Torres Vedras e a História (breves apontamentos, esboços, documentos, efemérides, estudos, fotografias, notícias...)
quarta-feira, 14 de junho de 2017
segunda-feira, 12 de junho de 2017
O "Santo António" em Torres Vedras no Século XIX
Em vésperas do Santo António, aqui transcrevemos uma notícia sobre as
festas dedicadas a esse Santo realizadas em Torres Vedras em 1888.
(ver "outros" "Santo António" de Torres Vedras AQUI)
Tal como hoje, o Varatojo já era então um dos locais onde mais se
festejava o Santo António:
“As vésperas do Santo António, n’esta villa, foram celebradas com
algumas fogueiras, bombas e bichas de rabiar, queimadas pelos rapazes, que
ainda podem ter esperança de que elle lhes faça o milagre…
“No largo do Padre Henriques o nosso amigo Caetano de Figueiredo fez illuminação à veneziana e queimou ao ar livre
um bonito fogo de sala, entretendo a escolhida concorrência de senhoras de
cavalheiros que alli afluíam.
“Pelas 11 horas chegou o sol-e-dó
da Associação 24 de Julho, e obsequiou os assistentes tocando bonitas peças de
musica, que foram muito applaudidas, ficando todos bastante gratos para com
este manifestação de deferência.
“Hontem, no logar do Varatojo, via-se uma concorrência enorme. Até dos
concelhos próximos vieram passoas assistir ao grande festival que ali se celebra
ao popular Santo António, e que é feito sempe com grande esplendor.
“A festa d’egreja e o sermão captivaram as attenções dos assistentes.
Houve arraial com fogo posto, e tocou a philarmónica torreense”
(in “A Semana” , 5ª feira 14 de Junho de 1888)
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quinta-feira, 8 de junho de 2017
Sábado às 17 horas, na Feira do Livro de Lisboa, lançamento das actas do XIX Turres Vedras, sobre a 1ª Guerra.
No próximo Sábado, 10 de Junho, pelas 17 horas, tem lugar o lançamento do livro "Os Portugueses na Grande Guerra - História e Memória" com a presença do coordenador da obra, Carlos Guardado da Silva e dos autores dos textos.
O lançamento do livro tem lugar na "Praça Verde" e é promovido pela editora do livro, as | Edições Colibri.
Sobre o livro, retirámos os seguintes dados do site da editora Colibri:
Sinopse:
"O ano de 1914 ficará para sempre marcado, na história europeia e mundial, com a declaração de guerra da França ao império Austro-húngaro, vindo a proporcionar alterações significativas na conjuntura mundial, culminando com o declínio da Europa e a elevação dos Estados Unidos à condição de principal potência mundial.
"Estava em curso a Grande Guerra!
" Garantir a continuidade das colónias em Africa, o compromisso de aliança com Inglaterra e a crença de que era imperativo entrar na guerra pelo progresso nacional, ao lado das democracias, foram os motivos que levaram Portugal, em 1916, na 2.ª fase da Grande Guerra, a integrar as forças aliadas, combatendo em África contra a Alemanha e as potências da Europa Central.
"Também neste processo, Torres Vedras teve influência significativa, vendo partir mais de três centenas de seus concidadãos para combater em França e cerca de duas dezenas integraram as expedições que partiram para África.
"Foram tempos difíceis, com fracos recursos materiais e económicos, mas foram tempos em que os nossos homens, Portugueses em geral e Torrienses em particular, estiveram na linha da frente a lutar pelos seus territórios e por aquilo em que acreditavam.
