terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O texto "esquecido" de "Carnaval de Torres - Uma História com Tradição"


No princípio da década de 90, na sequência de uma primeira tentativa de sintetizar a História do Carnaval de Torres para um número especial da revista Zona Oeste de 1992, dedicada a esse evento, fui convidado pelo então vereador da cultura, Dr. António Carneiro, a completar aquele primeiro estudo, com o objectivo da publicação de um livro sobre o tema.

Tendo entregue o texto final em meados de 1995, demorou algum tempo até existirem condições para publicação do livro.

Entretanto, a obra começava a desatualizar-se, em especial na parte dedicada ao “Carnaval actual”, pelo que, já em 1998, o mesmo vereador me entregou um texto alternativo a essa parte para eu adaptar ao que tinha escrito, acabando o capítulo por ser  intitulado  “O Carnaval na Actualidade” (pp.65 a 70), incluído por mim no texto final com a condição de se indicar que “este capítulo  foi escrito tendo por base um depoimento escrito que nos foi facultado pelo Dr. António Carneiro”, como se pode ler na página 77 da referida obra.

Criaram-se então as condições para a 1ª edição da obra, com uma tiragem de 2000 exemplares, em co-autoria, na parte gráfica com o meu amigo Antero Valério, editada em 1998.

Fiquei a aguardar uma 2ª edição onde pudesse rever  e incluir novos dados e lacunas de investigação, bem como actualizar o último capítulo, muito em especial a parte referente ao carnaval de Torres pós-25 de Abril, que era a parte mais "frágil" do livro.

Tal não foi possível, mas o texto que foi substituido, datado de 1994, continuou guardado no meu computador, até, depois de muitas voltas por muitos computadores (que podia servir de base para a minha história pessoal de relação com a informática, iniciada em 1991), o consegui finalmente recuperar, e é o que hoje aqui, pela primeira vez, divulgo, lembrando que não foi corrigido e foi escrito tendo em conta a realidade do carnaval de Torres em 1994.

Não se confunda a situação descrita com qualquer acto de censura. A alteração, concorde-se ou não com ela, deveu-se àquilo que se pode chamar "opção editorial", a que eu acedi para desbloquear uma situação que já se arrastava demasiado no tempo e que punha em risco um trabalho de dois ou três ano. Hoje teria agido de modo diferente. Erros de "juventude"!.  Por outro lado, como podem ler aí em baixo, pelas indicações bibliográficas do texto "esquecido", quase tudo o que estava nele foi baseado no tal número especial do Zona Oeste de 1992 sobre o carnaval, situações aí descritas até com mais desenvolvimento e pormenor do que no meu texto, edição que foi pública e na qual eu fui co-autor com o Jorge Humberto e o Daniel Abreu.

Esta não foi, aliás, a primeira vez que, por opção editorial, tive de encurtar textos ou eliminar capítulos inteiros. Quem já escreveu livros sabe que tem de deixar muita coisa de fora. Por exemplo, na Monografia de Torres Vedras, na qual fui co-autor, tive de deixar de fora, voluntariamente, um capítulo inteiro, situação que terá acontecido também aos meus colegas. Muitas vezes, quando colaboro em jornais ou revistas, tenho de escrever vários textos até o "reduzir" ao espaço que tenho disponível.

Mesmo que o texto que abaixo reproduzo tivesse sido incluído no livro do Carnaval, teria de ter sido revisto. O que divulgo não é mais que um rascunho.

O que não quer dizer que não concorde com o que  disse, certeiramente, um amigo meu com alguma graça, quando do lançamento público do livro do Carnaval,  criticando-me por,nesse capítulo discutível, ter despido a máscara de Fernão Lopes e vestido a de Gomes Eanes de Zurara.

Desde então muito aconteceu, e, de facto, toda a verdadeira  história do Carnaval de Torres dos últimos 25 anos continua por fazer.

“CARNAVAL EM LIBERDADE

Tendo sido o  Carnaval um dos raros espaços de liberdade no período anterior ao 25 de Abril , tendo de enfrentar por vezes a incompreensão das próprias autoridades , paradoxalmente no primeiro carnaval em liberdade , o de 1975,  não foi organizado qualquer desfile em Torres Vedras , situação que se manteria nos anos seguintes.

Tendo ainda por base o amadorismo de outros tempos , seguiram-se várias tentativas de relançar o carnaval .Em 1978 seria avançada uma proposta para que fossem os "Bombeiros" a organizar o carnaval , mas as exigências económicas  de um tal projecto tornavam incomportável  para aquela associação um tal  risco financeiro :

 “Quando a Física de Torres Vedras deixou de ser a entidade responsável pela organização do Carnaval este ficou moribundo, perdendo assim as tradições que ao longo dos anos angariaria em todo o País. (...)

 “A organização e a realização do Carnaval de 1978 foi oferecida aos bombeiros, cuja direcção e comando estudou demoradamente o assunto, tendo chegado à triste realidade de, nas condições actuais, se tornar impossivel realizar tal festa dado que não reuniam, para o efeito,  as condições exigidas.(...).

“Mas os homens fazem tudo e dentro deste simples pensamento poder-se-á fazer o Carnaval de 1978, basta que a nossa Câmara Municipal seja a entidade responsável pela sua organização e assim poderemos talvez adiantar que os Bombeiros Voluntários ajudarão e até as demais colectividades da vila, em tal capítulo , estarão presentes. (...)”.  (editorial não assinado -Manuel Candeias ?- do OESTE DEMOCRÁTICO , intitulado “O Carnaval de Torres Vedras”, nº118 de 23-9-1977).

De qualquer  modo esse ano de 1978 terá marcado o arranque para esta nova etapa do carnaval torriense:

“(...) formou-se com o patrocínio da Câmara Municipal e respectiva Comissão de Turismo, a Comissão de Carnaval 1978, para a realização destes festejos a favor do Asilo de S.José.(...)

