Torres Vedras e a História (breves apontamentos, esboços, documentos, efemérides, estudos, fotografias, notícias...)
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020
Em busca da “Matrafona” perdida
Uma pergunta que muito me faço,
e me fazem a mim mesmo, é sobre a origem das “matrafonas”.
Em termos genéricos uma “matrafona” é um homem mascarado de mulher
durante o Carnaval.
Numa observação mais cuidada, nem todo o homem que se disfarça de
mulher é uma verdadeira “matrafona”…
Mas vamos por partes.
Comecemos pelo significado.
“Matrafona” não aparece no dicionário de que me sirvo habitualmente, o
Dicionário de Língua Portuguesa, em dois volumes, editado pela Academia de
Ciências.
Já, em edições mais recentes, nos dois mais credíveis dicionários
on-line, o Ciberdúvida, elaborado pelo ISCTE,
e o Infopédia, produzido pela Porto Editora, podemos encontra a palavra
“Matrafona”.
No do ISCTE, o significado de “Matrafona” é “mona”, “boneco de trapos”,
“mulher desajeitada”, “mulher mal vestida”.
É no Infopédia que a designação de “Matrafona” tem um significado mais
curioso. Considera a palavra um “regionalismo” e especifica que é um “homem que
se mascara de mulher, no Carnaval de Torres Vedras” (sublinhado nosso).
Note-se que esse dicionário da Porto Editora identifica a “matrafona”
como uma designação específica do Carnaval de Torres.
Indica, igualmente, esse termo como sinónimo de “Matrafona”, um
“regionalismo” para “boneca de trapos”, em calão “prostituta” e “sentido
pejorativo” mulher mal arranjada”, com origem no árabe “mara haina”, “mulher
enganadora”.
Foi aliás no Dicionário de Arabismo de Língua Portuguesa, de Adalberto
Alves, editado na primeira década deste século, que encontrei o termo que
pode estar na origem da palavra “matrafona”: MATRAFÃO, do árabe “matraq”, isto
é “taciturno” ou “desprezível”,
significando “homem desajeitado”. Parece ter sido,assim, esta designação de
“matrafão” que deu origem ao feminino “matrafona”.
Quanto à fixação escrita da palavra “matrafona” no Carnaval de Torres é
um estudo que está por fazer, mas nunca encontramos essa palavra, para designar
os homens mascarados de mulher, pelo menos até muito recentemente.
Note-se que a tradição de os homens se mascararem de mulher já é muito
antiga, não só por ser a forma mais simples de inversão de personalidade, que é
uma característica do Carnaval, como por ser a máscara mais simples e até mais
barata, bastando ir buscar as roupas velhas lá em casa, da esposa, mãe ou
filha.
Em Torres Vedras, a primeira referência
a essa “transgressão” data de 1900, referindo-se a presença no desfile em Torres
Vedras de “uma dança” vinda de Runa de “travestis de bailarinas”.
Há também a tradição oral de um costume antigo no Turcifal onde,
durante o Carnaval, um grupo de homens mascarados de mulher percorria as
tabernas da aldeia.
Inicialmente essa era uma máscara de gente pobre e do meio rural.
Alguns testemunhos referem os anos de 1920 como os da presença de “matrafonas”
no carnaval, embora essa designação ainda não apareça assim designada nessa
altura. Alguns desses testemunhos apontam mesmo, umas vezes 1926 , outras 1928
para o seu aparecimento.
Para além da velha e popular tradição de os homens se mascararem de mulher durante o Carnaval, a
popularização desse tipo de máscara em Torres Vedras não deverá ser estranha ao
aparecimento de um homem como rainha do carnaval desde 1923, geralmente
acompanhada por “damas de honor” e pelas “mulheres dos ministros”, também
homens massacrados de mulheres.
Nas fotografias e filmes da
época, até pelo menos aos anos de 1960, sem ser
naqueles casos, não se vislumbram muitas situações de homens mascarados
de mulher nos desfiles de carnaval.