"Em nome da Câmara Municipal de Torres Vedras, presto-lhes a justa e sentida homenagem, na certeza de que essa resiliência e capacidade de enfrentar “olhos nos olhos” as grandes dificuldades constituíram o maior legado que nos poderiam deixar. (texto lido durante os encontros por Carlos Bernardes (Presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras)"
Índice da Obra:
Apresentação
Carlos Bernardes
A morte e seu lugar: breve ensaio sobre a participação de Portugal na I Guerra Mundial
Sílvia Correia
Batalhas em letra de forma: imprensa e economia em tempo de Guerra (1914-1918)
Ana Paula Pires
Paris, 1914: Dizeres de João Chagas e Aquilino Ribeiro
Serafina Martins
A Primeira Guerra Mundial em África
Manuel F. V. Gouveia Mourão
Sofrer a guerra longe da Europa: efeitos da guerra nas colónias portuguesas do Oriente
Célia Reis
La 2.e division portugaise dans la bataille de la Lys
Yves Buffetaut
A 2.ª Divisão portuguesa na batalha do Lys
Yves Buffetaut
Vítor Manuel Rita: um Mutilado de Arroios
Margarida Portela
Sousa Lopes e a experiência de uma nova pintura da guerra
Carlos Silveira
Ecos da Grande Guerra em Torres Vedras
Venerando Aspra de Matos
A participação de torrienses na Grande Guerra: identificação e percursos de vida
Hélder Ramos
Carlos Bernardes
A morte e seu lugar: breve ensaio sobre a participação de Portugal na I Guerra Mundial
Sílvia Correia
Batalhas em letra de forma: imprensa e economia em tempo de Guerra (1914-1918)
Ana Paula Pires
Paris, 1914: Dizeres de João Chagas e Aquilino Ribeiro
Serafina Martins
A Primeira Guerra Mundial em África
Manuel F. V. Gouveia Mourão
Sofrer a guerra longe da Europa: efeitos da guerra nas colónias portuguesas do Oriente
Célia Reis
La 2.e division portugaise dans la bataille de la Lys
Yves Buffetaut
A 2.ª Divisão portuguesa na batalha do Lys
Yves Buffetaut
Vítor Manuel Rita: um Mutilado de Arroios
Margarida Portela
Sousa Lopes e a experiência de uma nova pintura da guerra
Carlos Silveira
Ecos da Grande Guerra em Torres Vedras
Venerando Aspra de Matos
A participação de torrienses na Grande Guerra: identificação e percursos de vida
Hélder Ramos
sexta-feira, 2 de junho de 2017
sexta-feira, 19 de maio de 2017
Clic on the Rocks...e vão...9!!
A revista torriense digital de cultura já vai na sua 9ª edição.
Clicando AQUI podem ter acesso a todos os números já editados.
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Imprensa local
quarta-feira, 10 de maio de 2017
1907 : um ano decisivo para a afirmação da elite republicana de Torres Vedras
(Caricatura de João Franco por Manuel Bordalo Pinheiro (filho de Rafael)).
O
ano de 1907 ficou marcado pela chamada “ditadura franquista” que, extremando a
vida política portuguesa, acabaria por conduzir ao regicídio de 1 de Fevereiro
de 1908 e iniciaria a decadência definitiva do regime monárquico.
João
Franco, o responsável por essa situação, foi um dos mais carismáticos políticos
do final da monarquia. Tendo iniciado a sua carreira política no Partido
Regenerador, em 1901 entrou em cisão com esse partido e fundou o Partido
Regenerador Liberal, situando-se à esquerda dos partidos tradicionais e fazendo
do combate ao rotativismo e à corrupção o seu objectivo.
Em 1906 foi chamado a formar governo em
coligação com o Partido Progressista e, se inicialmente se aproximou dos
republicanos, a partir daí guinou à direita.~
Em
2 de Maio de 1907 afastou os progressistas e formou um novo governo.
No
mês anterior, em 12 de Abril, João Franco, com o apoio de D. Carlos, assinou um
decreto que mandou encerrar o Parlamento, facto que teve lugar em 10 de Maio,
sem marcar novas eleições.
Esse
dia 10 de Maio de 1907 é considerado o dia da entrada do governo em “ditadura”,
período que ficou conhecido como “ditadura franquista”.
A
perseguição à imprensa, principalmente aquela que criticava a acção do governo
e denunciava a “questão dos adiantamentos” da casa real, com censura, prisões e
julgamentos, contribuiu para desacreditar o rei e, na agitação social que se
seguiu, os republicanos ganham cada vez mais protagonismo.
A
ditadura terminará com o regicídio de 1908.
(Torres Vedras em 1907, numa reportagem publicada no "Ilustração Portuguesa" em 30 de Setembro desse ano).
Em
Torres Vedras esse período foi vivido intensamente, tendo contribuído para a
afirmação local dos republicanos.
