quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Que Fazer com o “Obelisco!!!??

Anda por aí, no facebook, um debate sobre o futuro do “Obelisco” do “Largo da Graça”.

O tema unificador é sobre a perda de visibilidade desse monumento.

O pomo da discórdia é sobre se ele deve ser mantido naquele lugar ou se deve ser mudado para um lugar mais visível.

Pessoalmente nunca nutri grande entusiasmo por aquele monumento, muito menos quando fui conhecendo o que era aquele espaço antes da inauguração, em 1954, daquela mega-obelisco, comemorativo da Guerra Peninsular.

Os que defendem a manutenção do Obelisco no mesmo sítio, defendem uma intervenção que implicará, para além da limpeza e restauro do mesmo, o desbaste das árvores de grande porte que o rodeiam e encobrem.

Contudo, quanto a mim, esse não é o único problema que impede uma maior visibilidade ao monumento.

Mais grave e irreversível é o “painel” de prédios que, nos últimos anos, foram crescendo em altura à volta daquele jardim.

Aqui há muitos anos, quando o “crime” ainda era reversível, defendi, em artigos, troca de opiniões e, julgo, em Assembleia Municipal, que devia ser mantido, como referência para urbanizar a cidade, um “diálogo” entre o Castelo e o Convento de Graça, o que implicava alguma contenção nas construções à volta daquele jardim.

A situação, então, já não era famosa, mas ainda podia manter-se a visibilidade do Convento a partir do Castelo e deste do Convento e da maioria das ruas da cidade.

Fui acusado de tentar impedir o “progresso” e, apesar da situação ter melhorado na última década, foi o que se viu.

Hoje o jardim da Graça está transformado num imenso saguão e, mesmo cortando todas as árvores, situação com a qual também discordo, o Obelisco continuará acanhado naquele espaço.

Outros, penso que a minoria, entre os quais me incluo,  acham que, a fazer alguma coisa para dar visibilidade ao monumento, este devia ser recolocado noutro local.

Para mim o local, que não só manteria a dignidade do Obelisco, como lhe aumentaria a visibilidade, e ainda por cima recuperava um “diálogo” equilibrado com a história e a urbanização da cidade, era no meio do parque, que carece também de alguns melhoramentos, em frente à sede da PSP, ficando igualmente junto de outro monumento que recorda os torrienses tombados noutro conflito, a Guerra Colonial.

Seja qual for a solução, é verdade que o jardim da Graça, com ou sem Obelisco, precisa de uma intervenção que dignifique o local, até porque, dentro da cidade, não existem jardins dignos desse nome ( a Várzea e o Choupal ficam na “periferia”).

A minha opinião é apenas uma opinião.

Como contributo para o debate, aqui deixo a transcrição de um texto onde historiei o “Largo da Graça”, um documento sobre a inauguração do Obelisco e algumas fotografias que mostram a evolução daquele espaço:

(gravura do principio do Século XIX, onde se vê o Convento da Graça , a partir da Várzea)

PARA A HISTÓRIA DO LAGO DA GRAÇA

Este Largo era chamado, já em 1818, de Largo de Santana, por causa da ermida que aí existiu, situada no prédio onde actualmente funciona a casa “Napoleão”, junto a uma das portas medievais da vila, com o mesmo nome.

Essa ermida ficou arruinada pelas invasões francesas, nunca mais sendo recuperada.

(duas imagens das ruinas da Ermida de Santana)


Por deliberação de 1 de Abril de 1857, decidiu a Câmara expropriar a área da antiga cerca do Convento da Graça, encerrado em 1834, com a finalidade de alargar o espaço do mercado mensal, decidindo que esse lugar servisse também de passeio público, plantando para isso algumas árvores nesse local.

(fotografia da segunda metade do século XIX, sendo visivel a "cerca" do Convento)

Em 1885 foi aí instalado um coreto para a primeira actuação pública da “Fanfarra 24 de Julho” que ocorreu em 24 de Junho de 1885[1].

