terça-feira, 1 de setembro de 2009

Torres Vedras Durante a IIª Guerra

Passam hoje 70 anos sobre o início da Segunda Guerra Mundial. Portugal, país neutral, não deixou de sentir os efeitos dessa tragédia mundial.
E em Torres Vedras? Como se vivia então? De que modo chegavam os ecos do conflito? Como é que os seus habitantes sentiam tão grave acontecimento?
Questões que, pese embora a falta de documentos escritos, nos propomos tentar esclarecer, mesmo que modesta e parcialmente. À falta de documentos tradicionais, recorremos também à recolha de testemunhos orais, mercê principalmente, da colaboração e boa vontade de Pedro Fernandes, de Adão de Carvalho, ambos infelizmente já falecidos, e de Maria Helena Matos, testemunhos presenciais desse conturbado período da história do século XX.
Por razões técnicas não podemos reproduzir aqui alguns gráficos essências, pelo que os comentaremos de forma mais clara que seja possível.
A População e a Sociedade de Torres Vedras
Em 1945 a população do concelho de Torres Vedras rondaria entre os 52 143 habitantes (pelo censo de 1940) e os 56 514 (pelo censo de 1950). Destes, só pouco menos de 10% não eram naturais do concelho (assim acontecia tanto em 1940 como em 1950).
Tendo sido o censo de 1940, o segundo onde se publicaram os dados sobre a distribuição da população por lugares, (o primeiro foi o de 1911, e tal só voltaria a acontecer em 1960), sabe-se que viviam nessa altura 4890 pessoas no centro urbano de Torres Vedras, correspondendo a 9,3% da população do concelho.
Analisando a evolução demográfica conjuntural, no período de 10 anos, entre 1938, o ano anterior ao início da guerra, e 1947,vemos que a tendência geral foi para a descida lenta do número de nascimentos, quebra fortemente acentuada em 1941, talvez por acção psicológica da guerra, no mesmo ano em que se registou um número anormal de casamentos, muito acima da média normal, quer em anos anteriores, quer em datas posteriores. Este caso deverá estar intimamente ligado ao agravamento do conflito, observado esse ano, e à então eventual possibilidade do envolvimento militar de Portugal, visto que o casamento permitia, no mínimo, adiar a incorporação militar.
Quanto ao número de óbitos não existe nenhum dado significativo a registar nos anos da guerra, a não ser a sua lenta e normal descida estabilizada.
Segundo o censo de 1940, a população masculina activa era de 17086, dos quais 13250 estavam ocupados na agricultura, isto é 77,5% dos activos, percentagem só ultrapassada por Arruda dos Vinhos no Distrito de Lisboa.
Infelizmente o censo de 1940 não nos esclarece sobre o tipo de ocupação da restante população activa. O censo de 1930 é o mais próximo a revelar esse tipo de dados. Neste, para a distribuição profissional, onde também se contavam as mulheres activas, a percentagem de activos na agricultura é igualmente elevado, ocupando 75,8% . O grupo profissional que se seguia ocupava apenas 3,5% dos activos, e surgia intitulada como “industrias relativas à construção civil”. Seguiam-se , citando apenas as mais significativas:
- “criados e criadas” com 2,3% dos activos
- “industria de vestuário e calçado” com 2,1% .
- “industrias relativas ao fabrico de géneros alimentares” com 1,5%.
- “saúde publica” com 1,2%.
- “industria metalurgica” com 1,1%.
A Vida Económica
De entre todos os produtos agrícolas produzidos na região, o vinho era então, não só o que ocupava a maior parte da área cultivada, como aquele que mais produzia e maiores rendimentos dava.
Rogério Oliveira considerava que “cerca de 95% da população agrícola está ligada à vitivinicultura (...).Este facto ,aliado à circunstância de se tratar de uma cultura que absorve mão de obra durante quase todo o ano ,diz bem da enorme importância social ,a acrecentar-se ao domínio económico ,da vinha e do vinho na região.”.(ob.cit. ,pág.205).
De salientar também o facto de o trigo, apesar de ocupar a segunda maior área de cultivo ,ser ultrapassado, em termos de produtividade, pela produção de batata.
De qualquer modo este concelho manteve uma produtividade significativa, do ponto de vista agrícola durante os anos de guerra, facto confirmado pelas testemunhas coêvas que consultámos e que nos informaram não ter esta terra sofrido grandes carências alimentares, nomeadamente quanto ao fornecimento de pão, graças, em grande parte, ao esforço da Moagem Clemente, que chegava a laborar para além do seu horário para poder responder à procura da população. Segundo esses mesmos testemunhos, o concelho de Torres Vedras chegava mesmo a fornecer produtos agrícolas e pecuários para Lisboa e concelhos vizinhos.
