Torres Vedras e a História (breves apontamentos, esboços, documentos, efemérides, estudos, fotografias, notícias...)
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024
quinta-feira, 7 de dezembro de 2023
Um colóquio da SEDES em Torres Vedras em 1973: à vigilância da PIDE, nem a SEDES escapava:
Informação da Legião Portuguesa à PIDE-DGS, relativa a colóquio da SEDES em Torres Vedras. A informação faz referência à presença de Magalhães Mota. Fonte: ANTT, Legião Portuguesa.
quarta-feira, 6 de dezembro de 2023
…era o Vinho! (breve evocação da produção vinícola na história torriense
A história de Torres Vedras é transversal à história da produção de vinho.
Contudo, não existe nenhuma monografia aprofundada e
diacrónica sobre a história do vinho nesta região, apesar de muitas referência
e estudos de tipo conjuntural.
Com este texto procuramos elaborar uma pequena síntese que,
quem sabe, possa servir de base para uma história do impacto da produção
vinícola na região de Torres Vedras.
Não se conhecendo quando é que esse produto foi introduzido
na região ou se existia em estado selvagem, existem vestígio de videiras por
altura da época de ocupação do Castro do Zambujal (c.2500 a 1700 aC.), como é
referido por Margarethe Upermann (UERPMANN,
Margarethe, “A indústria da pedra lascada do Zambujal”, in KUNST, Michael
(coord.), Origens, Estruturas e Relações das Culturas Calcolíticas da Península
Ibérica, Actas das I Jornadas Arqueológicas de Torres Vedras, 3-5 Abril 1987,
Trabalhos de Arqueologia 7, IPPAA, Lisboa 1995, pp.37-44).
Também Ana Arruda refere que a população indígena da região
de Torres Vedras consumia vinho importado da Fenícia, durante a chamada Idade
do Ferro europeia, no século VIII a.C (ARRUDA, Ana Maria, “O comércio fenício”,
in História de Portugal – Dos Tempos Pré-Históricos aos Nossos Dias, dir. João
Medina, 2º Vol, pp.17 a 34, Ediclube, 1993).
Contudo, em ambas as épocas referidas, se existem evidências
de consumo, não existem provas de produção local.
Ao que parece, a produção local de vinho terá conhecido um
grane incremento comercial durante a ocupação romana, e está na base da
existência, nesta região, de várias villae, uma espécie de “quintas”, que
abasteciam Olisipo, através de uma rede viária com alguma dimensão.
Contudo, é preciso esperar pelo foral de 1250 para
encontrarmos a primeira referência documental à produção de vinho local:
“Aquele que arrombar o relego do vinho, e vender o vinho no
seu relego, e provada a infracção (…) pague cinco soldos. E se for achado de
novo em falta pela terceira vez, (…), todo o vinho seja entornado e os arcos
dos tonéis sejam cortados. Do vinho de fora dêem um almude por cada carga e o
outro seja vendido no relego”.
Pouco depois, surge o mais antigo documento conhecido que
nos permite analisar, com algum rigor, a importância produtiva e a localização
no concelho da produção vinícola na Idade Média, documento de 1309 ( Este
documento foi publicado, analisado e divulgado por aqueles que se têm dedicado
ao estudo da Idade Média em Torres Vedras: Félix Lopes, John Jonhson, Manuel
Clemente, Manuela Catarino, Ana Maria Rodrigues, Carlos Guardado Silva…).
Pelos dados desse documento, calcula-se que o vinho, sendo
produto importante, representava pouco mais de 30% do total dos produtos
agrícolas produzidos no concelho, dominando a produção de cereis.
O Clero (com mais de 6 mil almudes) e a nobreza (com quase 5
mil almudes) dominavam a produção do vinho local (num total, nesse ano, de
cerca de 16 mil almudes).
A zona do concelho onde se concentrava a maior parte da
produção do vinho era no vale do Sizandro, principalmente o sudeste, na região
entre Dois Portos e a Ribeira de Pedrulhos, estendendo-se para o Barro e a
Orjariça, até ao Turcifal. As aldeias do Varatojo, Turcifal, Ribaldeira e
Ribeira de Manjapão concentravam cerca de 20% de toda a produção vinícola.
