terça-feira, 16 de janeiro de 2018

A Vida Torriense nos caracteres da Imprensa Local (Finais do Século XIX) - (1885-1890) - Janeiro de 1888

JANEIRO de 1888

O ano novo não começou da melhor maneira para Torres Vedras nesse ano de 1888.

O mau tempo continuava a impedir, desde finais de Dezembro, a realização dos trabalhos agrícolas, prejudicando os “pobres trabalhadores, que têm passado dias e dias sem ganhar jorna “ (1).

Os temporais que tinham tido lugar em 27 e 28 de Dezembro de 1887, provocaram cheias e interromperam a ligação ferroviária entre Torres Vedras e Lisboa, provocando a “irregularidade” do serviço de correio (2).

Atribuía-se às obras na linha férrea a responsabilidade pelos prejuízos que o temporal provocou nalgumas terras, “devido ao desvio que se permitiu fizesse, no rio Sizandro”, citando-se o caso da “propriedade do sr. João Victorino Pereira da Costa, bastante danificada hoje em consequência da Câmara transacta ter consentido no que não devia consentir (…) assim com deixou que se construísse, sem as necessárias condições, requeridas ali pela afluência das àguas, o aterro sobre a Várzea do Reguengo (…). Os resultados não podem ser piores. Aí estão patentes” (2).

Uma certa decepção perante as possibilidades do novo meio de transporte recentemente inaugurado não impedia  que se apostasse no seu futuro, chegando a defender-se a construção de um ramal ferroviário que ligasse Pêro Negro ao Turcifal, proposta que seria nesse mês apresentada à direcção da Companhia dos Caminhos de Ferro portugueses.

Em decadência encontrava-se o único meio de transporte alternativo de então, embora durante alguns dias tenha sido o único meio de ligação com Lisboa, com os inconvenientes abaixo referidos:

“As correspondências expedidas de Lisboa a Torres, por uma só diligência, chega aos seus destinos atrasada, e a horas incertas da noite.

“É assim que estamos recebendo os Jornais de Lisboa e a da província” (2).

Tais inconvenientes demonstrados pelo transporte tradicional não impediram que, em 8 de Janeiro, fosse inaugurada uma nova carreira de diligência entre Torres Vedras e  capital, pertencente à companhia “António Alves Gato & Irmão (…) saíndo de Lisboa dois carros – um às 9 horas da manhã e outro ao meio dia, passando o das 9 por Dois Portos, e o do meio dia pelo Turcifal.

“Sai de Torres o primeiro carro às 5 horas da manhã, passando em Dois Portos; e o segundo às 10, pelo Turcifal.

“Os bilhetes vendem-se em Lisboa na Tabacaria Neves, e em Torres Vedras, na loja do sr. José Avelino (…). Preço, 1$000 réis” (2).

Uma das maiores preocupações da imprensa de então era com o saneamento da vila:

“Pedimos à Ex.ma Câmara que provindencie no sentido de serem mais rigorosamente cumpridas as disposições que sabemos estarem no ânimo de todos os srs. Vereadores, com respeito à limpeza e saneamento da vila.

“Nem a todos os pontos chegam a vassoura a limpar as imundices que a falta de saguões e pias obriga a acumular na ruas e vielas, havendo sítios onde a falta de asseio é positivamente uma vergonha (…)” (3).

A defesa do consumidor era então uma idéia ausente na  preocupação de alguns comerciantes, mas já então a imprensa local desempenhava o importante papel em denunciara os abusos, como se revela na seguinte notícia:

“O leite que alguns vendedores estão fornecendo para consumo, nesta vila, é uma perfeita burla feita aos consumidores. A um freguês foi vendido, no dia de Ano Bom, um litro de leite que, analisando no aparelho, continha 65 por cento de àgua (…)” (1).

Outro problema com que a população local então se debatia era com a iluminação pública.

 Iniciaram-se então experiências com um novo tipo de iluminação: “já estão colocando nas ruas da vila os novos candeeiros para a iluminação pelo sistema gasogénio.

“Os candeeiros são muito elegantes e darão a Torres Vedras um aspecto moderno” (4).

De facto, avelha iluminação a petróleo, inaugurada em Fevereiro de 1864, parecia condenada:

“É de péssima qualidade o petróleo que há tempos para cá se consome na iluminação da vila. As luzes parecem de lamparina. Ousamos lembrar à nossa vereação que mude de freguês; porque o actual está a mangar com a gente desde que se faz a experiência da luz a gasolina.

“Convém notar que as noites estão escuras, e a respeito de policias nikles (…)” (2).

A falta de policiamento era outra preocupação de então, provocando alguns casos graves de criminalidade:

“Afiançam-nos que nas imediações da vila têm sido atacados transeuntes sendo assaltados de preferência os trens, e já se mencionam alguns furtos cometidos por ataques de mão armada.

“Como boato cita-se que existe um grupo de homens que se acoitam pelos pinhais do Vale Paxis, a quem saem à estrada.

“Como Torres Vedras não tem policia será bom que estejamos de prevenção para não transitar de noite fora da vila, pois diz-se que ante-ontem, mesmo junto aos arcos do aqueduto, fora assaltado um cocheiro que guiava um trem de retorno (…)” (3).

Nessa época eram raros os espectáculos com os quais a população se pudesse distrair. Por isso era motivo de entusiasmo a presença na vila de uma companhia de teatro, “Theatro Recreios Dramáticos”:

“Depois d’uma longa interrupção nos espectáculos, devido ao mau tempo, que não permite representações no teatro barraca, onde o público ficava muito exposto às intempéries da estação, realizou-se no domingo [8 de Janeiro] na sala generosamente cedida no Convento da Graça, um sarau que a companhia Dias convocou em auxílio das suas despesas e transtornos.

“O público foi, como de costuma ser, generoso e pronto (…)” (3).

