quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

No 40º aniversário do Fanzine torriense "Impulso"



Completam-se, neste mês de Janeiro,  40 anos passados sobre a edição do fanzine de Banda Desenhada “Impulso”.


Foi editado no então Liceu de Torres Vedras e foi um dos primeiros fanzines portugueses, citado em quase todos os livros e textos que abordam a história da BD e dos fanzines em Portugal.


Na altura apenas se editavam mais quatro fanzines no país, o “Argon”, que, salvo erro, foi o pioneiro, o “Quadrinhos”, o “Copra” e o “Saga”.


O movimento de fanzines de banda desenhada teve o seu início em Portugal nos inícios da década de 70 e beneficiou de algum abrandamento da censura, após o afastamento de Salazar em 1968, que se acentuou após a sua morte em 1970.


Neles publicavam-se críticas e noticias sobre o mundo da BD, bem como trabalhos originais de autores portugueses.


Um outro factor que muito contribuiu para o nascimento e expansão desse movimento foi a divulgação, nas páginas da revista Tintin, do movimento de fanzines de Banda Desenhada que despoletava na Europa francófona, muito na senda da afirmação criativa e libertária do pós Maio de 68. Vasco Granja foi um dos responsáveis pela divulgação dessas edições de tipo “underground”, quer na secção de notícias daquela revista, quer na sua colaboração com colunas de informação sobre BD, que começavam a surgir regularmente em páginas da imprensa nacional, com destaque para o jornal “A Capital” e o seu suplemento “Quadradinhos”.


Em Janeiro de 1973 editavam-se em Portugal quatro revistas de BD com edição regular : para além do já citado Tintin, existiam o “Jornal do Cuto”, o “Jacto” e o “Mundo de Aventuras”.

Por sua vez, na imprensa editavam-se suplementos semanais colecionáveis de BD. Par além do citado “Quadradinhos”,  o jornal “O Século” publicava o “Pim-Pam-Pum” e o “Diário de Notícias” o “Nau Catrineta”.


O grupo que esteve na origem da edição do Impulso tinha em comum, para além da amizade pessoal, escolar e de vizinhança, de longa data entre alguns dos seus membros, o gosto pela leitura de Banda Desenhada e o desejo de editar aquilo que, de forma por vezes muito naif, cada um de nós ía fazendo.


Para a edição do Impulso contámos com o apoio do então reitor do liceu, o Dr. Semedo Touco, homem liberal e compreensivo, e que nos garantiu, não só o suporte técnico, mas também o suporte financeiro para a edição desse fanzine, sem nunca ter intervindo nos conteúdos deste.


O fanzine tinha uma tiragem média de 150 exemplares e um custo de cerca de mil escudos (cinco euros) por edição, dois terços dos quais eram suportados pela escola e o restante pelas vendas. Inicialmente o “Impulso” vendia-se ao preço unitário de dois escudos e meio (pouco mais de …um cêntimo), mas o seu preço foi subindo ao longo do ano, 3$50 a partir do nº3, 5$00 a partir da 4ª edição.


Pessoalmente  já tinha alguma experiência com a edição de pranchas de BD da minha autoria, incluídas nas páginas de um jornal escolar desse liceu, O Padrão, editado em 1971,trabalho que era feito com o recurso ao “stencil a cera”.


Além disso, eu, o meu irmão, o Carlos Ferreira e o seu irmão, o saudoso Marcos que nos deixou bem cedo, costumávamos fazer revistas de BD à mão, de um exemplar único.


Para a formação da equipa do Impulso juntámo-nos, não só eu, o meu irmão Mário Luis e o Carlos Ferreira, mas também outros colegas do liceu, como o João Nogueira (Janeca), também meu vizinho, o Mário Rui Hipólito, o Manuel Vilhena, o Calisto, e o José Eduardo Miranda Santos (Zico), este exterior à escola mas amigo que tinha conhecido pelo Carlos Ferreira e que possui uma das mais variadas e extensa colecções de álbuns  e revistas de BD que todos liamos avidamente. Conhecemos então dois prometedores autores de BD, o Joaquim Esteves e o Antero Valério, sem dúvida os que, de todos nós, possuíam melhores qualidade artísticas. Mais tarde juntaram-se à equipa o Jorge Barata e o António Trindade.
 

Entretanto começaram a colaborar, nuns casos com textos sobre BD, noutros com desenhos, outros amigos de outra regiões do país, como José de Matos-Cruz, e o Carlos Pessoa, de quem me tornaria amigo, o Jorge Magalhães, o Al Bonjour,  o Carlos Nina, o A. Vilarinho a Maria Clara, alguns deste que nunca conheci pessoalmente.


Do Impulso foram editados 5 números ao longo de 1973, feitos com a “revolucionária” tecnologia de então , o “stencil electrónico”, existente no liceu para a feitura dos testes escolares, contando então com a preciosa colaboração do Emílio Gomes que dominava essa tecnologia e nos ensinou a usá-la. 


Como todos nos envolvemos na vida associativa e política em 1974 e 1975, só voltaríamos, e pela última vez, a editar o “Impulso” em 1976, agora financiado pelo Cine-clube de Torres Vedras. Aliás, em Novembro deste ano a equipa do Impulso organizou a primeira exposição de BD realizada em Torres Vedras. 


Em Novembro de 1985, desta vez patrocinada pela Cooperativa de Comunicação e Cultura, alguns elementos da mesma equipa organizaram uma nova e mais elaborada Exposição de Banda Desenhada, ocasião na qual foi editado um número único de um novo fanzine torriense de BD, o “Bêdêzine”.


Da equipa do Impulso, apenas o Antero Valério acabou por se notabilizar como autor de BD, muito activo actualmente com a edição de um blog, Anterozóide, e uma página do facebook, Facetoons, dedicados à divulgação dos seus cartoons.


Contudo, quase todos nos fomos encontrando e cruzando ao longo da vida, reencontrando-nos regularmente nos mais variados projectos  culturais torrienses, como o Cineclube, o jornal Área, a Cooperativa de Comunicação e Cultura, a Associação do Património, o movimento das rádios locais e, mais recentemente, também na blogosfera.


Penso que  todos nós aprendemos muito com a experiência efémera da edição do Impulso e crescemos com este projecto.


Eu tinha então, em Janeiro de 1973, 16 anos, quase 17,  e era o mais velho do grupo. Os mais novos tinham cerca de 11 anos.


Hoje aqui recordamos esse projecto e reproduzimos as capas dos números editados.






1 comentário:

Jorge Guerra disse...

A simplicidade gráfica das capas reproduzidas na Tintin acrescentava uma aura mítica ao seu pioneirismo. Demorei a conseguir um exemplar, depois conheci três ou quatro números; mas não recordo se o Venerando de Matos me enviou algum a meu pedido ou recebi através doutra pessoa (!).

Cumprimentos.