terça-feira, 19 de junho de 2018

Torres Vedras e as eleições Presidenciais de 8 de Junho de 1958



Passam agora 60 anos sobre as eleições presidenciais de 1958, marcadas pela candidatura do general Humberto Delgado. 

Foi um momento que abalou a relativa estabilidade politica em que vivia o Estado Novo, no ano em que se comemorava o 30º aniversário de Salazar no poder, e depois de o regime ter conseguido travar as esperanças surgidas com o final da 2ª Guerra na instauração de um regime democrático. 

Craveiro Lopes terminava o seu primeiro mandato em ruptura com Salazar e a oposição viu nesse momento uma oportunidade para ganhar um novo alento. Inicialmente, a oposição democrática não comunista tentou avançar com a candidatura de Cunha Leal, um republicano conservador, num jantar de homenagem a essa personalidade que teve lugar no Porto em 11 de Janeiro. 

Mas é também no Porto que ganha peso uma outra candidatura, a do general Humberto Delgado, militar oriundo das fileiras do regime mas que, depois de cinco anos a viver nos Estados Unidos como adido militar da embaixada portuguesa, entre 1952 e 1957, sonhou com a implantação de um regime democrático em Portugal, seguindo o modelo presidencialista norte-americano, iniciando a ruptura com Salazar.

Cunha Leal anuncia a desistência da sua candidatura em 18 de Abril e, no dia seguinte 230 eleitores do Porto entregam no Supremo Tribunal de Justiça o processo de candidatura de Humberto Delgado às eleições presidências. 

Entre os seus principais apoiantes encontram-se figuras como António Sérgio ou Henrique Galvão, muitos dissidentes do salazarismo, como os “integralistas” e os “nacional-sindicalistas”, assim como figuras tradicionais do republicanismo, sendo também apoiado oficialmente pelo que restava do velho Partido Republicano Português. 

Muitos oposicionistas, principalmente antigas figuras do MUD e o PCP, desconfiavam de Delgado , devido à sua ligação anterior ao Estado Novo,  a quem chegam apelidar de “General Coca-Cola”, e apoiam a candidatura de Arlindo Vicente, anunciada em 20 de Abril. 

O regime foi apanhado de surpresa pela rapidez com que essas duas candidaturas se colocaram no terreno e só no dia 1 de Maio apresentaram o seu candidato, o então Ministro da Marinha. o contra-almirante Américo Tomáz, uma figura apagada e sem carisma e que surgiu como candidato de recurso da “União Nacional”, face à ruptura de Craveiro Lopes com o salazarismo. 

O carisma de Delgado acabou por se impor a toda a oposição, especialmente quando, numa conferência realizada no Café Chave de Ouro em Lisboa, em 10 de Maio, perante uma pergunta de um jornalista sobre o futuro de Salazar caso vencesse as eleições, o general pronunciou a célebre frase: Obviamente demito-o!”.
(a célebre sessão do Café Chave de Ouro)
 A partir daí a sua campanha foi em crescendo, com comícios gigantescos, como o do Porto em 14 de Maio, ou na sua recepção em Santa Apolónia, em 16 de Maio. 
(Delgado no Porto) 
Perspectivando uma oportunidade para pôr fim ao regime, Arlindo Vicente e os seus apoiantes assinam um acordo com Delgado, o chamado “Pacto de Cacinhas”, assinado em 30 de Maio, unificando a candidatura da oposição na figura do “General sem Medo” (1). 

Também em Torres Vedras esse período foi vivido com grande agitação.

 Na sua edição de 13 de Maio o jornal “República” divulgou um manifesto de apoio à candidatura de Arlindo Vicente , distribuído no concelho de Torres Vedras, transcrevendo-o na integra. Apresentando Arlindo Vicente como o “candidato próprio” da “Oposição Democrática” e o programa da candidatura, esse “manifesto” apela à formação de “uma ampla Comissão Eleitoral Concelhia pró-Candidatura”, e é assinado em nome dessa Comissão por António Catarino, Arnaldo Pedro Faria Rodrigues, Carlos Augusto Bernardes, Carlos Augusto Bernardes Portela, Emílio Luís Costa, Fernando Coelho da Silva, Fernando Vicente, Francisco Matias, João Carvalho Mesquita, João Ferreira dos Santos, João de Oliveira, Joaquim Augusto de Oliveira, Luís Adelino, Luís Perdigão, Mário de Almeida Carvalhosa, Miguel Cunha, Pedro Mendes Fernandes, Reinaldo Ferreira da Silva e Rui da Costa Tomás dos Santos. 