Mas um dos mais importantes acontecimentos desse mês de Janeiro de 1888 foi a realização do mercado de S. Vicente, com cuja descrição encerramos esta nossa crónica:

“A vila no Domingo [22 de Janeiro] tinha um aspecto estranho. Por todas as ruas e praças transitavam grupos, procurando os estabelecimentos e fazendo as suas compras. A faina comercial desenvolveu-se sofrivelmente, mostrando uma certa animação.

“Na Várzea do Amial fez-se a feira do gado suíno. O dia esteve benigno, apesar do Sol se não mostrar muito expansivo. O aspecto do mercado era deveras atraente. A concorrência foi enorme, e os grupos mercadejavam por todos os lados, e cada um seguia depois com o seu suíno alentejano, gordo, futigado, de calcheta no chispe, como verdadeiros condenados à morte.

“O preço da carne começou por ser de 2 800 a 2 700 réis, e já para o fim do mercado estava a 2 400 réis, havendo ainda bastante por onde escolher.

“Na ermida de N. S. do Amial, fez-se festividade a S. Vicente, havendo de tarde arraial. É a festa chamada dos charnequeiros, e reinou bastante alegria, não sendo alterada a ordem.

“ A Phylarmonica Torreens eabrilhantou a festividade.

“A policia do mercado foi feita por alguns gurdas civis vindos da capital, e pelos oficiaes da administração deste concelho, e o zelador municipal.

“Foi capturdo um contrabandista (…)” (4).

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(1) A Semana de 5 de Janeiro de 1888;
(2) Voz de Torres Vedras de 7 de Janeiro de 1888;
(3) A Semana de 12 de Janeiro de 1888;
(4) A Semana de 26 de Janeiro de 1888.



quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Há 210 anos, Torres Vedras ocupada pelas tropas francesas



6 de Dezembro de 1807 – Quando os Franceses ocuparam Torres Vedras


Há 110 anos os torrienses passaram o Natal sob ocupação francesa.

As tropas de Junot cruzaram a fronteira portuguesa em 19 de Novembro de 1807, só conseguindo entrar em Lisboa em 30 de Novembro.

A família real tinha saído de Lisboa a caminho do Barasil no dia 27.

Em Torres Vedras ficamos a dever ao padre Madeira Torres, testemunha coeva e observador atento, a descrição do modo como esses acontecimentos foram sentidos na localidade e da sua ocupação pelas tropas francesas.

Refere aquele autor que “Torres Vedras (...) foi a primeira em participar da consternação e saudade (…) pela ausencia do nosso adorado Principe”.

Ainda “os habitantes começavam a lamentar-se de tamanha perda,(…) logo no dia 6” de Dezembro “foram constrangidos a franquear quarteis, e munições de bôcca para a tropa de mais de duas brigadas, ou de quasi toda a segunda divisão, cujo commando ainda então estava (como o fóra pela marcha) provisoriamente no Brigadeiro Charlot, que o largou logo nos dias seguintes ao General Loison (…).

 No dia 8 do mesmo mez adiantou-se para a Praça de Peniche o General de Brigada Thomiers com dois batalhões, e passados alguns dias retrocederam dois para Mafra, onde Loison estabeleceo ordinariamente o seu Quartel General, e permaneceram aqui fixos os dois Batalhões dos regimentos 12 e 15 de infantaria ligeira”, que eram compostos por cerca de tres mil homens, sob o comando do Brigadeiro Charlot.

“Nos primeiros dias padeceo esta Villa não só os gravissimos incommodos do alojamento, mas quasi todo o pêso das requisições para a inteira subsistencia da tropa”.

A moderação do brigadeiro Charlot foi muito elogiada pelo ilustre pároco torriense, até porque “contribuio ella para nunca se interromperem as funcções do Culto, nem mesmo a do Natal, e para se fazerem com boa ordem, e até com esplendor”.

Com a proximidade da Primavera o mesmo brigadeiro aliviou a vila “d’algum pêzo de tropa, mandando destacar duas Companhias para a Lourinhã, e duas para o logar do Turcifal: Em fim nos ultimos dias de Maio levantou-se o quartel do General Charlot, quando partio com o Batalhão do regimento 12, e com os outros, que estavam em Mafra, para a frustrada expedição do Douro e Porto, commandado por Loison.

“Pelo mesmo tempo se transferio o Batalhão do Regimento 15 para Mafra, e veio para aqui um dos alojados na Praça de Peniche, de que era Commandante o Major Bertrand, o qual apenas se demorou um dia.

“Desde então ficou esta Villa alleviada de tropa effectiva; mas não deixou de ser frequentada, e incommodada por alguns destacamentos, pelo transito dos Officiaes do Estado Maior, e tambem de varios corpos do Exercito.” (1).

O bom tratamento dado à população pelo brigadeiro Charlot foi igualmente confirmado por outra testemunha coeva, Francisco Manuel Trigoso de Aragão Morato, um dos Grandes de Portugal, que se refugiou com toda a família na Quinta Nova, em Matacães, a pouca distância da então vila de Torres Vedras, onde recebeu “a noticia do embarque da Familia Real e da entrada dos francezes em Lisboa. Meu irmão e eu (...) assentámos em ficar aquelle inverno” (de 1807) “ no campo, sem virmos para Lisboa, como costumavamos vir todos os annos.

“Assim o fizemos e, permanecendo alli por todo o tempo que os francezes estiveram em Portugal, escusado é dizer que nem tivemos nem desejámos ter influencia alguma no seu Governo.

“Apenas tivemos a comunicação necessaria ou de civilidade com o General Charlot, que residia em Torres, e com os poucos officiaes que mais viviam com elle. Tambem vimos o general Loison, que por alli passou na sua espedição das Caldas da Rainha; não vimos mais nenhum General nem outro empregado, e até ao mez de Agosto seguinte” (de 1808) “não tivemos incommodo ou susto algum, porque Charlot não era mau homem e queria conservar a paz e o socego” (2).

Mas não foi apenas o ocupação militar alterar a vida dos habitantes desta vila. Cedo a ocupação se fez sentir em termos económicos.

Em Fevereiro de 1808 tomou-se conhecimento de uma ordem de Napoleão para lançar, sobre todo o teritório porugês, um imposto extraordinário para efeitos de guerra, dando-se início à sua execução em Abril desse ano.

