sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

A Origem do Automóvel e do transporte automóvel, em Torres Vedras


Data de 1895 a entrada do primeiro automóvel em Portugal, e não foi preciso esperar muito tempo para aparecer em Torres Vedras o primeiro agente de venda de automóveis, conforme se prova num anúncio publicado nas páginas do jornal "A Vinha de Torres Vedras" em 14 de Outubro de1897, anúncio publicado na edição seguinte e cuja publicação foi repetida por várias vezes ao longo de 1898.



Inicialmente o êxito do automóvel foi limitado e temos de esperar por 1902 para encontrarmos a primeira referência comprovada à circulação de um automóvel nas ruas de Torres Vedras.

Foi por ocasião da visita da rainha D. Amélia ao convento da Graça, a 12 de Maio desse ano, de passagem "em direcção à quinta das Lapas(...)em automóvel e (...)acompanhada pelos srs.  conde de Tarouca e condes de Figueiró(...)"(1) (foto em cima).

Só em finais da década de 10 é que o automóvel conheceu algum incremento neste concelho, levando a Câmara Municipal a iniciar, a partir de 1918, um registo de automóveis matriculados, oficialmente os primeiros existentes em Torres Vedras e dos quais registamos os 20 primeiros (2):

 (Nº de ordem de matricula;  Nº de Circulação, Ano, Mês e Dia do Registo, Nome do Proprietário e residência)

    1    1660       1918   Abril 18    D. Vasco Martins Sequeira   Q.ta Juncal
    2     2393      1918   Julho  5     Vasco de Moura Borges      Q.ta Paio Correia
    3      943       1919   Julho 12    João Henriques dos Santos  Torres Vedras
    4     1390      1919   Julho 19    Gonzaga Limitada               Q.ta Charneca
    5      ---         1919   Agos.  2    José Augusto Lopes & C.ª   Torres Vedras
    6     2270      1919   Sete.   2    José Duarte Capote               Torres Vedras
    7     2705      1919   Out.   10    José Augusto Lopes Jr.        Torres Vedras
    8       ---        1919   Dez.   26    Joaquim C. Rodrigues         Torres Vedras
    9     2811      1920   Jan.    12    João Henriques dos Santos  Torres Vedras
  10       ---        1920   Maio  22    António |...?| Oliveira           Torres Vedras
  11     4076      1920   Junho 15   António Emilio Cunha S.tos Torres Vedras
  12     4258     1920   Agos.   2    Alfredo Oliveira Luso           Lisboa
  13   4230    1920   Agos. 16    João Henriques dos Santos   Torres Vedras -   camioneta
  14     4614     1920   Set.      2    Faustino Policarpo Timóteo  Dois Portos   -camioneta
  15     4473     1920   Out.     2    Manuel Augusto Baptista      Torres Vedras
  16      2981      1920   Out.   14    José Botto Pimentel Carv.º    Q.ta do Paço
  17      2907      1920   Nov.  16    José Antunes Martins             Ramalhal
  18      3382       1921   Abril  13    Dr.Pereira Branco                  Ribaldeira
  19        218       1922   Maio  25    António Hipólito                    Torres Vedras
  20        ---         1922   Agos.  4     Amadeu dos Santos                Torres Vedras

Por este quadro é possível concluir que foi a partir da década de 20 que a aquisição de automóveis começou a aumentar neste concelho e que a primeira camioneta registada pertencia a João Henriques dos Santos. No ano de 1926, registavam-se 48 automóveis e 26 camionetas (2).

Contudo, o inicio desse registo camarário não quer dizer que a existência de torrienses  proprietários de automóveis se tivesse iniciado apenas em 1918. Antes desta data, e pelo menos desde 1901, que os automóveis eram registados, mas a nível distrital, no caso torriense pelo Governo Civil de Lisboa (3).

Existem  testemunhos de que João Henriques dos Santos possuiu um dos primeiros automóveis em Torres Vedras logo nos primeiros anos do século (por volta de 1908)(4).

Se a divulgação do automóvel foi lenta e demorada, os primeiros transportes usando o automóvel só começaram a obter algum êxito nos anos 20, quando começaram a poder bater o comboio no tempo de percurso, ou chegando a sítios onde o comboio não chegava, mas que ganhavam crescente importância turística e económica, como foram os casos de S.ta Cruz e Peniche.

Data de 1899 a primeira proposta de estabelecer uma carreira automóvel ligando Torres Vedras a Lisboa.

Em reunião camarária de 14 de Dezembro desse ano dava-se a informação de se ter recebido um requerimento, datado de 25 de Novembro, dirigido a esse orgão municipal de "Alfredo de Brito, - industrial, constructor electricista com fábrica em Lisboa, na rua de Santo António dos Capuchos, nºs 52/54" pedindo "à Camara Municipal de Torres Vedras, concessão por setenta e cinco annos, para si ou para a Companhia que está organisando, para a exploração (em toda a area actual do concelho de Torres Vedras e d' aquella que de futuro venha a pertencer-lhe), do transporte de pessoas, mercadorias, etc.,etc., por meio de vehiculos denominados automoveis. O requerente garante à câmara,  annualmente  três  por cento da receita bruta.