Contudo, com o prolongamento da guerra, a situação agravou-se, mesmo neste concelho, como se parece deduzir de uma notícia publicada nas páginas do “Notícias de Torres”, em 1 de Agosto de 1944, dando conta duma resolução da Intendência Geral dos Abastecimentos, enviada à “Comissão Reguladora do Comércio Local”,tendo por objectivo o racionamento do pão, mandando realizar, por freguesia, uma relação de padarias, obrigando à distribuição equitativa por cliente “distinguindo o trabalhador rural a quem se deve distribuir 500 gramas de pão por dia”, fornecendo aos hotéis e pensões apenas pão de 1ª e onde só se podia servir 46 gramas de pão por pessoa “ao almoço e jantar e 93 gramas ao pequeno-almoço”.
O racionamento na venda de determinados produtos é uma das recordações mais fortes de quem viveu essa época. Regularmente, cada família tinha de levantar as senhas de racionamento necessárias, distribuídas no edifício onde funcionou a Biblioteca Municipal, pertencente à Misericórdia, situado no cimo da Rua Paiva de Andrada.
A alternativa para obter determinados produtos era o recurso à candonga. Tal situação mereceria mesmo a reprovação pública nas páginas do “Notícias de Torres”: “Embora se venha acentuando a falta de géneros alimentícios, inegável consequência da angustiosa situação internacional, este concelho não é dos que mais tem sofrido.
“A Comissão Reguladora do Comércio Local, sob a presidência do ilustre presidente da Câmara Municipal, sr. Eng.D. Jose Telles da Silva , tem sabido vencer sérias dificuldades.
“É de lastimar que nem todos compreendam que não é fazendo comércio ilícito que se adquire um bem estar solido.
“O inimigo da civilização cristã, sem preconceitos e sem amor ao seu semelhante reage na treva ,servindo-se da intriga para fazer valer a sua criminosa acção especuladora.
“Todos os que anceiam a paz, a verdadeira alegria na vida,devem participar no sacrifício imposto pela anormal situação.
“Os que assim não procedem são ignobeis fragmentos humanos, torna-se ,por isso indispensavel, deter enérgicamente a sua barbara ambição”.
Tais reparos não evitaram o enriquecimento imoral de muita gente, tendo-se mesmo construído um bairro a sul da vila, na continuação poente da rua Carlos França, que ficou popularmente conhecido por “Bairro da Candonga”, cujas habitações teriam sido feitas à custa dos lucros dessa actividade ilegal.
Houve mesmo um episódio relacionado com essa situação, ainda hoje recordado por muitos torrienses com mais de 75 anos: Certo dia, talvez no ano de 1942, um cliente deslocou-se ao estabelecimento “Fonseca & Lisboa”, na rua Dias Neiva, para levantar os seus artigos do racionamento. Os armazéns daquele estabelecimento encontravam-se em frente e alguém reparou que um dos empregados aí se deslocou e retirou barras de sabão para entregar ao cliente, mas que não vinham no seu racionamento. Então os ânimos exaltaram-se, acusando-se os armazenistas de esconderem o sabão ilegalmente, constatando-se que este era vendido por alto preço a quem o pudesse pagar, quando se declarava aos outros clientes a inexistência daquele bem. Houve quem corresse para a Igreja de S. Pedro e tocasse os sinos a rebate, registando-se o assalto aos armazéns ,principalmente por parte dos moradores da Rua da Corredoura, os mais pobres e, por isso, mais prejudicados com a situação. Várias pessoas foram presas, 2 mulheres e 4 homens.
O sabão era mesmo um dos produtos cuja falta mais se fazia sentir. Havia até quem o fabricasse em casa artesanalmente e o vendesse. Comprava-se sebo no talho ,misturava-se com potássio e outros produtos químicos, adquiridos na farmácia , secando-se ao sol em caixas de madeira .
As dificuldades provocadas pela guerra podem ser também exemplarmente observadas através da evolução dos preços tabelados, anualmente , pela câmara municipal, em Agosto ou Setembro de cada ano. Até 1942 os preços permanecem estáveis, com prejuizo para os produtores , situação que ,contudo, se torna insustentável a partir de 1942 ,ano em que ,talvez para responder ao mercado negro, e uma maior carência dos produtos, os preços subiram em flecha.
