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terça-feira, 10 de abril de 2018

A Vida Torriense nos Caracteres da Imprensa Local (Finais do Século XIX) (1885-1890) - Abril de 1888



O primeiro dia de Abril desse ano distante de 1888 foi um Domingo de Páscoa. Por esse motivo “a Fanfarra da Associação 24 de Julho de 1884 percorreu a villa (…) em cumprimento de boas festas a diversas pessoas “(1).

Para esse mesmo dia estava previsto o início de um novo horário de trabalho para o comércio local, objectivo que não terá sido cumprido, a julgar pela seguinte notícia:

“Uma parte dos commercintes d’esta villa tinha resolvido acceder ao pedido dos seus empregados, fechando os estabelecimentos às quatro horas da tarde, nos domingos. Era mais uma victória do progresso, ganha pacificamente, que honrava por igual aquelles que o solicitaram e os que concederam.

“Esta regalia devia começar no domingo de Páscoa. Não sucedeu, porém, assim, cremos que por circunstâncias independentes de boa vontade de alguns dos lojistas que assignaram do melhor grado a petição dos caixeiros.

“Os estabelecimentos que à hora aprazada fecharam, foram os dos srs. Bernardino António Silva Cardoso, Emygdio José da Costa, Ferreira & Sousa, e José Gonçalves Carvalho” (2).

A principal actividade económica de então era a agricultura, e o principal produto da região o vinho. Um pequeno quadro dessa actividade era descrito nos seguintes termos:

“Os trabalhos das vinhas estão todos acabados e a rebentação surge fluente nas vinhas sadias.

“Por toda a parte se observam os grandes estragos da phylloxera. Agora que as vinhas já deram a primeira demonstração da sua força, vê-se que algumas estão mortas, tendo feito as suas despedidas com a colheita passada” (3).

Por sua vez apostava-se na melhoria da rede viária e no desenvolvimento do caminho de ferro como soluções para melhor escoar a produção local.

Contudo, nem tudo corria bem para o cumprimento desse objectivo:

“(…) o assumpto da conservação das estradas carece de séria e especial atenção do sr. ministro das obras públicas. Isto não pode aguentar-se muito tempo. Os concelhos de Torres e Alenquer, que nós melhor conhecemos, estavam bem servidos de estradas districtaes, mas os invernos e a falta de concertos, por ter sido suprimida a verba destinada à conservação, estão pondo as viações em estado lastimosos e impossível (…)” (4).

Também numa carta dirigida ao jornal “A Semana”, um leitor queixava-se de ser “lastimoso o estado em que se acham os caminhos dos logares da Ermegeira, Abrunheira, Ramalhal e Amial para a estação de caminho de ferro do Rmalhal (…).

“Havendo n’estes logares (…) adegas importantes de vinho e outras mercadorias a transportar para a estação do Ramalhal, não o podemos fazer por causa dos péssimos caminhos, não nos servindo de utilidade nenhuma o haver estação no Ramalhal, porque temos que ir à estação de Torres, que é mais do dobro do caminho, mas ao menos aproveitamos a estrada real e podemos conduzir dois cascos de cada vez, enquanto que para a estação do Ramalhal, nem um, mesmo em carro de bois, porque corremos o risco de nos ficar carro e bois submergidos na lama!

“De que nos serve uma estação de caminho de ferro, sem termos estrada? De nada (…)” (5).

Igualmente mal servidos estavam os habitantes de Torres Vedras que se quisessem deslocar para a estação do caminho de ferro desta localidade. Por isso manifestavam preocupação com a construção de vias que ligassem o centro da vila àquela estação:

“Vão ser remetidos para a administração do concelho os autos das novas expropriações feitas para o alargamento da Avenida do caminho de ferro d’esta villa [ a actual Av. 5 de Outubro], alargamento que acaba de ser approvado pelo ministro, como a câmara requereu, por iniciativa do deputado do círculo, que em vez de 8 pediu 16 metros de largura para aquela via pública (…) “ (6).

Outra notícia dava conta que na “terça-feira fez-se a medição e iniciaram-se os cortes a fazer nos terrenos para a nova rua que a Câmara projecta abrir, a fim de ligar a Praça Nova com a futura avenida” (7) [julgamos tratar-se da actual Rua Tenente Valadim].

