terça-feira, 3 de outubro de 2023

Piratas na Costa Torriense

                                                 

(Actual Praia de Santa Rita, local de desembarque de piratas mouros)

Pirataria, corso ou…comércio marítimo?

Se cada uma dessas actividades é distinta, já não é tão fácil classificar quem a elas se dedicou ao longo da história. Por exemplo, o que dizer de Fernão Mendes Pinto? Pirata por conta própria nos mares asiáticos, corsário ao serviço da coroa portuguesa ou comerciante marítimo?

E que dizer da construção dos grandes Impérios Marítimos Europeus, como o Francês, o Holandês ou o Britânico, construídos com o recurso a corsários, meros piratas aos olhos de portugueses e espanhóis, detentores da exclusividade marítima pelo Tratado de Tordesilhas?

Passando por cima da controvérsia da designação, o que abordamos hoje aqui é a “pirataria” magrebina que assolou a costa deste concelho nos séculos XVII e XVIII (1).

A costa, junto ao velho convento de Penafirme, hoje em ruínas, foi por várias vezes assaltada por piratas “mouros”, principalmente no verão e ao longo do século XVII.

O facto de nesse local existirem várias fontes de água e de se situar longe de povoações que pudessem rapidamente defender a costa, terá motivado esses assaltos.

Segundo a opinião de frei Agostinho de Santa Maria, os corsários que frequentavam esta costa “vinhão muitas vezes a fazer nella água em suas lanchas, e a furtar o gado que podião, e também a cativar alguns pescadores, que fugindo delles se hião recolher no Porto Novo, ou estavão naquella praza reparando seus barcos & redes & por vezes intentarão acometer o Convento, para roubar, & cativar os religiosos”(2).

O próprio mosteiro antigo dos frades de Penafirme era alvo do ataque dos ditos piratas, não só para o roubarem, como “levarem os frades cativos” (3).

Por causa desses assaltos os frades de Penafirme tomaram várias iniciativas para se protegerem : reforçaram as portas do convento com trancas de ferro, armaram-se e passaram a vigiar a costa de dia e de noite.

Se avistassem os piratas durante o dia, faziam tocar a rebate o sino da torre da Igreja. Se os avistassem durante a noite, usavam como sinal um facho que acendiam, colocado na mesma torre.

No caso de ataques de maior gravidade usava-se um sistema de sinalização luminosa, com fachos que eram acesos nos locais mais altos, desde a costa até Torres Vedras. Daí os nomes ainda hoje conhecidos, de “ponta da Vigia”, em Vale de Janelas, “Alto da Vela”, em Santa Cruz, ou “Casal do facho”, no Varatojo.

Nesses tempos, os habitantes de Penafirme estavam isentos da prestação do serviço militar, para ocorrerem à defesa da costa.

Data dessa época o episódio que imortalizou o frade Roque da Gama. Ajudado por quatro lavradores, defendeu o convento de um ataque de 14 piratas, em 30 de Junho de 1620, conseguindo aprisioná-los (4).

Terá sido em resultado desse acontecimento que o rei Filipe III decretou “que ouvesse no Convento hua (...) praça de armas (...) & assim mandou dessem para o convento hus tantos mosquetes, & lanças, hum tambor, & frascos, que alli se conservão para esse fim; & ordem para cobrarem em Lisboa cada hum anno certa quantidade de polvora & balas” (5).

Mais do que o saque e a recolha de mantimentos, um dos principais objectivos desses ataques de piratas magrebinos era fazer cativos, actividade que alimentava um lucrativo negócio de resgate de cativos.

Embora com avanços e recuos, em relação à sua autonomia, desde o século XIII que a responsabilidade de recolher “esmolas” para resgatar cativos cabia à Ordem da Santíssima Trindade (6).

Do resgate de cativos efectuado por essa ordem, nas cidades muçulmanas do norte de África, existem vários “relações” acessíveis na net, disponibilizadas no site da Biblioteca Nacional de Lisboa.

Ao contrário do que aconteceu na costa da Ericeira ou mesmo na região de Peniche, esta última próxima de um dos principais refúgios desses piratas, as Berlengas, de onde partiam para as suas incursões nesta costa, não existem muitas referências a cativos “torrienses”. Mas elas, apesar de raras, existem.

