sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Uma Praça no “centro” de Torres Vedras


Durante séculos, até meados do século XIX, a “Praça do Município” foi um dos largos mais movimentados de Torres Vedras, talvez mesmo o “centro” da vida local.

Ainda na segunda metade do século XIX os anotadores de Madeira Torres confirmavam a sua importância, referindo  ter  “esta villa a sua praça no centro, ainda que pequena, segundo o costume das terras antigas” (1).

 Muitos outros largos existiam na então vila, mas sem a importância daquele, posição que seria apenas disputada pelo Largo em frente à Igreja de S. Pedro.

Essa centralidade só lhe terá sido arrebatado pelo popularmente conhecido “Largo da Graça” em finais do século XIX.

Um dos aspectos que contribuiu para a importância do Largo do Município foi o facto de aí se localizar o edifício municipal.
 
Existindo poder municipal em Torres Vedras documentado desde o século XIII, como se comprova por documentos de 1226, uma escritura de doação ao convento de Penafirme, com referência a cargos municipais (pretor, alvasi e conselheiro), e outro de 1235, primeira referência ao selo do  concelho, confirmado   pelo foral de 1250, é só em 1337 que existe referência documental ao edifício dos Paços do Concelho.

Segundo Ana Maria Rodrigues, na  Idade Média esse largo constituía “ como que o alargamento da Rua de S. Pedro na sua extremidade final, albergando o Paço do Concelho e o Pelourinho” (2).

A partir do século XVI são várias as referências ao edifício municipal

Em 1591 um alvará régio, datado de 4 de Agosto, autorizava o lançamento da finta até 200 mil réis, destinados a restaurar o edifício da câmara e, poucos anos depois, em 1597, em sessão camarária de 1 de Fevereiro, decidiu-se chamar o povo da vila e do termo, representado pelos juízes de vintena, para aprovarem a aplicação de 100 mil réis das sisas para a reconstrução do edifício, “porquãoto as rendas do concelho são tão poucas que não bastão para as ditas obras”. Estas já se tinham iniciado, mas estavam “em perigo de cairem de todo”. Os representantes do “povo” concordaram todos com essa despesa em sessão ocorrida no dia 8.

Em 22 de Fevereiro a camara elege um tal João Pinto para depositário daquela quantia. Cerca de um ano depois, na sessão de 10 de Janeiro de 1598, fica a saber-se que as obras estavam quase acabadas, faltando ainda concertar a casa de audiências.

 Em 1634, por provisão do desembargador do paço desse ano, autorizou-se a aplicação de 95 mil réis do depósito dos bens de raíz para obras na cadeia.

Deste edifício municipal quinhentista não existem vestígio e, a existirem, devem estar a bastante profundidade já que, como refere Júlio Vieira, devido aos terrenos aluvianos em que assenta o centro histórico, foi frequente o “alteamentos das ruas da vila (…) que se estendeu à própria praça do Município” (3).  

Um poço descoberto no início  deste século confirma essa situação, dada a profundidade a que se começaram a recolher objectos nesse poço, existente num pátio a norte do actual edifício municipal, objectos datados  desde o século XV, mas com principal incidência nos finais do século XVI, princípio do XVII, destacando-se várias peças de olaria, muitas intactas, que ao longo do séculos foram lançadas naquele poço.

Mas a existência do edifício municipal não foi o único que caracterizou a vivência do largo.

Nele existiu a Estalagem da albergaria de S. Brás, referida num documento de 1387 .

Também aí se situava a Capela de Santo António , situada frente aos paços do concelho, “nas casas fronteiras da parte sul, pertencentes então a Miguel Ignácio da Silva Lobo” que servia para dar missa aos presos. Servia também de passo da irmandade dos passos.

Aquele proprietário obteve licença para derrubar aquela capela “com a condição de fazer defronte da Misericórdia, à sua custa, um novo Passo (…) como fez, mudando para alli o que estava na dicta capella” em 1809 (actualmente é um dos Passos da Procissão do Senhor dos Passos, localizado frente à Misericórdia).

Numa provisão do cartório da Igreja de S. Pedro, de 21 de Maio de 1647 é referenciada como “capela de Santo António da Graça” (4).

No século XVIII o largo ganhou as características actuais, na sequência do incêndio que destruiu o edifício municipal.
 
Muitos autores referem o ano de 1744 como o da data desse acontecimento, mas um documento recentemente encontrado pelo Dr. Carlos Guardado permite datar esse incêndio  no dia 29 de Setembro de 1745.

O incêndio foi ateado por um preso, para se evadir.

O preso em causa era “filho do serventuário do officio de escrivão dos orphãos, que então era João Franco da Costa”.

Para pagar os estragos e a reconstrução do edifício, procedeu-se ao “sequestro na legítima do incendiário, na mão de seu pae”, processo que ainda decorria em 1776 (5).

Nesse incêndio arderam os arquivos mais antigos do concelho, salvando-se o foral manuelino de 1510, cartas régias assinadas por D. Sebastião e pelo cardeal D. Henrique, e os livros de acordãos posteriores a 1572

Após o incêndio iniciou-se, em Julho de 1752, a reconstrução do edifício, para a qual se arrematou “a obra de pedreiro por 160$ooo réis, e a de carpinteiro por 274$000 réis”, obra terminada em 1776 (6). 

Data dessa obra a colocação de um chafariz no largo, assim descrito por Júlio Vieira:

“Tem uma frontaria de um andar, com quatro pequenas janelas de ressaibo pombalino, únicas nesse género, que existem nesta vila”(7).
 
Possui uma original escultura de um peixe lavrada num único bloco de mármore e, na base, a data de 1775, diferente da data na inscrição em cima.

 Recebia agua de um “ramal subterrâneo do aqueduto do Chafariz dos Canos, do qual se aparta em frente ao mercado do peixe”, nas traseiras da Igreja de S. Pedro (8).