Esse coreto nada teve a haver com aquele que é mais conhecido, inaugurado em 1892 e que existiu até meados da década de 40 do século passado.


Em Janeiro de 1886 o largo da Graça foi  notícia por causa da decisão camarária de mandar “construir um jardim na parte expropriada contigua ao largo da Graça. A planta será confeccionada pelo distincto engenheiro e nosso amigo, o sr. Mendes de Almeida, que esteve aqui tratando de outos estudos e melhoramentos públicos”, objectivo que ao que se sabe, não foi concretizado (Jornal de Torres Vedras, 22 de Janeiro de 1886).



Contudo, só em 1892, um particular, D. Diogo de Nápoles, tomou a iniciativa de tornar aquele espaço, então praticamente abandonado, num ”Passeio Público”, com um corêto, encabeçando uma comissão para adquirir esse espaço por subscrição pública, apoiada pelo jornal “A Semana”.


A primeira pedra para a construção do jardim e do coreto teve lugar a 11 de Julho de 1892, sendo inaugurado a 21 de Agosto, com festa e Kermesse.


Transformado em jardim público com coreto no final do século XIX, ocupando o antigo espaço murado do jardim do Convento da Graça, adoptou o nome do monarca que então reinava, D. Carlos .

A 12 de Maio de 1902 este lugar foi visitado pela rainha D. Amélia, que se fez deslocar de automóvel, talvez o primeiro a rodar em Torres Vedras.
(visita da rainha D. Amélia, fotografia da Ilustração Portuguesa)

Com a República o largo foi rebaptizado com o nome de Largo da República, tendo-se proposto alterar o seu nome para Largo Sidónio Pais em 1919, proposta nunca concretizada.

(Vários postais e fotografias do principio do século XX onde se vê o coreto)

Em 10 de Outubro de 1954, no lugar do velho coreto, foi inaugurado o obelisco comemorativo das Guerras Peninsulares, sendo na mesma ocasião aquele largo rebaptizado com o nome de Praça do Império, mantendo o espaço a norte a designação de Praça da República.
(postal onde se vê o jardim, já sem coreto, mas antes de aí ser colocado o Obelisco)


“A construção deste monumento teve a comparticipação dos ministérios das Obras Públicas e do Exército e a sua concepção foi do arquitecto Miguel Jacobety, e nele trabalharam o tenente coronel de Engenheiros Manuel Braz Martins, Engenheiro Altino Aldo Gromicho, o construtor civil José Pedro Lopes e os operários, Sebastião Pedro Henriques, Jaime Simões, Joaquim Miranda, José da Silva, José Correia, João Alves Carregueiro e António Chá. As cantarias foram fornecidas pela Firma Pardal Monteiro, Limitada, de Pero Pinheiro”.[2]
( o jardim por ocasião da inauguração do Obelisco)


Com o 25 de Abril foi novamente rebaptizada como Praça 25 de Abril.

Contudo, popularmente continua a ser conhecida por Largo da Graça.


[1] Jornal de Torres Vedras, 30 de Julho de 1885
[2] Segundo Augusto M. Lopes da Cunha em Memória das Festas da inauguração do obelisco comemorativo da guerra penissular e Catálogo da exposição hiistórico-biblio-iconográfica, ed. Biblioteca Municipal de Torres Vedras, 10 de Outubro de 1954.

Anexo:


Auto de inauguração do Obelisco do Jardim da Graça-1954:

“Saibam quantos este público auto virem, que no ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, de mil novecentos e cinquenta e quatro - Ano XXVIII da Revolução Nacional - pelas 15 horas, nesta mui nobre e antiga Vila de Torres Vedras, no Jardim da Graça, que doravante se passou a denominar Praça do Império, Sua Excelência o Tenente-Coronel Horácio de Sá Viana Rebelo, Ilustre Sub-Secretário do Estado do Exército, procedeu à inauguração solene deste monumento comemorativo das Campanhas da Guerra Peninsular -1808 a 1814- e especialmente das “Linhas de Torres Vedras” (...).