Contudo, apesar das alterações que o caminhos de ferro estava a provocar na fisionomia urbana de Torres Vedras, era evidente o descontentamento com o facto de então apenas se realizar uma viagem de comboio ascendente diariamente.

Eram também divulgados alguns números sobre o movimento da linha férrea no concelho:

“Durante o anno decorrido de Maio de 1887 até igual mez de 1888 a receita realizada em dinheiro na estação do caminho de ferro d’esta villa, foi de 22.000$000 réis, números redondos. Não entram n’este rendimento as remessas de mercadorias a pagar nas estações  que se destinam, o que é importantíssimo, especialmente em vinhos” (8).

“No mez de Janeiro transitaram pelas linhas férreas de Cintra a Torres 10:372 passageiros e 3:444 toneladas de mercadorias, produzindo 8:225$144 réis.

“De Torres à Figueira e Alfarellos, os comboios transportaram no mesmo período 4:216 passageiros e 2:035 toneladas de mercadorias, dando de receita 3.559$714 réis” (9).

Terminamos esta crónica como começámos: referindo uma festa de cariz religioso, a reinauguração da Capela do Senhor Jesus Morto no Turcifal, em 29 de Abril de 1888, descrita neste termos:

“Foi uma verdadeira surpreza a enorme quantidade de gente que no domingo affluiu ao logar do Turcifal. A festividade era, por assim dizer, extraordinária, pois, como havíamos já noticiado, celebrava-se a inauguração da antiga capella que fôra reedificada, e onde ficou agora o Senhor Jesus Morto, que esteve provisoriamente na igreja matriz, emquanto se prepararam as obras.

“De todos os logares comvisinhos e também de muitos pontos distantes concorrerm famílias, fazendo-se conduzir por toda a espécie de vehiculos e animaes de carga.

“O espaço largo onde se ergueu o templo de Santa Maria Magdalena, apresentava um aspecto imponente.

“Ao descair a tarde saiu a procissão em que era conduzido o esquife com a veneranda imagem do Senhor Morto, e a da Virgem, sendo muito acompanhadas de Irmãos.

“Na frente tocava a Fanfarra de Villa Franca do Rosário, que espontaneamente appareceu a encorporar-se no préstito, e na rectaguarda a philarmónica Torreense, fechando com uma força de 16 praças de infantaria 11, comandada pelo sargento.

“Percorreu o logar, dirigindo-se à pequena ermida que está muito alindada, onde ficaram as imagens: Em seguida orou o ver. Chagas, e depois o préstito dispersou, começando então a debandada que tinha o pittoresco  matiz das variadas conduções, desde o veterano jumento ao pesado carro de bois, desde a clássica carroça de muares até à elegante “caleche” particular.

“De Torres Vedras a Concorrencia era bastante. A tarde conservou-se bonita e convidativa ao passeio.

“Os principaes moradores do Turcifal receberam com a sua proverbial amabilidade os convidados, que retiraram muito satisfeitos pelo modo como em tudo sobressaiu a festividade do domingo n’aquelle logar” (10).

Com descrições como esta, não era preciso existir máquina fotográfica…

(1)    – in Voz de Torres Vedras, 7 de Abril de 1888;
(2)    –idem, idem;
(3)    – in A Semana de 12 de Abril de 1888;
(4)    – idem, idem;
(5)    –in A Semana de 19 de Abril de 1888;
(6)    – in A Semana de 5 de Abril de 1888;
(7)    –in Voz de Torres Vedras de 7 de Abril de 1888;
(8)    – in “A Semana” de 12 de Abril de 1888;
(9)    – in Voz de Torres Vedras de 7 de Abril de 1888;
(10)                       – in A Semana de 3 de Maio de 1888.

quarta-feira, 7 de março de 2018

A Vida Torriense nos Caracteres da Imprensa Local (finais do Século XIX) (1885-1890) - Março de 1888.


Março 1888

“Foram-se !

“Andorinhas da arte, não poderam suportar as neves de Fevereiro e o frio da indiferença publica.

“Embrulhados nos mantos reaes de paninho bordado a lantejoulas, pozeram-se ao caminho com uma bagagem de dramas e uma perspectiva de miséria, seguindo a estrella dos bohemios, para irem levar ao seio das multidões a malícia da Nitouche e o surdo ranger de dentes de D. Afonso IV” (1).

