quarta-feira, 27 de julho de 2016

O Avião de Sanjurjo em Santa Cruz (19 e 20 de Julho de 1936)

(A fotografia em cima mostra o meu avô, António Ferreira Aspra, fotografado junto ao avião de Sanjurjo, no campo de aviação de Santa Cruz, fotografia que terá sido tirada a 19 ou 20 de Julho de 1936).
 
No dia 19 de Julho de 1936, Domingo, um avião pilotado por um ás da aviação espanhola, Juan Ansaldo, aterrava, semi-clandestinamente no campo de aviação de Santa Cruz.
 
Trazia uma missão, ir buscar a Cascais o General Sanjurjo para este comandar a sublevação iniciada dois dias antes em Marrocos contra o governo republicano de Madrid.
 
Esse episódio marcou a memória colectiva dos torrienses desse tempo, até pelo desfecho trágico desse voo.
 
No primeiro fim-de-semana do conflito, os “naciolalistas” estavam separados, ocupando Marrocos e as Canárias, o Sul à volta de Sevilha, cidade tomada pelo General Queipo de Llano, e o Norte (Galiza e Castela e Leão).
 
Estava-se no início da Guerra Civil de Espanha, que se prolongou até 1939 e que, lançando a Espanha num banho de sangue, é por muitos considerada um ensaio geral para a IIª Guerra Mundial.
 
Embora o líder máximo fosse o Genaral Mola, o objectivo era colocar rapidamente à frente dos nacionalistas um General mais prestigiado , o General Sanjurjo, que , no seu exilio português, em Cascais, acompanhava e era informado à distância sobre os acontecimentos.
 
Para isso Mola enviou a Portugal um herói da aviação espanhola, Juan Ansaldo, que partiu de Pamplona para Portugal no dia 19 de Julho chegando nesse mesmo dia ao "campo de aviação auxiliar de Santa Cruz, no limite ocidental da Europa" , que "acolhe docemente o avião", um "Pass Moth" com a matricula EC-VAA. (4).
 
Ao aterrar no campo de aviação de Santa Cruz era aguardado por dois automóveis, onde encontra um seu velho amigo, "Tavares", recebendo a notícia, que se confirma ser falsa, segundo a qual o general Sanjurjo já tinha partido para "Burgos a bordo de um avião francês".
 
Seguindo a narração de Ansaldo, este, tomando todas as precauções para abrigar o avião porque "não existia nesse aeródromo nenhum serviço de sobrevivência [apoio]" (pág.51), partiu de seguida para Lisboa, a caminho do Estoril, numa das viaturas que o aguardavam, confirmando, á sua chegada ao Estoril, que o general continuava nessa localidade.
 
Foi aí que se negociou uma saída airosa que não comprometesse o regime português face a um desfecho ainda imprevisível da situação em Espanhola, assim descrita por César de Oliveira:
 
 “Ansaldo vinha buscar Sanjurjo para o transportar para Burgos, a fim de que este assumisse a chefia do movimento militar. Chegado a Portugal, Ansaldo, com o apoio da PVDE e do ajudante de campo do Presidente da República portuguesa, iniciou a preparação da descolagem do avião em direcção a Burgos. No entanto, Oliveira Salazar fez saber aos emigrados espanhóis, por intermédio do capitão Agostinho Lourenço, director da polícia política, que “interditava o uso de aeródromos militares para a descolagem do avião mas que nada tinha a ver com o que se passava em aeródromos civis”. Em reuniões sucessivas no Estoril – e sempre com o ajudante de campo do Presidente Carmona a fazer as ligações entre os emigrados espanhóis e as autoridades portuguesas - chegou-se a uma solução satisfatória para o lder do Alzamento e que “cobria” eventuais complicações para o governo de Salazar: o avião iria de Santa Cruz para Alverca. Aeródromo militar a 20 Km de Lisboa, aí seria reabastecido e deslocaria normalmente como se o fizesse para Espanha; aterraria, depois, num campo improvisado nas imediações de Cascais e aí embarcaria o general e rumaria a Burgos” (2) .
 
Nessa noite do dia 19,  Ansaldo recebeu um telefonema que o inquietou: era uma chamada de Santa Cruz que o informava que "elementos comunistas andavam à volta do avião", apelando para que tomasse todas as providências para se evitar qualquer "sabotagem". Ansaldo ficou indignado com o facto de "tais elementos" serem deixados em liberdade pela ditadura portuguesa e mandou que guardassem o avião. Depois de vários telefonemas, Ansaldo recebeu finalmente a confirmação de que tudo tinha sido feito de acordo com as suas ordens para resguardar o aparelho (pág.53).
 
É neste ponto que a referência de Ansaldo à presença de gente da oposição (que ele designa como "comunistas", mas que podiam ser outros oposicionistas, como era o caso de dois elementos da maçonaria local que lá estiveram), se cruza com a tradição oral local,segundo a qual teria havido uma tentativa, em Santa Cruz, de sabotar o avião.
 
A aplicação da classificação de "comunistas" às pessoas da oposição ou desafectas ao regime era uma designação normal na propaganda da época, e que englobaria todos aqueles que se opunham ao regime.
 
Curiosamente o próprio Ansaldo, que mais tarde, tendo entrado em dissidência como regime franquista, foi obrigado a exilar-se, sendo no exilio que escreveu e editou as suas memórias , no prefácio da segunda edição da sua obra, se queixava do "regime franquista com a sua táctica, infelizmente hoje copiada por outros países, de chamar comunista a quem se recuse a ser seu escravo", tentando assim,  "caluniar o autor "(pág.9).
 
Segundo o testemunho de tradição oral que recolhemos, em “segundas àguas”, vários elementos da oposição republicana  local tinham estado em Santa Cruz a tentar sabotar o avião de Ansaldo. Para isso tentaram desviar as atenções dos elementos da GNR que guardavam o avião.
 
Uns levaram os elementos da GNR a "tomar um copo", enquanto outros, à volta do avião, momentâneamente sem vigilância, tentavam sabotar o avião, pulando sobre ele ou tentando danificar partes do avião.
 