“Pela primeira vez este teve a participação directa de muitas terras do concelho, que se fizeram representar com carros alegóricos (..)” (F.Jaime Valadas “Carnaval de Torres 1978 " in OESTE DEMOCRÁTICO nº138 de 10-2-1978).

Até 1983 o carnaval manter-se-ía nestes moldes. No de 1982 estiveram presentes cerca de 40.000 pessoas e em 1983 desfilavam 13 carros com temas variados.

No Outono Desse ano , Torres Vedras sofre uma das maiores tragédias deste século, com inundação de grande parta da cidade e concelho ,o que provoca imensos prejuízos , levando à suspensão da organização do Carnaval de 1984.

 “Depois dos 1500 contos de prejuizo do carnaval de 83 e da anulação do de 84 por causa das cheias do ano anterior, houve quem pensasse que era desta que o carnaval de Torres desaparecia. (...).

“É então que surge António Carneiro propondo que a Câmara tutelasse a organização do Carnaval, ideia que agradou a todos pelas perspectivas de continuidade que assegurava(...).

“Uma pequena revolução na estrutura da Câmara iniciou-se também nessa altura, com a criação de serviços de Cultura e Turismo (...). Esta nova estrutura operacional, com pessoal administrativo e operários em permanência, que já tinha organizado a Feira de S.Pedro de 83 , veio trazer ao carnaval o fôlego que necessitava (...)” ( ZONA OESTE ,   Nº13, FEV. 1992 ,  Daniel Abreu e Jorge Humberto “carnaval de Torres Vedras-o tele-Carnaval mais tele -Português de Portugal” pp.25-26).

É assim que se dá início à fase mais recente da sua história. Para organizar o carnaval de 1985 o vereador  António Carneiro nomeia  uma comissão por si presidida e formada por Afonso Umbelino, José Ramos,  Gilberto Pedro Lopes, Luís Alberto P. Novas ,  Justino Moura Guedes , João Maria Brandão de Melo,  Carlos Alberto Bernardes, João Fernando Marques  e  João Romão Ferreira.

A partir daí o carnaval conhece um assinalável  crescimento tornando-se um dos mais importantes do país, com direito à transmissão directa pela televisão do seu desfile de Domingo. Dos 37 mil bilhetes vendidos em 1985 , chega aos 52 mil de 1988. (Boletim  Municipal  nº5, 2º  trimestre  de  1988).

Desde 1988  o Carnaval de Torres passa a obedecer a um  temática comum na decoração dos 13 carros  da comissão . 1988 teve por tema "os  descobrimentos" -  “à descoberta da alegria” ,  em 1989 a "história de Torres Vedras", em 1990 a "CEE" , em 1991  as  "histórias da carochinha"  , em 1992 "as  olímpiada"  , em 1993 "Portugal de lés a lés" ,em 1994  "o mundo  da  fantasia"  e em 1995 "a história do cinema". Desde 1993 foi  autorizado  o desfile de um 14º carro , independente da comissão e patrocionado pale Associação de Defesa do Património e EspeleoClube de Torres Vedras , presença que tem envolvido alguma polémica ,pela irreverência crítica deste carro.

Polémico foi também o carnaval  de 1993 , quando o primeiro-ministro Cavaco Silva  se recusou a assinar o decreto  que , tradicionalmente, desde Salazar, dava  feriado  , tolerância de ponto,  ou a tarde, na terça- feira de carnaval.

Vários concelhos com carnaval , entre eles o de Torres Vedras,  decretaram  feriado municipal e quase todo o país aderiu a uma espécie de desobediência civil. Cavaco  Silva foi alvo de chacota geral,  que incluiu uma manifestação de cabeçudos e mascarados do carnaval de Torres à porta da sua residência oficial. Nas sondagens Cavaco Silva  entrou em queda descontrolada, da qual  nunca mais  recuperou , pelo menos até ao  momento em que escrevo (Novembro de 1994) .

Apesar da crescente profissionalização da sua organização,  tem-se mantido a tradição de fazer reverter os lucros da iniciativa para  o apoio a associações de utilidade pública , entre as  quais, os Bombeiros Voluntários , a APECI (apoio a crianças  deficientes) ou o Asilo de S.José.

Contudo os anos de 1993 e 1994 foram anos de crises, provocada por condições climatéricas adversas , um risco em qualquer  manifestação de rua , principalmente quando o carnaval coincide com o início do mês de Fevereiro, como foi  o  caso.

“O CARNAVAL DE TORRES  HOJE [1994]- ORGANIZAÇÃO E RITUAIS

Cada ano, em meados de Agosto,    os  preparativos  do  carnaval   seguinte começam   com   uma  reunião  do  vereador com   a  comissão  ,para  uma  primeira  apresentação  de  idéias   -tema ,carros ,decorações ,cabeçudos .

Em  Setembro  tem  lugar  uma  segunda reunião, desta  vez  para  tratar  de  problemas  de  administração  e  secretariado.

O   trabalho   intensivo  inicia-se  em   meados   de  Dezembro   , dois  meses   antes  da  data   prevista   com   dois  turnos  de   trabalho, a  funcionar  24  horas  por   dia  até  à  véspera  do  corso.

Os  carros  alegóricos  são  fabricados  nos  estaleiros  de  "Arenes"  desde  1981   .

Em  1991  eram  responsáveis  pelo  fabrico  dos  carros  Pedro  Sobreiro  e  Travanca  da  Costa, o primeiro  por  7  carros  e  o  segundo  por  6, chefiando  um  grupo  de  12  operários  em  permanência  durante  os  dois  meses  de  trabalho. Noutros anos a autoria dos carros tem sido da exclusiva responsabilidade de José Pedro Sobreiro , ligado ao carnaval  desde  1980 . Actualmente , e desde 1994 , a orientação artística está a cargo do mestre António Trindade.