Em 18 de Maio teve lugar, a partir das 21 horas, no Teatro-Cine Ferreira da Silva, uma sessão de apoio a Arlindo Vicente, com a presença do candidato, sessão anunciada nas páginas do jornal “República” , na sua edição de 17 de Maio, e que merece amplo destaque de primeira página naquele mesmo diário, destacando o “Grande Entusiamo” que se viveu nessa sessão, perante uma sala “completamente cheia”. 

A sessão foi aberta pelo próprio candidato que convidou para a mesa “João Carvalho Mesquita, Mário Carvalhosa, Pedro Fernandes, Arnaldo Pedro Faria, Fernando Vicente e D. Leónia Augusta Rodrigues todos membros da comissão concelhia de Torres Vedras”. Usaram da palavra Luís de Almeida Perdigão, João Carvalho Mesquita, José Prudêncio, a escritora Lília da Fonseca e Arnaldo Faria.

Pelo meio “uma comissão de senhoras subiu ao palco para oferecer ao candidato três ramos de rosas vermelhas, atadas com fitas das cores nacionais”, sendo igualmente oferecido ao candidato “um artístico barril, com vinho da região”.

 Logo após a desistência de Arlindo Vicente, a favor da candidatura de Humberto Delgado, o jornal “República” de 1 de Junho anuncia para esse dia, sem aprofundar o teor da mesma, a realização de uma sessão de “propaganda oposicionista” em Torres Vedras, onde usaram da palavra a “Drª D. Maria Isabel Aboim Inglês e os srs. Alexandre Cabral, Dr. Vareda, Dr. Palma Carlos, Demétrio Duarte, D. Maria Alçada Padez e Domingos Carvalho”. 

Refira-se que Humberto Delgado não esteve presente em Torres Vedras durante qualquer comício ou manifestação durante essa campanha eleitoral.

 Contudo, o general já tinha estado em Torres Vedras, mas quando ocupava um importante cargo da aeronáutica portuguesa, ainda longe da ruptura com o regime, por ocasião da inauguração do hangar do aeroclube de Torres Vedras em Santa Cruz, em Setembro de 1946, então como representante oficial do governo salazarista. 

Voltando ao ano de 1958, num folheto aqui reproduzido, divulgou-se a lista dos lugares em Torres Vedras onde os apoiantes locais podiam levantar as "listas eleitorais" (os votos) para votarem em Humberto Delgado: na Papelaria Progresso, no consultório do Dr. Troni, no escritório do Dr. Carvalho dos Santos, na Alfaiataria de Mário Carvalhosa, na Papelaria Ribeiro e na Loja de Francisco Matias.
 
 Com a data de Junho foi distribuído  um folheto de apoio a Delgado, intitulado “Ao Povo de Torres Vedras”, distribuído no dia 1 desse mês, assinado pelos membros da Comissão Concelhia dessa candidatura. 

Segundo a PIDE, a distribuição foi feita por “Adalberto Carvalho dos Santos, Dr. Troni, António Leal d’Ascenção, Antolins e Victor Fonseca, que se deslocaram nos seus automóveis”.

 Faziam parte dessa Comissão Adalberto Simões de Carvalho, contabilista, Augusto Bastos Troni, médico, José Carvalho Mesquita, professor, todos classificados como “comunistas” pela PIDE, António Leal d ‘ Ascenção, comerciante, António Soares Antolin, comerciante, Ernesto Carvalho dos Santos, advogado, Faustino Soares de Antolin Hourmat, comerciante, Francisco Roque Gomes Ferreira, médico e proprietário, Luís Brandão Pereira de Melo, contabilista, Victor Cesário da Fonseca, comerciante e industrial, estes classificados pela mesma polícia como “Democratas, maçons” , Adriano Estevinha Lopes, proprietário e Armando Pedro Lopes, estes dois últimos registados como “novos” pela mesma policia politica.