Com estas palavras metafóricas começava a crónica de Carlos Velloso nas páginas de “A Semana”, nesse distante mês de Março de 1888, referindo-se à retirada de Torres Vedras da companhia teatral que aqui havia permanecido alguns meses.

Carlos Velloso, curioso cronista, de estilo muito peculiar na Torres Vedras oitocentista, prosseguia essa crónica com estas palavras:

“A brazeira voltou ao centro da sala, a chinela forrada, com bordados, tem na meia escuridão, por baixo da secretária, uns brandos fulgores de missangas: o “Diário de Notícias” retomou o seu império, e na leitura dos versos do sr. Luís d’ Araujo faz-se tranquilla a digestão das torradas, livre já da peste dos maus hábitos, lançada a despeza com theatro na coluna dos ganhos e perdas.

“O Convento da Graça vae perdendo o feitio pavoroso da Bastilha, já não se lhe suppõe  dentro um Minotauro que devora tostões e – quem poderia crer ? – já olhos humanos contemplam, sem estremecer, as taboas desunidas, meio enterradas, que eram ponte oscillante e perigosa n’aquelle patíbulo da riqueza (…)” (2).

O citado Convento da Graça, que serviu de sombra às noites de teatro, era o centro de outras realidades da época, como se pode ler noutra notícia publicada no mesmo jornal:

“Vae ser provisoriamente mudado o hospício dos expostos, n’esta villa, da antiga casa que se vendeu, para um edifício mais amplo e confortável, até que se realizem as obras no convento da Graça, onde ficará definitivamente instalado” (3).

O mês de Março de 1888 foi mês de temporais que se fizeram sentir principalmente no estado em que deixaram os velhos caminhos que ligavam Torres Vedras aos concelhos vizinhos e as ruas da villa:

 “A pouca àgua que caiu nos últimos dias da semana passada bastou para tornar intransitáveis os caminhos, convertendo-se em verdadeiros lamaçaes, onde os carros se enterram até aos eixos (…).

“Só quem anda na estrada conhece os dannos que provém de similhante desmazelo, demais na presente ocasião, quando se procede às tiradas do vinho.

“Aqui mesmo na villa temos um espelho à nossa frente.

“O caminho da estação, aquelle decantado caminho a que tantas vezes nos temos referido, está n’um estado tal, que bem demonstra a forma porque se zomba do interesse publico, mangando com as povoações.

“Aquilo não é um caminho, principalmente apenas caem algumas gotas de chuva: - é um mar de lama, um precipício, incapaz de servir para o trânsito geral.

“Apenas ali se chega logo se adivinha o serviço de uma via férrea, que tem os aterros especados com madeira, onde os wagons, velhos e ameaçando desconjuntar-se, andam à aposta, no que se refere a velocidade, com os carros dos almocreves!

“Realmente, estamos abaixo das povoações mais insignificantes, pelo abandono a que somos votados (4)”.

Então, como hoje, a linha do Oeste parecia condenada a prestar um mau serviço aos seus utentes (embora fosse então um dos mais prometedores e modernos meios de transporte), situação que não impedia a companhia de obter lucros significativos para a época:

“Reunindo as receitas d’este novo caminho de ferro, desde 1 de Janeiro até 12 do corrente [ mês de Março] , vemos que o seu produto monta a 25:901$010, pertencendo à Linha de Cintra a Torres 18:424$010 e à de Torres a Leiria 7:477$000.

“Com tão boas receitas bem podia a companhia mandar esphaltar o recinto da estação d’esta villa, ou mac- adamisar os caminhos que conduzem não só a esta, mas a outra estações da linha, os quaes estão intransitáveis, a ponto de terem já causado alguns desastres (5).

Mas nem tudo era criticável em relação àquela companhia, pois, entretanto, anunciava-se o ajardinamento da estação do caminho de ferro de Torres Vedras “no espaço que medeia entre o edifício e as arrecadações de material circulante”.

A recente inauguração do caminho de ferro não impediu o surgimento de um novo estabelecimento de trens de aluguer, propriedade de Januário Vieira, “habil cocheiro muito conhecido em todo o Concelho de Torres” (6).

O saneamento básico era outra das preocupações da época:

“A mudança da estação faz-nos ocorrer a necessidade de abastecer de água a nossa villa, evitando as dificuldades dos annos anteriores.

