Torres Vedras e a História (breves apontamentos, esboços, documentos, efemérides, estudos, fotografias, notícias...)
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025
1923 - O “Primeiro” Carnaval de Torres Vedras
Isto não quer dizer que a tradição de se comemorar o
Carnaval nesta localidade não se tivesse registado em datas anteriores.
Há quem atribua a data de “fundação” ao ano de 1574, com
base num documento datado desse ano, a primeira referência conhecida à
realização, neste concelho, de uma brincadeira típica do entrudo. Contudo isso
não quer dizer que a mesma brincadeira, ou outras, não se realizassem por estas
bandas em épocas muito mais recuadas, pelo menos desde que o calendário cristão
foi imposto no território português. É provável que, esquecidos nos arquivos
nacionais, existam outros documentos, desse período ou até mais antigos,
referentes ao mesmo tema, pois as notícias mais antigas da realização de
brincadeiras típicas do entrudo em Portugal datam do século XIII. Esse
documento não prova nenhuma especificidade nas comemorações do entrudo nesta
região. Era o mesmo que datarmos as comemorações do Natal em Torres Vedras com
base num documento medieval que as referisse em Torres Vedras.
Quanto à oficialização do centenário em 2023, penso que,
sendo o Carnaval de Torres uma "tradição inventada", se socorra de um
acto "fundador" e "unificador" para o
"consolidar" e "comemorar" e esse acto, apesar de não ser
original, mas que manteve alguma continuidade, apesar de algumas interrupções,
sempre foi a coroação do 1º rei do Carnaval de Torres em 1923. A existência de
um rei não é original de Torres (existe referência na imprensa torriense à
coroação de um rei no Bombarral na década anterior, sem esquecer que o mesmo se
passava, quer no Carnaval de Lisboa dessa época, quer no Carnaval de Nice, que
foi o modelo para a maior parte dos carnavais portugueses dos "loucos anos
20").
Foi à volta desse acto e dessa data simbólica que se foram acrescentando,
ao longo das décadas, muitas das iniciativas que hoje fazem parte do calendário
e da identidade do Carnaval de Torres.
Foi também à volta desse novo tipo de Carnaval,
"inaugurado" em 1923, que o Carnaval de Torres ganhou fama e
dimensão, distinguindo-se das meras "paródias" e construindo a sua
identidade, principalmente na década dos anos 30 do século passado, despertando
a atenção da imprensa e da cinematografia nacional, fama que se aprofundou na
década de 60 e princípio da de 70, e, em dimensões muito maiores, a partir de
1985.
À volta do Carnaval "fundado" em 1923 ( e quem
funda alguma coisa, por vezes não tem a percepção daquilo que está a
"inventar" e da dimensão que vai ganhar no futuro), fez-se a fusão de
três dimensões que existiam anteriormente, mas "de costas voltadas",
daí também a importância da nova etapa "fundada" há cem anos:- a
dimensão dos "bailes de salão", realizado em casas particulares e nas
colectividades; - a dimensão do carnaval rural, que mantinha muitas das
características do entrudo medieval; - e a dimensão do carnaval urbano, que se
vai construindo ao longo do século XIX e que vai integrar, além das
tradicionais cegadas, o modelo dos já referidos Carnaval de Nice e Carnaval de
Lisboa.
Não me parece, assim, haver qualquer problema, a não ser de
tipo retórico, em considerar a comemoração do centenário do Carnaval de Torres
neste ano de 2023.
Penso que atribuir o centenário ao primeiro desfile com o
"rei " tem um mero sentido simbólico, que me parece pertinente e é um
pretexto, não para desvalorizar a sua história, mas para reflectir sobre a sua
importância.
Contudo, não deixa de ser significativo que os torrienses de
então não se tenham apercebido da importância desse acto fundador. De facto,
são muito escassas as referências ao que se passou em 1923.
Apenas uma pequena referência, quase despercebida, de dois
parágrafos, numa página interior, a página 2, do jornal “O Torreense”, publicada no Domingo de 4 de Fevereiro de
1923, fazendo parte de uma coluna intitulada “Coisas da Nossa Terra”, no meio
de outras notícias, dá conta da realização, “amanhã”, 5 de Fevereiro,
segunda-feira, de “um engraçado divertimento carnavalesco, que consta da
recepção do Rei Carnaval, que deve chegar no comboio correio da manhã”. E
conclui a notícia que a “recepção terá logar com inúmeras demonstrações
festivas, percorrendo Sua Magestade as ruas da vila, acompanhado dum luzido
cortejo”.