Em 1739 foram resgatadas da cidade de Argel Sebastianna João de 46 anos, “casada com Pascoal Ferreira”, natural de S. Pedro da Cadeira, cativa havia 2 anos e meio, pela quantia de 630$000 réis, juntamente com a sua filha Maria Ferreira, com 12 anos, pelo mesmo valor (7).

Numa outra lista, de 1754, encontramos, entre os resgatados da cidade de Argel, um Domingos João que “tem ofício”, natural da Assenta, casado com Helena Francisca, de 60 anos, com 14 anos de cativeiro, resgatado pela quantia de 284$000 réis (8).

João Flores da Cunha, investigador da história torriense, encontrou nas suas buscas, além dos acima mencionados, mais os seguintes cativos “torrienses” resgatados: em 1674, de Argel, Estevão Lourenço de 42 anos, marinheiro, com 3 anos de cativeiro, liberto por 110.000 reis; em 1729, de Marrocos, Domingos Jorge, de 48 anos com 22 de cativeiro.

Pela origem dos resgatados, ficamos a saber que não foi apenas a costa norte do concelho a ser atacada por piratas, mas também a zona da Assenta.

Refira-se também que, perante a continuação e frequência dos actos de pirataria junto à foz do Alcabrichel, D. Afonso VI mandou construir uma fortaleza junto de Porto Novo, o forte de Nossa Senhora da Graça, cuja construção se iniciou em 1662.

Contudo, essa construção, mais do que ter por objectivo defender a costa do ataque de piratas, visava integrar um conjunto de fortalezas marítimas, entre o Cabo Carvoeiro e o Cabo da Roca, que defendessem o território de um desembarque castelhano, num período de intensas guerras entre os dois reinos, na sequência da restauração portuguesa de 1640.

Ainda em 1810, João de Lemos Lima Falcão, coronel do regimento de milícias de Torres Vedras contribui com 46$130 réis em “metal” e 32$600 réis em “papel” para o resgate de cativos (9).

Tema ainda por estudar, aqui ficam algumas referências ao testemunho dessa actividade na costa do nosso concelho.

(1)    – Sobre este tema, mas referindo-se à costa vizinha da Ericeira, existe um interessante estudo, da autoria de Maria da Conceição Ramos: A Pirataria Argelina na Ericeira do Século XVIII, editado pela Mar de Letras em 1998;

(2)    - SANTA MARIA, frei Agostinho de, Santuário Mariano, tomo II, ed. 1707, p.74;

(3)    - PURIFICAÇÃO, Frei António da, Chronica da Antiquíssima Província de Portugal da Ordem dos Eremitas de S. Agostinho, parte I, Lx, 1642, Livro III, tit. VI, fl.348 v;

(4)    - leia-se o resumo desse episódio em Luís, Maria dos Anjos Santos Fernandes, “A Vigilância e defesa da Costa” em A dos Cunhados – Itinerário da memória, ed. Pró- Memória, 2002, pp.127-130, com base no mesmo PURIFICAÇÃO;

(5)    - SANTA MARIA, ob. cit., p.75;

(6)    – leia-se sobre esse assunto a excelente síntese na obra citada de Maria da Conceição Ramos, no capítulo intitulado “O resgate de cativos – intervenção central e local”, ob. Cit em (1), pp 27 e ss;

(7)    – “Relação dos Cativos que por ordem de (…) D. João V” foram resgatados da cidade de Argel em 1739 (site da BNL), nºs 2 e 3 da lista

(8)    – “Relação dos Cativos que por ordem do fidelíssimo rey Dom Joseph I” foram “resgatados na cidade de Argel (…)” (site da BNL), nº 69 da lista;

(9)    – “Donativos para Resgate – 1810”, no site da BNL. 

terça-feira, 26 de setembro de 2023

No Bicentenário do Nascimento de José Félix Henriques Nogueira

(Henriques Nogueira in Galeria Republicana-1882)

Passando este ano o bicentenário do nascimento de José Félix Henriques Nogueira, não podíamos deixar de invocar, nesta coluna, essa efeméride (1).

Nasceu na Bulegueira, aldeia da freguesia de Dois Portos, então pertencente ao julgado/concelho da Ribaldeira, em 15 de Janeiro de 1823.