 A mesma policia chamava a atenção para dois nomes, Adalberto Carvalho, “individuo manifestamente comunista e perigoso”  e para Faustino Soares Antolin, que era director “do Campo de Aviação de Santa Cruz e” tinha “à sua disposição um avião de turismo biplace Piper-Club e um avião de carcteristicas militares Tinger Moth, cedido pela Aeronutica Militar ao Aero Club de Torres Vedras” (2).

 Da propaganda do candidato do Estado Novo, Américo Tomaz, encarregaram-se as estruturas locais do regime, como a União Nacional, a Legião Portuguesa, a Mocidade Portuguesa e a Câmara Municipal, como se revela pela leitura do jornal “Voz do Oeste” , mensário da Comissão Concelhia da União Nacional em Torres Vedras, que dedica quase toda a edição de 25 de Maio ao tema, ainda antes da unificação das candidaturas da oposição. 

A primeira página dessa edição, como uma fotografia de Américo Thomaz, sob o título “Três Candidatos”, procurou fazer uma apresentação dos candidatos, obviamente realçando, ao longo das páginas do jornal, as “qualidades” do candidato oficial do Estado Novo. 

Américo Thomaz é apresentado pelo jornal torriense como “o homem que tem por fiador Salazar, e que portanto é a garantia de que continuaremos a viver em paz em ordem e dignidade”, enquanto, pelo contrário, Humberto Delgado era “o homem que, para chamar a atenção sobre si mesmo nesta campanha, precisou de dar espectáculo, num recital de frases caricatas, impolíticas e ofensivas (…) com palavras repassadas de ódio”, e Arlindo Vicente “o homem a quem os comunistas apoiam, e isto, ao país, basta”. 

O mesmo mensário da UN torriense inclui na primeira página um apelo aos eleitores: “Quereis os tempos da desordem e das revoluções?“Se quereis, deixai-vos ficar em casa com medo dos homens que, indiferentes ao ridículo e ao grotesco berram que são os homens sem medo.“Se quereis voltar a acordar ao som dos tiros e das bombas votai no General Humberto delgado ou no Dr. Arlindo Vicente.“eles vos farão a vontade dando-vos os partidos, e atrás dos partidos, a intranquilidade (…)”.

 Grande parte do jornal divide-se entre tentar desmontar e desacreditar os candidatos da oposição, em especial Humberto Delgado, apresentando-se em grande destaque as opiniões de apoio ao salazarismo que este tinha revelado nos anos 30, como “prova” da sua “incoerência” e, com menos destaque, denunciando as ligações de Arlindo Vicente aos comunistas, chegando mesmo, para o efeito, a transcrever um longo texto do jornal “Avante” onde se justificava o apoio do PCP ao candidato.

 Relatava ainda um episódio passado em Torres Vedras, “do dia em que fez a sua sessão nesta vila”.

Quando o candidato, Arlindo Vicente,  “seguia a pé para o Teatro, a certa altura, voltando-se, reparou que um oficial, encarregado de manter a ordem, mantinha-a mesmo.“O Dr. Arlindo interpelou-o:

“ – Parece impossível que o Governo…
“ – V. Ex.ª – replicou o oficial  - reclame ao Governo; eu cumpro e cumprirei as ordens.
“ – Mas olhe que eu posso vir a ser eleito Presidente da República…
“ – Não interessa – atalhou o oficial – quando V. Ex.ª for eleito Presidente, eu continuarei a cumprir as ordens que receber.”. 

O outro jornal que então se editava em Torres Vedras, então quinzenário, o “Badaladas”, pouco destaque deu à campanha eleitoral, limitando-se a transcrever, na sua edição de 1 de Junho, um artigo do jornal “Novidades” sobre a posição oficial da Igreja, que, sem nomear o candidato, assumia, nas entrelinhas, o apoio ao candidato do regime, e dois artigos de opinião, um da autoria de Maria da Conceição Gomes Leal e outro de Teixeira de Figueiredo, de apoio a Salazar a ao seu candidato.