Com a excepção desse documento, é muito escassa e dispersa a
documentação existente sobre esse tipo de produção neste concelho.
De referir, no foral manuelino de Torres Vedras, doado em
1510, o destaque à produção de vinho, como se revela pela importância dada ao
relego real, cuja venda tinha lugar privilegiado nos três primeiros meses do
ano e cujo desrespeito motivava algumas das mais pesadas penas estabelecidas
nesse foral, demonstrando a importância e o valor que o vinho da região
começava a ter.
A abundância de vinho nesta região é referida em 1589,
quando o exército anglo-luso, onde se
encontrava D. António Prior do Crato, entrando em Torres Vedras, a caminho de
Lisboa, com o objectivo de restaurar o trono português, aqui se demorou mais do
que o necessário, porque muitos dos soldados “se embebedarão, por aver muito
vinho nesta villa”. Beberam em tal excesso que muitos adoeceram e alguns
chegaram mesmo a morrer, incidente que provocou um atraso no avanço dos
Ingleses sobre Lisboa, dando tempo às tropas luso-castelhanas, que defendiam a
capital, de se prepararem para a chegada dos apoiantes de D. António.
O desenvolvimento da
expansão portuguesa ao longo do século XVI parece ter contribuído para o
crescimento da importância comercial da produção do vinho desta região, como o
atesta Duarte Nunes de Leão, na sua obra datada de 1599 : “par carrego sam
infiniros os vinhos que da Santarem, Alenquer e Torres Vedras e seu grande
termo”, os quais “com os de Lamego e Monção poderiam bastecer um reino deixando
à parte os que se dam na Beira”.
A meio do século XVII também Rodrigo Mendez da Silva anotava a abundância, na vila de Torres
Vedras, por ordem de importência, de “pan, vino, azeyte, ganados [gado] y cazas
[caça]”
As qualidades do vinho Torrienses foram igualmente gabado no
principio de “setecentos” por António
Carvalho da Costa, indicando que “esta villa” de Torres Vedras, para além de
ser “abundante de excelente trigo, frutas, gado, caça & vinho”, “lavra mais
de seis mil pipas” de vinho “que vão para a Índia, por serem de grande
substancia para passarem os mares”.
É igualmente no século XVIII, a partir de 1723, que o preço
do vinho passa a ser regular e anualmente taxado nos acórdãos camarários,
juntamente com o trigo, a cevada, o
milho e o azeite.
Contudo, na segunda metade desse século, durante o governo
do Marquês de Pombal, a sua produção vai conhecer um período de incerteza,
quando dois alvarás, um datado de 20 de Outubro de 1765 outro de 8 de Fevreiro
de 1766, ordenam o arranque de vinhas, um pouco por todo o país, com o
objectivo de libertar terras para o cultivo de “pão”, mas que visava, na
realidade a produção do Douro. No primeiro desses alvarás a região de Torres
Vedras, entre foi excluída dessa decisão, mas, no segundo, as terras cultivadas
com vinhas neste concelho passam a ser consideradas impróprias para o seu
cultivo.
Ao que parece, esta segunda decisão ficou sem efeito, pois,
segundo Veríssimo Serrão, nesse ano de 1766 a coroa determinou “que se fizesse
destinção no preço dos vinhos, de modo a não prejudicar a qualidade do fino
tinto produzido no Alto Douro” medida essa que, entre outras consequências,
valorizou “o produto da região estremenha (Santarém, Torres Vedras) e também
Bairrada, que se tornaram ricas zonas vinícolas do País”.
Ao longo do século XVIII o vinho tornou-se um dos principais
produtos da região, embora nunca ultrapasse muito os 30% de toda a produção
agrícola, 39,1% em 1764 ou 32,2% em 1799.
Parece ter sido ao longo do século XIX, embora com
variações, que o seu peso se tronou esmagador, rondando 50% de toda a produção
agrícola local logo em 1812, em crescimento contínuo até ao final desse século.
(1799 – Mapa do rendimento da Dízima eclesiástica publicada por João Pereira;
1812 – Dados publicados na parte económica de Madeira Torres, aferidos por João
Pereira).
