sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A "Escola" de Torres Vedras - reflexão sobre a historiografia local.


ESTUDOS VEDROGRÁFICOS: A “Escola de Torres Vedras”.
 Por aquilo que conheço no país, poucas localidades, como Torres Vedras, se podem gabar da quantidade e qualidade de estudos, entre a divulgação e a investigação, sobre os mais variados aspectos e épocas da sua história local.
Existe uma longa tradição de estudos sobre a sua história e o seu património, que remonta à primeira tentativa de escrever uma primeira monografia ainda no século XVIII, um estudo e recolha de notícias da autoria do capitão  Luiz Botto Pimentel Corte Real, datado de 1729, “Livro de Notícias Várias…”, que infelizmente não chegou a conhecer a luz do dia, mas continua preservado no Arquivo Municipal de Torres Vedras.
A primeira obra impressa que versa a história local, embora num tema muito específico, é uma “História do [convento] do Varatojo”, da autoria de Frei Manuel Maria Santíssima, editada em 1799.
Contudo, devemos  balizar o primeiro período historiográfico torriense ente  monografia de Madeira Torres do início do século XIX e a de Júlio Vieira, do início do século XX e recentemente reeditada.
O padre Madeira Torres, que foi deputado da primeira constituinte, bom conhecedor dos arquivos paroquiais e municipais locais, publicou dois artigos, nas “Memórias da Academia Real das Sciencias de Lisboa”, sobre Torres Vedras, um primeiro, em 1819, de carácter histórico, e um segundo, em 1835,  de carácter económico, justamente considerados o “actos fundadores” da historiografia torriense .
A meio do século XIX dois “notáveis” torrienses, homens activos na vida política e municipal durante a afirmação do liberalismo, José António da Gama Leal e José Eduardo César de Vasconcelos,  pegaram nos artigos de Madeira Torres e, acrescentando-lhes um conjunto de valiosíssimas notas de rodapé, que tiveram como base, principalmente, o ainda hoje valiosíssimo arquivo municipal, ao qual tiveram acesso por causa das suas funções municipais, assim como a recolha na tradição oral e à memória  da própria vivência pessoal, e editaram o primeiro livro de História Torriense, tendo como base a parte histórica dos artigos de Madeira Torres, intitulado “Descripção Histórica e Económica da Villa e Termo de Torres Vedras – parte histórica”, publicado em 1862, e que passou à história como “a monografia de Madeira Torres”.
Os mesmos anotadores prepararam a edição de um segundo volume, com a parte económica do estudo Madeira Torres, com as mesmas valiosíssimas anotações, mas nunca a conseguiram editar. Felizmente os originais dessa segunda parte da obra de Madeira Torres, devidamente organizados em vários cadernos, prontos para edição, existem no Arquivo Municipal de Torres Vedras e, segundo nos constou, serão em breve editados.
Há quem diga que a quantidade e a qualidade de informação que os anotadores de Madeira Torres acrescentaram aos dois textos deste, são muito mais valiosas e interessantes do que os originais de Madeira Torres.
A Monografia de Madeira Torres, anotada por aqueles dois torrienses, conheceu uma edição fac-similada em 1988, por iniciativa da Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras.
Ainda no século XIX é de registar outra obra, de temática muito específica, a “Descripção do Real Asylo de Inválidos Militares de Runa”, da autoria de Souza Escrivanis e editada em 1882.
Não nos podemos esquecer das muitas memórias editadas por essa Europa fora, em especial na Grã-Bretanha, versando a passagem pela região de Torres Vedras, entre 1807 e 1810, por ocasião das Guerras Peninsulares, de militares de todo o “mundo” e de várias patentes, muitas delas reveladas nos últimos anos, por ocasião do bicentenário desses acontecimentos, nos quais esta região desempenhou um papel importante e fundamental.
À  precocidade no interesse pela história local torriense, para além da existência  e divulgação daquelas obra, não terá sido estranho o facto de, desde muito cedo, a partir de 1885, ter existido uma imprensa local regular, contando muitas vezes com mais do que um título semanal, situação que se prolongou até ao princípio dos anos 30 do século XX, onde, desde sempre, se revelou interesse em divulgar todo o tipo de documentos e ensaios sobre a histórias local e o seu património.
Aliás, esses mesmos jornais são hoje uma valiosíssima fonte para a história local contemporânea.
Saiu exactamente do jornalismo de divulgação a segunda monografia marcante  sobre a história e o património de Torres Vedras, a obra de Júlio Vieira de 1926, e reeditada este ano, “Torres Vedras Antiga e Moderna”.