Um
dos jornais que então se publicavam em Torres Vedras era o “Folha de Torres
Vedras”. fundado em 1899. A partir de 1905 esse jornal aproximou-se dos
defensores locais do partido de João Franco, acolhendo igualmente as teses e a
colaboração dos primeiros republicanos do concelho, destacando-se entre estes Júlio
Vieira.
O
alvo preferido dos ataques políticos nas páginas da "Folha..." foi
Manuel Francisco Marques, líder dos “progressistas” de Torres Vedras, que
dominavam o poder local, e que dirigia o outro semanário que se publicava na
vila, "A Vinha de Torres Vedras".
A
saída daquele director-proprietário contribuiu para reforçar a influência dos
regeneradores-liberais nas páginas da "Folha...", pois a sua parte no
jornal foi comprada por um conjunto de personalidades maioritariamente
enfeudadas a esse partido. O próprio Júlio Vieira afirmará ter sido ele que se
opôs a que se transformasse "este jornal, que tem o nosso nome no seu
cabeçalho, em orgão do partido franquista d'esta villa"(2).
Em
1906, muito pela crescente influência de Julio Vieira na redacção do jornal,
este ganhou um teor cada vez mais propagandista do ideal republicano.
É
após as eleições parlamentares de Abril de 1906 que, em editorial, a
"Folha.." assume uma aproximação crescente face aos republicanos.
Quando,
em Maio de 1906, João Franco chegou ao
governo do país, o tom era ainda de
alguma indecisão política, dando grande destaque nas suas páginas à posse do
novo administrador do concelho, o "franquista" "nosso
amigo" Mário Galrão (3).
Ao
mesmo tempo, continuava a divulgar, com crescente frequência, as actividades
dos republicanos locais e a visita de "ilustres deputados" e
"eminentes tribunos" republicanos, como aconteceu em duas ocasiões
com António José de Almeida (4).
Desde
a demissão de Silvério Sequeira da direcção do jornal, apenas o nome de Júlio
Vieira figurava no cabeçalho da "Folha.." como "editor e administrador",
passando o jornal a designar-se, a
partir de 5 de Novembro de 1905, como "Agricola, Independente e Defensor
dos Interesses Locais".
A
23 de Setembro de 1906 Júlio Vieira passa a ser designado por
"redactor-gerente" .
É
então que, acompanhando o afastamento parlamentar entre “franquistas” e
“republicanos”, que até aí tinham coincidindo em muitas criticas ao rotativismo
e à corrupção da monarquia, se começa a evidenciar uma crescente ruptura no
seio do jornal entre Júlio Vieira e os restantes proprietários do periódico,
que atinge o clímax quando um deles, Manuel Joaquim Monteiro, em carta datada
de 14 de Dezembro de 1906 , na "qualidade de co-proprietário da Folha de
Torres Vedras ", pediu a publicação na coluna "Secção Livre", "d'um artigo que o Povo de Aveiro ultimamente publicou” da autoria de Homem
Cristo, "um dos principaes caudilhos do partido republicano (...) e por
tanto insuspeito", que tinha tido "a coragem de apontar muitos erros
praticados ultimamente pelos republicanos", e no qual se via, "que
uma parte do partido republicano, em vez de discutir os actos do governo e os
seus projectos, tem feito apenas declamações para armar á popularidade; quando
é certo que o actual governo [de João Franco] é o mais liberal e honesto que ha
muitos annos temos tido (...)".
Respondendo
na mesma edição a essa carta, num artigo não assinado, mas da autoria de Júlio
Vieira, este assume a recusa em publicar esse artigo e aproveita para desabafar
sobre as crescentes pressões a que o sujeitava o grupo maioritário de
proprietários, conotados com o " franquismo (5).
Reflexo
das crescentes tensões políticas no seio do jornal, em 11 de Janeiro de 1907,
que reflectiam o que se passava a nível nacional, sete dos proprietários do
jornal abandonam aquele projecto, cedendo todos os seus direitos, por venda, a
Cândido Vieira, que no dia seguinte os cede ao seu filho, Júlio Vieira.
Quatro
de entre eles, Mário Galrão, Álvaro Galrão, João A. Moura Borges e o padre Luís
dos Santos, estavam identificados com o partido regenerador-liberal.
