quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Data de 1729 a mais antiga “Monografia” sobre Torres Vedras


Talvez seja um pouco exagerado falar de “monografia” para referir um manuscrito que sistematiza várias informações sobre a História e o Património de Torres Vedras.

Mas existe nesse documento uma primeira tentativa de organizar um conjunto de informações históricas sobre o concelho, atitude que é pioneira em relação à História local deste concelho.

Referimo-nos ao manuscrito intitulado “Livro de Notícias Varias, composta por hum vario autor. Anno de 1729”, que esteve, primeiro, depositado na Biblioteca Municipal de Torres Vedras, e se encontra actualmente à guarda do Arquivo Municipal.

Quando consultámos pela primeira vez esse manuscrito, em 1988, encontrava-se junto um pequeno papel em anexo onde se indicava que esse “manuscrito foi feito pelo capitão Luiz Botto Pimentel Corte real e pertencia ao sr. Augusto Botto Pimentel, morador na casa da Ribeira, na Bulegueira, que em 1926 o mostrou a Júlio Vieira”.

Esta anotação, datada de 26 de Maio de 1976, era assinada pelo conhecido arqueólogo torriense, sr. Leonel Trindade.

Pouco se sabe sobre a vida do capitão Boto Pimentel. Terá vivido entre 1684 e 1741, a fazer fé na placa toponímica que se encontra na rua baptizada com o seu nome, e pertencia a uma das mais antigas famílias do concelho, ainda hoje existente.

Júlio Vieira afirmou que a família dos Bôtos “em 1729 era representada pelo capitão Luiz Bôto Pimentel Côrte Real, autor do manuscrito a que faço referência (…) e que naquela época era “vereador mais velho”.

Voltando ao manuscrito em causa, ele foi pela primeira vez mencionado com data e autoria correcta pelo citado Julio Vieira, na sua “Torres Vedras Antiga e Moderna”, obra editada em 1926.

Contudo, na 2ª edição da obra de Madeira Torres, “Descripção Historica e económica da villa e termo de Torres-Vedras”, publicada em 1862, os seus editores e anotadores, Dr. José António da Gama Leal e bacharel José Eduardo Cezar de faro e Vasconcelos, referem-se amiudadas vezes a uma “memória” de 1734 que nos parece ser o mesmo documento a que nos estamos a referir.

Comparando as informações por eles atribuídas à tal memória de 1734 com as informações do “Livro de Notícias Várias” de 1729, elas são , na grande generalidade, coincidentes.

Isto leva-nos a colocar duas hipóteses:

- ou aqueles editores copiaram mal os dois últimos algarismos do rosto do manuscrito, o que é perfeitamente possível, pois a forma como os números 2 e 9 estão grafados podem ser confundidos com os números 3 e 4;

- ou o manuscrito de 1729 foi uma primeira versão, uma espécie de “caderno de apontamentos”,  que serviu de base para uma outra versão, passada a limpo, com a data de 1734.

Esta última hipótese também é credível já que, em 1734, o capitão Boto Pimentel ainda estava vivo.

Porém, até hoje, nunca foi encontrada qualquer versão datada de 1734.

É igualmente importante analisar o “Livro de Notícias Várias (…)” no contexto da historiografia característica da época.

(excerto de uma passagem do documento)


Oliveira Marques, no volume primeiro da sua “Antologia da Historiografia Portuguesa”, editada em 1974 pelas Publicações D. Quixote, considera que, sendo a historiografia portuguesa de setecentos dominada por uma “ideologia clerical”, consequência do predomínio eclesiástico na historiografia da época, marcada pela profusão de “histórias monásticas (…) tradutoras de uma lamentável ausência de espírito crítico e de uma assombrosa guarida à lenda e à patranha”, já se registavam então alguns progressos na “maneira de redigir a história”, marcada pela influência humanista, concedendo o “documento como fonte primeira da história”.