"Esta concessão facultando à Camara uma nova receita, proporcionará aos municipes as vantagens de usarem um meio de transporte rápido e commodo, e facultará o desenvolvimento da industria de carruageria |sic| , ha muitos annos estabelecida no país,e da industria mecanica pela fabricação dos motores e acessórios necessarios aos automoveis, fabrico que o requerente iniciou na sua fabrica(...)" (5).

A camara ficou de tratar deste assunto noutra sessão, nunca o tendo feito. Foi preciso esperar por 1915 para se inaugurar a primeira carreira automóvel. Pertenceu a iniciativa  à empresa da Malveira, Joaquim Jerónimo &Irmão: "Trata-se de uma carreira de auto-omnibus entre Torres e Lisboa, partindo do Largo da República, todos os dias ,às 3 horas da tarde", preenchendo assim "uma lacuna importante, que ha muito se fazia sentir, tanto mais que a companhia dos Caminhos de Ferro nunca quiz atender as reclamações constantes que lhe foram feitas, para restabelecer os comboios da tarde para Lisbos, que ela, há muito, desatenciosamente suprimiu(...)" (6).

Este serviço teve início a 18 de Abril de 1915 e nasceu em confronto directo com o transporte ferroviário. Contudo, fosse por fazer a viagem de Torres Vedras ao Lumiar em 3 horas, tanto tempo como o tempo de comboio, fosse por outras razões, esta iniciativa não teve o êxito esperado, sendo necessário esperar por nova iniciativa do género, nos anos 20, pela qual foi responsável João Henriques dos Santos.


Já referimos noutra parte do nosso artigo que João Henriques dos Santos não só foi o terceiro torriense a registar a posse de um automóvel, como foi o primeiro a adquirir uma camioneta.

O seu entusiasmo por esse então novo meio de transporte revelou-se em diversas ocasiões. Uma das mais conhecidas aconteceu em 1922, a 3 de Dezembro. Tendo passado então pelo Vilar, ouviu foguetes e, perguntando o que se passava, disseram-lhe que anunciavam a realização das festas do lugar do Pereiro. Logo aí manifestou interesse em deslocar-se no seu automóvel a essas festas."É claro, pessoas conhecedoras do lugar e do caminho existente para ali, tentaram dissuadi-lo, mas foi como se chovesse no molhado. Não o demoveram do seu intento. Os companheiros também não ligaram importância aos conselhos, e lá seguiram, por uma estrada vicinal, que em Dezembro só poderia ser transitada por cabras ou por corvos, pois só servia às vezes para carros de bois.

"João Henriques dos Santos, com o carro cheio de amigos, começou subindo aquêle pseudo-caminho, embóra com dificuldade. Mas, mais para cima, o caminho complicou-se e não havia meio de poderem prosseguir. Retroceder muito menos. Então a situação era crítica. Nem para diante, nem para tráz.

"Enfim, como era boa a disposição que tinham adquirido pelo caminho, lá foram removendo uma pedra aqui, colocando outra ali, escangalhando um calço acolá, evantando o carro além para o tirar da situação crítica ou  de se despenhar de qualquer ribanceira, e depois de extenuantes esforços, lá conseguiram chegar ao Pereiro.

"Grande festa, entre a população, por ali ser visto, pela primeira vez, um automóvel, foguetes e o resto que se póde imaginar, em tais casos(...)" (7).

Em finais dos anos 40, em homenagem a essa odisseia, o povo do Pereiro mandou colocar uma lápide comemorativa da chegada do primeiro automóvel a esse lugar bem como a João Henriques.

Exemplo do mesmo espírito ousado que marcaria a sua vida, ficou célebre aquela vez em que desceu de carro as escadinhas do castelo, ganhando uma aposta de cem escudos.

A ele ficou a dever-se o início da primeira carreira regular de automóvel, para Santa Cruz, que se iniciou em 1 de Agosto de 1923. Partia da estação de caminho de ferro "após a chegada do comboio correio da capital",saindo depois daquela praia "a tempo dos passageiros poderem regressar à capital pelo comboio correio da noite" (8). Custava a viagem para S.ta Cruz a quantia de 5 escudos.

Se essa iniciativa muito contribuiu para o grande desenvolvimento turístico que essa praia conheceu desde então, mais importante terá sido para o desenvolvimento desta região o facto de ter iniciado a regular ligação rodoviária de Torres Vedras a Lisboa, em Novembro de 1928.Gastou na viagem inaugural duas horas. Custava o bilhete 11 escudos,"custando o lugar ao lado do condutor 15$00!Indicava-se a chegada e partida no Largo de S.Domingos, depois no Largo da Anunciada e, posteriormente, na Rua da Palma. Avisavam-se ainda os passageiros de que deveriam ocupar os seus lugares 15 minutos antes da partida".

O êxito desse empreendimento foi tal, que logo no ano seguinte surgiram dois concorrentes, Ruy Lopes e Francisco Capote, concorrência que foi benéfica para os habituais passageiros desse percurso, pois os três proprietários esmeravam-se por apresentarem as melhores e mais cómodas camionetas. Pouco tempo depois, João Henriques dos Santos conseguia monopolizar a ligação com Peniche.



Reside nesta ligação com Peniche um dos episódios mais marcantes da bondade da sua personalidade ao ajudar os presos políticos de Peniche, transportando gratuitamente as encomendas  que lhes eram enviadas pelos familiares.