Inclui umai nscrição onde se pode ler:

“Governando El-Rei D. José I, Pae da Pátria, para commodidade da cadeia, e do povo, o corregedor da comarca fez edificar esta fonte à custa do público no ano de 1776”(9) [era então corregedor da comarca Joaquim José Jordão]

É encimado por um curioso “escudo em forma de coração (…) no centro do qual estão duas torres inclinadas semelhantes às antigas insígnias das armas da vila do Chafariz dos canos” (10).
 
Ao longo dos tempos o edifício municipal desempenhou várias funções, para além de sede do poder local.

No primeiro andar era sala de audiências e no segundo andar a sala de sessões da Câmara e cartório (segundo anotadores de Madeira Torres);

Nele funcionou a prisão e o Tribunal de Comarca até 1887, foi depositário do arquivo histórico municipal até aos finais do século XIX, foi escola municipal entre 1890 e 1903 e o primeiro quartel dos bombeiros entre 1903 e 1934.
 
A cadeia já funcionava aí em 1598, data de um acórdão de 29 de Janeiro desse ano, onde se refere a entrega de 24 presos.

No século XIX a cadeia era descrita como tendo  “além da enxovia (…) dois andares, constando o primeiro da chamada  sala livre, e o segundo de dois quartos, que servem de prisão para mulheres, e nesse mesmo andar existia o segredo, que é um pequeno quarto dom pouca claridade”.

A porta de entrada e “habitação para o carcereiro”, ficava do lado da “rua do Espírito Santo”.

“Antigamente” o carcereiro era nomeado pelo alcaide-mor e recebia de ordenado 24:000 réis.No séc. XIX era nomeado pela Câmara, e recebia de ordenado 12$000 réis” mais “carceragens” (11).   

Associado à cadeia, estava o pelourinho que aí esteve até ao principio do século XIX .
 
É referido pela primeira vez em 1430 e tinha “as armas reaes na columna, e em cima dois varões de ferro em cruz com argolas na extremidade dos quatro braços, e estes revirados em fórma de farpa” (12).

Poucos dias depois de ser reparado, foi deitado abaixo, em 13 de Maio de 1852, por ordem do administrador do concelho Maurício José da Silva, por considerar que estorvava a passagem da comitiva da rainha D. Maria II, cuja visita ocorreu a 1 de Junho.

Durante anos não se soube do seu paradeiro, até ser descoberto por Leonel Trindade uma parte do seu fuste.

Esteve exposto no Museu Municipal, no tempo em que este esteve instalado no antigo hospital da Misericórdia.

Por decreto de 11 de Outubro de 1933 o que resta do antigo pelourinho foi classificado imóvel de interesse público e, no princípio do século XXI, por ocasião das obras de remodelação do edifício e do espaço envolvente, o fuste do antigo pelourinho foi recolocado no largo, como memória.
 
Aquele largo foi, ao longo dos tempos, um dos mais movimentados e dinâmicos centros da vivência colectiva torriense.

Na Idade Média, na a zona do largo do Município existiam  “vários artesãos e comerciantes” que  “exerciam o seu mestre e vendiam os seus produtos. Era esta, sem dúvida, a parte mais animada e concorrida”, segundo Ana Maria Rodrigues (13), que encontrou referências a ferreiros, mercadores, correeiros, tecelões e tecedeiras, sapateiros e “até mesmo um estalajadeiro”.
 
Na idade média apenas se refere a “praça” aí existente. Só mais tarde existem referências à “praça de víveres”. Era uma praça diária de hortaliças, frutas e comestíveis.

Ana Maria Rodrigues considera provável que, para além daquela praça diária, já houvesse um mercado semanal na Idade Média, “realizado na Praça, onde os aldeões das redondezas vinham, de vontade própria ou à força, vender os produtos da sua lavoura” (14).

Aos domingos estendia-se pelas ruas laterais.

No mercado dos domingos, no séc.XIX, aí se vendiam “muitos generos de cereaes e outros comestíveis, bem como de loiça, junco, cousas estas que ainda não há muitos anos alli não appareciam”(15).

A primeira referência conhecida a um mercado semanal naquele sítio data de 1736, realizando-se à 3ª feira. A Câmara quis mudá-la para o Largo da Graça, por ser este lugar mais espaçoso, por concessão de 24 de Maio de 1792.

Um outro momento ligado àquele largo era a Quebra do Escudo, solenidade que se realizava por ocasião do falecimento de um monarca.

A cerimónia tinha inicio nos Paços do Concelho, de onde saia um cortejo, acompanhado pelas autoridades, pela “nobreza” e pelo povo.

À frente ía a cavalo  “a pessoa principal”, com uma “bandeira de luto que arrastava pelo chão”, seguido de três vereadores, cada um transportando três escudos com as armas reais.

O cortejo, acompanhado de carpideiras, parava em três lugares públicos onde se procedia à quebra do escudo, que simbolizava o fim do reinado (16).

As principais visitas régias documentadas da história torriense incluíram como um dos principais momentos solenes a passagem da comitiva por esse largo, como aconteceu com a visita de D. Pedro V em 16 de Junho de 1859. O rei D. Pedro V e a rainha Dª Estefânia, eram acompanhados pelo Príncipe de Gales e, depois de se realizar missa na Igreja de S. Pedro a comitiva real deslocou-se aos Paços do Concelho “para tomar uma refeição, que na véspera para lá havia sido mandada do Real Palácio de Mafra, e ahi acharam SS. Mag. Tudo preparado, e em parte por prevenção da Camara Municipal, que lhes offereceo também o refreco d’uma boa cobertura de dôces”.

No ano seguinte, em 1 de Setembro de 1860, vindo de Peniche, o mesmo monarca fez uma curta paragem em Torres Vedras, para “uma breve refeição” nos Paços do Concelho (17).

A última visita de um monarca a Torres Vedras foi ade D.Manuel II, em 21 de Agosto de 1908, por ocasião das Comemorações do Centenário da Batalha do Vimeiro.
 