As vilas da comarca de Torres Vedras, que ía da Lourinhã e Cadaval até Sintra e Cascais , foram constrangidas a pagar 8000$000.

Só as vilas de Torres Vedras e Ribaldeira, cujos domínios correspondem, aproximadamente, aos actuais limites administrativos do concelho de Torres Vedras, pagavam mais de metade do imposto a para toda a comarca (respectivamente 3000$000 e 1200$00), o que revela a importância económica desta região (3).

Em relação aos limites administrativos de Torres Vedras, aquele valor de 3000 réis foi subdividido entre as 38 vintenas do concelho, sendo que as cinco que mais contribuíram para aquele valor foram, respectivamente, a vila de Torres Vedras (907 réis), Turcifal (250 réis), Freiria (200 réis), Azueira, actualmente pertencente ao concelho de Mafra (150 réis) e Runa (140 réis) (4).

Torres Vedras só voltou a sentir o incómodo da presença militar em Agosto do ano seguinte, quando uma parte das tropas francesas, comandadas por Thomiers, atravessou Torres Vedras. Foram estas forças que se defrontaram com os ingleses na batalha da Roliça.

Mais uma vez Torres Vedras viveu estes acontecimentos à distância: “(...) na tarde de 17 d’Agosto de 1808, constou” (em Torres Vedras) “da batalha da Roliça (...) pelos que se retiravam feridos do Exército, e por alguns prisioneiros, que aqui vieram pernoitar, escoltados por uma patrulha commandada pelo Capitão Picton do Corpo da Polícia. N’essa acção era commandado o Corpo da Tropa Franceza pelo General Delaborde, o qual vendo-se obrigado a retirar-se depois de sustentar o resto do dia com evoluções, se aproveitou da noite para largar de todo o campo, e tomou a estrada, que diante da quinta da Bogalheira se dirige a Runa, onde descançou poucas horas, prosseguindo a marcha pelo Caminho da Cabeça. Em quanto o Corpo principal seguia, não deixavam de passar pela Villa em toda a noite soldados dispersos, que eram outras tantas testemunhas evidentes da victoria dos nossos alliados: pedio ella sem duvida publicos applausos, porém houve a necessaria prudencia em suffocal-os, o que servio para livrar a Villa d’algum severo castigo” (5).

Tomando conhecimento da Batalha da Roliça, Junot decidiu abandonar a capital, em direcção a Torres Vedras, para travar o avanço das forças inglesas.

“Junot, sendo informado por uns camponezes que Laborde estava combatendo só com as tropas inglêsas, suppoz que estas seguiam sobre Lisboa, pela estrada de Torres, emquanto o exercito português seguiria a estrada real de Rio Maior- Alcoentre.

“Como ligava mais importancia ao exercito inglês, resolveu atacar primeiro este, e, só depois de vencel-o, viria atacar o exercito português.

“D’esta forma determinou fazer a concentração de todas as suas forças em Torres Vedras” (5).

Estávamos nas vésperas da Batalha do Vimeiro, que teve lugar em 21 de Agosto de 1808, tema ao qual voltaremos em Agosto do próximo ano.

(1)    - Manuel Agostinho Madeira Torres, Descripção Historica e Economica da Villa e Termo de Torres Vedras, 2ª edição anotada, 1862, (1º edição em 1819), pp.164 a 171;
(2)   - Memórias de Francisco Manuel Trigoso de Aragão Morato (...) (1777 a 1826), ed. revista e coordenada por Ernesto de Campos de Andrade, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1933, p.52;
(3)   - Livro nº24 dos Acórdãos da Câmara de Torres Vedras (1802-1812), vereação de 17 de Abril de 1808, ff.164 e 164 v.;
(4)   - Livro nº24 dos Acórdãos da Câmara Municipal de Torres Vedras (1802-1812), vereação de 30 de Abril de 1808, ff.166v. a 170v.;
(5)   - Madeira Torres, obra citada,  pp. 171-17;
(6)   - Victoriano J. Cesar, Invasões Francesas em Portugal - 1ª parte (...) Roliça e Vimeiro, Lisboa 1904, pp. 112-113.

(texto publicado no jornal Badaladas, na série "Vedrografias", em 29 de Dezembro de 2017)


segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

A História da Casa Hipólito em livro

No passado Sábado, 16 de Dezembro, foi feito o lançamento oficial da obra de Joaquim Moedas Duarte “Casa Hipólito – História, memórias e Património de uma fábrica torriense”.

A obra resultou do trabalho de dissertação de Mestrado em Estudos do Património da Universidade Aberta, tese defendida por Moedas Duarte no passado dia 17 de Maio.

A história da Casa Hipólito confunde-se com a História de Torres Vedras no século XX, tal a sua importância do ponto de vista económico social e até cultural que teve para este concelho.

Raras serão as famílias torrienses que não tiveram um familiar ou amigo que trabalhou nessa empresa ou, pelo menos, adquiriu um produto dessa fábrica.

O texto de Moedas Duarte não aborda apenas a memória patrimonial da "Hipólito", mas analisa todos os aspectos relacionados com o impacto social e económico dessa empresa na região.

Recorrendo a todo o tipo de fontes, manuscritas, impressas,orais, fotográficas e iconográficas, dá-nos um muito bem documentado e aprofundado registo sobre as marcas que essa empresa deixou na memória colectiva torriense.

A obra divide-se em quatro capítulos.

No primeiro, intitulado “O Homem e a  circunstância”, traça a biografia de António Hipólito (1882-1954), enquadrada na conjuntura da vida torriense de então.

O segundo capítulo dedica-se à História da Empresa, que o autor divide em três grande fases: a primeira de 1902 a 1944, a fase de afirmação de “A Industrial”, nome de origem, fase em que assume grande importância uma figura como Vasco Parreira; a segunda fase, de 1944 a 1980, a fase áurea da empresa, marcada pela afirmação do nome a que passou para a história, a “Casa Hipólito”, e de afirmação nacional e internacional; a terceira fase, de 1980 a 1999, a fase de decadência, que acabaria na sua dramática falência.