Dentro do mesmo espírito, de ajudar os que precisavam, tomou igualmente a iniciativa de "na sua carreira da manhã, que passa por Montachique," conceder "nos dias úteis, a todas as crianças do lugar de Malgas, do visinho concelho do sobral de Monte Agraço e que " frequentavam" a escola primária de Pêro Negro, passagem gratuíta", procedendo de igual modo com os passageiros pobres que procuravam tratamento nos hospitais de Lisboa (7).

A empresa que fundou continuou ligada ao ramo automóvel, tendo abandonado os transportes públicos em 1972, cedendo as suas concessões à empresa Claras, absorvida, depois do 25 de Abril de 1974, pela empresa pública Rodoviária Nacional.

(1)   – in Folha de Torres Vedras, 8 de Maio de 1902;
(2)   – In Livro de Registo de Matriculas, Arquivo Municipal de Torres Vedra;
(3)   – Decreto de 3 de Outubro de 1901;
(4)   - RODRIGUES, António, com Adão de Carvalho,”O Princípio do automóvel em Torres Vedras”, in Toitorres Notícias, nº 39 de Setembro/Outubro de 1996;
(5)   - In Actas da Câmara Municipal de Torres Vedras (CMTV), Livro nº 35, sessão de 14 de Dezembro de 1899, fol. 247 verso, AMTV;
(6)   - In A Vinha de Torres Vedras, 22 de Abril de 1915;
(7)   –In Badaladas [data desconhecida];
(8)   – in O Torreense, 5 de Agosto de 1923.

Nota: uma versão mais resumida deste texto foi publicada na série “Vedrografias”, no jornal Badaladas de 26 de Janeiro de 2018. Por sua vez o texto que aqui se reproduz tem origem num capítulo do meu livro sobre o Impacto da chegada do Caminho de ferro em Torres Vedras, actualizado e já publicado neste blog, mas que agora foi refeito e actualizado com base em novas informações.




quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Esclarecimento acerca da remoção de árvores na Praça Machado Santos

O prometido é devido:

Divulgámos a nota do BE sobre a remoção de àrvores da Praça Machado dos Santos;

Agora aqui mostramos o esclarecimento da Câmara sobre os assunto, embora se mantenham algumas dúvidas sobre o real estado das àrvores (onde está o parecer científico).

Vamos ficar atentos à promessa de reposição e de recuperação daquele espaço para depois do Carnaval:

Esclarecimento acerca da remoção de árvores na Praça Machado Santos: A Câmara Municipal vem esclarecer a população acerca da remoção de árvores na cidade, nomeadamente na Praça Machado Santos.

Surpresa na Praça da Batata; atentado, brincadeira de Carnaval ou "renovação"?

O comunicado que aqui transcrevemos foi divulgado pela secção torriense do Bloco de Esquerda, datado de 29 de Janeiro.
Pensamos que o seu conteúdo pode ser subscrito por qualquer pessoa, da direita à esquerda, que preza a natureza e o ambiente ou por qualquer cidadão torriense que se espantou por mais um atentado ao cada vez mais raro património natural que ainda existe no centro urbano e que só encontra, por parte dos responsáveis, respostas esfarrapadas.
Se viermos a conhecer uma resposta credível a este comunicado, reservamos um espaço neste blog para a sua divulgação.
Por agora o único comunicado credível é este que em baixo transcrevemos:

“COMUNICADO OFICIAL DO BLOCO DE ESQUERDA DE TORRES VEDRAS SOBRE A REMOÇÃO DAS ÁRVORES NA PRAÇA DA BATATA
“O Bloco de Esquerda de Torres Vedras indigna-se perante a remoção radical das árvores da Praça Machado Santos (Praça da Batata) cujos canteiros foram substituídos por cimento na passada sexta-feira, dia 26 de Janeiro de 2018. 
Deste modo e através de um só golpe, a Câmara Municipal resolveu transformar uma praça ainda com alguma vida (árvores, gatos, pássaros) num espaço vazio entre prédios em ruínas.
“O Bloco conclui que a devastação infligida ao património arbóreo na cidade de Torres Vedras e extensível a todo o concelho, é aplicada pela antiga e profunda ignorância e irresponsabilidade das designadas "podas camarárias" (podas radicais ou rolagem).
“Apesar de ser um tema há muito trazido para o debate público pelo Bloco de Esquerda em Torres Vedras, a política florestal da CMTV representa um desrespeito absoluto pelas árvores e pelos munícipes, como, por exemplo, se verificou no que foi feito às árvores no Paúl, designadamente em 2011 e 2016.
“O facto do referido "Diagnóstico Fitossanitário" mencionado pela CMTV - em comunicado publicado no website do município a menos de 24h da remoção das seis árvores (da espécie Robinia Pseudoacacia) - revelar que as árvores estavam debilitadas, tal não significa que devam ser automática e levianamente removidas.
“O Bloco de Esquerda exige, para além do fim imediato das podas radicais em árvores ornamentais (urbanas), a procura de medidas alternativas que possibilitem a recuperação do tratamento de árvores, designadamente através da "dendrocirurgia", técnica especializada em estabilizar e recuperar árvores muito danificadas a fim de se estagnar e estimular a recuperação dos danos.
“No caso concreto das árvores arrancadas à Praça da Batata, para além da falta de cuidado com a qualidade do exíguo terreno onde estavam plantadas nunca os serviços sequer as regaram com água.
“Tudo poderia ser sido evitado se a CMTV tivesse a nobre ideia de ter no seu gabinete florestal uma equipa de técnicos cuidadores de árvores, um diagnóstico e um mapeamento das árvores danificadas. Neste aspecto o BE já tomou há alguns meses a iniciativa de organizar um mapeamento de árvores danificadas em Torres Vedras, aberto a todos os cidadãos e disponível num grupo público do Facebook intitulado por "Mapeamento de árvores danificadas e tratamento, em Torres Vedras” (https://www.facebook.com/groups/2007130399517683/).
“Sem uma mudança de política ambiental e sem a inclusão democrática dos cidadãos na defesa dos espaços verdes e do ambiente, continuaremos a não ter uma cidade, cidadania e consciência ecológica dignas do século XXI.
“É importante referir que o comunicado da Câmara Municipal de Torres Vedras:
“• não menciona a empresa que fez o estudo que indicou que as árvores fossem removidas;
“• não disponibiliza o relatório para consulta popular;
“• não apura as responsabilidades pelo facto das árvores terem chegado àquele estado;
“• não revela quais as alternativas que podiam ter sido tomadas nos últimos anos para que não existisse esta medida drástica na Praça da Batata que contribui para a destruição do património arbóreo do concelho.
“A Câmara Municipal refere que serão plantadas 12 árvores nos espaços verdes de Torres Vedras e o Bloco de Esquerda exige as seguintes respostas: onde, quando e quais as espécies a plantar e qual a sua origem, e se chegarão já amputadas, à semelhança das árvores novas no Pátio Alfazema e Choupal, algumas delas transplantadas já mortas, e a maioria estrangulada por braçadeiras, considerando que a resposta a estas questões devem ser feitas a curto prazo pela dignificação do ambiente e dos espaços verdes da cidade.
“Por fim, e dado ao insólito ocorrido na Praça da Batata o Bloco exige que a CMTV comunique o plano futuro para a Praça da Batata que se encontra neste momento com os “canteiros” acimentados”.


terça-feira, 16 de janeiro de 2018

A Vida Torriense nos caracteres da Imprensa Local (Finais do Século XIX) - (1885-1890) - Janeiro de 1888

JANEIRO de 1888

O ano novo não começou da melhor maneira para Torres Vedras nesse ano de 1888.

O mau tempo continuava a impedir, desde finais de Dezembro, a realização dos trabalhos agrícolas, prejudicando os “pobres trabalhadores, que têm passado dias e dias sem ganhar jorna “ (1).

Os temporais que tinham tido lugar em 27 e 28 de Dezembro de 1887, provocaram cheias e interromperam a ligação ferroviária entre Torres Vedras e Lisboa, provocando a “irregularidade” do serviço de correio (2).

Atribuía-se às obras na linha férrea a responsabilidade pelos prejuízos que o temporal provocou nalgumas terras, “devido ao desvio que se permitiu fizesse, no rio Sizandro”, citando-se o caso da “propriedade do sr. João Victorino Pereira da Costa, bastante danificada hoje em consequência da Câmara transacta ter consentido no que não devia consentir (…) assim com deixou que se construísse, sem as necessárias condições, requeridas ali pela afluência das àguas, o aterro sobre a Várzea do Reguengo (…). Os resultados não podem ser piores. Aí estão patentes” (2).

Uma certa decepção perante as possibilidades do novo meio de transporte recentemente inaugurado não impedia  que se apostasse no seu futuro, chegando a defender-se a construção de um ramal ferroviário que ligasse Pêro Negro ao Turcifal, proposta que seria nesse mês apresentada à direcção da Companhia dos Caminhos de Ferro portugueses.

Em decadência encontrava-se o único meio de transporte alternativo de então, embora durante alguns dias tenha sido o único meio de ligação com Lisboa, com os inconvenientes abaixo referidos:

“As correspondências expedidas de Lisboa a Torres, por uma só diligência, chega aos seus destinos atrasada, e a horas incertas da noite.

“É assim que estamos recebendo os Jornais de Lisboa e a da província” (2).

Tais inconvenientes demonstrados pelo transporte tradicional não impediram que, em 8 de Janeiro, fosse inaugurada uma nova carreira de diligência entre Torres Vedras e  capital, pertencente à companhia “António Alves Gato & Irmão (…) saíndo de Lisboa dois carros – um às 9 horas da manhã e outro ao meio dia, passando o das 9 por Dois Portos, e o do meio dia pelo Turcifal.

“Sai de Torres o primeiro carro às 5 horas da manhã, passando em Dois Portos; e o segundo às 10, pelo Turcifal.

“Os bilhetes vendem-se em Lisboa na Tabacaria Neves, e em Torres Vedras, na loja do sr. José Avelino (…). Preço, 1$000 réis” (2).

Uma das maiores preocupações da imprensa de então era com o saneamento da vila:

“Pedimos à Ex.ma Câmara que provindencie no sentido de serem mais rigorosamente cumpridas as disposições que sabemos estarem no ânimo de todos os srs. Vereadores, com respeito à limpeza e saneamento da vila.