Depois do almoço no Casino, o rei e a sua comitiva deslocaram-se a pé, pelo meio da multidão que o aclamava, até aos Paços do Concelho, recebendo aqui as “felicitações da câmara municipal numa alocução lida pelo presidente do município” o Cónego António Francisco da Silva. Depois dos discursos oficiais, o “ povo, com consentimento de EL-Rei, invade a Casa da Câmara e passa respeitoso ante o trono, beijando a mão de Sua Majestade, que a todos acolhe com o seu habitual sorriso de bondade”, enquanto que  no largo duas bandas tocavam o hino nacional e os bombeiros faziam a guarda de honra” (18).

Mas aquele largo, pelo seu simbolismo, foi também o palco de várias movimentações populares.

Em 1 de Março 1599 foi o centro de um motim popular, devido à nomeação do guarda-mor.

Um outro motim popular ocorreu em 9 de Fevereiro de 1868 e ficou conhecido por “batalhôa”, sendo um reflexo local da conhecida revolta da “janeirinha” contra o aumento de impostos.

A população enfurecida, parte oriunda das freguesias rurais, invadiu a travessa da Olaria, onde estava instalada a sede da administração do concelho e a repartição da fazenda, queimando os seus arquivos.

De seguida dirigiram-se para os Paços do concelho com o mesmo objectivo.

A revolta acabou junto ao município “pela persuasão com que os membros da  câmara aí presentes” defenderam o arquivo, que assim escapou a ser queimado (19).

As grandes manifestações da República e do Estado Novo tiveram igualmente aquele largo como palco, como aconteceu com a “manifestação de desagravo” pelos “acontecimentos no Estado da Índia Portuguesa” ocorrida em  24 de Julho de 1954, e assim descrita pelo “A Voz”:
 
“Ontem, na Praça do Município, grande multidão, tendo à frente os estandartes de todas as colectividades e organismos locais, a banda de música dos Bombeiros Voluntários e vários dísticos com frases patrióticas concentrou-se, às 16.30, a fim de manifestar o seu veemente protesto pelo afrontoso atentado de Dadrá” (20).

Na manifestação de aclamação do 25 de Abril de 1974 foi mais uma vez um dos lugares escolhidos para o seu percurso e continuou a ser o principal centro de manifestações e acontecimentos políticos enquanto aí esteve sedeada Câmara Municipal, até à inauguração do novo edifício na Av. 5 de Outubro, em 31 de Março de 2006.
 
Apesar de alguma decadência pela retirada dos serviços do município daquele local, tem vindo a recuperar, pouco a pouco, alguma vivência social e, principalmente cultural, continuando a ser um dos espaços mais apreciados pelos torrienses.

(Nota: um resumo deste texto foi publicado na passada edição do jornal “Badaladas” de  25 de Novembro de 2016, na série “Vedrografias”. Por sua vez, a versão que aqui se divulga é um resumo de uma comunicação oral inédita apresentada numa sessão de “Sopa de Pedras”, realizada em 16 de Março de 2012. As notas em baixo são ainda um esboço das anotações correctas, mas que penso que são perceptiveis por todos os que se interessam pela história torriense)

(1)    - anotadores  de Madeira Torres – p.13, parte Histórica, 1862;

(2)    -Ana Maria Rodrigues, p.147-148;

(3)    -Júlio Vieira;

(4)    -Fontes: Júlio Vieira, anotadores MT, Carlos Guardado;

(5)    -anotadores Madeira Torres, p.14, parte Histórica, 1862;

(6)    -anotadores MT, 1862, p.14;

(7)    - Júlio Vieira;

(8)    - Júlio Vieira, p.143;

(9)    -proposta de tradução dos anotadores de MT, p. 15, 1862;

(10)                       - Júlio Vieira, p. 142;

(11)                       - anotadores de MT, p.15, 1862;

(12)                       - anotadores MT, p16, 1862;

(13)                       - Ana Maria Rodrigues, pág.148;

(14)                       –Ana Maria Rodrigues, pág.328;

(15)                       -anotadores da parte económica (manuscrita) de Madeira Torres, 1865;

(16)                       -segundo Júlio Vieira, pp.302-303;

(17)                       - anotadores MT,p.55, 1862;

(18)                       - in O Occidente, nº 1068 de 30 de Agosto de 1908;

(19)                       -Júlio Vieira, pp.304-305;

(20)                       -A Voz de 27 de Julho de 1954.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

TORRES VEDRAS E AS MANOBRAS DA 1ª DIVISÃO – OUTUBRO DE 1916


(O general Pereira D'Eça no comando da 1ª Divisão, durante as manobras militares de Outubro de 2016 . Fotografia de Joshua Benoliel na Ilustração Portuguesa , nº555 de 9 de Outubro de 1916)
 