Com este obra fechava-se o primeiro ciclo, que consolidou o interesse e a divulgação da história torriense.
Entre os anos 20 e 60 do século passado poucas inovações se podem registar ao estilo, metodologia e informações reveladas naquelas duas obras.
Não devem contudo ser desprezados algumas iniciativas dispersas e pontuais de interesse pela história local, através da publicação de vários ensaios na imprensa local, ou em separatas ou folhetos, da autoria de um Rafael Salinas Calados (com destaque para o seu estudo sobre a Misericórdia de Torres Vedras, editado em 1936), de um Rogério de Figueiroa Rêgo, este nos domínios da genealogia, e da afirmação de uma historiografia regionalista e elitista, mas onde se revela um especial cuidado no tratamento e divulgação de fontes, principalmente sobre a época moderna e o início do século XIX, afirmando tardiamente a metodologia positivista em termos de história local. A sua obra “Alguns Sumários das Notas de Vários Tabeliães da Vila de Torres Vedras nos séculos XVI e XVIII”, editada em 1970, é ainda hoje uma importante obra de referência para o estudo do Antigo Regime.
Ao longo da primeira metade do século XX, com cultores que continuaram nas décadas seguintes, muitos foram aqueles que revelaram curiosidade pela História local, recorrendo a um certo “coleccionismo” de factos e documentos e à recolha dispersa de memórias e acontecimentos, destacando-se neste caso um Gabriel Pereira, dedicando um interessante capítulo da sua obra “Pelos Subúrbios e Vizinhanças de Lisboa” , editada em 1910, à história e património torrienses,  um  Artur da Silva Lino, um Pedro Garcia Anacleto, um França Borges  ou, mais recentemente, um Adão de Carvalho.
Algumas publicações revelaram-se um importante centro de divulgação do publicismo da história torriense, como as edições especiais da revista “Hora” nos anos 30 e 50, ou o Boletim da junta Distrital da Estremadura que se editou entre os anos 40 e 80 do século passado.
Não nos podemos esquecer, entretanto, do grande desenvolvimento e da grande ruptura cronológica que representou, sobre o conhecimento do passado local, o elaborado trabalho arqueológico de Leonel Trindade e Aurélio Ricardo Belo.
Ao primeiro deveu-se a importante descoberta do Castro do Zambujal  e ao segundo a descoberta do povoado eneolítico do Penedo, nos anos 30. Essas descobertas atraíram o interesse do prestigiado Instituto Arqueológico Alemão, que ainda hoje mantém uma laboriosa parceria com as autoridades locais em várias campanhas arqueológicas que ainda hoje continuam, bem como na publicação de uma vasta bibliografia, muito dela na língua alemã, sobre a pré-história da região de Torres Vedras.
A fundação do Museu Municipal em 1929 conheceu então uma grande projecção com as descobertas arqueológicas daqueles dois torrienses.
Recorde-se que a primeira grande descoberta arqueológica em Torres Vedras tinha acontecido em 1909, com a descoberta do Tholos do Barro pelo frade jesuíta Lapierre.
Com o aparecimento do jornal “Badaladas” em 1948, o interesse pela historia e pelo património locais conhecerem um novo fôlego, habituando-se aquele jornal, que se tornou semanário no início da década de 60, a acolher nas suas páginas trabalhos de investigação e divulgação, alguns de grande fôlego e que não teriam grandes possibilidades de conhecer a luz do dia se não fosse o interesse que o padre Joaquim Maria de Sousa , fundador desse jornal, sempre demonstrou pela história local.
Quem quiser fazer história local sem consultar muitos desses ensaios publicados nas páginas desse semanário não está a fazer um trabalho completo, científico e sério.
Para além de podermos acompanhar nas suas páginas o trabalho arqueológico de um Leonel Trindade, aí foram publicados vários artigos valiosos para a história local, como por exemplo os estudos de Aurélio Ricardo Belo sobre os vestígios romanos no concelho.
A partir da década de 60 um outro período da história torriense vai conhecer um significativo desenvolvimento, a Idade Média. O interesse por esse período, que leva à publicação de alguns trabalhos de âmbito universitário, está relacionado com a vasta documentação sobre este concelho existente no Arquivo da Torre do Tombo, com destaque para uma completa inquirição de 1309 que abrange, detalhadamente, toda a área do concelho de Torres Vedras na Idade Média. Destacam-se os estudos de H.B. Johnson em 1970, um historiador colaborador dos “Annales”, os trabalhos do padre franciscano Félix Lopes na “Lusitânia Sacra”, nos anos 60 e 70, a tese de Maria Julieta de Oliveira em 1970 e, mais recentemente, o trabalho de Ana Maria Rodrigues, “Torres Vedras – A vila e o termo nos finais da Idade Média”, editado em 1995.
