sexta-feira, 19 de maio de 2017

Clic on the Rocks...e vão...9!!

A revista torriense digital de cultura já vai na sua 9ª edição.
Clicando AQUI podem ter acesso a todos os números já editados.



 
 
 
 

quarta-feira, 10 de maio de 2017

1907 : um ano decisivo para a afirmação da elite republicana de Torres Vedras

(Caricatura de João Franco por Manuel Bordalo Pinheiro (filho de Rafael)).
 
O ano de 1907 ficou marcado pela chamada “ditadura franquista” que, extremando a vida política portuguesa, acabaria por conduzir ao regicídio de 1 de Fevereiro de 1908 e iniciaria a decadência definitiva do regime monárquico.

 
João Franco, o responsável por essa situação, foi um dos mais carismáticos políticos do final da monarquia. Tendo iniciado a sua carreira política no Partido Regenerador, em 1901 entrou em cisão com esse partido e fundou o Partido Regenerador Liberal, situando-se à esquerda dos partidos tradicionais e fazendo do combate ao rotativismo e à corrupção o seu objectivo.

 
 Em 1906 foi chamado a formar governo em coligação com o Partido Progressista e, se inicialmente se aproximou dos republicanos, a partir daí guinou à direita.~

 
Em 2 de Maio de 1907 afastou os progressistas e formou um novo governo.

 
No mês anterior, em 12 de Abril, João Franco, com o apoio de D. Carlos, assinou um decreto que mandou encerrar o Parlamento, facto que teve lugar em 10 de Maio, sem marcar novas eleições.

 
Esse dia 10 de Maio de 1907 é considerado o dia da entrada do governo em “ditadura”, período que ficou conhecido como “ditadura franquista”.

 
A perseguição à imprensa, principalmente aquela que criticava a acção do governo e denunciava a “questão dos adiantamentos” da casa real, com censura, prisões e julgamentos, contribuiu para desacreditar o rei e, na agitação social que se seguiu, os republicanos ganham cada vez mais protagonismo.

 
A ditadura terminará com o regicídio de 1908.
 
(Torres Vedras em 1907, numa reportagem publicada no "Ilustração Portuguesa" em 30 de Setembro desse ano).
 
Em Torres Vedras esse período foi vivido intensamente, tendo contribuído para a afirmação local dos republicanos.

 
Um dos jornais que então se publicavam em Torres Vedras era o “Folha de Torres Vedras”. fundado em 1899. A partir de 1905 esse jornal aproximou-se dos defensores locais do partido de João Franco, acolhendo igualmente as teses e a colaboração dos primeiros republicanos do concelho, destacando-se entre estes Júlio Vieira.

 
O alvo preferido dos ataques políticos nas páginas da "Folha..." foi Manuel Francisco Marques, líder dos “progressistas” de Torres Vedras, que dominavam o poder local, e que dirigia o outro semanário que se publicava na vila, "A Vinha de Torres Vedras".

 
A crescente tensão política que então se viveu no concelho, foi a justificação dada por Silvério Botelho Sequeira para, em 2 de Outubro de 1905, pedir a sua demissão da direcção do jornal, em carta enviada a Júlio Vieira (1).

 
A saída daquele director-proprietário contribuiu para reforçar a influência dos regeneradores-liberais nas páginas da "Folha...", pois a sua parte no jornal foi comprada por um conjunto de personalidades maioritariamente enfeudadas a esse partido. O próprio Júlio Vieira afirmará ter sido ele que se opôs a que se transformasse "este jornal, que tem o nosso nome no seu cabeçalho, em orgão do partido franquista d'esta villa"(2).

 
Em 1906, muito pela crescente influência de Julio Vieira na redacção do jornal, este ganhou um teor cada vez mais propagandista do ideal republicano.

 
É após as eleições parlamentares de Abril de 1906 que, em editorial, a "Folha.." assume uma aproximação crescente face aos republicanos.

 
Quando, em Maio de 1906,  João Franco chegou ao governo do país, o tom era ainda  de alguma indecisão política, dando grande destaque nas suas páginas à posse do novo administrador do concelho, o "franquista" "nosso amigo" Mário Galrão (3).