Em Março de 1916 Portugal entrava oficialmente na Primeira Guerra, apesar de já estar envolvido nela desde 1914 na frente Africana.
De imediato se iniciou a mobilização militar e a preparação das tropas para participarem na frente europeia.
Uma das iniciativas com maior impacto na região de Torres Vedras  foi a realização de manobras militares da 1ª Divisão, com cerca de 20 mil homens, comandada pelo General Pereira D’Eça, em Outubro, mostrando a importância militar que a  região ainda tinha, por via das Linhas de Torres Vedras e do caminho-de-ferro.
Um dos momentos altos dessas manobras foi a realização de exercícios de combate junto do Vimeiro.
David Salsa, repórter de “A Capital” descreve o ambiente que se vivia na vila, na véspera da chegada da primeira coluna e do comando da 1ª Divisão, em 7 de Outubro : “na avenida que liga a estação do caminho de ferro ao centro da villa, deparei com um pequeno grupo de officiaes do estado maior. Andavam escolhendo edifício próprio para instalação do quartel  general que dentro em breves dias ali deve chegar.
“Os mesmos officiaes percorreram differentes armazéns e barracões que servissem a arrecadação de subsistências estando também na estação do caminho de ferro, onde o movimento de mercadorias, devido á próxima chegada das tropas, augmentou consideravelmente”, anunciando também que “algumas praças da secção de quartéis de cavallaria 4” estavam acantonados próximo do Turcifal, preparando-se para avançar para Torres Vedras no dia seguinte. (1).
Nas páginas do jornal “Vinha de Torres Vedras” refere-se o inicio da entrada das tropas da 1ª Divisão em Torres Vedras:
“No dia 8 chegaram a esta vila dois pelotões  do primeiro esquadrão de cavalaria 4 , dois do segundo com respectivo estado maior (…) e uma secção de exploração
“Às 9 horas chegaram as primeiras patrulhas que tomaram as embocaduras  das ruas, indo uma até ao Castelo.
“Depois chegou o resto da força composta de 200 praças, 16 sargentos e 42 oficiais, que seguiu em direcção à praça de touros onde bivacou”.
O mesmo articulista informava também que a “Infantaria 5” estava estacionada no Turcifal e “outros regimentos em diversas localidades aqui perto” aguardando-se a sua chegada a Torres Vedras para os dias seguintes, assim como do quartel general “cujos alojamentos para oficiais e secretarias já estão prontos” (2).
O mesmo periódico local descreveu em pormenor a forma como as tropas, após a sus chegada. se distribuíram pela vila:
“O quartel general (…) instalou-se num prédio da rua Valadim (…).
“Na sede da Associação de Socorros Mutuos 24 de Julho, foi montada a estação central de telefones.
“A pagadoria ficou num prédio da rua Paiva de Andrada e o correio militar noutro, à esquina do Largo de S. Tiago.
“Na Porta da Varzea montaram-se os serviços de telegrafia sem fios, parque de automóveis e serviço de saúde . No prédio do sr.José PedroLopes a secção de camions.
“Nos armazéns das Covas, ficaram os depósitos de provisões.
“No campo de S. João foram montados dois hospitais de sangue.
“Na vila acham-se aboletados soldados e oficiais em grande número, e foi interessante e pitoresco o aspecto de Torres Vedras, no domingo de mercado, pela grande quantidade de famílias que vieram visitar oficiais e soldados.
“Os diversos regimentos de infantaria, cavalaria e artilharia acham-se bivacados em roda de Torres Vedras, pelo que se póde  dizer-se  que neste concelho estão concentradas tropas no efectivo de alguns milhares de homens.
“O matadouro  municipal desta vila foi tomado militarmente, não sendo ali abatidas senão rezes da administração militar (…)” (3).
(postal de Torres Vedras de Outubro de 1916, apelando à "mobilização).
 