É a partir dos anos de 1960 que se tornam frequentes a presença de
grandes grupos de homens mascarados de mulher, coincidindo também com a
generalização do termo “matrafona” para os designar.
Por fim, recorde-se a noite de 2ª feira de Carnaval, como momento alto
do carnaval de Torres e dedicado aos grupos de matrafonas, e que começou com um
pequeno grupo de rapaziada que se juntava nessa noite junto ao então Café
Império, partindo daí para percorrer as colectividades e as discotecas, sendo
para muitos a única forma de poder entrar de borla nesses bailes.
Como participei numa dessas primeiras “sessões”, pode-se datar o início
dessa “tradição” do dia da “matrafona” algures entre 1978 e 1981, até ganhar
dimensão, já na década de 1990, fazendo a partir de então parte do “calendário”
oficial do Carnaval de Torres.
Ficam aqui algumas dicas para quem queira um dia aprofundar a história
das “matrafonas”.
Agora é tempo de se divertirem.
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terça-feira, 18 de fevereiro de 2020
Carnaval de Torres (anos de 1931 a 1935)
(Torre do Tombo, património fotográfico do jornal "O Século").
Podem ver em baixo um conjunto de filmes, existentes na Cinemateca Portuguesa, visíveis no seu site (CINEMATECA DIGITAL)
Em Baixo temos a reprodução desses filmes, num única montagem, onde se incluem as reportagens de 1932, 1933, 1934 e 1935, editada no Youtube pela Câmara Municipal de Torres Vedras.
A reprodução do filme mais antigo, o de 1931, pode ser visto a partir do próprio site da Cinemateca, não incluído nessa colectânea clicando NESTE SÍTIO.
Divirtam-se.
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020
Sábado, na Biblioteca municipal, às 18.30 - Lançamento do Livro “Em Sentido Contrário” – uma biografia de Venerando Ferreira de Matos.
Amanhã, Sábado, 15 de Fevereiro, vai realizar-se, pelas
18.30, na Biblioteca Municipal de Torres Vedras, o lançamento do livro “Em
Sentido Contrário – Venerando Ferreira de Matos (1926-1975) – Um oposicionista
na província”.
Venerando Ferreira de Matos foi um dos mais activos
colaboradores do jornal “Badaladas” nos anos de 1960 e no início dos anos de
1970 , assim como na vida cultural e associativa torriense desse período.
Nas páginas do “Badaladas”, com o apoio do padre Joaquim
Maria de Sousa, defendeu projectos locais, denunciou os abusos do poder,
defendeu a liberdade e a democracia, divulgou e participou em projectos
culturais, tendo de enfrentar muitas vezes o lápis azul da censura.
Esta biografia revela muito daquilo que era a realidade do
Estado Novo, tendo o biografado sentido na pele uma pena de prisão, cumprida em
Peniche durante dois anos, e a vigilância permanente da PIDE.
Também se revela nesta biografia a realidade cultural da
então vila de Torres Vedras, tendo o biografado participado activamente nalguns
dos projectos mais marcantes das duas últimas décadas da ditadura, desde os
debates animados nas páginas do “Badaladas” sobre a cultura local, à sua
colaboração num dos projectos mais dinâmicos de então, o “Pelouro Cultural da
Física”.
Para apresentarem esse livro vão estar presentes o Dr. José
Pacheco Pereira, responsável pelas edições “Ephemera” que produziu esse livro,
o Dr. Fernando Pereira Marques, antigo preso político, antigo deputado e
professor universitário, e os Drs. José e Cecília Travanca Rodrigues, que
apresentarão o livro no contexto da vida cultural e política torriense da
época.
O livro “Em Sentido Contrário” é o terceiro publicado nos
“Cadernos do Ephemera”, publicação a Associação Cultural Ephemera, uma colecção
destinada a divulgar ensaios originais que se enquadram no trabalho deste Arquivo/Biblioteca.
