terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Recordar Leonel Trindade, “revisitando” o Castro do Zambujal


Passam este ano vinte cinco anos sobre o falecimento de Leonel Trindade.

Foi a 4 de Janeiro de 1992 que essa figura incontornável da vida cultural torriense nos deixou, aos 88 anos.

Leonel Trindade ficou especialmente conhecido pelas suas importantes descobertas arqueológicas na região, sendo uma das grandes referências da arqueologia portuguesa.

Devemos a Cecília Travanca a mais completa biografia daquela personalidade torriense, pelo que aconselhamos vivamente a leitura desta obra (1).
 
Não é nossa intenção traçar aqui o perfil de Leonel Trindade mas, em sua homenagem, revisitar aqui um dos seus contributos mais importantes para a história e a arqueologia nacional, a descoberta e exploração arqueológica do Castro do Zambujal, sendo o arqueólogo torriense coautor de sete textos fundamentais sobre esse lugar (num conjunto de vinte e duas obras que publicou, em coautoria com alguns dos mais importantes arqueólogos portugueses e estrangeiro que por cá trabalharam, sobre a arqueologia da região) .

Esta importante estação arqueológica foi descoberto por Leonel Trindade em 1938,  responsável pelas primeiras escavações em 1944, às quais se seguiram outras em 1959 e 1960, acompanhando-o, nos dois últimos anos, o Dr. Aurélio Ricardo Belo. Foi então convidado o Instituto Arqueológico Alemão a continuar esse trabalho, o que aconteceu entre 1964 e 1973, período durante o qual se efectuaram sete campanhas de escavações orientadas por E. Sangmeister, H. Schubart e W. Huebener .

Nos anos seguintes foi estudado, por aquele Instituto, o espólio e o conjunto de informações obtidas naquelas escavações, distinguindo-se nesta fase o trabalho do arqueólogo Dr. Michael Kunst, que tem liderado as escavações mais recentes.

 
O Castro do Zambujal foi declarado Monumento Nacional pelo Decreto 35817 de 20/8/1946.

O nome de Zambujal “deriva sem dúvida, de uma mata de zambujos (...) uma espécie de oliveira silvestre, que existia em tempos no local e dos quais alguns exemplares ainda se vêem vegetando nos arredores, sendo outros aproveitados para neles se enxertarem oliveiras, tal como ainda hoje se pode observar num centenário olival que existe no sopé do monte onde está situado o castro”  (2) .

O “Castro” terá sido ocupado entre 2500 aC. e 1700 aC e o local terá sido escolhido por razões estratégicas:

”Não sendo a maior elevação da cadeia montanhosa a Este da Ribeira de Pedrulhos, ficam-lhe por trás os pontos mais altos, encobrindo-a de quem se aproxima vindo de Oeste. Ao escolherem este local relativamente afastado da costa (...), os seus habitantes tinham a vantagem de avistarem o mar e a desembocadura do Rio Sizandro sem que pudessem ser observados” (3).

Sabe-se também pelas “ datações de C14 efectuadas em conchas provenientes dos sedimentos marinhos (…) que, durante o Calcolítico, se estendia um braço de mar até à actual aldeia de Ribeira de Pedrulhos. No entanto, ainda é desconhecida a amplitude total deste braço de mar, principalmente no vale do rio Sizandro. A distância que separava o Zambujal  desta baía era somente de cerca de 1 Km, mantendo-se assim até à fase 4 da construção. Uma rápida sedimentação, provocada por uma forte erosão, provocou o desaparecimento gradual deste braço de mar. Provavelmente, a diminuição da área do povoado, referente à fase 5 da construção, teve a ver com este fenómeno.”(4).

Os vestígios de fortificações revelam-nos uma das principais características deste “castro”:

Os  “construtores  da fortificação desconheciam o método de travar muros, encostando as novas muralhas contra as anteriores. Do mesmo modo, eram os muros assentes no solo original, por vezes sobre rocha viva, mas também em camadas formadas por anteriores derrubes de muros ou mesmo adobe de casas.” (5).

Quando foi abandonado, por volta de 1700 aC., era um gigantesco e complexo conjunto, composto por quatro linhas de defesa ( esta quarta linha só recentemente foi descoberta (6)).

“O núcleo deste conjunto é uma fortificação circular com aproximadamente 40 metros de diâmetro interior, cujos muros chegam a atingir a espessura de 15 metros. Aparentemente, o topo destes muros serviria de plataforma sobre a qual os defensores se moviam livremente, aproveitando as vantagens da linha defensiva interior.

“Da muralha sobressaem bastiões semi-circulares, pouco distanciados e cobertos por cúpulas, a cujo interior as plataformas dariam acesso. Supomos que estas dispunham de seteiras, de modo a ser possível atirar sobre o inimigo de uma posição perfeitamente protegida. Um corredor, de apenas um metro de largura, conduz ao núcleo fortificado, atravessando a muralha num ponto em que esta atinge o 13 metros.

“Para oriente, a uma distância de 8 a 10 metros da fortificação central, corre uma segunda linha defensiva com uns dois metros de espessura e reforçada igualmente com bastiões semi-circulares

“A Este, e a cerca de 30 metros da Segunda linha, numa zona mais alta do terreno, encontra-se a terceira linha defensiva (...)” (7).

Conhecendo-se bem o sistema defensivo do Castro pouco se sabe sobre o seu povoado, devido à construção do Casal do Zambujal, “que veio a destruir o espaço interior da fortificação central até à rocha: todas as pedras utilizadas na construção do casal procedem da fortaleza”(8).

Actualmente já se comprovou a existência de cinco sistemas de construção:

“Os “sistemas de construção” resultaram de conceitos estratégicos diferentes (...). Todos os sistemas têm em comum o seguinte: uma cidadela central (...) que se encontra num esporão rochoso, é rodeado por cinturas amuralhadas mais ou menos concêntricas e possivelmente abertas para a escarpa do esporão” (9).