Esta influência provoca, na época, apesar do domínio da tal “história clerical”, um “surto  de novos métodos críticos e comparativos com os primeiros passos das ciências auxiliares –a diplomática, a paleografia, a filologia, a arqueologia, a cronologia, etc”, atitude que se reflecte na historiografia portuguesa.

Apesara deste avanço, Oliveira Marques alerta para o facto de “que o recurso a essas “ciência auxiliares”, pelo estado mais que infantil em que se encontravam ainda, escondia perigos imensos, quais os de extrair conclusões e fomentar hipóteses a partir de dados que de verídico nada tinham”.

De facto, o documento por nós aqui recordado, revela algumas das novidades que começam a surgir em setecentos, pois o texto do capitão Boto Pimentel recorre a várias fontes, citando a sua origem (obras impressas, manuscritos existentes nos arquivos da Câmara, pedras tumulares, etc.), mas também comete alguns erros.

Quanto ao estilo, o “Notícias Várias (…)” parece estar mais de acordo com a caracterização feita por Oliveira Marques para as narrativas ao estilo medieval que ainda eram dominantes na época: o documento em causa apresenta uma “ordenação e abundância desconexa de factos”, residindo aqui um dos maiores defeitos do manuscrito.

O Manuscrito é um único caderno que se pode dividir em 3 partes distintas. Numa primeira parte intitulada “Reys de Portugal”, descreve-se, resumidamente, a vida dos nossos monarcas, desde Afonso Henriques até D. João V, com pouco interesse. Numa segunda parte, que é aquela que nos interessa, reúnem-se, de forma desordenada, várias informações sobre Torres Vedras, sendo a partir desta parte que o autor começou a numerar as páginas do caderno.

Finalmente, temos uma terceira parte de apontamentos dispersos, uma descrição da evolução e valor das moedas portuguesas, onde aparecem dados dispersos sobre História Universal e de Portugal, sem nada de relevante. Contudo, no meio dessas notas dispersas, semeadas no conteúdo genérico desta terceira parte, encontram-se mais algumas informações sobre Torres Vedras.

Um dos aspectos a valorizar neste conjunto da apontamentos sobre Torres Vedras é o facto de eles terem sido escritos antes do incêndio do cartório da câmara, em 1745, e do efeito devastador do terramoto de 1755, pelo que, neste ensaio de monografia, se encontram transcritos, em primeira mão, documentos desaparecidos na voragem dos referido e trágicos acontecimentos, como é o caso, por exemplo, de uma carta de D. Afonso IV, integralmente citado neste documento, sobre a doação de uma vinha.

Há ainda a tentativa de reproduzir graficamente símbolos e letras de sepulturas, lápides e brasões, alguns já desaparecidos.

Seria interessante editar e tornar acessível ao público torriense este documento, anotado criticamente, mais por curiosidade do que pela novidade, pois, o que de mais importante nele se encontra, já foi usado por Júlio Vieira e pelos anotadores da 2ª edição da monografia de Madeira Torres  nas obras já citadas.

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

1921 - Há Cem anos, umas Eleições em Torres Vedras


Saidos recentemente de umas eleições autárquicas, recordamos Torres Vedras durante um outro acto eleitoral, de há cem anos, as eleições para o parlamento de 1921.

Em resultado da instabilidade política que se seguiu à queda do governo de Bernardino Machado, em 21 de Maio, e após nomear o liberal Tomé de Barros Queirós, o Presidente de República, António José de Almeida, dissolveu o parlamento, usando, pela primeira vez, os poderes de dissolução que lhe tinham sido conferido pela revisão constitucional de 1919, convocando eleições para 10 de Julho de 1921.