“A água que temos não é boa, nem sufficiente, todos o sabem (…).

“E já agora lembramos à Câmara a conveniência, de proceder ao saneamento da povoação, fazendo com que se observem os preceitos salutares da hygiene.

“Actualamente, a nossa villa, com as montureiras, os canos rotos, as ruas sujas, não peca por aceiada, nem attraente  (…)” (7).

Um dos melhoramentos então recentemente inaugurado, a iluminação a gaz, atravessava algumas dificuldades, que acabaram por levar ao regresso `da velha iluminação a petróleo, só abandonada em 1912 com a inauguração da iluminação eléctica:

“Desde terça-feira [6 de Março] que a villa é iluminada a petróleo. A naphta foi por algum tempo posta de parte “ (8).

Outro melhoramento então anunciado para o concelho foi a instalação de uma linha telefónica particular, ainda não inaugurada por razões burocráticas:

“Está prompta há mais de um mez o telefone que deverá funcionar entre S. Domingos de Carmões e o Sobral de Mont’ Agraço, sem que ainda chegasse ordem official para a sua abertura ao público, que ainda não poude utilizar este melhoramento com que foi contemplado” (9).

Uma última nota sobre este mês de Março de 1888 para referir que se anunciava para o primeiro dia de Abril o encerramento dominical dos estabelecimento comerciais, a partir das 4 horas da tarde, iniciativa que muito contribui para alargar os tempos livres dos torrienses, alterando muitos hábitos dos seus habitantes no final do século XIX.

( a partir de texto por nós publicado no jornal Badaladas em 25 de Março de 1988).

  • (1)    – in A Semana de 1 de Março de 1888;
  • (2)    – idem, idem;
  • (3)    –idem, idem;
  • (4)    – in Voz de Torres Vedras de 3 de Março de 1888;
  • (5)    –idem. Idem;
  • (6)    – in Voz de Torres Vedras de 24 de Março de 1888;
  • (7)    – idem, idem;
  • (8)    – in Voz de Torres Vedras de 10 de Março de 1888;
  • (9)    – in A Semana de 22 de Março de 1888.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

A Vida Torriense nos caracteres da Imprensa Local (Finais do Século XIX) - (1885-1890) - Fevereiro de 1888