Os  carros  têm  por  base  desenhos  à escala. Alguns  dos  13  carros  mantêm  a  sua  estrutura      inalterável ,de   ano para ano. O  material  de  base , para  construção  dos carros ,  é  constituido  por  madeira  de  pinho, esferovite  , gesso , aglomerados  e  tinta. 

Antigamente   a  estrutura  dos  carros assentava   em   galeras de rodado de madeira. Actualmente e desde 1987,   assentam  em  chassis  feitos  de  propósito .”Hoje os chassis vão aos  9 mts de comprimento , 3 de largo com rodados de borracha e subiram para 7,5 mts de altura”,lembra-se Armindo, o funcionário de ligação com os operários e artistas (...)” ( ZONA OESTE, p.26, Nº13, FEV.92, OB.CIT.).

Para além das temáticas, os carros são sobretudo projectados em termos do seu impacto visual, que é o que verdadeiramente conta como espectáculo uma vez que nem todas as idéias se prestam a ser tratadas  sob a forma de carro alegórico.

“Assim, os carros de motivação crítica, são muitas vezes os mais difíceis de conseguir, pois que estão mais condicionados por referentes concretos” (texto, supostamente da autoria de José Pedro Sobreiro, publicado no folheto do carnaval de 1983).

A mesma equipa projecta e fabrica os cabeçudos que irão desfilar nos dias de carnaval. Aqueles são   modelados  em  escultura  de  barro. Depois  tira-se  o  molde  com  gesso  por  cima (ficando o   negativo), dividido  pela  parte  de traz  e  da  frente. De seguida sâo  elaborados  sobre  o  concavo   com  parte   contrária , com  fibra  de  vidro   e  resina  (até  1987   era  com   jornais)   e  finalmente  são  pintados. Os  moldes  antigos  são   aproveitados. A  estrutura  é   em  ferro. 

Quanto à temática dessas figuras tradicionais  do carnaval torriense , tem havido a preocupação de abranger um leque  variado de temas desde a fantasia pura e simples à crítica social  e política,  passando pelos temas clássicos (mitologia).

Os “homens sem sono”, a cujo trabalho nos bastidores se deve a realização do carnaval de Torres, vivem esta quadra de forma diferente: uns nem entram no côrso para ver os carros desfilar e tudo o que desejam é poder descansar; outros transferem-se da última madrugada de trabalho para o próprio corso, como figuras de destaque. Aconteceu em 1991 com o novo rei de carnaval. Todos esses artistas ,  a quem se deve o anual desfile carnavalesco deTorres  Vedras , ganham o seu salário por esse trabalho, mas , sem o grande amor que dedicam a esta tarefa, o Carnaval de Torres não seria o mesmo.

O carnaval nas ruas começa semanas antes da data marcada, geralmente em meados Janeiro,  com as brincadeiras de carnaval , principalmente agitadas nas escolas, com os "asssaltos" de mascarados a casa de amigos, e as festas em discotecas da região.

Oficialmente, o Carnaval de Torres  costuma começar no  penultimo  sábado anterior  ao domingo  gordo, com uma embaixada dos  reis e a sua côrte de" ministros " , matrafonas e cabeçudos,  que se desloca a Lisboa em missão de propaganda .No mesmo dia realiza-se normalmente o raly trapalhão, tradição retomada em 1988.

Na sexta-feira seguinte , de manhã,  tem lugar um desfile de máscaras  pelas ruas da cidade, com a participação de milhares de alunos das escolas e jardins de infância do concelho, costume que se iniciou em 1991 , quando  a Escola Secundária Madeira Torres promoveu um concurso de máscaras por turmas, para desfilarem pelas  ruas da cidade naquele dia da semana.

À  noite tem lugar , no largo da estação , a recepção aos "Zés Pereiras" que , acompanhando , com os seus bombos , cabeçudos e gigantones , iniciam o seu desfile pelas ruas da cidade , tarefa que executarão incansávelmente até ao início da noite da Terça-Feira Gorda.

Pelas colectividades e discotecas do concelho começam nessa noite os animados bailes de carnaval.

Sábado é dia de recepção real. Tradicionalmente esta tinha lugar na manhã desse dia ou de Domingo , no largo da estação. Segue-se um discurso de boas-vindas proferido pelo "primeiro- ministro" do Carnaval e a entrega , pelo Presidente da Câmara, da chave da cidade à comitiva real.

Em 1993 essa cerimónia teve lugar à noite, seguindo-se um cortejo nocturno em honra de "Suas Majestades " , prefigurando aquilo que desde longa data era preconizado por muitos e que ,  pela adesão popular obtida ,deverá ter continuidade em anos futuros.

Bruno Brandão de Melo é, desde 1991 , rei do carnaval , representando o primeiro caso de sucesão dentro da mesma família. António Manuel  dos Reis  (Mima)  é também "a" mais jovem "rainha" do carnaval. Por tradição , o rei é "armado" pela "rainha". Em Torres Vedras, resistindo-se à "onda brasileira" ,mantém-se o costume de " a rainha" ser um homem.

O corso carnavalesco , com entradas pagas  e desfile dos carros alegóricos , sempre bastante animado ,tem lugar durante as tardes de Domingo e Terça-Feira.

Cerimónia tradicional nestes dias é a homenagem prestada aos decendentes da Francisco e Jaime Alves ,  na residência  desses pioneiros do Carnaval de Torres  .Principal responsável por se manter esta tradição  , o sr. António dos Santos Verino  " prepara a festa e acolhe os foliões  desde há muitos anos e sempre com o mesmo entusiasmo e preocupaçaõ : não deixar morrer esta tradição , apesar do trabalho e custos qu isso implica" .

