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terça-feira, 16 de junho de 2015

o avião de Sanjurjo em Santa Cruz: Novas informações

Reconstituição do "Puss Moth" conduzido por Ansaldo 
O Meu avô junto do Avião de Sanjurjo em Santa Cruz

O General Sanjurjo prepara-se para embarcar no fatídico vôo
O Estado em que ficou o avião depois do acidente

Num post editado em 20 de Julho de 20111 AQUI, referia-me à história da passagem por Santa Cruz do avião que se destinava a transportar o general Sanjurjo para Burgos e do desfecho trágico do mesmo.

Na altura questionava se a fotografia de família que era referida como sendo a do meu avô junto do avião do general Sanjurjo, em Santa Cruz, era mesmo o histórico avião.

Com base nalguns poucos factos e na análise das fotografias arrisquei avançar pela confirmação dessa história, embora necessitando de uma investigação mais aprofundada.

Recentemente, ao descobrir o site  Aeropinakes / La máquina de la civilización, dedicado à história da aviação na Guerra Civil de Espanha encontrei a confirmação da minha história: a  matrícula EC-VAA era do mesmo avião que veio a Portugal para transportar o General Sanjurjo e que era reconstituido na primeira imagem em cima.

Por outro lado, ao rever o que tinha escrito sobre o tema, encontrei um comentário de Vitor Rodrigues, datado de 4 de Abril último, onde, por outra via, também confirmava a minha história, através de um registo oficial desse avião, com essa matrícula, e da sua presença em Cascais na data do acidente:

"Boas,
"No "Registro de aviones comerciales en Espana" - http://www.sbhac.net/Republica/Fuerzas/FARE/Materiales/Registro.htm - pode encontrar o EC-VAA, com o seguinte registo:
"EC-VAA DH.80A Puss Moth 2246 G-ACBL EC-W18 EC-VAA Teodoro Martel Olivares > Francisco Moreno 27.01.34 Written off Cascais 20.07.36 Canc 12.11.40
EC-VAV -
"Ou seja, parece confirmar-se a sua tese.
"Vitor Rodrigues
"4 de abril de 2015 às 23:38"

Fica assim confirmado que  a fotografia do meu avô foi realmente tirada junto do avião de Sanjurjo, em Santa Cruz, na véspera ou no próprio dia do acidente.

Outro assunto relacionado com o tema era esclarecer um rumor que sempre correu por Torres Vedras que referia a possível sabotagem do "avião de Sanjurjo" em Santa Cruz.

Sobre este tema também encontrei alguns dados novos, para além dos referidos no post publicado aqui há 4 anos:

Em primeiro lugar, nunca percebi muito bem o que fazia o meu avô naquele sítio, ao mesmo tempo de outras personagens torrienses que lá estiveram nessa altura, nomeadamente a pessoa que confessou aos seus familiares que tinha lá estado para sabotar o avião, e que, daqui para a frente, designarei por "Sr.T".

Sabia da amizade entre o meu avô e o "Sr.T", mas recentemente descobri mais uma coisa que os unia e que eu até  há dois anos desconhecia (eu e a minha família): a ligação à maçonaria e à mesma loja torriense, aí pelos anos 20 ou 30, informação que me foi facultada pelo filho do líder  dessa loja, Luís Perdigão (pai), que tinha na sua posse várias fichas (que tenho fotocopiadas) com os nomes dos membros da mesma: lá estão o meu avô e o"sr. T".

Entretanto também consegui adquirir o livro de memórias de Ansaldo, na sua edição francesa : ANSALDO, Juan Antonio, Mémoires d'un Monarchiste Esoagnol , 1931-1952 (tradução de Jean Viet), Mónaco, Éditions du Rocher, 1953.

Trata-se da tradução do seu primeiro livro de memórias publicado originalmente em espanhol em Buenos Aires, pela editora Vasca Ekin.

Nesse livro as paginas 50 a 57 são dedicadas à sua malograda viagem a Portugal, falando da sua passagem por Santa Cruz.

Partindo de Pamplona, às ordens do General Mola, para vir a Portugal buscar o General Sanjurjo, exilado em Portugal, para que este se pusesse à frente da sublevação militar então iniciada contra a República, Ansaldo chega em 19 de Julho desse ano de 1936 ao "campo de aviação auxiliar de Santa Cruz, no limite ocidental da Europa", que "acolhe docemente o avião", um "Pass Moth".