Curiosamente, esse desfile realizou-se uma semana antes da
semana de Carnaval. De facto, segundo aquela notícia, essa “brincadeira” estava
anunciada para 2ª feira 5 de Fevereiro, quando 3ª feira de Carnaval desse ano aconteceu
em 13 de Fevereiro.
Estranhamente não se encontra, em edições futuras da
imprensa da época, qualquer relato ou referência a esse mesmo desfile.
Existem mutas informações sobre o Carnaval desse ano,
nenhuma sobre esse anunciado desfile, que apenas sabemos que se realizou por
relatos futuros, de tradição oral ou publicada noutros anos, sobre o que
aconteceu em 1923.
De facto, percorrendo as páginas do dito semanário torriense,
publicadas na véspera ou nas semanas a seguir ao Entrudo desse ano, as
referências que encontramos nada referem sobre o assunto. De notar que as
edições de “O Torrense” de 11, 18 e 25 de Fevereiro desse ano, onde se relata o
que se passou no Carnaval desse ano, desapareceram, misteriosamente, da
colecção desse periódico existente na Biblioteca Municipal de Torres Vedras.
Felizmente esses números podem ser consultados na hemeroteca da Biblioteca Nacional
de Lisboa.
Na sua edição de 11 de Fevereiro apenas se refere que a
“quadra carnavalesca nesta vila tem passado despercebida, a não ser nas
sociedades de recreio onde se anda em preparativos para os três dias de festas
por exelencia”, anunciando que nas “referidas sociedades, durante os três dias,
haverá bailes e numerosas variedades, alguns dos quaes de êxito seguro”. É nos
ditos “preparativos” que devemos enquadrar a anterior referência à recepção do
rei do Carnaval anunciada para 5 de Fevereiro. Mas, á posteriori, não
encontramos qualquer noticia que refira a dita recepção.
Pelo contrário, na sua
edição de 25 de Fevereiro, aquele semanário local refere que o “Carnaval este
ano decorreu nesta vila insípido e sensaborão, principalmente nas ruas”, aos
contrário das “Cazas de recreio”, onde “houve baile e outros divertimentos
durante as três noites, que decorreram com um tal ou qual animação, embora
muito inferior à dos anos anteriores”.
Do programa carnavalesco realizado nas colectividades
locais, destaca a “representação, por alunos da Escola Secundária, duma peça da autoria do Snr. José
do Nascimento Neves, professor deste estabelecimento de ensino”, embora se
refira à representação da peça como “uma verdadeira desilusão”, de uma
“extraordinária banalidade”. Ao jornal terá desagradado especialmente o
“julgamento que o autor fez exibir no 2ª acto”, principalmente “o julgamento de
O Torreense”. De positivo, o citado articulista refere “as artísticas e lindas
ornamentações dos salões de baile do Grémio e da Tuna”.
Mas aquela que é a mais curiosa referência ao Carnaval desse
ano é a um desfile de “um cortejo” em Dois Portos “parodiando a procissão dos
passos”, situação muito criticada nas páginas do dito semanário “O Torreense”
de 25 de Fevereiro: “Custa a crer que tal cortejo não fosse proibido (…). O
cortejo a que vimos de aludir constitui para os católicos uma afronta”, tanto
mais que a verdadeira Procissão dos Passos desse ano tinha sido proibida pelas
autoridades.
Seja como for, foi esse Carnaval de 1923 que deu inicio a um caminho que nos levou até ao Carnaval actual, para além de contribuir, com já referimos, para a "fusão" e "síntese" de várias caracteristicas do Carnaval, o mais antigo, o rural, o urbano, o de salão e o que se fazia em muitos sítios, de Nice a Lisboa ou Coimbra e até no Brasil (curiosamente, este último foi influenciado pelo Carnaval português, fundindo-se com as origens africanas de grande parte do seu povo).