Esta biografia é a primeira que os Cadernos Ephemera dedicam
aos chamados “oposicionistas na província”, “aqueles que são mais facilmente esquecidos porque não
viveram nos centros do poder, mas que deram dimensão nacional à resistência ao
Estado Novo” (do prefácio, assinado por José Pacheco Pereira).
terça-feira, 4 de fevereiro de 2020
sábado, 1 de fevereiro de 2020
sexta-feira, 20 de dezembro de 2019
“Em Sentido Contrário – Venerando Ferreira de Matos (1926-1975) – um oposicionista na província”
Já está à venda em Torres
Vedras, na Papelaria União, a biografia de Venerando Ferreira de Matos, figura
activa no meio cultural, associativo e jornalístico desta cidade, durante os
anos do pós-guerra até ao seu falecimento em 1975.
A biografia inclui uma vasta
documentação, acompanhando os seu percurso de vida que atravessou todo o Estado
Novo, iniciado em Coimbra e que incluiu o cumprimento de dois anos de prisão em
Peniche no início da década de 1950.
O livro insere-se numa colecção
editada pela Associação Ephemera, uma Associação que visa dinamizar, organizar
e divulgar o vasto espólio do arquivo privado de José Pacheco Pereira.
Dessa coleção já foram
publicados dois outros títulos, “em redor de uma palavra grega”, da autoria de
Maria Mafalda Viana, sobre a origem da palavra “Ephemera”, e “A Esquerda
Festiva do Técnico nos anos 60 – um testemunho” por Henrique Garcia Pereira,
sobre o agitado momento político vivido pelos estudantes do Instituto Superior
Técnico nos anos de 1960.
“EM Sentido Contrário” é terceiro título dessa colecção, que vai ser
oficialmente lançado no próximo dia 22 de Janeiro no Museu do Forte de Peniche,
em hora ainda a designar, apresentado pelo Dr. Fernando Pereira Marques e pelo
Dr. José Pacheco pereira, e em Torres Vedras, em 15 de Fevereiro, na Biblioteca
Municipal Leonel Trindade, pelas 18 horas.
Estão previstas ainda duas
sessões de apresentação no Museu do Aljube, em Lisboa, em data a designar, e em
Coimbra, em lugar e data a designar.
Como apresentação da biografia
de Venerando Ferreira de Matos, aqui deixamos o prefácio desse livro, da
autoria do Dr. José Pacheco Pereira:
“Em
Sentido Contrário, é o primeiro dos Cadernos do Ephemera dedicado ao que chamamos
“os oposicionistas na província”, aqueles que são mais facilmente esquecidos
porque não viveram nos centros do poder, mas que deram dimensão nacional à
resistência ao Estado Novo.
“Venerando Aspra de
Matos, autor deste Caderno, nosso incansável amigo e associado fundador,
escreve sobre Venerando Ferreira de Matos, seu Pai um desses muitos homens que,
quase desconhecidos, por todo o país, dedicaram as suas vidas a fazer oposição
ao regime salazarista. Sempre com um só objectivo, derrubar o regime,
desenvolviam intensa actividade, nos jornais locais ou nacionais, nos seus
empregos, nos cafés, nas associações, nos grupos de teatro, nas bibliotecas
locais, a maioria das vezes com um informador da PIDE à distância de um olhar e
com o risco permanente de prisão. Venerando Ferreira Matos pagou esse preço,
ainda muito jovem, estando vários anos preso em Peniche.
“Da cadeia, escrevia à
sua noiva cartas que nos descrevem a vida na prisão, as suas relações com os
demais presos e com o Partido Comunista, a sua atenção aos sons do exterior, o
cuidado com a sua permanente formação e informação, para que o tempo da prisão
não fosse perdido. Algumas dessas cartas são aqui transcritas, transportando-nos
de imediato para dentro do Forte prisão e para o espírito dos que lá se
encontravam, sendo uma fonte até agora inédita do quotidiano numa das prisões
mais importantes do regime salazarista.