Ao aterrar no campo de aviação de Santa Cruz é aguardado por dois automóveis, onde encontra um seu velho amigo "Tavares" onde recebe a notícia, que se confirma ser falsa, segundo a qual o general Sanjurjo já tinha partido para "Burgos a bordo de um avião francês".

Quem seria esse Tavares? Uma das figuras gradas da Legião Portuguesa em Torres Vedras era o "Tavares da maçaneta", também agente local da Polícia Política. Será aquele Tavares referido por Ansaldo a conhecida figura torriense, falecido já depois do 25 de Abril, e que era uma das figuras mais temíveis da PIDE (então PVDE) local?

Continuando a acompanhar a narração de Ansaldo, este, tomando todas as precauções para abrigar o avião porque "não existia nesse aeródromo nenhum serviço de sobrevivência [apoio]" (pág.51), partiu de seguida para Lisboa, a caminho do Estoril, numa das viaturas que o aguardavam, confirmando, á sua chegada ao Estoril, que o general continuava nessa localidade.

No Estoril teve de negociar com as autoridades portuguesas o melhor modo de cumprir a sua missão sem comprometer as relações entre o Estado português e a ainda reconhecida República Espanhola.

Foi aí que se negociou uma saída airosa que não comprometesse o regime português face a um desfecho ainda imprevisível da situação em Espanhola: "eu iria no dia seguinte de manhã [20 de Julho] buscar o avião a Santa Cruz, a 60 kilómetros de Lisboa" (pág. 52), de onde levantava voo para o aeródromo de Alverca, onde procederia a todas as formalidade aduaneiras, de onde voaria oficialmente daí directamente para Espanha. Na realidade, e secretamente, em vez de partir directamente para o seu país, faria um desvio  para um terreno improvisado, o hipódromo da Marinha, junto de Cascais, onde recolheria Sanjurjo,e só então voaria para Burgos .

Nessa noite Ansaldo recebeu um telefonema que o inquietou: era uma chamada de Santa Cruz que o informavam que "elementos comunistas andavam à volta do avião", apelando para que tomasse todas as providências para se evitar qualquer "sabotagem". Ansaldo ficou indignado com o facto de "tais elementos" serem deixados em liberdade pela ditadura portuguesa e mandou que guardassem o avião. Depois de vários telefonemas, Ansaldo recebeu finalmente a confirmação de que tudo tinha sido feito de acordo com as suas ordens para resguardar o aparelho (pág.53).

É neste ponto que a referência de Ansaldo à presença de gente da oposição (que ele designa como "comunistas", mas que podiam ser outros oposicionistas, como era o caso do "sr.T", ou até membros da maçonaria, como era o caso do meu avô e do mesmo "sr.T"), se cruza com a constatação, que já haviamos referido, de gente da oposição ter estado em Santa Cruz a tentar sabotar o avião.

A aplicação da classificação de "comunistas" às pessoas da oposição ou desafectas ao regime era uma designação normal na propaganda da época, e que englobaria todos aqueles que se opunham ao regime. 

Curiosamente o próprio Ansaldo, que mais tarde, tendo entrado em dissidência como regime franquista, foi obrigado a exilar-se, sendo no exilio que escreveu e editou as suas memórias , no prefácio da segunda edição da sua obra, se queixava do "regime franquista com a sua táctica, infelizmente hoje copiada por outros países, de chamar comunista a quem se recuse a ser seu escravo", tentando assim,  "caluniar o autor "(pág.9).

Já nos tinhamos referido a este facto ou rumor no post anterior, mas também aqui recolhemos novas informações, de tradição oral, junto de um dos filhos do "sr.T".

Um dia, já depois do 25 de Abril, num momento de descontracção familiar, regado com vinho, o "sr. T" contou ao filho uma história que ele sempre tinha guardado para si. Ele e vários elementos da oposição republicana local tinham estado em Santa Cruz a tentar sabotar o avião de Ansaldo. Para isso tentaram desviar as atenções dos elementos da GNR que guardavam o avião.

Uns levaram os elementos da GNR a "tomar um copo", enquanto outros, à volta do avião, momentânea mente sem vigilância, tentavam danificar o avião, pulando sobre ele ou tentando danificar partes do avião.