Contudo, para grande surpresa dos "sabotadores" de Santa Cruz o avião acabaria por levantar voo, sem qualquer problema. Recorde-se aqui que a intenção manifestada pelos sabotadores, não era matar ninguém, mas apenas atrasar o voo e a saida de Sanjurjo do país.
 
Por isso terão ficado aterrorizados quando, horas mais tarde, souberam do acidente que matou o general Sanjurjo e guardaram segredo da sua actuação.
 
Entretanto continuamos a narração de Ansaldo:
 
Saindo do Estoril a caminho de Santa Cruz, refere que o"pior inimigo da navegação aérea apareceu nessa manhã de um 20 de Julho, meridional e quente: o nevoeiro. À medida que nos aproximávamos de Santa Cruz, ele tornava-se mais denso, escondendo o sol, tornando mesmo difícil avançar pela estrada. Das 10 horas da manhã às duas horas da tarde eu esperei furioso. De tempos a tempos, um pálido reflexo de sol brilhava no terreno e eu punha os motores em marcha; logo de seguida a neblina espalhava-se tão baixo que não nos conseguíamos ver uns aos outros. Telefonei várias vezes para o Estoril para explicar o que se passava; respondiam-me que o general me esperava com alguns amigos(...)".
 
Finalmente, por volta da uma hora e meia da tarde "como as condições atmosféricas íam de mal a pior, eu decidi adiar o voo" . Estando a almoçar, uma hora mais tarde "o nevoeiro dissipou-se. Com toda a pressa corri para o avião, pus o motor em marcha e descolei para Alverca".
 
 Acompanhou-o no voo um elemento da PVDE. Em Alverca tratou das formalidades e partiu, a meio da tarde para "a Marinha", o campo improvisado onde iria embarcar Sanjurjo.
 
Em Cascais, nesse dia 20 de Julho, já no início da tarde, o avião levantou voo , mas não conseguiu subir o suficiente, pelo que Ansaldo tentou regressar à pista, mas o avião acabou por se esmagar contra o solo, incendiando-se. O piloto foi cuspido e sobreviveu ao acidente, mas o general morreu logo no embate, ficando depois o seu corpo envolvido pelas chamas.
 
A edição do Diário de Lisboa de 21 de Julho descreve as explicações de Ansaldo sobre o acidente:
“Ao levantar voo, um forte torrão, dos que abundam no local, ou uma cova, causou a rotura da hélice. Senti que o aparelho ia afocinhar mas consegui manter a horisontalidade. A queda inevitável foi, assim, em pleno, de “barriga”. Gritei ao general que saísse do aparelho. Não me respondeu. Tentei ajuda-lo, mas não se movia. Julguei que havia perdido os sentidos, como eu depois os perdi ante a tragédia e os baldados esforços que fiz para a evitar. Mas não, o general estava morto. Quando as chamas o envolveram já estava insensível”.
 
O piloto desmentia assim a descrição feita por alguns observadores, que diziam ter visto o avião a cair na vertical, bem como a ideia, que continuou muito divulgada, segundo a qual o general tinha morrido queimado. Como revelou nessa mesma reportagem o marquês de Quintana,que observou o cadáver do general , este apresentava uma “ferida profunda, em cruz, que deve ter sido produzida por um ferro do aparelho, no momento da queda e que lhe deu morte imediata”. (5).
 
Logo correram rumores sobre a hipótese de um atentado, inicialmente atribuído aos republicanos portugueses, mais tarde, e perante o desenrolar dos acontecimentos em Espanha, atribuído a Franco, já que foi este que acabou por beneficiar com a morte de Sanjurjo (6), sucedendo-lhe na liderança dos nacionalistas, rumor que ganhou maior peso quando, no ano seguinte, também o general Mola morreu noutro acidente de avião mal esclarecido.
 
Contudo, em termos oficiais, e com base no testemunho do piloto, o acidente foi atribuído ao excesso de carga e às más condições da pista de Cascais.
 
A tese de atentado foi descartada pelo próprio piloto, apontando outras razões para o mesmo: as más condições da pista da Marinha, o tempo que obrigou a levantar na direcção mais difícil e o excesso de carga com as malas que o general Sanjujo quis levar.
 
Técnicamente o avião não conseguiu ganhar velocidade suficiente para sobrevoar as árvores que se encontravam no final da pista e a hélice falhou e partiu-se, não se sabe por ter embatido numa árvore se por qualquer problema técnico.
 
Geralmente um acidente acontece porque se combinam vários factores. Os "sabotadores" de Santa Cruz, a ser verdade a tradição oral, não foram os responsáveis directos por qualquer falha técnica, mas nunca se virá a saber se contribuiram para potenciar as dificuldades técnicas que levaram o avião a não conseguir ganhar altitude no voo fatal.
 
Mais do que certezas, a história que aqui se conta continua envolta em mistério e duvidas, as quais provávelmente, nunca virão a ser cabalmente esclarecidas.
 
Especula-se muito com o que teria acontecido se o general Sanjurjo tivesse chegado vivo a Espanha.
 
Uma das consequências seria o facto de o General Franco não aceder tão fácilmente à liderança do movimeto nacionalista.
 
Depois, se fosse o general Sanjurjo a liderar a Espanha durante a segunda Guerra mundial talvez  a posição da Espanha no conflito tivesse sido diferente, já que se conhece a maior simpatia de Sanjurjo por Hitler, maior do que aquela que era nutrida por Franco.
 