São as seguintes as principais características dessas fases de ocupação:

Fase de construção 1 – “Defesa em compartimentos (“labirinto). A fortaleza era dividida em pátios rodeados por muros autonomamente defendidos, para assim dividir o inimigo em pequenos grupos”;

Fase de construção 2 – “Defesa tipo “Causeweyed Camps”. Este sistema, completamente diferente do anterior, baseava-se em pátios com seteiras que defendiam portas do muro em frente, por onde podia passar uma só pessoa de cada vez”;

Fase de construção 3 – “Defesa com movimento sobre plataformas elevadas. Caracterizado pelo fecho e enchimento dos pátios anteriores, com grandes pedras e terra, de forma a constituirem-se plataformas elevadas onde os defensores se podiam movimentar com facilidade e melhor visualizar os movimentos do inimigo. Este sistema dava grande mobilidade à defesa, permitindo acorrer rapidamente onde ela fosse necessária”;

Fase de construção 4 – “Defesa com cobertura de flancos com torres ocas, elevadas, mas acrescido por torres ocas no exterior dos muros, de forma a permitir melhor cobertura dos flancos”;

Fase de construção 5 – “Possivelmente  abandonou-se a terceira linha da fortificação. As duas linhas mais interiores foram de novo reforçadas. Na linha II são visíveis pequenas entradas num nível mais elevado. Está-se, agora, em plena Idade do Bronze.” (10).

Correspondendo à fase 2, um dos poucos vestígios actualmente visíveis é o chamado “Barbacã”: “Na campanha de escavações de 1968 foi encontrado um pátio semi - circular, que continha ainda conservadas algumas paredes até uma altura de cerca de 4 metros (...). Na época da sua escavação chamou-se ao pátio “barbacã”. A sua parede a Leste contém aberturas que se interpretaram como uma pequena porta e seteiras, pois a elas correspondem pequenas portas na Segunda linha  de defesa (...). Estas portas são tão estreitas que só permitiam a entrada a um agressor de cada vez (...); no entanto este podia ser alvejado pelas setas dos guerreiros que se encontravam no interior da barbacã (...).

“Assim, fica claro que não se trata na verdade de uma barbacã, mas sim de um sistema  de defesa do tipo das construções neolíticas, chamadas “Causewyed Camps” por G. Childe (...)” (11).  

Não se prova “ a hipótese de terem sido navegantes do mediterrâneo Oriental que construiram estas fortificações, com o fim de as usar como feitorias, para assim dominarem as áreas adjacentes e controlarem as prospecções, produção e comércio do cobre, assumindo o poder. Também poderia ter acontecido que relações comerciais marítimas (directas ou indirectas) fizessem com que uma população indígena iniciasse a extracção do cobre, acumulando assim  uma riqueza, que a levasse a construir fortificações e a evoluir para novas formas de vida urbana e social. Ambas as soluções são possíveis, a partir de idênticas fontes tal como a possibilidade de terem existido outras formas intermediárias, diferentes de lugar para lugar. Não se podem negar, porém, as inovações que surgem com o Zambujal e estruturas aparentadas, a par de semelhanças de certos elementos com outros existentes no mediterrâneo Oriental.”(12).

“A sua localização pode (...) depender de factores antropogeográficas, mais do que de condições naturais” (13).

Para  Sangmeister e para Schubart, a posição do “Castro” é principalmente estratégica. Existem, contudo, “num círculo de cerca de 10 Km à volta do local “ onde se situa o Castro “vários locais que teriam sido igualmente favoráveis, ou até mesmo mais, em termos estratégicos”, como a área do vale do Sizandro entre Torres Vedras e Runa, com importantes recursos minerais e elevado potencial agrícola. Nesta área existem zonas que foram povoadas no tempo do Castro do Zambujal, como o Castro da Fórnea, o povoado do Penedo e a gruta sepulcral de Cova da Moura, denotando contudo povoados menos importantes que o Zambujal.

“Há evidência indirecta de que o comércio deve ter sido a fonte de riqueza óbvia do Zambujal (...)”. Nem “ os recursos locais de minerais, nem o potencial agrícola dos seus arredores podem ter sido a razão do poder económico do Zambujal. Há apenas um aspecto do seu meio circundante que é único nesta parte do Centro da Estremadura: o castro encontrava-se muito perto de um perfeito porto natural.

“Partindo do principio de que  a proximidade deste porto natural foi o factor macro-ambiental decisivo para a localização do povoado, os factores micro-ambientais para a sua fixação específica são mais fáceis de compreender. Há vários contrafortes de montanha de localização estratégica comparável, ainda mais próximos do antigo estuário, mas nenhum deles oferece um recurso local de pedra sólida pronta para usar como matéria prima de construção. As lajes de calcário arenoso, com que o castro foi construído, surge apenas numa estreita  faixa que se estende desde Torres Vedras, passando pelo Varatojo, até ao Zambujal, onde se aproxima ao máximo do antigo estuário do Sizandro. Mais próxima do rio, esta pedra calcária é revestida por uma pedra macia, quase arenosa, que não é boa para uso em alvenaria. O único outro local de onde as lajes, para edificar uma fortificação, poderiam ser extraídas junto à foz do Sizandro, nas arribas da costa.

“Uma localização na própria costa teria tido um grande número de desvantagens”, de entre elas, a exposição a piratas e inimigos vindos do mar e razões climatéricas.

Mas a “maior desvantagem de um local na costa actual seria (...) também antropogeográfica. Um porto é sempre um entreposto entre diferentes tipos de transporte. Num porto comercial florescente os transportes marítimos devem estar em conexão com estradas eficientes, que conduzam às áreas de produção ou consumo das mercadorias embarcadas. Um lugar da costa actual  teria sido marginal a qualquer das áreas descritas anteriormente como favoráveis”(14).

Existem vestígios que comprovam a importância da metalurgia para a economia do castro. “O cobre deve ter constituído o factor mais importante da economia  deste lugar” .

As casas de planta oval “apresentam um socalco de pedra sobre o qual se elevava uma cúpula feita de adobe (...). No interior das casas foram encontradas fogueiras não apenas para cozinhar.”

“São dois os casos em que várias fogueiras se agrupam em círculo, ao redor de uma estrutura plana, de barro, com os bordos elevados, tendo sido recolhidas nestas mais de 200 gotas de cobre fundido e, a redor das fogueiras, minúsculas gotas (tal como as que saltam quando se verte metal fundido) foram igualmente detectadas” (15).Nessas mesmas fogueiras surgiram também grãos de trigo carbonizados, o que parece indicar a sua utilização para fins culinários, pelo que se pode concluir que o cobre era fundido em indústrias caseiras.

“Para todo o período de ocupação do povoado (...) está documentada a metalurgia por vestígios de instalações destinadas à fundição do cobre” (16).

O cobre era importado, trazido de longe, “pois na zona não há notícia de jazidas de cobre. Supõe-se que o minério era fundido em pequenas quantidades, com carvão vegetal, procedendo-se logo à conversão do metal recém-obtido em barras e outros objectos.