“Libertado, continuou
a sua luta cívica em Torres Vedras e naquela que foi uma constante da sua vida,
a escrita em jornais. Podiam ser artigos sobre arte, ciência, desporto, ou com
preocupações ambientais, numa luta muitas vezes subterrânea, contribuindo para
a formação de um magma que algum dia havia de ver a luz do dia. Venerando
Ferreira de Matos ainda pode ver o dia “lustral” do 25 de Abril de 1974.
“Com estas biografias,
pretendemos divulgar espólios do Arquivo Ephemera que podem servir ao trabalho
dos investigadores e deixar memória útil a todos.
José Pacheco Pereira.”
quinta-feira, 19 de dezembro de 2019
A segunda Fundação da Escola Secundária Municipal (1919) – Breves apontamentos
(versão integral do texto que já tinha sido apresentado neste espaço, mas de forma resumida)
Depois de termos evocado, em crónica anterior, a primeira Escola
Secundária a funcionar em Torres Vedras, entre 1890 e 1903, aqui recordamos
agora a segunda fundação da escola de ensino secundário torriense, inaugurada
em 3 de Novembro de 1919.
Não pretendemos fazer a história desta escola que esteve na origem da
actual Escola Madeira Torres, mas apenas coligir alguns breves apontamentos que
possam servir de ponto de partida para quem pretenda fazer a História desse
estabelecimento de ensino.
Em 1918 Victor Cesário da Fonseca, que tinha frequentado a escola
encerrada em 1903, republicano activo, e que sempre responsabilizou os
monárquicos locais pela decisão daquele encerramento (1), iniciou uma campanha,
nas páginas do jornal “Ecos de Torres” em defesa de se retomar o funcionamento
de uma Escola Secundária, a partir de um artigo não assinado na edição de 28 de
Janeiro desse semanário.
Em sessão camarária de Abril de
1919 o vereador José Anjos da Fonseca propôs o lançamento de um imposto de 5% sobre
as contribuições pagas pelas freguesias do concelho, para apoiar a abertura da
Escola Secundária, proposta aprovada apenas pela diferença de um voto (2) , constituindo-se
uma comissão instaladora que levou o projecto a bom termo.
Dessa comissão fizeram parte Afonso Pedreira Vilela, João Fernandes
Caldeira, Victor Cesário da Fonseca, Joaquim Rodrigues Cardoso e António
Germano Marques de Carvalho.
A nova Escola Secundária foi inaugurada em 3 de Novembro de 1919, uma
segunda-feira, provisoriamente num edifico da Travessa da Olaria, mudando-se em
definitivo para o edifício localizado na Avenida 5 de Outubro, onde funcionam actualmente
os serviços camarários, em 1921, edifício que então tinha apenas um andar.
Foi nomeado como seu primeiro director o professor Augusto do
Nascimento Gonçalves, até então director do Instituto Politécnico de Torres
Vedras (3), escola que tinha sido inaugurada em de Outubro de 1911, e onde se
ministravam a “instrucção primária, secundária e commercial” e que admitia
“alumnos de ambos os sexos como internos, semi-internos e externos”,
leccionando também “piano e lavores”, funcionando na Rua Barreto Bastos, nº 3,
1º Direito (4) .
O jornal “A Vinha de Torres Vedras”
referia-se nos seguintes termos àquela inauguração:
“Como amigos da instrução e partidários da fundação deste útil
estabelecimento de ensino, não podemos deixar de nos congratular com este
acontecimento, por todos os títulos importante e cuja falta há muito se fazia
sentir nesta villa.
“Ao acto da inauguração da nova escola presidiu o sr. António Cabral,
presidente da Camara e assistiram a vereação e muitas pessoas” (5).
Até 1923 os alunos não pagavam propinas.
No primeiro ano lectivo, o de 1919/1920, inscreveram-se 56 alunos, 26
no 1º ano, 12 no 2º ano, 6 no terceiro, 4 no 4º ano e 8 no 5º ano, entre eles
algumas alunas, 15 no 1º ano, 2 no 3º ano e uma no 5º ano.