FEVEREIRO 1888 
Em 1888 já se festejava o Carnaval em Torres Vedras, embora sem o brilho dos nossos dias. 
Alguns mascarados percorrendo as ruas e uma ou outra festa particular eram, então, os únicos sinais desses festejos. 
Carlos Velloso, que então assinava uma crónica semanal no jornal “A Semana”, fazia um balanço desse Carnaval de 1888: 
“O que houve de mais notável no nosso Carnaval sensaborão, foi uma mascarada de fina ideia, verdadeira de costumes, e agradável por mil motivos. Uma estudantina composta de rapazes músicos e d’excellente voz, de magnífica apresentação e espirituosa phrase, trouxeram-nos a notícia de que estávamos em pleno Entrudo (…). 
“Eu disse-vos que as ruas estavam vazias de máscaras, mas não vos contei que as salas estiveram cheias de valsistas. O Carnaval, que este anno aqui sentiu umas veleidades d’elegância, não quis magiar os pés nas pedras pontiagudas das calçadas, e foi para os salões romper as botas de polimento n’um voltejar vertiginoso, ao som das notas languidas das valsas de Metrà (…)” (1). 
Os dois jornais que então se publicavam na vila, “Voz de Torres Vedras” e “A Semana”, referiram alguns dos locais onde decorreram essas festas : na casa do sr. Augusto Santos Ferreira “onde uma encantadora diversão se proporcionou a deliciar o grande número de convidados que enchiam as suas salas”  e “n’um teatrinho improvisado”, onde se realizou uma “soirée” com “recita”, em “que apenas tomaram parte senhoras, que revelaram um grande talento artístico e uma boa educação literária. Alguns cavalheiros recitaram poesias e dançou-se até às duas horas da manhã” (2). 
Por sua vez, na Terça-feira de Carnaval “reuniram-se nas salas do club torreense as principais famílias da localidade, as quaes (…) passaram uma noite deliciosa. Dançou-se muito”, realizando-se igualmente um baile “nas salas do sr. José Norberto Correia Lopes da Feliteira” (3). 
Na época de Carnaval o acontecimento mais importante que então se realizou terá sido a tradicional procissão das cinzas, como se pode concluir da seguinte notícia:“Realizou-se hontem [15 de Fevereiro] a procissão que a venerável ordem terceira de S. Francisco é obrigada a fazer por compromisso declarado no Breve da sua instituição, datado de 21 de Novembro de 1676. 
“Levava 9 andores, e muitos irmãos, sendo acompanhada pela filarmónica torreense e por grande concurso de povo da villa e dos arredores (…).“Esta irmandade da Ordem Terceira faz durante o anno muitas esmolas a pobres desta villa, e dá também morada a pessoas necessitadas nas casas contiguas à ermida de S. João. 
“Tem a sua capella e casa de despacho na egreja de S. Thiago, por concessão que obteve de um bocado de chão contíguo àquella egreja, onde edificou aposentos próprios. 
“Os fundos d’esta irmandade resultantes de esmolas, legadas e annuaes, são avultadas, e da boa administração resultam as suas prosperidades. O primeiro capital que deu a juros foi de 60$000 réis, há mais de século e meio” (4). 
Outras festas tiveram lugar, nesse mês de Fevereiro, noutras freguesias do concelho.Foi o caso dos festejos em honra da Senhora da Purificação, em 2 de Fevereiro, no Sirol, freguesia de Dois Portos, e em Runa, que contaram, respectivamente, com a presença da Filarmónica da Ribaldeira e da Filarmónica Torrense. 
Em 3 de Fevereiro realizou-se a Festa dedicada a S. Brás, em Monte Redondo, “com música, arraial e procissão”, que deu “volta ao largo onde foi collocada uma cruz de pedra em substituição d’uma de madeira que ali existia” (5). 
Em Torres Vedras também teve lugar nesse mês uma importante reunião, convocada pelos cidadãos Dr. Aleixo Ferreira, Augusto dos Santos Ferreira, Caetano de Figueiredo e João de Guimarães, com o objectivo de discutir a idéia de contruir um Teatro em Torres Vedras “para que a população fluctuante não se veja obrigada a deitar-se ao sol posto, para que a população indígena não faça consistir o seu passatempo na sublime diversão da manilha e da bica sueca (…)” (6). 
Vários actos de agressão e desordem pública tiveram lugar nesse mês de Fevereiro, quer na vila quer nas aldeias do concelho, talvez reflectindo, não só a situação social da época, mas também a falta de policiamento, uma das preocupações de então. 
Nos últimos dias desse mês esta situação era finalmente resolvida: 
“Depois do que escrevemos com relação à falta de policia n’esta localidade, é-nos grato noticiar que as reclamações da imprensa (…) foram attendidas pela autoridade superior do districto, junto do qual o sr. administrador do concelho (…) conseguiu que voltassem para esta localidade os dois guardas de policia que em tempo aqui estiveram, acompanhados de um outro, que junto com os três antigos formaram uma esquadra” (7). 
De referir que, nesse mês surgiu o primeiro jornal cultural editado em Torres Vedras, “O Bocage”, jornal de curta duração. 
No dia 14 de Fevereiro faleceu Francisco Rodrigues Peixoto, “sócio fundador da Fanfarra 24 de Julho” e que “foi dos membros d’essa sociedade o que mais instou (…) a organização da Associação 24 de Julho de 1884”, associação mutualista (8). 
Terminamos esta crónica dedicada a Fevereiro de 1888, com uma curiosa referência ao Castelo de Torres Vedras, escrita por Carlos Velloso na imprensa local desse mês: 
“Em Torres Vedras há o quer que seja, alguma cousa de sombrio, que se impõe ao viajante, que o domina, que lhe faz experimentar uma sensação de frio. O estudo da sua vida commercial, activa e muda, do sussurro que se pressente, vindos dos centros do trabalho; a contemplação de um Castello histórico, aos pés do qual ella dorme, sonhamdo voluptuosamente o seu passado glorioso, immergem o caminhante na medição abstracta de quem fita um monumento. 
“Quando, há anos já, passámos aqui pela primeira vez, em gozo d’umas férias, joeirado n’uma diligência, em uma jornada “à-la-diable”, que tinha feito uma alliança tenebrosa com umas bellas rezões que trazíamos  como recordação da nossa província, um companheiro indígena apontava-nos o Castello arruinado, theatro  de dramas sanguinolentos. Fallava-me do Bonfim e do Saldanha, e indicando-me uma oliveira, que me parece já ter sido sacrificada – vê?, além morreu o Mousinho, um homem às direitas! 
“Isto define um povo – trabalho e glória, que são duas glórias juntas, mas que teem um pezo enorme que immergem o caminhante na meditação abstracta de quem fita um monumento” (9). 