As manobras militares duraram praticamente todo o mês de Outubro e mereceram a atenção da comunicação social, atraindo vários repórteres a Torres Vedras.
Entre eles o conhecido Júlio Dantas, um dos intelectuais mais consagrados do início do século XX, mas que passou para a história como o personagem caricaturado por Almada Negreiros no célebre “Manifesto Anti-Dantas”.
Deve-se a Júlio Dantas uma das mais pormenorizadas e interessantes descrições sobre as manobras militares neste concelho, onde fez, igualmente, um colorido retrato da paisagem deste concelho.
A reportagem foi publicada originalmente nas páginas do “Primeiro de Janeiro”, transcrita integralmente nas páginas de “A Capital” em 3 de Novembro de 1916 e, seguidamente, nas páginas da “Vinha de Torres Vedras”, na sua edição de 9 de Novembro desse ano, desconhecendo-se a data da visita, mas que terá sido nos finas de Outubro.É desta última versão que reproduzimos alguns trechos desse saboroso texto:
“Partimos de Torres Vedras às 10 da manhã num automóvel do Quartel General. A Divisão Pereira d’Eça estacionava ao norte, dispersa numa extensão de noventa quilómetros quadrados, ao longo de três grandes estradas divergentes. Tomámos pela estrada Torres-Lourinhã-Peniche.
“Uma admirável manhã de outôno, fresca, descoberta de sol, viçosa ainda dos chuveiros asperos da noite. Enquanto o focinho de ferro do Hudson cortava o ar, a brava paisagem estremenha ía-se desdobrando em lombas de pinhal e em chãos de vinhedo, luminosa, fecunda, gotejante de orvalho – para um lado até às arribas do oceano, raza de névoa; para o outro, de ondulação em ondulação, de montanha em montanha, até à serrania azul de Monte-Junto. A atmosfera scintilava. Passavam carros de lenha a caminho dos bivaques. De vez em quando, à beira da estrada, vermelho, fumegante, enorme, pojava o mamilo de barro dum forno de tijolo.
“Vinte minutos depois, estávamos em Paio Correia – uma mão cheia de casinholas caiadas. Perto, um veio de agua espelhava: era o Alcobrichel [sic]. Numa terra ceifada, como pinceladas de oiro, alastravam as tendas do primeiro bivaque: era o batalhão de infantaria 11. Começava a subir o fumo das cosinhas [sic].  Um carro alentejano despejava pão. (…) Bandos de soldados, risonhos, tisnados, uma toalha branca ao pescoço, vinham de lavar-se no ribeiro .(…) “Seguimos. A estrada abria-se agora entre pinhais bravos (…); corria entre vinhas e vindimadas, onde fossavam e farejavam cães; talhava-se mais adiante, entre tratos de terra barrenta, cavada de barrocais, borbulhentos de cascalho, onde o automóvel saltava como uma péla. Principiaram a alvejar  (…) umas casas de adobe caiado. Era “A dos Cunhados”, centro de abastecimento, coalhado de carros de bois e de camions militares (…). Andando o casario, num campo á mão esquerda, estendia-se o bivaque do 3º grupo de baterias divisionárias (artilharia 3), numa grande mancha ruiva e buliçosa de gado (…). Dois soldados, a cara lambuzada de sabão, faziam  a barba, á beira da estrada. Uma nuvem de pardais atravessou diante do automóvel cujo leve chassis americano saltava, estremecia, devorava caminho a favor do vento. Principiava agora a região de grandes vinhedos. Ao longe, na encosta, matinando sinos, um povoado alegre branquejava: era o Sobreiro Curvo. De novo os pinhais ramalhavam; de novo surgiram os fornos de telha (…) e a primeira casa do Vimeiro (…). Estavam ali duas formações sanitárias – a ambulância nº2 e uma coluna de transportes - ; e, mais adiante, num vasto campo, perto das aguas lampejantes da Maceira, os dois batalhões de infantaria 1. Sentia-se já o ar do mar. A paisagem tinha agora uma expressão barbara de aridez, com as suas terras escalvadas, os seus pinhais longínquos ao nascente, as suas moitas cheirosas do alecrim bravo, rescendendo á beira da estrada. Quando chegámos a Toledo, em cujas casas se encontravam acantonados os sapadores mineiros, arrepiámos caminho, deixámos á mão esquerda Cabeça Gorda e o Casal do Grilo, voltámos a Paio Corrêa – e cortando a direito, entre sobreiros descascados e sangrentos, metemos à estrada das Caldas. Pouco depois, entravamos no Amial. Um povoado branco, alegre, cheirando a mosto, com as suas hortas verdes, o seus carinhosos beirais pojando de aboboras doiradas  (…). Logo adiante, (…) subindo por uma encosta de pinhal, um vasto bivaque de três batalhões, infantaria 16 e 17 (…) o Hudson do general seguiu, a direito do Ramalhal, onde vimos infantaria 5 e metralhadoras; daí para a Bogalheira, mais ao norte, onde em volta de um velho casal amarelo bivacava o 2º grupo de baterias divisionárias (artilharia 1); outra vez arrepiámos caminho, para alcançar a estrada Torres – Cadaval; metemos a um desvio aberto a picareta, numas terras barrentas; seguimos até Ermijeira, por entre grandes chãos de vinha, onde pareciam escorrer, ao sol, babas vermelhas de cobre; entramos na Quinta do Visconde, estacionamento de uma formação sanitária com tendas Bussoneau armadas; e, pela estrada do Cadaval adiante, entre barricas de mosto e carros de bois, jumentos bíblicos e cães hirsutos como lobos (…) chegámos ao Maxial, onde estacionava o 1º grupo de baterias; atingimos Malpique e a Mecejana, por cujas terras se estendiam, num mancha fulva  de tendas e de gado, o bivaque do 2 e a bela tropa algarvia de infantaria 4.
“Tínhamos percorrido, em três horas, uma extensão de 15 quilómetros (…) Quando chegámos a Torres, a poeira sufocava-nos, o sol ardia-nos a pela. É 1 hora da tarde”.
Os vários corpos de tropas da 1ª Divisão continuaram em manobras, entre  Torres Vedras e Caldas da Rainha, até ao principio de Novembro.
Já próximo dos finais de Outubro, numa correspondência datada do Ramalhal do dia 25, o repórter David Salsa de “A Capital” anunciava que “a testa da divisão, com as competentes patrulhas de exploração de cavalaria 4 e 5, sob o comando do sr.capitão Madureira está em Bombarral”, prevendo-se que avançasse daí S. Martinho do Porto, ultrapassando Caldas da Rainha, enquanto “o grosso da columna ultrapassasse já o Ramalhal, onde acantonam as forças de artilharia e infantaria”.
De Torres Vedras, onde ficou a “secção administrativa”, partiam todas as manhãs, o “comboio de abastecimento de víveres para Outeiro da Cabeça, Ramalhal e Bombarral, transportando os camions pão em grande quantidade que a Manutenção Militar fornece (…) além de outros comestíveis, predominando as conservas e as carnes frescas” (4).
A retirada da 1ª Divisão para Lisboa, encerrando as manobras militares, estava prevista para 8 de Novembro, mas foi antecipada para dia quatro, devido “ao mau tempo”.
Só no inicio de 1917 partiriam os primeiros contingentes para a Frente Ocidental.
As manobras militares da 1ª Divisão foram o mais próximo que os habitantes de Torres Vedras estiveram do ambiente da Primeira Guerra.
(1)    SALSA, David, “Nos campos de concentração –Os exercícios de combate nas linhas de Torres”, in “A Capital” de 8 de Outubro de 1916, pág.2;
(2)    “Vinha de Torres Vedras”  de 12 de Outubro de 1916;
(3)    “Vinha de Torres Vedras” de 19 de Outubro de 1916;
(4)    SALSA, David, “As Manobras da 1ª Divisão”, in “A Capital” de 27 de Outubro de 1916, pág.2;
(5)    In “Mobilisação da 1ª Divisão”, in “A Capital” de 4 de Novembro de 1916, pág.2.
(um resumo deste texto foi publicado nas páginas do jornal Badaladas na sua edição de 21 de Outubro de 2016)

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Começam hoje as Festas da Cidade de Torres Vedras

Festas da Cidade de Torres Vedras: São Gonçalo de Lagos e São Martinho voltam a dar as mãos para acolher as Festas da Cidade de Torres Vedras que terão a sua décima terceira edição, a decorrer a partir de 27 de outubro (dia dedicado a este primeiro santo), e estendendo-se para além do dia dedicado ao segundo (terminando a 12 de Novembro).
 
Integrada nas festas está mais uma edição de "Acordeões do Mundo" (clicar para ver programa).

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Torres Vedras Há 55 Anos , em Outubro de 1961


