“Pousado num recanto a meia encosta, o Sanatório do Barro é uma ilhota: por todos os lados, até onde a vista alcança, são vinhas e mais vinhas. À saída de Torres Vedras, daqui distante cerca de uma légua, a estrada para Lisboa atravessa primeiro uma zona industrial e, logo depois, corre entre vinhedos. A marcha amarelo-esverdinhada das vides alinhadas tapa a larga bacia em que o vale se desdobra, espreguiçando-se até quase ao cume da barreira de cristas nuas ou, então, pontuada pelo toco branco pardo, descarapuçado, de velhos moinhos já sem serventia”.
A descrição é do escritor Luiz Pacheco (1925-2008), que,
nos anos 80 do século passado, esteve internado naquele estabelecimento de
saúde, situado no edifício do antigo convento do Barro (1).
Do primitivo Convento do Barro pouco resta, apenas a
capela de Nossa Senhora dos Anjos.
Esse convento foi fundado em 1570 pela Infanta D. Maria,
donatária de Torres Vedras e filha de D. Manuel I, tendo a primeira pedra sido
lançada em 2 de Agosto.
Aí se instalaram os religiosos Arrábidos, da ordem
franciscana. o Convento foi inicialmente dedicado ao acolhimento de monges
"fraquinhos do peito", “como eram denominados aqueles que padeciam de
doenças pulmonares” (2) .
Sabe-se que o primitivo convento “não logrou, pela pouca
solidez das paredes mestras, resistir por muito tempo às invernias e
consequentes inundações, que despenhando-se dos montes, que lhe ficavam a
cavaleiro e em cujas abas fôra construído, lhe foram socavando os alicerces e
batendo as paredes de forma, que entrou a ameaçar vir-se a baixo. Houve por
tanto de apear-se e ser construído de novo com mais fortaleza e grossura de
paredes: e a mesma fortuna correu a egreja, que também foi reedificada com dimensões
mais avantajadas em comprimento e largura (…) dedicada a Nª S.ª dos Anjos” (3).
No século XVII, em 1619, fizeram-se alguns melhoramentos
do edificado, reedificação iniciada em 15 de Março desse ano (4).
No inicio do século XIX, por volta de 1819, Madeira
Torres considerava que a “situação do Convento não é muito agradável, por ficar
entre montes próximos, que lhe tomam a vista, gosando-a apenas mais extensa
para o nascente, onde alcança a estrada principal de Lisboa. O edifício é muito
regular, e reputado entre os antigos da sua Provincia pelo mais amplo na
grandeza dos cubículos e das oficinas”, descrevendo a sua cerca como incluindo
“bons taboleiros d’horta (de que não se tira na força do verão maior vantagem
pela falta d’agua) de algum pomar [de laranjas] , vinha e mata” (5).
Os frades possuíam então uma enfermaria dentro da então
vila , no hospital da Misericórdia, para tratar das suas enfermidades.
Referia Madeira Torres que “ainda há poucos annos por
occasião de haver n’elle Collegio de Filosofia, excedeu a vinte; actualmente
reduz-se a 12 professos, e 2 donatos” (6).
Por altura da Extinção do Convento, em 1834, residiam
nele 10 sacerdotes e 2 leigos.
Extinto, os seus bens foram integrados da fazenda
Nacional, posteriormente vendidos, passando pela mão de vários proprietários,
entre eles o Marquês de Valadas, que o comprou em 1857, tendo efectuado algumas
reparações, nomeadamente na Igreja, pois então tudo se encontrava quase em
estado de ruina. Posteriormente, o Convento foi vendido ao reverendo padre Carlos Rademaker, de
Lisboa, para aí instituir um colégio de órfãos, de educação gratuita,
inaugurado ao culto em 2 de Agosto de 1860, no dia a seguir à realização da
solene procissão que reconduziu a imagem de Nª Sª dos Anjos à Igreja do
convento, imagem que tinha sido enviada para a Igreja de S. Pedro em Torres
Vedras depois do decreto de extinção:
“Saíu a dicta procissão da parochia de S. Pedro e
desfilou, engrossando cada vez mais, pelas ruas de Torres, pela estrada real e
logar do Barro até ao antigo convento, campeando soberana, entre acordes de
duas philarmónicas, que n’ella tomaram parte, entre os cânticos solemnes d’uma
multidão enorme de povo e o esfuziar de muitas girandolas de
foguetes.Encorporaram-se na procissão alem dos nossos, que se achavam já então
no Barrro, com os alumnos órfãos, o clero de Torres Vedras e arredores com suas
confrarias e irmandades e immensa mó de povo de toda a cercania” (7).