A crescente importância da produção vinícola foi observada
ainda na primeira metada desse século por Madeira Torres, que escreveu , na
parte económica da sua obra, escrita no primeiro quartel do século, refrindo-se
a essa produção no “terreno da villa, e seu termo, he muito considerável, e até
verdadeiramente singular na generalidade dos fructos que abrange. A producção
do vinho he sobre todas a mais abundante” (p.246).
A tão temida filoxera, tema estudado com bastante detalhe
por Célia Reis ( “Problemas dos Vinhos Torrienses no Final da Monarquia”, in
Turres Veteras III- Actas de História Contemporânea, ed. CMTV/IERMAH-Un.
Letras, T. Vedras 2000, pp.123 a 158).
A filoxera manifestou-se pela primeira vez no concelho em
1883, numa vinha da Quinta Nova, junto da Ordasqueira, expandindo-se no ano
seguinte pelas vinhas de várias Quintas da freguesia da Ventosa, uma das mais
importantes na produção do vinho do concelho, atingindo o seu auge em 1885,
quando atingiu todo o concelho, obrigando à substituição das cepas afectadas
pelo chamado bacelo americano a partir de 1886.
A crise da Filoxera, ao obrigar a grandes mudanças no tipo
de vinhas e no modo de produção vinícola, parece terem contribuído para o
rápido crescimento da sua produção local, ultrapassando em 80% o total de toda
a produção agrícola ao longo da última década do século e contribuindo para uma
profunda alteração na paisagem rural do concelho.
As freguesias de A-Dos-Cunhados, Matacães, Carmões, S.Pedro
da vila e S.Mamede da Ventosa foram aquelas onde se iniciou esse processo de
substituição.
Em 1888 a vinha “americana” era dominante em relação à
“europeia” na maior parte das freguesias e em 1891 já não existia nenhuma vinha
de bacelo “europeu” plantada e registada no concelho.
A acção dos viticultores torrienses foi assim rápida e
eficaz. Para isso muito contribui a imprensa local, que surgiu em 1885 e
dedicava grande parte do seu conteúdo aos problemas da viticultura, bem como a
existência de uma escola vitivinícola na Quinta da Viscondessa, no Turcifal,
dirigida pela família Batalha Reis, principalmente o irmão António, cujo papel
na economia e na sociedade da região ainda está por estudar.
Com a plantação da vinha “americana” a região recuperou
rapidamente da crise, tornando-se um importante centro de exportação de vinhos,
não só para o Douro, mas também para Bordéus.
José de Campos Pereira, na sua obra publicada em 1915,
baseada em dados de 1911, intitulada “A Propriedade Rústica em Portugal”,
revela dados que colocam o concelho de Torres Vedras em primeiro lugar no
distrito de Lisboa, que então incluía a área do actual distrito de Setúbal,
quer quanto à área de cultivo da vinha (21 000 hectares, cerca de ¼ do total
distrital), quer quanto ao rendimento (15 mil contos, pouco menos de 1/3 do
total distrital ) quer quanto à produção (808 500 hectolitros, cerca de 1/3 do
total distrital).
Todos os dados confirmam o peso da produção vinícola até
meio do século XX, vinha, ocupando quase metade da superfície agrícola do
concelho, seguindo-se o cultivo de batata, trigo e milho, que apesar de tudo,
no seu conjunto, ocupavam menos área que a do vinho.
É na segunda metade do século que a produção do vinho vai
conhecer profundas mudanças estruturais, reduzindo a área de cultivo mas,
apostando-se na qualidade para expostação. Mas essa é outra história.
terça-feira, 28 de novembro de 2023
As “Festas” de Torres Vedras de 1929 -Inauguração do Mueu Municipal e rede telefónica
“Dois dias duraram elas.
“E se a função não foi de espavento, nem coisa de encher o
olho (…) aos mais exigentes, foi, no entanto, qualquer coisa decente e
compostinha, que não deixou em mal o bom nome da vila”(1).
Essas “festas”, realizadas em 28 e 29 de Julho de 1929,
foram as da inauguração da rede telefónica urbana e do Museu Municipal de
Torres Vedras, incluindo uma visita às obras do novo Hospital e a realização do
1º Concurso Hípico de Torres Vedras, contando com a presença do Governador
Civil de Lisboa, o coronel Morais Sarmento, e do major João Luís de Moura,
entre outras “altas individualidades.
