sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Pelo Vale do Sizandro, a nascente de Torres Vedras

Realizou-se no passado Domingo, 23 de Setembro, uma caminhada integrada nas Jornadas Europeias do Património, uma organização conjunta da Câmara e Torres Vedras,do Museu Municipal Leonel Trindade, do Fórum, do ATV e da Associação do Património.

Num percurso de cerca de 12 kilómetros, com partida no Convento da Graça e chegada no Chafariz dos Canos, percorreram-se alguns dos lugares de memória associados ao Vale do Sizandro e ao património e à actividade económica a  ele  associados.

O primeiro percurso  fez-se entre Torres Vedras e a Quinta da Portucheira, onde os caminhantes foram recebidos pelos proprietários dessa Quinta que serviram uma prova dos excelentes vinhos aí produzidos, acompanhado por outros petiscos, e onde nos foi contada a história dessa Quinta.

Nesse percurso passou-se pelo lugar dos antigos armazéns Abel Pereira da Fonseca, na rua Tenente Valadim, onde apenas existe a memória e pelo ainda bem preservado edifício do Instituto da Vinha e do Vinho, excelente exemplar da arquitectura modernista, junto a outro importante monumento, o Aqueduto. Aqui o Dr. Pedro Belchior historiou a actividade económica  ligada a esses edifícios.

Partiu-se depois em direcção às Termas dos Cucos, seguindo-se passando pela  a Quinta da Macheia, aolado do vale de Matacães, em direcção à Quinta da Portucheira.

O regresso fez-se pela margem do Sizandro, junto às duas azenhas aí existentes, actualmente em ruinas.

É um pouco desse percurso que em baixo deixamos documentado fotograficamente.

INSTITUTO DO VINHO E DA VINHA





 ...AO LONGO DO SIZANDRO...



 ...ATÉ ÀS TERMAS DOS CUCOS...




 ...EM DIRECÇÃO À QUINTA DA MACHEIA PELO VALE DE MATACÃES...







 ...JUNTO AO "APEADEIRO" DA MACHEIA..


 ...EM DIRECÇÃO À QUINTA DA PORTUCHEIRA...



...CHEGANDO À QUINTA DA PORTUCHEIRA..





 ..DE REGRESSO, JUNTO AO RIO, JUNTO ÀS AZENHAS, COM UM ARRUINADO FORNO DE CAL DE PERMEIO.