Tendo ficado órfão de pai aos 7 anos,foi viver para Lisboa, na casa de um tio, onde começou a frequentar a escola secundária em 1835.

O seu primeiro acto político teve lugar aos 17 anos, em 1840, assinando um protesto contra a extinção do concelho da Ribaldeira (seria extinto em 1855).

Publicou o seu primeiro artigo em 1844 na revista Panorama, dirigida por Alexandre Herculano, uma evocação da Ericeira.

Nesse mesmo ano, na edição de 9 de Março dessa mesma revista, publica-se uma gravura da Ermida de Nª Srª do Socorro, da autoria de Henriques Nogueira, cumprindo a “promessa de outros desenhos seus, que estamparemos neste jornal”. Revela-se assim uma outra faceta de Henriques Nogueira, menos conhecida, a de desenhador.

O ano de 1851 foi crucial na sua biografia, editando nessa altura a sua primeira obra de fôlego, “Estudos Sobre a Reforma em Portugal”, obra em 2 volumes (o 2º Volume saiu em 1855),  iniciando uma actividade política mais consistente, editando uma “carta ao Centro Eleitoral Operário”, datada da Póvoa de Penafirme, onde incitou os operários a apresentarem uma candidatura própria às eleições para deputado, e candidatando-se, nesse mesmo ano, a deputado pelo Círculo de Alenquer, candidatura que repetiu no ano seguinte, desta vez pelo Círculo de Torres Vedras, mas sem êxito.

Em 1853, apenas com 30 anos, viajou para a Inglaterra, passando também pela Bélgica. Alemanha, França e Espanha. Em 1857 escreveu as suas recordações dessa viajem, embora referindo-se apenas à sua estadia no território britânico.

No jornal “O Progresso” começou a publicar, em 1855, um conjunto de crónicas intituladas “Estudos Políticos”, que vão dar origem à sua segunda obra de fôlego, “O Município do Século XIX”, obra editada em 1856.

No auge da sua actividade intelectual, morreu em Lisboa com uma doença do foro pulmonar, em 23 de Janeiro de 1858, apenas com 35 anos.

Henriques Nogueira está sepultado no cemitério dos Prazeres, em Lisboa, sepultura identificada com o seu busto, da autoria de Manuel Bordalo Pinheiro, pai de Bordalo e Columbano.

As suas obras foram pioneiras em muitas áreas do pensamento político e social, expressas em muitos artigos dispersos e, principalmente (2).

Nos “Estudos…”, no capítulo dedicado ao “Governo”, note-se a actualidade do que escreveu: “ Quando será que os destinos humanos se regularão pela força do direito, da justiça e da sabedoria, e não pelo abominável direito da força, do despotismo e da ignorância? Quando será que os graves negócios e pendências entre as nações se decidirão pelos princípios da equidade, sem o recurso bárbaro e estúpido da guerra?” (3).

Nessa obra defende muitas ideias que, se para altura eram inovadoras, hoje, sendo aceites, nem sempre são praticadas por esse mundo fora, como a defesa do voto livre e universal, do reforço do poder da Assembleia Legislativa, da valorização do trabalho e do direito ao trabalho através de um salário justo, reflectindo também sobre o trabalho feminino.

A defesa do mutualismo, da educação, da liberdade de imprensa, do reforço do poder municipal, são outros dos tópicos da sua reflexão. As preocupações com o papel da educação é, aliás, transversal a toda a sua obra (4).

Defensor do Iberismo, partindo do modelo federal da Suiça e dos Estados Unidos, revela-se um percursor, quase 10º anos antes, da idéia que esteve na base da construção da União Europeia e até da ONU, ideia que ele defende, com maior enfâse, em artigos publicados no Jornal “O Progresso”, em 1855, com os seguintes argumentos: “É tempo (…) que os povos se emancipem destes governos anacrónicos [baseados em fronteiras nacionais] que, pela compressão, pelo isolamento e pela miséria, obstam ao seu natural progresso. Um dos meios mais profícuos que com este santo fim têm sido lembrados é sem dúvida a formação de grandes nacionalidades que possam resistir com vantagem contra os estrangeiros que pretendam dominá-las. Estas nacionalidades serão depois outros tantos grupos de uma só família – o género humano. O que até hoje se decide pelo arbítrio de três ou quatro nações poderosas, será então resolvida num congresso geral, em que todos os povos terão representantes” (5). O que não é esta última frase, senão a defesa daquilo que se criou depois da 2ª Guerra, a ONU?