O terceiro capítulo avança com a proposta e “projecto para um museu de memórias do trabalho em Torres Vedras", tendo em vista a preservação do valioso património associado à rica vida empresarial torriense.

O quarto e último capítulo faz a recolha de “memórias de quem trabalhou na fábrica”, um conjunto de 22 memórias pessoais de quem este, "por dentro", naquela empresa.

Uma bem elaborada cronologia, um levantamento bibliográfico  rigoroso para quem queira aprofundar o estudo sobre algumas temáticas abordadas no livro e um levantamento iconográfico e fotográfico sobre a Casa Hipólito, completam esta obra fundamental para quem queira conhecer ou estudar a vida torriense.

O livro de Joaquim Moedas Duarte foi editada em parceria entre a Associação para a Defes e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras e a Associação Portuguesa de Arqueologia Industrial, iniciando o projecto daquela associação torriense de lançar uma linha editorial “com novos títulos de estudo de outras empresas, de biografias de torrienses notáveis ou de abordagem de temas culturais de carácter local".

A Casa Hipólito continua bem viva na memória dos torrienses, existindo mesmo alguma empresas, das mais importantes do concelho, herdeiras da dinâmica da “Hipólito”, como são os casos da Eugster & Frismag, ou da “Transportes Paulo Duarte”, esta última, aliás uma das patrocinadoras desta obra (juntamente com D. Ana Paula Hipólito Carreira Duarte, bisneta do fundador).

Joaquim Moedas Duarte, numa escrita quase poética, como a descrição inicial da saída da fábrica ao som da sirenes, deixa-nos assim uma obra que passa a ser  uma das obras de referência que testemunha uma época marcante na memória de grande parte dos torrienses.  

Em baixo deixamos um resumo da obra, retirado da página da Universidade Aberta:

 “Em 1902 António Hipólito, jovem migrante de Alcobaça para Torres Vedras, fundou uma empresa de metalomecânica ligeira, em nome individual, à qual chamou A Industrial.

“Latoeiro de folha branca, rapidamente se apercebeu das oportunidades facultadas por uma sociedade marcada pela ruralidade em que a vitivinicultura tinha lugar de destaque.

“Começando pelo fabrico de lanternas de acetileno, expandiu-se para os equipamentos necessários à lavoura: pulverizadores, prensas de lagar, bombas de trasfega, torpilhas, etc.

“Apostando na qualidade e em preços acessíveis, ao mesmo tempo que dava atenção especial à divulgação dos seus fabricos através de publicidade na imprensa e participação em mostras e exposições, conquistou paulatinamente mercado local e nacional.

“De tal modo se notabilizou que o Governo Português o distinguiu em 1930 com a Comenda da Ordem de Mérito Agrícola e Industrial.

“Quando, por motivos de saúde, o Comendador António Hipólito, em 1944, entregou a gerência da fábrica aos filhos e ao genro, a empresa passou a sociedade por quotas com a designação de Casa Hipólito.

“Nessa altura já fabricava fogões e lanternas a petróleo, equipamentos domésticos que viriam a torná-la famosa em Portugal e no estrangeiro para onde passou a exportar parte significativa da sua produção.

“Nos anos 50 a 70 atingiu o auge da sua actividade e expansão através da licença exclusiva de fabrico da marca alemã Petromax e alargando a gama de produtos ao sector de gás em parceria com a Cidla, primeiro e a Shell depois.

“Construindo novas instalações e empregando centenas de trabalhadores, tornou-se a maior empresa do concelho de Torres Vedras e uma das principais do país no seu ramo.

“Em 1972 passou a Sociedade Anónima de Responsabilidade Limitada. Todavia, o impacto do ano de 1974 com a Revolução de Abril veio pôr a nu as deficiências estruturais de que já padecia: progressiva incapacidade de autofinanciamento, obsolescência do parque de máquinas e dos produtos fabricados, dificuldade em enfrentar a concorrência no sector vinícola, dificuldades em substituir o modelo de gestão familiar por outro mais adaptado ao crescimento da empresa.

“Nos anos 80 acentuou-se o percurso descendente. Em 1987 os credores impuseram um plano de recuperação e o controlo da gestão por via judicial. Iniciou-se um processo imparável de decadência que só terminou com a declaração de falência em Abril de 1999.

“Do que foi a actividade fabril da Casa Hipólito restam as memórias de quem lá trabalhou, os numerosos e variados testemunhos da imprensa local e um Fundo Documental à guarda do Museu Municipal Leonel Trindade de Torres Vedras.


“Este trabalho que ora se apresenta resulta de uma investigação realizada sobre estas fontes informativas com uma dupla finalidade: preservar a memória social da Casa Hipólito, descrevendo o seu percurso de quase cem anos e registando as memórias de alguns que nela trabalharam; e propor formas concretas de tratamento museológico do património que dela foi possível salvar (texto/resumo da defesa de mestrado de Joaquim Moedas Duarte, feita na Universidade Aberta em 17 de Maio de 2017, publicado na página da internet desta Universidade)”.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Joaquim Moedas Duarte publica livro sobre a Casa Hipólito.

Vai ser lançado no próximo Sábado o livro "Casa Hipólito - História, Memória e Património de uma Fábrica Torriense" da autoria de Joaquim Moedas Duarte e que resulta da sua tese de mestrado.

A sessão de lançamento terá lugar no próximo Sábado, dia 16 de Dezembro, pelas 15 horas, nos Paços do Concelho.

A Casa Hipólito foi a empresa torriense mais importante do século XX, tendo sido, durante anos, a principal empregadora do concelho e aquela que mais dinamizou a economia local.

Podem encontrar mais informações sobre a Casa Hipólito AQUI.

Joaquim Moedas Duarte é um dos mais dinâmicos investigadores da história do nosso património, principalmente na liderança da Associação local de Defesa do Património.