Mas nem todos os efeitos foram negativos. É conhecido o caso da “Casa Hipólito” que ficou a dever em grande parte a sua expansão à guerra, nomeadamente nas relações privilegiadas que, pelo menos desde 1938, mantinha com a Alemanha, fabricando invólucros de granada, pelo que o nome dessa empresa chegou a constar de uma “lista negra” elaborada pelos aliados, com os nomes de empresas que haviam colaborado com os alemães, divulgada aos microfones da BBC, e envolvendo outras empresas da região, entre elas uma serralharia de Runa. Só a diplomacia de um Vasco Parreira, bem relacionado com o delegado comercial da embaixada Norte-Americana, conseguiu livrar a empresa de sofrer as consequências dessa situação.
Alguns dados sobre a vida cultural
No censo de 1940 69,85% dos habitantes do concelho de Torres Vedras eram analfabetos, percentagem que se reduziu para 57,13% no censo de 1950. O ensino conheceu então algum incremento com a fundação, em finais de 1944, da Escola Comercial Augusto Cabral.
Da população recenseada em 1940, 94,01% declarava-se católica, percentagem que, curiosamente, aumentaria para 97,24% dos recenseados em 1950.
A imprensa era então, conjuntamente com a rádio, um dos principais meios de difusão cultural. Contudo, apesar da tradição jornalística de Torres Vedras, os anos 30 e 40 foram marcados pela redução drástica de edições.
Os piores anos para a imprensa local foram os de 1937,1938,1939 e 1940. A saída definitiva deste período negro na história do jornalismo torriense só teria lugar em 1948 com a fundação do jornal “Badaladas”. A censura, o domínio quase absoluto do jornalismo por propagandistas do regime e as próprias dificuldades económicas inerentes ao período de guerra, terão contribuído para essa fase decadente. Daí também a dificuldade em obter informações documentais escritas sobre o período de guerra.
Muitas das notícias da guerra chegavam a Torres Vedras de comboio, vendendo-se aos balcões da estação os principais títulos da imprensa nacional de então.
Mas outro meio, não menos importante e de certeza mais espectacular, era o cinema , exibindo o Teatro Cine Ferreira da Silva as “actualidades” da guerra.
A rádio era ainda o meio de informação mais rápido, e dela chegavam as notícias mais frescas. Alguns arriscavam mesmo a audição proibida e clandestina da B.B.C., onde se destacava a locução irreverente de um Fernando Pessa, emissões frequentemente sujeitas a interferências, atribuídas em Torres Vedras aos germanófilos locais.
Os cafés eram o principal ponto de encontro dos homens da vila, já que então o lugar da mulher era em casa, e a sua presença, a não ser que acompanhada, era muito mal vista pela sociedade de então. Aí se discutiam as últimas da guerra, muias vezes acompanhando-se os movimentos militares com mapas sobre as mesas.
Periodicamente tinham lugar os bailes, as sessões teatrais ou musicais nas várias colectividades da vila, pelas quais os torrienses se distribuíam segundo as classes sociais: as classes “altas” frequentavam o seu “Casino”, as classes “médias” dividiam-se pelo “Clube Artístico e Comercial” e pela “Tuna Comercial”, e o operariado, em crescimento, mercê da prosperidade industrial, que a guerra terá acelerado, divertia-se na “Sociedade Recreativa Operária”.
Em finais de 1944 era fundada uma nova colectividade, “A Banda Recreativa Torreense”, também conhecida por “Banda Nova”.
Propaganda e Política
Torres Vedras não estava alheada da guerra propagandística desencadeada em Portugal pelos dois blocos em confronto.
Em Torres Vedras a propaganda das forças do “Eixo” era distribuída no estabelecimento situado no “chalé” onde hoje está o novo e remodelado Café Império. Alguns torrienses estavam inscritos no “Clube Alemão”, deslocando-se regularmente a Lisboa, em excursões organizadas à sede desse clube, para assistirem a sessões cinematográficas de propaganda alemã. Ao que parece, esta associação terá tido alguma aceitação e actividade até 1942, ano em que se inicia a viragem na guerra, entrando desde aí em declínio.
Quase em frente ao estabelecimento que centralizava a propaganda alemã, situava-se a Papelaria e Livraria Progresso, de Victor Cesário da Fonseca, responsável pela distribuição da propaganda aliada, à volta da qual se reunia a oposição republicana ao “Estado Novo”.
Sinais da guerra chegavam também pela presença de crianças adoptadas, refugiadas de guerra, residindo no seio de algumas famílias da vila e do concelho.