 
Ao mesmo tempo, continuava a divulgar, com crescente frequência, as actividades dos republicanos locais e a visita de "ilustres deputados" e "eminentes tribunos" republicanos, como aconteceu em duas ocasiões com António José de Almeida (4).

 
Desde a demissão de Silvério Sequeira da direcção do jornal, apenas o nome de Júlio Vieira figurava no cabeçalho da "Folha.." como "editor e administrador", passando o jornal  a designar-se, a partir de 5 de Novembro de 1905, como "Agricola, Independente e Defensor dos Interesses Locais".

 
A 23 de Setembro de 1906 Júlio Vieira passa a ser designado por "redactor-gerente" .

 
É então que, acompanhando o afastamento parlamentar entre “franquistas” e “republicanos”, que até aí tinham coincidindo em muitas criticas ao rotativismo e à corrupção da monarquia, se começa a evidenciar uma crescente ruptura no seio do jornal entre Júlio Vieira e os restantes proprietários do periódico, que atinge o clímax quando um deles, Manuel Joaquim Monteiro, em carta datada de 14 de Dezembro de 1906 , na "qualidade de co-proprietário da Folha de Torres Vedras ", pediu a publicação na coluna "Secção Livre",  "d'um artigo que o Povo de Aveiro  ultimamente publicou” da autoria de Homem Cristo, "um dos principaes caudilhos do partido republicano (...) e por tanto insuspeito", que tinha tido "a coragem de apontar muitos erros praticados ultimamente pelos republicanos", e no qual se via, "que uma parte do partido republicano, em vez de discutir os actos do governo e os seus projectos, tem feito apenas declamações para armar á popularidade; quando é certo que o actual governo [de João Franco] é o mais liberal e honesto que ha muitos annos temos tido (...)".

 
Respondendo na mesma edição a essa carta, num artigo não assinado, mas da autoria de Júlio Vieira, este assume a recusa em publicar esse artigo e aproveita para desabafar sobre as crescentes pressões a que o sujeitava o grupo maioritário de proprietários, conotados com o " franquismo (5).

 
Reflexo das crescentes tensões políticas no seio do jornal, em 11 de Janeiro de 1907, que reflectiam o que se passava a nível nacional, sete dos proprietários do jornal abandonam aquele projecto, cedendo todos os seus direitos, por venda, a Cândido Vieira, que no dia seguinte os cede ao seu filho, Júlio Vieira.

Quatro de entre eles, Mário Galrão, Álvaro Galrão, João A. Moura Borges e o padre Luís dos Santos, estavam identificados com o partido regenerador-liberal.

 
Tal "cisão" foi anunciada na edição de 13 de Janeiro, surgindo o jornal, em 20 desse mês, com novo formato e, pela primeira vez  como director,  Júlio Vieira .

 
Libertando-se da tendência "franquista" e assumindo-se o seu director como líder local do Partido Republicano pouco tempo depois, a "Folha de Torres Vedras" tornou-se, partir de então, porta voz dos republicanos, confundindo-se com a própria história do movimento republicano neste concelho.

 
A mudança no “Folha…” acompanha a crescente afirmação do Partido Republicano, não só em termos nacionais, onde surge como a força política mais forte no combate ao “franquismo”, mas também a nível local.

 
Tal demarcação não terá sido estranha à própria evolução política nacional, marcada pela questão dos "adiantamentos" à família real, que provocou distúrbios no parlamento e acentuou as divergências entre o governo "franquista" e os parlamentares republicanos que, em Novembro de 1906, viram ser suspensos, por um mês, os seus deputados Afonso Costa e Alexandre Braga, este ultimo com ligações a Torres Vedras.

 
Ao longo de todo ano de 1907 as críticas ao "franquismo" subiram de tom e, em 20 de Outubro, a "Folha..." denunciava o adiamento das eleições municipais e a nomeação de uma comissão administrativa para dirigir os destinos camarários, comparando essa decisão ditatorial com a atitude de D. Miguel quando dissolveu a câmara dos deputados.

 
1907 marcou assim o arranque local da organização republicana culminando, em 16 de Dezembro, com o anuncio de que uma comissão republicana da vila estava a organizar o partido republicano  em Torres Vedras.