Mais do que certezas, a história que aqui se conta continua envolta em mistério e duvidas, as quais provávelmente, nunca virão a ser cabalmente esclarecidas.
NOTAS:
(1) – ORNELLAS, Carlos d’ , “Por Espanha – Crónica de viagem”, in Gazeta dos Caminhos de Ferro, nº 1552, Lisboa, 16 de Agosto de 1952, pp. 227-228, edição disponibilizada na internet, no site da Hemeroteca de Lisboa;
(2) – OLIVEIRA, César, Salazar e a Guerra Civil de Espanha, ed. O Jornal, Lisboa 1987, pp.141-142;
(3) ANSALDO, Juan Antonio, Mémoires d'un Monarchiste Esoagnol , 1931-1952 (tradução de Jean Viet), Mónaco, Éditions du Rocher, 1953. (Trata-se da tradução do seu primeiro livro de memórias publicado originalmente em espanhol em Buenos Aires, pela editora Vasca Ekin).Nesse livro as paginas 50 a 57 são dedicadas à sua malograda viagem a Portugal, falando da sua passagem por Santa Cruz.
(4) Site  Aeropinakes / La máquina de la civilización, dedicado à história da aviação na Guerra Civil de Espanha.Também no site "Registro de aviones comerciales en Espana" - http://www.sbhac.net/Republica/Fuerzas/FARE/Materiales/Registro.htm , onde se pode ler o seguinte registo: "EC-VAA -  DH.80A Puss Moth 2246 G-ACBL EC-W18 EC-VAA Teodoro Martel Olivares > Francisco Moreno 27.01.34 Written off Cascais 20.07.36 Canc 12.11.40 EC-VAV” .
(5)  Diário de Lisboa, edição de 21 de Julho de 1936, edição disponibilizada na internet, no site da Fundação Mário Soares.
(6) É esta a tese escolhida no recentemente editado romance histórico “O Nosso Homem no Estoril” que defende que o avião teria sido sabotado, não em Santa Cruz, mas durante a sua escala em Alverca.
 
Podem ver mais sobre o tema AQUI.
(um resumo deste texto foi publicado no jornal Badaladas no passado dia 22 de Julho de 2016).

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Torrienses assistem à final do Euro no Parque da Vérzea

Imagens obtidas ontem, antes do ínicio do jogo e da festa que se seguiu, junto ao écran gigante instalado no Parque da Várzea:





 

segunda-feira, 27 de junho de 2016

1955 /1956 – Recordar os anos de glória do “Torreense”


Há 60 anos atrás o “Torreense” viveu um momento de grande euforia, iniciado em Maio de 1955, com a primeira subida do clube à “primeira divisão” nacional de futebol, e que atingiu o seu auge como finalista da Taça de Portugal em Maio de 1956.
Após duas épocas em que esteve à beira de subir de divisão, finalmente o sonho concretizou-se em Maio de 1955.
 
(equipa vencedora da 2ª Divisão na época de 1954/1955)
Não se pense, contudo, que as coisas foram fáceis. A duas jornadas do fim da fase final da zona sul da 2ª divisão, o Torrense encontrava-se mais uma vez em segundo lugar, depois de, na jornada anterior, ter sido derrotado pelo seu rival de sempre , o “Caldas”.
 
Mas nessa jornada o Torreense conseguiu derrotar outro forte concorrente à liderança, o Oriental, batendo-o por 3-1, e,  beneficiando da escorregadela do Caldas contra o Montijo, chegou à última jornada na liderança.
Na véspera dessa jornada, marcada par Domingo dia 29 de Maio, o jornal “Diário Popular”, num artigo justamente intitulado “Na Derradeira Jornada os três primeiros lugares por decidir”, descrevia o que estava em jogo:
“Este Campeonato Nacional da II ª Divisão parece destinado a resolver-se nos últimos minutos. Quando tudo parecia resolvido com o Caldas S.C na Iª Divisão [depois de ter derrotado o Torreense], a jornada de domingo [passado] deu uma volta à classificação (…).
“Em vésperas da última jornada, três clubes estão interessados nos dois primeiros lugares: Torreense, Caldas S.C e Oriental (…).
 
“A partida do dia é jogada em Santarém, onde os “Leões” recebem o Torreense que entra em campo…na Iª Divisão” (1).
Apesar da pressão,  e do facto de jogar fora, o Torreense conseguiu vencer os “Leões” de Santarém por duas bolas a zero, golos marcados, respectivamente, por Carlos Alberto, aos 30 minutos da primeira parte, e por Mendonça, aos 35 minutos da segunda parte(2).
Com essa vitória o Torreense alcançava o primeiro lugar e o acesso directo à 1ª Divisão, facto até então inédito na sua história.
(Página do Diário Popular de 29 de Maio de 1955)
Assim que se soube em Torres Vedras da vitória em Santarém, de imediato o entusiasmo apossou-se das ruas da antão vila:
“Nas janelas surgiram, num ápice, colchas e colgaduras, enquanto nas ruas já mal se pode romper – que as dezenas de camionetas e automóveis regressados de Santarém ou provenientes de localidades do concelho despejavam, quase sem cessar, gente e mais gente, que parecia tomada de loucura colectiva e desfilava de um lado para o outro atrás de charangas surgidas não se sabe donde…
“Nos “cafés” e nas tabernas as “rodadas” sucediam-se para “lubrificar” as gargantas enrouquecidas de tanto gritar, enquanto se aguardava a chegada dos “heróis” da jornada (…).
“Finalmente, incorporados num cortejo automóvel, com 5 quilómetros (!) de extensão e no qual figuravam 400 veículos, surgiram na vila os jogadores do Torreense empoleirados numa furgoneta descoberta sobre a qual se destacou uma grande bandeira da colectividade. Então é que foi o “fim do mundo” (…) no ar rebentavam mais foguetes e morteiros (…) sendo, às tantas, os “ídolos” sacados em ombros até à sede da Associação de Educação Física e Desportiva, onde se improvisou uma sessão de recepção.
“Usou da palavra o presidente do Torreense, Dr. José António Neiva Vieira (…) encerrando-se a sessão com o hino da vila, executado pela banda dos Bombeiros locais (…)” (3).
(reportagem do jornal "Diário Popular" de 29 de Maio de 1955 sobre os festejos em Torres Vedras pela subida do Torreense à 1ª Divisão)
 
