quinta-feira, 24 de junho de 2021

95 anos de abastecimento público, de água canalizada, em Torres Vedras

Nas primeiras décadas do século XX, o abastecimento de água, por parte dos habitantes de Torres Vedras, não diferia muito do que se passava na Idade Média, ou mesmo de tempos mais recuados, o dos romanos e o dos árabes (1).

Os chafarizes e as fontes, abastecidas por nascentes, minas e aquedutos, assim como os poços, eram o principal recurso dos habitantes para se servirem do precioso líquido, sem esquecer as águas dos rios e riachos que atravessavam o concelho (2) .

A distribuição de água pelos habitantes, era igualmente garantida pelo trabalho de aguadeiros e aguadeiras, que, de recipiente à cabeça, percorriam as ruas da vila.

Estes forneciam-se principalmente nos chafarizes dos Canos e da Praça do Município, de onde transportavam a água aos seus fregueses, mediante uma mensalidade que variava entre os 1 200 e os 2 mil réis, de acordo com o consumo de cada família.

(uma aguadeira, num dos cantos do postal)

Em certas épocas, a água desses chafarizes escasseava ou corria muito lentamente, para desespero dos aguadeiros, devido à falta de limpeza dos canos ou devido ao desvio ilegal que muitos faziam para regar as hortas.

Respondendo às queixas, a Câmara procedia à limpeza dessas canalizações que transportavam a água, a partir de uma mina existente “à esquerda e ao cimo da ladeira que é conhecida pela ladeira dos Cucos”.

O zelador e fiscal das obras de limpeza já sabia a localização dessas fugas, que “apareciam logo à saída da mina, e as grandes e principais fugas começavam na Quinta de Fontaínhas e na seguinte, conhecida por Quinta do Marques (…) que tinha sempre os tanques cheios e a água corria constantemente, desperdiçando-se muito líquido precioso que tanta falta fazia à vila”, situação que se repetia à passagem pela Quinta das Covas. “Por todo o trajecto de espaço a espaço, havia bicas e torneiras” que desviavam a água para casas e hortas ao longo do percurso.

Terminado o trabalho de fiscalização e limpeza, a água voltava a correr em abundância naqueles chafarizes, para alívio dos aguadeiros, situação que durava alguns meses, até que a água voltava a diminuir, voltando novamente a efectuar-se os reparos provocados pelos desvios ilegais, sem que os proprietários responsáveis “sofressem qualquer pena, por serem políticos e julgarem-se senhores do burgo” (3).

Uma outra actividade, igualmente essencial, era a das lavadeiras, que usavam o rio Sizandro, junto às pontes a norte da vila, para a sua tarefa de lavagem da roupa dos habitantes que podiam pagar o serviço.

(lavadeiras no Rio Sizandro)

Alguns moradores tinham o privilégio de possuírem poços junto às suas casas, importante complemento ao abastecimento público.

Conhece-se a quantidade e a localização desses poços na vila, graças à publicação, em 1907, de um levantamento, para responder a uma postura municipal que obrigava os “donos, locatários, ou administradores de propriedades em que haja poços ou quaisquer depósitos de aguas (…) a franquear estas para acudir aos incêndios”.

Esse levantamento, organizado por ruas, praças e largos, com o nome dos proprietários, número de poços, profundidade e nível, quais os que usavam bombas ou noras, baldes e tanques, entre outras informações, permitem-nos, não só perceber a densidade de poços existentes no centro urbano, como a toponímia da época.

Ao todo, esse documento registava 144 proprietários com um total de 149 poços.

Destes, 70 tinham bomba para elevar a água, 92 tinham balde, só 5 tinham noras puxadas por “gado”, 5 eram públicos e 7 tinham tanque.

A maioria dos poços tinham menos de 10 metros de profundidade, mas existiam 2 com 20 metros, um na Rua de S.Tiago e outro na Rua dos Cavaleiros.