segunda-feira, 23 de julho de 2018

Há 75 anos, o presidente Carmona visitou Torres Vedras




Em plena Segunda Guerra Mundial, no auge do Estado Novo, em 18 de Julho de 1943, um Domingo, Torres Vedras recebeu a visita do então presidente da República Óscar Carmona. 
O objectivo dessa visita foi a inauguração oficial do novo Hospital da Misericórdia e do novo edifício dos Correios. 
Esse acontecimento mereceu grande destaque na imprensa nacional, com honra de primeira página em quase todos, e no único jornal que então se editava no concelho, embora de periodicidade anual, “O Torrense”. 
(reportagem em "O Torreense") 
Com base na leitura de alguns desses jornais é possível reconstituir o pulsar desse dia em Torres Vedras. 
Refere o jornal “Novidades”, na sua edição de 19 de Julho, que, logo “de manhã cedo a vida começou a movimentar-se com a chegada de forasteiro das (…) freguesias do concelho, que utilizavam os mais variados meios de transporte”. 
Aliás, para que fosse possível a utilização de transportes pelos habitantes do concelho e dos concelhos vizinhos foi interrompido o racionamento a que estava sujeito o abastecimento de combustíveis, uma consequência do período de guerra em que se vivia, como o refere o mesmo jornal na sua edição de dia 18: 
“o Serviço de Racionamento do Instituto Português de Combustíveis comunica-nos que por motivo da visita do sr. Presidente da República a Torres Vedras, foi pelo sr.  ministro da Economia autorizado o abastecimento, durante o dia de hoje naquele concelho a todos os motociclos e carros ligeiros de particulares”. 
Ainda na edição do dia 19 daquele diário situacionista refere-se que, às “11 horas fez-se no Município a recepção  às bandas dos Bombeiros Voluntários da Lourinhã, Ermegeira, Aldeia Grande e Ribaldeira e dos legionários de Mafra, que foram aqui recebidos pela subcomissão de festas, presidida pelo sr. Joaquim Oliveira Manarte”. 
“Ás 13 horas fez-se no vasto Largo de S. Pedro a concentração de trinta carros que haviam de tomar parte no grande cortejo regional”, seguindo para os limites do concelho, na Freixofeira, onde foi recebido o Presidente e a sua comitiva aí chegados às 16 e 15. 
Carmona era acompanhado nessa visita pelo Ministro do Interior, pelo Subsecretário de assistência e Obras Públicas e pelo Governador Civil de Lisboa, entre muitas outras entidades oficiais e corporativas.
À sua chegada à Freixofeira, Carmona foi saudado pelo presidente da Câmara de Torres Vedras, D. José Maria Teles da Silva (Tarouca). 
“Momentos após esta cerimónia o estralejar dos foguetes e o ribombar dos morteiros marcaram o início da festa” (1) . 
A caminho de Torres, a comitiva foi surpreendida com uma manifestação não prevista de boas-vindas no Turcifal, sendo recebida pela população do lugar que se concentrou junto ao adro da Igreja, onde a “banda da Casa do Povo tocou o hino nacional” (2). 
Chegando à vila “foram lançadas flores em grande profusão”  sobre o carro presidencial (3). 
À entrada da vila “erguia-se um arco triunfal com a saudação – Salvé Carmona- “ (4). 
“Toda a vila estava engalanada de bandeiras, galhardetes, festões e das janelas pendiam lindas colgaduras” (5).  
Seguindo a comitiva pelas Avenidas 5 de Outubro e Tenente Valadim, “que se encontrava vistosamente engalanada com bandeiras”, chegou ao largo de S.Pedro “onde se encontrava formando um terço da “Legião Portuguesa”, com bandeira, banda de musica e  terno de corneteiros (…) que prestou as devidas honras militares ao Chefe do Estado entre vibrantes e patrióticas manifestações da multidão que no local se aglomerava”. 
Carmona, “apeando-se do seu automóvel, passou em revista a guarda de honra e, em seguida, dirigiu-se, pela Rua Miguel Bombarda, para o Largo do Município onde se achava uma formação constituída pela Corporação dos Bombeiros Voluntários com a respectiva banda de musica.” 
Ao longo do percurso, das “janelas, as senhoras lançam flores à passagem do cortejo, enquanto o povo apinhado junto aos passeios aumenta de entusiasmo”, entre o qual as “crianças das escolas, todas as colectividades, bombeiros, agremiações desportivas e de beneficência, com os seus estandartes, prestam também homenagem o Chefe de Estado” (6). 
Seguiu-se uma sessão no salão nobre dos  Paços do Concelho, onde discursaram o então presidente da Câmara, “D. José Maria Teles da Silva (Tarouca)”, o Ministro do Interior e, a encerrar, o general Carmona. 
De seguida o Presidente da República e a comitiva seguiu em “carro aberto”, pelas ruas Serpa Pinto e pelo Largo Graça, dirigindo-se ao “Novo Edifício dos Correios”, inaugurado na ocasião (7). 
“Ao longo do trajecto alinhavam-se os alunos das escolas primárias do concelho, elementos da “Mocidade Portuguesa”, Juntas de Freguesia, Juventude Católica, Bombeiros, Casas do Povo, Sindicatos, União Nacional, Associações desportivas e de beneficência, Grémios e a banda dos Bombeiros da Lourinhã” . 
Chegado ao edifício dos CTT o Presidente procedeu à tradicional corta da fita, percorrendo depois as instalações do edifício. De “linhas modernas e sóbrias” (8).    
(in "O Torreense". Autoria: Foto Rocha)


