sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Carnaval de Torres - Fotos antigas (arquivo Adão de Carvalho- Biblioteca Muncipal e arquivo pessoal do Vedografias)

 ANOS 20 (século XX) :





ANOS 30 (Século XX) :








ANOS 40 (século XX) :


ANOS 50 (Século XX) :




ANOS 60 (século XX) :







em ANEXO (fotografias analógicas  do arquivo pessoal de  Venerando Aspra de Matos):

Primeira fotografia do Carnaval de Torres (1912 -Ilustração Portuguesas):


ANOS 50 (século XX) :






Anos 60 (Século XX):



Data desconhecida (século XX):





ANOS 90 (século XX)














(NOTA : algumas datas necessitam de confirmação e eventual correcção)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

1846 – Os horrores da Guerra em Torres Vedras


Ao longo da sua História, a população de Torres Vedras assistiu e foi vítima de muitos conflitos militares, até porque deve muito da sua existência à importância estratégica da região em relação à defesa de Lisboa.

Felizmente, há quase 180 anos que a região não é palco de combates militares de grandes dimensão, e só indirectamente as suas populações sofreram as agruras da guerra, tendo muitos torrienses participado na 1ª Guerra e na Guerra Colonial, conflitos que, pelo menos, pouparam os habitantes de Torres Vedras de serem vítimas directas de crimes de guerra e da destruição dos seus bens em conflitos militares.

A última vez em que a região foi palco de uma batalha de grandes dimensões e que provocaram a destruição, o medo e a aflição dos seus habitantes aconteceu nos dias 22 e 23 de Dezembro de 1846, na célebre Batalha de Torres Vedras, episódio da “Patuleia” ao qual já nos referimos em crónicas e estudos anteriores.

O que pretendemos aqui abordar é o efeito que esse conflito teve junto das populações locais da época, principalmente com uma referência aos eventuais crimes de guerra contra civis torrienses, alguns deles ainda com a memória dos conturbados tempos das Invasões Francesas (1808-1810)  e da guerra civil entre liberais e absolutistas (1832-1834).

A presença de tropas neste concelho durante vários dias, bem como a sua movimentação, já seria, só por si, motivo de preocupação e incómodo para os habitantes, tendo em conta a necessidade de acomodar e alimentar os militares.

Ainda por cima a principal Batalha, ao contrário do que aconteceu durante as Invasões Francesas, teve lugar dentro da própria vila, com o confronto de artilharia entre o Forte, dominado por Saldanha, e o Castelo, dominado por Bonfim.

Os tiros entre os dois exércitos e o bombardeamento do Castelo terá atingido muito provavelmente alvos civis, embora não existam muitas notícias sobre esta situação.

Sabe-se também que a entrada das tropas fiéis à rainha na vila foi acompanhada de intensos combates pelas ruas de Torres Vedras, ao longo do final da tarde desse dia 22 de Dezembro, onde algumas casas de civis foram usadas como pontos de defesa e ataque (1).

José Eduardo César, na sua conhecida memória manuscrita sobre a batalha, refere a noite de 22 de Dezembro, a que se seguiu à Batalha ganha pelo exército de Saldanha, como uma “noite de horrorosa recordação para os moradores da vila”, onde “todas as portas eram arrombadas indistintamente” e “todas as casas roubadas”.

O jornal O Espectro, órgão de propaganda Patuleia, vai ainda mais longe, referindo os “horrores” vividos pelos habitantes de Torres Vedras, e o “saque” das “forças da rainha”, que “não respeitaram mulher nem donzela” (2), ideia reforçada pelo mesmo jornal na sua edição de 30 de Dezembro, insistindo no “saque de Torres Vedras” e sublinhando “a violação de mulheres e donzelas” apelando a que se vingasse “a honra de nossos irmãs, de nossas mulheres, de nossas filhas”.

Numa memória posterior, mas publicada ainda em vida de muitos torrienses que tinham vivido aquele momento (3) , não se faz referência a tais “violações”, alegação que parece falsa e de mera propaganda, que designaríamos hoje por “fake news”, mas descreve, de forma mais realista, a forma como a população civil foi incomodada pela batalha e pela entrada das tropas de Saldanha:

“Se o dia (…) tinha sido de horror para os habitantes de Torres Vedras, pelo estampido da arti- Iheria e fuzilaria, que dizimava tantas vidas, e pelos projecteis e balas, que tinham cahido em cima de seus telhados, e até mesmo dentro em suas casas; a noite, que estava bastante escura, não foi menos horrorosa (…)  pela bulha e estrondo das coronhadas com que a deshoras o exercito vencedor batia, e pretendia arrombar as portas, como de facto muitas arrombou; pelo espirito de. saque, e vertigem de que vinha possuido e cheio, julgando conquista sua esta villa, como se os seus habitantes tivessem culpa em vir o exercito vencido tomar aqui posições, ou concorresse na sua generalidade para as desgraças, que acabavam de sofrer. Com effeito o saque não foi ordenado, mas parecia tolerado; muitas casas foram limpas de tudo, e não se fazia duvida em lançar mão das cousas, à vista mesmo de seus donos, que se davam pressa em socorrer os seus hospedes com a comida que tinham; de maneira que por alguns dias se não abriu loja alguma, que vendesse comestíveis, chegando a haver falta para o exercito e para os habitantes, até que o duque de Saldanha as mandou abrir com sentinellas às portas, para que seus donos podessem vender sem ser roubados, e desde então appareceu a abundancia. Não foram só estas as desgraças que teve a sentir esta villa, pois teve também a de sentir a morte de quatro dos seus habitantes inermes e pacíficos, um dos quaes, que era um taverneiro, se achou morto na rua, segundo parece, de baionetadas, e os outros tres foram atravessados com balas à entrada d’essa pouca força, que penetrou na villa quasi à noite. E soffreu tambem o peso do aboletamento de toda a divisão do exercito da rainha, por muitos dias, até que o general fez sahir da villa vários corpos para os logares visinhos, a fim de allivial-a”.

O mesmo articulista fazia justiça ao Duque de Saldanha, considerando que, se não fosse o seu espírito de “moderação e cavalheirismo”, sempre “prompto em dar guardas e attender a quem receiava violências, ou se queixava das que lhe faziam”, “muito pior teria sido a sorte dos habitantes d’esta terra”.

Ficamos assim a saber que não se terão registado violações de “donzelas” e que morreram 4 civis, três, ao que parece, vítimas de balas perdidas durante os confrontos nas ruas da vila por ocasião da entrada nela das tropas de Saldanha, e apenas um eventualmente morto na sequência de um assalto a um estabelecimento por soldados.

Nada que se compare aos horrores e aos verdadeiros crimes de guerra que, nos nossos dias, vemos serem cometidos por esse mundo fora.

Esperamos que aquela tenha sido a última vez que esta vila e os seus habitantes conheceram os horrores da guerra.

(1)    – “A Noite Horrível e o Dia de Gloria”, in Diário do Governo nº 302 de 22 de Dezembro de 1847;

(2)    - O Espectro de 28 de Dezembro de 1846;

(3)    – “Antiguidades de Torres Vedras”, in A Semana de 21 de Abril de 1887.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Primórdios dos movimentos sociais, de base “operária”, em Torres Vedras


Neste breve ensaio pretende-se fazer um breve balanço de alguns movimentos sociais, de cariz “operário” e sindical, registados em Torres Vedras no século XIX e nas primeiras décadas do século XX.

Claro que, para falar em “movimento operário”, é preciso que existam “operários”, isto é, assalariados ligados à actividade industrial.

Acontece que, no concelho, de acordo com vários dados conhecidos (inquéritos indústrias, recenseamentos de população com dados sociais, quer oficias, quer registados em monografias várias, como na parte económica da “Madeira Torres”), a percentagem de população registada como profissional do sector secundário, entre 1817 e 1930, ronda os 10%, ou menos, do total de activos (8,2% em 1817, 9,3% em 1862, 11,9% em 1890, 11% em 1911 e 8,2% em 1930).

Não se conhecendo dados entre 1930 e 1960, só neste último recenseamento a percentagem era ligeiramente superior, 16%, ultrapassando finalmente os 20% em 1970 (23%) e chegando ao seu máximo do século XX em 1981 ( 36,5%), entrando depois em declínio.

Registe-se, contudo, que, pelo menos até 1930, a esmagadora maioria dos profissionais registados no sector secundário deste concelho eram meros artesãos, trabalhando em “micro-empresas” de base familiar, longe das características sociais do “operariado” contemporâneo, base do desenvolvimento dos movimentos sociais de tipo “socialista” e sindical que aqui pretendemos registar.

O Inquérito Industrial de 1881 regista apenas 4 empresas desse ramo no concelho, empregando um total de 16 assalariados (uma média de 4 por empresa). No inquérito camarário de 1913 registam-se 11 estabelecimentos indústrias, empregando 96 “operários”, sendo de registar que a única empresa ligada à indústria metalúrgica empreguava 12 pessoas e uma outra, classificada com da indústria de alimentos”, empregava um total de 14 trabalhadores. Estes números são pouco diferentes dos registados para o concelho no inquérito nacional de 1917, 15 estabelecimentos empregando um total de 99 assalariados, destacando-se, neste caso, a “indústria metalúrgica”, onde 2 empresas empregavam 25 trabalhadores. No inquérito industrial de 1930 esses números já são mais significativos, 68 empresas empregando 230 trabalhadores, 46 empregados nas 7 empresas ligadas à metalurgia e 97 às 41 empresas de fabrico alimentar, apesar de tudo uma média por empresa abaixo dos 10 trabalhadores.