A título de curiosidade, com base nessa publicação, registe-se a distribuição do número de poços pelas ruas da vila:

Rua Serpa Pinto – 27 poços; Rua Dias Neiva -  18; Praça Nova (Largo do Município) – 1; Rua de S. Pedro – 3; Travessa Luís Cardoso- 1; Rua de Traz do Açougue – 2; Rua da Cruz – 5; Largo de Santo António – 5; Rua de Carcavelos – 6 ; Horta Nova – 1 ; Rua dos Cavaleiros – 8 poços; Travessa do Torres – 1; Estrada da Porta da Várzea – 6; Rua de S. Tiago – 6; Rua dos Celeiros de Santa Maria – 4; Rua do Terreirinho – 5 poços; Praça Nova (asilo de S. José) – 1; Rua das Flores -7; Rua da Olaria – 9 ; Travessa da Olaria- 4; Rua da Cêrca – 4;  Avenida – 8 ; Rua Valadim – 1 ; B. Mouzinho d’Albuquerque – 25 (4).

Só na década de 1920 se começou a debater, com maior insistência na imprensa local, a necessidade de modernização no modo de abastecer água à população.

Ao longo de 1920 e 1921 o jornal “Ecos de Torres” iniciou uma campanha de sensibilização pública sobre essa necessidade, destacando-se, como articulista, Victor Cesário da Fonseca.

Na sua edição de 5 de Setembro de 1920, esse semanário local refere que a Câmara, “por intermédio do seu grande auxiliara nesta questão, sr. Ulpiano da Silva”, estava a “proceder a pesquisas na Quinta da Gaga” e que as “minas e aberturas”   aí feitas já davam “ a certeza da aquisição de 25: 000 litros de água em cada 24 horas”.

Em entrevista, nessa mesma edição, Ulpiano Silva esclarecia que a água que esperava obter nessa exploração era suficiente para abastecer os chafarizes da vila, possibilitando, igualmente, obter água suficiente para os prédios da vila, podendo-se “fornecer diariamente 150:000 a 200:000 litros”. Contudo ainda não era possível transportá-la para as habitações sem auxilio de um motor de elevação, sendo ainda necessário o recurso a aguadeiros que, por meio daquela captação, conseguiriam “encher 60 a 80 bilhas vulgares (…) em cada hora” (5).

Em Abril de 1924, esse mesmo semanário voltava a referir a necessidade urgente de abastecer a vila de água, historiando também a pesquisa feita pelo município de um local onde existisse água suficiente para esse fim :

“Havia no concelho, no lugar da Serra de  S. Julião, um manancial de água, brotando à superfície da terra, numa torrente superior à necessidade do consumo da vila, mas a nascente fica a cerca de 8 quilómetros desta”, sendo enorme o “dispêndio na sua condução, armazenagem e distribuição”.

Para o articulista “o que Torres Vedras necessita, é dum abastecimento completo de água, isto é, a sua distribuição pelas casas dos habitantes, pelos edifícios públicos, lavagem e rega das ruas, limpeza de esgotos, bocas de incêndio, etc., com um reservatório cuja dimensão permitisse arrecadar o volume de água suficiente” a essas necessidades.

Com esse objectivo, refere o artigo, a Câmara “pensou primeiramente em dotar a vila do numero de chafarizes necessários às suas exigências”, lançando “as vistas” para o reservatório da já mencionada Quinta da Gaga, só a 3 quilómetros da vila, o qual “por uma medição muito grosseira, avaliámos em cerca de 45:000 litros o volume de água com que se pode contar, ou seja, 10 litros por dia e por habitante” (6).

Logo nesse mês, em 28 de Abril, realizou-se uma reunião da Câmara para tratar da questão do abastecimento da  água (7).

Contudo, meses depois, tudo continuava na mesma, levando o mesmo periódico a referir, na sua edição de 5 de Julho de 1921, que “Água!Água” ere “o grito dos torrenses”, havendo em Torres Vedras “ a par de uma crise de abundância de vinho, uma crise de falta de água” (8).