Outubro de 1961
Prestes a terminar um ano charneira para a história do regime salazarista…
De facto, esse ano assinalou o início da guerrilha angolana, marcado por massacres de parte a parte, entre os africanos comandados por Holden Roberto e os brancos defensores do colonialismo.
Por cá, nessa altura, já o “Badaladas” se editava semanalmente.
Era notória o impacto dos acontecimentos “ultramarinos” nas páginas do jornal torriense, nos artigos de opinião de “notáveis” da terra em defesa do governo e na rubrica “Correio do Ultramar”, onde os jovens torrienses que partiam para a guerra em África comunicavam com familiares e amigos.
Aliás, a leitura atenta dessa correspondência, regularmente publicada nas página desse periódico local, é um documento fundamental para se conhecer o reflexo da guerra colonial entre a população torriense, nomeadamente entre a juventude que partia para essa guerra, à espera de quem as estude.
Por cá, no dia 9 de Outubro, era apresentado publicamente o “Rancho Folclórico do Varatojo”, formado no seio da Associação Cultural e de Beneficência de Santo António do Varatojo.
Em 10 de Outubro falecia um dos professores mais prestigiados da Escola Secundária de Torres Vedras, António Fivelim Costa, aos 67 anos.
No dia 16 de Outubro realizou-se a 1ª Feira de S. Gonçalo de Lagos, padroeiro de Torres Vedras, que coincidiu com a habitual feira mensal na última segunda-feira de cada mês.
A feira teve lugar na Porta da Várzea e incluiu a bênção do gado e a escolha dos melhores cavalo e égua, junta de bois e parelha de muares, com distribuição de prémios aos vencedores.
A Banda dos Bombeiros de Torres Vedras animou essa noite, actuando no Largo da Graça.
Nesse mesmo Largo da Graça teve lugar a inauguração, nesse mesmo mês de Outubro, da nova sede do jornal “Badaladas”, no sítio onde funcionou até há poucos anos.
A vida cultural torriense era então marcada pelas actividades do Cine Clube de Torres Vedras e pelo Suplemento Cultural do jornal “Badaladas”, com publicação mensal e de grande qualidade, quer gráfica, quer de conteúdo.
Na edição de Outubro desse mesmo suplemento António Augusto Sales entrevistava o Grupo de Teatro Procenium e Cordeiro Melo analisava a “Guernica de Picasso”, enquanto Claro Ceia e Ruy de Moura Guedes divulgavam os seus originais.
Mas a notícia mais importante desse suplemento era a referente à presença em Torres Vedras do Coro da Academia de Amadores de Música dirigido por Fernando Lopes Graça, uma iniciativa do Cine clube local e que muito preocupou o establishement ligado ao Estado Novo, cada vez mais preocupado com as iniciativas “subversivas” dessa associação.
António Augusto Sales, um dos torrienses de então mais tento à realidade local, publicou em 28 de Outubro, nas páginas do “Badaladas”, uma Carta Aberta à Comissão Municipal de Turismo, criticando as condições dos balneários da Praia de Santa Cruz, carta que fez corres muita tinta por parte de uma administração municipal pouco habituada a ouvir críticas sobre a sua actuação, numa época em que fazê-las era perigoso.
Foi assim o mês de Outubro de 1961, há 55 anos.
(texto baseado numa crónica lida em 1986 numa rubrica da Rádio Extremadura intitulada “Aconteceu no Oeste”).

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Este Sábado : Lançamento de "As Linhas de Torres Vedras"

LANÇAMENTO de “AS LINHAS DE TORRES VEDRAS”, de CARLOS MANUEL ANTUNES BERNARDES – SÁBADO, 8 de OUTUBRO, às 18 horas, na COOPERATIVA DE COMUNICAÇÃO E CULTURA, Rua da CRUZ, 13, TORRES VEDRAS.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Uma descrição de Torres Vedras em 1906 (1)