"(...)É uma cerimónia com todos os ingredientes de um verdadeiro ritual , onde não falta um formal discurso de agradecimento aos proprietários que sempre os recebem com uma mesa farta . Nesses  dois dias a casa  enche-se de dezenas de foliões que , para além do copo e diversas iguarias gentilmente oferecidas , pretendem exprimir a sua admiração e respeito . A perticipação e adesão a este ritual é de tal modo grande que hoje já existem outros grupos de foliões a rivalizar com os "Ministros e Matrafonas" nesta romagem .(...) Depois da confraternização , "Ministros e Matrafonas" despedem-se com a família Alves na varanda a assistir a mais uma praxe desta preciosa característica do nosso carnaval : dispostos em círculo em plena Rua Henriques Nogueira , os foliões  ajoelham-se  para uma peculiar reza final  e com um sonoro obrigado lançam-se na noite". ( Zona Oeste , nº13 , ob. cit. , p.30 ).

A noite é das colectividades e discotecas , sendo a segunda-feira a mais animada , principalmente pelos numerosos e animados grupos de mascarados que invadem as ruas e os bailes nessa noite.

A festa termina a altas horas da madrugada , já em quarta-feira de cinzas”.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Recordar Leonel Trindade, “revisitando” o Castro do Zambujal


Passam este ano vinte cinco anos sobre o falecimento de Leonel Trindade.

Foi a 4 de Janeiro de 1992 que essa figura incontornável da vida cultural torriense nos deixou, aos 88 anos.

Leonel Trindade ficou especialmente conhecido pelas suas importantes descobertas arqueológicas na região, sendo uma das grandes referências da arqueologia portuguesa.

Devemos a Cecília Travanca a mais completa biografia daquela personalidade torriense, pelo que aconselhamos vivamente a leitura desta obra (1).
 
Não é nossa intenção traçar aqui o perfil de Leonel Trindade mas, em sua homenagem, revisitar aqui um dos seus contributos mais importantes para a história e a arqueologia nacional, a descoberta e exploração arqueológica do Castro do Zambujal, sendo o arqueólogo torriense coautor de sete textos fundamentais sobre esse lugar (num conjunto de vinte e duas obras que publicou, em coautoria com alguns dos mais importantes arqueólogos portugueses e estrangeiro que por cá trabalharam, sobre a arqueologia da região) .

Esta importante estação arqueológica foi descoberto por Leonel Trindade em 1938,  responsável pelas primeiras escavações em 1944, às quais se seguiram outras em 1959 e 1960, acompanhando-o, nos dois últimos anos, o Dr. Aurélio Ricardo Belo. Foi então convidado o Instituto Arqueológico Alemão a continuar esse trabalho, o que aconteceu entre 1964 e 1973, período durante o qual se efectuaram sete campanhas de escavações orientadas por E. Sangmeister, H. Schubart e W. Huebener .

Nos anos seguintes foi estudado, por aquele Instituto, o espólio e o conjunto de informações obtidas naquelas escavações, distinguindo-se nesta fase o trabalho do arqueólogo Dr. Michael Kunst, que tem liderado as escavações mais recentes.

 
O Castro do Zambujal foi declarado Monumento Nacional pelo Decreto 35817 de 20/8/1946.

O nome de Zambujal “deriva sem dúvida, de uma mata de zambujos (...) uma espécie de oliveira silvestre, que existia em tempos no local e dos quais alguns exemplares ainda se vêem vegetando nos arredores, sendo outros aproveitados para neles se enxertarem oliveiras, tal como ainda hoje se pode observar num centenário olival que existe no sopé do monte onde está situado o castro”  (2) .

O “Castro” terá sido ocupado entre 2500 aC. e 1700 aC e o local terá sido escolhido por razões estratégicas:

”Não sendo a maior elevação da cadeia montanhosa a Este da Ribeira de Pedrulhos, ficam-lhe por trás os pontos mais altos, encobrindo-a de quem se aproxima vindo de Oeste. Ao escolherem este local relativamente afastado da costa (...), os seus habitantes tinham a vantagem de avistarem o mar e a desembocadura do Rio Sizandro sem que pudessem ser observados” (3).

Sabe-se também pelas “ datações de C14 efectuadas em conchas provenientes dos sedimentos marinhos (…) que, durante o Calcolítico, se estendia um braço de mar até à actual aldeia de Ribeira de Pedrulhos. No entanto, ainda é desconhecida a amplitude total deste braço de mar, principalmente no vale do rio Sizandro. A distância que separava o Zambujal  desta baía era somente de cerca de 1 Km, mantendo-se assim até à fase 4 da construção. Uma rápida sedimentação, provocada por uma forte erosão, provocou o desaparecimento gradual deste braço de mar. Provavelmente, a diminuição da área do povoado, referente à fase 5 da construção, teve a ver com este fenómeno.”(4).

Os vestígios de fortificações revelam-nos uma das principais características deste “castro”:

Os  “construtores  da fortificação desconheciam o método de travar muros, encostando as novas muralhas contra as anteriores. Do mesmo modo, eram os muros assentes no solo original, por vezes sobre rocha viva, mas também em camadas formadas por anteriores derrubes de muros ou mesmo adobe de casas.” (5).

Quando foi abandonado, por volta de 1700 aC., era um gigantesco e complexo conjunto, composto por quatro linhas de defesa ( esta quarta linha só recentemente foi descoberta (6)).

“O núcleo deste conjunto é uma fortificação circular com aproximadamente 40 metros de diâmetro interior, cujos muros chegam a atingir a espessura de 15 metros. Aparentemente, o topo destes muros serviria de plataforma sobre a qual os defensores se moviam livremente, aproveitando as vantagens da linha defensiva interior.

“Da muralha sobressaem bastiões semi-circulares, pouco distanciados e cobertos por cúpulas, a cujo interior as plataformas dariam acesso. Supomos que estas dispunham de seteiras, de modo a ser possível atirar sobre o inimigo de uma posição perfeitamente protegida. Um corredor, de apenas um metro de largura, conduz ao núcleo fortificado, atravessando a muralha num ponto em que esta atinge o 13 metros.