É preciso esperar mais um ano para se anunciar ter a Câmara aceite um plano do “engenheiro Sr. Ghira, que compreende a elevação das águas do poço do Jardim, com o aproveitamento da nascente da Gaga alta, que virá despejar no reservatório a efectuar no forte de S. Vicente” (9).

Uma portaria publicada no Diário do Governo, com a data de 16 de Setembro de 1922, autorizava a Câmara a construir um reservatório de água na “parte central do Castelo”, bem como a aí instalar as tubagens necessárias (10).

O tempo ia passando, e as tão necessárias obras continuavam por fazer, até que, em 7 de Maio de 1924, era assinada uma escritura com o Estado para iniciar a construção do reservatório do Castelo que receberia a água elevada, a partir de uma nascente no Choupal, para distribuir pelo centro urbano, através de uma rede planeada num projecto da autoria de João Guimarães Junior.

Essa rede seria distribuída do seguinte modo : “um colector central que partindo do Largo dos Polomes, seguiria pelas Ruas Gulherme Gomes Fernandes e Serpa Pinto, até ao edifício do Convento da Graça, com um ramal que seguindo á Rua Paiva d’Andrada terminará na Porta da Várzea; um colector lateral, partindo igualmente do Largo dos Polomes, seguirá pela Rua 9 d’Abril em direcção ao Largo da República, Avenida 5 de Outubro á estação do caminho de ferro, com um ramal pela Avenida Tenente Valadim; outro colector lateral partindo pelas Escadinhas do Castelo, aonde será colocado um marco fontenário, com prolongamento até á Porta da Varzea” (11).

É necessário esperar mais de um ano para se anunciar, em Setembro de 1925, estarem a decorrer as obras da “central elevatória da água para o abastecimento da vila”, decorrendo também a limpeza da cisterna do Castelo (12), obras essas concluídas em Janeiro de 1926, na mesma data em que se anuncia estarem a ser levantados “os perfis das ruas da vila”, nas  quais, assim que se conclua a colocação das  tubagens, se “começarão a abrir” as valas para o assentamento destas.

Finalmente, na tarde do dia 13 de Junho de 1926, a água canalizada chega ao Largo da Graça, para abastecer a vila (13).

Em 20 de Junho de 1934, já em pleno Estado Novo, foram criados o Serviços Municipalizados de Água, Saneamento e Electricidade, unificando, sob gestão municipal, duas das grandes obras iniciadas pela República, a eletrificação pública, inaugurada em 1 de Dezembro de 1912, e o já mencionado abastecimento público de água canalizada, inaugurado já no início da ditadura mas obra iniciada no final do regime republicano.

Contudo, é preciso esperar mais algumas décadas para se concluir o abastecimento de água canalizada a todos os pontos do concelho.

Antes, esse abastecimento da água às populações rurais foi garantido pelo fomento de fontanários e lavadouros, muito propagandeado a partir da década de 1940 (14). Só a partir do final da década de 1950 (15), e ao longo da década seguinte, é que se acentua e acelera o fornecimento de água canalizada a essas populações, obra que, em muitos casos, só se conclui após o 25 de Abril. Mas esta é uma outra história ainda por contar.

(1)    - leia-se, a propósito da evolução histórica do abastecimento de água a Torres Vedras, a comunicação  de Carlos Guardado da Silva, “O abastecimento de água à vila de Torres Vedras – Séculos XII-XIX”, incluída na obra lançada no passado Sábado,  semana “O Abastecimento da Cidade – Mercado Alimentar”, actas de Turres Veteras XXII;

(2)    - veja-se o interessante levantamento realizado por alunos da Escola Secundária Henriques Nogueira, intitulado Fontes, Chafarizes, Bicas – A Água no quotidiano de Torres Vedras, ed. ESHN/ME, 1993;

(3)    - Zenriques, “O Sino da Saudade”, jornal “Badaladas” de 15 de Agosto de 1960, também referido por Adão de Carvalho em crónicas da sua rúbrica “Recordando…”, intituladas “Abastecimento de Água” e “Abastecimento de água a Torres Vedras”, publicadas no jornal “Badaladas”, respectivamente em 20 de Janeiro de 1995 e 15 de Novembro de 1996;