(Edificio dos Correios inaugurado por Carmona. Fotos de Mário Novais, arquivo da Fundação Calouste Gulbenkian) .
Depois, pela rua Santos Bernardes, seguiu a comitiva até ao lugar do “Novo Hospital da Misericórdia”, igualmente inaugurado oficialmente nessa data. 
O  Hospital foi “construído por contribuição do Estado e da Câmara Municipal”, e com a contribuição de vários beneméritos locais, homenageados numa lápide comemorativa descerrada na ocasião, no átrio do hospital. Entre os beneméritos foram citados os “srs. Álvaro Galrão, dr. José Alberto Bastos, Joaquim Vaquinhas, dr. Júlio Lucas e D. Teresa de Jesus Pereira” (9) . 
(Gravura do edificio original do Hospital de Torres Vedras. Fonte: Site da Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras) 
Foi também descerrada outra lápide de homenagem a Carmona pelo acto de inauguração. 
O corpo clinico foi constituído por “uma chefe e cinco enfermeiras das irmãs hospitaleiras portuguesas da Ordem de S. Francisco” e pelos médicos “drs. Alberto José de Bastos, Boaventura Dias Sarreira e Afonso Pedreira Vilela”. 
Carmona acabou por ser o primeiro “doente” assistido no Hospital, por se ter magoado num dedo ao fechar a porta do seu carro. (10). 
(o Dr. Dias Sarreira tratando do dedo ferido de Carmona. Foto retirada do blog Concept Board , num artigo biográfico sobre aquele médico torriense)
Na estrada que ligava o Largo da Graça ao novo Hospital, “em longa fila, alinhavam-se os carros  das freguesias com oferendas  para a Misericórdia, sendo: 5 do Ramalhal, 3 de Matacães, 3 de São Pedro da Cadeira, 3 da Carvoeira, 2 do Maxial, 2 da Casa do Povo e Freguesia de Runa e de São Domingos de Carmões e vários outros da Silveira, Turcifal, Dois Portos, Campêlos (Santa Maria), A-dos-Cunhados, da Quinta da Macheia ( e veraneantes dos Cucos), Ponte do Rol, Freiria, Monte Redondo, Santa Maria e São Pedro”. 
“Os carros, artisticamente ornamentados, com o folclórico das respectivas freguesias, traziam de tudo e com abundância: batatas, feijão, hortaliça, coelhos, galinhas, uma vitela, roupas e enxovais para crianças, e, até dinheiro” (11) . 
(Fonte: "O Torreense". Autoria "Foto Rocha"). 
Após inauguração do novo Hospital a comitiva regressou à Praça da República, à sede da Santa Casa da Misericórdia, para um “Torres de Honra”. 
“Antes de entrar na Misericórdia o Chefe do Estado, apeando-se do automóvel (…) condecorou a bandeira dos Bombeiros Voluntários com a Ordem de Benemerência e o operário da Casa Hipólito sr. André Ferreira com a Ordem de Mérito Industrial”. 

(Fonte: Jornal "O Torreense". Autoria de "Foto Rocha") 
O salão nobre da Misericórdia estava decorada com bandeiras e flores e aí discursaram o Dr. Afonso Vilela, presidente da Comissão concelhia da União Nacional, após o qual o presidente Carmona condecorou o Presidente da Câmara com a Ordem de Cristo (12). 
A seguir, Carmona e a sua comitiva abandonaram a vila, a caminho de Lisboa, sendo acompanhados pelas entidades locais até ao limite do concelho, na Freixofeira. 
Na passagem pelo Turcifal, “vistosamente engalanado com colgaduras e festões, foi Sua Ex.ª alvo de uma verdadeira manifestação de carinho, caíndo-lhe uma autêntica chuva de flôres” (13) . 
À noite “as bandas de musica “ da Lourinhã e de Torres Vedras deram concertos na Praça da República e Avenida 5 de Outubro”, queimando-se “um esplendido fogo de artificio” (14). 
Foi uma das últimas grandes manifestações locais de apoio ao Estado Novo, como se comprova pelo tom apologético das reportagens da imprensa nacional. 
Parafraseando ironicamente a obra do cineasta Ettore Scola, foi “um dia inesquecível” para os torrienses, o regime e os seus apoiantes (15). 
(1)    – in Diário da Manhã de 19 de Julho de 1943:
(2)    – in O Século de 19 de Julho de 1943;
(3)    – in Novidades de 19 de Julho de 1943;
(4)    - in O Torrense de 11 de Outubro de 1943;
(5)    - In O Século de 19 de Julho de 1943;
(6)    -  in Diário da Manhã de 19 Julho 1943;
(7)     - in Novidades de  19 de Julho de 1943;
(8)    – in  Diário da Manhã 19 Julho 1943;
(9)    – in Novidades de 19 de Julho de 1943;
(10)    - in Diário da Manhã 19 Julho 1943;
(11)     - in O Torreense de 11 de Outubro de 1943;
(12)     - in Diário da Manhã de 19 Julho 1943;
(13)      - in O Torreense, de 11 de Outubro de 1943;
(14)     - in Diário da Manhã de 19 de Julho de 1943.
(15)    - O filme “Um Dia Inesquecível”, de 1977,  relata a história de um amor adultero entre a esposa de um camisa negra fascista e um antifascista a caminho do exílio, em Roma, no dia 6 de Maio de 1938, dia em que a cidade  se engalanou para o encontro entre o Duce e Hitler.
(NOTA: um texto mais resumido foi publicado no Jornal "Badaladas" de 13 de Julho de 2018,    na secção Vedrografias de Julho de 2018). 