“Para oriente, a uma distância de 8 a 10 metros da fortificação central, corre uma segunda linha defensiva com uns dois metros de espessura e reforçada igualmente com bastiões semi-circulares

“A Este, e a cerca de 30 metros da Segunda linha, numa zona mais alta do terreno, encontra-se a terceira linha defensiva (...)” (7).

Conhecendo-se bem o sistema defensivo do Castro pouco se sabe sobre o seu povoado, devido à construção do Casal do Zambujal, “que veio a destruir o espaço interior da fortificação central até à rocha: todas as pedras utilizadas na construção do casal procedem da fortaleza”(8).

Actualmente já se comprovou a existência de cinco sistemas de construção:

“Os “sistemas de construção” resultaram de conceitos estratégicos diferentes (...). Todos os sistemas têm em comum o seguinte: uma cidadela central (...) que se encontra num esporão rochoso, é rodeado por cinturas amuralhadas mais ou menos concêntricas e possivelmente abertas para a escarpa do esporão” (9).

São as seguintes as principais características dessas fases de ocupação:

Fase de construção 1 – “Defesa em compartimentos (“labirinto). A fortaleza era dividida em pátios rodeados por muros autonomamente defendidos, para assim dividir o inimigo em pequenos grupos”;

Fase de construção 2 – “Defesa tipo “Causeweyed Camps”. Este sistema, completamente diferente do anterior, baseava-se em pátios com seteiras que defendiam portas do muro em frente, por onde podia passar uma só pessoa de cada vez”;

Fase de construção 3 – “Defesa com movimento sobre plataformas elevadas. Caracterizado pelo fecho e enchimento dos pátios anteriores, com grandes pedras e terra, de forma a constituirem-se plataformas elevadas onde os defensores se podiam movimentar com facilidade e melhor visualizar os movimentos do inimigo. Este sistema dava grande mobilidade à defesa, permitindo acorrer rapidamente onde ela fosse necessária”;

Fase de construção 4 – “Defesa com cobertura de flancos com torres ocas, elevadas, mas acrescido por torres ocas no exterior dos muros, de forma a permitir melhor cobertura dos flancos”;

Fase de construção 5 – “Possivelmente  abandonou-se a terceira linha da fortificação. As duas linhas mais interiores foram de novo reforçadas. Na linha II são visíveis pequenas entradas num nível mais elevado. Está-se, agora, em plena Idade do Bronze.” (10).

Correspondendo à fase 2, um dos poucos vestígios actualmente visíveis é o chamado “Barbacã”: “Na campanha de escavações de 1968 foi encontrado um pátio semi - circular, que continha ainda conservadas algumas paredes até uma altura de cerca de 4 metros (...). Na época da sua escavação chamou-se ao pátio “barbacã”. A sua parede a Leste contém aberturas que se interpretaram como uma pequena porta e seteiras, pois a elas correspondem pequenas portas na Segunda linha  de defesa (...). Estas portas são tão estreitas que só permitiam a entrada a um agressor de cada vez (...); no entanto este podia ser alvejado pelas setas dos guerreiros que se encontravam no interior da barbacã (...).

“Assim, fica claro que não se trata na verdade de uma barbacã, mas sim de um sistema  de defesa do tipo das construções neolíticas, chamadas “Causewyed Camps” por G. Childe (...)” (11).  

Não se prova “ a hipótese de terem sido navegantes do mediterrâneo Oriental que construiram estas fortificações, com o fim de as usar como feitorias, para assim dominarem as áreas adjacentes e controlarem as prospecções, produção e comércio do cobre, assumindo o poder. Também poderia ter acontecido que relações comerciais marítimas (directas ou indirectas) fizessem com que uma população indígena iniciasse a extracção do cobre, acumulando assim  uma riqueza, que a levasse a construir fortificações e a evoluir para novas formas de vida urbana e social. Ambas as soluções são possíveis, a partir de idênticas fontes tal como a possibilidade de terem existido outras formas intermediárias, diferentes de lugar para lugar. Não se podem negar, porém, as inovações que surgem com o Zambujal e estruturas aparentadas, a par de semelhanças de certos elementos com outros existentes no mediterrâneo Oriental.”(12).

“A sua localização pode (...) depender de factores antropogeográficas, mais do que de condições naturais” (13).

Para  Sangmeister e para Schubart, a posição do “Castro” é principalmente estratégica. Existem, contudo, “num círculo de cerca de 10 Km à volta do local “ onde se situa o Castro “vários locais que teriam sido igualmente favoráveis, ou até mesmo mais, em termos estratégicos”, como a área do vale do Sizandro entre Torres Vedras e Runa, com importantes recursos minerais e elevado potencial agrícola. Nesta área existem zonas que foram povoadas no tempo do Castro do Zambujal, como o Castro da Fórnea, o povoado do Penedo e a gruta sepulcral de Cova da Moura, denotando contudo povoados menos importantes que o Zambujal.

“Há evidência indirecta de que o comércio deve ter sido a fonte de riqueza óbvia do Zambujal (...)”. Nem “ os recursos locais de minerais, nem o potencial agrícola dos seus arredores podem ter sido a razão do poder económico do Zambujal. Há apenas um aspecto do seu meio circundante que é único nesta parte do Centro da Estremadura: o castro encontrava-se muito perto de um perfeito porto natural.

“Partindo do principio de que  a proximidade deste porto natural foi o factor macro-ambiental decisivo para a localização do povoado, os factores micro-ambientais para a sua fixação específica são mais fáceis de compreender. Há vários contrafortes de montanha de localização estratégica comparável, ainda mais próximos do antigo estuário, mas nenhum deles oferece um recurso local de pedra sólida pronta para usar como matéria prima de construção. As lajes de calcário arenoso, com que o castro foi construído, surge apenas numa estreita  faixa que se estende desde Torres Vedras, passando pelo Varatojo, até ao Zambujal, onde se aproxima ao máximo do antigo estuário do Sizandro. Mais próxima do rio, esta pedra calcária é revestida por uma pedra macia, quase arenosa, que não é boa para uso em alvenaria. O único outro local de onde as lajes, para edificar uma fortificação, poderiam ser extraídas junto à foz do Sizandro, nas arribas da costa.