“A construção deste monumento teve a comparticipação dos ministérios das Obras Públicas e do Exército e a sua concepção foi do arquitecto Miguel Jacobety, e nele trabalharam o tenente coronel de Engenheiros Manuel Braz Martins, Engenheiro Altino Aldo Gromicho, o construtor civil José Pedro Lopes e os operários, Sebastião Pedro Henriques, Jaime Simões, Joaquim Miranda, José da Silva, José Correia, João Alves Carregueiro e António Chá. As cantarias foram fornecidas pela Firma Pardal Monteiro, Limitada, de Pero Pinheiro (...)”.

( transcrito por Augusto M. Lopes da Cunha em Memória das Festas da inauguração do obelisco comemorativo da guerra penissular e Catálogo da exposição hiistórico-biblio-iconográfica, ed. Biblioteca Municipal de Torres Vedras, 10 de Outubro de 1954).

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Torres Vedras e o Domínio Filipino


(Filipe IIº)

Em 13 de Setembro de 1598, há 420 anos, morria um dos monarcas mais poderosos do mundo, o rei Filipe IIº, rei de Espanha desde 1556 e de Portugal “e dos Algarves” desde 1581, governando no nosso país com o título de Filipe Iº.

O seu reinado deu inicio, em Portugal, à dinastia filipina, que só terminou em 1640.

A propósito dessa efeméride vamos tentar traçar, em poucas palavras, aquilo que foi o domínio filipino em Torres Vedras (1).

O domínio filipino foi bem aceite pelas famílias dominantes da região, com a do “Alarcões” à frente.

Esta família, de origem espanhola, dominava a alcaidaria da então vila desde o reinado de D. Manuel, quando D. João de Alarcão herdou do seu sogro, Gomes Soares, falecido em 12 de Janeiro de 1514, o cargo de alcaide-mor de Torres Vedras.

Terá sido também nessa altura que os alcaides-mores, que tradicionalmente habitavam os chamados “Paços do Patim”, passaram a ocupar o “palácio” do Castelo, restaurado no tempo de D. Manuel, como o atestam ainda hoje as esferas armilares aí existentes.

Quando da aclamação do rei espanhol em 1581, exercia o cargo da alcaide-mor de Torres Vedras D. Martim Soares de Alarcão, que foi um dos mais fiéis defensores da causa castelhana (2).

Esse alcaide teve um papel importante na repressão das revoltas locais que tiveram lugar nesse período.

Uma das mais conhecidas foi a chamada revolta do “Rei da Ericeira”, liderada por um tal Mateus Álvares, natural doa Açores, filho de um pedreiro, que se fez aclamar como rei pela  população da Ericeira em 1585 , mobilizando os camponeses da região contra o Castelo de Torres Vedras.

Um dos seus principais seguidores foi um vinhateiro de Torres Vedras, Pedo Afonso, nomeado pelo falso rei estribeiro mor e marquês de Torres Vedras e que casou com a filha daquele, “coroada” rainha.

O movimento acabou afogado em sangue, quando o exército do “Rei da Ericeira” foi travado na estrada de Lisboa pelos bem organizados batalhões filipinos.

O falso rei e o seu genro foram enforcados em Junho de 1585 (3).

Outra ocasião difícil para o alcaide-mor de Torres Vedras foi quando  D. António Prior do Crato, em 1589, apoiado por forças inglesas, atacou e ocupou Torres Vedras, depois de desembarcar em Peniche e antes de se dirigir para Lisboa.
(D. António Prior do Crato)


Existem várias versões sobre este acontecimento, mas a mais credível é a descrição de um manuscrito da Torre do Tombo, da autoria de André Falcão de Resende.

A armada inglesa era comandada pelo “General do mar”, Francis Drake,  acompanhado pelo “General de terra” Henrique Norris,”capitão escocês muito conhecido”, conde de Norwich.

No dia 23 de Maio de 1589 a Armada Inglesa chegou a Peniche, entrando no porto da vila, que tomou, e a praia em frente, a praia de Nª Senhora da Consolação.