 
O grupo organizador da comissão municipal teve a sua primeira reunião em 31 de Janeiro de 1907, uma data que talvez não tenha sido casual, pelo seu simbolismo para a causa republicana, tendo-se na ocasião decidido organizar  um comício republicano que teve lugar em 21 de Abril de 1907 e que foi a primeira grande acção pública dos republicanos em Torres Vedras, "uma manifestação imponente de sympathia ao ideal republicano que já hoje vae deixando de ser olhado com desconfiança pelo camponez ignaro e que está já sendo abraçado por todos aquelles que, um pouco mais instruido, vae comprehendendo os seus legitimos e racionaes principios, compativeis com a epocha de liberdade e de conquistas que a humanidade vae atravessando e que nenhuma mão tyranica poderá fazer affrouxar na sua carreira vertiginosa.

 
"A ansiedade de ouvir o soberbo tribuno da democracia que se chama António José d'Almeida e todos os outros oradores, arrastaram ao local do comício, um vastissimo recinto, junto á Avenida Casal Ribeiro, alguns milhares de pessoas". Segundo a mesma notícia, vieram pessoas de Mafra, Sobral de Monte Agraço e Arruda dos Vinhos (6).

 
Nessa mesma data foi eleita a primeira Comissão Municipal Republicana de Torres Vedras, presidida por Júlio Vieira, formalizando-se deste modo a intervenção do Partido Republicano na política local.


Organizada a Comissão Municipal e alargando a sua influência às freguesias do concelho, logo se iniciou uma intensa campanha de propaganda, quer através da realização de conferências, quer passando a dominar abertamente o "Folha de Torres Vedras”.

 
Com o regicídio e o afastamento de João Franco, os republicanos iniciam um combate sem tréguas ao regime monárquico, que se manifesta logo, semanas depois do regicídio, quando os republicanos aproveitam o Carnaval desse ano, 1908, para ridicularizarem  as leites monárquicas locais, em especial os “franquistas”:

 
"(...) Na terça-feira (...) appareceu a parodia as aguas da villa  .

 
"Varios cantoneiros, apontadores e engenheiros, procediam á medição das ruas para a canalisação das aguas pelas quaes os torreenses estão esperando ha uns bons vinte annos"(critica indirecta ao domínio local dos partidos rotativistas).

 
"(...)Pelas 4 horas da tarde apparecia no largo da Graça outro grupo político representando o franquismo local, precedido dos symbolos messianicos e liberticidas.

 
"Abria o cortejo uma figura de clown, despertando a attenção com uma campainha e logo atraz seguiam em linha um palhaço com um pendão onde se lia: Thalassa! ... Thalassa ! ... Ao mar ! ... Ao mar !...” (frase grega retirada da obra “A retirada dos dez mil” de Xenofontes e que foi utilizada pela colónia portuguesa do Brasil numa entusiástica mensagem de apoio á ditadura de João Franco e que durante décadas serviu aos republicanos para invectivar os seus inimigos, apelidados de “talassas”) ; uma figura de carrasco, com cabeça de leão, conduzindo uma forca, no cimo da qual se lia -Timor - e na mão segurando uma lista dos conjurados” (referência ao lugar de deportação apontado na lei de 13 de Fevereiro); uma figura conduzindo um cortiço com este distico :Vespeiro.

 
"Logo a seguir marchavam as vespas, isto é, as figuras franquistas locaes, em numero de sete, se não nos enganamos."(referência implícita ao número de vereadores da comissão administrativa franquista)(7).

 
Assim,o ano de 1907, com o descrédito da monarquia por via do apoio do monarca à ditadura de João Franco, foi um ano crucial para a firmação de um elite local que viria a dominar o concelho depois da implantação da Republica em 1910.
-----

(1)  Folha de Torres Vedras, 29 de Outubro de1905.

(2) Folha de Torres Vedras, 16 de Dezembro de1906.

(3)Folha de Torres Vedras, 1 de Julho de1906.

(4)Folha de Torres Vedras, 26 Agosto de1906 e 9 de Setembro de1906.

(5) Folha de Torres Vedras, 16 de Dezembro de1906.

(6)Folha de Torres Vedras, 28 de Abril de1907.

(7) Folha de Torres Vedras, 8 de Março de1908.

(para a contextualização histórica, nacional e local, baseamo-nos nas obras “1907- No Advento da República”, ed. Biblioteca Nacional, 2007, e “Republicanos de Torres Vedras”, ed. Colibri/CMTV, 2003).

