Por norma, foi fixada a fundação do moderno Carnaval de Torres em 1923, ano em que, pela primeira vez nesta localidade, foi coroado um rei no Carnaval, acto considerado fundador.
Isto não quer dizer que a tradição de se comemorar o
Carnaval nesta localidade não se tivesse registado em datas anteriores.
Há quem atribua a data de “fundação” ao ano de 1574, com
base num documento datado desse ano, a primeira referência conhecida à
realização, neste concelho, de uma brincadeira típica do entrudo. Contudo isso
não quer dizer que a mesma brincadeira, ou outras, não se realizassem por estas
bandas em épocas muito mais recuadas, pelo menos desde que o calendário cristão
foi imposto no território português. É provável que, esquecidos nos arquivos
nacionais, existam outros documentos, desse período ou até mais antigos,
referentes ao mesmo tema, pois as notícias mais antigas da realização de
brincadeiras típicas do entrudo em Portugal datam do século XIII. Esse
documento não prova nenhuma especificidade nas comemorações do entrudo nesta
região. Era o mesmo que datarmos as comemorações do Natal em Torres Vedras com
base num documento medieval que as referisse em Torres Vedras.
Quanto à oficialização do centenário em 2023, penso que,
sendo o Carnaval de Torres uma "tradição inventada", se socorra de um
acto "fundador" e "unificador" para o
"consolidar" e "comemorar" e esse acto, apesar de não ser
original, mas que manteve alguma continuidade, apesar de algumas interrupções,
sempre foi a coroação do 1º rei do Carnaval de Torres em 1923. A existência de
um rei não é original de Torres (existe referência na imprensa torriense à
coroação de um rei no Bombarral na década anterior, sem esquecer que o mesmo se
passava, quer no Carnaval de Lisboa dessa época, quer no Carnaval de Nice, que
foi o modelo para a maior parte dos carnavais portugueses dos "loucos anos
20").
Foi à volta desse acto e dessa data simbólica que se foram acrescentando,
ao longo das décadas, muitas das iniciativas que hoje fazem parte do calendário
e da identidade do Carnaval de Torres.
Foi também à volta desse novo tipo de Carnaval,
"inaugurado" em 1923, que o Carnaval de Torres ganhou fama e
dimensão, distinguindo-se das meras "paródias" e construindo a sua
identidade, principalmente na década dos anos 30 do século passado, despertando
a atenção da imprensa e da cinematografia nacional, fama que se aprofundou na
década de 60 e princípio da de 70, e, em dimensões muito maiores, a partir de
1985.
À volta do Carnaval "fundado" em 1923 ( e quem
funda alguma coisa, por vezes não tem a percepção daquilo que está a
"inventar" e da dimensão que vai ganhar no futuro), fez-se a fusão de
três dimensões que existiam anteriormente, mas "de costas voltadas",
daí também a importância da nova etapa "fundada" há cem anos:- a
dimensão dos "bailes de salão", realizado em casas particulares e nas
colectividades; - a dimensão do carnaval rural, que mantinha muitas das
características do entrudo medieval; - e a dimensão do carnaval urbano, que se
vai construindo ao longo do século XIX e que vai integrar, além das
tradicionais cegadas, o modelo dos já referidos Carnaval de Nice e Carnaval de
Lisboa.
Não me parece, assim, haver qualquer problema, a não ser de
tipo retórico, em considerar a comemoração do centenário do Carnaval de Torres
neste ano de 2023.
Penso que atribuir o centenário ao primeiro desfile com o
"rei " tem um mero sentido simbólico, que me parece pertinente e é um
pretexto, não para desvalorizar a sua história, mas para reflectir sobre a sua
importância.
Contudo, não deixa de ser significativo que os torrienses de
então não se tenham apercebido da importância desse acto fundador. De facto,
são muito escassas as referências ao que se passou em 1923.
Apenas uma pequena referência, quase despercebida, de dois
parágrafos, numa página interior, a página 2, do jornal “O Torreense”, publicada no Domingo de 4 de Fevereiro de
1923, fazendo parte de uma coluna intitulada “Coisas da Nossa Terra”, no meio
de outras notícias, dá conta da realização, “amanhã”, 5 de Fevereiro,
segunda-feira, de “um engraçado divertimento carnavalesco, que consta da
recepção do Rei Carnaval, que deve chegar no comboio correio da manhã”. E
conclui a notícia que a “recepção terá logar com inúmeras demonstrações
festivas, percorrendo Sua Magestade as ruas da vila, acompanhado dum luzido
cortejo”.