“Há apenas um recurso destes [ minério de cobre] próximo do Zambujal. Trata-se de uma jazida de malaquite (...) que vêem à superfície próximo de Matacães, a pouco menos de duas horas a pé do Zambujal, seguindo o vale do Sizandro. A área é precisamente a Norte da bacia de Runa”, onde existia uma fonte de sílex. “Não existem ainda indicações de que tenha sido feito qualquer uso, durante o calcolítico, do minério de cobre de Matacães, mas a sua simples existência é um factor importante para a compreensão da paleo-economia da área.

“Devido à concentração de diversos minerais de uso potencial, a área à volta de Runa e Matacães, no vale médio do Sizandro, constituiu uma região privilegiada no que se refere a recursos abióticos. Não obstante, o Zambujal como o maior povoado calcolítico nesta região estava situado ainda a uma certa distância daquela área, num meio que não possuía nenhuns minérios úteis no seu limite de alcance imediato”(17).

A proximidade de jazidas de cobre do local do castro pode ter sido importante na determinação da sua localização.

Por outro lado, a utilização de outros recursos minerais, como o sílex, o basalto e o grés, não teria sido determinante, segundo UERPMANN. Estes minérios terão sido obtidos a alguma distância do castro:

“A bacia de Runa, que fica a 7 Km. em linha recta, ou a duas horas de caminho a pé do Zambujal, foi utilizado pelos habitantes do calcólitico como uma área de recurso. Há apenas um outro recurso de sílex a uma distância mais próxima do local: os depósitos plistocenicos de praia, os declives a Norte  do vale inferior do Sizandro, que contêm seixos de quartzito de granulação fina, de má qualidade para talhe, mas que foram usados no Zambujal como percutores (...).

“Entre os minerais mais frequentes usados para o fabrico de instrumentos no Zambujal, o basalto é o mais acessível, situando-se a uma distância de cerca de 30 minutos a pé (...) ( surgem em vales tifónicos e noutros locais a Sul do Sizandro, entre a costa próxima da Praia de Assenta, a ocidente, e a bacia de Runa a Oriente).

“Os grés do Cretácio Inferior, usados no castro para o fabrico de algumas mós, poderiam ser  quase considerados “locais”, embora tivessem sido trazidos de uma distância de pelo menos 3 Km, dos montes a Norte do Sizandro”(18) .

Foram encontrados vários objectos que revelam os contactos comercias do Castro do Zambujal: objectos em marfim, cuja matéria-prima era importada do Norte de África; “os cilindros e agulhas de osso poderão ter  sido produzidos no povoado, mas apresentam uma assombrosa semelhança com os correspondentes objectos egípcios e do Mar Egeu; as vasilhas de pedra calcárea e de alabastro são muito semelhantes às que se conhecem do Próximo Oriente” ” (19).

Outro “artigo exótico pode ter sido o diorito, utilizado no fabrico de contas, e as grandes quantidades de rocha anfibolítica importada para o fabrico de instrumentos”, esta, provavelmente, importada do rio Sado. Também o vinho pode ter sido importado

Com base no levantamento arqueológico do lugar podemos indicar como actividades existentes no castro: cerâmica, metalurgia, moagem, tecelagem, agricultura, criação de gado (vacas, cabras, porcos e ovelhas), comércio, caça, pesca, actividade militar.

Nas escavações efectuadas foram recolhidos cerca de 160 000 fragmentos de cerâmica. Existem  três grupos característicos dessa cerâmica : Campaniforme, decoração do tipo “folhas entalhadas” e “copos cilíndricos” (20).

É “seguramente correcto relacionar as pontas de projéctil com uma componente militar, nas indústrias de pedra das fortiicações calcolíticas. Isto terá tido também os seus reflexos no estilo de vida dos habitantes. A ideia de uma forte componente militar no campo sócio-económico das fortificações calcolíticas não é nova e é ainda favorecida pelo esforço bem visível despendido na fortificação dos povoados (...).

“Com base na ausência de instrumentos para a ceifa, devemos assumir que a maior parte do grão transformado nas mós encontradas no Zambujal, foi obtido por uma população agrícola  que habitava fora do povoado”(21).

As condições do vale frente ao castro não seriam na época favoráveis à agricultura, por ser alagadiço. Quanto aos declives acima do Zambujal, embora não se lhes possa negar “um certo potencial agrícola, a zona, no seu conjunto, não pode ser considerada excelente para a agricultura”, pelo que “o potencial agrícola local não pode ter sido muito importante para o desenvolvimento do povoado”(22).

Quanto à alimentação dos seus habitantes, além da que tinha origem na agricultura e pecuária, foram encontrados vestígios de que os seus habitantes se alimentavam igualmente da caça (carne de veado, de auroque, de javali, de cavalo, de coelho, aves) e também de peixe, moluscos, caracóis e, com menos frequência, de corço, lebre e baleia.

Com a farinha dos cereais (trigo e cevada), produziam farinha, papas e pão. Encontraram-se ainda vestígios de favas, sementes de linho, azeitonas e videiras.

“No que diz respeito ao sector animal da economia de subsistência do Zambujal, a alta proporção de porcos nos vestígios ósseos encontrados indica um uso extensivo das florestas de carvalho, que devem ter coberto grandes áreas da Estremadura, durante o Calcólitico. O mesmo nicho ecológico terá sido utilizado para a criação de gado bovino, que constituiu o recurso mais importante de carne no castro”(23) .

Embora menos significativa, a criação de ovelhas e cabras era usada para obter leite e, no caso das ovelhas, também, provavelmente, para a obtenção de lã.

“Deve ser dada uma atenção especial ao facto de terem sido encontrados no Zambujal esqueletos de cavalo” não se sabendo se eram selvagens ou domésticos.

“No que se refere à localização do Zambujal, o sector animal da sua economia não foi factor de pressão para a escolha do local.

“O único sector de uma economia de subsistência de base animal, que depende até certo grau da localização, é a pesca e a recolha de moluscos. A razoável quantidade de vestígios de animais marinhos encontrados no Zambujal é surpreendente, num local que fica, pelo menos, a duas horas a pé da costa actual. Contudo, com um estuário a invadir a zona inferior do Vale do Sizandro até à área da Ponte do Rol e, talvez mesmo, até à confluência com a Ribeira de Pedrulhos, o Zambujal torna-se um povoado costeiro. Este facto é de extrema importância para a ecologia do castro, embora não em termos da sua subsistência” (24).

Existem vestígios que nos permitem descrever com alguma fidelidade qual seria o meio ambiente envolvente do castro: “Encontraram-se ossos de pequenos mamíferos (toupeiras de água, rato cabrera), indicadores de um meio-ambiente mais húmido do que o de hoje (...).