(Uma versão resumida deste texto foi publicada no jornal Badaladas, em 28 de Maio de 2017, na secção “Vedrografias” )

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Hoje em Torres Vedras: Apresentação do projecto e das edições Ephemera

Hoje à noite, pelas 21 horas, nos Paços do Concelho, será feita uma apresentação pública do projecto Ephemera, que tem como um dos objectivos principais recolher todo o tipo de documentação "efémera" e que tem por base o arquivo pessoal de José Pacheco Pereira.
Nessa sessão, que contará como a presença do próprio Pacheco Pereira, serão apresentados os 6 livros já editados na colecção Ephemera, em colaboração com a editora Tinta da China e estando presentes os autores dessa obras, que tem por base o tratamento de parte do grande arquivo de Pacheco Pereira e que, desde ontem, está ligado à Associação Ephemera.
A partir da tarde e durante a sessão será igualmente apresentada uma nova tecnologia de "realidade virtual" que permitira uma "visita" ao arquivo/biblioteca de Pacheco Pereira situada na aldeia da Marmeleira

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Os primeiros tempos da fotografia em Torres Vedras


Pelo menos desde 1839, as elites portuguesas conheciam a existência da fotografia, na sua fase embrionária do daguerreotipo, ano em que essa invenção foi divulgada nas páginas da revista “Panorama”, sendo também nessa revista que foi divulgada uma reprodução litográfica do primeiro daguerreotipo português, em 20 de Março de 1841, uma gravura da autoria de José Maria Baptista Coelho, que reproduzia a frente oriental do Palácio da Ajuda, a partir de uma foto tirada por Francisco Mocening.

Em 1849 realiza-se em Portugal a primeira exposição publica com fotografias, na Exposição Industrial de Lisboa.

Nessa exposição participou o dono de uma quinta do concelho de Torres Vedras, a quinta do Calvel, o conde Farrobo (1).

É assim provável que entre as elites cultas do concelho de Torres Vedras, na década de 40 do século XIX, já fosse conhecida a nova invenção e até que alguns deles já a tivessem experimentado.

Contudo, a primeira vez que surge uma referência à fotografia, num documento escrito neste concelho, foi só em 1877.

De facto, numa resposta dada pelo administrador do concelho de Torres Vedras a um pedido do Governador Civil de Lisboa sobre a hipótese de se fotografar “um estabelecimento de beneficência” existente no concelho, digno de ser apresentado na Exposição Universal de Paris, o administrador negou a existência de qualquer estabelecimento no concelho “digno d’elles ou de algumas das suas partes, se tirarem vistas photographicas (…) a não ser o importantíssimo estabelecimento” dos Inválidos Militares de Runa, “digno de ser apresentado na Exposição de Paris”. Desconhecemos se esse projecto se veio a efectuar(2).

O primeiro a fotografar Torres Vedras e torrienses, sobre quem temos notícias, foi Giulio Zanetta, , “hábil photographo italiano” cuja  presença foi noticiada na edição do “Jornal de Torres Vedras” de 21 de Maio de 1885, onde se informava que aquele fotógrafo tencionava “demorar-se alguns mezes n’esta villa” e cujo “atelier” estava a ser construído no Largo de S. Tiago, no “nº 22, local muito apropriado, central e bem disposto”.

Acrescentava a mesma notícia que aquele “artista” trabalhava “com machinas perfeitíssimas e por preços muito moderados”, sendo “belíssimas algumas photographias que temos visto da sua grande colecção”(3).

Poucas semanas depois o mesmo periódico noticiava a grande “affluencia de visitantes aos atelier photographico do sr. Giulio Zanetta”, elogiando os “trabalhos do inteligente artista feitos segundo as regras mais modernas da photographia”, indicando como outros atractivos e garantias para uma visita àquele atelier, a grande “variedade de aparelhos, um elegante gabinete onde está o atelier, modicidade dos preços, cortesia e delicadeza do operador” (4).

Em Outubro desse ano ficamos a saber que Giulio Zanetta terá andado em digressão por outros locais, anunciando-se, após o seu regresso de Peniche, e a reabertura do seu atelier no largo de S.Tiago(5).