Curiosamente, esse desfile realizou-se uma semana antes da
semana de Carnaval. De facto, segundo aquela notícia, essa “brincadeira” estava
anunciada para 2ª feira 5 de Fevereiro, quando 3ª feira de Carnaval desse ano aconteceu
em 13 de Fevereiro.
Estranhamente não se encontra, em edições futuras da
imprensa da época, qualquer relato ou referência a esse mesmo desfile.
Existem mutas informações sobre o Carnaval desse ano,
nenhuma sobre esse anunciado desfile, que apenas sabemos que se realizou por
relatos futuros, de tradição oral ou publicada noutros anos, sobre o que
aconteceu em 1923.
De facto, percorrendo as páginas do dito semanário torriense,
publicadas na véspera ou nas semanas a seguir ao Entrudo desse ano, as
referências que encontramos nada referem sobre o assunto. De notar que as
edições de “O Torrense” de 11, 18 e 25 de Fevereiro desse ano, onde se relata o
que se passou no Carnaval desse ano, desapareceram, misteriosamente, da
colecção desse periódico existente na Biblioteca Municipal de Torres Vedras.
Felizmente esses números podem ser consultados na hemeroteca da Biblioteca Nacional
de Lisboa.
Na sua edição de 11 de Fevereiro apenas se refere que a
“quadra carnavalesca nesta vila tem passado despercebida, a não ser nas
sociedades de recreio onde se anda em preparativos para os três dias de festas
por exelencia”, anunciando que nas “referidas sociedades, durante os três dias,
haverá bailes e numerosas variedades, alguns dos quaes de êxito seguro”. É nos
ditos “preparativos” que devemos enquadrar a anterior referência à recepção do
rei do Carnaval anunciada para 5 de Fevereiro. Mas, á posteriori, não
encontramos qualquer noticia que refira a dita recepção.
Pelo contrário, na sua
edição de 25 de Fevereiro, aquele semanário local refere que o “Carnaval este
ano decorreu nesta vila insípido e sensaborão, principalmente nas ruas”, aos
contrário das “Cazas de recreio”, onde “houve baile e outros divertimentos
durante as três noites, que decorreram com um tal ou qual animação, embora
muito inferior à dos anos anteriores”.
Do programa carnavalesco realizado nas colectividades
locais, destaca a “representação, por alunos da Escola Secundária, duma peça da autoria do Snr. José
do Nascimento Neves, professor deste estabelecimento de ensino”, embora se
refira à representação da peça como “uma verdadeira desilusão”, de uma
“extraordinária banalidade”. Ao jornal terá desagradado especialmente o
“julgamento que o autor fez exibir no 2ª acto”, principalmente “o julgamento de
O Torreense”. De positivo, o citado articulista refere “as artísticas e lindas
ornamentações dos salões de baile do Grémio e da Tuna”.
Mas aquela que é a mais curiosa referência ao Carnaval desse
ano é a um desfile de “um cortejo” em Dois Portos “parodiando a procissão dos
passos”, situação muito criticada nas páginas do dito semanário “O Torreense”
de 25 de Fevereiro: “Custa a crer que tal cortejo não fosse proibido (…). O
cortejo a que vimos de aludir constitui para os católicos uma afronta”, tanto
mais que a verdadeira Procissão dos Passos desse ano tinha sido proibida pelas
autoridades.
Seja como for, foi esse Carnaval de 1923 que deu inicio a um
caminho que nos levou até ao Carnaval actual, para além de contribuir, com já
referimos, para a "fusão" e "síntese" de várias
caracteristicas do Carnaval, o mais antigo, o rural, o urbano, o de salão e o
que se fazia em muitos sítios, de Nice a Lisboa ou Coimbra e até no Brasil (curiosamente, este último
foi influenciado pelo Carnaval português, fundindo-se com as origens africanas
de grande parte do seu povo).
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