terça-feira, 19 de junho de 2018

Torres Vedras e as eleições Presidenciais de 8 de Junho de 1958



Passam agora 60 anos sobre as eleições presidenciais de 1958, marcadas pela candidatura do general Humberto Delgado. 

Foi um momento que abalou a relativa estabilidade politica em que vivia o Estado Novo, no ano em que se comemorava o 30º aniversário de Salazar no poder, e depois de o regime ter conseguido travar as esperanças surgidas com o final da 2ª Guerra na instauração de um regime democrático. 

Craveiro Lopes terminava o seu primeiro mandato em ruptura com Salazar e a oposição viu nesse momento uma oportunidade para ganhar um novo alento. Inicialmente, a oposição democrática não comunista tentou avançar com a candidatura de Cunha Leal, um republicano conservador, num jantar de homenagem a essa personalidade que teve lugar no Porto em 11 de Janeiro. 

Mas é também no Porto que ganha peso uma outra candidatura, a do general Humberto Delgado, militar oriundo das fileiras do regime mas que, depois de cinco anos a viver nos Estados Unidos como adido militar da embaixada portuguesa, entre 1952 e 1957, sonhou com a implantação de um regime democrático em Portugal, seguindo o modelo presidencialista norte-americano, iniciando a ruptura com Salazar.

Cunha Leal anuncia a desistência da sua candidatura em 18 de Abril e, no dia seguinte 230 eleitores do Porto entregam no Supremo Tribunal de Justiça o processo de candidatura de Humberto Delgado às eleições presidências. 

Entre os seus principais apoiantes encontram-se figuras como António Sérgio ou Henrique Galvão, muitos dissidentes do salazarismo, como os “integralistas” e os “nacional-sindicalistas”, assim como figuras tradicionais do republicanismo, sendo também apoiado oficialmente pelo que restava do velho Partido Republicano Português. 

Muitos oposicionistas, principalmente antigas figuras do MUD e o PCP, desconfiavam de Delgado , devido à sua ligação anterior ao Estado Novo,  a quem chegam apelidar de “General Coca-Cola”, e apoiam a candidatura de Arlindo Vicente, anunciada em 20 de Abril. 

O regime foi apanhado de surpresa pela rapidez com que essas duas candidaturas se colocaram no terreno e só no dia 1 de Maio apresentaram o seu candidato, o então Ministro da Marinha. o contra-almirante Américo Tomáz, uma figura apagada e sem carisma e que surgiu como candidato de recurso da “União Nacional”, face à ruptura de Craveiro Lopes com o salazarismo. 

O carisma de Delgado acabou por se impor a toda a oposição, especialmente quando, numa conferência realizada no Café Chave de Ouro em Lisboa, em 10 de Maio, perante uma pergunta de um jornalista sobre o futuro de Salazar caso vencesse as eleições, o general pronunciou a célebre frase: Obviamente demito-o!”.
(a célebre sessão do Café Chave de Ouro)
 A partir daí a sua campanha foi em crescendo, com comícios gigantescos, como o do Porto em 14 de Maio, ou na sua recepção em Santa Apolónia, em 16 de Maio. 
(Delgado no Porto) 
Perspectivando uma oportunidade para pôr fim ao regime, Arlindo Vicente e os seus apoiantes assinam um acordo com Delgado, o chamado “Pacto de Cacinhas”, assinado em 30 de Maio, unificando a candidatura da oposição na figura do “General sem Medo” (1). 