 A campanha eleitoral acabou em 4 de Junho e as eleições decorreram no dia 8.

 Américo Thomás venceu com mais de 70% de votos, sob suspeita de uma enorme fraude eleitoral, agravada pelo próprio funcionamento dos actos “eleitorais” do salazarismo, com caderno eleitorais forjados, sem a presença de representantes da oposição na maior parte das mesas eleitorais, com a censura a impedir  a divulgação das candidaturas em condições de igualdade na imprensa e a PIDE a dificultar a realização de manifestações e comícios por parte do candidato Delgado, sem esquecer o facto de os votos, que os eleitores transportavam consigo, terem cores e formatos diferentes conforma as candidaturas, o que permitia conhecer em quem se votava, um forte factor dissuasor, sabendo-se que, assim que terminava o acto eleitoral, se seguia uma onda de prisões.
(folheto da candidatura de Humberto Delgado, com indicações sobre a forma de exercer o voto) 
O resultado eleitoral no concelho, que aqui publicamos, foi divulgado nas páginas do Jornal “Voz do Oeste” de 25 de Junho. 

É de registar que, apesar de todas as dificuldades com que se confrontou a candidatura de Humberto Delgados e das fraudes registadas, este conseguiu vencer o candidato do regime numa das mesas do Maxial, obtendo igualmente bons resultados em Matacães, Monte Redondo, Ramalhal e na mesa de S. Pedro, na vila.
Delgado teve de fugir para o estrangeiro e foi assassinado em 13 de Fevereiro de 1965, em Espanha, por uma brigada da PIDE, depois de ser atraído a uma cilada, brigada essa comandada por Rosa Casaco. Casimiro Monteiro terá sido o seu executor (3). 

Arlindo Vicente dedicou-se às artes plásticas, continuando a conspirar contra o regime, falecendo em 1977. 

A partir de então as eleições presidenciais deixaram de ser se realizar por “voto universal” e Américo Tomaz voltou a ser reeleito por um colégio eleitoral escolhido pelo Estado Novo até ser derrubado no 25 de Abril de 1974. 
 (1)    – Existem diversos estudos e memórias sobre esta eleição e sobre Humberto Delgado. Muitos documentos sobre este acontecimento estão em linha, no site da Fundação Mário Soares. A melhor síntese sobre as eleições presidenciais de 1958 é o livro “Humberto Delgado – As Eleições de 58”, coordenado por Iva Delgado, Carlos Pacheco e Telmo Faria, com prefácio de Fernando Rosas, ed. Veja, 1998.

(2)    – Torre do Tombo, Arquivo da PIDE, processo de 3194-SR/56, de Armando Pedro Lopes.

(3)    – Sobre o assassinato do General Humberto Delgado leia-se a reportagem de José Pedro Castanheira intitulada “Rosa Casaco conta tudo”, publicada na “Revista” do jornal “Expresso” de 14 de Fevereiro de 1998, acessível na internet.
  
(uma versão resumida desta texto foi publicada na nossa secção "Vedrografias", no jornal "Badaladas" de 15 de Junho de 2018)

quinta-feira, 17 de maio de 2018

O “Maio de 68”…em Torres Vedras


A única referência que encontramos em Torres Vedras ao Maio de 68 em França, durante esse mês, é uma referência indirecta, num artigo algo confuso, publicado nas páginas do jornal “Badaladas”, intitulado “Como Dialogar?”, e do qual transcrevemos as passagens mais significativas:

“(…) Não seria mais acertado procurar dialogar carinhosa e humildemente, embora com firmeza, com os dirigentes educacionais, administrativos, religiosos, sociais e até políticos, antes de agitar os subordinados daqueles?

“A insubordinação gera a desordem senão a revolta, e onde há desordem não pode haver paz, disso temos agora um flagrante e triste exemplo em França” [sublinhado nosso].