Importante para o interesse por essa época foi igualmente a recolha de J. Cordeiro de Sousa, feita nos anos 50, e editada em 1957, de “Fontes Medievais de História Toreana”.
Ainda nos finais da década de 60, início da de 70, não podemos esquecer outras teses universitárias, como a de Lígia Maria Gouveia Barreto sobre Torres Vedras no século XVIII, com base na análise dos livros de décimas, ou a tese de Teresa Barata Salgueiro sobre a urbanização de Torres Vedras.
Mas foi, quanto a nós,  uma outra tese, abordando  a época medieval, que, em termos locais, representou uma ruptura com a historiografia local tradicional, a tese de licenciatura em História do actual Bispo do Porto, D. Manuel Clemente, apresentada em  1974, “Torres Vedras no 1º Quartel do século XIV”.
Por coincidência esse foi o ano da revolução democrática do 25 de Abril, que muito contribui para uma nova abordagem da história local e para o aparecimento do espírito daquilo que, em artigo recente, Joaquim Moedas Duarte designou como “Escola De Torres Vedras”.
De facto, o que assistimos até essa data, foi um trabalho, sem dúvida importante e laborioso, mas quase sempre individual e disperso.
Quanto a nós houve um conjunto de condições, a partir daquela data, que permitiram o desenvolvimento de uma maior colaboração e qualificação do trabalho de investigação e divulgação historiográficas:
    - a afirmação do ensino secundário, inicialmente em duas escolas locais, o antigo Liceu e a antiga Escola Técnica, tendo por base uma renovação historiográfica dos programas de história e a chegada de uma geração mais jovem e metodologicamente inovadora de professores, valorizando a investigação, a história ao vivo e a história local;
    - a constituição de uma Associação de Defesa do Património, fundada em 1979, incentivando o estudo, a divulgação e a edição de temáticas relacionadas com a história e o património locais;
    - uma crescente afirmação do poder local, levando à edição de vários estudos sobre a História Local, destacando-se o papel relevante da revista “Torres Cultural”.
Tudo isto contribuiu para a afirmação de um espírito de “escola”, já que existia um autêntico sistema local de “vasos comunicantes”  entre aquelas instituições.
Estavam criadas condições para a afirmação consciente desse espírito.
O primeiro grande sinal foi dado com a obra colectiva “Torres Vedras – Passado e Presente”, editada em 1996.
Seguiu-se a  criação oficial do Arquivo Histórico de Torres Vedras nos anos 90, sob a direcção de Carlos Guardado Silva.
O principal resultado desse espírito de escola está na realização, a partir de 2000, dos Encontros anuais de História, “Turres Veteras”, numa parceria com o Instituto Alexandre Herculano da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Essa colaboração tem contribuído para um crescente interesse do meio universitário pelo estudo da História local, que tem resultado também na colecção “Linhas de Torres”, responsável por 13 títulos, editados desde 1999. Uma outra parceria recente com uma editora muito ligada à edição de temáticas de História, a Colibri, tem contribuído para projectar a “escola de Torres Vedras” e para o desenvolvimento da “vedrografia” (termo por nós inventado para definir a historiografia de temática torriense) .
Esperamos com este texto motivar o interesse e a discussão sobre este tema.
Uma nota final para referir que este texto foi escrito de memória, recorrendo apenas a uma ou outra consulta para confirmar datas, nome ou títulos, pelo que poderá registar algumas lacunas.
Deve por isso ser lido como um esboço, sujeito a correcções e críticas.

2 comentários:

Avelaneira Florida disse...

Obrigada por esta síntese, Venerando!!!
Será importante relê-la e completá-la com todos os dados possíveis porque há aqui toda uma memória identitária da comunidade torreense.
Para os mais jovens ...será de conhecimento FUNDAMENTAL. Eles precisam de construir a memória do Futuro. Seria interessante retomar alguns projectos...
Boa "rentrée"!!!
M.C.

Méon, disse...

Só agora li com mais atenção esta tua síntese, belo ponto de partida para o conhecimento mais profundo da nossa historiografia local.
Vou fazer ligação para o blogue da Asociação do Património:http://patrimoniodetorresvedras.blogspot.com

Abraço e... obrigado pelo teu trabalho!