Não são conhecidos, contudo, casos de espionagem, a não ser numa situação nunca esclarecida de um dinamarquês, provavelmente judeu, residindo durante algum tempo numa pensão da terra e que apareceria misteriosamente morto a tiro numa estrada do concelho, poucos dias depois de ter chegado uma ordem governamental para exilar todos os estrangeiros em Caldas da Rainha.
Durante os anos de guerra foi presidente da câmara o Engenheiro D. José Teles da Silva (Tarouca), cargo que exerceu até ao final de 1945.
O Presidente da Câmara era então nomeado pelo governo.
Vivia-se em plena vigência da Constituição de 1933, e vigorava a lei eleitoral de 27 de Dezembro de 1933, aperfeiçoada pelo Decreto-lei de 6 de Novembro de 1934.Só se podiam recensear os homens, maiores de 21 anos que soubessem ler e escrever ou, não o sabendo , pagando no mínimo 100$00 de imposto. As mulheres só tinham capacidade eleitoral se, para além de maiores e emancipadas, tivessem cursos do ensino secundário ou superior. Obviamente que, no tipo de regime então em vigor, os presos políticos não possuíam capacidade eleitoral.
O recenseamento era feito pelos orgãos do Estado, sem fiscalização externa. Durante a guerra, só em Novembro de 1942 houve eleições para deputado à Assembleia Nacional, à qual apenas concorreram os candidatos do partido único, União Nacional.
É conhecido o resultado desse escrutínio eleitoral, referente a Torres Vedras e às suas freguesias, publicado nas páginas do “Noticias de Torres” de 18 de Novembro de 1942.
O número total de eleitores do concelho correspondia, praticamente, ao máximo legalmente possível, tendo apenas em conta, e como termo de comparação, o número de habitantes do concelho que, no censo de 1940, sendo do sexo masculino, tinham 21 anos ou mais e sabiam ler e escrever, perfazendo um total de 4446, aos quais podemos somar o número de mulheres, com 21 ou mais anos, possuindo ensino secundário ou superior, em número de 73, o que, tudo somado, corresponde a 4819 potenciais eleitores. Contudo não é possível detectar o número de habitantes que, não sabendo ler e escrever, pagassem o imposto mínimo exigido. Mesmo tendo em conta o modo geralmente fraudulento como decorriam então os recenseamentos eleitorais, podemos ver que mais de 90% da população do concelho estava arredada de qualquer participação política.
Todavia, é de registar o facto de, nas freguesias de Carvoeira, Matacães, Maxial e, principalmente, em Monte Redondo e Runa, a percentagem de eleitores ser bastante superior à média concelhia.
A Freiria, a Silveira e a Ventosa registam o mais baixo índice de eleitores.
Quanto ao acto eleitoral, mesmo tendo em conta apenas concorrer o partido único, o controle das assembleias eleitorais pelos fiéis do regime e o facto de, em muitos casos até os mortos contarem, bem como os votos nulos e brancos, a favor da União Nacional, é possível detectar as freguesias menos controladas pelo regime, e onde os eleitores manifestavam o seu desinteresse ou oposição através de uma abstenção superior à média concelhia, como aconteceu, e por ordem decrescente quanto à abstenção, com Dois Portos,Runa, 1º assembleia das freguesias de SªMaria e S.Pedro, e ,de forma menos evidente, Ventosa, Matacães, Freiria e Turcifal.
Pelo contrário, nas assembleias de Carmões, Silveira, Monte Redondo, Outeiro, Ponte do Rol, Maxial, Campelos e Ramalhal, o eleitorado mostrou-se mais empenhado em manifestar o seu apoio ao regime, votando em “massa” no partido único.
Claro que esta leitura dos resultados é discutível, tendo em conta os condicionalismos do acto eleitoral, mas é uma aproximação possível para um ensaio de caracterização geográfica dos apoios e oposições que a política do Estado Novo podia então encontrar no concelho.
...E A Guerra Acabou.
A partir de 1944,com o rápido avanço do exército russo e, principalmente com o desembarque das forças aliadas na Normandia a 6 de Junho, começava a ser evidente que a derrota alemã era uma questão de tempo, e renascia a esperança que o final da guerra trouxesse o fim do regime salazarista.