O alcaide local, João Gonçalves de Ataíde , de imediato mandou enviar recado a “Sua Alteza” e ao alcaide-mor de Torres Vedras, Dom Martinho Soares de Alarcão e Melo, acerca do sucedido.
Em Torres Vedras estavam  estacionadas  12 “companhias” comandadas por Martinho Soares, que logo na noite desse dia partiu com elas na direcção de Peniche, acompanhado por  Gaspar de Alarcão, morador nesta vila, com cento e dez “ginetes” de que era capitão.

Impressionados com o número de tropas inglesas, as tropas fiéis a Castela regressaram a Torres Vedras, de onde se retiraram quando, por volta da meia-noite do Domingo 28 de Maios, quando se soube que a tropas de D. António vinham marchando da Lourinhã para esta vila.

No dia 29 de Maio “já tarde”, entraram na vila de Torres Vedras o exército inglês e D. António, sob o comando de Norris.

D. António aposentou-se nas casas do prior de Stª Maria do Castelo, “e a noite foy dormir no Castello, onde pousava Francisco de Seixas” Cabreira, natural da vila, que veio a ser preso mais tarde pelo governo filipino, por causa desta sua atitude de facilitar a aposentação de D. António em Torres Vedras.

Contudo, muitos dos soldados ingleses “se embebedarão, por haver muito vinho nesta villa”. Beberam em tal excesso que muitos adoeceram e alguns chegaram mesmo a morrer.

Este incidente provocou um atraso no avanço dos Ingleses sobre Lisboa, dando tempo às tropas luso-castelhanas que defendiam a capital, de se prepararem para a chegada dos apoiantes de D. António.

Chegados próximo de Lisboa, os ingleses, perante a resistência dos sitiados, resolveram, no Domingo 4 de Junho, retirar-se a caminho de Cascais., onde chegaram no dia seguinte, perseguidos pelas tropas luso-castelhanas.

Em 18 de Junho iniciaram a sua retirada, embarcando na armada estacionada em Peniche .

Entretanto, no dia 6 de Junho, cerca de mil homens comandados por D. Martim Soares e pelo capitão António Pereira, reconquistaram, quase sem combate, o castelo de Torres Vedras(4).


Em definitivo, a região voltou a obedecer a D. Filipe II.

Depois desses dois episódios de resistência local inicial ao domínio filipino, não se voltaram a assinalar episódios político-militares  significativos até à Restauração.

Apenas um ano antes da Restauração, num documento enviado ao alcaide de então, D. João Soares de Alarcão, se revela alguma preocupação em defender a região de um possível ataque da armada francesa em apoio de uma possível insurreição no Reino.

Nesse documento, datado de 26 de Junho de 1639, já no reinado de D. Filipe IV (IIIº de Portugal), o monarca encarrega o alcaide de Torres Vedras de levantar a gente de armas da região.

Por esse documento, que refere números relativos ao total da Comarca de Torres Vedras (muito mais extensa que os limites do concelho), ficamos a saber que, na comarca, existiam 9 743 homens capazes de pegar em armas, dos quais 5722 tinham espingardas e arcabuzes e 991 “piques”.

Por ordem do mesmo monarca foram escolhidos 1 200 homens para se reunirem na vila de Torres Vedras, prontos a resistir a um ataque da armada francesa à costa portuguesa, um reflexo local da chamada “Guerra dos 30 anos”(5).

Durante esse período, a vila de Torres Vedras adquiriu uma considerável importância politica e económica, patentes no prestígio da família dos Alarcões junto da coroa espanhola e na concretização da Comarca de Torres Vedras, criada anos antes mas que só passou a ser efectiva em 1617 (6).

Sem procuramos ser exaustivos, aqui pretendemos deixar uma breve síntese sobre os episódios mais marcantes da história torriense durante o domínio filipino.