“Como o indicam determinados ossos de animais selvagens, restos carbonizados de madeira e cortiça e sementes de plantas, a vegetação que rodeava o Zambujal devia ser principalmente uma floresta composta por pinheiros e árvores como o carvalho e o sobreiro, ainda existentes na mata do Convento do Varatojo. “Restos de madeira de freixos, lodão e , sobretudo, de amieiro e choupo, indicam a presença destas espécies nas margens dos rios.

“Estas matas abrigavam um grande número de animais para caça, como o auroque, a corça, o veado e o javali, e ainda animais predadores, como o lince, o gato bravo, o urso, o lobo, a raposa, a doninha e o texugo.

“Nas escarpas rochosas havia mato rasteiro, como o que ainda existe hoje nas áreas não cultivadas  à volta do Zambujal, indicado pelos achados de pistácia, espinheiro alvar, Sistus spec. (provavelmente roselha) e pelos ossos de pequenos pássaros, perdizes, lebres e coelhos.

“As tetrazes e abetardas habitavam em pradarias ou estepes, sendo ambas as espécies  bons indicadores de que naquela época já havia grandes planícies de campo aberto nos locais mais elevados”(25).

Por razões de segurança e preservação do lugar, penas uma pequena  parte dessa extensa povoação é visível aos que queiram visitar o lugar.

Quem quiser aprofundar o conhecimento sobre a importância desse povoado pode faze-lo, não só consultando alguma da bibliografia aqui referida, como visitando a excelente exposição que está patente no Museu Municipal Leonel Trindade até o final do próximo mês de Junho.

 

BIBLIOGRAFIA

(1)    – TRAVANCA, Cecília, Reconhecer Leonel Trindade, ed. Cooperativa de Comunicação e Cultura, T. Vedras, Outubro de 1999;

(2)    – in SCHUBART, Hermanfrid, e SANGMEISTER, Edward, TRINDADE, Leonel Escavações no Castro Eneolítico do Zambujal (Torres Vedras – Portugal) 1964, ed. CMTV, T. Vedras, 1966, pág 3;

(3)    – in SCHUBART, Hermanfrid, e SANGMEISTER, Edward, Zambujal – povoado fortificado da Idade do Cobre, ed. CMTV, T. Vedras, 1987;

(4)    –in  KUNST, Michael (org. e textos), Zambujal – Exposição comemorativa dos 20 anos do Instituto Arqueológico Alemão em Portugal – catálogo da exposição, CMTV, Torres Vedras 1992, pág. 27;

(5)    –in  SCHUBART e SANGMEISTER, ob. Cit., (1987);

(6)    –KUNTS, Michael, “Zambujal (Torres Vedras, Lisboa) – ralatório das escavações de 2001”, in Revista Portuguesa de Arqueologia, Vol. 10, nº 1, 2007, pp.95-118;

(7)    – in SCHUBART e SANGMEISTER, ob. Cit, (1987);

(8)    –in SCHUBART e SANGMEISTER, ob. Cit. (1987);

(9)    – in KUNST, Michael, As cerâmicas decoradas do Zambujal e o faseamento do Calcolítico da Estremadura Portuguesa, separata de  Estudos Arqueológico de Oeiras, nº 6, pp.257-286, Ed. C.M. Oeiras, 1996, págs. 257 e 258;

(10)                       –in KUNTS, Michael, ob.cit.  (1992), pp. 22 e 23;

(11)                       -in KUNST, ob. Cit. (1992), pág.23;

(12)                       – in pág. 20 de  SCHUBART, Hermanfrid, “As Escavações do Zambujal – Retrospectiva e planificação” in KUNST, Michael (coord.), Origens, Estruturas e Relações das Culturas Calcolíticas da Península Ibérica, Actas das I Jornadas Arqueológicas de Torres Vedras, 3-5 Abril 1987, Trabalhos de Arqueologia 7, IPPAA, Lisboa 1995, pp. 17 –20;

(13)                       – in pág. 51 de UERPMANN. Hans-Peter, “Observações sobre a ecologia e economia do Castro do Zambujal”, in KUNST, Michael (coord.), Origens, Estruturas e Relações das Culturas Calcolíticas da Península Ibérica, Actas das I Jornadas Arqueológicas de Torres Vedras, 3-5 Abril 1987, Trabalhos de Arqueologia 7, IPPAA, Lisboa 1995, pp. 47-53:

(14)                       –in UERPMANN,  Hans-Peter,ob. Cit. (1987), pp.51-52);

(15)                       – in SCHUBART e SANGMEISTER, ob. Cit., (1987);

(16)                       – in  KUNST, ob. Cit. (1996), p.258;

(17)                       -  in UERPMANN, Hans-Peter, ob. Cit. (1987), p. 48;

(18)                       – in UERPMANN,Hans-Peter,  ob. Cit., (1987), p.47);

(19)                       – in  SCHUBART e SANGMEISTER, ob.Cit. (1987);

(20)                       – in KUNST, Michael, “Cerâmica do Zambujal – Novos resultados para a cronologia da cerâmica calcolítica”, in KUNST, Michael (coord.), Origens, Estruturas e Relações das Culturas Calcolíticas da Península Ibérica, Actas das I Jornadas Arqueológicas de Torres Vedras, 3-5 Abril 1987, Trabalhos de Arqueologia 7, IPPAA, Lisboa 1995, pp.21-30;

(21)                       – in pág. 41,  UERPMANN, Margarethe, “A indústria da pedra lascada do Zambujal”, in KUNST, Michael (coord.), Origens, Estruturas e Relações das Culturas Calcolíticas da Península Ibérica, Actas das I Jornadas Arqueológicas de Torres Vedras, 3-5 Abril 1987, Trabalhos de Arqueologia 7, IPPAA, Lisboa 1995, pp.37-44;

(22)                       – in UERPMANN, Hans-Peter, ob. Cit., (1987), p.48);

(23)                       - in UERPMANN, Hans-Peter, ob. Cit. (1987), p.50);

(24)                       – in UERPMANN, Hans-Peter, ob. Cit. (1987), p.50):

(25)                       – in KUNST, ob. Cit. (1992), p.25.

Ler Também:

-              FERREIRA, Octávio da Veiga, La culture du vase campaniforme au Portugal,  tese de doutoramento apresentada  à Faculté des Sciences de l’Université de Paris, Lisboa  1966.

-              GONÇALVES, João Ludgero Marques, “O Castro da Fórnea (Matacães-Torres Vedras)”, in KUNST, Michael (coord.), Origens, Estruturas e Relações das Culturas Calcolíticas da Península Ibérica, Actas das I Jornadas Arqueológicas de Torres Vedras, 3-5 Abril 1987, Trabalhos de Arqueologia 7, IPPAA, Lisboa 1995, pp.123-140.