ANEXO
DESCRIÇÃO DO SEGUNDO CARNAVAL COM "REI" (e primeiro com "rainha") - 1924
"Foram este ano revestidas de extraordinario
brilhantismo as festas carnavalescas,realisadas por ocasião da chegada de Sua
Magestade D.Carnaval II,rei da Folia e da gargalhada e imperador dos Estados
Unidos de todas as encabadelas em uso
nesta temporada -como rezava o respectivo programa.
"Muito antes
da hora anunciada para a chegada de S.M.,que,acompanhado pelos membros do seu
ministerio ,devia desembarcar na estação do caminho de ferro ,já o largo
fronteiro se encontrava replecto de gente.
"Pouco depois chegava o comandante da policia (Gil Lourenço),que acompanhado por alguns guardas civiscos era encarregado do policiamento.
"Logo a seguir desembocava na Avenida 5 de Outubro o esquadrão de cavalaria e burraria, sob o comando de João Duarte ,tendo como subalternos Eurico Pinto e Alberto Nobre e como porta-estandarte Jaime Alves e que fórma ao longo da Avenida.
"Pouco depois
surge o batalhão de marinheiros de agua doce
,sob o comando de Francisco J.Lucio.
"As forças
fazem a continencia e o batalhão vai formar em frente da estação.A sua
organização é elogiada; apresentam-se bem equipados, desfilam com garbo e
obedecem prontamente ás vozes de
comando.
"Começam a
chegar então os coches dos altos dignatarios .Sua eminencia o cardeal (Sancho da Costa).Bispo (Ruy
Garrett).Conego (Antonio Trindade).Acolito(Manuel Vidal).
"Cada vez é maior a afluencia de povo .Aparece a
seguir o carro da burguezia ,uma
graciosa charge que provoca risos na
assistencia.
"A Chegada de
Sua Magestade
"Eram 10 horas
e 17 minutos quando o comboio entrou na estação.Sobem ao ar muitos foguetes.A
banda musical atroa os ares com uma marcha real .
"Sua Magestade
desembarca e é recebido pelos altos dignatarios , dirigindo-se depois dos
cumprimentos de boas vindas para o coche que o aguarda.
"A guarda de
honra é feita ,fóra da estação,pelo batalhão de marinheiros de agua doce.
"Estralejam mais foguetes.A banda entoa ainda os ultimos compassos da marcha real.As forças militares fazem a continencia.
"Na assistencia ha palmas e gargalhadas.
"O Cortejo.
"Organisa-se então o cortejo ,que ha de acompanhar Sua Magestade na sua visita ás sociedades de recreio.
"Á frente um
termo de trombeteiros ,levando o emblema real,nos seus instrumentos .
"A seguir o
batalhão de cavalaria e burraria de penachos ao vento.
"Seguia o
estandarte real escoltado por dois soldados de cavalaria montados em burros.
"No primeiro carro seguia o ministério: Ministro da marinha (José Pedro Costa),do trabalho (António Trigueiros Junior) e do Interior (Tomaz dos Santos).
"O carro do clero ,cujos tripulantes já mencionámos.
"O carro dos
embaixadores ,no qual merece especial menção Amílcar Guerreiro com
embaixador do Celeste Império.Seguiam no
mesmo carro os embaixadores dos Peles
Vermelhas (Alfredo de Almeida), Turquia
(Jose Castanho) ,Hespanha (Luiz Santana).
"Coche real
,no qual seguiam,além de Sua Magestade, o presidente do ministerio (Antonio Hipolito Junior) e o chefe do
protocolo (M.Silva); ministro da
guerra (Leonel Trindade).Cavalgavam á
estribeira os generais Eurico Pinto e Guilherme Nobre.
"Seguia o
batalhão de marinheiros de agua doce.
"Carro da burguezia ,conduzido por Raul Lucas e D.Imiro "(?sic)"Rodrigues e tripulado por António de Oliveira e Julio da Silva.
"Fechava o cortejo a Filarmonica Torreense.
"Começou então
a visita ás colectividades de recreio começando pelo Casino.
"Aqui foi Sua
Magestade recebido pelo Ex.mo. Sr. Dr. José de Bastos que agradeceu em nome da
Direcção a gentileza da visita.