O seu livro é assim um importante contributo para aprofundar a história local de Torres Vedras.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Breve evocação do Padre Joaquim Maria de Sousa



Há trinta anos, no dia 6 de Novembro de 1987, faleceu uma das figuras mais marcante do século XX torriense, o padre Joaquim Maria de Sousa.

O padre Joaquim, como era popularmente conhecido, merece há muito uma biografia aprofundada, nãos sendo o caso desta nossa breve evocação .

Ainda criança conheci o padre Joaquim, não tanto pelas suas funções religiosas, porque eu não era católico praticante, mas como meu professor na disciplina de “Religião e Moral”, durante anos, no Liceu de Torres Vedras.

E logo aí revelou a sua faceta humanista e tolerante, pois, apesar de a disciplina ser obrigatória e a maioria dos alunos serem frequentadores assíduos da Igreja, nunca procurou impor uma visão ortodoxa da disciplina, nem nunca marginalizou os poucos alunos não católicos ou não praticantes.

Além disso, as suas aulas eram um dos poucos espaços de liberdade no seio de uma escola e de um ensino marcados pelo autoritarismo e por métodos pedagógicos que não promoviam a liberdade nem a criatividade.

Foi o padre Joaquim que nos levou à descoberta do espaço envolvente, ocupando grande parte das aulas a mostrar-nos o património histórico e natural do concelho, sempre que o tempo o permitia.

Quando tínhamos de ficar na sala, as aulas nunca eram aborrecidas, mas animadas pelo recurso a pedagogias inovadoras, como o uso dos meios audiovisuais disponíveis, o que representava uma autêntica “revolução” pedagógica para a época.

Devo-lhe o meu interesse pela história e pelo património locais e também pelos audiovisuais, nomeadamente pelo cinema e pela fotografia.

Uma outra faceta sua que conheci foi a de homem do jornalismo, em parte devido   à ligação do meu pai com o jornal “Badaladas”, sendo o padre Joaquim uma das figuras mais respeitadas e apontadas como exemplo de tolerância em conversas de família.

Havia um enorme respeito e amizade entre o padre Joaquim e o meu pai, que era um homem da oposição e que sempre encontrou nas páginas do “Badaladas” espaço para exprimir as suas ideias e a sua criatividade literária.

Por norma, o padre Sousa publicava todos os artigos do meu pai sem os sujeitar à censura, como, a partir de certa altura, como veremos mais abaixo, passou a ser obrigação legal.

Quando, por vezes, o conteúdo, abordava temas sensíveis que podiam provocar problemas ao jornal, o padre Joaquim comunicava ao meu pai, pedindo humildemente desculpa, que “aquele” artigo tinha de ser submetido à comissão de censura. Uns passavam, outros eram publicados com cortes, alguns eram integralmente cortados.

Quando, depois do 25 de Abril, alguns “ferro-em-brasa”, numa assembleia popular onde se decidia a futura administração do concelho, alguém apelou a que se ocupasse o “Badaladas” e se expulsasse o padre Joaquim, o meu pai foi um dos que se levantou em defesa dele, conseguindo que se travasse aquela proposta e prevalecesse o bom senso.

Mas não foi o meu pai o único homem da oposição a encontrar nas páginas do “Badaladas” um espaço de expressão e criatividade, situação que custou alguns dissabores ao padre Joaquim, mas onde revelou toda a sua firmeza na defesa dos valores liberais e de tolerância que o caracterizaram.

A sua relação problemática com o regime então vigente está bem documentada no arquivo da Censura (1)  e no arquivo da PIDE, actualmente disponíveis na Torre do Tombo.


Os problemas com a censura começaram logo por altura da fundação do jornal, cuja primeira edição saiu em Maio de 1948, como boletim mensal da paróquias de Stª Maria e S.Pedro de Torres Vedras, cujas paróquias dirigia desde 1939.

Por uma questão de principio e de mera informação e cortesia, o padre Joaquim enviou uma carta à comissão de censura, datada de 6 de Maio de 1948, informando-a daquela iniciativa .

Essa carta mereceu uma resposta burocrática daqueles serviços, mas em tom de ameaça se não fossem cumpridos certos preceitos legais, e só depois se pronunciaram sobre qualquer autorização para a publicação do “Badaladas”.

De imediato, e de forma frontal, o padre Joaquim informou que já tinha publicado o boletim, porque não precisava de autorização daqueles serviços para o fazer, já que, tratando-se de um boletim paroquial, e de acordo com a Concordata, apenas respondia perante o Bispo, não precisando de ser submetido à censura.

Daí para afrente,  a correspondência entre o jornal e os serviços de censura discutiam se o “Badaladas” era “apenas” um boletim paroquial ou um órgão de informação “regional”, já que, neste último caso, era obrigado a responder perante a censura, interpretando o padre Joaquim que várias informações e reportagens que se publicavam diziam respeito às preocupações sociais e culturais de uma paróquia, enquanto a censura interpretava essa publicações como textos de caracter “regional” que extravasavam o âmbito de um boletim paroquial.

No debate entrou o responsável local pela União Nacional, denunciando, em carta “confidencial”, datada de 5 de Abril de 1954, o jornal “Badaladas”. por não se confinar “nos limites dum jornal exclusivamente religioso”, nem ter um “procedimento correcto, imparcial e justo para com a U.N. e a sua comissão concelhia” (2).

Nesse mesmo ano de 1954 o jornal “Badaladas” passou a ser autorizado a “tratar assuntos de carácter regionalista”, mas, por essa via, passou a ficar “sujeito à censura prévia e ao envio de 2 exemplares de cada nº publicado” (3).

Mas não era apenas a censura ou a União Nacional a desconfiarem do padre Joaquim.

No próprio arquivo da PIDE surgem várias denuncias contra o Badaladas, como por exemplo num relatório datado de 28 de Março de 1960, onde se referia o “periódico regionalista de Torres Vedras “Badaladas”, cujo director, proprietário e editor é o padre Joaquim Maria de Sousa, que também consta não ser afecto à Situação, o que, efectivamente, deixa perceber pela atitudes que tem tomado”, exemplificando com o conteúdo do jornal (4).