Esse acto eleitoral decorreu num período de grande agitação politica, no qual, pela primeira vez, "pareceu que o monopólio democrático ia ficar em perigo" (1), eleições que apresentaram “certas particularidades em relação às eleições precedentes (...): realizaram-se sob um governo não democrático" ["Liberal"] "e insuspeito de fazer a "política invisível" do Partido Democrático; (...) foram as primeiras em que tomaram parte listas retintamente monárquicas (...) foram mais mobilizadoras e participantes do que as eleições anteriores (...)" [as de 11 de Maio de 1919](2).

Além disso, concorreram eleitoralmente, e pela primeira vez, vários partido republicanos recém criados, nomeadamente o Partido Republicano Liberal ("Liberais") e o Partido Republicano Reconstituinte Nacional ("Reconstituintes"), aparentemente em condições de se baterem, de igual para igual, com o dominante Partido Republicano Português ("Democráticos”).

Excluindo o curto consulado "sidonista", foram estas as únicas eleições onde, a nível nacional, os "Democráticos" foram derrotados.

Torres Vedras era o centro de um importante círculo eleitoral, o nº 31, ao qual pertenciam, para além deste concelho, os concelhos de Cascais, Lourinhã, Mafra, Oeiras e Sintra, elegendo 3 deputados.

Em Torres Vedras, o ano de 1921 iniciou-se politicamente com a eleição, pelo Senado da Câmara, do novo elenco do executivo camarário.

Os executivos camarários eram, então,  eleitos indirectamente pelos Senados Municipais, que os confirmava anualmente, sendo o Senado o equivalente às actuais assembleias municipais, eleito por sufrágio popular, e o “executivo” o equivalente às Câmaras actuais, escolhida pelo Senado.

O executivo camarário torriense era, nessa data, de coligação. Desse executivo faziam parte 3 "liberais”, que detinham igualmente a presidência, 3 “democráticos” e 1 “reconstituinte”. Contudo, ainda antes das eleições de Julho, esta distribuição foi alterada, devido ao facto de um dos elementos escolhidos para representar os “democráticos” ter aderido ao partido “reconstituinte”, sem ter abandonado aquele executivo. Deste modo, os “democráticos” perderam muita da influencia que ainda lhes restava no executivo municipal.

Os grandes debates, a nível da política local, passavam pelas páginas dos jornais Ecos de Torres e 0 Torreense, ambos comprometidos politicamente, o primeiro com os "reconstituintes" e o segundo com os "liberais”.

O Partido Republicano Reconstituinte Nacional era dirigido por Álvaro de Castro, dissidente do Partido Democrático, tendo-se formado em 1920. Em termos locais os "reconstituintes" receberam adesões de vários ex-militantes do Partido Democrático.

Por sua vez, o Partido Republicano Liberal formou-se em 1919, tendo por base uma "coalizão de evolucionistas, centristas, unionistas, independentes e presidencialistas, que esperavam formar um segundo partido capaz de se opor ao P.R.P” (3).

Quanto aos "democráticos", encontravam-se em acentuada perda de influência a nível local, sem um orgão de imprensa que em Torres Vedras defendesse a sua acção e perdendo representatividade no executivo, editando apenas, em 9 de Julho, um exemplar único de “O Democrático”, de propaganda à sua candidatura.

No outro extremo, os monárquicos, sem imprensa afecta em T. Vedras e afastados do poder politico, recuperavam algum poder de iniciativa, participando activamente na Associação Comercial de Torres Vedras e na crescente organização dos interesses        corporativos dos agricultores da região.

Representando os interesses dos agricultores, surgiu, em 8 de Janeiro de 1921, o jornal Federação Agrícola, orgão da Federação de Sindicatos Agricolas do Centro de Portugal e que veio substituir, na imprensa local, o antigo Vinha de Torres Vedras . A sua administração tinha por sede o Sindicato Agricola de Torres Vedras, mas a sua redacção funcionava em Lisboa, no Largo do Carmo, onde estava a sede dessa federação.