Gabriel Pereira, intelectual de mérito na transição do século XIX para o século XX, tradutor de clássicos gregos e latinos e director da Biblioteca Nacional entre 1888 e 1902, dedicou os últimos anos da sua vida a descobrir o património da região à volta de Lisboa.
Desta sua curiosidade nasceu uma obra, editada em 1910, intitulada “Pelos subúrbios e visinhanças de Lisboa”, onde dedicou um capítulo a Torres Vedras (“Torres Vedras – Notas d’arte e arqueologia”(2)).
Este capítulo foi escrito em 1906 e, segundo se percebe pela sua leitura, teve por base várias visitas aqui efectuadas em 1904 e 1905, ao que parece para fazer tratamento termal nos Cucos.
O mérito dessa obra reside no facto de a sua descrição se basear na observação directa e não na mera readaptação da obra de referência de Madeira Torres, como aconteceu com outros autores desse período.
Ao longo de vários sub-capítulos vai descrevendo os motivos de interesse que encontrou no património local, destacando-se a sua descrição de usos e costumes da época.
Nessa obra foram abordados vários temas:
- “Painéis antigos em Torres Vedras”, sobre as pinturas antigas que encontrou nas Igrejas da vila e no Varatojo;
- “O Túmulo dos Perestrellos”, existente na Igreja de S. Pedro;
- “Capiteis românicos”, da Igreja de Stª Maria do Castelo;
-“Ermida e forte de S. Vicente”, falando das Linhas de Torres e registando as “vistas variadas da villa”, a partir desse lugar, “que tem bonito aspecto, do seu vetusto castello, conjunto de paredões, muralhas e cubellos ennegrecidos pelo tempo, e da multidão de collinas, quasi todas vestidas de vinhedos viçosos, salpicados de casaes”;
-“Imagens dos Santo”, descrevendo algumas que encontrou em Igrejas da vila e no Varatojo;
- “Uma cadeira do século XV”, sobre a célebre cadeira atribuída ao uso de D. Afonso V quando estava no Convento do Varatojo, então ainda neste lugar, hoje no Museu de Arte Antiga em Lisboa;
-“Brasões da Villa”, descrevendo os três que encontrou na Câmara, no Chafariz dos Canos e na Fonte Nova;
- “Archivos – Camara, Misericordia , Egreja de Santa Maria”, um dos capítulos mais interessantes, pois permite redescobrir alguns documentos ainda hoje pouco conhecidos da maior parte do público, a maior parte, felizmente, actualmente preservados, quer no novo espaço do Arquivo Municipal, quer no Arquivo da Misericórdia;
- “No Varatojo”, onde faz um levantamento de inscrições e pinturas então aí existentes, um “bello sitio para dulcificar maguas e sossegar corações atribullados”;
- “Uma inscrição moderna”, relativa ao túmulo de Luís Mouzinho de Albuquerque na Igreja de S. Pedro;
- “Sinos”, os de S.Pedro;
- “Quinta das Lapas”, onde o autor faz uma pormenorizada descrição da paisagem ao longo do caminho que liga a vila àquela Quinta, “por entre pinhaes mesclados de algumas vinhas e outras culturas”, antes de descrever a Quinta, a sua arquitectura e o seu jardim, num dos capítulos mais desenvolvidos;
- “A caminho dos Cucos”, elogiando as qualidades das suas àguas, nomeadamente as de mesa que o autor refere como “não bebendo outra” durante a sua estadia;
- “Casa dos Clérigos pobres”, então estruturalmente separada da Igreja de S. Pedro, destacando os seus azulejos e o seu tecto pintado com as figuras dos quatro evangelistas;
- “O Asylo da Conquinha” (actual Lar de S. José), então de inauguração recente,  distante, “vinte minutos de agradável passeio a pé” da  vila, seguindo-se “a estrada da Varzea” através de uma “amplo valle, vestido de culturas, arvoredos fructiferos” e “bello vinhedos”;
- “Ruços, além”, descrevendo o famoso “conselho de Ceuta” de 1414;
Para o fim, aqueles se são os mais pitorescos capítulos, e interessantes do ponto de vista documental, com descrições saborosas da vida e da paisagem local :
- “Passeio a Santa Cruz de Ribamar”, a descrição que o autor fez de uma viagem “em commodo trem” até àquela praia, no dia 27 de Setembro de 1905, já por nós usada em crónica anterior, passando por “campos animados”  e “estradas concorridas”, uma “festa”, “a grande festa das vindimas” e onde se encontra uma referência a um “grande rochedo alteroso” que se “destaca na praia” o Penedo do Guincho, que o autor refere como tendo sido “acessível em tempo, porque ainda se observa a certa altura um lanço de escada talhado na rocha” (?);
- “Na missa e no mercado”, com uma curiosa descrição da missa à qual o autor assistiu na Igreja de S. Pedro, num domingo, 14 de Agosto de 1904. Parado à porta da Igreja o autor anotou “o desfilar dos devotos. Primeiro os homens dos campos, das vinhas, com seus varapaus; mulheres do campo de chale, lenços mal postos na cabeça, á larga. Seguiram as mulheres da villa (…) Durante a missa os homens não largam os varapaus; quando ajoelham vê-se grande numero, porque se encostam, e não deitam no chão o inseparável”. Na mesma ocasião realizava-se o mercado, no “terreiro próximo da egreja”, onde se vendiam,  “melões, melancias, uvas lindas, brunhos vários, maçãs grandes, variedade de peras, aboboras, tomates, pouca hortaliça”. Atrás da Igreja ficava o mercado do peixe, onde se vendiam “sardinhas e sarda, fresca e salgada, cação, gorazes”. Num “cantinho do mercado estavam algumas mulheres com polvo, mexilhão, caranguejos grandes. Não faltava a mulher dos tremoços e da pevide de abobora. Dois homens vendiam planta de couve. Vi ainda vendedores de enxadas, e de calçado forte, sapatos de dura”, notando o autor que “o povo d’estes sítios é calçado”. Nesse Domingo era grande a “freguesia” pelas lojas da vila, próximas da Igreja”, registando o autor a existência de uma “industria de ferragens e mobilia especial, com muito geito”.
Por último, o autor regista “A feira franca” que se realizou em 21 de Agosto de 1904, na varzea, onde, na “parte arborizada enfileiram-se barracas e tendas” e, “no rocio nú é  feira de gados e a corredoura”, barracas de ourivesaria, de utensílios de “arame, cobre, ferro entanhado, latoaria”, de vidro, “perto do grande estendal de louças brancas e vermelhas”, notando-se ainda a presença de “um especialista de buzinas de moinhos de vento”. Vende-se ainda “calçado grosso, bastante correaria”, pequenas “quinquilherias”,vendas de madeira,  material “vinário”, carros para bois. Podem ainda ver-se “modestas roletas” e ,”leiloeiros de várias qualidades”, chamando “a gritos a atenção do povinho, perto das barracas de tiro ao alvo”. Já a feira de gado pareceu ao autor menos importante, parecendo-lhe “em geral mal tratado”, mais “ a pancada que a alimentação regular”.
Enfim, este é uma das obras mais interessantes, não tanto pela informação histórica, mas pelo retrato pitoresco de uma época.
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(1) - PEREIRA, Gabriel, Pelos Suburbios e vizinhanças de Lisboa, Lisboa, 1910, Livraria Clássica Editora de A. M. Teixeira e Cª, 1910 (texto publicado na secção "Vedrografias" do Jornal "Badaladas" de 23 de Setembro de 2016);
(2) – PP.253 a 305.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Estudo histórico-arquitectónico sobre a Casa Senhorial torriense

Esta obra foi lançada em Torres Vedras em Abril do corrente ano, mas só agora tomei conhecimento da sua edição.
Despertou-me a atenção a capa, uma fotografia da Quinta das Lapas, numa montra da livraria Ferin, em Lisboa.
 
A obra foi editada em Novembro do ano passado pela editora Caleidoscópio e analisa um tema raramente investigado neste concelho, a não ser de forma isolada e meramente descritiva, que é a interpretação arquitectónica e histórica das casa senhoriais da região.
 
O concelho é rico nesse tipo de património, situação que não passou despercebida a uma das autoras, Ana Feliciano, nascida em Torres Vedras e que trabalhou na Câmara de Torres Vedras, leccionando actualmente na Faculdade de Arquitectura, onde leciona igualmente o outro autor do livro, António Miguel Leite (ler biografias no final).
 
O livro faz a contextualização artística, arquitectónica e histórica das casas senhoriais deste concelho, incluindo várias dezenas de fotografias e gravuras para ilustrar o tema.
 
Relativamente ao concelho torriense encontramos referências à Quinta de Santa Margarida no Varatojo, que merece atenção em dois capítulos deste livro, a Quinta da Cadriceira e a Quinta Da Conceição, ambas estudadas mais em pormenor em capítulo próprio, a Quinta de A-Da-Rainha,  a Quinta do Calvel, as Quintas Nova e do Juncal, a Quinta das Lapas, também com capítulo próprio, e um capítulo próprio sobre as várias Quintas existentes junto à localidade do Turcifal.
Para aguçar o interesse dos interessados, em baixo transcrevemos as notas de apresentação publicadas na página da Câmara Municipal de Torres Vedras, por ocasião do lançamento do livro nesta cidade em Abril passado:
“A síntese que agora se publica, “A Casa Senhorial como Matriz da Territorialidade; A Região de Torres Vedras entre o Tempo Medieval e o Final do Antigo Regime”, que enquadra o enorme período que abrange desde o Tempo Medieval até ao final do Antigo Regime, destaca como expressão principal da investigação o significado específico da Casa Senhorial como matriz identitária estruturadora do habitar e do território.
 