Concluindo e resumindo, não pretendemos fazer aqui um análise biográfica do padre Joaquim,  apenas referir, em sua homenagem, algumas das suas facetas talvez menos conhecidas e, em parte, invocando a memória pessoal.

(1)-Ver a obra, abaixo referida, de Carlos Guardado da Silva;
(2)-Carta confidencial de 5/4/1954, in Caixa nº 552 , Badaladas- arquivo da Censura-SNI- Torres do Tombo. Transcrita na referida obra de Carlos Guardado;
(3)-Carta de 24/4/1954, na mesma Caixa nº 552;
(4)- in Relatório Confidencial do Posto do Entroncamento da PIDE, Relatório Semanal nº13/60, de 28 de Março de 1960, no Processo 3194-SR/56, de Armando Pedro Lopes, in Arquivo da Pide, Torres do Tombo.

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Nota: para um aprofundamentos obre a vida do Padre Joaquim Maria de Sousa e sobre a história do Badaladas, recomendamos a consulta das seguintes obras, que serviram igualmente de base para esta evocação :
- “Badaladas – 52 anos de Comunicação Regional”, trabalho  realizado para a disciplina de Relações Públicas e Comunicação Social da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico da Guarda, da autoria de Anabela Saraiva Neto, Cristina Alexandra Barros e Vanessa Sofia Antunes Lourenço, Guarda, 8 de Junho de 2000;,
-MATOS, Venerando Aspra de “Badaladas – um contributo para a identidade Torriense”, in “Badaladas,50 anos depois… - Notícias, Histórias, Factos”, nº 3, 29 de Maios de 1998;
-RIBEIRO, Joaquim (coord,) , “Badaladas,50 anos depois… - Notícias, Histórias, Factos”, conjunto de suplementos integrados nas várias edições do jornal Badaladas ao longo do ano de 1998;
- SANTOS, Andrade, entrevista com o padre Joaquim Maria de Sousa publicada na edição nº 908 do Badaladas, de 19 de Maio de 1973, comemorativa do 25º aniversário do jornal;
- SILVA, Carlos Guardado da, “A Censura e o jornal Badaladas durante o Estado Novo”, suplemento do jornal Badaladas de 25 de Abril de 2008.




sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Torres Vedras e as Cheias de 25 de Novembro de 1967


As Cheias de 1967, que ocorreram na madrugada de 25 para 26 de Novembro desse ano, atingiram a região de Lisboa e fizeram um número de mortos ainda hoje indeterminado, mas que terá rondado os mais de 700.

Oficialmente apenas foram publicamente divulgados cerca de 400 mortos, pois a censura da época quis esconder a verdadeira dimensão da tragédia, já que ela punha a nu as miseráveis condições de vida de uma parte considerável da população portuguesa.

Apesar de Torres Vedras ter sofrido os efeitos do temporal, aqui não atingiu as dimensões trágicas de Lisboa, Loures e do concelhos vizinhos de Arruda dos Vinhos e de Alenquer. O Sobral de Monte Agraço teve a registar, pelo menos, três mortos.




Torres Vedras, muitas vezes assolada por grandes inundações, parece ter escapado desta vez à tragédia, pelo menos a fazer fé na inexistência de qualquer referência na imprensa local a destruições ou mortes no concelho relacionados com essa noite trágica, que muitos consideram a maior tragédia portuguesa depois do terramoto de 1755.

O único contratempo conhecido à vida normal dos habitantes de Torres Vedras foi o facto mencionado no Diário de Lisboa de 26 de Novembro de 1967, informando a interrupção do transporte ferroviário da linha do Oeste até ao Bombarral, devido à queda de várias barreiras que sustentavam as linhas.

Contudo, a imprensa local, neste caso o jornal “Badaladas”, não foi indiferente à tragédia, noticiando uma campanha de solidariedade para com as vítimas da tragédia na sua edição de 2 de Dezembro de 1967, referindo-se em primeira página à “noite trágica de 25 de Novembro de 1967” e ao “luto no coração dos portugueses”, apelando “aos trabalhadores lusitanos” para darem “uma hora de trabalho”.

Logo nessa edição anunciava o “gesto magnifico” do “pessoal da Casa Hipólito”, incluindo “todos os sócios e funcionários superiores” daquela empresa, oferecendo “horas do seu trabalho, a favor das vítimas.

Também nessa edição indicava que a redacção do jornal já tinha recebido dádivas em dinheiro, apelando a ofertas dos “particulares” de apoio às vitimas da tragédia.

Nas edições seguintes de 9 e 23 de Dezembro de 1967 aquele jornal local listava as várias dádivas recebidas em dinheiro e géneros.

Em dinheiro:

Salão Fotográfico – 100$00;
Carlos da Silva Cardoso  - 250$00;
Afonso de Oliveira – 150$00;
Hermano de Sousa D’Alte – 20$00;
Anónimo de Torres Vedras – 300$00;
“Menino” José Manuel Henriques dos Santos – 20$00;
João Alves Simões (de “França”) – 100$00;
José Feliz dos Reis “das Figueiras” – 100$00;
“Menino” João Manuel Cabaço Ferreira – 20$00;
Júlio dos Santos – 100$00;
Pensão Torreense – 200$00;
Casa Damião – 100$00;
Escola Primária Feminina Armando Paulo dos Santos e seus empregados – 100$00;
Maria Luisa da Silva – 50$00;
Inácio José – 20$00;
Anónimo – 50$00;
Viuva Cabral, Ldª e seus empregados – 700$00.

TOTAL: - 2 400$00.

Em géneros:

Junta de Freguesia de S. Pedro de Torres Vedras – 6 cobertores;
Anónimo – “diversas roupas de homem e senhora”;
A.C. – roupa de senhora;
Carlos Jerónimo – “3 pacotes com roupa de criança”;
Anónimo – 2 blusões para homem;
Drª Maria Teresa Graça – “diversa roupa de senhora e um par de sapatos”;
Hermano de Sousa D’Alte – “3 pacotes com roupas e sapatos”;
Dª Maria Soledade Santos – “diversas roupas”;
Dª Augusta de Moura Guedes – “ 2 pacotes com roupa de homem e sapatos”;
Dª Maria Dimas – “1 pacote com roupa de senhora”;
Escola Primária Feminina – “7 pacotes com roupa de criança”;
Manuel Guilherme, de Catefica, - “1 saco de batatas”.