(4)    - Serviço de Incendios - Mappa dos Manaciaes de Agua da Villa de Torres Vedras, 1907, Typographia e Papelaria Cabral, Torres Vedras;

(5)    - “Para os torreenses lerem e apreciarem – Água! Água!”, in Ecos de Torres, 5/9/ 1920;

(6)    - “Magna Questão – A Água –uma carta de João Ghira”, in “Eco de Torres” de 14/4/1921;

(7)    - “Abastecimento de Água”, por Victor Cesário da Fonseca, in Ecos de Torres de 28/4/1921;

(8)    -“Água!Água”, in Ecos de Torres de 5/7/1921;

(9)    - “Abastecimento d’águas” por Marques Carvalho, in “A Reconstituição” de 6/8/1922;

(10)                       - “Castelo de Torres Vedras”, in “A Reconstituição” de 24/9/1922;

(11)                       -“A Abastecimento de aguas – o que nos disse o sr. Álvaro Galrão, presidente da Comissão Executiva da Camara Municipal”, in “A Nossa Terra” de 1/6/1924;

(12)                       - “A Nossa Terra” de 13/9/1925;

(13)                       – esta data é indicada por Júlio Vieira na última página da sua obra Torres Vedras Antiga e Moderna, editada em 1926;

(14)                       -leia-se, a propósito, o Relatório da Gerência desta Câmara no Ano de 1948, ed. CMTV, Tipografia “O Torreense”, 1948;

(15)                       - leia-se a entrevista com João Alexandre Moreira, publicada pelo jornal “Voz do Concelho” de 25 de Março de 1958, “Os problemas do Abastecimento de água à vila e electrificação do Concelho analisados pelo Director dos serviços Municipalizados”.

 

 

quinta-feira, 3 de junho de 2021

Daniela Ruah dirige telefilme na Zona Histórica de Torres Vedras

Nos passados dias 31 de Maio e 1 de Junho, algumas ruas da zona histórica de Torres Vedras, foram palco das filmagens do telefilme "Os Vivos, o Morto e o Peixe Frito", produzido pela Ubkar Film em parceria com a RTP, realizado pela conhceida actiz Daniela Ruah.

Ficam aqui algumas fotografias de uma cena filmada na Rua do Celeiro de Stª Maria (antiga Rua da Judiaria), obtidas quando aí me dirigia para o meu escritório, localizado nessa rua:








quarta-feira, 26 de maio de 2021

O “crime das Fontainhas” (1886).


Quem entrar no cemitério de S. João, talvez já tenha reparado na grande lápide, logo à esquerda, um paralelepípedo em pedra envelhecida, com uns dizeres gravados, onde ainda se consegue ler, em francês: “Ici Repose Abel Marty/ Né A Paris En 1840/ Decédé A Torres Vedras / Le 26 Avril 1886/ Souvenir des Siens” ( “Aqui repousa Abel Marty/ nascido em Paris em 1840/ morto em Torres Vedras/ em 26 de Abril de 1886/ Recordação dos seus”).

Muita gente talvez já tenha ouvido falar neste Abel Marty e no crime de que foi vítima, conhecido pelo “Crime das Fontainhas”, que muito impressionou as pessoas da época, assunto muito divulgado e discutido na imprensa da nacional e que ficou registado na memória de gerações de torrienses.

Um ano antes desse crime, já a imprensa local alertava para as graves tensões socias que se viviam entre os trabalhadores do caminho-de-ferro, sendo notícia, em Maio de 1885,  um motim dos operários que trabalhavam na construção dos túneis à entrada da vila.