Esse evento deu continuidade à inauguração da ligação
telefónica entre Torres Vedras e Lisboa que ocorreu em 4 de Março, ocasião para
a qual chegou a estar anunciada a presença do Presidente da República, o
general Óscar Carmona, que acabou por faltar por “razões de saúde (2).
Vivia-se então o terceiro ano da Ditadura Militar iniciada em 28 de Maio de
1926.
Esta enfrentava então um momento de encruzilhada quanto ao
seu futuro, digladiando-se várias facções e várias tendências.
Uns viam no modelo da ditadura espanhola, liderada por Primo
de Rivera, apoiada pelo rei Afonso XIII, uma possibilidade de restaurar a
monarquia mantendo a ditadura, outros desejavam o regresso a uma República
conservadora e democrática “regenerada” pela ditadura, mas o modelo cada vez
mais presente era o de adaptar a realidade portuguesa ao fascismo italiano de
Mussolini.
Ainda no início desse mês de Julho de 1929 tinha tomado
posse o 6º governo da Ditadura, liderado pelo general Ivens Ferraz, fruto de
mais uma crise política provocada por essa “guerra” surda entre fações da
ditadura, da qual saiu mais reforçada a figura de Salazar.
Mas voltando às “Festas” de Torres Vedras, estas tiveram
inicio pelas 11 da manhã do Domingo 28 de Julho, com a chegada dos “ilustres
convidados”, o coronel Morais Sarmento, antigo Ministro da Guerra, ocupando
nesta data o cargo de Governador Civil de Lisboa, e o major João Luís de Moura,
“que fizeram a viagem de automóvel”, deslocando-se aos Paços do Concelho para
uma sessão solene, onde aqueles dois militares do 28 de Maio receberam o título
de cidadãos honorários de Torres Vedras.
No primeiro discurso dessa sessão, proferido pelo
vice-presidente da Câmara, o Dr. António Freire, este recordou a acção de
Morais Sarmento a favor da vila de Torres Vedras, quando ocupou o cargo de
Ministro da Guerra, destacando a entrega “aos cuidados do Município do vetusto
Castelo da Vila, cedendo ainda importantes parcelas de terreno” dependentes
daquele ministério, enaltecendo o facto de, como Governador Civil, ter também
beneficiando, com vários donativos, a Associação de Educação Física, os
Bombeiros Voluntários e a sua Banda, a “Cantina Escolar”, o “hospital em
construção” e a escola primária da freguesia do Maxial, entre outros apoios.
Após essa sessão solene, pautada por vários discursos de
elogio aos convidados e aos feitos da Ditadura Militar, “os visitantes subiram
ao segundo piso do edifício camarário a fim de ser inaugurada a rêde telefonica
dentro da vila. E que conta com 65 subscritores”.
A primeira chamada foi efectuada, simbolicamente, por Morais
Sarmento para o Hotel dos Cucos, para o “sr. General Trindade, presidente da
Junta Autónoma das Estradas, aproveitando para “ lhe pedir “a conclusão da
estrada de Vilar” para Torres Vedras.
Depois o Governador Civil efectuou um segundo telefonema
para “o sr. General Ivens Ferraz”, o recém empossado Presidente do Concelho de
Ministros do 6º governo da ditadura.
Recorde-se que estamos a falar da inauguração da rede
pública telefónica. Em Março deste ano, como referimos, foi efectuada a
primeira ligação simbólica entre Torres Vedras e Lisboa. Já existiam telefones
em Tores Vedras, mas eram particulares, tendo
a primeira ligação sido efectuada
em 24 de Dezembro de 1885, ligando o casal das Lapas, em A-Dos-Cunhados, à
vila. Antes já existia um sistema de comunicação por telégrafo inaugurado em 23
de Junho de 1865, ligando Torres Vedras a Caldas da Rainha e a Mafra, com uma
estação provisória instalada no Largo do Terreirinho.