Além desta iniciativa do jornal, o “Badaladas” anunciou outras iniciativas solidárias que tiveram lugar pelo concelho.

Na sua edição e 9 de Dezembro anunciava que a “Física de Torres” tinha transportado para Alenquer e Arruda dos Vinhos “alimentos, roupa, cobertores e divãs” em quatro camionetes “cheiinhas de boa vontade” e de “magnifica solidariedade”, informando que a “recepção continua em aberto no Clube Artístico e Comercial”, registando outros movimentos e de solidariedade em “A Dos Cunhados e muitas outras freguesias do concelho”.

Entre estas o mesmo jornal, na sua edição de 23 de Dezembro, destacava o peditório realizado na freguesia de S. Mamede da ventosa, “em colaboração com a Física”, que consegui recolher:

12 595 quilos de batatas;
1350 de cebolas;
442 de feijão;
60 de grão;
60 de trigo;
20 de banha;
3 de massas;
1 de arroz .

Além disso, foram ainda recolhidos nessa freguesia “uma embalagem de várias mercearias”, duas “résteas de alhos” e 7 650$20 em dinheiro , “além de centenas de peças de vestuário e muitos pares de calçado”, e, “até as crianças das escolas deram a sua colaboração”.

As firmas “Fonseca & Lisboa, Ldª e Ângelo Custódio Rodrigues ficaram responsáveis por recolher donativo da campanha de auxílio às vitimas das inundações aberta pelo “Grémio do Comércio” (“Badaladas” de 9/12/1967).

Por último, destaque-se o agradecimento da Junta Freguesia da Carnota, em Alenquer, e da sua população, uma das mais atingidas pela tragédia, à ajuda prestada pela população vizinha das Carreiras, na freguesia torriense da Carvoeira, publicado na edição do “Badaladas” de 23 de Dezembro.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Eleições Autárquicas - Resultados e análise dos resultados em Torres Vedras

Estes são os resultados para Torres Vedras:

Câmara:

Resultados de 2017
 (entre parêntesis, os resultados de 2013 – [o PNR não concorreu em 2017: O PSD e o CDS concorreram separados em 2013, pelo que se apresenta entre parêntesis os votos do PSD + os do CDS nessa data])
PS

51,06% (54,26)
18.560 votos (18 457)



PPD/PSD.CDS-PP


31,31% (19,72 + 4,53))
11.382 votos (6 707 + 1 541)



PCP-PEV


6,74% (8,57)
2.450 votos (2 914)

 0 (1)

mctnl


3,17% (3,48)
1.154 votos (1 184)

B.E.


3,16% (1,97)
1.149 votos (670)

(PNR em 2013)

(0,48%)
(162 votos)

EM BRANCO


2,69% (4,26)
978 votos ( 1 448)

NULOS


1,85% (2,74)
674 votos (932)

Votantes
53,87% (50,87)
36 347 (34 015)

36.347 votantes (34 015)
67.470 inscritos (66 871)



Contrariando uma tendência nacional, em Torres Vedras foi a direita
que mais cresceu, pois a aliança PSD/CDS conseguiu mais de três mil votos do que os obtidos pela soma do PSD e do CDS em 2013.

A aliança PSD/CDS terá ido buscar votos à abstenção (cerca de 2 mil) e aos brancos e nulos (cerca de mil).

À esquerda, a maior mobilidade de votos deu-se entre o PCP e o BE em benefício numérico deste último partido, mas acabando por contribuir para o PCP perder o seu único deputado, sem que o BE tenha sido beneficiado.

Tanto o PS como a Lista independente Torres Nas Linhas, pouca diferença fizeram face ao votos obtidos em 2013.



Assembleia Municipal - 2017
(entre parêntesis : resultados em 2013)
PS
47,84% (47,92)
17.388 votos (16 301)  


14 (15)
PPD/PSD.CDS-PP
31,32% (21,54 + 4,70)
11.384 votos (7 328 + 1598)


  
9 (7 + 1))

PCP-PEV

7,83% (9,99)
2.845 votos (3 999)

2 (3)
B.E.

4,11% (2,98)
1.493 votos (910)

1 (0)
mctnl

4,00% (4,74)
1.455 votos (1 614)

1 (1)
(PNR)

(0,54%)
(183 votos)

EM BRANCO

2,98% (2,68)
1.084 votos (910)

NULOS

1,92% (2,96)
698 votos (1007)

Excluindo o PS e o PSD, os restantes partidos conseguiram, nestas eleições, mais votos para a Assembleia do que para a Câmara.

Não deixa de ser significativo que a diferença de votos no PS, entre a Câmara e a Assembleia, seja de mais de mil votos, jogando aqui o voto útil da esquerda a favor dos candidatos ao executivo.

Por sua vez os votos do PSD foram práticamente iguais nas duas votações (uma diferença de 2 votos).

Contudo, comparativamente com 2013, o PCP perdeu na assembleia mais de mil votos, aproximadamente o mesmo número que o PS teve a mais comparativamente com as eleições de há quatro anos.

O BE conseguiu mais cerca de 500 votos nestas eleições do que as conseguidas em 2013. Quase outros tantos votos teve o candidato deste partido a mais do que o seu candidato à Câmara.

O que parece ter acontecido aqui é que o PS foi buscar parte dos votos ao PCP e à abstenção, enquanto O BE terá ido buscar votos ao PCP, mas também alguns ao PS.

Em termos práticos, na assembleia, o PS perdeu um mandato, embora mantendo a maioria absoluta, a favor do PSD, que teve mais um mandato do que a direita tinha tido em 2013 , e a CDU perdeu um mandato para o BE.

O Torres em Linha conseguiu manter o seu mandato.