Recorde-se que a GNR local, pelo menos nas primeiras décadas da ditadura, era conhecida pelas relações de amizade entre alguns dos seus membros e elementos da oposição, sendo até coniventes com estes nalgumas situações, com aconteceu mais tarde com o meu pai que, depois de dois anos de prisão em Peniche, tinha de se apresentar regularmente no posto local da GNR, onde recebeu sempre compreensão e até conselhos para escapar à vigilância policial...mas isto é outra história. Apenas o refiro aqui para demonstrar que na GNR de Torres Vedras muitos dos seus elementos não eram apoiantes incondicionais do regime e, no caso de Santa Cruz, tinham relações de amizade pessoal como os elementos da oposição que procuravam sabotar o avião de Sanjurjo.

Contudo, para grande surpresa dos "sabotadores" de Santa Cruz o avião acabaria por levantar voo, sem qualquer problema. Recorde-se aqui que a intenção manifestada pelos sabotadores, como o referiu o "sr.T", não era matar ninguém, mas apenas atrasar o voo e a saida de Sanjurjo do país.

Por isso terão ficado aterrorizados quando, horas mais tarde, souberam do acidente que matou o general Sanjurjo e guardaram segredo da sua actuação. Apenas o "sr.T" confirmou a tentativa de sabotagem, mesmo assim no regato da família, recusando-se mais tarde a aprofundar a história, revelando sempre um grande receio que a história se viesse a saber , mesmo muito tempo depois do 25 de Abril.

Entretanto continuamos a narração de Ansaldo.

Saindo do Estoril a caminho de Santa Cruz, refere que o"pior inimigo da navegação aérea apareceu nessa manhã de um 20 de Julho, meridional e quente: o nevoeiro. À medida que nos aproximávamos de Santa Cruz, ele tornava-se mais denso, escondendo o sol, tornando mesmo difícil avançar pela estrada. Das 10 horas da manhã à duas horas da tarde eu esperei furioso. De tempos a tempos, um pálido reflexo de sol brilhava no terreno e eu punha os motores em marcha; logo de seguida a neblina espalhava-se tão baixo que não nos conseguíamos ver uns aos outros.Telefonei várias vezes para o Estoril para explicar o que se passava; respondiam-me que o general me esperava com alguns amigos(...)".

Finalmente, por volta da uma hora e meia da tarde "como as condições atmosféricas íam de mal a pior, eu decidi adiar o voo" . Estando a almoçar, uma hora mais tarde "o nevoeiro dissipou-se. Com toda a pressa corri para o avião, pus o motor em marcha e descolei para Alverca". Acompanhou-o no voo um elemento da PVDE. Em Alverca tratou das formalidades e partiu, a meio da tarde para "a Marinha", o campo improvisado onde iria embarcar Sanjurjo.

O resto da história é sobejamente conhecida e pode ser lida, não só no nosso post anterior como AQUI, uma interessante tese de mestrado da autoria do brasileiro Gabriel de Senna Pondé, intitulada "A Morte do General Sanjurjo - Análise do tratamento da imprensa escrita portuguesa da época relativa ao acontecimento público", defendida na Universidade Lusófona de Lisboa em 2012.

A tese de atentado, que chegou a ser ventilada à época, foi descartada pelo próprio piloto, apontando outras razões para o mesmo: as más condições da pista da Marinha, o tempo que obrigou a levantar na direcção mais difícil e o excesso de carga com as malas que o general Sanjujo quis levar.

Técnicamente o avião não conseguiu ganhar velocidade suficiente para sobrevoar as árvores que se encontravam no final da pista e a hélice falhou e partiu-se, não se sabe por ter embatido numa árvore se por qualquer problema técnico. Ansaldo salvou-se porque foi projectado do avião quando este, em queda, embateu num muro, mas o general morreu carbonizado, embora antes já tivesse sofrido um ferimento mortal, atravessado por um ferro do avião.

Geralmente um acidente acontece porque se combinam vários factores. Os "sabotadores" de Santa Cruz não foram os responsáveis directos por qualquer falha técnica, mas nunca se virá a saber se contribuiram para potenciar as dificuldades técnicas que levaram o avião a não conseguir ganhar altitude no voo fatal.

Especula-se muito com o que teria acontecido se o general Sanjurjo tivesse chegado vivo a Espanha.

Uma das consequências seria o facto de o General Franco não aceder tão fácilmente à liderança do movimeto nacionalista.

Depois, se fosse o general Sanjurjo a liderar a Espanha durante a segunda Guerra mundial talvez  a posição da Espanha no conflito tivesse sido diferente, já que se conhece a maior simpatia de Sanjurjo por Hitler, maior do que aquela que era nutrida por Franco.