  • (1)   Existem duas obras fundamentais sobre esse período em Torres Vedras: BRAGA, Paulo Drumond, Torres Vedras no reinado de Filipe II – Crime, Castigo e Perdão, ed. Câmara Municipal de Torres Vedras/Edições Colibri, Lisboa 2009; VEIGA, Carlos Margaça e SILVA, Carlos Guardado da, O Livro de Acordãos do Município de Torres Vedras – 1596-1599, ed. CMTV, 2003.
  • (2)   RÊGO, Rogério de Figueirôa , “O Castelo de Torres Vedras”, in Boletim da Junta da Província da Estremadura, nº 21, Série II, Maio/Agosto de 1949, pp. 195-209.
  • (3)   Existe muita bibliografia e muitas referências a esse episódio. Recentemente, nas páginas do “Badaladas”, foi publicada uma excelente síntese sobre esse episódio, da autoria de GRANADA, Manuel Novais, “Revista de Lisboa garantia em 1932 – Última batalha entre as tropas castelhanas e as milícias do “rei da Ericeira” deu-se no castelo de Torres Vedras”, edição de 27 de Julho de 2018; e “Justiça de Filipe I abateu-se de modo implacável sobre os revoltosos de “D. Sebastião da Ericeira” (conclusão), edição de 17 de Agosto de 2018.
  • (4)   FALCÃO de RESENDE, André, “Carta que o autor escreveo a hum Amigo em que se conta a vinda dos Ingleses a Lisboa com dom António Prior do Crato no Ano de mil quinhentos e oytente e nove annos”, in Manuscrito da Livraria, cota 1147,   Arquivo Nacional da Torres do Tombo. Voltaremos a este tema, com mais pormenor, no próximo ano, por ocasião da comemoração da efeméride deste episódio.
  • (5)   “Menção Histórica”, in A Semana de 23/6/1892.
  • (6)   SERRÂO, Joaquim Veríssimo, O Surto Regional na legislação dos Filipes (1581-1625), ed. 1975 e O tempo dos Filipes em Portugal e no Brasil, ed. Colibri, Lisboa.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

BêDêZine: Recordando um fanzine torriense

BêDêZine: Recordando o fanzine "BêDêzine": Nos idos de 1985, por ocasião do"1º Salão de Banda Desenhada de Torres Vedras", editamos um nº0 (e único) do fanzine "BêDêzine" (clicar para continuara a ler)...

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Pelo Vale do Sizandro, a nascente de Torres Vedras

Realizou-se no passado Domingo, 23 de Setembro, uma caminhada integrada nas Jornadas Europeias do Património, uma organização conjunta da Câmara e Torres Vedras,do Museu Municipal Leonel Trindade, do Fórum, do ATV e da Associação do Património.

Num percurso de cerca de 12 kilómetros, com partida no Convento da Graça e chegada no Chafariz dos Canos, percorreram-se alguns dos lugares de memória associados ao Vale do Sizandro e ao património e à actividade económica a  ele  associados.

O primeiro percurso  fez-se entre Torres Vedras e a Quinta da Portucheira, onde os caminhantes foram recebidos pelos proprietários dessa Quinta que serviram uma prova dos excelentes vinhos aí produzidos, acompanhado por outros petiscos, e onde nos foi contada a história dessa Quinta.

Nesse percurso passou-se pelo lugar dos antigos armazéns Abel Pereira da Fonseca, na rua Tenente Valadim, onde apenas existe a memória e pelo ainda bem preservado edifício do Instituto da Vinha e do Vinho, excelente exemplar da arquitectura modernista, junto a outro importante monumento, o Aqueduto. Aqui o Dr. Pedro Belchior historiou a actividade económica  ligada a esses edifícios.

Partiu-se depois em direcção às Termas dos Cucos, seguindo-se passando pela  a Quinta da Macheia, aolado do vale de Matacães, em direcção à Quinta da Portucheira.

O regresso fez-se pela margem do Sizandro, junto às duas azenhas aí existentes, actualmente em ruinas.