Entre os inscritos encontramos nomes que vieram a ser figuras
proeminentes na vida cultural, social, económica e política de Torres Vedras :
Alberto Vieira Jerónimo e Galileu Silva,
inscritos no 1º ano; Amílcar Guerreiro, Hélder dos Santos Torres, Inácio do
Nascimento Clemente, José Hipólito e Manuel Duarte Capote, no 2º ano e Leonel
Trindade no 5º ano (6).
(Alunos e professores da Escola Secundária, nos anos de 1940 - Arquivo de Maria Helena Aspra de Matos)
No primeiro livro de matriculas onde se regista a profissão dos
encarregados de educação, o referente ao ano lectivo de 1942/1943, não deixa de
ser significativo registar o domínio de filhos de funcionários públicos e
comerciantes.
Entre um total de 164 alunos inscritos em todos os níveis de ensino
nesse ano, 52 eram filhos de gente ligada ao comércio (45 comerciantes, 6
empregados de comércio, e um ajudante de farmácia) , 40 estavam ligados ao
funcionalismo público (10 funcionários públicos, 8 conservadores, 5
professores, 4 empregados da CP, 3 funcionários municipais, 2 funcionários dos CTT, 2 ajudantes de
notário, 2 oficiais do exército, 1 funcionário colonial, 1 funcionário público
aposentado, 1 notário e 1 solicitador) seguindo-se os filhos de “proprietários”
(21).
Refira-se ainda o número de pais com formação média e superior: 9
médico, 4 advogados, 3 enfermeiros, 2 engenheiros e 2 empregados bancários (sem
contar com os 5 professores e outros profissionais acima incluídos no
funcionalismo público). Refiram-se ainda os filhos de “industrias” (em número
de 8).
Em contrapartida, apenas encontramos 3 filhos de operários e 1 de
agricultor.
Não espanta que a maioria dos alunos residisse na vila, 133 dos
inscritos. Runa é a freguesia fora da vila que sobressai, com 7 alunos
inscritos, situação que não será estranha à proximidade permitida pelo
caminho-de-ferro.
Nas décadas de 1960/70 a Escola atraia alunos de muitos concelhos vizinhos,
nomeadamente do sobral de Monte Agraço, sendo uma escola “com forte poder de
atracção” devido à sua “posição bastante central em relação à sua área de
influência”, e bem servida de transportes, começando a colocar-se um problema
de crescimento (7).
No ano lectivo de 1968/1969 começou a funcionar o chamado ciclo
preparatório, provocando uma ligeira redução no número de alunos inscritos na
Escola Secundária. Dos 334 inscritos em 1967/68 passou para 318 no ano seguinte.
A barreira das 3 centenas de alunos inscritos na Escola Secundária
tinha sido ultrapassada, pela primeira vez, no ano lectivo de 1964/1965, com
310 inscritos (8).
Por despacho de dezembro de 1969, e após intensa campanha iniciada nesse
ano nas páginas do “Badaladas”, por ocasião do cinquentenário, a Escola
Secundária, tornou-se secção do Liceu Nacional D. Pedro V, deixando de ser o
município a suportar financeiramente essa escola, o que permitiu uma redução
das propinas pagas pelos alunos (9).
Oficialmente o Reitor da escola torriense era o reitor do Liceu D.Pedro
V, o Dr. Estevão Ferreira Moreira, passando o director da antiga secundária, o
Dr. João Carlos da Cunha, a ser designado por “vice-reitor” (10).
Contava nessa data com 19 professores e cerca de 400 alunos.
Em 12 de Outubro de 1971 o Conselho de Ministros aprovou um decreto (
Decreto 447 de 25 de Outubro) que criou 21 liceus nacionais, entre os quais o
de Torres Vedras, passando a escola secundária, então com 540 alunos incritos,
a denominar-se, a partir do ano lectivo de 1972/73, Liceu Nacional de Torres
Vedras, abrindo uma secção na Lourinhã, sendo nomeado como reitor o Dr. Joaquim
Semedo Toco e tendo sessão inaugural em 2 de Outubro de 1972 (11).