Tal
"cisão" foi anunciada na edição de 13 de Janeiro, surgindo o jornal,
em 20 desse mês, com novo formato e, pela primeira vez como director, Júlio Vieira .
Libertando-se da tendência "franquista" e assumindo-se o seu
director como líder local do Partido Republicano pouco tempo depois, a
"Folha de Torres Vedras" tornou-se, partir de então, porta voz dos
republicanos, confundindo-se com a própria história do movimento republicano
neste concelho.
A mudança no
“Folha…” acompanha a crescente afirmação do Partido Republicano, não só em
termos nacionais, onde surge como a força política mais forte no combate ao
“franquismo”, mas também a nível local.
Tal demarcação não
terá sido estranha à própria evolução política nacional, marcada pela questão
dos "adiantamentos" à família real, que provocou distúrbios no
parlamento e acentuou as divergências entre o governo "franquista" e
os parlamentares republicanos que, em Novembro de 1906, viram ser suspensos,
por um mês, os seus deputados Afonso Costa e Alexandre Braga, este ultimo com
ligações a Torres Vedras.
Ao longo de todo
ano de 1907 as críticas ao "franquismo" subiram de tom e, em 20 de
Outubro, a "Folha..." denunciava o adiamento das eleições municipais
e a nomeação de uma comissão administrativa para dirigir os destinos
camarários, comparando essa decisão ditatorial com a atitude de D. Miguel
quando dissolveu a câmara dos deputados.
1907 marcou assim
o arranque local da organização republicana culminando, em 16 de Dezembro, com
o anuncio de que uma comissão republicana da vila estava a organizar o partido
republicano em Torres Vedras.
O grupo
organizador da comissão municipal teve a sua primeira reunião em 31 de Janeiro
de 1907, uma data que talvez não tenha sido casual, pelo seu simbolismo para a
causa republicana, tendo-se na ocasião decidido organizar um comício republicano que teve lugar em 21 de
Abril de 1907 e que foi a primeira grande acção pública dos republicanos em
Torres Vedras, "uma manifestação imponente de sympathia ao ideal republicano
que já hoje vae deixando de ser olhado com desconfiança pelo camponez ignaro e
que está já sendo abraçado por todos aquelles que, um pouco mais instruido, vae
comprehendendo os seus legitimos e racionaes principios, compativeis com a
epocha de liberdade e de conquistas que a humanidade vae atravessando e que
nenhuma mão tyranica poderá fazer affrouxar na sua carreira vertiginosa.
"A ansiedade de
ouvir o soberbo tribuno da democracia que se chama António José d'Almeida e
todos os outros oradores, arrastaram ao local do comício, um vastissimo
recinto, junto á Avenida Casal Ribeiro, alguns milhares de pessoas".
Segundo a mesma notícia, vieram pessoas de Mafra, Sobral de Monte Agraço e
Arruda dos Vinhos (6).
Nessa mesma data
foi eleita a primeira Comissão Municipal Republicana de Torres Vedras,
presidida por Júlio Vieira, formalizando-se deste modo a intervenção do Partido
Republicano na política local.
Organizada a
Comissão Municipal e alargando a sua influência às freguesias do concelho, logo
se iniciou uma intensa campanha de propaganda, quer através da realização de
conferências, quer passando a dominar abertamente o "Folha de Torres
Vedras”.
Com o regicídio e o afastamento de João Franco, os republicanos iniciam
um combate sem tréguas ao regime monárquico, que se manifesta logo, semanas
depois do regicídio, quando os republicanos aproveitam o Carnaval desse ano,
1908, para ridicularizarem as leites
monárquicas locais, em especial os “franquistas”:
"(...) Na
terça-feira (...) appareceu a parodia as aguas da villa .
"Varios
cantoneiros, apontadores e engenheiros, procediam á medição das ruas para a
canalisação das aguas pelas quaes os torreenses estão esperando ha uns bons
vinte annos"(critica indirecta ao domínio local dos partidos
rotativistas).
"(...)Pelas 4
horas da tarde apparecia no largo da Graça outro grupo político representando o
franquismo local, precedido dos symbolos messianicos e liberticidas.