“Deste modo, a investigação fez emergir desde o seu início a ideia totalizadora e simbiótica que integra a casa senhorial, paradigmática da construção e organização de uma primária territorialidade, como um todo amplo e contínuo, um todo culturalmente orgânico que tende apenas a poder explicar-se pelas suas múltiplas permeabilidades fácticas e funcionais, realidades essas marcadas pelas inevitáveis circunstancialidades e pragmatismos próprios de uma adaptação contínua às mudanças de tempos e à ausência de uma estrita linearidade racional dos percursos da História.
 
“Assim, constata-se hoje a importância da compreensão destas ‘casas’ para o entendimento da caracterização dos territórios e das paisagens que tenderam a estruturar, realidade que se revela no presente, seja num entendimento historiográfico, seja num mais amplo contexto cultural, fundamental para preservar e potenciar o efectivo capital de memória e identidade que lhes está matricialmente implícito. Na verdade, num tempo em que se valorizam cada vez mais as diferenças e as identidades culturais, a compreensão do significado matricial das casas senhoriais como realidades estruturadoras do território, abre-nos um maior conhecimento sobre o seu significado, realidade que poderá contribuir para uma reflexão mais profunda e para o apontar de caminhos mais operativos para uma efectiva valorização do património, realidade que é hoje, indiscutivelmente, um dos temas centrais de uma qualquer política cultural e um dos modos mais sustentáveis de construir um verdadeiro futuro. 
“Nota Biográfica dos autores
“ANTÓNIO MIGUEL NEVES DA SILVA SANTOS LEITE, Lisboa 1966
Arquitecto, Professor Doutor da FAUL
“Licenciado em Arquitectura pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa em 1995, colaborou com o Arq. Victor Figueiredo entre 1993 e 1997 exercendo também, desde 1995, actividade profissional, sendo responsável por diversos projectos de Arquitectura e Urbanismo e por participações premiadas em concursos de arquitectura nacionais e estrangeiros.
“Em 2001 obteve na Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa o grau de Mestre em Arquitectura de Habitação, com a Tese “A Influência do Romantismo Alemão no Espaço Arquitectónico, Procura de um Entendimento Crítico de uma Casa Romântica nos seus Múltiplos Significados” e entre 2003 e 2007 foi Bolseiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia, obtendo em 2008 o grau de ‘Doutor Europeu’ conferido pela Universidad Politecnica de Madrid, com a defesa da tese “La Casa Romántica; de la Matriz Romántica a un Concepto Acrónico y Operativo en la Contemporaneidad”.
 
“É docente e investigador da Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa desde o ano lectivo de 1996/1997, onde tem leccionado disciplinas teórico-práticas de Projecto de Arquitectura tendo orientado em Portugal e no estrangeiro seminários e workshops de projecto de Urbanismo e Arquitectura.
“Escreve para publicações de Arte e Arquitectura, das quais se destaca a publicação em 2014 do Livro “A Casa Romântica; uma Matriz para a Contemporaneidade”.
 
“É actualmente investigador do Centro de Investigação em Arquitectura Urbanismo e Design e tem como principais temas de investigação a Arquitectura Experimental, a Habitação e a Casa Individual, bem como se interessa especificamente sobre os processos e metodologias de Reabilitação Urbana e Arquitectónica como processo de valorização do Património, condição que assume como desencadeante de uma efectiva sustentabilidade sociocultural.
“ANA MARTA DAS NEVES SANTOS FELICIANO, Torres Vedras 1971

Arquitecta, Professora Doutora da FAUTL
“Natural de Torres Vedras, licenciou-se em 1995 em Arquitectura pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa (FAUTL), trabalhou na Camara Municipal de Torres Vedras entre 1996 e 1997, exercendo também actividade profissional tendo sido responsável por projectos de Arquitectura e Urbanismo e por participações premiadas em concursos de arquitectura nacionais e estrangeiros.
“Em 2001 obteve o grau de mestre no 2º Curso de Mestrado em Arquitectura da Habitação da FAUTL, com a defesa da dissertação “Habitação e Utopia nos Anos Sessenta; As Propostas do Grupo Archigram no Contexto de uma Década de Rupturas”.
“Entre 2003 e 2007 foi bolseira da Fundação para a Ciência e Tecnologia e frequentou o Curso de Doutoramento Teoría y Practica del Proyecto do Departamento de Proyectos Arquitectónicos da Escuela Técnica Superior de Arquitectura da Universidad Politécnica de Madrid, onde obteve o Doutoramento Europeu em Arquitectura com a defesa da tese “La Metáfora del Organismo en las Arquitecturas Visionarias de los Años Sessenta; La Obra del Grupo Archigram como Reinvención de un Nuevo Habitar”.
“Desde o ano lectivo de 1997 é docente e investigadora da Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa onde lecciona disciplinas de Projecto de Arquitectura, publicando regularmente em revistas e livros de Arquitectura e Urbanismo, bem como tem orientado em Portugal e no estrangeiro seminários e workshops de projecto de arquitectura.
“Entre as suas publicações destaca-se a publicação em 2014 do Livro “A Metáfora do Organismo nas Arquitecturas dos Anos Sessenta; a Obra dos ‘Archigram’ como Manifesto de um Novo Habitar”.
“A autora é igualmente investigadora efectiva do Centro de Investigação em Arquitectura Urbanismo e Design e tem como actuais interesses de investigação a Reabilitação Urbana e Arquitectónica, a Arquitectura Experimental e a Casa e a Habitação num contexto culturalmente alargado.”