“Nem a todos os pontos chegam a vassoura a limpar as imundices que a falta de saguões e pias obriga a acumular na ruas e vielas, havendo sítios onde a falta de asseio é positivamente uma vergonha (…)” (3).

A defesa do consumidor era então uma idéia ausente na  preocupação de alguns comerciantes, mas já então a imprensa local desempenhava o importante papel em denunciara os abusos, como se revela na seguinte notícia:

“O leite que alguns vendedores estão fornecendo para consumo, nesta vila, é uma perfeita burla feita aos consumidores. A um freguês foi vendido, no dia de Ano Bom, um litro de leite que, analisando no aparelho, continha 65 por cento de àgua (…)” (1).

Outro problema com que a população local então se debatia era com a iluminação pública.

 Iniciaram-se então experiências com um novo tipo de iluminação: “já estão colocando nas ruas da vila os novos candeeiros para a iluminação pelo sistema gasogénio.

“Os candeeiros são muito elegantes e darão a Torres Vedras um aspecto moderno” (4).

De facto, avelha iluminação a petróleo, inaugurada em Fevereiro de 1864, parecia condenada:

“É de péssima qualidade o petróleo que há tempos para cá se consome na iluminação da vila. As luzes parecem de lamparina. Ousamos lembrar à nossa vereação que mude de freguês; porque o actual está a mangar com a gente desde que se faz a experiência da luz a gasolina.

“Convém notar que as noites estão escuras, e a respeito de policias nikles (…)” (2).

A falta de policiamento era outra preocupação de então, provocando alguns casos graves de criminalidade:

“Afiançam-nos que nas imediações da vila têm sido atacados transeuntes sendo assaltados de preferência os trens, e já se mencionam alguns furtos cometidos por ataques de mão armada.

“Como boato cita-se que existe um grupo de homens que se acoitam pelos pinhais do Vale Paxis, a quem saem à estrada.

“Como Torres Vedras não tem policia será bom que estejamos de prevenção para não transitar de noite fora da vila, pois diz-se que ante-ontem, mesmo junto aos arcos do aqueduto, fora assaltado um cocheiro que guiava um trem de retorno (…)” (3).

Nessa época eram raros os espectáculos com os quais a população se pudesse distrair. Por isso era motivo de entusiasmo a presença na vila de uma companhia de teatro, “Theatro Recreios Dramáticos”:

“Depois d’uma longa interrupção nos espectáculos, devido ao mau tempo, que não permite representações no teatro barraca, onde o público ficava muito exposto às intempéries da estação, realizou-se no domingo [8 de Janeiro] na sala generosamente cedida no Convento da Graça, um sarau que a companhia Dias convocou em auxílio das suas despesas e transtornos.

“O público foi, como de costuma ser, generoso e pronto (…)” (3).

Mas um dos mais importantes acontecimentos desse mês de Janeiro de 1888 foi a realização do mercado de S. Vicente, com cuja descrição encerramos esta nossa crónica:

“A vila no Domingo [22 de Janeiro] tinha um aspecto estranho. Por todas as ruas e praças transitavam grupos, procurando os estabelecimentos e fazendo as suas compras. A faina comercial desenvolveu-se sofrivelmente, mostrando uma certa animação.

“Na Várzea do Amial fez-se a feira do gado suíno. O dia esteve benigno, apesar do Sol se não mostrar muito expansivo. O aspecto do mercado era deveras atraente. A concorrência foi enorme, e os grupos mercadejavam por todos os lados, e cada um seguia depois com o seu suíno alentejano, gordo, futigado, de calcheta no chispe, como verdadeiros condenados à morte.

“O preço da carne começou por ser de 2 800 a 2 700 réis, e já para o fim do mercado estava a 2 400 réis, havendo ainda bastante por onde escolher.

“Na ermida de N. S. do Amial, fez-se festividade a S. Vicente, havendo de tarde arraial. É a festa chamada dos charnequeiros, e reinou bastante alegria, não sendo alterada a ordem.

“ A Phylarmonica Torreens eabrilhantou a festividade.

“A policia do mercado foi feita por alguns gurdas civis vindos da capital, e pelos oficiaes da administração deste concelho, e o zelador municipal.

“Foi capturdo um contrabandista (…)” (4).

--
(1) A Semana de 5 de Janeiro de 1888;
(2) Voz de Torres Vedras de 7 de Janeiro de 1888;
(3) A Semana de 12 de Janeiro de 1888;
(4) A Semana de 26 de Janeiro de 1888.



quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Há 210 anos, Torres Vedras ocupada pelas tropas francesas



6 de Dezembro de 1807 – Quando os Franceses ocuparam Torres Vedras


Há 110 anos os torrienses passaram o Natal sob ocupação francesa.

As tropas de Junot cruzaram a fronteira portuguesa em 19 de Novembro de 1807, só conseguindo entrar em Lisboa em 30 de Novembro.

A família real tinha saído de Lisboa a caminho do Barasil no dia 27.

Em Torres Vedras ficamos a dever ao padre Madeira Torres, testemunha coeva e observador atento, a descrição do modo como esses acontecimentos foram sentidos na localidade e da sua ocupação pelas tropas francesas.

Refere aquele autor que “Torres Vedras (...) foi a primeira em participar da consternação e saudade (…) pela ausencia do nosso adorado Principe”.