Também em Torres Vedras esse período foi vivido com grande agitação.

 Na sua edição de 13 de Maio o jornal “República” divulgou um manifesto de apoio à candidatura de Arlindo Vicente , distribuído no concelho de Torres Vedras, transcrevendo-o na integra. Apresentando Arlindo Vicente como o “candidato próprio” da “Oposição Democrática” e o programa da candidatura, esse “manifesto” apela à formação de “uma ampla Comissão Eleitoral Concelhia pró-Candidatura”, e é assinado em nome dessa Comissão por António Catarino, Arnaldo Pedro Faria Rodrigues, Carlos Augusto Bernardes, Carlos Augusto Bernardes Portela, Emílio Luís Costa, Fernando Coelho da Silva, Fernando Vicente, Francisco Matias, João Carvalho Mesquita, João Ferreira dos Santos, João de Oliveira, Joaquim Augusto de Oliveira, Luís Adelino, Luís Perdigão, Mário de Almeida Carvalhosa, Miguel Cunha, Pedro Mendes Fernandes, Reinaldo Ferreira da Silva e Rui da Costa Tomás dos Santos. 

Em 18 de Maio teve lugar, a partir das 21 horas, no Teatro-Cine Ferreira da Silva, uma sessão de apoio a Arlindo Vicente, com a presença do candidato, sessão anunciada nas páginas do jornal “República” , na sua edição de 17 de Maio, e que merece amplo destaque de primeira página naquele mesmo diário, destacando o “Grande Entusiamo” que se viveu nessa sessão, perante uma sala “completamente cheia”. 

A sessão foi aberta pelo próprio candidato que convidou para a mesa “João Carvalho Mesquita, Mário Carvalhosa, Pedro Fernandes, Arnaldo Pedro Faria, Fernando Vicente e D. Leónia Augusta Rodrigues todos membros da comissão concelhia de Torres Vedras”. Usaram da palavra Luís de Almeida Perdigão, João Carvalho Mesquita, José Prudêncio, a escritora Lília da Fonseca e Arnaldo Faria.

Pelo meio “uma comissão de senhoras subiu ao palco para oferecer ao candidato três ramos de rosas vermelhas, atadas com fitas das cores nacionais”, sendo igualmente oferecido ao candidato “um artístico barril, com vinho da região”.

 Logo após a desistência de Arlindo Vicente, a favor da candidatura de Humberto Delgado, o jornal “República” de 1 de Junho anuncia para esse dia, sem aprofundar o teor da mesma, a realização de uma sessão de “propaganda oposicionista” em Torres Vedras, onde usaram da palavra a “Drª D. Maria Isabel Aboim Inglês e os srs. Alexandre Cabral, Dr. Vareda, Dr. Palma Carlos, Demétrio Duarte, D. Maria Alçada Padez e Domingos Carvalho”. 

Refira-se que Humberto Delgado não esteve presente em Torres Vedras durante qualquer comício ou manifestação durante essa campanha eleitoral.

 Contudo, o general já tinha estado em Torres Vedras, mas quando ocupava um importante cargo da aeronáutica portuguesa, ainda longe da ruptura com o regime, por ocasião da inauguração do hangar do aeroclube de Torres Vedras em Santa Cruz, em Setembro de 1946, então como representante oficial do governo salazarista. 

Voltando ao ano de 1958, num folheto aqui reproduzido, divulgou-se a lista dos lugares em Torres Vedras onde os apoiantes locais podiam levantar as "listas eleitorais" (os votos) para votarem em Humberto Delgado: na Papelaria Progresso, no consultório do Dr. Troni, no escritório do Dr. Carvalho dos Santos, na Alfaiataria de Mário Carvalhosa, na Papelaria Ribeiro e na Loja de Francisco Matias.
 