-              HOFFMANN, GERD e SCHULZ, Horst, “Cambio de situación de la línea costera y estratigrafía del holoceno en el valle del río Sizandro/Portugal”, in KUNST, Michael (coord.), Origens, Estruturas e Relações das Culturas Calcolíticas da Península Ibérica, Actas das I Jornadas Arqueológicas de Torres Vedras, 3-5 Abril 1987, Trabalhos de Arqueologia 7, IPPAA, Lisboa 1995, pp.45-46.

-              JIMÉNEZ GÓMEZ, María de la Cruz, “Los amuletos en el Eneolítico portugués: Zambujal”, in KUNST, Michael (coord.), Origens, Estruturas e Relações das Culturas Calcolíticas da Península Ibérica, Actas das I Jornadas Arqueológicas de Torres Vedras, 3-5 Abril 1987, Trabalhos de Arqueologia 7, IPPAA, Lisboa 1995, pp.31-36.

-              KUNST, Michael (coord.), Origens, Estruturas e Relações das Culturas Calcolíticas da Península Ibérica, Actas das I Jornadas Arqueológicas de Torres Vedras, 3-5 Abril 1987, Trabalhos de Arqueologia 7, IPPAA, Lisboa 1995.

-              KUNST, Michal, und TRINDADE, Leonel Joaquim, Zur Besiedlungsgeschichte des Sizandrotals,  Madid, 1990.

-              PAÇO, Afonso do e TRINDADE, Leonel, Subsídios para uma carta arqueológica do concelho de Torres Vedras, separata do “Arquivo de Beja”, vol.XX-XXI, 1963-1964, ed. Minerva Comercial, Beja, 1964.
(um resumo deste texto foi publicado na secção Vedrografias do Jornal Badaladas, na edição de 27 de Janeiro de 2017)

 

 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

A “CHEIA GRANDE” de 7 de DEZEMBRO DE 1876

(Uma Cheia em Torres Vedras nos anos 40, na "várzea" - Foto Estúdio)

Até há poucos anos, antes das grandes obras de regularização do rio Sizandro, realizadas depois da catástrofe de 1983, a zona baixa de Torres Vedras sofria quase todos os anos, pelo inverno, o incómodo das cheias, umas maiores que outras. Aquela que ficou na memória colectiva por mais tempo foi a chamada “Cheia Grande” de 7 de Dezembro de 1876.

Teve origem na forte precipitação que se registou em todo o país, tendo originado a maior cheia histórica do rio Tejo, com um caudal que só seria ultrapassado em 1997, e que foi a mais devastadora de sempre na região do baixo Tejo (1). Nesse dia também o rio Guadiana registou  a maior cheia da sua história.

Em Torres Vedras o rio Sizandro atingiu um nível de cheia nunca visto anteriormente e que foi um dos maiores até 1983. A situação que então se viveu neste concelho foi referida por  vários autores coevos, como Pinho Leal:

 “(…) Ainda com os temporaes do inverno de 1876, [o rio Sizandro] cresceu tanto, que causou graves prejuïzos nas terras das suas margens . Em 30 [?] de dezembro  d' esse anno, se viu passar pelos sitios da Ponte do Rol , uma cavalgadura morta , arrastando, preso por um pé ao estribo , um homem tamb6m morto.

“As chuvas torrenciaes do inverno de 1876 causaram grandes prejuizos n’esta villa.

“0 Sizandro, que muitas vezes secca completamente na estiagem, cobriu de agua todas as varzeas das suas margens.

“Todas as casas na baixa da villa  foram abandonadas . A gente pobre foi recolhida no hospital , onde lhe deram alimento e agasalho. Muitos habitantes foram salvos às costas por pessoas dedicadas e transportados em carros para sitio seguro. Andaram empregados n’este serviço , sete carros, generosamente emprestados por varios particulares. Os empregados da administração do concelho foram salvos do mesmo modo.

“Houve scenas afflitivas . No largo da egreja de S . Miguel , ha umas barraquinhas que serviam de abrigo a uma pobre gente. Quando lhe accudiram dava-lhe já a agua pelos peitos . Imagine-se a sua afflicção.

“Os prejuizos foram grandes em vinho , azeite, milho , etc . 0 campo da Feira Nova, às portas da Varzea, ficou todo inundado, padecendo immenso os numerosos armazens que alli há . No lagar do sr. Augusto Miranda, a cheia fez grande destroço; a rua da Olaria , onde elle esta estabelecido, parecia um rio de azeite. No armazem do sr. Fivelim, na rua Nova , os cascos e pipas de vinho andaram boiando. A agua n’esta rua chegava à bocca do forno de pão que aIli há .

“Ameaçavam ruina varias casas, entre outras a do sr. João dos Reis , edificada recentemente , onde morava o Sr. Schiappa, conductor das obras publicas ; a do medico, o Sr. dr . Mauricio, etc .

“Estas inundaçoes teem-se repetido com frequencia, todas as vezes que o Sizandro, de humilde ribeiro, se torna um rio furioso, sahindo do seu leito  alagando as suas margens, e causa de grandes destroços e ruinas .

“Em 1876, subiu em alguns pontos a altura de trez metros .

“O lençol d' agua estendia-se pelas varzeas do Arial , Ramalhão, Maxial e Ermigeira até Villa Verde, n’uma extensão de cerca de 15 kilometros ; proximo d’esta ultima povoação morreu afogado um rapaz que andava apascentando gado.

“A importante povoação da Merceana , situada ao sul e nas faldas da serra de S . Matheus, esteve prestes a submergir-se .

“Na estrada que vae de Monte Redondo para a Ermigeira , abateu o muro da tapada da quinta das Lapas, n' uma grande extensao, ficando impedido o transito.

“Na quinta de Ermigeira, propriedade do sr. visconde de Balsemão, foi completamente destruido um importante encanamento de agua na extensao de 500 metros”(2) .

António Batista da Costa, autor de uma monografia manuscrita inédita, “Memórias de Torres Vedras”, escrita no inicio do século XX, também escreveu, de memória, sobre o efeito da cheia de 1876, classificando-a como a “maior cheia que visitou Torres Vedras, desde de tempos conhecidos (…)”, descrevendo os seus efeitos:

“Toda a vila baixa fôra inundada, chegando a agua à Praça do Município, a S. Pedro, ao Largo do Rozario, etc, etc.