Em anuncio publicado na imprensa local referem-se os vários tipos trabalhos realizados naquele atelier: “retratos de todos os formatos, vistas, grupos, instantâneos de creanças, famílias e corporações, tendo para isso” um aparelho “especial extra rápido Dallmeyer” (6).

Prevendo uma estadia inicial de alguns meses em Torres Vedras, Zanetta acabou por ficar quase três anos.

Em Março de 1887  a imprensa local anunciou a retirada do fotógrafo, para regressar à sua casa em Itália (7), em Meina-Lago Maggiore (8), situação que só se concretizará em Julho (9).

Giulio Zanetta não deixou rasto, nem se conhece nenhum trabalho que lhe possa ser atribuído. Se procurarmos na internet encontramos algumas vezes aquele nome em Itália, mas de pessoas diferentes, existindo mesmo um fotógrafo com aquele nome, mas ainda vivo, com obra publicada na Fototeca do Parque Nacional “Grande Paradiso”, em Itália.

Mas o espaço deixado vago por Zanetta foi rapidamente preenchido. Em Setembro de 1887 a imprensa local anuncia que dois fotógrafos, “os srs. Martinez e Figueiredo, acabam de estabelecer-se n’esta villa, na mesma casa em que o sr. Giulio Zanetta produziu durante três anos muitos e variados trabalhos da sua especialidade”, referindo que “os recém chegados são dois artistas hábeis, dignos de protecção” (10).

Em anuncio publicado nessa mesma edição, menciona-se o custo dos retratos, desde 1$200  a 4$500 réis a dúzia.

Para outro jornal local, a presença daqueles fotógrafos  era “uma bella occasião para os nossos leitores e leitoras se photographarem, ficando com exemplares tão nítidos como os dos melhores photographos de Lisboa, e por preços muito mais resumidos” (11).

Uma das novidades anunciadas foi o facto daqueles fotógrafos darem “licções aos amadores que desejem conhecer os segredos da fotografia” (12), o que comprova a crescente popularização da fotografia , possível pela sua rápida evolução técnica, registada na década de 80.

Ao longo de notícias publicadas em edições seguintes, durante vários anos, é referido apenas um daqueles nomes, Martinez Pozzal, não havendo mais nenhuma referência ao seu sócio Figueiredo.

A partir do seu atelier no Largo de Santiago, Martinez Pozzal deslocou-se às localidades vizinhas, principalmente ao longo de 1889, onde obteve várias fotografias. Vila Franca de Xira, Arruda dos Vinhos e Ericeira foram três dos lugares visitados, regressando a esta última localidade em 1895, segundo a imprensa local da época.

Na obra “Ericeira – Uma Fotobiografia” (13) são publicadas três fotografias daquela localidade atribuídas a Martinez Pozzal, pertencentes ao Arquivo da Santa Casa da Misericórdia da Ericeira, mas datadas à mão de 1880. Desconhecemos se aquela datação será rigorosa ou indica a década. Se a data for correcta, quer dizer que, antes de se estabelecer em Torres Vedras, já Pozzal tinha fotografado a Ericeira. Se aquela data indicar a década, então podemos estar perante o resultado de trabalhos que Pozzal fez naquelas digressões aos concelhos vizinhos a partir de Torres Vedras.

Deve-se a Pozzal a edição, em 1890,  daquele que pode ser considerado o primeiro postal de Torres Vedras, uma fotografia da imagem do senhor dos Passos, “servindo-se para isso de um aparelho próprio para fazer reproduções nos interiores dos edifícios”, da qual efectou reproduções para serem vendidas em Lisboa e no seu atelier em Torres Vedras. (14).

Contudo, “oficialmente”, a primeira colecção de postais ilustrados de Torres Vedras foi a editada pela Papelaria Cabral em Agosto de 1899 (15).
 
Em 1894 Pozzal muda o seu atelier para a rua Dias Neiva, onde vendia “vistas” de Torres Vedras e dos Cucos (16).

Não conhecemos fotografias de Pozzal referentes a Torres Vedras, a não ser uma fotografia e uma gravura, a partir de outra fotografia, referentes ao estabelecimento das águas medicinais da Fonte Nova, a primeira fazendo parte do espólio fotográfico do sr. Adão de Carvalho (17) e a segunda, que aqui reproduzimos, publicada na edição da revista Occidente onde se publica uma reportagem sobre a inauguração, em 22 de Maio de 1895, daquele estabelecimento termal (18).