Os festejos continuaram por toda a semana, destacando-se uma “marcha luminosa” de 3 mil balões no dia seguinte e as danças nas ruas “em animados bailaricos”.
Chegou mesmo a anunciar-se um jogo comemorativo com o Celta de Vigo (4), o qual, pelo que sabemos, não se chegou a efectuar.
Treinada por um argentino, Oscar Tellechea, a equipa contou com alguns jogadores argentino no seu plantel, os médios Juan Forneri e Américo Belen.
O plantel, para disputar o campeonato, contou com 23 jogadores, os guarda-redes Serrano e António Gama, os defesas António Augusto, Mergulho, Amílcar Silva e Joaquim Fernandes, os médios Aragão, António Bernardes, Forneri, António Manuel, Carapinha, Inácio (angolano), José da Costa, Belen e Carlos Alberto, e os avançados Martins, Pina, Fernando Mendonça, João Morais, Rui André, Matos, José Gonçalves e João Mendonça (5).
O Torreense estreou-se na 1ª Divisão com três vitórias consecutivas, respectivamente sobre o Lusitano de Évora, por 2-0, o Sporting, batido surpreendentemente por 1-0 em Alvalade e a Académica, por 2-0. No final da 1ª jornada da época o Torreense estava na 4ª posição do campeonato. A segunda época não correu tão bem, mas mesmo assim conseguiu terminar o campeonato na 7ª posição, com 22 pontos, 7 vitórias, 8 empates e 11 derrotas.
O campeonato desse ano foi vencido pelo Futebol Clube do Porto, que quebrou nessa época um jejum de 15 anos sem ganhar um campeonato.
 
(Equipa do Torreense que disputou o campeonato da 1ª Divisão na época de 1955/1956)
 
A balizar esta época de glória, a equipa de Torres Vedras acabou por voltar a surpreender, chegando ao final da Taça de Portugal.
Os jogos da Taça realizavam-se numa curta jornada de eliminação , ao longo do mês de Maio.
Depois de eliminar o Desportivo de Beja nos dezasseis avos de final, canhou-lhe pela frente o poderoso Sporting, mas, a jogar em casa, para surpresa de muitos, o Torreense conseguiu eliminar a equipa de Alvalade com um golo isolado, na segunda parte, aos 12 minutos, na sequência de um livre marcado por Carlos Alberto que “endossou a bola a  Forneri que, com um golpe de cabeça fez a bola entrar na baliza de Carlos Gomes”(6).
Nos quartos de final canhou o Braga, e, pela terceira vez, o Torreense jogava em casa. Com um empate a zero golos no final da primeira parte, foi mais uma vez no segundo tempo que a equipa da casa acabou por vencer, por 2-0, golos marcados por Frernando Mendonça da mesma maneira, na sequência de “um centro de José da Costa” (7).
O Torreense chegava assim às meias finais e encontrou pela frente outra equipa, então das mais poderosas, o Belenenses, que terminara o campeonato na terceira posição, com a agravante de ter calhado em sorteio que o jogo se disputasse na “tapadinha”, em Lisboa.
 
(1ª página do Diário Popular de 20 de Maio de 1956, anunciando os finalistas da Taça de Portugal)
 
O jogo foi um dos mais emocionantes da taça, com um empate a uma bola no final da primeira parte e um empate a duas bolas, conseguido por Fernando Mendonça, ao 43 minutos, obrigando ao prolongamento.
A dois minutos do final do prolongamento Gonçalves marcou o golo que o colocou o Torreense na final:
“A vitória do Torreense aceita-se bem, até porque foi a equipa que menos se ressentiu na altura decisiva “ (8).
Um ano depois de ascender pela primeira vez à primeira divisão, o Torreense garantia a presença na final da Taça de Portugal, onde ía enfrentar o vencedor do campeonato, o Futebol Clube do Porto.
O “Diário de Lisboa” anunciava que na final, disputada no dia 27 de Maio de 1956 a partir das 17 horas, e arbitrada por  Hermínio Soares, iam estar “duas equipas a lutar de igual para igual”, desmentindo a idéia de um embate entre Davis e Golias. (9).
Disputada no Jamor, o Porto marcou logo no ínicio, aos 3 minutos, numa jogara fortuita, mas o Torreense bateu-se sempre de igual para igual, tendo, por várias vezes, estado à beira de igualar a partida.
O Porto só conseguiu consolidar a vitória no segundo tempo, através da marcação, aos 12 minutos, de uma grande penalidade, muito duvidosa e contestada. Num violento ataque à arbitragem do jogo, o jornal “República” referiu que não se descortinou “a mais leve falta”, opinião dada por outros órgãos de imprensa da época. Mas mesmo a perder por essa diferença, o Torreense bateu-se até ao último minuto, falhando desafortunadamente várias oportunidades de golo.
Longe “de se entregarem os torreenses imediatamente desceram no meio campo do adversário”, insistindo o Torreense nas jogadas de ataque, falhando várias oportunidades de golo, perdendo “golos em série” (10).
A imprensa da época elogiou a atitude dos jogadores do Torreense: “À turma torreense deve ter causado espanto, primeiro a impressão, a rondar pela má sina; depois, o facto de nas primeiras jogadas do encontro não ter marcado, como merecia, dado a boa urdidura de dois ou três lances, traídos somente pelo golpe final.
“(…) O Torreense, com a sua presença na “final”, em que compareceu por mérito próprio (…) não ficou diminuído” (11).
A desforra com o Porto surgiu quase cinquenta anos depois, no dia 16 de Fevereiro de 1999, quando, à 5ª eliminatória da taça, a jogar no estádio das Antes, frente a um poderoso Porto, então liderado por Fernando Santos, o Torreense marcou um golo isolado, a cinco minutos do fim, eliminando o Porto. A data coincidiu com a terça feira de Carnaval, e a festa prolongou-se por vários dias.
Nunca o Torreense voltou a viver momentos de tanta euforia como nesse período entre 1955 e 1956.
Claro que ainda se conseguiu manter na Primeira divisão por mais duas épocas, voltando a descer de divisão no final da época de 1958/59, regressando à divisão maior efemeramente na época de 1964/1965. Foi necessário esperar mais de trinta anos para voltar a estar entre os primeiros na época de 1991/1992.
Na taça de Portugal nunca voltou a repetir a façanha, apesar de ter chegado aos quartos de final na época de 1983/1984 (12).
 