(1)    – in A Semana de 16 de Fevereiro de 1888;
(2)    – in A Semana de 9 de Fevereiro de 1888;
(3)    – in Voz de Torres Vedras de 18 de Fevereiro de 1888;
(4)    – In A Semana de 16 de Fevereiro de 1888;
(5)    – in A Semana de 2 de Fevereiro de 1888;
(6)    - in A Semana de 9 de Fevereiro de 1888;
(7)    – in Voz de Torres Vedras de 25 de Fevereiro de 1888;
(8)    - in Voz de Torres Vedras de 18 de Fevereiro de 1888;
(9)    – in A Semana de 9 de Fevereiro de 1888.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

A Vida Torriense nos caracteres da Imprensa Local (Finais do Século XIX) - (1885-1890) - Janeiro de 1888

JANEIRO de 1888

O ano novo não começou da melhor maneira para Torres Vedras nesse ano de 1888.

O mau tempo continuava a impedir, desde finais de Dezembro, a realização dos trabalhos agrícolas, prejudicando os “pobres trabalhadores, que têm passado dias e dias sem ganhar jorna “ (1).

Os temporais que tinham tido lugar em 27 e 28 de Dezembro de 1887, provocaram cheias e interromperam a ligação ferroviária entre Torres Vedras e Lisboa, provocando a “irregularidade” do serviço de correio (2).

Atribuía-se às obras na linha férrea a responsabilidade pelos prejuízos que o temporal provocou nalgumas terras, “devido ao desvio que se permitiu fizesse, no rio Sizandro”, citando-se o caso da “propriedade do sr. João Victorino Pereira da Costa, bastante danificada hoje em consequência da Câmara transacta ter consentido no que não devia consentir (…) assim com deixou que se construísse, sem as necessárias condições, requeridas ali pela afluência das àguas, o aterro sobre a Várzea do Reguengo (…). Os resultados não podem ser piores. Aí estão patentes” (2).

Uma certa decepção perante as possibilidades do novo meio de transporte recentemente inaugurado não impedia  que se apostasse no seu futuro, chegando a defender-se a construção de um ramal ferroviário que ligasse Pêro Negro ao Turcifal, proposta que seria nesse mês apresentada à direcção da Companhia dos Caminhos de Ferro portugueses.

Em decadência encontrava-se o único meio de transporte alternativo de então, embora durante alguns dias tenha sido o único meio de ligação com Lisboa, com os inconvenientes abaixo referidos:

“As correspondências expedidas de Lisboa a Torres, por uma só diligência, chega aos seus destinos atrasada, e a horas incertas da noite.

“É assim que estamos recebendo os Jornais de Lisboa e a da província” (2).

Tais inconvenientes demonstrados pelo transporte tradicional não impediram que, em 8 de Janeiro, fosse inaugurada uma nova carreira de diligência entre Torres Vedras e  capital, pertencente à companhia “António Alves Gato & Irmão (…) saíndo de Lisboa dois carros – um às 9 horas da manhã e outro ao meio dia, passando o das 9 por Dois Portos, e o do meio dia pelo Turcifal.

“Sai de Torres o primeiro carro às 5 horas da manhã, passando em Dois Portos; e o segundo às 10, pelo Turcifal.

“Os bilhetes vendem-se em Lisboa na Tabacaria Neves, e em Torres Vedras, na loja do sr. José Avelino (…). Preço, 1$000 réis” (2).

Uma das maiores preocupações da imprensa de então era com o saneamento da vila:

“Pedimos à Ex.ma Câmara que provindencie no sentido de serem mais rigorosamente cumpridas as disposições que sabemos estarem no ânimo de todos os srs. Vereadores, com respeito à limpeza e saneamento da vila.

“Nem a todos os pontos chegam a vassoura a limpar as imundices que a falta de saguões e pias obriga a acumular na ruas e vielas, havendo sítios onde a falta de asseio é positivamente uma vergonha (…)” (3).