"Abria o
cortejo uma figura de clown, despertando a attenção com uma campainha e logo
atraz seguiam em linha um palhaço com um pendão onde se lia: Thalassa! ...
Thalassa ! ... Ao mar ! ... Ao mar !...” (frase grega retirada da obra “A
retirada dos dez mil” de Xenofontes e que foi utilizada pela colónia portuguesa
do Brasil numa entusiástica mensagem de apoio á ditadura de João Franco e que
durante décadas serviu aos republicanos para invectivar os seus inimigos,
apelidados de “talassas”) ; uma figura de carrasco, com cabeça de leão,
conduzindo uma forca, no cimo da qual se lia -Timor - e na mão segurando uma
lista dos conjurados” (referência ao lugar de deportação apontado na lei de 13
de Fevereiro); uma figura conduzindo um cortiço com este distico :Vespeiro.
"Logo a
seguir marchavam as vespas, isto é, as figuras franquistas locaes, em numero de
sete, se não nos enganamos."(referência implícita ao número de vereadores
da comissão administrativa franquista)(7).
Assim,o ano de
1907, com o descrédito da monarquia por via do apoio do monarca à ditadura de
João Franco, foi um ano crucial para a firmação de um elite local que viria a
dominar o concelho depois da implantação da Republica em 1910.
-----
(1)
Folha de Torres Vedras, 29 de
Outubro de1905.
(2)
Folha de Torres Vedras, 16 de Dezembro de1906.
(3)Folha
de Torres Vedras, 1 de Julho de1906.
(4)Folha
de Torres Vedras, 26 Agosto de1906 e 9 de Setembro de1906.
(5)
Folha de Torres Vedras, 16 de Dezembro de1906.
(6)Folha
de Torres Vedras, 28 de Abril de1907.
(7)
Folha de Torres Vedras, 8 de Março de1908.
(para
a contextualização histórica, nacional e local, baseamo-nos nas obras “1907- No
Advento da República”, ed. Biblioteca Nacional, 2007, e “Republicanos de Torres
Vedras”, ed. Colibri/CMTV, 2003).
(Uma
versão resumida deste texto foi publicada no jornal Badaladas, em 28 de Maio de
2017, na secção “Vedrografias” )
quinta-feira, 4 de maio de 2017
quarta-feira, 3 de maio de 2017
sexta-feira, 21 de abril de 2017
Hoje em Torres Vedras: Apresentação do projecto e das edições Ephemera
Hoje à noite, pelas 21 horas, nos Paços do Concelho, será feita uma apresentação pública do projecto Ephemera, que tem como um dos objectivos principais recolher todo o tipo de documentação "efémera" e que tem por base o arquivo pessoal de José Pacheco Pereira.
Nessa sessão, que contará como a presença do próprio Pacheco Pereira, serão apresentados os 6 livros já editados na colecção Ephemera, em colaboração com a editora Tinta da China e estando presentes os autores dessa obras, que tem por base o tratamento de parte do grande arquivo de Pacheco Pereira e que, desde ontem, está ligado à Associação Ephemera.
A partir da tarde e durante a sessão será igualmente apresentada uma nova tecnologia de "realidade virtual" que permitira uma "visita" ao arquivo/biblioteca de Pacheco Pereira situada na aldeia da Marmeleira
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quinta-feira, 6 de abril de 2017
Os primeiros tempos da fotografia em Torres Vedras
Pelo menos desde 1839, as elites portuguesas conheciam a existência da
fotografia, na sua fase embrionária do daguerreotipo, ano em que essa invenção
foi divulgada nas páginas da revista “Panorama”, sendo também nessa revista que
foi divulgada uma reprodução litográfica do primeiro daguerreotipo português,
em 20 de Março de 1841, uma gravura da autoria de José Maria Baptista Coelho,
que reproduzia a frente oriental do Palácio da Ajuda, a partir de uma foto tirada
por Francisco Mocening.
Em 1849 realiza-se em Portugal a primeira exposição publica com
fotografias, na Exposição Industrial de Lisboa.
Nessa exposição participou o dono de uma quinta do concelho de Torres
Vedras, a quinta do Calvel, o conde Farrobo (1).
É assim provável que entre as elites cultas do concelho de Torres Vedras,
na década de 40 do século XIX, já fosse conhecida a nova invenção e até que
alguns deles já a tivessem experimentado.