Nas freguesias o resultado foi o seguinte:

Na maior freguesia, a de S:Pedro, Stª Maria e Matacães, com mais de 22 mil eleitores,  venceu o PS com maioria absoluta com 10 mandatos, exactamente os mesmos que detinha anteriormente;

O PSD/CDS com 6 mandatos, conquistou mais dois, um conquistado a uma lista independente que não concorreu este ano, mas cujos candidatos em parte apoiaram essa lista, e outro à CDU, que perdeu um representante ;

A CDU conquistou 2 mandatos (perdendo um).

A candidatura Torres nas Linhas manteve o seu mandato.

O PCP perdeu a única freguesia que dominava no concelho, a de Carvoeira/Carmões, para o PS por 3 votos:

PS - 4 mandatos:
PCP-4 mandatos;
PPD/CDS - 1 mandato

A distribuição de mandatos é a mesma de 2013;

Na Ponte do Rol, outra freguesia que prometia mudança, a coligação PPD/CDS ganhou e derrotou a lista independente que dominava a freguesia:

PPD/CDS - 4 mandatos;
Jppr (Independente) - 3 mandatos:
PS - 2 mandatos;

Em relação a 2013, o PS perdeu um mandato, a lista independente, que tinha então sido apoiada pelo PSD, perdeu 3, todos conquistados pela coligação de direita.

No resto do concelho, não se registaram alterações na liderança, tendo o PSD mantido a única que detinha, a da Freiria, e o PS repetindo a vitória nas restantes:

A dos Cunhados e Maceira

PS - 6 mandatos;
PPD/CDS- 5 mandatos;
Torres na Linha - 1 mandato
PCP - 1 mandato

Aqui o PS continua sem maioria absoluta e a diferença é que o CDS, que detinha um mandato, não contribuiu para aumentar, agora em coligação com o PSD, o número de mandatos da direita (o PSD tinha os mesmos 5 em 2013). O mandato anteriormente detido pelo CDS foi agora conquistado pelo Torres nas Linhas, que se estreia nesta importante freguesia.

Campelos e Outeiro da Cabeça:

PS-6
PPD/CDS-3

Embora mantendo a maioria absoluta, o PS perdeu um mandato e a coligação de direita conquistou mais um do que aquele que tinha o PSD.

Dois Portos e Runa:

PS - 5 mandatos;
PPD/CDS - 3 mandatos:
PCP - 1 mandato;

Aqui o PS , que liderava anteriormente, mas sem maioria absoluta, recuperou um mandato.

A lista independente que tinha ficado em segundo lugar nas anteriores eleições, não concorreu este ano e os seus três mandatos foram distribuídos um para o PS e dois para a coligação de direita (o PSD tinha então apenas um eleito). O PCP manteve o seu representante.

Freiria:

PPD/CDS - 5 mandatos;
PS - 4 mandatos;

A única freguesia que era dominada pelo PSD em 2013 manteve exactamente  mesma distribuição de mandatos;

Maxial e Monte Redondo:

PS - 6 mandatos;
PPD/CDS- 3 mandatos.

Aqui o PS manteve o seu número de mandatos e a sua maioria absoluta. O PCP perdeu o seu representante, que ficou na posse do PSD/CDS;

Ramalhal:

PS - 5 mandatos;
PPD/CDS - 3 mandatos;
Torres Nas Linhas -1

Aqui, igualmente o PS manteve a maioria absoluta e o número de mandatos, bem como o “Torres Nas Linhas” e foi, mais uma vez, o PCP que perdeu o seu representante a favos de mais um para o PSD/CDS;

Silveira:

PS - 9 mandatos:
PPD/CDS- 4

Aqui, teoricamente, a coligação de direita absorveu os candidatos que tinham em separado (em 2013 o PSD tinha 3 e o CDS 1), beneficiando o PS do mandato que o PCP aqui perdeu, reforçando a sua maioria absoluta;

S.Pedro da Cadeira:

PS - 7 mandatos;
PPD/CDS - 2 mandatos.

Aqui manteve-se tudo igual ao que aconteceu em 2013;

Turcifal:

PS - 6 mandatos;
PPD/CDS - 3 mandatos;

O PS manteve-se igual, mantendo também a maioria absoluta, mas a aliança PSD/CDS conquistou o mandato que anteriormente era mantido pela CDU;

Ventosa

PS - 6 mandatos;
PPD/CDS - 3 mandatos

Por último, também nesta freguesia o PS manteve a maioria absoluta, mas a aliança PSD/CDS ficou com o mandato que anteriormente pertencia aos independentes do Torres em Linha que desta vez não concorrerem nesta freguesia.

Resumindo e concluindo, em Torres Vedras o PS conseguiu quase todos os seus objectivos, mantendo a liderança nas freguesias que já dominava, algumas em maioria absoluta, conquistando uma nova freguesia, a da Carvoeira/Carmões, que era CDU, só não tendo conseguido vencer o PSD na freguesia da Ponte do Rol.

Na Câmara e na Assembleia conseguiu manter as suas maiorias absolutas.

A coligação PSD/CDS não conseguiu retira a maioria absoluta ao PS na Câmara, mas manteve a freguesia da Freiria e conquistou uma nova, a Ponte do Rol. Em termos globais viu a sua votação aumentar globalmente no concelho, contrariando a tendência nacional, surpreendendo pela positiva.

O Bloco de Esquerda conseguiu conquistar, pela primeira vez, um lugar na Assembleia Municipal.

O Torres Nas Linhas manteve quase tudo o que tinha conquistado em 2013, consolidando-se como movimento a ter em conta em futuros actos eleitorais.

O grande derrotado em Torres Vedras foi o PCP, perdendo mandatos em várias freguesias, perdendo a única freguesia que detinha há vários mandatos, perdendo o seu único vereador e perdendo mais um deputado municipal.

Inicia-se assim um novo ciclo de quatro anos dominados pela gestão PS, sendo esta uma das pouca Câmaras do país que se mantem sob controle do mesmo partido desde 1976.

Um bom trabalho, em prol do concelho, é o que desejamos a todos os eleitos.