“Uma localização na própria costa teria tido um grande número de desvantagens”, de entre elas, a exposição a piratas e inimigos vindos do mar e razões climatéricas.

Mas a “maior desvantagem de um local na costa actual seria (...) também antropogeográfica. Um porto é sempre um entreposto entre diferentes tipos de transporte. Num porto comercial florescente os transportes marítimos devem estar em conexão com estradas eficientes, que conduzam às áreas de produção ou consumo das mercadorias embarcadas. Um lugar da costa actual  teria sido marginal a qualquer das áreas descritas anteriormente como favoráveis”(14).

Existem vestígios que comprovam a importância da metalurgia para a economia do castro. “O cobre deve ter constituído o factor mais importante da economia  deste lugar” .

As casas de planta oval “apresentam um socalco de pedra sobre o qual se elevava uma cúpula feita de adobe (...). No interior das casas foram encontradas fogueiras não apenas para cozinhar.”

“São dois os casos em que várias fogueiras se agrupam em círculo, ao redor de uma estrutura plana, de barro, com os bordos elevados, tendo sido recolhidas nestas mais de 200 gotas de cobre fundido e, a redor das fogueiras, minúsculas gotas (tal como as que saltam quando se verte metal fundido) foram igualmente detectadas” (15).Nessas mesmas fogueiras surgiram também grãos de trigo carbonizados, o que parece indicar a sua utilização para fins culinários, pelo que se pode concluir que o cobre era fundido em indústrias caseiras.

“Para todo o período de ocupação do povoado (...) está documentada a metalurgia por vestígios de instalações destinadas à fundição do cobre” (16).

O cobre era importado, trazido de longe, “pois na zona não há notícia de jazidas de cobre. Supõe-se que o minério era fundido em pequenas quantidades, com carvão vegetal, procedendo-se logo à conversão do metal recém-obtido em barras e outros objectos.

“Há apenas um recurso destes [ minério de cobre] próximo do Zambujal. Trata-se de uma jazida de malaquite (...) que vêem à superfície próximo de Matacães, a pouco menos de duas horas a pé do Zambujal, seguindo o vale do Sizandro. A área é precisamente a Norte da bacia de Runa”, onde existia uma fonte de sílex. “Não existem ainda indicações de que tenha sido feito qualquer uso, durante o calcolítico, do minério de cobre de Matacães, mas a sua simples existência é um factor importante para a compreensão da paleo-economia da área.

“Devido à concentração de diversos minerais de uso potencial, a área à volta de Runa e Matacães, no vale médio do Sizandro, constituiu uma região privilegiada no que se refere a recursos abióticos. Não obstante, o Zambujal como o maior povoado calcolítico nesta região estava situado ainda a uma certa distância daquela área, num meio que não possuía nenhuns minérios úteis no seu limite de alcance imediato”(17).

A proximidade de jazidas de cobre do local do castro pode ter sido importante na determinação da sua localização.

Por outro lado, a utilização de outros recursos minerais, como o sílex, o basalto e o grés, não teria sido determinante, segundo UERPMANN. Estes minérios terão sido obtidos a alguma distância do castro:

“A bacia de Runa, que fica a 7 Km. em linha recta, ou a duas horas de caminho a pé do Zambujal, foi utilizado pelos habitantes do calcólitico como uma área de recurso. Há apenas um outro recurso de sílex a uma distância mais próxima do local: os depósitos plistocenicos de praia, os declives a Norte  do vale inferior do Sizandro, que contêm seixos de quartzito de granulação fina, de má qualidade para talhe, mas que foram usados no Zambujal como percutores (...).

“Entre os minerais mais frequentes usados para o fabrico de instrumentos no Zambujal, o basalto é o mais acessível, situando-se a uma distância de cerca de 30 minutos a pé (...) ( surgem em vales tifónicos e noutros locais a Sul do Sizandro, entre a costa próxima da Praia de Assenta, a ocidente, e a bacia de Runa a Oriente).

“Os grés do Cretácio Inferior, usados no castro para o fabrico de algumas mós, poderiam ser  quase considerados “locais”, embora tivessem sido trazidos de uma distância de pelo menos 3 Km, dos montes a Norte do Sizandro”(18) .

Foram encontrados vários objectos que revelam os contactos comercias do Castro do Zambujal: objectos em marfim, cuja matéria-prima era importada do Norte de África; “os cilindros e agulhas de osso poderão ter  sido produzidos no povoado, mas apresentam uma assombrosa semelhança com os correspondentes objectos egípcios e do Mar Egeu; as vasilhas de pedra calcárea e de alabastro são muito semelhantes às que se conhecem do Próximo Oriente” ” (19).

Outro “artigo exótico pode ter sido o diorito, utilizado no fabrico de contas, e as grandes quantidades de rocha anfibolítica importada para o fabrico de instrumentos”, esta, provavelmente, importada do rio Sado. Também o vinho pode ter sido importado

Com base no levantamento arqueológico do lugar podemos indicar como actividades existentes no castro: cerâmica, metalurgia, moagem, tecelagem, agricultura, criação de gado (vacas, cabras, porcos e ovelhas), comércio, caça, pesca, actividade militar.

Nas escavações efectuadas foram recolhidos cerca de 160 000 fragmentos de cerâmica. Existem  três grupos característicos dessa cerâmica : Campaniforme, decoração do tipo “folhas entalhadas” e “copos cilíndricos” (20).