Contudo, a primeira vez que surge uma referência à fotografia, num
documento escrito neste concelho, foi só em 1877.
De facto, numa resposta dada pelo administrador do concelho de Torres
Vedras a um pedido do Governador Civil de Lisboa sobre a hipótese de se
fotografar “um estabelecimento de beneficência” existente no concelho, digno de
ser apresentado na Exposição Universal de Paris, o administrador negou a
existência de qualquer estabelecimento no concelho “digno d’elles ou de algumas
das suas partes, se tirarem vistas photographicas (…) a não ser o
importantíssimo estabelecimento” dos Inválidos Militares de Runa, “digno de ser
apresentado na Exposição de Paris”. Desconhecemos se esse projecto se veio a
efectuar(2).
O primeiro a fotografar Torres Vedras e torrienses, sobre quem temos
notícias, foi Giulio Zanetta, , “hábil photographo italiano” cuja presença foi noticiada na edição do “Jornal de
Torres Vedras” de 21 de Maio de 1885, onde se informava que aquele fotógrafo
tencionava “demorar-se alguns mezes n’esta villa” e cujo “atelier” estava a ser
construído no Largo de S. Tiago, no “nº 22, local muito apropriado, central e
bem disposto”.
Acrescentava a mesma notícia que aquele “artista” trabalhava “com
machinas perfeitíssimas e por preços muito moderados”, sendo “belíssimas
algumas photographias que temos visto da sua grande colecção”(3).
Poucas semanas depois o mesmo periódico noticiava a grande “affluencia
de visitantes aos atelier photographico
do sr. Giulio Zanetta”, elogiando os “trabalhos do inteligente artista feitos
segundo as regras mais modernas da photographia”, indicando como outros
atractivos e garantias para uma visita àquele atelier, a grande “variedade de
aparelhos, um elegante gabinete onde está o atelier, modicidade dos preços,
cortesia e delicadeza do operador” (4).
Em Outubro desse ano ficamos a saber que Giulio Zanetta terá andado em
digressão por outros locais, anunciando-se, após o seu regresso de Peniche, e a
reabertura do seu atelier no largo de S.Tiago(5).
Em anuncio publicado na imprensa local referem-se os vários tipos
trabalhos realizados naquele atelier: “retratos de todos os formatos, vistas,
grupos, instantâneos de creanças, famílias e corporações, tendo para isso” um
aparelho “especial extra rápido Dallmeyer” (6).
Prevendo uma estadia inicial de alguns meses em Torres Vedras, Zanetta
acabou por ficar quase três anos.
Em Março de 1887 a imprensa local
anunciou a retirada do fotógrafo, para regressar à sua casa em Itália (7), em
Meina-Lago Maggiore (8), situação que só se concretizará em Julho (9).
Giulio Zanetta não deixou rasto, nem se conhece nenhum trabalho que lhe
possa ser atribuído. Se procurarmos na internet encontramos algumas vezes
aquele nome em Itália, mas de pessoas diferentes, existindo mesmo um fotógrafo
com aquele nome, mas ainda vivo, com obra publicada na Fototeca do Parque
Nacional “Grande Paradiso”, em Itália.
Mas o espaço deixado vago por Zanetta foi rapidamente preenchido. Em
Setembro de 1887 a imprensa local anuncia que dois fotógrafos, “os srs.
Martinez e Figueiredo, acabam de estabelecer-se n’esta villa, na mesma casa em
que o sr. Giulio Zanetta produziu durante três anos muitos e variados trabalhos
da sua especialidade”, referindo que “os recém chegados são dois artistas
hábeis, dignos de protecção” (10).
Em anuncio publicado nessa mesma edição, menciona-se o custo dos
retratos, desde 1$200 a 4$500 réis a
dúzia.
Para outro jornal local, a presença daqueles fotógrafos era “uma bella occasião para os nossos
leitores e leitoras se photographarem, ficando com exemplares tão nítidos como
os dos melhores photographos de Lisboa, e por preços muito mais resumidos” (11).
Uma das novidades anunciadas foi o facto daqueles fotógrafos darem
“licções aos amadores que desejem conhecer os segredos da fotografia” (12), o
que comprova a crescente popularização da fotografia , possível pela sua rápida
evolução técnica, registada na década de 80.