Mas estas são outras histórias que, em boa hora, têm vindo a ser regularmente recordada nas páginas do jornal “Badaladas” por Rui Santos, quando nos aproximamos, em Maio de 2017, do primeiro centenário do clube de Torres Vedras.
(1)    Diário Popular, 28 de Maio de 1955;
(2)    Diário Poular,30 de Maios de 1955;
(3)    Diário Popular, 30 de Maios de 1955;
(4)    Diário Popular, 31 de Maio de 1955;
(5)    Site www.zerozero.pt;
(6)    Diário Popular, 6 de Maio de 1956;
(7)    Diário Popular,13 de Maios de 1956;
(8)    República, 21 de Maio de 1956;
(9)    Diário de Lisboa, 26 de Maio de 1956;
(10)Diário Popular, 27 de Maios de 1956;
(11)República, 28 de Maio de 1956;
(12)MATOS, Vivian e Sandra, Passado Presente (monografia sobre o SCUT), ed. 1998.
(nota: uma versão resumida deste texto foi publicada nas páginas do jornal "Badaladas" de 17 de Junho de 2016)

segunda-feira, 20 de junho de 2016

"4242", Uma curta-metragem torriense premiada, agora a concurso nos Estados Unidos





"4242"é uma curta-metragem realizada por uma jovem torriense, Sara Eustáquio, de 16 anos, que conquistou o prémio especial do júri de revelação no Festival Internacional de Cinema Near Nazarteth, em Israel.
 
O filme conta também com a interpretação de uma jovem actiz romena de 18 anos, a residir no Sobral de Monte Agraço.
 
Ambas são alunas de artes na Escola Secundária Henriques Nogueira de Torres Vedras (uma escola pública).
 
O filme está a concurso noutro festivais e tem sido muito elogiado na imprensa especializada, um pouco por todo o lado.
 
O filme "retrata os sentimentos contraditórios de uma adolescente que chega a um novo país como emigrante (...) onde tem de lidar com uma mudança que acaba por ser muito mais difícil do que ela pensa" e que é também "uma metáfora sobre a solidão  e as angustias  dos adolescentes na transição para a vida adulta".
 
Esta curta metragem foi rodada em Torres Vedras, Óbidos, Peniche e Lisboa
 

quinta-feira, 16 de junho de 2016

O Cinema ao Ar Livre regressa a Torres Vedras, nos próximos dias 17 e 18 (sexta e Sábado)

É já amanhã que a iniciativa "Café com Filmes" vai exibir uma sessão de cinema ao ar livre, cinema mudo acompanhado musicalmente por Charlie Mancini
 

 
Charlie Mancini vai acompanhar os clássicos do cinema mudo  “Viagem à Lua”, de Georges Méliés, de 1902,  e “As Sete Ocasiões de Pamplinas” de 1925.
 
A sessão terá início às 21.45 e termina pelas 23 horas, no parque de estacionamento do Teatro Cine Ferreira da Silva e é de entrada livre.
 
No sábado seguinte, dia 18, vai realizar-se outra sessão ao ar livre,desta vez no Parque do Choupal, sob a designação de "Le plein de Super – Festival Itinerante de Curtas-Metragens", com inicio igualmente pelas 21.45.
 
 
Segundo a organização ""Le plein de Super" é um festival de cinema itinerante, dedicado à difusão de curtas metragens. (...).
 
"Os filmes são projetados no ecrã encostado à parte lateral do autocarro. Cada sessão dura aproximadamente uma hora. São exibidos cerca de 7-8 filmes sem diálogo. A seleção é mundial.
 
"No final de cada sessão, os espetadores podem escolher um filme/artista de que gostaram mais e escrever-lhe um postal.
 
"Le plein de Super" é uma estrutura nómada de difusão que pretende ir ao encontro do público e proporcionar um momento de convívio, antes, durante e depois da projeção".
 
Podem saber mais sobre essas iniciativas AQUI e AQUI.


quarta-feira, 8 de junho de 2016

Clic, on the rocks, a primeira publicação torriense totalmente virtual

Nasceu em Maio a primeira revista totalmente on-line feita em Torres Vedras.
 
Podem consultar os dois primeiros números já editados, clicando AQUI.


 

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Renato Valente : Torres Vedras perde um cidadão exemplar.

Na passada semana Torres Vedras despediu-se de mais um torriense de mérito, Renato Valente.
 
Não tendo nascido em Torres Vedras, aqui se estabeleceu no início da sua longa vida profissional, como técnico de farmácia, destacando-se rapidamente pelo seu dinamismo ao serviço da região.
 
Nasceu em Évora em 1930 e veio para Torres Vedras na década de 50, depois de uma curta passagem por Caldas da Rainha, para inaugurar a farmácia Torreense de José Perdigão.
 
O seu dinamismo e entusiasmo cedo o levaram  a colaborar activamente no associativismo torriense.
 
Nos mais de 60 anos que viveu em Torres Vedras não houve praticamente associação cultural, desportiva ou social deste concelho que não tivesse beneficiado do seu dinamismo, das suas idéia e apoio.
 
Do "Torrense" aos "Bombeiros", passando pela "Tuna", pela "Física", pelo "Sporting de Torres" ou, mais recentemente, pelos "Os Paulenses", entre tantas outras, todas foram beneméritas de Renato Valente.
 
Foi ainda responsável pelo êxito e dinamismo de eventos como o Carnaval de Torres, a Feira de S. Pedro ou a Festa das Vindimas.
 
Como empresário de sucesso, sempre partilhou as suas capacidades financeiras, exercendo um cada vez mais raro "mecenato" desinteressado para apoiar hospitais, escolas (entre elas a "minha" Escola Secundária Henriques Nogueira) e muitos projectos.
 