Ainda “os habitantes começavam a lamentar-se de tamanha perda,(…) logo no dia 6” de Dezembro “foram constrangidos a franquear quarteis, e munições de bôcca para a tropa de mais de duas brigadas, ou de quasi toda a segunda divisão, cujo commando ainda então estava (como o fóra pela marcha) provisoriamente no Brigadeiro Charlot, que o largou logo nos dias seguintes ao General Loison (…).

 No dia 8 do mesmo mez adiantou-se para a Praça de Peniche o General de Brigada Thomiers com dois batalhões, e passados alguns dias retrocederam dois para Mafra, onde Loison estabeleceo ordinariamente o seu Quartel General, e permaneceram aqui fixos os dois Batalhões dos regimentos 12 e 15 de infantaria ligeira”, que eram compostos por cerca de tres mil homens, sob o comando do Brigadeiro Charlot.

“Nos primeiros dias padeceo esta Villa não só os gravissimos incommodos do alojamento, mas quasi todo o pêso das requisições para a inteira subsistencia da tropa”.

A moderação do brigadeiro Charlot foi muito elogiada pelo ilustre pároco torriense, até porque “contribuio ella para nunca se interromperem as funcções do Culto, nem mesmo a do Natal, e para se fazerem com boa ordem, e até com esplendor”.

Com a proximidade da Primavera o mesmo brigadeiro aliviou a vila “d’algum pêzo de tropa, mandando destacar duas Companhias para a Lourinhã, e duas para o logar do Turcifal: Em fim nos ultimos dias de Maio levantou-se o quartel do General Charlot, quando partio com o Batalhão do regimento 12, e com os outros, que estavam em Mafra, para a frustrada expedição do Douro e Porto, commandado por Loison.

“Pelo mesmo tempo se transferio o Batalhão do Regimento 15 para Mafra, e veio para aqui um dos alojados na Praça de Peniche, de que era Commandante o Major Bertrand, o qual apenas se demorou um dia.

“Desde então ficou esta Villa alleviada de tropa effectiva; mas não deixou de ser frequentada, e incommodada por alguns destacamentos, pelo transito dos Officiaes do Estado Maior, e tambem de varios corpos do Exercito.” (1).

O bom tratamento dado à população pelo brigadeiro Charlot foi igualmente confirmado por outra testemunha coeva, Francisco Manuel Trigoso de Aragão Morato, um dos Grandes de Portugal, que se refugiou com toda a família na Quinta Nova, em Matacães, a pouca distância da então vila de Torres Vedras, onde recebeu “a noticia do embarque da Familia Real e da entrada dos francezes em Lisboa. Meu irmão e eu (...) assentámos em ficar aquelle inverno” (de 1807) “ no campo, sem virmos para Lisboa, como costumavamos vir todos os annos.

“Assim o fizemos e, permanecendo alli por todo o tempo que os francezes estiveram em Portugal, escusado é dizer que nem tivemos nem desejámos ter influencia alguma no seu Governo.

“Apenas tivemos a comunicação necessaria ou de civilidade com o General Charlot, que residia em Torres, e com os poucos officiaes que mais viviam com elle. Tambem vimos o general Loison, que por alli passou na sua espedição das Caldas da Rainha; não vimos mais nenhum General nem outro empregado, e até ao mez de Agosto seguinte” (de 1808) “não tivemos incommodo ou susto algum, porque Charlot não era mau homem e queria conservar a paz e o socego” (2).

Mas não foi apenas o ocupação militar alterar a vida dos habitantes desta vila. Cedo a ocupação se fez sentir em termos económicos.

Em Fevereiro de 1808 tomou-se conhecimento de uma ordem de Napoleão para lançar, sobre todo o teritório porugês, um imposto extraordinário para efeitos de guerra, dando-se início à sua execução em Abril desse ano.

As vilas da comarca de Torres Vedras, que ía da Lourinhã e Cadaval até Sintra e Cascais , foram constrangidas a pagar 8000$000.

Só as vilas de Torres Vedras e Ribaldeira, cujos domínios correspondem, aproximadamente, aos actuais limites administrativos do concelho de Torres Vedras, pagavam mais de metade do imposto a para toda a comarca (respectivamente 3000$000 e 1200$00), o que revela a importância económica desta região (3).

Em relação aos limites administrativos de Torres Vedras, aquele valor de 3000 réis foi subdividido entre as 38 vintenas do concelho, sendo que as cinco que mais contribuíram para aquele valor foram, respectivamente, a vila de Torres Vedras (907 réis), Turcifal (250 réis), Freiria (200 réis), Azueira, actualmente pertencente ao concelho de Mafra (150 réis) e Runa (140 réis) (4).

Torres Vedras só voltou a sentir o incómodo da presença militar em Agosto do ano seguinte, quando uma parte das tropas francesas, comandadas por Thomiers, atravessou Torres Vedras. Foram estas forças que se defrontaram com os ingleses na batalha da Roliça.