Não serão assim de estranhar os raros registos de lutas sociais, de cariz sindical e operário, ocorridos durante o período abordado, entre a implantação do liberalismo e o início do Estado Novo.

Quase todas as revoltas e movimentações sociais registadas na primeira metade do século XIX, neste concelho, são de base camponesa, lideradas pelas elites locais de pequenos proprietários rurais, pela Igreja ou pela pequena burguesia urbana, revoltas dessas muitas vezes de cariz político (miguelismo, setembrismo, “patuleia”, …), ou contra os impostos (como a “janeirinha” de 1868).

Só nos finais do século XIX se registam as primeiras revoltas com reivindicações salariais e por melhoria de condições de trabalho, despoletadas pelos trabalhadores do caminho-de-ferro, como aconteceu no dia 5 de Maio de 1885 quando “à noite, marchando até à Quinta das Fontainhas”, os operários exigiram o pagamento dos salários em atraso, partindo os vidros dessa quinta onde vivia o engenheiro responsável pelas obras, Abel Marty. O jornal que descreveu essa revolta considerava que “os operários têm tido bastante razão de queixa à pontualidade do pagamento” (1).

Os conflitos sociais provocados por essa situação acabaram, aliás, de forma trágica, pouco menos de um ano depois, com o assassinato daquele engenheiro em 26 de Abril de 1886, na sequência de uma violenta discussão com um alguns operários que lhe exigiam o pagamento do salário em atraso, tema já por nós abordado em crónica anterior.

Data, aliás, desse mesmo ano de 1885 a fundação de uma colectividade de cariz operária, a “Associação de Socorros Mútuos 24 de Julho de 1884”,  fundada em 27 de Dezembro de 1885, tema também por nós tratado noutro estudo.

Não é de estranhar que surja por essa altura, num artigo do jornal “A Voz de Torres Vedras” de 6 de Julho de 1889, intitulado “As Classes”, a primeira referência local à obra e pensamento de Karl Marx, a propósito do qual o articulista se interrogava : “Quem não sente o arruído das classes escravizadas pelo salário, classes que em altos brados reclamam por toda a parte o seu quinhão no banquete social, apresentando-se para tomarem nas suas mãos o destino d’este mundo (…)?”.

Nos finais do século XIX, início do século XX o descontentamento popular e as reivindicações sociais vão ser absorvidos pelo crescente movimento republicano.

Neste concelho, o movimento operário só volta a ter alguma iniciativa autónoma nos anos da Primeira Guerra, devido às dificuldades económicas que atingem principalmente os assalariados, a chamada “questão das subsistência” ( tema que abordámos noutro estudo).

A primeira greve local registada aconteceu nesse ano de  1917, no dia 27 de Fevereiro, uma greve dos operários tanoeiros da viúva de António da Silva.

Ao crescente despertar do incipiente movimento operário local não terá sido estranho à criação do “Núcleo de Propaganda Socialista de Torres Vedras”, criado em Abril de 1917, inaugurando a sede, na Rua Mouzinho de Albuquerque nº 32, em Setembro desse mesmo ano, com a execução do “hino operário A Internacional” (2).

Na sequência dessa iniciativa, o núcleo local do Partido Socialista, liderado localmente pelo marceneiro António Vicente Santos Júnior, concorreu, pela primeira vez,  às eleições autárquicas em Maio de 1919, obtendo 45 votos.

Por outro lado, está por conhecer a influência local e  a sua implantação, nos anos da República, do movimento sindical anarcossindicalista, enquanto a influência local do PCP, fundado em 1921, só comece a ter algum impacto junto dos trabalhadores deste concelho a partir dos finais da década de 1930, situação também já abordado anteriormente.

Sabe-se, contudo, que, quando da publicação da legislação corporativa de 1933, que acabou com a independência do movimento sindical, existiam em Torres Vedras representações da Associação de classe dos caixeiros, do Sindicato único dos operários da Industria e construção civil e do Sindicato único dos metalúrgicos (3).

Ficam assim registadas algumas pistas para quem queira investigar as origens do movimento social de cariz operário e sindical neste concelho.

(1)    – in “Jornal de Torres Vedras” de 7 de Maio de 1885;

(2)    - leiam-se as edições de 5 de Abril e 19 de Julho de 1917 de “A Vinha de Torres Vedras”;

(3)    – leia-se RAMOS, Hélder Ribeiro, A Consolidação do Estado Novo em Torres Vedras – Poder e oposição – 1926/1949, T. Vedras, ed. Colibri/CMTV, 2019.

 

 

 

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Sizandro em Fúria