Recentemente ligou-se muito a Cabo Verde, onde apoiou vários projectos educativos e solidários.
 
A sua calma e o seu bom senso muito contribuíram para o êxito das iniciativas em que se envolveu.
 
Conversar com ele, como fizemos frequentemente, era sempre motivante e, quase até ao fim, continuava sempre a idealizar projectos para beneficiar Torres Vedras e as pessoas que ele podia ajudar.
 
Dizer que Renato Valente vai fazer falta a esta cidade não é um mero lugar comum que se costuma dizer nestas ocasiões, é mesmo uma triste constatação.
 
Como torriense  e amigo, aqui fica um agradecimento pelo privilégio de o ter conhecido.
 
AQUI podem consulta uma das raras entrevistas que concedeu e onde nos conta, na primeira pessoa, alguns aspectos da sua vida.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Foi Há 575 anos : As Cortes de Torres Vedras de Abril e Maio de 1441

(representação da localização dos representantes em cortes. Os procuradores de Torres Vedras sentavam-se no 7º "banco")

Em 1441 o regente D. Pedro convocou aquelas que foram as únicas cortes realizadas em Torres Vedras, que terão tido lugar de 25 de Abril a 24 de Maio desse ano (1).

Alguns historiadores referem que essas cortes foram convocadas em Fevereiro desse ano. Contudo o único documento conhecida, convocando-as, data de 14 de Março de 1441.

Trata-se da convocatória enviada ao concelho de Coimbra, emitida pelo infante regente em Lamego, onde se marcaram as cortes para 25 de Abril, mas sem especificar o local da sua realização (2) .

D.Pedro tinha-se tornado regente, após a morte do irmão D. Duarte, por decisão das Cortes de Lisboa de 1439.

Sem certezas, Torres Vedras, como terra da rainha, terá tomado o partido desta, que se opunha àquela regência. Esse foi o caso de Sintra e é provável que tivesse acontecido noutras localidades como a torriense.

Naquelas cortes de Lisboa ordenou-se que na vila se Sintra “como nas restantes terras da rainha D. Leonor [que incluiria Torres Vedras] se cumpram os mandados régios e do infante D. Pedro”(3).

Afirma Veríssimo Serrão que Sintra, Alenquer e Óbidos acabaram por obedecer ao infante D. Pedro, “cujo poder, desde início de 1440, não oferecia dúvidas”, o que, por exclusão de partes, pode dar a entender que Torres Vedras, ou já não obedecia à rainha desde o principio ou, pelo contrário, continuava a não obedecer ao regente. Fica a dúvida por esclarecer (4).

A realização das cortes em Torres Vedras parece ter sido casual, já que na convocatória conhecida, a do concelho de Coimbra, não se marcou o lugar das cortes, devendo estas realizar-se “onde quer que estevermos” (5).

E de facto o regente D. Pedro “estava” em Torres Vedras, pelo menos desde 22 de Abril, e aqui se manteve, pelo menos até depois do encerramento das cortes, ainda em 29 de Maio, assim o revelam a origem dos documentos por ele assinados (6).

Não chegaram até nós os capítulos gerais dessas cortes, apenas os capítulos especiais apresentados pelos procuradores de alguns concelhos. Estes pretendiam a recuperação de determinados privilégios fiscais, administrativos e militares, perdidos ou violados, e a abolição de outros conferidos em prejuízo da organização interna dos municípios, durante os dois reinados anteriores, apresentando ainda várias queixas contra funcionários régios, militares, fiscais de justiça ou administrativos e nobres do termo(7).

Vários outros capítulos dessas cortes revelam as dificuldades financeiras do regente, tendo-se votado um pedido que visava fins militares, com o objectivo de enfrentar a reacção dos partidários da rainha viúva, D. Leonor, que contestavam a regência do infante D. Pedro por menoridade de D. Afonso V.

Afirmam alguns historiadores que nestas cortes de Torres Vedras se terá decidido o casamento de Dª Isabel, filha de D. Pedro , com D. Afonso V .

Quanto aos participantes nessas cortes, além “da participação das delegações de cujos concelhos há capítulos especiais (…), apenas se sabe que estiveram presentes “procuradores das cidades e vilas”, referindo o cronista Rui de Pina, para além destas, a “presença das “pessoas principais do reino” (8).

Os concelhos com capítulos especiais nessas cortes foram Porto, Coimbra, Évora, Guarda, Lamego, Santarém, Lisboa e Viseu, para além do reino do Algarve (9).

O movimento das grandes figuras políticas da época não terá passado despercebido à população torriense, alguma ainda recordada de azáfama idêntica, menos de 30 anos antes, por ocasião do célebre conselho régio onde se decidiu a conquista de Ceuta.

Podemos especular que, a receber os ilustres participantes, terá estado o alcaide de Torres Vedras, Martim Afonso de Miranda, que exerceu esse cargo entre 1434 e 1470, os vereadores desse ano, Álvaro Rodrigues, Salvador Martins e Fernão Vaz e o procurador do concelho, o escudeiro “Mestre Diogo” , que deve ter participado nessas cortes (10).

O impacto na sociedade e na economia local da presença das personalidades que participaram nessas cortes, bem como o lugar (ou lugares) da sua realização,  são um tema não esclarecido e a merecer mais investigação, pois a hospedagem e a alimentação dessa gente terá tido impacto na economia e na vivência da vila de Torres Vedras.

Durante cerca de um mês Torres Vedras foi o centro da vida política do reino, numa época marcada pelo início da expansão e por uma complicada situação política, que culminaria numa curta guerra civil e na morte, ainda hoje mal esclarecida, de D. Pedro na Batalha de Alfarrobeira em 1449.

(1)    Monumenta Henricina, vol. II, ed. Coimbra 1965, p. 222, nota 3 ao doc. 141.

(2)    SOUSA, Armindo de , As Cortes Medievais Portuguesas (1385-1490), vol.I, ed. Instituto Nacional de Investigação Científica, Porto 1990, pág.360.