A outra sua obra fundamental, “O Município do Século XIX” é um esboço histórico pioneiro sobre a o municipalismo português, muito no seguimento dos estudos do seu amigo Alexandre Herculano.

Defendendo nessa obra a descentralização do poder, definiu nessa obra algumas das principais funções dessa instituição, que se devia basear em eleições democráticas, dando a cada freguesia o poder de eleger um vereador.

Entre essas funções, destaque  para a organização em cada município de um arquivo, de uma biblioteca, de um museu, de uma imprensa municipal, de uma escola municipal, de um teatro municipal, de um ginásio  e de associações municipais que representassem as várias áreas económicas ( agricultura, industria, comércio e as actividades artístico-literárias). Muitas dessas ideias só foram concretizadas no século XX, alguns mais de cem anos depois desse escrito.

Ficam aqui apenas alguns tópicos para quem queira continuara a explorar e conhecer a valiosa obra do autor torriense.

(1)    – Este texto baseou-se numa nossa comunicação apresentada em Janeiro deste ano, na Escola Secundária Henriques Nogueira. Sendo o nosso texto uma breve síntese, destacamos, entretanto, a publicação, nas páginas deste jornal, de três outros textos sobre Henriques Nogueira, abordando outras perspectivas, e com outra profundidade, da obra desse pensador: MATOS, Álvaro Costa de, “Henriques Nogueira: jornalista e publicista”, in Badaladas de 26 de Maio de 2023; CATARINO, Manuela, “Henriques Nogueira: defensor do Iberismo”, in Badaladas de 2 de Junho de 2023; DUARTE, Joaquim Moedas, “Henriques Nogueira : precursor do socialismo e do republicanismo”, in Badaladas de 16 de Junho de 2023 ;

(2)    – Toda a obra de Henriques Nogueira está reunida nas “Obras Completas” em 3 volumes, editadas em 1970, 1979 e 1980, pela INCM, sob orientação de António Carlos Leal da Silva, autor de um anexo com a cronologia da biografia do autor, editado em 1982. Entre muitos outros estudos sobre Henriques Nogueira, detacamos também a obra de Vitor Neto, As Ideias Políticas e Socias  de José Félix Henriques Nogueira, nº 6 da colecção H, editado pela Colibri e pela CMTV em 2005;

(3)    –“Estudos..” in Leal da Silva, Tomo I das “Obras Completas”, pág.29;

(4)    – Veja-se o nosso estudo sobre o papel da Educação na obra de Henriques Nogueira publicado na obra colectiva José Félix Henriques Nogueira, editada conjuntamente pela Escola Secundária Henriques Nogueira e pela Câmara Municipal de T. Vedras em 2008;

(5)    – in Leal da Silva, Tomo III das “Obras Completas”, pág.  83;

segunda-feira, 5 de junho de 2023

As Origens do Partido Socialista em Torres Vedras


Fundado em 19 de Abril de 1973, no exílio alemão, o actual Partido Socialista só surgiu em Torres Vedras já depois do 25 de Abril, embora tenha existido, no início do século XX um primitivo Partido Socialista com alguma actividade em Torres Vedras.

Em Portugal as primeiras manifestações do ideário socialista ocorreram na década de 70 do século XIX, na sequência da “Comuna de Paris”, acontecimento que teve lugar entre Março e Maio de 1871, que acabou com a repressão sangrenta sobre os revolucionários franceses.

Nesse mesmo ano de 1871, em Agosto, o genro de Karl Marx, Paul Lafargue, deslocou-se a Portugal para reunir com os membros locais da Associação Internacional dos Trabalhadores, organização fundada por ocasião da Primeira Internacional (1864-1876), visita que motivou a fundação da “Fraternidade Operária”(FO)  em Janeiro de 1872.

Devido às perseguições policiais e ao incipiente peso social e económico do operariado português, a FO extinguiu-se em 1873.

Muitos dos membros da FO, apoiantes em Portugal da Primeira Internacional, fundaram , em 1875, o primeiro Partido Socialista português.