A defesa do consumidor era então uma idéia ausente na  preocupação de alguns comerciantes, mas já então a imprensa local desempenhava o importante papel em denunciara os abusos, como se revela na seguinte notícia:

“O leite que alguns vendedores estão fornecendo para consumo, nesta vila, é uma perfeita burla feita aos consumidores. A um freguês foi vendido, no dia de Ano Bom, um litro de leite que, analisando no aparelho, continha 65 por cento de àgua (…)” (1).

Outro problema com que a população local então se debatia era com a iluminação pública.

 Iniciaram-se então experiências com um novo tipo de iluminação: “já estão colocando nas ruas da vila os novos candeeiros para a iluminação pelo sistema gasogénio.

“Os candeeiros são muito elegantes e darão a Torres Vedras um aspecto moderno” (4).

De facto, avelha iluminação a petróleo, inaugurada em Fevereiro de 1864, parecia condenada:

“É de péssima qualidade o petróleo que há tempos para cá se consome na iluminação da vila. As luzes parecem de lamparina. Ousamos lembrar à nossa vereação que mude de freguês; porque o actual está a mangar com a gente desde que se faz a experiência da luz a gasolina.

“Convém notar que as noites estão escuras, e a respeito de policias nikles (…)” (2).

A falta de policiamento era outra preocupação de então, provocando alguns casos graves de criminalidade:

“Afiançam-nos que nas imediações da vila têm sido atacados transeuntes sendo assaltados de preferência os trens, e já se mencionam alguns furtos cometidos por ataques de mão armada.

“Como boato cita-se que existe um grupo de homens que se acoitam pelos pinhais do Vale Paxis, a quem saem à estrada.

“Como Torres Vedras não tem policia será bom que estejamos de prevenção para não transitar de noite fora da vila, pois diz-se que ante-ontem, mesmo junto aos arcos do aqueduto, fora assaltado um cocheiro que guiava um trem de retorno (…)” (3).

Nessa época eram raros os espectáculos com os quais a população se pudesse distrair. Por isso era motivo de entusiasmo a presença na vila de uma companhia de teatro, “Theatro Recreios Dramáticos”:

“Depois d’uma longa interrupção nos espectáculos, devido ao mau tempo, que não permite representações no teatro barraca, onde o público ficava muito exposto às intempéries da estação, realizou-se no domingo [8 de Janeiro] na sala generosamente cedida no Convento da Graça, um sarau que a companhia Dias convocou em auxílio das suas despesas e transtornos.

“O público foi, como de costuma ser, generoso e pronto (…)” (3).

Mas um dos mais importantes acontecimentos desse mês de Janeiro de 1888 foi a realização do mercado de S. Vicente, com cuja descrição encerramos esta nossa crónica:

“A vila no Domingo [22 de Janeiro] tinha um aspecto estranho. Por todas as ruas e praças transitavam grupos, procurando os estabelecimentos e fazendo as suas compras. A faina comercial desenvolveu-se sofrivelmente, mostrando uma certa animação.

“Na Várzea do Amial fez-se a feira do gado suíno. O dia esteve benigno, apesar do Sol se não mostrar muito expansivo. O aspecto do mercado era deveras atraente. A concorrência foi enorme, e os grupos mercadejavam por todos os lados, e cada um seguia depois com o seu suíno alentejano, gordo, futigado, de calcheta no chispe, como verdadeiros condenados à morte.

“O preço da carne começou por ser de 2 800 a 2 700 réis, e já para o fim do mercado estava a 2 400 réis, havendo ainda bastante por onde escolher.

“Na ermida de N. S. do Amial, fez-se festividade a S. Vicente, havendo de tarde arraial. É a festa chamada dos charnequeiros, e reinou bastante alegria, não sendo alterada a ordem.

“ A Phylarmonica Torreens eabrilhantou a festividade.

“A policia do mercado foi feita por alguns gurdas civis vindos da capital, e pelos oficiaes da administração deste concelho, e o zelador municipal.

“Foi capturdo um contrabandista (…)” (4).

--
(1) A Semana de 5 de Janeiro de 1888;
(2) Voz de Torres Vedras de 7 de Janeiro de 1888;
(3) A Semana de 12 de Janeiro de 1888;
(4) A Semana de 26 de Janeiro de 1888.