 Com a data de Junho foi distribuído  um folheto de apoio a Delgado, intitulado “Ao Povo de Torres Vedras”, distribuído no dia 1 desse mês, assinado pelos membros da Comissão Concelhia dessa candidatura. 

Segundo a PIDE, a distribuição foi feita por “Adalberto Carvalho dos Santos, Dr. Troni, António Leal d’Ascenção, Antolins e Victor Fonseca, que se deslocaram nos seus automóveis”.

 Faziam parte dessa Comissão Adalberto Simões de Carvalho, contabilista, Augusto Bastos Troni, médico, José Carvalho Mesquita, professor, todos classificados como “comunistas” pela PIDE, António Leal d ‘ Ascenção, comerciante, António Soares Antolin, comerciante, Ernesto Carvalho dos Santos, advogado, Faustino Soares de Antolin Hourmat, comerciante, Francisco Roque Gomes Ferreira, médico e proprietário, Luís Brandão Pereira de Melo, contabilista, Victor Cesário da Fonseca, comerciante e industrial, estes classificados pela mesma polícia como “Democratas, maçons” , Adriano Estevinha Lopes, proprietário e Armando Pedro Lopes, estes dois últimos registados como “novos” pela mesma policia politica.

 A mesma policia chamava a atenção para dois nomes, Adalberto Carvalho, “individuo manifestamente comunista e perigoso”  e para Faustino Soares Antolin, que era director “do Campo de Aviação de Santa Cruz e” tinha “à sua disposição um avião de turismo biplace Piper-Club e um avião de carcteristicas militares Tinger Moth, cedido pela Aeronutica Militar ao Aero Club de Torres Vedras” (2).

 Da propaganda do candidato do Estado Novo, Américo Tomaz, encarregaram-se as estruturas locais do regime, como a União Nacional, a Legião Portuguesa, a Mocidade Portuguesa e a Câmara Municipal, como se revela pela leitura do jornal “Voz do Oeste” , mensário da Comissão Concelhia da União Nacional em Torres Vedras, que dedica quase toda a edição de 25 de Maio ao tema, ainda antes da unificação das candidaturas da oposição. 

A primeira página dessa edição, como uma fotografia de Américo Thomaz, sob o título “Três Candidatos”, procurou fazer uma apresentação dos candidatos, obviamente realçando, ao longo das páginas do jornal, as “qualidades” do candidato oficial do Estado Novo. 

Américo Thomaz é apresentado pelo jornal torriense como “o homem que tem por fiador Salazar, e que portanto é a garantia de que continuaremos a viver em paz em ordem e dignidade”, enquanto, pelo contrário, Humberto Delgado era “o homem que, para chamar a atenção sobre si mesmo nesta campanha, precisou de dar espectáculo, num recital de frases caricatas, impolíticas e ofensivas (…) com palavras repassadas de ódio”, e Arlindo Vicente “o homem a quem os comunistas apoiam, e isto, ao país, basta”. 

O mesmo mensário da UN torriense inclui na primeira página um apelo aos eleitores: “Quereis os tempos da desordem e das revoluções?“Se quereis, deixai-vos ficar em casa com medo dos homens que, indiferentes ao ridículo e ao grotesco berram que são os homens sem medo.“Se quereis voltar a acordar ao som dos tiros e das bombas votai no General Humberto delgado ou no Dr. Arlindo Vicente.“eles vos farão a vontade dando-vos os partidos, e atrás dos partidos, a intranquilidade (…)”.

 Grande parte do jornal divide-se entre tentar desmontar e desacreditar os candidatos da oposição, em especial Humberto Delgado, apresentando-se em grande destaque as opiniões de apoio ao salazarismo que este tinha revelado nos anos 30, como “prova” da sua “incoerência” e, com menos destaque, denunciando as ligações de Arlindo Vicente aos comunistas, chegando mesmo, para o efeito, a transcrever um longo texto do jornal “Avante” onde se justificava o apoio do PCP ao candidato.

 Relatava ainda um episódio passado em Torres Vedras, “do dia em que fez a sua sessão nesta vila”.