“Foi no sitio denominado a Porta da Varzea, onde a agua atingiu a sua maior altura, correndo risco a vida d’algumas famílias que ali moravam, as quaes foram salvas  pelo benemérito cidadão Victorino Pereira da Costa, que então exercia o cargo de Secretário da Administração do Concelho, e outros cujos nomes não me ocorre.

“Muitas creaturas reciosas de que a cheia aumentasse e tomasse outras proporções invadindo as suas habitações, por quanto a noite continuava sob o mesmo aspecto tempestuoso, abandonaram-nas , ouvindo-se ais e gritos  de angustia e de aflição que, ecoando por entre o sussurro murmurado e patético das aguas, causava um certo pavor, ainda aos mais animosos. Essa gente deveras apavorada com o aspecto tenebroso que a cheia ía tomando, pois que até às 2 da madrugada ainda chovia torrencialmente, dirigiu-se ao Hospital [da Misericórdia, junto à Igreja da mesma instituição], afim de ali encontrar guarida, a qual lhe fôra pronto e generosamente dada pela sua ilustre direcção, ficando ali umas três noites”.

O autor refere que, “na actualidade”[por volta de 1915] “esse mal”, das inundações do Sizandro que invadiam a zona baixa da vila, “desapareceu um pouco”, dado que se tinha procedido a sucessivos aterramentos , “atingindo n’alguns pontos a altura de 2 metros, pouco mais ou menos” (3).
(Cheia na "Corredoura" em 1943 - Fotografia de Emílio Costa) 
Aliás, logo nos dias a seguir à trágica cheia, o executivo camarário tomou medidas para atenuar a situação, convidando “o conductor d’obras Publicas Jorge Arthur Scchiappa Monteiro para estudar o meio de evitar que as aguas , que caém dos montes do sudueste desta villa, atravessem esta”, e dirigindo “uma representação ao Governo de Sua Magestade pedindo-lhe a Egreja de S. Miguel e casas juntas, que estão em completa ruina para tudo ser demolido, a fim do material ser aproveitado tanto no atterro da parte mais baixa do citio de S. Miguel como na ponte e outras obras que são de urgente necessidade fazer-se junto ao rio Sizandro, próximo à mesma Egreja” (4).

Dias depois, o mesmo executivo, “considerando o imenso prejuízo que soffre a rua da Olaria, pelo facto de por ella passar em caudaloza torrente a agua que corre das montanhas a sudueste da villa; e reconhecendo a impreterível necessidade do seu imediato desvio, deliberou convidar o Ill.mo Sr. Francisco de Borja, a fim deste cavalheiro declarar se consentia que pella sua propriedade da Graça se effectuasse aquelle desvio d’aguas” tendo esse proprietário anuído “com condição” de ser indemnizado pela câmara  “dos prejuízos que sofresse, o que esta  acceitou”(5).

Fica aqui retratado, em jeito de reportagem, um dos acontecimentos mais marcantes registado na memória colectiva dos habitantes de Torres Vedras.

1 – ver LOUREIRO, João Mimoso, “Rio Tejo –As Grandes Cheias – 1800-2007”, colecção Tágides, ed. ARH do Tejo, Lisboa 2009 (versão disponível na internet);

2 - LEAL, Pinho, “Sizandro” in PORTUGAL ANTIGO E MODERNO vol . IX, 1880 pp . 405 ; 661—662;

3 – COSTA, António Batista, “Memórias de Torres Vedras”, manuscrito inédito, AMTV, [1915?], folhas 15 e 16;

4 – Livro de Actas da Câmara, sessão de 9 de Dezembro de 1876, ff170 e170v;

5  Livro de Actas  da Câmara, sessão de 26 de Dezembro de 1876, f.171 verso.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Uma Praça no “centro” de Torres Vedras


Durante séculos, até meados do século XIX, a “Praça do Município” foi um dos largos mais movimentados de Torres Vedras, talvez mesmo o “centro” da vida local.

Ainda na segunda metade do século XIX os anotadores de Madeira Torres confirmavam a sua importância, referindo  ter  “esta villa a sua praça no centro, ainda que pequena, segundo o costume das terras antigas” (1).

 Muitos outros largos existiam na então vila, mas sem a importância daquele, posição que seria apenas disputada pelo Largo em frente à Igreja de S. Pedro.

Essa centralidade só lhe terá sido arrebatado pelo popularmente conhecido “Largo da Graça” em finais do século XIX.

Um dos aspectos que contribuiu para a importância do Largo do Município foi o facto de aí se localizar o edifício municipal.
 
Existindo poder municipal em Torres Vedras documentado desde o século XIII, como se comprova por documentos de 1226, uma escritura de doação ao convento de Penafirme, com referência a cargos municipais (pretor, alvasi e conselheiro), e outro de 1235, primeira referência ao selo do  concelho, confirmado   pelo foral de 1250, é só em 1337 que existe referência documental ao edifício dos Paços do Concelho.

Segundo Ana Maria Rodrigues, na  Idade Média esse largo constituía “ como que o alargamento da Rua de S. Pedro na sua extremidade final, albergando o Paço do Concelho e o Pelourinho” (2).

A partir do século XVI são várias as referências ao edifício municipal

Em 1591 um alvará régio, datado de 4 de Agosto, autorizava o lançamento da finta até 200 mil réis, destinados a restaurar o edifício da câmara e, poucos anos depois, em 1597, em sessão camarária de 1 de Fevereiro, decidiu-se chamar o povo da vila e do termo, representado pelos juízes de vintena, para aprovarem a aplicação de 100 mil réis das sisas para a reconstrução do edifício, “porquãoto as rendas do concelho são tão poucas que não bastão para as ditas obras”. Estas já se tinham iniciado, mas estavam “em perigo de cairem de todo”. Os representantes do “povo” concordaram todos com essa despesa em sessão ocorrida no dia 8.

Em 22 de Fevereiro a camara elege um tal João Pinto para depositário daquela quantia. Cerca de um ano depois, na sessão de 10 de Janeiro de 1598, fica a saber-se que as obras estavam quase acabadas, faltando ainda concertar a casa de audiências.

 Em 1634, por provisão do desembargador do paço desse ano, autorizou-se a aplicação de 95 mil réis do depósito dos bens de raíz para obras na cadeia.

Deste edifício municipal quinhentista não existem vestígio e, a existirem, devem estar a bastante profundidade já que, como refere Júlio Vieira, devido aos terrenos aluvianos em que assenta o centro histórico, foi frequente o “alteamentos das ruas da vila (…) que se estendeu à própria praça do Município” (3).  