É um pouco desse percurso que em baixo deixamos documentado fotograficamente.

INSTITUTO DO VINHO E DA VINHA





 ...AO LONGO DO SIZANDRO...



 ...ATÉ ÀS TERMAS DOS CUCOS...




 ...EM DIRECÇÃO À QUINTA DA MACHEIA PELO VALE DE MATACÃES...







 ...JUNTO AO "APEADEIRO" DA MACHEIA..


 ...EM DIRECÇÃO À QUINTA DA PORTUCHEIRA...



...CHEGANDO À QUINTA DA PORTUCHEIRA..





 ..DE REGRESSO, JUNTO AO RIO, JUNTO ÀS AZENHAS, COM UM ARRUINADO FORNO DE CAL DE PERMEIO.


segunda-feira, 23 de julho de 2018

Há 75 anos, o presidente Carmona visitou Torres Vedras




Em plena Segunda Guerra Mundial, no auge do Estado Novo, em 18 de Julho de 1943, um Domingo, Torres Vedras recebeu a visita do então presidente da República Óscar Carmona. 
O objectivo dessa visita foi a inauguração oficial do novo Hospital da Misericórdia e do novo edifício dos Correios. 
Esse acontecimento mereceu grande destaque na imprensa nacional, com honra de primeira página em quase todos, e no único jornal que então se editava no concelho, embora de periodicidade anual, “O Torrense”. 
(reportagem em "O Torreense") 
Com base na leitura de alguns desses jornais é possível reconstituir o pulsar desse dia em Torres Vedras. 
Refere o jornal “Novidades”, na sua edição de 19 de Julho, que, logo “de manhã cedo a vida começou a movimentar-se com a chegada de forasteiro das (…) freguesias do concelho, que utilizavam os mais variados meios de transporte”. 
Aliás, para que fosse possível a utilização de transportes pelos habitantes do concelho e dos concelhos vizinhos foi interrompido o racionamento a que estava sujeito o abastecimento de combustíveis, uma consequência do período de guerra em que se vivia, como o refere o mesmo jornal na sua edição de dia 18: 
“o Serviço de Racionamento do Instituto Português de Combustíveis comunica-nos que por motivo da visita do sr. Presidente da República a Torres Vedras, foi pelo sr.  ministro da Economia autorizado o abastecimento, durante o dia de hoje naquele concelho a todos os motociclos e carros ligeiros de particulares”. 
Ainda na edição do dia 19 daquele diário situacionista refere-se que, às “11 horas fez-se no Município a recepção  às bandas dos Bombeiros Voluntários da Lourinhã, Ermegeira, Aldeia Grande e Ribaldeira e dos legionários de Mafra, que foram aqui recebidos pela subcomissão de festas, presidida pelo sr. Joaquim Oliveira Manarte”. 
“Ás 13 horas fez-se no vasto Largo de S. Pedro a concentração de trinta carros que haviam de tomar parte no grande cortejo regional”, seguindo para os limites do concelho, na Freixofeira, onde foi recebido o Presidente e a sua comitiva aí chegados às 16 e 15. 
Carmona era acompanhado nessa visita pelo Ministro do Interior, pelo Subsecretário de assistência e Obras Públicas e pelo Governador Civil de Lisboa, entre muitas outras entidades oficiais e corporativas.
À sua chegada à Freixofeira, Carmona foi saudado pelo presidente da Câmara de Torres Vedras, D. José Maria Teles da Silva (Tarouca). 
“Momentos após esta cerimónia o estralejar dos foguetes e o ribombar dos morteiros marcaram o início da festa” (1) . 
A caminho de Torres, a comitiva foi surpreendida com uma manifestação não prevista de boas-vindas no Turcifal, sendo recebida pela população do lugar que se concentrou junto ao adro da Igreja, onde a “banda da Casa do Povo tocou o hino nacional” (2). 
Chegando à vila “foram lançadas flores em grande profusão”  sobre o carro presidencial (3). 
À entrada da vila “erguia-se um arco triunfal com a saudação – Salvé Carmona- “ (4). 
“Toda a vila estava engalanada de bandeiras, galhardetes, festões e das janelas pendiam lindas colgaduras” (5).  
Seguindo a comitiva pelas Avenidas 5 de Outubro e Tenente Valadim, “que se encontrava vistosamente engalanada com bandeiras”, chegou ao largo de S.Pedro “onde se encontrava formando um terço da “Legião Portuguesa”, com bandeira, banda de musica e  terno de corneteiros (…) que prestou as devidas honras militares ao Chefe do Estado entre vibrantes e patrióticas manifestações da multidão que no local se aglomerava”. 
Carmona, “apeando-se do seu automóvel, passou em revista a guarda de honra e, em seguida, dirigiu-se, pela Rua Miguel Bombarda, para o Largo do Município onde se achava uma formação constituída pela Corporação dos Bombeiros Voluntários com a respectiva banda de musica.” 
Ao longo do percurso, das “janelas, as senhoras lançam flores à passagem do cortejo, enquanto o povo apinhado junto aos passeios aumenta de entusiasmo”, entre o qual as “crianças das escolas, todas as colectividades, bombeiros, agremiações desportivas e de beneficência, com os seus estandartes, prestam também homenagem o Chefe de Estado” (6). 
Seguiu-se uma sessão no salão nobre dos  Paços do Concelho, onde discursaram o então presidente da Câmara, “D. José Maria Teles da Silva (Tarouca)”, o Ministro do Interior e, a encerrar, o general Carmona. 
De seguida o Presidente da República e a comitiva seguiu em “carro aberto”, pelas ruas Serpa Pinto e pelo Largo Graça, dirigindo-se ao “Novo Edifício dos Correios”, inaugurado na ocasião (7). 
“Ao longo do trajecto alinhavam-se os alunos das escolas primárias do concelho, elementos da “Mocidade Portuguesa”, Juntas de Freguesia, Juventude Católica, Bombeiros, Casas do Povo, Sindicatos, União Nacional, Associações desportivas e de beneficência, Grémios e a banda dos Bombeiros da Lourinhã” . 
Chegado ao edifício dos CTT o Presidente procedeu à tradicional corta da fita, percorrendo depois as instalações do edifício. De “linhas modernas e sóbrias” (8).    
(in "O Torreense". Autoria: Foto Rocha)