E rematava o mesmo anónimo articulista:

“A obra de reconstrução do mundo, que se impõe, só pode ser feita com o Espírito do Alto, sendo pois necessário caminhar de cima para baixo, para unir fraternalmente toda a Humanidade: dos pais para os filhos, dos patrões para os empregados, dos chefes para todos os restantes”.

Só nas edições de Julho desse ano aparecem as primeiras referências directas àquele acontecimento, em artigos de primeira página, um, na edição do dia 13, da autoria de Andrade Santos, intitulado "França: um teatro de Guerra" e outro na edição do dia 20, intitulado "A Nova Revolução Francesa".

Apesar da censura, a imprensa local da época (que no caso se restringia à edição semanal do jornal “Badaladas”) não vivia alheada da situação internacional. Exemplo disso é o caso de um vigoroso artigo condenando o racismo nos Estados Unidos [recorde-se que em 4 de Abril desse ano tinha sido assassinado Martin Luhter King] e de outro referindo a situação no Vietname, dois temas que, de algum modo, estavam relacionados com a agitação estudantil em França e um pouco por todo o mundo ocidental.

Da Guerra Colonial, na qual o Estado português estava então envolvido, motivo para a agitação estudantil em Portugal que atingiu o seu auge no ano seguinte, a censura apenas deixava passar a publicação de inócuas cartas de soldados, publicadas nas páginas do “Badaladas”.

Torres Vedras vivia nessa altura um dos períodos mais apagados, no ponto de vista cultural. Salazar ainda não tinha caído da cadeira, facto que só ocorreria a 3 de Agosto, e o cinzentismo era imposto a todas as tentativas mais ousadas de criatividade cultural. Ainda estava fresco o caso do Cine Clube de Torres Vedras, a quem fora imposta uma comissão administrativa seis anos antes, levando à perseguição politica dos jovens que então tinham ousado fazer diferente.

A única excepção a esse cinzentismo era o Pelouro Cultural da Física que iniciava então um período de crescente actividade (que viria a conhecer um destino parecido ao do Cine Clube anos depois).

A Associação de Educação Física, então dominada por homens próximos da oposição republicana, realizou, nesse mês de Maio, uma cerimónia para comemorar a abertura das propostas da empreitada da primeira fase das obras para a sua nova sede, que é a actual.

Nesse mês de Maio de 68 o jornal “Badaladas” completava 20 anos de vida e publicava mais 4 páginas do seu histórico Suplemento Cultural, que então, em parte por acção indirecta da censura, em parte pelo afastamento, por várias razões, dos seus primeiros mentores, passava por uma fase menos criativa, menos irreverente  e menos interessante.

Outros acontecimentos marcaram esse mês de Maio de 68 em Torres Vedras, como o fim, em 20 de Maio, da primeira campanha de escavações na Gruta do Cabeço da Rainha, junto ao lugar da Maceira, que tinha contado com grandes nomes da arqueologia portuguesa, como Farinha dos Santos, Veiga Ferreira e o abade Jean Roche, para além do conterrâneo Leonel Trindade.
Essas escavações permitiram que pela primeira vez  se observasse um terraço fluvial numa gruta, possibilitando a datação geológica dos seus níveis.

Nessas escavações foram identificados níveis de ocupação do Paleolítico Superior e outra mais antiga do Paleolítico Médio.

Outro acontecimento localmente marcante foi a realização em Torres Vedras, em 26 de Maio, do Dia da J.O.C. [Juventude Operária Católica]  Internacional que contou com a presença de jovens católicos de todo o país.

Não o sabemos, mas é muito provável, dado o carácter cada vez mais progressista e crítico da JOC em relação às condições sociais e à guerra colonial, que nesse encontro os seus participantes  tivessem falado do Maios de 68.

Foi assim, num clima de paz aparente, mas com pequenos sinais que anunciavam um novo tempo, que se passou o Maio de 68…em Torres Vedras.

(NOTA: a base para a elaboração deste texto foi a leitura das páginas do jornal “Badaladas” no mês de Maio de 1968. O texto original teve como objectivo a sua utilização num programa de rádio em 1988, sendo agora apresentado com ligeiras alterações, recorrendo igualmente a um artigo de Carlos Guardado, que se encontra na página on-line da Câmara Municipal de Torres Vedras, que pode ser lido AQUI)

terça-feira, 8 de maio de 2018

TURRES VETERAS XXI - 11 a 12 de Maio de 2018.