Em Torres Vedras, Raimundo Portas, conjuntamente com outro oposicionista, preparou uma armação de fogo armado para lançar uma salva de 21 tiros, a ser colocada no Castelo assim que os soviéticos entrassem em Berlim. Até lá, o material pirotécnico foi escondido no “Tavares Ferro-Velho”, enquanto no castelo já tinham sido preparados os buracos para colocar a armação. Até que um dia Raimundo Portas que diariamente se deslocava à estação de caminho de ferro, para comprar o jornal “República”, ao passar na “Ginjinha” ouviu pela rádio que os soviéticos tinham entrado em Berlim.”Nem comprou o jornal, foi a correr avisar os outros, montaram tudo no Castelo, acenderam aquilo. Estava tudo preparado para terem um certo tempo para fugirem para o Forte. Quando estavam a subir, começou a ouvir-se o início da salva de 21 tiros de canhão”(Pedro Fernandes). A polícia em Torres desatou a correr castelo acima, mas quando lá chegou já tinha acabado a salva.
Foi a 2 de Maio de 1945 que os soviéticos entraram em Berlim. A vitória dos aliados seria proclamada a 8 de Maio.
Assim que a paz na Europa foi oficialmente anunciada, as pessoas saíram para a rua para se manifestarem, num grande movimento popular e espontâneo. Contou-nos Adão de Carvalho que se lembrava nesse dia de acompanhar o padre Joaquim Maria de Sousa a casa, quando depararam com alguma agitação frente ao posto da polícia. Várias pessoas insistiam junto do chefe da polícia para que autorizasse uma manifestação pelas ruas da vila para comemorar a paz. Este mostrava-se renitente, alegando não ter ordens superiores. Ainda segundo o testemunho de Adão de Carvalho, terá sido o padre Joaquim a convencer o chefe da polícia a permitir a manifestação, responsabilizando-se pessoalmente pela mesma, tendo mesmo mandado tocar os sinos das igrejas para assinalar a paz.
A manifestação percorreu as principais ruas da vila, e em vários locais alguns dos manifestantes discursavam espontaneamente. Dois grandes cartazes acompanhavam os manifestantes, um com os dizeres “Paz, Pão, Liberdade e Trabalho” e outro “Viva Portugal”. Bandeiras inglesas e americanas eram entusiasticamente acenadas pelos manifestantes.
O ponto alto da manifestação teve lugar no largo da câmara, onde os manifestantes se dirigiram para serem recebidos pelo executivo camarário. Mas esta encontrava-se fechada e ninguém compareceu para receber os populares. Foi aí que o republicano Dr.Graça, da varanda do seu escritório, situado frente à Câmara, dirigiu um improviso que muito sensibilizou todos os presentes.
Pouco entusiástica parece ter sido assim a reacção do executivo camarário ao resultado da guerra, como se confirma pelo conteúdo das actas camarárias. Assim , a 10 de Maio ,surge, no meio de requerimentos e propostas várias ,uma formal e envergonhada deliberação de se telegrafar “a Sua Exª o Presidente do Concelho, agradecendo e felicitando-o vivamente pela forma digna, inteligente e altamente patriótica como conduziu a politica interna e externa de Portugal assegurando a todos os portugueses uma Paz inestimável”(Livro nº 47 dos Acordãos da Câmara ,10 de Maio de 1945 ,194 v e 195).Apenas uma outra reduzida e lacónica frase volta a referir-se à paz definitiva, após a derrota japonesa, num outro acordão de 16 de Agosto de 1945, onde se dava conta da decisão de “exarar na acta um voto de congratulação da Camara pelo fim da guerra mundial” (Livro nº48 dos Acordãos f.14)
Victor Cesário da Fonseca, que durante a guerra havia feito da sua livraria o centro de divulgação da propaganda aliada, decorou a sua montra com as bandeiras de todos os aliados, ao lado das quais colocou um pau sem bandeira, onde deveria estar a da União Soviética, cuja exibição pública estava proibida pelo Estado Novo.
O fim da guerra foi um período de esperança para muita gente, infelizmente logo desfeita, internamente com o intensificar da repressão política, externamente com o início da chamada “Guerra Fria”.Mas, apesar disso, tanto para o mundo, como para Torres Vedras, iniciava-se aqui um novo capítulo da sua História.

4 comentários:

Anónimo disse...

Entao onde para a bibliografia, pa? Dava jeito..

Armando Fernandes disse...

Brilhante!
Venerando não nos paras de surpreender!

Joaquim Moedas Duarte disse...

Caro Venerando

Sobre a Casa Hipólito durante a Segunda G Guerra fazes afirmações que eu precisava de ver apoiadas em documentos. Vou fazer uma citação sobre isso na minha tese mas acho que fica pobre sem o apoio de documentos comprovativos.
Achas que ainda podes fazê-lo?

Obrigado.

Joaquim Moedas Duarte disse...

Caro Venerando

Sobre a Casa Hipólito durante a Segunda G Guerra fazes afirmações que eu precisava de ver apoiadas em documentos. Vou fazer uma citação sobre isso na minha tese mas acho que fica pobre sem o apoio de documentos comprovativos.
Achas que ainda podes fazê-lo?

Obrigado.