Continuando com as “festas”, por volta do meio-dia aquelas
individualidades deslocaram-se à sala Irmandade dos Clérigos Pobres, anexa à
Igreja de S. Pedro, para inaugurar o Museu Municipal, dirigido por Salinas
Calado, destacando a citada reportagem do jornal Gazeta de Torres os principais
objectos expostos ao público, como o bufete da Maceira, o foral manuelino de
Torres Vedras, vários objectos de arte sacra, uma imagem em marfim, colecções
arqueológicas de várias épocas e os oito quadros quinhentistas, então ainda
atribuídos a Gregório Lopes.
Após essa inauguração, os “ilustres hospedes visitaram (…)
as obras do novo edifício hospitalar, em construção, e cujo corpo central se
encontra já bastante adiantado”, sendo recebidos “pelo sr. Joaquim dos Santos
Vaquinhas, presidente da comissão edificadora e uma das pessoas que mais se tem
esforçado para dotar a vila com uma instituição hospitalar digna, e que possa
satisfazer as crescentes necessidades da população”. Contudo, esta obra só foi
concluída e inaugurada em 1943.
Após essas visitas e inaugurações, seguiu-se um almoço no
Hotel dos Cucos, que terminou com mais uma ronda de “uso da palavra” para
enaltecer os convidados e a obra da Ditadura.
O programa de festas desse dia culminou com a realização do
Primeiro Concurso Hípico de Torres Vedras, ao qual concorreram 40 cavaleiros,
realizado em terrenos pertencentes ao proprietário das Termas dos Cucos, José
António Vieira, e próximos desse empreendimento.
“Três escassas semanas atraz estava o campo ainda em cultura
de grão. E os pinheiros ainda firmes e erectos em seu enraizado.
“Na altura devida, porem, as pistas estavam prontas, os
obstáculos em seus sítios próprios, as vedações e ripados devidamente
colocados”, tudo graças à “boa vontade” daquele proprietário e ao “esforço e
trabalho incansável do capitão sr. José Lúcio Nunes”.
No dia seguinte teve lugar o programa religioso das “festas”,
dedicadas a “S. Gonçalo, padroeiro da vila”, iniciando-se este segundo dia com
uma missa solene, pelas 13 horas, e uma procissão a partir das 19 horas, que
“percorreu as principais ruas da vila, sempre no meio do maior respeito,
repicando os sinos festivamente e estralejando no ar constantes girandolas de
foguetes.
“Muitas das janelas do percurso encontravam-se engalanadas
com ricas colchas de seda e damasco”.
As “festas” terminaram à noite com iluminações no Largo da
República “aonde os extensos relvados se coalhavam de tigelinhas minhotas e o
arvoredo ostentava centenas de balões multicores”, com as bandas dos Bombeiros
de Torres Vedras e de Infantaria 5 das Caldas da Rainha a tocarem
alternadamente.
A encerrar, um “magnifico fogo de artifício fornecido pelo pirotécnico
local sr. José de Oliveira Nunes” e “bouquets” coloridos “lançados do alto do
Castelo de Torres Vedras”.
Ao longo dos dois dias a vila foi invadida “por muitos
milhares de forasteiros vindos de toda a parte” e que, ao alvorecer da
madrugada de terça-feira ainda deambulavam pelo Largo da República, antes de
apanharem as “varias careiras de camioneta não só para Lisboa, como para outras
terras”.
Este foi um dos primeiros casos, ocorridos em Torres Vedras,
de uma prática comum ao longo do regime surgido no 28 de Maio, a das
inaugurações de vários “melhoramentos locais”, com a presença de “altas
individualidades” do regime, uma constante da propaganda política junto das
populações da “província”, ao mesmo tempo que servia para demonstrar a
fidelidade a esse mesmo regime, por parte das “elites” e autoridades locais.
(1) – “AS festas em Torres Vedras”, in Gazeta de Torres, 4 de Agosto de 1928. A maior parte as citações deste artigo têm origem nessa reportagem;
(2) - Ver edições de 4 e 14 de Março de 1929 de “O Jornal de Torres Vedras”;
sábado, 4 de novembro de 2023
A História trágico-marítima do litoral torriense
Torres Vedras é um concelho com cerca de 20 quilómetros de costa marítima, pelo que não é de estranhar a existência de muitas memórias de naufrágios nesta zona.