Este jornal veio a transformar-se no porta-voz de uma candidatura dita “agrícola”, liderada por Tiago Sales, médico da Lourinhã, republicano histórico, importante proprietário agrícola, presidente daquela “federação”, apoiada pelo “Núcleo Agrícola de Torres Vedras”, movimento independente, fundado em 10 de Agosto de 1920.

Note-se que o número de eleitores era muito restrito, apenas homens, maiores de 21 anos, sabendo ler e escrever, vigorando, então, o Código Eleitoral de 3 de Julho de 1913.

Terá residido nesta lei uma das principais causas da deslegitimação do regime republicano, ao reduzir drasticamente o número de eleitores, num país que, em 1910, tinha cerca de 75% de analfabetos, a maior parte destes concentrados no meio rural, que, nessa época, correspondia praticamente a toda a população que vivia fora do centro de Lisboa.

No concelho de Torres Vedras, em 1921, apenas 23,6% dos adultos, maiores de 21 anos, estavam em condições de se tornarem eleitores.

Além disso, apenas 68,5% dos que se encontravam nessas condições estavam recenseados.

Em resultado das eleições de   10 de Julho de 1921  foram eleitos, pelo círculo de Torres Vedras, dois candidatos do Partido Democrático, Lúcio de Azevedo e Fausto Cardoso de Figueiredo, e um dos "liberais", Constâncio de Oliveira. Este foi dos poucos círculos nacionais onde os democráticos saíram vencedores.

Analisando os resultados apenas a nível concelhio, tendo saído igualmente vitoriosos os candidatos  “democráticos”, o terceiro lugar pertenceu ao candidato monárquico José Maria Teles da Silva, enquanto que o “agrário" Tiago Sales, que muitas esperanças tinha alimentado em relação a estas eleições, principalmente quanto ao apoio neste concelho, se quedou pelo 4º lugar, embora tenha sido o candidato mais votado no concelho da Lourinhã (4).

Ainda mais decepcionante foi a prestação no concelho, de "liberais" e "reconstituintes” (ver quadro em anexo).

No Concelho existiam 6 assembleias eleitorais, englobando, cada uma, várias freguesias, sedeadas em  Stª Maria (reunindo as 4 freguesias urbanas), Turcifal, S. Pedro da Cadeira, Ramalhal, Dois Portos e Runa.

Analisando os resultados nas assembleias eleitorais do concelho, é significativo o bom resultado dos monárquicos em todas as assembleias rurais, tendo vencido as eleições em três delas (Ramalhal, Dois Portos e Runa).

Foi o peso eleitoral da assembleia urbana que deu a vitória concelhia aos "democráticos", pois se retirarmos os votos obtidos por todas as candidaturas na assembleia de St° Maria, o candidato monárquico seria o vencedor neste concelho.

Foi igualmente significativo que o melhor resultado conseguido por um candidato "reconstituinte" (Helder Ribeiro) e um dos dois melhores obtidos por um candidato "liberal" (Constâncio de Oliveira), fosse na assembleia "urbana", onde a influencia da imprensa partidária, conotada com esses dois partidos, terá exercido alguma influência.

A candidatura "agrária" de Tiago Sales apenas beneficiou de resultados acima das expectativas nas assembleias do Turcifal e de S.Pedro da Cadeira, as duas únicas freguesias rurais onde os monárquicos não ganharam.

Mas o facto mais significativo foi os "democráticos", apesar de não beneficiarem neste concelho de uma "boa imprensa", com escassa influência a nivel do executivo camarário, e desgastados políticamente, terem conseguido que os seus dois candidatos fossem os mais votados neste concelho, o que em muito contribuiu para a sua vitória no circulo eleitoral (5).

Douglas Wheeler (6) considera o ano de 1921 como "um importante ponto de viragem na história do fracasso da democracia em Portugal" durante a primeira república, isto porque tendo as eleições de 10 de Julho levado ao "aparecimento de um segundo partido, com possibilidades que lhe permitiam fazer pressão para reformar e remodelar o P.R.P., foi cortado cerce por uma insurreição militar" que, em 19 de Outubro de 1921, depôs, de forma dramática, o governo de António Granjo, um dos assassinados dessa chamada "noite sangrenta", levando à dissolução do parlamento e à convocação de novas eleições para Janeiro de 1922, nas quais os "Democráticos" recuperaram a sua "usual maioria".