Entre os fundadores estiveram Aznedo Gneco, José Fontana e, entre cerca de uma vintena, um homem que veio a estar muito ligado a Torres Vedras, Manuel do Nascimento Celestino Aspra.

Foi este Celestino Aspra, tipógrafo de profissão, que esteve ligado à divulgação de algumas ideias associadas a esse primeiro socialismo, como o mutualismo operário, sendo um dos fundadores da "Associação Mutualista 24 de Julho de 1884” (1).

Fundador da primeira tipografia torriense, a esta estiveram ligados os dois primeiros jornais editados em Torres Vedras, “O Jornal de Torres Vedras” (Janeiro de 1885 a Dezembro de 1886) e “Voz de Torres Vedras” (Fevereiro de 1887 a Janeiro de 1890).

Foi num artigo do jornal “ Voz de Torres Vedras”, de 6 de Julho de 1889, intitulado “As Classes”, que se publicou a  primeira referência local à obra e pensamento de Karl Marx, a propósito do qual o articulista se interrogava : “Quem não sente o arruído das classes escravizadas pelo salário, classes que em altos brados reclamam por toda a parte o seu quinhão no banquete social, apresentando-se para tomarem nas suas mãos o destino d’este mundo (…)?”.

Em plena 1ª República, o candidato socialista pelo Círculo de Torres Vedras às eleições para deputado de 1915, Raul dos Santos Palermo, recebeu um total de 20 votos neste concelho, de um total de 1644 expressos. Esse mesmo candidato, o único “socialista”, voltou a apresentar-se por este círculo em 1919, recebendo 23 votos de um total de 860 (2).

Foi em Abril de 1917 que se fundou um “Núcleo de Propaganda Socialista de Torres Vedras”, iniciativa acolhida “com viva satisfação pela classe operária”, ficando as adesões a cargo de José Augusto Correia Lemos, na Rua Mouzinho da Albuquerque, nº 32, r/c. A inauguração desse Núcleo ficou marcado para 1 de Setembro, numa “sessão de propaganda, numa colectividade”, estando programada a actuação de um “sexteto” de Lisboa que “executará o hino operário “A Internacional” (3).

Na sequência dessa iniciativa, o núcleo local do Partido Socialista, liderado localmente pelo marceneiro António Vicente Santos Júnior, concorreu, pela primeira vez, e única durante esse regime, às eleições autárquicas, em Maio de 1919, obtendo 45 votos.

Em 1931, por ocasião da tentativa de formação de uma frente única republicana para enfrentar a recém criada União Nacional nas eleições para o parlamento prometidas pela ditadura do 28 de Maio,  (4) foi eleito como representante local da chamada Frente Republicano-Socialista, em sessão realizada no Teatro-Cine em 28 de Junho desse ano, pelo núcleo local do Partido Socialista, aquele mesmo António Vicente (5).

A partir da década de 30 do século passado não se regista qualquer actividade do Partido Socialista em Torres Vedras, proibido que estava pelo Estado Novo. A partir dessa década a oposição é liderada por republicanos históricos e pelo cada vez mais influente Partido Comunista Português.

Muitos dos fundadores do actual PS torriense vieram da oposição ao Estado Novo e, em vésperas do 25 de Abril, participaram em eventos unitários, ora nas acções da oposição, ora assinando documentos contra a “situação”, junto com outros oposicionista locais, como foi o caso, por exemplo, de um João Carlos, um Dr. Augusto Troni, uma Leonia Rodrigues ou um Sérgio Simões.

Foi em documento de 4 de Maio de 1974 que a “Comissão Concelhia de Torres Vedras do Partido Socialista” apresentou “À População do Concelho de Torres Vedras” a “declaração de princípios” do partido, anunciando para breve a inauguração da sua sede local, que se situou numa vivenda na Av. 5 de Outubro, que existiu a poente do “Pacar”.

Em documento de 7 de Junho de 1974, apresentou-se publicamente a lista de nomes que integraram a “Comissão Provisória da Secção Concelhia de Torres Vedras”, composta por 26 nomes (ver imagem em anexo).

Concorrendo pela primeira vez a eleições, nas “Constituintes” de 25 de Abril de 1975, o Partido Socialista foi o mais votado no concelho, com 15 881 votos (43,59%), embora não tenha vencido em todas as freguesias (foi derrotado pelo PPD em A-Dos-Cunhados, Campelos, Freiria, Silveira e Ventosa).