Numa área entre dois
importantes portos de pesca, como Peniche e Ericeira, próxima do estuário do
rio Tejo e fazendo parte do litoral que, durante séculos, ligou o Mar do Norte
com o Mediterrâneo, pela costa deste concelho terão passado milhares de navios
ao longo dos tempos.
Com uma costa de grandes
arribas, cortadas pela foz de dois rios de dimensões razoáveis, como o Sizandro
e o Alcabrichel, famosa pela agitação marítima e pelos temporais violentos, com
a existência de três históricos, embora pequenos, portos de pesca, como Porto
Novo, Cambelas e Assenta, não será de estranhar que aqui se tenham registado
vários naufrágios ao longo dos séculos.
Tema ainda por estudar e
investigar, aqui deixamos um pequeno registo para a construção da “história
trágico-marítima” do litoral do concelho torriense.
O mais antigo naufrágio
registado nessa costa data de 28 de Agosto de 1650, o “encalhe no areal de
Penafirme, perto da Ericeira [?]” do galeão S. Francisco, acabado de sair dos
estaleiros a caminho da Índia (1) pouco mais se sabendo sobre esse
acontecimento.
Vai ser preciso espera mais um
século e meio para voltarmos a encontra referência a outro naufrágio no litoral
do concelho torriense, o do navio inglês London “na Praia Formosa, em Rendide”
, ocorrido no início de 1801 (2)
Um dos aspectos curiosos dessa
notícia parece ser a mais antiga referência à Praia Formosa.
No ano de 1823 ocorreram dois
naufrágios, os mais trágicos ocorridos nesta região, o primeiro o da fragata da
armada francesa “La Cornaline”, ocorrido em 2 de Fevereiro, frente a Cambelas, que custou a vida a cerca de cem marinheiros,
e o segundo, na madrugada de 10 para 11 de Julho, a norte do chamado Cabo
Rendide, o paquete “Lusitano”, “um dos primeiros barcos a vapor (…) da carreira
de Lisboa ao Porto”, morrendo mais de 60
pessoas, entre os seus 200 passageiros e 16 tripulantes (3).
Só em 1885 voltamos a
encontrar notícias de novo naufrágio na costa torriense, ocorrido na Praia de
Santa Cruz, no dia 31 de Outubro, quando
“um forte pé de vento deitou por terra as barracas dos banhistas, que fugiram
apressados para terra; e quando os banheiros José Rosa e José Pisco estavam
tratando de reunir as barracas desmantelladas, ouviram gritos de soccorro no
mar, dados por seis homens que formavam a tripulação de um barco de pesca em
imminente risco de soçobrar, o que de facto succedeu.
“Apenas dois dos tripulantes
sabiam nadar, e portanto poderam conseguir alcançar a terra; aos outros quatro
acudiram os valentes e benemeritos banheiros, que arrostaram com o embate das
ondas, indo arremessar pelo mar dentro o cabo salva vidas, a que se agarraram
os naufragos, conseguindo assim a sua salvação”(4).
No dia 12 de Abril de 1902 registou-se
outra tragédia marítima quando o barco de pesca “Boa Viagem”, ao entrar no
porto de Assenta, se virou com uma onda, morrendo dois pescadores, salvando-se
o terceiro, o único que sabia nadar (5).
Apenas dois anos depois, em 13
de Junho de 1904, o vapor espanhol Aviles, encalhou, devido ao nevoeiro “no
porto Chão ao sul da Foz da Areia”. O navio carregava carvão, com destino a
Barcelona. A tripulação de “20 homens e mais 5 passageiros” conseguiu
salvar-se, mas, ao chegarem a terra “foram assaltados por muitos indivíduos,
verdadeiros piratas que lhes roubaram as roupas, os comestíveis e até os
próprios remos da embarcação” (6).
Cenas idênticas passaram-se
quando no dia 7 de Março de 1917 ocorreu nova tragédia perto da praia da
Assenta com o lugre “Lusitano”, oriundo da Guiné portuguesa, naufragando com um
carregamento destinado à C.U.F , falecendo 11 marinheiros, registando-se a
pilhagem “dos salvados que deram à costa” (7).