Sobre este tema, registamos aqui uma recolha oral que fizemos junto do
sr. Adão de Carvalho, em Abril de 1990, onde ele nos contou que, em meados de
1971, o sr. Fernando Leal se deslocou ao Ministério do Interior para que o
ministro exigisse, junto do Ministro da Educação, José Hermano Saraiva, a passagem da Escola Secundária a Liceu.
Uma das condições que Fernando Leal tinha posto para aderir à União
Nacional tinha sido a de que a escola secundária fosse elevada a Liceu.
Como, nesse encontro, o Ministro referiu que Torres Vedras já tinha
sido beneficiada em demasia, Fernando Leal ameaçou demitir-se a ele, a toda a
direcção regional da União Nacional.
Quando vinha a sair desanimado do encontro, encontrou Marcelo Caetano,
que regressou com ele ao ministério e pressionou a passagem da escola a Liceu
Nacional.
Foi assim, no início da década de 70 do século passado, que o “liceu” deixou de ser a escola elitista que
tinha sido, para se “democratizar” e abrir à população que até aí tinha como
única saída para os seus filhos o ensino técnico ou comercial, muito também devido
à chamada reforma Veiga Simão, situação que levou a um grande aumento do número
de alunos a frequentá-la.
No ano lectivo de 1971/1972 era frequentada por cerca de 540 alunos. No
ano lectivo de 1973/1974 já a frequentavam mais de 800 alunos, ultrapassando o
número de mil alunos nos anos seguintes.
Já em 1971 o jornal “Badaladas” referia que se impunha “com a maior
urgência, a construção dum novo edifício para o Liceu”, propondo que ficasse
para “a Escola Preparatória todo o imóvel municipal da Avenida 5 de Outubro”.
É em 1975 que o assunto voltou a merecer atenção, num artigo publicado
por António Leal d’Ascensão intitulado “Liceu de Torres Vedras –Torres Vedras
precisa e merece um Liceu Novo” (12).
Em sessão de 9 de Fevereiro de 1977 iniciou-se o debate sobre a criação
das novas instalações para o Liceu, então designado por Escola Secundária nº 2,
e para a Escola Preparatória, processo que vai ser liderado pela vereadora Ana
Maria Bastos, coadjuvda pelo vereador António Leal d’Ascensão, durante o primeiro
mandato de Alberto Avelino como presidente da Câmara (13).
O processo vai-se arrastar pelos anos seguintes e, em Março de 1978, a
Direcção Geral das Construções Escolares informa a Câmara da previsão do
concurso para esse ano e o início das obras para o final do ano ou início de
1979 (14).
Embora se defendesse uma maior participação dos pais no destino da
escola, logo na sessão solene da criação do Liceu de Torres Vedras, só depois
do 25 de Abril é que foi eleita a primeira comissão de pais, em 11 de Dezembro
de 1974, tendo como primeiro presidente da direcção a Drª Maria Aldina Rebelo
(15), altura em que surgiu igualmente a primeira associação de estudantes.
Em 2 de Abril de 1987,o Liceu passou a designar-se Escola Secundária
Madeira Torres, três anos depois de ter mudado para novas instalações, no ano
lectivo de 1983/1984, aquelas onde ainda hoje funciona (16).
Aqui ficam algumas notas de uma História por fazer, de uma escola
centenária que ainda tem muito por contar.
- (1)
–
leia-se FONSECA, Victor Cesário da , Retalhos Para a História de Torres Vedras, ed.