(3)    Monumenta Henricina vol VII, p. 28, doc. 19.

(4)    SERRÃO, Veríssimo, História de Portugal, Vol II, p.58.

(5)    SOUSA, ob.cit, pág.360.

(6)    AZEVEDO, Pedro, Documentos da Chancelarias Reais, Anteriores a 1531, Relativos a Marrocos, Tomo 1 – 1415-1450, Academia de Sciencias de Lisboa, 1915.

(7)    RODRIGUES, Maria Teresa Campos [M.T.C.R], “Torres Vedras, cortes de 1441”, in Dicionário de História de Portugal, Vol. VI, ed. Livraria Figueirinhas, Porto, pp.179-180.

(8)    SOUSA, ob.cit, pág.361.

(9)    SILVA, Carlos Guardado,”As Cortes de 1441, em Torres Vedras”, in Torres Vedras Antiga e Medieval, edições Colibri/CMTV,2008, pp.127 e 128.


(10)RODRIGUES, Ana Maria, Torres Vedras – A Vila e o Termo nos Finais da Idade Média, Fundação Gulbenkian/INICT, 1994, pp. 605 a 613.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Programa Comemorativo do 25 e Abril em Torres Vedras

o Programa das actividades comemorativas do 25 de Abril pode ser consultado AQUI.
Sobre o 25 de Abril em Torres Vedras, podem ver AQUI.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

PEDRO CLAUDIO, um grande fotógrafo, e, acima de tudo um torriense que deixa saudades.

Conheci o Pedro no início do seu percurso, sempre simpático e simples.

Era acima de tudo um grande fotógrafo, muito ligado à fotografia de moda.

Torres Vedras, aliás, tem sido berço de grandes fotógrafos com Nanã Sousa Dias, Adriana Lousada ou o Pedro Cláudio.

Por triste fatalidade o Pedro, o mais novo dos três, é o primeiro a deixar-nos trágicamente.

Não o via há muitos anos mas ía tendo notícias regulares do seu trabalho, quer por os ver publicados, quer pela sua irmã, a quem manifestamos aqui o nosso pesar.

A criatividade de Pedro Cláudio vai fazer-nos falta.

(ler mais AQUI)

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Damas Antunes lança uma nova obra sobre a história torriense

José Damas Antunes é o autor da obra "Os Expostos da Roda de Lisboa - Percursos de vida na Lourinhã e em Torres Vedras - séc. XVII-XIX.

Editada pela Colibri, esta obra é fundamental para o conhecimento da sociedade torriense na transição do "Antigo Regime" para a "Época Contemporânea".

Este valioso contributo para a história local vai ser lançado em sessão pública que se realiza no Auditório Municipal da AV. 5 de Outubro, no próximo Sábado, 9 de Abril, pelas 15.30, com a presença do autor.



quinta-feira, 17 de março de 2016

A Propósito de uma edição actualizada do Foral Manuelino de Torres Vedras, aqui recordamos Torres Vedras no Tempo de D. Manuel

A propósito do próximo lançamento no próximo Sábado 19 de Março (pelas 16 horas no auditório dos Paços do Concelho, AQUI) de uma reedição e estudo sobre o foral manuelino de Torres Vedras, da autoria de Carlos Guardado Silva e José Manuel Vargas, aqui deixamos o que escrevemos sobre a relação de D. Manuel com Torres Vedras, um texto algo datado, escrito por volta de 1989, inédito, mas que esteve par incluir a monografia local lançada por essa altura, obra colectiva na qual participei.

Na certeza que  aquela nova obra de história local vai acrescentar, rever e desactualizar profundamente aquilo que então escrevi, um texto meramente de síntese e divulgação, aqui deixo, como memória, com poucas alterações, esse texto:



D. Manuel e Torres Vedras – Nos Tempos da “Misericórdia”.

Alguns historiadores apontam que,com a subida de D. Manuel ao poder, em 1495, se deu o declínio do poder concelhio, patente na promulgação de “forais novos”. Estes novos forais resumem praticamente a autonomia dos concelhos à mera cobrança de direitos reais, rega a que o novo foral de Torres Vedras, doado em 1 de Junho de 1510, não fugiu.

De referir, no foral manuelino de Torres Vedras,  o destaque da produção de vinho, como se revela pela importância dada ao relego real, cuja venda tinha lugar privilegiado nos três primeiros meses do ano e cujo desrespeito motivava algumas das mais pesadas penas estabelecidas nesse foral, demonstrando a importância e o valor que o vinho da região começava a ter.

Onze anos antes, tinha-se iniciado a perseguição aos judeus do concelho que até essa data aqui gozavam de grande prestígio.

Durante aquele reinado Torres Vedras foi o centro do país quando, em 1496, o monarca aqui permaneceu por três meses (Agosto, Setembro e Outubro), ocasião em que recebeu uma importante embaixada  da República de Veneza.

O mesmo monarca mandou realizar obras no castelo em 1516, documentadas nas ainda hoje visíveis armas manuelinas esculpidas sobre o portal daquele reduto.

Muitas outras obras em igrejas e públicas  têm sido registadas neste concelho como datando do seu reinado.

Datam também do final do seu reinado duas importantes decisões que muito contribuíram para o desenvolvimento social e cultural do concelho.

Uma delas foi a publicação do alvará, datado de 22 de Setembro de 1521, confirmado em reinados sucessivos, fazendo “mercê aos mosteiros de Santo Agostinho, a saber, ao convento da Graça de Lisboa, a Évora, a Santarém, a TORRES VEDRAS, a PENAFIRME [sublinhado nosso] (…) de 6 arrobas de açúcar anuais a cada um dos conventos, pago no Almoxarifado do um por cento, a obras pias (…)”, beneficiando assim os conventos locais com os lucros da expansão, o que talvez possa ter contribuído para criara as condições económicas para a refundação do novo convento da Graça, projecto iniciado no reinado seguinte, em 1544.