Esses operário estavam a trabalhar às ordens do engenheiro Marty, os quais, “queixando-se de que não eram pagos conforme o ajuste, e que o mesmo empreiteiro lhes recusava os pagamentos”, dirigiram-se, na noite da 3ª feira 7 de Maio de 1885, à quinta das Fontainhas, onde Abel Marty  estava hospedado, assaltando-a “com grandes berratas sediciosas. Uma grande parte das vidraças foram feitas em pedaços”, obrigando à fuga do empreiteiro. Avisadas as autoridades da vila, “marchou immediatamente para as Fontainhas uma força de cavalaria 4 e caçadores 6” a qual, ao chegar à quinta, encontrou os ânimos mais serenados. Contudo, o articulista referia informações recolhidas, segundo as quais  “os operários têm tido bastante rasão de queixa quanto à pontualidade de pagamento”, avisando, de forma premonitória que, se “o caso assim continua, queira Deus que não tenhâmos a lamentar algum infausto sucesso”  ( Jornal de Torres Vedras de 7 de Maio de 1885).

Com base em várias descrições existente(1), traçamos uma breve síntese sobre esse trágico acontecimento.

Albert Marty, de 46 anos,  era engenheiro francês e tinha tomado de empreitada, em conjunto com outro engenheiro seu compatriota, Eugenio Béraud, a construção dos 3 túneis a sul da estação de caminho-de-ferro da vila.

Marty era um engenheiro experiente e conceituado, responsável pela construção de túneis em várias linhas férreas europeias, na Suíça, na Bélgica e na Alemanha.

Béraud vivia perto da vila, na quinta da Certã e Marty tinha alugado, para habitar, a quinta das Fontainhas, próxima do lugar dos Cucos, junto à estrada mais movimentada da altura, que ligava Torres Vedras a Alhandra, bifurcando para Lisboa junto a Dois Portos.

Junto com Marty habitavam a esposa, o filho, um criado e uma criada, e um casal de caseiros.

Dias antes do crime, em 20 de Abril, a esposa e o filho tinham partido para França.

Era a partir da quinta que Marty “superintendia nos trabalhos dos tunneis, em que andavam empregados algumas dezenas de operários, práticos n’aquelles perigosos serviços; a maior parte, porem, era gente indisciplinada, de péssimos costumes, dado à embriaguez e á crápula, e desordeira; e muitos, segundo constava, tinham tomado aquelle mister como um refugio contra as perseguições da justiça, com a qual tinham contas ainda não saldadas” (SOTTOMAYOR, p.96.).

Por esses dias Abel Marty tinha despedido, por motivos disciplinares, o operário Marcial Diaz, um galego da região de Orense que trabalhava no túnel da Boiaca, que, em surdina, terá proferido ameaças de vingança, mas desparecendo sem deixar rasto.

Alguns dias depois desse acontecimento, no domingo dia 25 de Abril, alguns operários cruzaram-se em Torres Vedras com o dito Marcial acompanhado por dois outros indivíduos desconhecidos destas bandas. Eram dois operários mineiros que Marcial “fôra desencaminhar aos trabalhos da via férrea do Algarve, onde andavam ocupados” (SOTTOMAYOR, p.96).

Chamavam-se José Valliño, alcunhado de “o Corunhez”, devido à sua origem, natural de uma aldeia próxima da cidade galega da Corunha, de 25 anos, e Juan Lopez, alcunhado o Barellas, de 23 anos, natural de uma aldeia da província de Lugo.

Em Torres Vedras, veio-se a saber depois, compraram as facas usadas no crime no estabelecimento de Cândida Rosa.

Avisado dessa presença, Marty recolheu a casa mais cedo e, na noite desse domingo, algumas testemunhas viram aqueles três trabalhadores e rondar a quinta das Fontainhas.

O dia 26 de Abril, uma segunda-feira, “foi um dia primaveril de sol radiante” e, nessa tarde, os muitos frequentadores da “estrada de Alhandra” não suspeitaram de três indivíduos “que em plena luz, ás 4 e meia da tarde, iam socegadamente pela estrada fóra, e chegando ao portão de ferro da quinta das Fontainhas, por ali penetraram e seguiram pela rua orlada de buxo em direcção à casa”.

