de 48 anos com 22 de cativeiro.

Pela origem dos resgatados, ficamos a saber que não foi apenas a costa norte do concelho a ser atacada por piratas, mas também a zona da Assenta.

Refira-se também que, perante a continuação e frequência dos actos de pirataria junto à foz do Alcabrichel, D. Afonso VI mandou construir uma fortaleza junto de Porto Novo, o forte de Nossa Senhora da Graça, cuja construção se iniciou em 1662.

Contudo, essa construção, mais do que ter por objectivo defender a costa do ataque de piratas, visava integrar um conjunto de fortalezas marítimas, entre o Cabo Carvoeiro e o Cabo da Roca, que defendessem o território de um desembarque castelhano, num período de intensas guerras entre os dois reinos, na sequência da restauração portuguesa de 1640.

Ainda em 1810, João de Lemos Lima Falcão, coronel do regimento de milícias de Torres Vedras contribui com 46$130 réis em “metal” e 32$600 réis em “papel” para o resgate de cativos (9).

Tema ainda por estudar, aqui ficam algumas referências ao testemunho dessa actividade na costa do nosso concelho.

(1)    – Sobre este tema, mas referindo-se à costa vizinha da Ericeira, existe um interessante estudo, da autoria de Maria da Conceição Ramos: A Pirataria Argelina na Ericeira do Século XVIII, editado pela Mar de Letras em 1998;

(2)    - SANTA MARIA, frei Agostinho de, Santuário Mariano, tomo II, ed. 1707, p.74;

(3)    - PURIFICAÇÃO, Frei António da, Chronica da Antiquíssima Província de Portugal da Ordem dos Eremitas de S. Agostinho, parte I, Lx, 1642, Livro III, tit. VI, fl.348 v;

(4)    - leia-se o resumo desse episódio em Luís, Maria dos Anjos Santos Fernandes, “A Vigilância e defesa da Costa” em A dos Cunhados – Itinerário da memória, ed. Pró- Memória, 2002, pp.127-130, com base no mesmo PURIFICAÇÃO;

(5)    - SANTA MARIA, ob. cit., p.75;

(6)    – leia-se sobre esse assunto a excelente síntese na obra citada de Maria da Conceição Ramos, no capítulo intitulado “O resgate de cativos – intervenção central e local”, ob. Cit em (1), pp 27 e ss;

(7)    – “Relação dos Cativos que por ordem de (…) D. João V” foram resgatados da cidade de Argel em 1739 (site da BNL), nºs 2 e 3 da lista

(8)    – “Relação dos Cativos que por ordem do fidelíssimo rey Dom Joseph I” foram “resgatados na cidade de Argel (…)” (site da BNL), nº 69 da lista;

(9)    – “Donativos para Resgate – 1810”, no site da BNL.