Mais do que certezas, a história que aqui se conta continua envolta em mistério e duvidas, as quais provávelmente, nunca virão a ser cabalmente esclarecidas. Eliminar

quarta-feira, 20 de julho de 2011

20 DE JULHO DE 1936 - SANTA CRUZ, O MEU AVÔ E O AVIÃO DE SANJURJO

A fotografia em cima mostra o meu avô, António Ferreira Aspra, fotografado junto ao avião de Sanjurjo, no campo de aviação de Santa Cruz, fotografia que terá sido tirada a 19 ou 20 de Julho de 1936.

Esta foi, pelo menos, a memória que foi passando na família quanto à identificação da fotografia.

Recentemente procurei confirmar a matricula do avião da fotografia de cima, comparando-a com outra fotografia. A única que descobri, e que reproduzo abaixo, mostra o momento em que Sanjurjo, em Cascais, entrava no avião para o fatídico voo, mas infelizmente as pessoas à volta tapam as letras da matricula (VAA). Contudo, numa análise atenta e ampliando essa fotografia, é possível ver alguns pequenos pontos das letras do avião (assinaladas por mim com círculos vermelhos na terceira fotografia) e vemos que o primeiro traço pode corresponder perfeitamente à parte superior do “braço” esquerdo da letra V, e os outros dois pontos assinalados parecem corresponder na perfeição, respectivamente às partes inferiores do “braço” esquerdo e do “braço” direito” das letras A.


(Quinta da Marinha, em  Cascais: O general Sanjurjo prepara-se para o fatídico voo.
Fonte : site "Accidentes que nos hacen pensar", http://www.turismoyarte.com/ )

Confirma-se assim que o avião da fotografia do meu avô e a última tirada ao avião de Sanjurjo são do mesmo aparelho. Claro que é necessário ainda mais dados, nomeadamente um registo correcto da matricula desse avião ,informação que até hoje não descobri. Tendo em conta que esse voo foi semi-clandestino, não sei se alguma vez será possível confirmar a matricula do avião. Esta seria, cruzando as duas fotografias, EC-VAA…

É histórico que o avião que devia levar o general Sanjurjo para Espanha, dois dias depois do início do levantamento militar contra a República espanhola, fez uma escala no então ainda improvisado campo de aviação existente na Praia de Santa Cruz, antes de rumar para Cascais, onde aquele general vivia exilado.

A esse facto refere-se Carlos D’Ornellas em 1952 (1) , jornalista simpatizante da causa “nacionalistas” e que esteve em Espanha por várias vezes, em reportagens de propaganda a favor do regime franquista. Segundo a memória que publicou na Gazeta dos Caminhos de Ferro, ele refere que um “avião clandestino, tripulado pelo aviador espanhol Juan António Ansaldo, aterrara no campo de aviação da Praia de Santa Cruz, na noite de 19 [de Julho]. Participado o caso às autoridades portuguesas, estas mandaram apresentar na Polícia Internacional o conhecido aviador, que foi intimado a levantar voo de Santa Cruz e ir para Alverca, sendo acompanhado pelo então capitão Pessoa de Amorim”

Chegado a Alverca, Ansaldo prestou aí declarações sobre o rumo do seu avião: apresentando a sua documentação de aviador civil “declarou ás autoridades portuguesas que viera de Pau (França), tendo aterrado em Salamanca e desejando seguir para Burgos”. Abastecendo-se aí. Levantou voo, “mas, em vez de se dirigir para Burgos, seguiu para Cascais tendo aterrado nos campos da [quinta da] Marinha”.

Aqui, continuando a seguir a descrição de Ornellas, vários automóveis entraram na Quinta da Marinha, “conduzindo várias famílias espanholas, que para ali se dirigiam a despedir-se do general José Sanjurjo”.