Um poço descoberto no início  deste século confirma essa situação, dada a profundidade a que se começaram a recolher objectos nesse poço, existente num pátio a norte do actual edifício municipal, objectos datados  desde o século XV, mas com principal incidência nos finais do século XVI, princípio do XVII, destacando-se várias peças de olaria, muitas intactas, que ao longo do séculos foram lançadas naquele poço.

Mas a existência do edifício municipal não foi o único que caracterizou a vivência do largo.

Nele existiu a Estalagem da albergaria de S. Brás, referida num documento de 1387 .

Também aí se situava a Capela de Santo António , situada frente aos paços do concelho, “nas casas fronteiras da parte sul, pertencentes então a Miguel Ignácio da Silva Lobo” que servia para dar missa aos presos. Servia também de passo da irmandade dos passos.

Aquele proprietário obteve licença para derrubar aquela capela “com a condição de fazer defronte da Misericórdia, à sua custa, um novo Passo (…) como fez, mudando para alli o que estava na dicta capella” em 1809 (actualmente é um dos Passos da Procissão do Senhor dos Passos, localizado frente à Misericórdia).

Numa provisão do cartório da Igreja de S. Pedro, de 21 de Maio de 1647 é referenciada como “capela de Santo António da Graça” (4).

No século XVIII o largo ganhou as características actuais, na sequência do incêndio que destruiu o edifício municipal.
 
Muitos autores referem o ano de 1744 como o da data desse acontecimento, mas um documento recentemente encontrado pelo Dr. Carlos Guardado permite datar esse incêndio  no dia 29 de Setembro de 1745.

O incêndio foi ateado por um preso, para se evadir.

O preso em causa era “filho do serventuário do officio de escrivão dos orphãos, que então era João Franco da Costa”.

Para pagar os estragos e a reconstrução do edifício, procedeu-se ao “sequestro na legítima do incendiário, na mão de seu pae”, processo que ainda decorria em 1776 (5).

Nesse incêndio arderam os arquivos mais antigos do concelho, salvando-se o foral manuelino de 1510, cartas régias assinadas por D. Sebastião e pelo cardeal D. Henrique, e os livros de acordãos posteriores a 1572

Após o incêndio iniciou-se, em Julho de 1752, a reconstrução do edifício, para a qual se arrematou “a obra de pedreiro por 160$ooo réis, e a de carpinteiro por 274$000 réis”, obra terminada em 1776 (6). 

Data dessa obra a colocação de um chafariz no largo, assim descrito por Júlio Vieira:

“Tem uma frontaria de um andar, com quatro pequenas janelas de ressaibo pombalino, únicas nesse género, que existem nesta vila”(7).
 
Possui uma original escultura de um peixe lavrada num único bloco de mármore e, na base, a data de 1775, diferente da data na inscrição em cima.

 Recebia agua de um “ramal subterrâneo do aqueduto do Chafariz dos Canos, do qual se aparta em frente ao mercado do peixe”, nas traseiras da Igreja de S. Pedro (8).

Inclui umai nscrição onde se pode ler:

“Governando El-Rei D. José I, Pae da Pátria, para commodidade da cadeia, e do povo, o corregedor da comarca fez edificar esta fonte à custa do público no ano de 1776”(9) [era então corregedor da comarca Joaquim José Jordão]

É encimado por um curioso “escudo em forma de coração (…) no centro do qual estão duas torres inclinadas semelhantes às antigas insígnias das armas da vila do Chafariz dos canos” (10).
 
Ao longo dos tempos o edifício municipal desempenhou várias funções, para além de sede do poder local.

No primeiro andar era sala de audiências e no segundo andar a sala de sessões da Câmara e cartório (segundo anotadores de Madeira Torres);

Nele funcionou a prisão e o Tribunal de Comarca até 1887, foi depositário do arquivo histórico municipal até aos finais do século XIX, foi escola municipal entre 1890 e 1903 e o primeiro quartel dos bombeiros entre 1903 e 1934.
 
A cadeia já funcionava aí em 1598, data de um acórdão de 29 de Janeiro desse ano, onde se refere a entrega de 24 presos.

No século XIX a cadeia era descrita como tendo  “além da enxovia (…) dois andares, constando o primeiro da chamada  sala livre, e o segundo de dois quartos, que servem de prisão para mulheres, e nesse mesmo andar existia o segredo, que é um pequeno quarto dom pouca claridade”.

A porta de entrada e “habitação para o carcereiro”, ficava do lado da “rua do Espírito Santo”.

“Antigamente” o carcereiro era nomeado pelo alcaide-mor e recebia de ordenado 24:000 réis.No séc. XIX era nomeado pela Câmara, e recebia de ordenado 12$000 réis” mais “carceragens” (11).   

Associado à cadeia, estava o pelourinho que aí esteve até ao principio do século XIX .
 
É referido pela primeira vez em 1430 e tinha “as armas reaes na columna, e em cima dois varões de ferro em cruz com argolas na extremidade dos quatro braços, e estes revirados em fórma de farpa” (12).

Poucos dias depois de ser reparado, foi deitado abaixo, em 13 de Maio de 1852, por ordem do administrador do concelho Maurício José da Silva, por considerar que estorvava a passagem da comitiva da rainha D. Maria II, cuja visita ocorreu a 1 de Junho.

Durante anos não se soube do seu paradeiro, até ser descoberto por Leonel Trindade uma parte do seu fuste.

Esteve exposto no Museu Municipal, no tempo em que este esteve instalado no antigo hospital da Misericórdia.

Por decreto de 11 de Outubro de 1933 o que resta do antigo pelourinho foi classificado imóvel de interesse público e, no princípio do século XXI, por ocasião das obras de remodelação do edifício e do espaço envolvente, o fuste do antigo pelourinho foi recolocado no largo, como memória.
 
Aquele largo foi, ao longo dos tempos, um dos mais movimentados e dinâmicos centros da vivência colectiva torriense.

Na Idade Média, na a zona do largo do Município existiam  “vários artesãos e comerciantes” que  “exerciam o seu mestre e vendiam os seus produtos. Era esta, sem dúvida, a parte mais animada e concorrida”, segundo Ana Maria Rodrigues (13), que encontrou referências a ferreiros, mercadores, correeiros, tecelões e tecedeiras, sapateiros e “até mesmo um estalajadeiro”.
 
Na idade média apenas se refere a “praça” aí existente. Só mais tarde existem referências à “praça de víveres”. Era uma praça diária de hortaliças, frutas e comestíveis.

Ana Maria Rodrigues considera provável que, para além daquela praça diária, já houvesse um mercado semanal na Idade Média, “realizado na Praça, onde os aldeões das redondezas vinham, de vontade própria ou à força, vender os produtos da sua lavoura” (14).