Tem início na próxima 6ª feira, a partir das 14 horas, a 21ª edição dos encontros de História Turres Veteras.

Os encontros encerram no dia seguinte, pelas 17.30, com o lançamento de "Torres Vedras - Nova História Local", uma obra colectiva que inclui as comunicações do ano passado, que percorreu a História Torriense ao longo dos séculos.

Este Turres Veteras XXI tem lugar no auditório dos Paços do Concelho e o programa pode ser consultado em baixo.

terça-feira, 10 de abril de 2018

A Vida Torriense nos Caracteres da Imprensa Local (Finais do Século XIX) (1885-1890) - Abril de 1888



O primeiro dia de Abril desse ano distante de 1888 foi um Domingo de Páscoa. Por esse motivo “a Fanfarra da Associação 24 de Julho de 1884 percorreu a villa (…) em cumprimento de boas festas a diversas pessoas “(1).

Para esse mesmo dia estava previsto o início de um novo horário de trabalho para o comércio local, objectivo que não terá sido cumprido, a julgar pela seguinte notícia:

“Uma parte dos commercintes d’esta villa tinha resolvido acceder ao pedido dos seus empregados, fechando os estabelecimentos às quatro horas da tarde, nos domingos. Era mais uma victória do progresso, ganha pacificamente, que honrava por igual aquelles que o solicitaram e os que concederam.

“Esta regalia devia começar no domingo de Páscoa. Não sucedeu, porém, assim, cremos que por circunstâncias independentes de boa vontade de alguns dos lojistas que assignaram do melhor grado a petição dos caixeiros.

“Os estabelecimentos que à hora aprazada fecharam, foram os dos srs. Bernardino António Silva Cardoso, Emygdio José da Costa, Ferreira & Sousa, e José Gonçalves Carvalho” (2).

A principal actividade económica de então era a agricultura, e o principal produto da região o vinho. Um pequeno quadro dessa actividade era descrito nos seguintes termos:

“Os trabalhos das vinhas estão todos acabados e a rebentação surge fluente nas vinhas sadias.

“Por toda a parte se observam os grandes estragos da phylloxera. Agora que as vinhas já deram a primeira demonstração da sua força, vê-se que algumas estão mortas, tendo feito as suas despedidas com a colheita passada” (3).

Por sua vez apostava-se na melhoria da rede viária e no desenvolvimento do caminho de ferro como soluções para melhor escoar a produção local.

Contudo, nem tudo corria bem para o cumprimento desse objectivo:

“(…) o assumpto da conservação das estradas carece de séria e especial atenção do sr. ministro das obras públicas. Isto não pode aguentar-se muito tempo. Os concelhos de Torres e Alenquer, que nós melhor conhecemos, estavam bem servidos de estradas districtaes, mas os invernos e a falta de concertos, por ter sido suprimida a verba destinada à conservação, estão pondo as viações em estado lastimosos e impossível (…)” (4).

Também numa carta dirigida ao jornal “A Semana”, um leitor queixava-se de ser “lastimoso o estado em que se acham os caminhos dos logares da Ermegeira, Abrunheira, Ramalhal e Amial para a estação de caminho de ferro do Rmalhal (…).

“Havendo n’estes logares (…) adegas importantes de vinho e outras mercadorias a transportar para a estação do Ramalhal, não o podemos fazer por causa dos péssimos caminhos, não nos servindo de utilidade nenhuma o haver estação no Ramalhal, porque temos que ir à estação de Torres, que é mais do dobro do caminho, mas ao menos aproveitamos a estrada real e podemos conduzir dois cascos de cada vez, enquanto que para a estação do Ramalhal, nem um, mesmo em carro de bois, porque corremos o risco de nos ficar carro e bois submergidos na lama!

“De que nos serve uma estação de caminho de ferro, sem termos estrada? De nada (…)” (5).