Ao longo de notícias publicadas em edições seguintes, durante vários
anos, é referido apenas um daqueles nomes, Martinez Pozzal, não havendo mais
nenhuma referência ao seu sócio Figueiredo.
A partir do seu atelier no Largo de Santiago, Martinez Pozzal deslocou-se
às localidades vizinhas, principalmente ao longo de 1889, onde obteve várias
fotografias. Vila Franca de Xira, Arruda dos Vinhos e Ericeira foram três dos
lugares visitados, regressando a esta última localidade em 1895, segundo a imprensa
local da época.
Na obra “Ericeira – Uma Fotobiografia” (13) são publicadas três
fotografias daquela localidade atribuídas a Martinez Pozzal, pertencentes ao
Arquivo da Santa Casa da Misericórdia da Ericeira, mas datadas à mão de 1880.
Desconhecemos se aquela datação será rigorosa ou indica a década. Se a data for
correcta, quer dizer que, antes de se estabelecer em Torres Vedras, já Pozzal
tinha fotografado a Ericeira. Se aquela data indicar a década, então podemos
estar perante o resultado de trabalhos que Pozzal fez naquelas digressões aos
concelhos vizinhos a partir de Torres Vedras.
Deve-se a Pozzal a edição, em 1890,
daquele que pode ser considerado o primeiro postal de Torres Vedras, uma
fotografia da imagem do senhor dos Passos, “servindo-se para isso de um
aparelho próprio para fazer reproduções nos interiores dos edifícios”, da qual
efectou reproduções para serem vendidas em Lisboa e no seu atelier em Torres
Vedras. (14).
Contudo, “oficialmente”, a primeira colecção de postais ilustrados de
Torres Vedras foi a editada pela Papelaria Cabral em Agosto de 1899 (15).
Em 1894 Pozzal muda o seu atelier para a rua Dias Neiva, onde vendia
“vistas” de Torres Vedras e dos Cucos (16).
Não conhecemos fotografias de Pozzal referentes a Torres Vedras, a não
ser uma fotografia e uma gravura, a partir de outra fotografia, referentes ao
estabelecimento das águas medicinais da Fonte Nova, a primeira fazendo parte do
espólio fotográfico do sr. Adão de Carvalho (17) e a segunda, que aqui
reproduzimos, publicada na edição da revista Occidente onde se publica uma
reportagem sobre a inauguração, em 22 de Maio de 1895, daquele estabelecimento
termal (18).
A mais antiga dessas gravuras, uma vista de Torres a partir do Castelo,
foi publicada nas páginas do “Gazeta…” em 7 de Junho de 1894 (19).
Tal como aconteceu com Zanetta, pouco mais sabemos sobre Pozzal, não sendo nenhum deles citado na obra de António Sena.
A “vida” de Martinez Pozzal foi magistralmente ficcionada, com base nas
informações recolhidas na imprensa local, por António Augusto Sales na sua obra
“Os Guardadores do Tempo” (20).
Há, contudo, um Pozal, (só com um “z”), Fernando Martinez Pozal,
referenciado no site do Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa, que viveu
entre 1899 e 1971, e que, lendo a sua biografia, deduzimos que seja filho do
“nosso” Pozzal.
Pela biografia deste encontramos algumas coincidências. O nascimento de
Fernando acontece quando o “pai” deixou Torres Vedras, em 1899.
Segundo a biografia citada, o Pozzal pai tinha no principio do século
XX um estúdio de fotografia na Caçada da Estrela, nº 99, tendo abandonado a
fotografia para abrir uma casa de penhores, regressando à fotografia em 1919,
com a firma Pozal & Garcia, dona da Casa de Fotografia Vénus, na rua D.
Pedro V. Foi aqui que Fernando aprendeu com o pai a fotografia. Nada mais
sabemos sobre o “pai” Pozal, nem a data do seu
falecimento (21).