 
É provável que um conjunto de gravuras publicadas nas páginas dos jornais Gazeta de Torres Vedras em 1894 e em “A Semana” nesse ano e no ano seguinte, tivessem como base fotografias de Pozzal.

A mais antiga dessas gravuras, uma vista de Torres a partir do Castelo, foi publicada nas páginas do “Gazeta…” em 7 de Junho de 1894 (19).
 
Há a hipótese de um pequeno conjunto de fotografias, cujos negativos em vidro foram salvos pelo sr. Adão de Carvalho de serem destruídas, possam ter origem no estúdio de Pozzal, já que o local da obra de onde foram resgatadas, na década de 80 do século passado, se situava no Largo de Santiago (os restantes negativos foram colocados no misturador de cimento…).


Tal como aconteceu com Zanetta, pouco mais sabemos sobre Pozzal, não sendo nenhum deles citado na obra de António Sena.

A “vida” de Martinez Pozzal foi magistralmente ficcionada, com base nas informações recolhidas na imprensa local, por António Augusto Sales na sua obra “Os Guardadores do Tempo” (20).

Há, contudo, um Pozal, (só com um “z”), Fernando Martinez Pozal, referenciado no site do Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa, que viveu entre 1899 e 1971, e que, lendo a sua biografia, deduzimos que seja filho do “nosso” Pozzal.

Pela biografia deste encontramos algumas coincidências. O nascimento de Fernando acontece quando o “pai” deixou Torres Vedras, em 1899.

Segundo a biografia citada, o Pozzal pai tinha no principio do século XX um estúdio de fotografia na Caçada da Estrela, nº 99, tendo abandonado a fotografia para abrir uma casa de penhores, regressando à fotografia em 1919, com a firma Pozal & Garcia, dona da Casa de Fotografia Vénus, na rua D. Pedro V. Foi aqui que Fernando aprendeu com o pai a fotografia. Nada mais sabemos sobre o “pai” Pozal, nem a data do seu  falecimento (21).

Pozzall apareceu referenciado em Torres Vedras pela última vez em 1899, embora já se estivesse estabelecido em Lisboa, ligado à “Photographia União”, pensamos que a nova designação do atelier que tinha fundado anos antes na rua Dias Neiva, espaço inaugurado (ou reinaugurado?) em 20 de Agosto de 1899 (22) e que aparece referido até 1903, embora desde 1900 seja indicado aquele atelier como propriedade de José Maria de Miranda e surgindo, em 1902, a designação de João Henriques dos Santos como sócio gerente.
 
Em 1902 aquele atelier edita um álbum fotográfico de grande qualidade, “álbum de Torres Vedras”, de 16 páginas e com 11 fotografias de Torres Vedras da autoria de J. Novaes (23), fotografias que seriam reproduzidas várias vezes em edições de postais durante o primeiro quartel do século XX.


Pensamos que o autor das fotografias, J. Novaes, é o fotógrafo Júlio Novaes (1867-1925) o mais novo dos irmãos Novais, dois dos quais, António e Eduardo, também foram fotógrafos conhecidos da viragem do século.

Julio Novais iniciou-se na fotografia aos 12 anos, em 1879 e em 1897 inaugurou em Lisboa o estúdio Photographia Novaes, que recebia “encomendas da província” e, em 1909, abre outro estúdio com o nosso conhecido Pozal, em Lisboa, o “J.Novaes  & Pozal”, na Rua do Sol, ao Rato (24).

Há inda referência a um outro atelier estabelecido em Torres Vedras no final do século XIX, de vida efémera, “Photographia Neves”, referenciado em Março de 1899, situado no “bairro Tertuliano”(25) , mas que encerrou as suas portas poucos meses depois de abrir, em 18 de Setembro desse ano (26).

Ao longo do século XX a fotografia populariza-se e surgem vários estúdios de fotografia e vários fotógrafos em Torres Vedras, alguns de renome.

Mas essa é outra parte da história que não cabe agora aqui, neste pequeno esboço sobre as origem da fotografia em Torres Vedras, um pequeno resumo de um trabalho de investigação que, espero, possa um dia vir a ser concluído e publicado.