Igualmente mal servidos estavam os habitantes de Torres Vedras que se quisessem deslocar para a estação do caminho de ferro desta localidade. Por isso manifestavam preocupação com a construção de vias que ligassem o centro da vila àquela estação:

“Vão ser remetidos para a administração do concelho os autos das novas expropriações feitas para o alargamento da Avenida do caminho de ferro d’esta villa [ a actual Av. 5 de Outubro], alargamento que acaba de ser approvado pelo ministro, como a câmara requereu, por iniciativa do deputado do círculo, que em vez de 8 pediu 16 metros de largura para aquela via pública (…) “ (6).

Outra notícia dava conta que na “terça-feira fez-se a medição e iniciaram-se os cortes a fazer nos terrenos para a nova rua que a Câmara projecta abrir, a fim de ligar a Praça Nova com a futura avenida” (7) [julgamos tratar-se da actual Rua Tenente Valadim].

Contudo, apesar das alterações que o caminhos de ferro estava a provocar na fisionomia urbana de Torres Vedras, era evidente o descontentamento com o facto de então apenas se realizar uma viagem de comboio ascendente diariamente.

Eram também divulgados alguns números sobre o movimento da linha férrea no concelho:

“Durante o anno decorrido de Maio de 1887 até igual mez de 1888 a receita realizada em dinheiro na estação do caminho de ferro d’esta villa, foi de 22.000$000 réis, números redondos. Não entram n’este rendimento as remessas de mercadorias a pagar nas estações  que se destinam, o que é importantíssimo, especialmente em vinhos” (8).

“No mez de Janeiro transitaram pelas linhas férreas de Cintra a Torres 10:372 passageiros e 3:444 toneladas de mercadorias, produzindo 8:225$144 réis.

“De Torres à Figueira e Alfarellos, os comboios transportaram no mesmo período 4:216 passageiros e 2:035 toneladas de mercadorias, dando de receita 3.559$714 réis” (9).

Terminamos esta crónica como começámos: referindo uma festa de cariz religioso, a reinauguração da Capela do Senhor Jesus Morto no Turcifal, em 29 de Abril de 1888, descrita neste termos:

“Foi uma verdadeira surpreza a enorme quantidade de gente que no domingo affluiu ao logar do Turcifal. A festividade era, por assim dizer, extraordinária, pois, como havíamos já noticiado, celebrava-se a inauguração da antiga capella que fôra reedificada, e onde ficou agora o Senhor Jesus Morto, que esteve provisoriamente na igreja matriz, emquanto se prepararam as obras.

“De todos os logares comvisinhos e também de muitos pontos distantes concorrerm famílias, fazendo-se conduzir por toda a espécie de vehiculos e animaes de carga.

“O espaço largo onde se ergueu o templo de Santa Maria Magdalena, apresentava um aspecto imponente.

“Ao descair a tarde saiu a procissão em que era conduzido o esquife com a veneranda imagem do Senhor Morto, e a da Virgem, sendo muito acompanhadas de Irmãos.

“Na frente tocava a Fanfarra de Villa Franca do Rosário, que espontaneamente appareceu a encorporar-se no préstito, e na rectaguarda a philarmónica Torreense, fechando com uma força de 16 praças de infantaria 11, comandada pelo sargento.

“Percorreu o logar, dirigindo-se à pequena ermida que está muito alindada, onde ficaram as imagens: Em seguida orou o ver. Chagas, e depois o préstito dispersou, começando então a debandada que tinha o pittoresco  matiz das variadas conduções, desde o veterano jumento ao pesado carro de bois, desde a clássica carroça de muares até à elegante “caleche” particular.

“De Torres Vedras a Concorrencia era bastante. A tarde conservou-se bonita e convidativa ao passeio.

“Os principaes moradores do Turcifal receberam com a sua proverbial amabilidade os convidados, que retiraram muito satisfeitos pelo modo como em tudo sobressaiu a festividade do domingo n’aquelle logar” (10).