Associação da Defesa do Património de Torres Vedras, 1979;
- (2)
–PEREIRA,
Dr. Paulino, “Porque se espera para planear a comemoração do cinquentenário da
Escola Secundária ?”, in Badaladas, de 26 de Abril de 1969;
- (3)
– in
“Folha de Torres Vedras”, edições de 13 de Agosto , 10 de Setembro e 15 de
Outubro de 1911;
- (4)
Sob a
designação de “Fragmentos”, “Cinquentenário da Escola Secundária Municipal! e
“Recordar é viver” publicaram-se no jornal “Badaladas”, ao longo do ano de
1969, vários documentos relativos aos primeiros anos do funcionamento da escola
secundária, artigos não assinados mas que foram escritos pelo Dr. João Carlos
Cunha, autoria que ele me revelou. Chama-se a atenção para os dados publicados
nas edições de 14 de Junho, 5 de Julho, 2 de Agosto e 1 de Novembro de 1969 do
jornal “Badaladas”; Leia-se igualmente “A História da E.S.M. E A Homenagem Aos
Municípios e Fundadores”, da autoria do então Conta-almirante Lino Paulino
Pereira, comunicação lida por ocasião da sessão solene comemorativa do
cinquentenário da escola municipal, realizadas em Junho de 1970 e transcrita
integralmente na reportagem, da autoria de Francisco Vieira Jerónimo, publicada
na edição de 20 de Junho de 1970 do jornal “Badaladas”;
- (5)
– in
“A Vinha de Torres Vedras” de 8 de Novembro de 1919;
- (6)
–
Livros de Matriculas da Escola Secundária existentes no Arquivo Municipal de
Torres Vedras.
- (7)
– in
SALGUEIRO, Teresa Barata, “Documentos para o Ensino – A Área de Influência da
Escola Secundária de Torres Vedras”, separata de Finisterra, Vol.VI - 12, Lx,
1971, pp. 302 a 307;
- (8)
– in
Arquivo Municipal de Torres Vedras, Elementos de Estudo do Presidente da
Câmara, Frequência da Escola Secundária Municipal de Torres Vedras, 7 de Maio
de 1969;
- (9)
– in
“Badaladas” de 10 de Janeiro de 1970;
- (10)
– in
“Badaladas” de 28 de Março de 1970;
- (11)
- in
“Badaladas” de 16 de Outubro de 1971, 30 de Setembro e 7 de Outubro de 1972;
- (12)
– in
“Badaladas” de 22 de Março de 1975;
- (13)
– in
“Badaladas” de 24 de Fevereiro de 1977;
- (14)
– in
“Badaladas” de 16 de Março de 1978;
- (15)
– in
“Badaladas” de 28 de Dezembro de 1974;
- (16)
–
sobre o patrono e o processo de escolha do nome, leia-se a publicação, de
autoria colectiva, “O Patrono da Escola Secundária Madeira Torres, Manoel
Agostinho Madeira Torres”, editada em Fevereiro de 2006 conjuntamente pela
escola e pela Câmara Municipal.
quarta-feira, 4 de dezembro de 2019
Torres Vedras: Desequilíbrio entre rendimentos declarados e quantidade de Carros de Luxo
O jornal Expresso fez um levantamento, por concelho, da percentagem de carros de luxo em relação ao parque automóvel de cada concelho, e comparou a posição de cada concelho na posse desse bem em relação com o seu rendimento médio e o valor de IRS declarado e chegou à conclusão que existem concelhos onde ...alguma coisa não bate certo.
Um deles, embora não seja o pior, é o concelho de Torres Vedras. Aqui alguma coisa não bate certo na relação entre a declaração de rendimentos e esse sinal exterior de riqueza.
Esta é a situação deste concelho, referida por essa investigação (sem mais comentários):
"Tem 5,7 carros por cada 10 habitantes. 20,2% são luxo e premium (média nacional: 18%).
Declara um rendimento por habitante de
€8 233 por ano. E há 1,4 carros luxo e premium por cada €100 mil de
rendimento (média nacional: 1,2).
É o 45º concelho com poder de compra.
É o 46º com mais carros L&P e está
em 58ª posição
em termos de rendimento declarado no IRS (em 280 concelhos)".
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