Aos domingos estendia-se pelas ruas laterais.

No mercado dos domingos, no séc.XIX, aí se vendiam “muitos generos de cereaes e outros comestíveis, bem como de loiça, junco, cousas estas que ainda não há muitos anos alli não appareciam”(15).

A primeira referência conhecida a um mercado semanal naquele sítio data de 1736, realizando-se à 3ª feira. A Câmara quis mudá-la para o Largo da Graça, por ser este lugar mais espaçoso, por concessão de 24 de Maio de 1792.

Um outro momento ligado àquele largo era a Quebra do Escudo, solenidade que se realizava por ocasião do falecimento de um monarca.

A cerimónia tinha inicio nos Paços do Concelho, de onde saia um cortejo, acompanhado pelas autoridades, pela “nobreza” e pelo povo.

À frente ía a cavalo  “a pessoa principal”, com uma “bandeira de luto que arrastava pelo chão”, seguido de três vereadores, cada um transportando três escudos com as armas reais.

O cortejo, acompanhado de carpideiras, parava em três lugares públicos onde se procedia à quebra do escudo, que simbolizava o fim do reinado (16).

As principais visitas régias documentadas da história torriense incluíram como um dos principais momentos solenes a passagem da comitiva por esse largo, como aconteceu com a visita de D. Pedro V em 16 de Junho de 1859. O rei D. Pedro V e a rainha Dª Estefânia, eram acompanhados pelo Príncipe de Gales e, depois de se realizar missa na Igreja de S. Pedro a comitiva real deslocou-se aos Paços do Concelho “para tomar uma refeição, que na véspera para lá havia sido mandada do Real Palácio de Mafra, e ahi acharam SS. Mag. Tudo preparado, e em parte por prevenção da Camara Municipal, que lhes offereceo também o refreco d’uma boa cobertura de dôces”.

No ano seguinte, em 1 de Setembro de 1860, vindo de Peniche, o mesmo monarca fez uma curta paragem em Torres Vedras, para “uma breve refeição” nos Paços do Concelho (17).

A última visita de um monarca a Torres Vedras foi ade D.Manuel II, em 21 de Agosto de 1908, por ocasião das Comemorações do Centenário da Batalha do Vimeiro.
 
Depois do almoço no Casino, o rei e a sua comitiva deslocaram-se a pé, pelo meio da multidão que o aclamava, até aos Paços do Concelho, recebendo aqui as “felicitações da câmara municipal numa alocução lida pelo presidente do município” o Cónego António Francisco da Silva. Depois dos discursos oficiais, o “ povo, com consentimento de EL-Rei, invade a Casa da Câmara e passa respeitoso ante o trono, beijando a mão de Sua Majestade, que a todos acolhe com o seu habitual sorriso de bondade”, enquanto que  no largo duas bandas tocavam o hino nacional e os bombeiros faziam a guarda de honra” (18).

Mas aquele largo, pelo seu simbolismo, foi também o palco de várias movimentações populares.

Em 1 de Março 1599 foi o centro de um motim popular, devido à nomeação do guarda-mor.

Um outro motim popular ocorreu em 9 de Fevereiro de 1868 e ficou conhecido por “batalhôa”, sendo um reflexo local da conhecida revolta da “janeirinha” contra o aumento de impostos.

A população enfurecida, parte oriunda das freguesias rurais, invadiu a travessa da Olaria, onde estava instalada a sede da administração do concelho e a repartição da fazenda, queimando os seus arquivos.

De seguida dirigiram-se para os Paços do concelho com o mesmo objectivo.

A revolta acabou junto ao município “pela persuasão com que os membros da  câmara aí presentes” defenderam o arquivo, que assim escapou a ser queimado (19).

As grandes manifestações da República e do Estado Novo tiveram igualmente aquele largo como palco, como aconteceu com a “manifestação de desagravo” pelos “acontecimentos no Estado da Índia Portuguesa” ocorrida em  24 de Julho de 1954, e assim descrita pelo “A Voz”:
 
“Ontem, na Praça do Município, grande multidão, tendo à frente os estandartes de todas as colectividades e organismos locais, a banda de música dos Bombeiros Voluntários e vários dísticos com frases patrióticas concentrou-se, às 16.30, a fim de manifestar o seu veemente protesto pelo afrontoso atentado de Dadrá” (20).

Na manifestação de aclamação do 25 de Abril de 1974 foi mais uma vez um dos lugares escolhidos para o seu percurso e continuou a ser o principal centro de manifestações e acontecimentos políticos enquanto aí esteve sedeada Câmara Municipal, até à inauguração do novo edifício na Av. 5 de Outubro, em 31 de Março de 2006.
 
Apesar de alguma decadência pela retirada dos serviços do município daquele local, tem vindo a recuperar, pouco a pouco, alguma vivência social e, principalmente cultural, continuando a ser um dos espaços mais apreciados pelos torrienses.

(Nota: um resumo deste texto foi publicado na passada edição do jornal “Badaladas” de  25 de Novembro de 2016, na série “Vedrografias”. Por sua vez, a versão que aqui se divulga é um resumo de uma comunicação oral inédita apresentada numa sessão de “Sopa de Pedras”, realizada em 16 de Março de 2012. As notas em baixo são ainda um esboço das anotações correctas, mas que penso que são perceptiveis por todos os que se interessam pela história torriense)

(1)    - anotadores  de Madeira Torres – p.13, parte Histórica, 1862;

(2)    -Ana Maria Rodrigues, p.147-148;

(3)    -Júlio Vieira;

(4)    -Fontes: Júlio Vieira, anotadores MT, Carlos Guardado;

(5)    -anotadores Madeira Torres, p.14, parte Histórica, 1862;

(6)    -anotadores MT, 1862, p.14;

(7)    - Júlio Vieira;

(8)    - Júlio Vieira, p.143;

(9)    -proposta de tradução dos anotadores de MT, p. 15, 1862;

(10)                       - Júlio Vieira, p. 142;

(11)                       - anotadores de MT, p.15, 1862;

(12)                       - anotadores MT, p16, 1862;

(13)                       - Ana Maria Rodrigues, pág.148;

(14)                       –Ana Maria Rodrigues, pág.328;

(15)                       -anotadores da parte económica (manuscrita) de Madeira Torres, 1865;

(16)                       -segundo Júlio Vieira, pp.302-303;

(17)                       - anotadores MT,p.55, 1862;

(18)                       - in O Occidente, nº 1068 de 30 de Agosto de 1908;

(19)                       -Júlio Vieira, pp.304-305;

(20)                       -A Voz de 27 de Julho de 1954.