Com descrições como esta, não era preciso existir máquina fotográfica…

(1)    – in Voz de Torres Vedras, 7 de Abril de 1888;
(2)    –idem, idem;
(3)    – in A Semana de 12 de Abril de 1888;
(4)    – idem, idem;
(5)    –in A Semana de 19 de Abril de 1888;
(6)    – in A Semana de 5 de Abril de 1888;
(7)    –in Voz de Torres Vedras de 7 de Abril de 1888;
(8)    – in “A Semana” de 12 de Abril de 1888;
(9)    – in Voz de Torres Vedras de 7 de Abril de 1888;
(10)                       – in A Semana de 3 de Maio de 1888.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Lançamento do Livro "O Socialismo e o PS em Portugal", na Biblioteca Municipal, Sábado pelas 18 .30:


Sinopse do livro
“Apesar da incipiente industrialização, as ideias socialistas chegaram ao nosso país nos anos 50 do século XIX quando ainda se viviam as sequelas da Patuleia, guerra civil que contribuiu para abalar os alicerces da monarquia. Viriam a surgir, assim, as primeiras associações visando “os melhoramentos das classes laboriosas”, os primeiros periódicos e textos doutrinários. Em 1875, mesmo antes de que isso acontecesse noutros países mais desenvolvidos, foi fundado o Partido Socialista. Figuras como Antero de Quental e José Fontana fariam com que o socialismo entre nós tivesse, desde logo, características muito especiais no que concerne à sua componente libertária e ética. Isto não impediria que também aqui se repercutissem as divisões programáticas em curso no resto da Europa o que, no contexto da sociedade portuguesa, ajudaria à hegemonia das ideias republicanas e do anarco-sindicalismo no movimento operário. Durante a I República os socialistas tiveram expressão modesta a nível sindical e parlamentar, apesar de chegarem a estar presentes em governos e terem contribuído para reformas significativas.
 “Não admira, pois, que durante o Estado Novo o socialismo se tivesse amalgamado com a oposição democrática republicana, apesar de sempre existirem tentativas no sentido de afirmar a sua identidade. Até que, em 1964, Mário Soares, Tito de Morais, Ramos da Costa, entre outros, criaram a Acção Socialista Portuguesa, embrião do actual Partido Socialista fundado em 1973. Este, após o derrube da ditadura a 25 de Abril de 1974, tornar-se-ia a força decisiva para a construção do Portugal democrático dos dias de hoje e continua a desempenhar o papel fulcral que é conhecido. Recorrendo a vários autores de diversas formações académicas, pretende-se com este livro recordar o passado do socialismo português, para melhor analisar o seu presente e perspectivar o futuro”.
 Participam nesta edição: Ângela Montalvão Machado; António Campos; Antonio Muñoz Sánchez; António Reis; Fernando Pereira Marques (coordenador); Joaquim Palminha Silva; Paulo Ferreira da Cunha; Miguel Coelho; Nuno Miguel Jesus.

Dados Biográficos 
Fernando Alberto Pereira Marques , nascido 16 de abril de 1948.  Professor Universitário. 
Foi líder da LUAR antes do 25 de Abril, tendo conhecido a prisão politica e o exílio.
Depois do 25 de Abril continuou nessa organização até à sua extinção, aderindo posteriormente ao PS, tendo sido deputado.
Cargos que desempenha: 
  Coordenador-adjunto
  Membro do Conselho Diretivo
  Diretor-adjunto da revista a "Finisterra" 
Cargos exercidos: 
  Membro do Conselho de Informação para a Imprensa
  Dirigente Partidário
Obras Publicadas: 
  "Contrapoder e revolução" 
  "Exercito e Sociedade em Portugal" 
  "Um Golpe de Estado -Contributos - Estudo da Questão Militar" 
  "O elogia da enquietude" 
  "A outra guerra" 
“A Praia sob a Calçada – Maio de 68 e a Geração de 60”
“Uma Nova Concepção de Luta”

Títulos académicos e científicos 
DOCTORAT D'ETAT EM SOCIOLOGIA (UNIV. DE AMIENS - FRANÇA) 
DIPLOMA DA ECOLE DES HAUTES ETUDES EN CIENCES SOCIALES 
(Dados recolhidos do site da Biblioteca Municipal de Torres Vedras)´