Mais uma vez Torres Vedras viveu estes acontecimentos à distância: “(...) na tarde de 17 d’Agosto de 1808, constou” (em Torres Vedras) “da batalha da Roliça (...) pelos que se retiravam feridos do Exército, e por alguns prisioneiros, que aqui vieram pernoitar, escoltados por uma patrulha commandada pelo Capitão Picton do Corpo da Polícia. N’essa acção era commandado o Corpo da Tropa Franceza pelo General Delaborde, o qual vendo-se obrigado a retirar-se depois de sustentar o resto do dia com evoluções, se aproveitou da noite para largar de todo o campo, e tomou a estrada, que diante da quinta da Bogalheira se dirige a Runa, onde descançou poucas horas, prosseguindo a marcha pelo Caminho da Cabeça. Em quanto o Corpo principal seguia, não deixavam de passar pela Villa em toda a noite soldados dispersos, que eram outras tantas testemunhas evidentes da victoria dos nossos alliados: pedio ella sem duvida publicos applausos, porém houve a necessaria prudencia em suffocal-os, o que servio para livrar a Villa d’algum severo castigo” (5).

Tomando conhecimento da Batalha da Roliça, Junot decidiu abandonar a capital, em direcção a Torres Vedras, para travar o avanço das forças inglesas.

“Junot, sendo informado por uns camponezes que Laborde estava combatendo só com as tropas inglêsas, suppoz que estas seguiam sobre Lisboa, pela estrada de Torres, emquanto o exercito português seguiria a estrada real de Rio Maior- Alcoentre.

“Como ligava mais importancia ao exercito inglês, resolveu atacar primeiro este, e, só depois de vencel-o, viria atacar o exercito português.

“D’esta forma determinou fazer a concentração de todas as suas forças em Torres Vedras” (5).

Estávamos nas vésperas da Batalha do Vimeiro, que teve lugar em 21 de Agosto de 1808, tema ao qual voltaremos em Agosto do próximo ano.

(1)    - Manuel Agostinho Madeira Torres, Descripção Historica e Economica da Villa e Termo de Torres Vedras, 2ª edição anotada, 1862, (1º edição em 1819), pp.164 a 171;
(2)   - Memórias de Francisco Manuel Trigoso de Aragão Morato (...) (1777 a 1826), ed. revista e coordenada por Ernesto de Campos de Andrade, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1933, p.52;
(3)   - Livro nº24 dos Acórdãos da Câmara de Torres Vedras (1802-1812), vereação de 17 de Abril de 1808, ff.164 e 164 v.;
(4)   - Livro nº24 dos Acórdãos da Câmara Municipal de Torres Vedras (1802-1812), vereação de 30 de Abril de 1808, ff.166v. a 170v.;
(5)   - Madeira Torres, obra citada,  pp. 171-17;
(6)   - Victoriano J. Cesar, Invasões Francesas em Portugal - 1ª parte (...) Roliça e Vimeiro, Lisboa 1904, pp. 112-113.

(texto publicado no jornal Badaladas, na série "Vedrografias", em 29 de Dezembro de 2017)


segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

A História da Casa Hipólito em livro

No passado Sábado, 16 de Dezembro, foi feito o lançamento oficial da obra de Joaquim Moedas Duarte “Casa Hipólito – História, memórias e Património de uma fábrica torriense”.

A obra resultou do trabalho de dissertação de Mestrado em Estudos do Património da Universidade Aberta, tese defendida por Moedas Duarte no passado dia 17 de Maio.

A história da Casa Hipólito confunde-se com a História de Torres Vedras no século XX, tal a sua importância do ponto de vista económico social e até cultural que teve para este concelho.

Raras serão as famílias torrienses que não tiveram um familiar ou amigo que trabalhou nessa empresa ou, pelo menos, adquiriu um produto dessa fábrica.

O texto de Moedas Duarte não aborda apenas a memória patrimonial da "Hipólito", mas analisa todos os aspectos relacionados com o impacto social e económico dessa empresa na região.

Recorrendo a todo o tipo de fontes, manuscritas, impressas,orais, fotográficas e iconográficas, dá-nos um muito bem documentado e aprofundado registo sobre as marcas que essa empresa deixou na memória colectiva torriense.

A obra divide-se em quatro capítulos.

No primeiro, intitulado “O Homem e a  circunstância”, traça a biografia de António Hipólito (1882-1954), enquadrada na conjuntura da vida torriense de então.

O segundo capítulo dedica-se à História da Empresa, que o autor divide em três grande fases: a primeira de 1902 a 1944, a fase de afirmação de “A Industrial”, nome de origem, fase em que assume grande importância uma figura como Vasco Parreira; a segunda fase, de 1944 a 1980, a fase áurea da empresa, marcada pela afirmação do nome a que passou para a história, a “Casa Hipólito”, e de afirmação nacional e internacional; a terceira fase, de 1980 a 1999, a fase de decadência, que acabaria na sua dramática falência.

O terceiro capítulo avança com a proposta e “projecto para um museu de memórias do trabalho em Torres Vedras", tendo em vista a preservação do valioso património associado à rica vida empresarial torriense.

O quarto e último capítulo faz a recolha de “memórias de quem trabalhou na fábrica”, um conjunto de 22 memórias pessoais de quem este, "por dentro", naquela empresa.

Uma bem elaborada cronologia, um levantamento bibliográfico  rigoroso para quem queira aprofundar o estudo sobre algumas temáticas abordadas no livro e um levantamento iconográfico e fotográfico sobre a Casa Hipólito, completam esta obra fundamental para quem queira conhecer ou estudar a vida torriense.