"Seguiu-se o
Grémio Artístico - Comercial na qual o representante da Direcção era o
sr.Justino Alves de Almeida que agradeceu a visita a Sua Magestade em resposta
ao discurso do presidente do ministério.
"Na Tuna
Comercial Torreense que a seguiu foi honrada com a visita de Sua Magestade ,foi
servida pela direcção um delicado copo,d'água.
"A seguir
dirigiu-se o cortejo para o Largo da Republica onde ,depois de serem passados
em revista as suas forças militares ,se dissolveu.
"VISITA ÁS COLECTIVIDADES "(Sic)
"Pelas 13 horas teve logar no vasto salão de festas do Hotel Natividade o banquete de gala oferecido em honra de Sua Magestade,que decorreu no meio da maior animação e durante a qual sua excelencia o senhor Visconde da Horta-Nova exerceu ao piano algumas repetições do fado corrido.
"Foram
levantados muitos brindes havendo o Embaixador dos Peles Vermelhas (Alfredo de Almeida) tido palavras de elogio
para a imprensa local,ali representada,o que agradecemos.
"Findo o
banquete,Sua Magestade D.Carnaval II,"atendendo ao que lhe expozeram os
membros do seu ministerio e considerando que o sr.Carlos Alexandre Capucho como
armazenista de vinhos tem sempre concorrido para que o saboroso nectar continue
sempre espalhando a alegria na Humanidade,entende por bem condecorá-lo com a
medalha de ouro de Beneficiencia Mundial.Pede desculpa de a medalha de ouro ser
de cobre mas que isso é devido á pobreza do erário real"
"Uma
estrondosa salva de palmas coroou as palavras de Sua Magestade.
"O DESAFIO DE
FOOT-BALL
"Ás 15 horas
teve logar no vasto campo da Varzea o desafio de foot-ball entre o Femina -
Sport-Club e o Imperio-Mania-Foot-Ball Club ,servindo de arbitro Gil Lourenço.
"Assistiu ,de uma tribuna expressamente armada para esse efeito ,Sua Magestade D.Carnaval II acompanhado pelos membros do seu ministerio ,embaixadores ,altos dignatarios ,etc.
"No decorrer do desafio Sua Magestade devido ao excessivo "calor" do sol(?) sentiu-se ligeiramente indisposto pelo que foi obrigado a recolher aos seus aposentos.
"Comparecendo
o medico da real camara apenas receitou trez horas de sono para fazer evaporar
os ultimos "calores" cerebrais de Sua Magestade.
"D.Carnaval II
ficou muito grato para com os tripulantes do "carro da burguezia" que
gentilmente se prestaram a conduzi-lo ao seu palacio.
"O BAPTISMO DO
PRÍNCIPE REI
"Teve logar no salão de baile do Grémio Artistico Comercial o ultimo numero das festas organisadas pela comissão de festejos e na qual merece especial menção o esforço dispendido pelo sr.Leonel Trindade.
"Foi o baptismo de sua alteza real.O salão encontrava-se completamente apinhada.
"Pouco depois
da hora anunciada deu-se começo á cerimonia á qual assistiu Sua Magestade a
Rainha (Jaime Alves).
"Conduzindo o
neofito (Alfredo de Almeida) ao colo de sua aia (Gil Lourenço) ao palco ,foi o
batismo realisado por Sua Iminencia o Cardeal ,acolitado pelos outros
"ministros" da religião que tomaram parte no cortejo.
"Em seguida
teve logar o baile que se dançou animadamente até de madrugada".
(sublinhados nossos).
In "O Torreense" de 12-03-1924
(NOTA : É de notar que a referência à presença rainha (Jaime Alves) só aparece na cerimónia final, também não se vendo na fotografia de 1924 que ilustra este texto)
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025
Carnaval de Torres de 1968
No site "Fotold.com" podemos encontrar muitas fotografias antigas de Torres Vedras.
Esse site é um banco de imagens, orientado por Anabela Silva (curadoria@fotold.com), com fotografias de todo o país.
Entre as fotografias de Torres Vedras encontra-se um conjunto de fotografias do carnaval de Torres Vedras de 1968, parte das quais aqui divulgamos.
Um dado curioso é, ao percorrermos os olhos pelo público presente, raros são os mascarados e nem uma matrafona.


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