Aquele que foi, talvez, o mais
famoso naufrágio nas praias torrienses ocorreu em 5 de Fevereiro de 1930,
famoso, não só porque ainda é possível, em certas ocasiões, observar um dos
mastros do navio naufragado, como esse naufrágio deu nome a uma das principais
praias de Santa Cruz, a “praia do Navio”.
Tratou-se do naufrágio do
navio norueguês Hav (“Oceano” em português), vindo de Cardiff para o porto de
Leixões, com um carregamento de carvão, um naufrágio que ocorreu após um
conjunto de acontecimentos rocambolescos, quando era rebocado de Leixões para
Lisboa, para ser reparado, tendo-se salvado toda a tripulação de 11 homens (8).
No dia 1 de Maio de 1947 um violento temporal apanhou de surpresa embarcações de pesca da Assenta. Uma delas, a lancha Olinda afundou-se à entrada do porto da Ericeira, para onde se pretendia refugiar, matando os três pescadores da Assenta (9).
Na madrugada do dia 2 de
Outubro de 1970, quando se encontrava em dificuldades, o capitão do cargueiro holandês
Shamrock Reefer conseguiu encalhar, propositadamente, esse grande navio na
praia de Porto Chão, a sul da foz do Sizandro, conseguindo assim salvar toda a
tripulação (10).
Foi o do cargueiro alemão
Alchimist Emden que ocorreu junto à praia de Cambelas, um novo contributo para
a fama dessa praia como “a praia dos naufrágios”.
Não se registando vítimas
nesse naufrágio, temeu-se, contudo, um desastre de grandes dimensões “dada a
quantidade e natureza da carga – 1150 toneladas de hidrocarbonetos”, situação
que, felizmente, não se concretizou (11).
Deixamos, assim, este breve e
limitado registo de alguns dos naufrágios ocorridos na costa torriense,
esperando que contribua como ponto de partida para uma investigação mais
aprofundada sobre o tema.
(Já com este artigo feito, ontem o mar de SantaCruz ceifou mais 4 vidas:)
(1) - ESPARTEIRO, comandante António Marques, Catálogo dos Navios Brigantinos (1640-1910), Centro de Estudos de Marinha, Lisboa 1976, pág. 7 (disponível na net);
(2) - Ofício do Juiz de fora de Torres Vedras, José Pedro Quintela, ao secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar, datado de 20 de Fevereiro de 1801, no Arquivo Histórico Ultramarino (AHU CU Reino, Cx. 269, pasta 41);
(3) - CUNHA, João Flores, “Estórias (especuladas) de Torres – Dois Naufrágios em 1823 junto ao Cabo Rendido”, in Badaladas de 5 de Abril de 2019. Sobre o naufrágio do Lusitano leia-se também CATARINO, Manuela, São Pedro da Cadeira – Histórias, Memórias e Património de uma freguesia torriense, ed. Junta de Freguesia de S. Pedro da Cadeira, Setembro de 2021, pág.143;
(4) - in Jornal de Torres Vedras de 5 de Novembro de 1885;
(5) - CATARINO, ob. Cit. pág. 143 e Folha de Torres Vedras de 20 de Abril de 1902;
(6) - VIEIRA, Júlio, Torres Vedras Antiga e Moderna, 1926, pág.229;
(7) - CATARINO, ob. Cit., pp. 143-144;
(8) - ver uma interessante e completa reportagem sobre o assunto no site “Torres Vedras Antiga”, transcrita por Joaquim Ribeiro na reportagem “Pesquisa do blogue Torres Vedras Antiga revela novos dados – A História documentada da praia do Navio. Ver também a reportagem coeva do incidente nas páginas do jornal Gazeta de Torres de 9 de Fevereiro de 1930;
(9) - CARÉ Jr., José, Memórias da Ericeira marítima e piscatória – séc. XIX-XX, pág. 43;
(10) - Ver Diário de Lisboa de 2 de Outubro de 1970. Baseei-me igualmente nas legendas de fotografias de Raul Guilherme, vendidas no site Delcampe;
(11) - CATARINO, ob. Cit, pág. 144.

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