(Edificio dos Correios inaugurado por Carmona. Fotos de Mário Novais, arquivo da Fundação Calouste Gulbenkian) .
Depois, pela rua Santos Bernardes, seguiu a comitiva até ao lugar do “Novo Hospital da Misericórdia”, igualmente inaugurado oficialmente nessa data. 
O  Hospital foi “construído por contribuição do Estado e da Câmara Municipal”, e com a contribuição de vários beneméritos locais, homenageados numa lápide comemorativa descerrada na ocasião, no átrio do hospital. Entre os beneméritos foram citados os “srs. Álvaro Galrão, dr. José Alberto Bastos, Joaquim Vaquinhas, dr. Júlio Lucas e D. Teresa de Jesus Pereira” (9) . 
(Gravura do edificio original do Hospital de Torres Vedras. Fonte: Site da Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras) 
Foi também descerrada outra lápide de homenagem a Carmona pelo acto de inauguração. 
O corpo clinico foi constituído por “uma chefe e cinco enfermeiras das irmãs hospitaleiras portuguesas da Ordem de S. Francisco” e pelos médicos “drs. Alberto José de Bastos, Boaventura Dias Sarreira e Afonso Pedreira Vilela”. 
Carmona acabou por ser o primeiro “doente” assistido no Hospital, por se ter magoado num dedo ao fechar a porta do seu carro. (10). 
(o Dr. Dias Sarreira tratando do dedo ferido de Carmona. Foto retirada do blog Concept Board , num artigo biográfico sobre aquele médico torriense)
Na estrada que ligava o Largo da Graça ao novo Hospital, “em longa fila, alinhavam-se os carros  das freguesias com oferendas  para a Misericórdia, sendo: 5 do Ramalhal, 3 de Matacães, 3 de São Pedro da Cadeira, 3 da Carvoeira, 2 do Maxial, 2 da Casa do Povo e Freguesia de Runa e de São Domingos de Carmões e vários outros da Silveira, Turcifal, Dois Portos, Campêlos (Santa Maria), A-dos-Cunhados, da Quinta da Macheia ( e veraneantes dos Cucos), Ponte do Rol, Freiria, Monte Redondo, Santa Maria e São Pedro”. 
“Os carros, artisticamente ornamentados, com o folclórico das respectivas freguesias, traziam de tudo e com abundância: batatas, feijão, hortaliça, coelhos, galinhas, uma vitela, roupas e enxovais para crianças, e, até dinheiro” (11) . 
(Fonte: "O Torreense". Autoria "Foto Rocha"). 
Após inauguração do novo Hospital a comitiva regressou à Praça da República, à sede da Santa Casa da Misericórdia, para um “Torres de Honra”. 
“Antes de entrar na Misericórdia o Chefe do Estado, apeando-se do automóvel (…) condecorou a bandeira dos Bombeiros Voluntários com a Ordem de Benemerência e o operário da Casa Hipólito sr. André Ferreira com a Ordem de Mérito Industrial”. 