Nas primeiras eleições autárquicas, realizadas em 12 de Dezembro de 1976, o PS venceu, sem maioria absoluta, com 10 073 votos (36,73%), em lista encabeçada por Alberto Avelino (6).

Para além de ter sido o primeiro presidente eleito da Câmara Torriense, Alberto Avelino tinha sido deputado na Constituinte de 1975, voltando a estas funções de deputado mais tarde e exercendo, durante 12 anos, o cargo de Governador Civil de Lisboa, sendo uma das figuras históricas do novo PS.

Em termos locais, esse partido tem dominado a liderança municipal desde essas eleições de 1976, caso raro em Portugal.

(1)    - leia-se “Associação de Socorros Mútuos 24 de Julho de 1884. Nos primórdios do associativismo operário em Torres Vedras”, in Turres Veteras X - História do Sagrado e do Profano, Lisboa, ed. Colibri-CMTV, 2008, pp.231-245;

(2)    - ver  “Republicanos de Torres Vedras”, ed. Colibri e CMTV, 2003;

(3)    - leiam-se as edições de 5 de Abril e 19 de Julho de 1917 de “A Vinha de Torres Vedras”;

(4)    -  as tão esperadas eleições para a Assembleia Nacional realizaram-se apenas em 16 de Dezembro de 1934, “disputadas” unicamente pelo  movimento da ditadura, a União Nacional, força política que se manteria como “partido” único até ao 25 de Abril;

(5)    - ver Gazeta de Torres de 14 de Junho de 1931;

(6)    – muitas destas informações foram recolhidas no arquivo pessoal do autor.

ANEXO:

Documentos para a História do PS em Torres Vedras 





quinta-feira, 25 de maio de 2023

As memórias do Carnaval de António Carneiro

                                               

Se há acontecimento que une todas as gerações torrienses vivas, ele é o Carnaval de Torres.

Toda a gente que tenha nascido ou vivido em Torres Vedras tem histórias da sua vida relacionadas com esse evento.

Se essa memória for a de alguém que esteve por dentro da organização e da expansão que o Carnaval de Torres conheceu nas últimas décadas, estão reunidas as condições para que essas memórias se tornem um documento fundamental para conhecer a evolução, a transformações e o espírito desse acontecimento único que é o Carnaval de Torres.

É o que acontece com António Carneiro, que acaba de nos brindar com um surpreendente livro de memórias sobre o Carnaval de Torres: “Aconteceu assim…memórias e …outras histórias”.

Este livro, tratado graficamente pelo Antero Valério e ilustrado com um conjunto de fotografias ,  muitas da autoria de Carlos Miguel (cronista visual do nosso carnaval das últimas décadas, como se revela pela extraordinária fotografia que foi escolhida para capa do livro), é já uma obra fundamental para se conhecer como é que o Carnaval de Torres atingiu a sua actual dimensão e notoriedade.

Como responsável activo pela fase moderna do nosso Carnaval, António Carneiro dá-nos uma obra fundamental para quem queira construir, para memória futura, uma História do Carnaval de Torres.

O memorialismo não é um género muito cultivado por estas bandas, muito menos na forma despretensiosa, mas bem documentada e experienciada, como o faz o nosso amigo “Toni” Carneiro.

Para além de António Carneiro, temos, felizmente, João Maria Brandão de Melo que nos vai deliciando, nas páginas do jornal  Badaladas, de forma irregular, com as suas memórias carnavalescas, trabalho que também merecia ser reunido em livro.

Pena temos nós que não houvesse outras figuras históricas do nosso Carnaval que publicassem as suas memórias (lembramo-nos de um Amílcar, de um Luís Faria, de um Jaime Alves, de um Levy dos Santos, de um Verino, de  um Renato Valente…e tantos outos que construíram o nosso Carnaval).

O livro de António Carneiro lê-se de um trago. Lê-lo, para além do grande prazer que nos deu, é um forma de penetrarmos  no espírito do centenário Carnaval de Torres, pois as saborosas histórias que ele nos  revela não são as  de um mero observador exterior, mas muitas delas tiveram a cumplicidade activa do autor e foram “estruturantes”  para a identidade actual do nosso Carnaval.