1.       – Informações recolhidas em SENA, António, História da Imagem Fotográfica em Portugal – 1839-1997, Porto Editora, Porto 1998;

2.       – Livro nº 5 de Correspondência do Administrador do Concelho para o Governo Civil,  registo nº 181 de 14 de Julho de 1877 (Arquivo Municipal de T.Vedras);

3.       - “Jornal de Torres Vedras” de 21 de Maios de 1885;

4.       – “Jornal de Torres Vedras” de  25 de Junho de 1885;

5.       – “Jornal de Torres Vedras” de 1 de Outubro de 1885;

6.       – “A Semana” de 31 de Março de 1887;

7.       – “A Semana” de 31 de Março de 1887;

8.       – “A Semana” de 21 de Julho de 1887;

9.       – “Voz de Torres Vedras” de 23 de Julho de 1887;

10.   – “Voz de Torres Vedras” de 10 de Setembro de 1887;

11.   – “A Semana” de 8 de Setembro de 1887;

12.   – “A Semana” de 27 de Outubro de 1887;

13.   –COSTA, José Constantino, Ericeira – Uma Fotobiografia, Mar de Letras editora, Ericeira 2013;

14.   – “A Semana” de 6 de Março de 1890;

15.   -–“Folha de Torres Vedras” de 27 de Agosto de 1899;

16.   – “A Semana” de 22 de Julho de 1894 ;

17.   – CARVALHO, Adão de , “Recordando…Águas Medicinais da Fonte Nova”, in “Badaladas” de 19 de Maio de 1995;

18.   – “O Occidente”, de 5 de Junho de 1895, reportagem de Caetano Alberto, pp.124 a 126, com gravura na pág. 124;

19.   – “Gazeta de Torres Vedras” de 7 de Junho de 1894;

20.   – SALES, António Augusto, Os Guardadores do Tempo, ed. Da CMTV, Janeiro de 2007, pp.27 a 29;

21.   –site do Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa, a partir da biografia de Fernando Martinez Pozal escrita por Clara Anacleto;

22.   – “Folha de Torres Vedras” de 20 de Agosto de 1899;

23.   – “Folha de Torres Vedras” de 26 de Junho de 1902;

24.   – site do Centro Português de Fotografia;

25.   –“Folha de Torres Vedras” de  26 de Março de 1899;

26.   - “Folha de Torres Vedras” de 10 de Setembro de 1899;

(Uma versão mais resumida deste texto foi publicada na secção “Vedrografias” do Jornal “Badaladas” de 31 de Março de 2017).

quarta-feira, 15 de março de 2017

Nos Paços do Concelho : Exposição sobre a LUAR

No próximo Sábado vai ser inaugurada, nos Paços do Concelho, uma exposição sobre a LUAR, uma organização de resistência armada ao salazarismo que foi fundada nos anos finais do regime.
 
A exposição tem por base o espólio de Palma Inácio, doado ao projecto Ephemera de José Pacheco Pereira.
 
Cartazes, correspondência, notícias, materiais do "Fronteira", jornal oficial da LUAR dos tempos da clandestinidade e exilio.
 
Desfolhar as páginas do "Fronteira" dos tempos do exilio francês pode revelar algumas surpresas, como uma caricatura de Jaoquim Agostinho que presta declarações àquela publicação clandestina...
 
Segundo testemunhos orais, ainda não convenientemente confirmados,  a região de Torres Vedras, principalmente o aeródromo de Santa Cruz, terá tido um papel numa das acções com maior impacto da Luar, o assalto a um banco na Figuera da Foz.
 
A seguir ao 25 de Abril formou-se em Torres Vedras um pequeno núcleo da LUAR, sendo Fernando Pereira Marques o elemento de ligação entre este grupo.
 
A história da LUAR, tendo por base aquele material, deu origem a uma monografia sobre aquela organização política da autoria de outro antigo membro activo daquela organização, o historiador Fernando Pereira Marques, que vai estar presente em Torres Vedras no dia da inauguração da exposição, que terá lugar pelas 18 horas do dia 18 de Março, e que será cicerone da exposição.
 
A exposição vai estar patente ao público até 26 de Abril. Podem ver AQUI, mais informações sobre essa iniciativa.