Outra medida, tomada um ano antes, por alvará de 26 de Julho de 1520, revelou-se a mais marcante iniciativa tomada localmente pelo monarca.

Referimo-nos à fundação da Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras, iniciativa enquadrada na continuidade da acção da rainha viúva D. Leonor que criou em 1498, em Lisboa, a Confraria de Nossa Senhora da Misericórdia.

A sede torriense dessa instituição foi instalada no Hospital do Santo Espírito, que já possuía os bens do Hospital de Santa Maria dos Farpados e do Hospital do Mostardeiro, juntando-se então a esses, os bens da Confraria das Ovelhas Pobres e os do Hospital de S. Gião, ou Confraria dos Sapateiros, aos quais se juntariam outros bens ao longo dos séculos.

A Misericórdia de Torres Vedras  começou a sua vida “com duas salas para ambos os sexos  e uma capela, e segundo Madeira Torres, com um rendimento de : 6 moios de trigo, 3 de cevada, 36 almudes de vinho, 3 potes de azeite, 56 galinhas e frangos, um carneiro, 13.888 réis em dinheiro e 2 óvos, além dos sobejos de todos os outros Hospitais e Albergarias.

“Além destes rendimentos, estava a Santa Casa autorizada a ter Mamposteiros ou arrecadadores d’esmola em todas as freguesias do arciprestado, encarregados de pedirem para ela” (1).

Ficam aqui algumas das iniciativas locais que marcaram o reinado de D. Manuel I, iniciado em 1495 e que terminou com o seu falecimento em 13 de Dezembro de 1521.

(1)    CALADO, Rafael Salinas, Origens e Vida da Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras, ed. 1936, pág.6.


terça-feira, 8 de março de 2016

A VIDA TORRIENSE NOS FINAIS DO SÉCULO XIX, nos caracteres da imprensa local (1885-1890) – 14 e 15.


14 - FEVEREIRO DE 1886

O principio do mês começa com o anuncio da chegada das andorinhas, avistadas pela primeira vez na vila no dia 19, “doces mensageiras da primavera” (JTV, 25-2-1886).

A vida cultural da vila também se animou nesse mês com a presença de um teatro infantil:

“O popular empresário mr. Dallot, bem conhecido em Belem e na feira das Amoreiras, improvisou no largo da Graça um teatro espaçoso e com certas comodidades, onde no dia 30 [de Janeiro] se inauguraram os espectáculos com a opera cómica “o traga bullas” e a comédia “os milagres de Santo António” que conheceu “enchentes sucessivas”(JTV, 4-2-1886).

A presença desse teatro ambulante veio animar a discussão sobre a idéia e necessidade de se construir em Torres Vedras um teatro local fixo.

No mês de Fevereiro a imprensa publica alguns dados estatísticos relativos ao ano anterior:

“No anno de 1885, abateram-se no matadouro d’esta villa 952 rezes bovinas, 213 porcos e 916 carneiros” .

Na mesma edição divulga-se o movimento da prisão da vila nos anos anteriores:

Em 31 de Dezembro de 1884 estavam presos 14 homens e 4 mulheres aos quais se juntaram, no ano findo de 1885, “130 homens e 7 mulheres”, número a que talvez não seja estranho o grande número de trabalhadores que afluíram ao concelho para a construção do caminho-de-ferro, foco de muitos conflitos registados ao longo do ano anterior nas páginas do mesmo jornal (JTV .11-2-1886).


15 - MARÇO de 1886

Durante o mês de Março desse na de 1886 os trabalhos do caminho-de-ferro foram interrompido por causa do mau tempo que então de fez sentir (JTV, 18-3-1886).

O Carnaval tinha tido lugar no início desse mês, mas os seus festejos não passaram d algumas festas particulares ou do desfile de grupos de mascarados pelas ruas:

“No domingo [7 de Março] appareceu uma mascarada notável, representando um bom typo da localidade, victima permanente do Deos cupido, aos…sessenta e tantos annos de idade. A imitação do rosto, do traje, da maneira de andar e até da falla era perfeita(..).

“Saiu também em carro descoberto uma bem vestida mascarada politica, representando vários vultos notáveis da política indígena.

“Na terça feira [9 de Março] percorreu as ruas da villa uma Estudantina de emigrantes  hespanhoes, vestidos muito bem a caracter. De tarde , apareceu um carro de mascarados com engraçados costumes.

“Tiradas estas quatro exhibições, o resto foi de uma semsaboria atroz, como é costume aqui e em toda a parte”, registando ainda uma “soirée de terça” em casa entre amigos (JTV, 11-3-1886).

Março foi também mês da Procissão do Senhor dos Passos, acontecimento marcante para a população local de então e descrita pelo ”Jornal de Torres Vedras”:

“Na passada quinta-feira [25 de Março] depois das 9 horas da noite, a devota imagem do Senhor dos Passos foi conduzida processionalmente com grande  acompanhamento de irmãos da Igreja da Graça para a colegiada de S. Pedro, aonde no dia seguinte houve enorme concorrência de visitantes celebrando-se também algumas missas.

“De tarde , próximo das 4 horas, saiu, percorrendo o itinerário dos mais annos, a solenne Procissão dos Passos, uma das que se celebram n’esta terra com mais compustura e recolhimento. Grande número de irmãos e bastantes eclesiásticos, a mesa da irmandade, a autoridade administrativa, a guarda de honra composta de todo o destacamento de cavalaria, a magnifica Banda Torrenese, e uma considerável concorrência de Povo, da villa e de fora , o melhor de cinco mil pessoas, acompanharam a veneranda Imagem”.

“(…) Houve ordem completa . Apenas notámos com desprazer a grande balburdia e barulho na collegiada de S. Pedro. A casa de Deos não é logar próprio para scenas tão pouco edificantes” (JTV, 25-3-1886).

De registar ainda um serão musical no “club torreense, na segunda feira à noite [22 de fevereiro]”, dado por “um artista hespanhol” que “tocou magistralmente e foi grandemente aplaudido em viola franceza”(JTV , 25-3-1886).