Este é um livro fundamental na estante de qualquer torriense, goste-se ou não do Carnaval.

 

segunda-feira, 24 de abril de 2023

Vitor Alves, um “capitão” de Abril em Torres Vedras


Ainda está por fazer um levantamento dos militares nascidos ou criados em Torres Vedras que participaram no “25 de Abril”.

Um há, contudo, que foi decisivo, não só para a concretização desse golpe militar, que pôs fim a 48 anos de ditadura, como para o rumo democrático dessa revolução.

Chamou-se Vitor Manuel Rodrigues Alves, nascido em Mafra em 30 de Setembro de 1935, mas que viveu parte da sua infância e juventude em Torres Vedras.

O major Vitor Alves foi uma das figuras cruciais para o êxito do “25 de Abril”, mas, muitas vezes, o seu papel nesse acontecimento e na evolução dessa revolução não tem sido devidamente valorizado, em grande parte devido à sua personalidade discreta e sóbria.

Contudo, como se revela na excelente biografia que Carlos Ademar lhe dedicou (1), a sua acção foi crucial, quer para o êxito do golpe de estado que pôs fim ao regime salazarista, quer para o rumo democrático e liberal do regime saído do “25 de Abril”.

Formado na Escola do Exército, participou na Guerra Colonial, onde combateu durante mais de uma década nos mais difíceis cenários de guerra, apercebendo-se da incapacidade do regime para encontrar uma saída política para esse conflito, o que o levou a ser um dos pioneiros na formação do que veio a ser o MFA e um dos principais responsáveis pela elaboração do programa político desse movimento.

Depois do movimento vitorioso, integrou cargos em várias estruturas, como o Conselho de Estado, o Conselho dos Vinte e, mais tarde, o Conselho da Revolução, foi ministro sem pasta,exercendo também várias funções diplomáticas. Foi um dos fundadores do Grupo dos Nove, sendo um dos “vencedores “ do 25 de Novembro e ministro da educação no IV Governo Provisório, liderado por Pinheiro de Azevedo. Foi mais tarde conselheiro presidencial de Ramalho Eanes, candidato pelo PRD nas eleições de 1985, 1986 e 1989, e fundador da Associação 25 de Abril, entre muitas outras actividades cívicas em prol da defesa da comunidade portuguesa no mundo, de um bom relacionamento com as antigas colónias e em defesa dos Direitos Humanos.

Toda esta acção está bem documentada na referida biografia, uma obra que é também um fiel retrato da vida política e social de Portugal entre o final da década de 1960 e da década de 1980, durante as quais Vitor Alves foi uma figura decisiva

Neste artigo não pretendemos fazer uma história dessa importante personalidade, mas referir as suas ligações a Torres Vedras.

Nascido em Mafra, a sua família, depois se uma curta passagem por Vila Franca de Xira, mudou-se para Torres Vedras na década de 1940, vivendo na Rua Conde Tarouca, nº 28, 1º andar. “Era num prédio de três pisos. A família Alves residia no 1º andar e a senhoria no 2º. Teresa, a mulher de Vítor Alves durante 50 anos (…) refere-se-lhe como a “casa do risco ao meio”, por ter um corredor longo e muitas divisões de um e outro lado”. Nessa casa existia uma grande biblioteca, propriedade do avô paterno Alexandre, figura tutelar de Vitor Alves, com quem conviveu de perto durante os 4 ou 5 anos que este viveu na casa paterna em Torres Vedras. “O seu ingresso na Escola do Exército, em 1954, ocorreu dois ou três anos após a morte dessa figura tutelar” (2).

O pai de Vitor Alves, Eduardo, era escriturário da Junta Nacional dos Vinhos, falecendo em 1968. A mãe, Maria Palmira, “foi o grande motor da família”, exercendo “funções de telefonista nos CTT e passou posteriormente para o apoio à secretaria”.

Os pais de Vitor Alves tiveram 11 filhos, dos quais cinco morreram à nascença. Os dois mais novos, dos 6 sobreviventes, José Manuel e Carlos António, foram os únicos a nascer em Torres Vedras. Após a morte do pai, a mãe e os irmãos mudaram-se para Oeiras.