Pozzall apareceu referenciado em Torres Vedras pela última vez em 1899,
embora já se estivesse estabelecido em Lisboa, ligado à “Photographia União”,
pensamos que a nova designação do atelier que tinha fundado anos antes na rua
Dias Neiva, espaço inaugurado (ou reinaugurado?) em 20 de Agosto de 1899 (22) e
que aparece referido até 1903, embora desde 1900 seja indicado aquele atelier
como propriedade de José Maria de Miranda e surgindo, em 1902, a designação de
João Henriques dos Santos como sócio gerente.
Pensamos que o autor das fotografias, J. Novaes, é o fotógrafo Júlio Novaes (1867-1925) o mais novo dos irmãos Novais, dois dos quais, António e Eduardo, também foram fotógrafos conhecidos da viragem do século.
Julio Novais iniciou-se na fotografia aos 12 anos, em 1879 e em 1897
inaugurou em Lisboa o estúdio Photographia Novaes, que recebia “encomendas da
província” e, em 1909, abre outro estúdio com o nosso conhecido Pozal, em
Lisboa, o “J.Novaes & Pozal”, na Rua
do Sol, ao Rato (24).
Há inda referência a um outro atelier estabelecido em Torres Vedras no
final do século XIX, de vida efémera, “Photographia Neves”, referenciado em
Março de 1899, situado no “bairro Tertuliano”(25) , mas que encerrou as suas
portas poucos meses depois de abrir, em 18 de Setembro desse ano (26).
Ao longo do século XX a fotografia populariza-se e surgem vários
estúdios de fotografia e vários fotógrafos em Torres Vedras, alguns de renome.
Mas essa é outra parte da história que não cabe agora aqui, neste
pequeno esboço sobre as origem da fotografia em Torres Vedras, um pequeno
resumo de um trabalho de investigação que, espero, possa um dia vir a ser
concluído e publicado.
1.
– Informações
recolhidas em SENA, António, História da Imagem Fotográfica em Portugal –
1839-1997, Porto Editora, Porto 1998;
2.
–
Livro nº 5 de Correspondência do Administrador do Concelho para o Governo
Civil, registo nº 181 de 14 de Julho de
1877 (Arquivo Municipal de T.Vedras);
3.
- “Jornal
de Torres Vedras” de 21 de Maios de 1885;
4.
–
“Jornal de Torres Vedras” de 25 de Junho
de 1885;
5.
–
“Jornal de Torres Vedras” de 1 de Outubro de 1885;
6.
– “A
Semana” de 31 de Março de 1887;
7.
– “A
Semana” de 31 de Março de 1887;
8.
– “A
Semana” de 21 de Julho de 1887;
9.
–
“Voz de Torres Vedras” de 23 de Julho de 1887;
10.
–
“Voz de Torres Vedras” de 10 de Setembro de 1887;
11.
– “A
Semana” de 8 de Setembro de 1887;
12.
– “A
Semana” de 27 de Outubro de 1887;
13.
–COSTA,
José Constantino, Ericeira – Uma Fotobiografia, Mar de Letras editora, Ericeira
2013;
14.
– “A
Semana” de 6 de Março de 1890;
15.
-–“Folha
de Torres Vedras” de 27 de Agosto de 1899;
16.
– “A
Semana” de 22 de Julho de 1894 ;
17.
–
CARVALHO, Adão de , “Recordando…Águas Medicinais da Fonte Nova”, in “Badaladas”
de 19 de Maio de 1995;
18.
– “O
Occidente”, de 5 de Junho de 1895, reportagem de Caetano Alberto, pp.124 a 126,
com gravura na pág. 124;
19.
–
“Gazeta de Torres Vedras” de 7 de Junho de 1894;
20.
–
SALES, António Augusto, Os Guardadores do Tempo, ed. Da CMTV, Janeiro de 2007,
pp.27 a 29;
21.
–site
do Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa, a partir da biografia de Fernando
Martinez Pozal escrita por Clara Anacleto;
22.
–
“Folha de Torres Vedras” de 20 de Agosto de 1899;
23.
–
“Folha de Torres Vedras” de 26 de Junho de 1902;
24.
–
site do Centro Português de Fotografia;
25.
–“Folha
de Torres Vedras” de 26 de Março de 1899;
26.
-
“Folha de Torres Vedras” de 10 de Setembro de 1899;
(Uma versão mais resumida deste texto foi
publicada na secção “Vedrografias” do Jornal “Badaladas” de 31 de Março de
2017).
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