Por essa altura, o engenheiro francês estava no seu escritório, a trabalhar no desenho de uma planta, encontrando-se na casa, para além dele, uma criada de 16 anos, Sofia da Conceição, preparando o jantar, já que o criado tinha ido em serviço a Torres Vedras. Noutra casa anexa estava a caseira a costurar (SOTTOMAYOR, p.97).

Os três criminosos separaram-se. Marcial dirigiu-se para o anexo onde estava a caseira, ameaçando-a e impondo-lhe o silêncio.

Os outros dois bateram à porta da casa principal, sendo recebidos pela criada que os indagou sobre o motivo da sua presença, tendo estes penetrado de imediato na casa e dizendo o “Corunhez” que estavam “ali para que mr.Marty lhe pagasse um dia e serviço que lhe estava devendo”, ao mesmo tempo que também entrava o segundo assaltante, o “Barellas”.

Dirigiram-se para o escritório, ficando o “Barella” junto da criada, do lado de fora dessa divisão, a quem ameaçou com  uma faca que este entretanto sacou, entrando o “Corunhez” no escritório, exigindo ao espantado engenheiro que este “lhe pagasse um dia de trabalho”, ao que Marty respondeu “ Eu não o conheço; mas se se lhe deve um dia, vá chamar o apontador, e já se lhe paga”.

Foram as últimas palavras do malogrado engenheiro pois que, de imediato o “Corunhez” se precipitou “sobre o infeliz Marty, vibrando-lhe a primeira facada que penetrou profundamente na virilha esquerda”, seguindo-se uma luta desigual, continuando o empreiteiro francês a ser esfaqueado pelo criminoso, mas a vítima ainda se conseguiu arrastar até ao quarto.

Em sua perseguição, acompanhado pelo segundo assaltante, que entretanto largou a criada, forçaram a entrada no quarto, à procura de bens, cabendo desta vez ao “Barellas” golpear no pescoço a vítima já moribunda, a quem roubaram o relógio de corrente, único bem que conseguiram obter do assalto.

Livre dos assaltantes a criada “precipitou-se pela porta fóra em corrida vertiginosa, gritando, louca de pavôr”, o que “desorientou os assassinos”, levando também a que o “Marcial” abandonasse a caseira que mantinha sob ameaça, desatando os três a fugir pelas traseiras da casa.

A criada refugiou-se na casa da caseira, permanecendo aí as duas por cerca de um quarto de hora, receando a volta dos criminosos. Só quando confirmaram a fuga dos assaltantes é que saíram, indo pedir auxilio à quinta da Certã, que fica próxima.

Alertadas as pessoas, logo ocorreu muita gente ao local do crime, chegando de seguida as autoridades concelhias, que apenas puderam confirmar o óbito de Marty e iniciar a perseguição dos criminosos, com uma força de cavalaria, que regressou de noite sem descobrir o seu rasto.

Estes tinham fugido pelas traseiras da casa. Passaram a primeira noite escondidos “n’um palheiro dashaditado na charneca da Bogalheira”, a caminho do Bombarral, onde também passaram o dia seguinte, continuando então “a caminhar em direcção á estrada, que foram seguindo sempre até Pombal”.

Só em meados de Maio os criminosos foram descobertos e detidos, numa taberna nas proximidades do Pombal, sendo antão conduzidos para Torres Vedras, onde chegaram na sexta-feira 7 de Maio, sendo aguardados por uma multidão silenciosa e  pelas autoridades locais.

Interrogados pelo juiz de direito, foram de seguida conduzidos cadeia, onde ficaram  a aguardar pelo julgamento. ( SOTTOMAYOR, p.98 a 101).

O julgamento teve lugar no dia 12 de Agosto, presidido pelo juiz Lucio Xavier de Lima com a presença de muito público e de 10 jurados, para além dos advogados de defesa e dos réus.