Em 14 de Agosto foi inaugurado o noviciado no Convento
com 8 noviços.
No espaço exterior existe um monumento de devoção à
Excelsa Mãe de Deus, edificado em 1908, por ocasião das comemorações dos 50
anos da aparição da Virgem Imaculada em Lourdes. Nas imediações do convento
localiza-se a capela de São José, erigida no século XVI.
Com a implantação da República em Portugal foi
definitivamente encerrado enquanto convento.
Essa situação foi descrita n’ "A Vinha de Torres
Vedras" , na sua edição do dia 6 de Outubro de 1910 que, referindo-se à situação em Torres Vedras,
destacava, em título, a "prisão dos professores e seminaristas do
Barro", na manhã desse mesmo dia 6, por "uma força de cento e tantos
praças de infantaria 15, e outro de quarenta praças de cavallaria" que,
apresentando-se "inesperadamente no Collegio do Barro (...) intimaram os
professores e seminaristas, a que por ordem do governo os acompanhassem.
"A intimação foi rigorosamente cumprida, e os
moradores, em numero de 82, condusidos para esta villa, onde a população os
recebeu com respeito, foram horas depois condusidos para Lisboa, no comboio,
acompanhados pela força de infantaria 15.
"No collegio do Barro ficou uma força commandada por
um alferes, guardando o edificio, onde se encontram dois moradores doentes e as
pessoas que d'elles tratam"(8).
Em notícia divulgada na mesma edição, referia-se o
assassinato de um camponês da Serra da Vila, localidade vizinha daquele
convento pelo guarda do Colégio do Barro, não lhe dando qualquer carácter
político, ao contrário da “Folha de Torres Vedras” que, na sua edição de 9 de
Outubro, na descrição dos acontecimentos de 5 e 6 de Outubro, se referia ao
facto de se ter tido conhecimento, no dia 6 de "que um empregado do
convento dos Jesuítas assassinara com um tiro um pobre homem do
campo" associando esse facto com a
ordem para aprisionar os Jesuítas do Barro.
O encerramento dos dois conventos existentes no concelho
e o arrolamento dos seus bens foi um dos primeiros actos do novo poder neste
concelho, motivo de uma das primeiras comunicações do novo administrador do
concelho para o governo, dirigida ao Ministério dos Negócios da Justiça, datada
de 13 de Outubro:
"Em cumprimento das ordens de Vª Exª tenho a honra
de informar que estão fechadas 5 casas das ordens religiosas neste concelho,
que são as seguintes:
"1º O Convento do Barro, que se compõe de tres
grandes edificios, tendo todo o mobiliario que se encontrou á sahida dos
Jesuitas, 4 vacas leiteiras, 2 mullas, 4 porcos e algumas galinhas. Está
situado longe de povoações e guardado por uma força militar d'Infantaria 7.
"2º Pertencendo ha (sic) mesma ordem á (sic) outro
edificio denominado a quinta da Cadriceira, freguesia do Turcifal, o qual já
está fechado e lacrado, tendo todo o mobiliario, 3 vaccas pequenas, 1 porco e
35 galinhas, ficando depositario Angelo Custodio Botelho da Cadriceira (…)” (9).
O espaço daquele convento foi transformado no “Asilo
Elias Garcia”, formalmente inaugurado pelo Presidente da República, Teófilo
Braga, em visita inaugural realizada em 2 de Agosto de 1915 (10).