(Fonte: Jornal "O Torreense". Autoria de "Foto Rocha") 
O salão nobre da Misericórdia estava decorada com bandeiras e flores e aí discursaram o Dr. Afonso Vilela, presidente da Comissão concelhia da União Nacional, após o qual o presidente Carmona condecorou o Presidente da Câmara com a Ordem de Cristo (12). 
A seguir, Carmona e a sua comitiva abandonaram a vila, a caminho de Lisboa, sendo acompanhados pelas entidades locais até ao limite do concelho, na Freixofeira. 
Na passagem pelo Turcifal, “vistosamente engalanado com colgaduras e festões, foi Sua Ex.ª alvo de uma verdadeira manifestação de carinho, caíndo-lhe uma autêntica chuva de flôres” (13) . 
À noite “as bandas de musica “ da Lourinhã e de Torres Vedras deram concertos na Praça da República e Avenida 5 de Outubro”, queimando-se “um esplendido fogo de artificio” (14). 
Foi uma das últimas grandes manifestações locais de apoio ao Estado Novo, como se comprova pelo tom apologético das reportagens da imprensa nacional. 
Parafraseando ironicamente a obra do cineasta Ettore Scola, foi “um dia inesquecível” para os torrienses, o regime e os seus apoiantes (15). 
(1)    – in Diário da Manhã de 19 de Julho de 1943:
(2)    – in O Século de 19 de Julho de 1943;
(3)    – in Novidades de 19 de Julho de 1943;
(4)    - in O Torrense de 11 de Outubro de 1943;
(5)    - In O Século de 19 de Julho de 1943;
(6)    -  in Diário da Manhã de 19 Julho 1943;
(7)     - in Novidades de  19 de Julho de 1943;
(8)    – in  Diário da Manhã 19 Julho 1943;
(9)    – in Novidades de 19 de Julho de 1943;
(10)    - in Diário da Manhã 19 Julho 1943;
(11)     - in O Torreense de 11 de Outubro de 1943;
(12)     - in Diário da Manhã de 19 Julho 1943;
(13)      - in O Torreense, de 11 de Outubro de 1943;
(14)     - in Diário da Manhã de 19 de Julho de 1943.
(15)    - O filme “Um Dia Inesquecível”, de 1977,  relata a história de um amor adultero entre a esposa de um camisa negra fascista e um antifascista a caminho do exílio, em Roma, no dia 6 de Maio de 1938, dia em que a cidade  se engalanou para o encontro entre o Duce e Hitler.
(NOTA: um texto mais resumido foi publicado no Jornal "Badaladas" de 13 de Julho de 2018,    na secção Vedrografias de Julho de 2018).