Por volta das 8 horas da noite foi lido o veredicto, sendo provado que o “Marcial” foi quem planeou o assalto, o “Corunhez” foi quem desferiu a maior parte dos golpes mortais e que o “Barellas” completou o crime cortando o pescoço da vitima, quando esta ainda estava viva.

Cada um dos réus foi condenado a 10 anos de prisão maior celular, seguida de 20 anos de degredo nas colónias, dos quais 2 em prisão ou, em alternativa, em 31 anos de degredo, 10 dos quais em prisão cumprida no degredo (D.João da Camara, Jornal de Torres-Vedras de 19 de Agosto de 1886).



O “Corunhez” e o “Barella” morreram na prisão, entes do cumprimento da pena, o primeiro, atacado de “alienação mental”  em 1892, falecido em 1894, e o segundo falecido na penitenciária em 1892.

Marcial Diaz, por sua vez,  com três louvores pelo seu bom comportamento na penitenciária, seguiu para África em 1894, para cumprir o resto da pena, desconhecendo-se o seu destino posterior.() SOTTOMAYOR, p.107.

Uma explosiva combinação, entre a falta de cumprimento nos pagamentos, as  péssimas condições de trabalho na via férrea, provocando muitos acidentes fatais referidos por várias vezes na imprensa loca,  a péssima relação de Marty com alguns dos seus trabalhadores, a concentração de dezenas de trabalhadores de várias origens e desenraizados, muitos de origem estrangeira, principalmente galegos, onde se misturavam , com mineiros e operários à procura de trabalho,  autênticos bandoleiros, alguns fugidos à justiça do país de origem, , culminou na tragédia que vitimou esse engenheiro francês  em 26 de Abril de 1886.

(1) seguimos principalmente a narrativa de Agostinho Barbosa Sottomayor, “O assassínio de Engenheiro Abel Marty em Torres Vedras”, in “O crime de Torres Vedras”, Galeria de Criminosos Célebres em Portugal, ed. António Palhares, Lisboa 1897, pp. 94 a 107. Esta mesma edição transcreve a reportagem do julgamento dos criminosos, da autoria de D. João da Câmara, publicado no “Jornal de Torres Vedras” em 19 de Agosto de 1886. Também recorremos ao relato dos acontecimentos feito pelo administrador do concelho de Torres Vedras, António Joaquim Gonçalves Rosa, em correspondência para o Governador Civil de Lisboa, registada no “Livro de correspondência da Administração do Concelho para o Governo Civil de Lisboa”, com a data de 14 de Maio de 1886, registo nº 90, ff. 2 a 9 verso, manuscrito existente no Arquivo Municipal de Torres Vedras. Existem ainda várias outras referência aos acontecimentos, não só no já citado “Jornal de Torres Vedras”, mas em quase toda a imprensa nacional da época. Destacamos, contudo, a noticia publicada no “Diário Illustrado” que pode ser consultado na internet, no site da Biblioteca Nacional de Lisboa.

(excerto da correspondência do Administrador do Concelho para o Governador  Civil, com a descrição dos acontecimentos (AMTV).

domingo, 23 de maio de 2021

Em ano de Centenário: - Um documento para a História do PCP em Torres Vedras

O Documento que aqui divulgamos é o relatório da "1ª Assembleia de Organização Concelhia de Torres Vedras do Partido Comunista Português", realizada em 22 de Janeiro de 1978.

Em ano do Centenário da fundação do mais antigo partido portugês em actividade, e depois de termos dedicado AQUI um pequeno estudo sobre a História desse partido no Concelho de Torres Vedras, aqui divulgamos um documento essencial para perceber a maneira como esse partido via a realidade local, fazendo um balanço da sua actividade nos últimos anos de clandestinidade e nos primeiros em democracia, ao mesmo tempo que apontava a estratégia de actuação em termos locais.

Seja qual for a opinião e o posicionamento político de cada um, parece-nos que a divulgação deste documento é um contributo para o estudo da vida política local durante os últimos anos do século XX e os primeiros do regime democrático.

Assim apareçam outros documentos do género sobre a vida de outros partidos com actividade local.