No início do século XX, o Asilo assumiu um papel
importante no combate ao flagelo da tuberculose, tendo sido confiado à
Assistência Nacional aos Tuberculosos, na segunda metade do século. Em 1956, é
nomeado para diretor clínico do sanatório o Dr. José Maria Antunes Júnior. A
partir de 1956, os serviços gerais do Asilo passam a ser assegurados por
freiras, possibilitando o internamento dos doentes. Esta situação manteve-se
até 1992, ano em que as religiosas deixaram de prestar serviço hospitalar. Em
1993, o Sanatório do Barro passou a ser designado de Hospital Dr. José Maria
Antunes Júnior, alargando a sua ação terapêutica ao tratamento de doenças da
área da pneumologia.
Encerrado e devoluto desde 2015, o edifício está a ser
restaurado e requalificado para
dar origem a campus na área da saúde que pretende ser “um
espaço de referência dedicado à prestação de cuidados assistenciais, à formação
de profissionais da saúde, ao ensino e à investigação em Medicina e em outras
Ciências Biomédicas”, de acordo com o protocolo assinado em 28 de Junho de 2019
entre a Câmara Municipal de Torres Vedras e a Faculdade de Medicina da
Universidade de Lisboa.
Ao contrário dos outros antigos conventos torrienses,
sobre os quais existem boas e actualizadas monografias, sobre o Convento do
Barro está por fazer um estudo actualizado sobre a sua longa história.
Sabe-se que, por informação existente no site da Torre do
Tombo que, em 1894, a documentação desse Convento “foi remetida pela Direcção
Geral dos Próprios Nacionais à Torre do Tombo” e que a sua documentação foi “sujeita
a tratamento arquivístico, no final da década de 1990, empreendido por técnicos
da Torre do Tombo e por investigadores externos” e que, em Outubro de 1998, “foi decidido abandonar a
arrumação geográfica por nome das localidades onde se situavam os conventos ou
mosteiros, para adoptar a agregação dos fundos por ordens religiosas”.
A documentação que se encontra instalada em maços foi
considerada como uma colecção ao nível da série, com a designação de
'Documentos vários', não tendo sido objecto de intervenção.
Este projecto deu origem à publicação da monografia designada 'Ordens monástico-conventuais: inventário', com a coordenação de José Mattoso e Maria do Carmo Jasmins Dias Farinha” (11).
(1) -
PACHECO, Luiz, “O País das uvas”, in Textos do Barro, ed. Contraponto [1984 ?],
obra dedicada ao Dr. José Maria Antunes jr.;
(2) -informação
de Helena Rodrigues no site da DGMN, em2005;
(3) -COSTA
CORDEIRO, P. António da Collegio do Barro Jubileu – 1860-1910 – Noticia
Historica da Sua Fundação e Ministerios até ao anno Presente. Ed. Braga 1910,
pág. 1;
(4) -ALMEIDA,
Fortunato de História da Igreja em Portugal, – Nova edição preparada e dirigida
por Damião Peres, Volume II, ed. Portucalense editora, Porto 1968, pp 182-183;
(5) -
MADEIRA TORRES, Manoel Agostinho, Descripção Historica e Economica da Villa e
Termo de Torres Vedras – Parte Histórica – 2ª edição anotada, Coimbra, Imprensa
da Universidade, 1862, pág. 143;
(6) –
MADEIRA TORRES pág. 144;
(7) –
COSTA CORDEIRO, ob.cit, pp.9 e 10;
(8) -
"A Vinha de Torres Vedras", 6
de Outubro de 1910;
(9) -
Livro de Correspondência Externa (do Administrador do Concelho),(1908-1912), nº
304 de 13 de Outubro de1910, AMTV;
(10)
- reportagem n’ “A Vinha de Torres Vedras” de
5 de Agosto 1915;
(11)
- informação recolhida no site do Arquivo Nacional da Torres do Tombo.

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