Mais completa, e com algumas diferenças, é a descrição dessa situação registada por César de Oliveira , baseando-se nas memórias escritas de Ansaldo:

“Em 20 de Julho, apresentou-se no Estoril ao general Sanjurjo o piloto espanhol Juan Ansaldo, que horas antes havia aterrado no aeródromo de Santa Cruz, a poucos quilómetros de Torres Vedras. O Governo português não levantou qualquer obstáculo á aterragem do avião. Ansaldo vinha buscar Sanjurjo para o transportar para Burgos, a fim de que este assumisse a chefia do movimento militar. Chegado a Portugal, Ansaldo, com o apoio da PVDE e do ajudante de campo do Presidente da República portuguesa, iniciou a preparação da descolagem do avião em direcção a Burgos. No entanto, Oliveira Salazar fez saber aos emigrados espanhóis, por intermédio do capitão Agostinho Lourenço, director da polícia política, que “interditava o uso de aeródromos militares para a descolagem do avião mas que nada tinha a ver com o que se passava em aeródromos civis”. Em reuniões sucessivas no Estoril – e sempre com o ajudante de campo do Presidente Carmona a fazer as ligações entre os emigrados espanhóis e as autoridades portuguesas - chegou-se a uma solução satisfatória para o lder do Alzamento e que “cobria” eventuais complicações para o governo de Salazar: o avião iria de Santa Cruz para Alverca. Aeródromo militar a 20 Km de Lisboa, aí seria reabastecido e deslocaria normalmente como se o fizesse para Espanha; aterraria, depois, num campo improvisado nas imediações de Cascais e aí embarcaria o general e rumaria a Burgos” (2) .

Esta versão parece indicar que o avião esteve mais tempo em Santa Cruz, à espera de que terminassem as negociações, do que a anterior notícia fazia entender.

Em Cascais, nesse dia 20 de Julho, já no início da tarde, o avião levantou voo , mas não conseguiu subir o suficiente, pelo que Ansaldo tentou regressar à pista, mas o avião acabou por se esmagar contra o solo, incendiando-se. O piloto foi cuspido e sobreviveu ao acidente, mas o general morreu logo no embate, ficando depois o seu corpo envolvido pelas chamas.


(o estado em que ficou o avião. Fotografia do Arquivo Fotográfico da Câmara de Lisboa)

A edição do Diário de Lisboa de 21 de Julho descreve as explicações de Ansaldo sobre o acidente:

“Ao levantar voo, um forte torrão, dos que abundam no local, ou uma cova, causou a rotura da hélice. Senti que o aparelho ia afocinhar mas consegui manter a horisontalidade. A queda inevitável foi, assim, em plano, de “barriga”. Gritei ao general que saísse do aparelho. Não me respondeu. Tentei ajuda-lo, mas não se movia. Julguei que havia perdido os sentidos, como eu depois os perdi ante a tragédia e os baldados esforços que fiz para a evitar. Mas não, o general estava morto. Quando as chamas o envolveram já estava insensível”.

O piloto desmentia assim a descrição feita por alguns observadores, que diziam ter visto o avião a cair na vertical, bem como a ideia, que continuou muito divulgada, segundo a qual o general tinha morrido queimado. Como revelou nessa mesma reportagem o marquês de Quintanar que observou o cadáver do general , este apresentava uma “ferida profunda, em cruz, que deve ter sido produzida por um ferro do aparelho, no momento da queda e que lhe deu morte imediata”. (3).

Logo correram rumores sobre a hipótese de um atentado, inicialmente atribuído aos republicanos portugueses, mais tarde, e perante o desenrolar dos acontecimentos em Espanha, atribuído a Franco, já que foi este que acabou por beneficiar com a morte de Sanjurjo, sucedendo-lhe na liderança dos nacionalistas, depois de, no ano seguinte, também o general Mola ter morrido noutro acidente de avião mal esclarecido.

Contudo, em termos oficiais, e com base no testemunho do piloto, o acidente foi atribuído ao excesso de carga e às más condições da pista de Cascais.

Segundo o piloto, este havia avisado o general Sanjurjo que levava carga a mais, mas este insistiu, pois queria levar o fardamento e armamento necessário às sua novas funções como líder dos rebeldes.

Mas é aqui que a história se complica. Como se prova pela facilidade com que o meu avô se fotografou junto do avião, quando ele esteve em Santa Cruz, podemos constatar duas coisas: uma que a presença do avião não era segredo em Torres Vedras, outra que era fácil o acesso a ele.

Esse acontecimento marcou a memória de muita gente em Torres Vedras da geração do meu avô. Ao longo do ano correram mesmo rumores de uma hipotética sabotagem do avião ainda em Santa Cruz.

Recentemente um amigo meu contou-me uma história, conhecida também de outras pessoas, que o pai dele contava em família ou junto das pessoas mais próximas: ele e outros republicanos de Torres Vedras, alguns deles com conhecimentos de aeronáutica, teriam sabotado o avião em Santa Cruz, destruindo algumas peças. O objectivo não era fazer cair o avião, nem matar ninguém, mas impedir que o avião levantasse voo, atrasando assim o transporte de Sanjurjo para Espanha. Para grande surpresa dos sabotadores, o avião levantou voo de Santa Cruz, prosseguindo a sua viagem para Alverca e Cascais.