É “seguramente correcto relacionar as pontas de projéctil com uma componente militar, nas indústrias de pedra das fortiicações calcolíticas. Isto terá tido também os seus reflexos no estilo de vida dos habitantes. A ideia de uma forte componente militar no campo sócio-económico das fortificações calcolíticas não é nova e é ainda favorecida pelo esforço bem visível despendido na fortificação dos povoados (...).

“Com base na ausência de instrumentos para a ceifa, devemos assumir que a maior parte do grão transformado nas mós encontradas no Zambujal, foi obtido por uma população agrícola  que habitava fora do povoado”(21).

As condições do vale frente ao castro não seriam na época favoráveis à agricultura, por ser alagadiço. Quanto aos declives acima do Zambujal, embora não se lhes possa negar “um certo potencial agrícola, a zona, no seu conjunto, não pode ser considerada excelente para a agricultura”, pelo que “o potencial agrícola local não pode ter sido muito importante para o desenvolvimento do povoado”(22).

Quanto à alimentação dos seus habitantes, além da que tinha origem na agricultura e pecuária, foram encontrados vestígios de que os seus habitantes se alimentavam igualmente da caça (carne de veado, de auroque, de javali, de cavalo, de coelho, aves) e também de peixe, moluscos, caracóis e, com menos frequência, de corço, lebre e baleia.

Com a farinha dos cereais (trigo e cevada), produziam farinha, papas e pão. Encontraram-se ainda vestígios de favas, sementes de linho, azeitonas e videiras.

“No que diz respeito ao sector animal da economia de subsistência do Zambujal, a alta proporção de porcos nos vestígios ósseos encontrados indica um uso extensivo das florestas de carvalho, que devem ter coberto grandes áreas da Estremadura, durante o Calcólitico. O mesmo nicho ecológico terá sido utilizado para a criação de gado bovino, que constituiu o recurso mais importante de carne no castro”(23) .

Embora menos significativa, a criação de ovelhas e cabras era usada para obter leite e, no caso das ovelhas, também, provavelmente, para a obtenção de lã.

“Deve ser dada uma atenção especial ao facto de terem sido encontrados no Zambujal esqueletos de cavalo” não se sabendo se eram selvagens ou domésticos.

“No que se refere à localização do Zambujal, o sector animal da sua economia não foi factor de pressão para a escolha do local.

“O único sector de uma economia de subsistência de base animal, que depende até certo grau da localização, é a pesca e a recolha de moluscos. A razoável quantidade de vestígios de animais marinhos encontrados no Zambujal é surpreendente, num local que fica, pelo menos, a duas horas a pé da costa actual. Contudo, com um estuário a invadir a zona inferior do Vale do Sizandro até à área da Ponte do Rol e, talvez mesmo, até à confluência com a Ribeira de Pedrulhos, o Zambujal torna-se um povoado costeiro. Este facto é de extrema importância para a ecologia do castro, embora não em termos da sua subsistência” (24).

Existem vestígios que nos permitem descrever com alguma fidelidade qual seria o meio ambiente envolvente do castro: “Encontraram-se ossos de pequenos mamíferos (toupeiras de água, rato cabrera), indicadores de um meio-ambiente mais húmido do que o de hoje (...).

“Como o indicam determinados ossos de animais selvagens, restos carbonizados de madeira e cortiça e sementes de plantas, a vegetação que rodeava o Zambujal devia ser principalmente uma floresta composta por pinheiros e árvores como o carvalho e o sobreiro, ainda existentes na mata do Convento do Varatojo. “Restos de madeira de freixos, lodão e , sobretudo, de amieiro e choupo, indicam a presença destas espécies nas margens dos rios.

“Estas matas abrigavam um grande número de animais para caça, como o auroque, a corça, o veado e o javali, e ainda animais predadores, como o lince, o gato bravo, o urso, o lobo, a raposa, a doninha e o texugo.

“Nas escarpas rochosas havia mato rasteiro, como o que ainda existe hoje nas áreas não cultivadas  à volta do Zambujal, indicado pelos achados de pistácia, espinheiro alvar, Sistus spec. (provavelmente roselha) e pelos ossos de pequenos pássaros, perdizes, lebres e coelhos.

“As tetrazes e abetardas habitavam em pradarias ou estepes, sendo ambas as espécies  bons indicadores de que naquela época já havia grandes planícies de campo aberto nos locais mais elevados”(25).

Por razões de segurança e preservação do lugar, penas uma pequena  parte dessa extensa povoação é visível aos que queiram visitar o lugar.

Quem quiser aprofundar o conhecimento sobre a importância desse povoado pode faze-lo, não só consultando alguma da bibliografia aqui referida, como visitando a excelente exposição que está patente no Museu Municipal Leonel Trindade até o final do próximo mês de Junho.

 

BIBLIOGRAFIA

(1)    – TRAVANCA, Cecília, Reconhecer Leonel Trindade, ed. Cooperativa de Comunicação e Cultura, T. Vedras, Outubro de 1999;

(2)    – in SCHUBART, Hermanfrid, e SANGMEISTER, Edward, TRINDADE, Leonel Escavações no Castro Eneolítico do Zambujal (Torres Vedras – Portugal) 1964, ed. CMTV, T. Vedras, 1966, pág 3;

(3)    – in SCHUBART, Hermanfrid, e SANGMEISTER, Edward, Zambujal – povoado fortificado da Idade do Cobre, ed. CMTV, T. Vedras, 1987;

(4)    –in  KUNST, Michael (org. e textos), Zambujal – Exposição comemorativa dos 20 anos do Instituto Arqueológico Alemão em Portugal – catálogo da exposição, CMTV, Torres Vedras 1992, pág. 27;

(5)    –in  SCHUBART e SANGMEISTER, ob. Cit., (1987);

(6)    –KUNTS, Michael, “Zambujal (Torres Vedras, Lisboa) – ralatório das escavações de 2001”, in Revista Portuguesa de Arqueologia, Vol. 10, nº 1, 2007, pp.95-118;