Vitor Alves conclui os estudos primários e secundários em Torres Vedras (3), recordando, numa entrevista concedida a Manuela Cruzeiro em 2004, a sua passagem pelo Liceu de Torres Vedra e a memória com que ficou de alguns professores: “O professor Mesquita, de Português, era extraordinário, bem como o de Matemática. Ambos eram de esquerda”. Referia-se ao professor José Carvalho Mesquita, que conheceu a prisão e foi saneado. O “professor de matemática” era o Dr. Albarran Grilo. Na mesma entrevista o “capitão de Abril” recordou igualmente com simpatia o professor de ginástica Carlos Dieguez. Já em relação ao director do liceu, o Dr. João Carlos Cunha, a sua opinião não era tão simpática. Para além da sua ligação à Legião Portuguesa, Alves desconfiava que ele era informador da PIDE, opinião que não é verdadeira (4).

A causa da desconfiança de Vitor Alves em relação ao Dr. Cunha prende-se com o facto de ter conhecimento, depois do 25 de Abril, da existência, nos arquivos da PIDE, de uma denuncia anónima contra si e um amigo do liceu, João Antunes, descrevendo as conversas entre ambos. “João Antunes tinha três ou quatro anos a mais do que Vitor Alves e ambos eram colegas do liceu. Morava na mesma rua, quase em frente da casa do Dr. Cunha. Os dois ficavam a conversar até altas horas da noite, à porta de um e do outro, o que não passaria despercebido ao director” (5), nascendo desta situação a infundada desconfiança em relação ao Dr. Cunha.

Como vimos, Vitor Alves deixou Torres Vedras em 1954, para ingressar na Escola do Exército, e a sua família deixou esta localidade em 1968, após a morte do pai.

Vitor Alves faleceu no dia 9 de Janeiro de 2011.

Em vésperas do cinquentenário do 25 de Abril, seria interessante, no mínimo, colocar uma placa evocativa da sua passagem por Torres Vedras na casa onde viveu.

(1)    – ADEMAR, Carlos, Vitor Alves – o Homem, o Militar, O Político, ed. Parsifal, 2015 (com o apoio, entre outros, da Câmara Municipal de Torres Vedras;

(2)    – ADEMAR, pág.40;

(3)    – ADEMAR, pág. 41;

(4)    - o autor desta rubrica teve oportunidade de consultar os arquivos da PIDE, onde, pelo contrário, o Dr. Cunha era alvo das desconfianças da policia politica e dos seus informadores torrienses, apesar de ser um apoiante do regime. Também sei, de boa fonte, que o mesmo Dr. Cunha, amigo de alguns oposicionistas, lhes indicou quem eram os informadores da PIDE em Torres Vedras, para eles se poderem defender melhor da perseguição dessa polícia;

(5)    – ADEMAR, pág.44

 

quarta-feira, 19 de abril de 2023

No Dia do 50º aniversário - Documentos para a História do Partido Socialista em Torres Vedras


Fundado em 19 de Abril de 1973 no exílio alemão, o Partido Socialista só surgiu em Torres Vedras já depois do 25 de Abril, embora tenha existido, no início do século XX um primitivo Partido Socialista com alguma actividade em Torres Vedras.

Muitos dos fundadores do PS torriense já tinham tido participação na oposição ao Estado Novo e, em vésperas do 25 de Abril e nos primeiros tempos da nova situação, participaram em eventos unitários, ora participando nas acções do CDE em 1973, ora assinando alguns dos primeiros documentos de adesão ao regime democrático, junto com outros oposicionista locais.

É assim que integramos nesta amostra alguns desses documentos unitários, onde ainda não surge o nome do PS, mas onde participaram alguns dos fundadores desse partido a nível local.

Os restantes documentos referem-se, esses sim, aos primeiros tempos do PS em Torres Vedras, culminando no documento referente às primeiras eleições livres, as Constituintes realizadas em 25 de Abril de 1975, ganhas localmente a a nível nacional por esse partido.

Prometendo voltar ao tema de forma mais detalhada, aqui ficam alguns desses documentos para a história do PS em Torres Vedras (clicando sobre esses documentos podem lê-los em maior formato):



(4 de Maio de 1974)
(7 de Junho de 1974)
(Junho de 1974)