O livro de Joaquim Moedas Duarte foi editada em parceria entre a Associação para a Defes e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras e a Associação Portuguesa de Arqueologia Industrial, iniciando o projecto daquela associação torriense de lançar uma linha editorial “com novos títulos de estudo de outras empresas, de biografias de torrienses notáveis ou de abordagem de temas culturais de carácter local".

A Casa Hipólito continua bem viva na memória dos torrienses, existindo mesmo alguma empresas, das mais importantes do concelho, herdeiras da dinâmica da “Hipólito”, como são os casos da Eugster & Frismag, ou da “Transportes Paulo Duarte”, esta última, aliás uma das patrocinadoras desta obra (juntamente com D. Ana Paula Hipólito Carreira Duarte, bisneta do fundador).

Joaquim Moedas Duarte, numa escrita quase poética, como a descrição inicial da saída da fábrica ao som da sirenes, deixa-nos assim uma obra que passa a ser  uma das obras de referência que testemunha uma época marcante na memória de grande parte dos torrienses.  

Em baixo deixamos um resumo da obra, retirado da página da Universidade Aberta:

 “Em 1902 António Hipólito, jovem migrante de Alcobaça para Torres Vedras, fundou uma empresa de metalomecânica ligeira, em nome individual, à qual chamou A Industrial.

“Latoeiro de folha branca, rapidamente se apercebeu das oportunidades facultadas por uma sociedade marcada pela ruralidade em que a vitivinicultura tinha lugar de destaque.

“Começando pelo fabrico de lanternas de acetileno, expandiu-se para os equipamentos necessários à lavoura: pulverizadores, prensas de lagar, bombas de trasfega, torpilhas, etc.

“Apostando na qualidade e em preços acessíveis, ao mesmo tempo que dava atenção especial à divulgação dos seus fabricos através de publicidade na imprensa e participação em mostras e exposições, conquistou paulatinamente mercado local e nacional.

“De tal modo se notabilizou que o Governo Português o distinguiu em 1930 com a Comenda da Ordem de Mérito Agrícola e Industrial.

“Quando, por motivos de saúde, o Comendador António Hipólito, em 1944, entregou a gerência da fábrica aos filhos e ao genro, a empresa passou a sociedade por quotas com a designação de Casa Hipólito.

“Nessa altura já fabricava fogões e lanternas a petróleo, equipamentos domésticos que viriam a torná-la famosa em Portugal e no estrangeiro para onde passou a exportar parte significativa da sua produção.

“Nos anos 50 a 70 atingiu o auge da sua actividade e expansão através da licença exclusiva de fabrico da marca alemã Petromax e alargando a gama de produtos ao sector de gás em parceria com a Cidla, primeiro e a Shell depois.

“Construindo novas instalações e empregando centenas de trabalhadores, tornou-se a maior empresa do concelho de Torres Vedras e uma das principais do país no seu ramo.

“Em 1972 passou a Sociedade Anónima de Responsabilidade Limitada. Todavia, o impacto do ano de 1974 com a Revolução de Abril veio pôr a nu as deficiências estruturais de que já padecia: progressiva incapacidade de autofinanciamento, obsolescência do parque de máquinas e dos produtos fabricados, dificuldade em enfrentar a concorrência no sector vinícola, dificuldades em substituir o modelo de gestão familiar por outro mais adaptado ao crescimento da empresa.

“Nos anos 80 acentuou-se o percurso descendente. Em 1987 os credores impuseram um plano de recuperação e o controlo da gestão por via judicial. Iniciou-se um processo imparável de decadência que só terminou com a declaração de falência em Abril de 1999.

“Do que foi a actividade fabril da Casa Hipólito restam as memórias de quem lá trabalhou, os numerosos e variados testemunhos da imprensa local e um Fundo Documental à guarda do Museu Municipal Leonel Trindade de Torres Vedras.


“Este trabalho que ora se apresenta resulta de uma investigação realizada sobre estas fontes informativas com uma dupla finalidade: preservar a memória social da Casa Hipólito, descrevendo o seu percurso de quase cem anos e registando as memórias de alguns que nela trabalharam; e propor formas concretas de tratamento museológico do património que dela foi possível salvar (texto/resumo da defesa de mestrado de Joaquim Moedas Duarte, feita na Universidade Aberta em 17 de Maio de 2017, publicado na página da internet desta Universidade)”.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Joaquim Moedas Duarte publica livro sobre a Casa Hipólito.

Vai ser lançado no próximo Sábado o livro "Casa Hipólito - História, Memória e Património de uma Fábrica Torriense" da autoria de Joaquim Moedas Duarte e que resulta da sua tese de mestrado.

A sessão de lançamento terá lugar no próximo Sábado, dia 16 de Dezembro, pelas 15 horas, nos Paços do Concelho.

A Casa Hipólito foi a empresa torriense mais importante do século XX, tendo sido, durante anos, a principal empregadora do concelho e aquela que mais dinamizou a economia local.

Podem encontrar mais informações sobre a Casa Hipólito AQUI.

Joaquim Moedas Duarte é um dos mais dinâmicos investigadores da história do nosso património, principalmente na liderança da Associação local de Defesa do Património.

O seu livro é assim um importante contributo para aprofundar a história local de Torres Vedras.