(7)    – in SCHUBART e SANGMEISTER, ob. Cit, (1987);

(8)    –in SCHUBART e SANGMEISTER, ob. Cit. (1987);

(9)    – in KUNST, Michael, As cerâmicas decoradas do Zambujal e o faseamento do Calcolítico da Estremadura Portuguesa, separata de  Estudos Arqueológico de Oeiras, nº 6, pp.257-286, Ed. C.M. Oeiras, 1996, págs. 257 e 258;

(10)                       –in KUNTS, Michael, ob.cit.  (1992), pp. 22 e 23;

(11)                       -in KUNST, ob. Cit. (1992), pág.23;

(12)                       – in pág. 20 de  SCHUBART, Hermanfrid, “As Escavações do Zambujal – Retrospectiva e planificação” in KUNST, Michael (coord.), Origens, Estruturas e Relações das Culturas Calcolíticas da Península Ibérica, Actas das I Jornadas Arqueológicas de Torres Vedras, 3-5 Abril 1987, Trabalhos de Arqueologia 7, IPPAA, Lisboa 1995, pp. 17 –20;

(13)                       – in pág. 51 de UERPMANN. Hans-Peter, “Observações sobre a ecologia e economia do Castro do Zambujal”, in KUNST, Michael (coord.), Origens, Estruturas e Relações das Culturas Calcolíticas da Península Ibérica, Actas das I Jornadas Arqueológicas de Torres Vedras, 3-5 Abril 1987, Trabalhos de Arqueologia 7, IPPAA, Lisboa 1995, pp. 47-53:

(14)                       –in UERPMANN,  Hans-Peter,ob. Cit. (1987), pp.51-52);

(15)                       – in SCHUBART e SANGMEISTER, ob. Cit., (1987);

(16)                       – in  KUNST, ob. Cit. (1996), p.258;

(17)                       -  in UERPMANN, Hans-Peter, ob. Cit. (1987), p. 48;

(18)                       – in UERPMANN,Hans-Peter,  ob. Cit., (1987), p.47);

(19)                       – in  SCHUBART e SANGMEISTER, ob.Cit. (1987);

(20)                       – in KUNST, Michael, “Cerâmica do Zambujal – Novos resultados para a cronologia da cerâmica calcolítica”, in KUNST, Michael (coord.), Origens, Estruturas e Relações das Culturas Calcolíticas da Península Ibérica, Actas das I Jornadas Arqueológicas de Torres Vedras, 3-5 Abril 1987, Trabalhos de Arqueologia 7, IPPAA, Lisboa 1995, pp.21-30;

(21)                       – in pág. 41,  UERPMANN, Margarethe, “A indústria da pedra lascada do Zambujal”, in KUNST, Michael (coord.), Origens, Estruturas e Relações das Culturas Calcolíticas da Península Ibérica, Actas das I Jornadas Arqueológicas de Torres Vedras, 3-5 Abril 1987, Trabalhos de Arqueologia 7, IPPAA, Lisboa 1995, pp.37-44;

(22)                       – in UERPMANN, Hans-Peter, ob. Cit., (1987), p.48);

(23)                       - in UERPMANN, Hans-Peter, ob. Cit. (1987), p.50);

(24)                       – in UERPMANN, Hans-Peter, ob. Cit. (1987), p.50):

(25)                       – in KUNST, ob. Cit. (1992), p.25.

Ler Também:

-              FERREIRA, Octávio da Veiga, La culture du vase campaniforme au Portugal,  tese de doutoramento apresentada  à Faculté des Sciences de l’Université de Paris, Lisboa  1966.

-              GONÇALVES, João Ludgero Marques, “O Castro da Fórnea (Matacães-Torres Vedras)”, in KUNST, Michael (coord.), Origens, Estruturas e Relações das Culturas Calcolíticas da Península Ibérica, Actas das I Jornadas Arqueológicas de Torres Vedras, 3-5 Abril 1987, Trabalhos de Arqueologia 7, IPPAA, Lisboa 1995, pp.123-140.

-              HOFFMANN, GERD e SCHULZ, Horst, “Cambio de situación de la línea costera y estratigrafía del holoceno en el valle del río Sizandro/Portugal”, in KUNST, Michael (coord.), Origens, Estruturas e Relações das Culturas Calcolíticas da Península Ibérica, Actas das I Jornadas Arqueológicas de Torres Vedras, 3-5 Abril 1987, Trabalhos de Arqueologia 7, IPPAA, Lisboa 1995, pp.45-46.

-              JIMÉNEZ GÓMEZ, María de la Cruz, “Los amuletos en el Eneolítico portugués: Zambujal”, in KUNST, Michael (coord.), Origens, Estruturas e Relações das Culturas Calcolíticas da Península Ibérica, Actas das I Jornadas Arqueológicas de Torres Vedras, 3-5 Abril 1987, Trabalhos de Arqueologia 7, IPPAA, Lisboa 1995, pp.31-36.

-              KUNST, Michael (coord.), Origens, Estruturas e Relações das Culturas Calcolíticas da Península Ibérica, Actas das I Jornadas Arqueológicas de Torres Vedras, 3-5 Abril 1987, Trabalhos de Arqueologia 7, IPPAA, Lisboa 1995.

-              KUNST, Michal, und TRINDADE, Leonel Joaquim, Zur Besiedlungsgeschichte des Sizandrotals,  Madid, 1990.

-              PAÇO, Afonso do e TRINDADE, Leonel, Subsídios para uma carta arqueológica do concelho de Torres Vedras, separata do “Arquivo de Beja”, vol.XX-XXI, 1963-1964, ed. Minerva Comercial, Beja, 1964.
(um resumo deste texto foi publicado na secção Vedrografias do Jornal Badaladas, na edição de 27 de Janeiro de 2017)