Curiosamente também, a pessoa que contava esse episódio e que estava envolvido nessa sabotagem, era, não só um opositor ao salazarismo, como, à época, um dos melhores amigos do meu avô. Ambos eram figuras consideradas em Torres Vedras, mas pessoas reservadas, e que não eram conhecidas por mentirosas ou gabarolas.

O meu avô, cujas opiniões políticas que lhe conheci eram de admiração pelo “Estado Novo” e por Salazar, tinha contudo algumas facetas da sua história passada que desmentiam a total adesão ao regime. Neto de sindicalista, muito ligado aos socialistas de Aznedo Gneco e José Fontana, o meu avô era amigo de pessoas conotadas com o anarco-sindicalismo e esteve muito ligado ao associativismo mutualista nos seus tempos de juventude.

Em criança lembro-me de a sua papelaria ser frequentada regularmente por pessoas que conversavam com o meu avô sobre a situação política, criticando o regime, que eram interrompidas sempre que entrava um cliente na loja.

Contudo o meu avô não era do género de organizar ou participar em conspirações

Por sua vez, a pessoa que acima refiro como tendo participado na sabotagem do avião, era politicamente mais activo, sendo então elemento preponderante da chamada juventude republicano-socialista de Torres Vedras que se tentou organizar, nos anos trinta, contra a União Nacional, e foi membro do PCP depois do 25 de Abril.

Parece assim que era possível que opositores ao regime pudessem aproximar-se sem problemas do avião de Sanjurjo, enquanto este esteve estacionado em Santa Cruz.

Não deixa também de ser estranho que a notícia tivesse corrido tão depressa em Torres Vedras, e que rapidamente muita gente se deslocasse a Santa Cruz para ver e fazer-se fotografar junto do avião, tendo em conta a distância que essa praia estava então de Torres Vedras, numa época em que os transportes eram mais lentos e as estradas estavam em piores condições. Convém contudo esclarecer que o dia 19 era um Domingo, dia de descanso para muita gente, e o dia 20 era o dia de descanso semanal do comércio local.

Mesmo que tenha havido sabotagem do avião em Santa Cruz, esta pode não ter sido a causadora do acidente. Quanto muito pode ter potenciado o desfecho trágico desse voo.

Existem ainda muitos pontos obscuros por esclarecer.

Pessoalmente gostava de aprofundar um pouco esta história. Seria interessante se encontrasse por aí mais fotografias do avião de Sanjurjo em Santa Cruz, já que não acredito que só o meu avô se tenha feito fotografar junto do avião.

Será também interessante encontrar uma referência à matricula do avião. Contudo, dado o carácter quase clandestino do voo, será uma tarefa difícil.

É ainda provável que exista algum relatório da PIDE (então PVDE) sobre o assunto, já que se sabe que essa polícia política acompanhou de perto as demarches para que fosse possível realizar o voo de “resgate” do general Sanjurjo.

Não encontrei, nos arquivos da Salazar, disponíveis na net, qualquer referência ao assunto. Mas deve existir qualquer relatório oficial sobre o acidente.

Há ainda o recurso à imprensa portuguesa e espanhola da época.

Por último, a fonte mais importante usada por todos os que se referem ao acidente, o livro de Juan António Ansaldo, intitulado “Para que?”, uma edição de autor, publicada em Buenos Aires, onde dedica dez páginas (135 a 145) à sua passagem por Portugal para levar o general Sanjurjo, não se encontra em bibliotecas portuguesas, apenas está referenciado na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, mas infelizmente não está digitalizado.

Voltarei ao assunto quando tiver mais novidades

NOTAS:

(1) – ORNELLAS, Carlos d’ , “Por Espanha – Crónica de viagem”, in Gazeta dos Caminhos de Ferro, nº 1552, Lisboa, 16 de Agosto de 1952, pp. 227-228, edição disponibilizada na internet, no site da Hemeroteca de Lisboa;
(2) – OLIVEIRA, César, Salazar e a Guerra Civil de Espanha, ed. O Jornal, Lisboa 1987, pp.141-142;
(3) – Diário de Lisboa, edição de 21 de Julho de 1936, edição disponibilizada na internet, no site da Fundação Mário Soares.