Quando o candidato, Arlindo Vicente,  “seguia a pé para o Teatro, a certa altura, voltando-se, reparou que um oficial, encarregado de manter a ordem, mantinha-a mesmo.“O Dr. Arlindo interpelou-o:

“ – Parece impossível que o Governo…
“ – V. Ex.ª – replicou o oficial  - reclame ao Governo; eu cumpro e cumprirei as ordens.
“ – Mas olhe que eu posso vir a ser eleito Presidente da República…
“ – Não interessa – atalhou o oficial – quando V. Ex.ª for eleito Presidente, eu continuarei a cumprir as ordens que receber.”. 

O outro jornal que então se editava em Torres Vedras, então quinzenário, o “Badaladas”, pouco destaque deu à campanha eleitoral, limitando-se a transcrever, na sua edição de 1 de Junho, um artigo do jornal “Novidades” sobre a posição oficial da Igreja, que, sem nomear o candidato, assumia, nas entrelinhas, o apoio ao candidato do regime, e dois artigos de opinião, um da autoria de Maria da Conceição Gomes Leal e outro de Teixeira de Figueiredo, de apoio a Salazar a ao seu candidato.

 A campanha eleitoral acabou em 4 de Junho e as eleições decorreram no dia 8.

 Américo Thomás venceu com mais de 70% de votos, sob suspeita de uma enorme fraude eleitoral, agravada pelo próprio funcionamento dos actos “eleitorais” do salazarismo, com caderno eleitorais forjados, sem a presença de representantes da oposição na maior parte das mesas eleitorais, com a censura a impedir  a divulgação das candidaturas em condições de igualdade na imprensa e a PIDE a dificultar a realização de manifestações e comícios por parte do candidato Delgado, sem esquecer o facto de os votos, que os eleitores transportavam consigo, terem cores e formatos diferentes conforma as candidaturas, o que permitia conhecer em quem se votava, um forte factor dissuasor, sabendo-se que, assim que terminava o acto eleitoral, se seguia uma onda de prisões.
(folheto da candidatura de Humberto Delgado, com indicações sobre a forma de exercer o voto) 
O resultado eleitoral no concelho, que aqui publicamos, foi divulgado nas páginas do Jornal “Voz do Oeste” de 25 de Junho. 

É de registar que, apesar de todas as dificuldades com que se confrontou a candidatura de Humberto Delgados e das fraudes registadas, este conseguiu vencer o candidato do regime numa das mesas do Maxial, obtendo igualmente bons resultados em Matacães, Monte Redondo, Ramalhal e na mesa de S. Pedro, na vila.
Delgado teve de fugir para o estrangeiro e foi assassinado em 13 de Fevereiro de 1965, em Espanha, por uma brigada da PIDE, depois de ser atraído a uma cilada, brigada essa comandada por Rosa Casaco. Casimiro Monteiro terá sido o seu executor (3). 

Arlindo Vicente dedicou-se às artes plásticas, continuando a conspirar contra o regime, falecendo em 1977. 

A partir de então as eleições presidenciais deixaram de ser se realizar por “voto universal” e Américo Tomaz voltou a ser reeleito por um colégio eleitoral escolhido pelo Estado Novo até ser derrubado no 25 de Abril de 1974. 
 (1)    – Existem diversos estudos e memórias sobre esta eleição e sobre Humberto Delgado. Muitos documentos sobre este acontecimento estão em linha, no site da Fundação Mário Soares. A melhor síntese sobre as eleições presidenciais de 1958 é o livro “Humberto Delgado – As Eleições de 58”, coordenado por Iva Delgado, Carlos Pacheco e Telmo Faria, com prefácio de Fernando Rosas, ed. Veja, 1998.

(2)    – Torre do Tombo, Arquivo da PIDE, processo de 3194-SR/56, de Armando Pedro Lopes.

(3)    – Sobre o assassinato do General Humberto Delgado leia-se a reportagem de José Pedro Castanheira intitulada “Rosa Casaco conta tudo”, publicada na “Revista” do jornal “Expresso” de 14 de Fevereiro de 1998, acessível na internet.
  
(uma versão resumida desta texto foi publicada na nossa secção "Vedrografias", no jornal "Badaladas" de 15 de Junho de 2018)