(1 (1)    - WHEELER, Douglas L., História Política de Portugal de 1910 a 1926, Publicações Europa-América, s/d (edição original de 1978), pág.226 ;

(2 (2) - LOPES, Fernando Farelo, Poder Político e Caciquismo na 1ª República Portuguesa, Editorial Estampa, 1994, pp.152-153;

( ( (3)  - WHEELER, ob.cit., p.293;

(4 (4)  – leia-se a comunicação inédita, da minha autoria, “O Eleitorado no Concelho da Lourinhã em 1921”, apresentada no encontro de História Local realizado naquela localidade em 27 de Abril de 1993, existindo uma cópia da comunicação na posse da Câmara Municipal da Lourinhã;

(5 (5) – Sobre este acto eleitoral no concelho de Torres Vedras, leia-se a nossa comunicação inédita, de 52 páginas, “Elites Locais e Comportamentos Eleitorais em T. Vedras – As eleições de 10 de Julho de 1921”, apresentada no ISCTE em 1997 e da qual existe uma cópia na BMTV. Para uma contextualização histórica destas eleições, leia-se a minha tese “Republicanos de Torres Vedras”, publicada em livro;

(6 (6)  - WHEELER, ob.cit., p.293.

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

A Geografia do Voto no Concelho de Torres Vedras - Autárquicas de 26 de Setembro de 2021



Com base num conjunto de mapas do concelho, vamos tentar visualizar o comportamneo eleitoral nas várias freguesias do Concelho nestas eleições autárquicas, bem como a situação de cada partido e movimento nessas freguesias.

Usamos cores para identificar os vários partidos ou movimentos concorrentes, tendo esgotado quase todas as cores numas eleições disputadas por 7 partidos e movimetos.

Assim usámos os tradicionais ROSA para identificar o PARTIDO SOCIALISTA, LARANJA para identificar a coligação "AFIRMAR TORRES VEDRAS" ( Onde o PSD foi o partido maioritário da coligação PSD/CDS/PPM), o VERMELHO para a CDU (coligação dominada pelo PCP). Para os restantes partidos tivemos de escolher cores aleatórias, VERDE para o ALIANÇA, AZUL para o BLOCO DE ESQUERDA, AMARELO para o movimeto independente UNIDOS POR TORRES VEDRAS e o PRETO  para identificar o CHEGA.

Nos dois primeiros mapas identificamos, no primeiro, os partidos mais votados para a Câmara Municipal (CM) e para a Assembleia Municipal (AM), cuja situação neste caso foi idêntica, e os mais votados para as Assembleias de Junta de Freguesia (AJF), havendo, neste caso, uma única diferença, que foi reeleição do PSD para a Junta da Ponte do Rol, diferente da opção para a CM e para a AM, jogando aqui o factor mais personalizado dessa votação.

Covém referir, contudo, que só o PS, o PSD e o PCP concorreram à AJF em todas as 13 freguesias, seguindo-se  a Aliança que concorreu em 5. Só à AJF da Cidade (União de Freguesias de S. Pedro, Stª Maria e Matacães) é que concorreram todos os 7 prtidos e movimentos, os mesmos que concorreram à CM e à AM (resultado já por nós divulgados  AQUI e analisados AQUI).

Nos próximos mapas podemos ver quais foram os "segundos" mais votados, respectivamente para a CM e para a AJF:



Na eleição para a Câmara, o primeiro mapa mostra como o PSD perdeu o lugar de liderança como força tradicioanl de oposição ao poder do PS, lugar ocupado  recém criado movimento UTV. 
Já no segundo mapa, o das AJF, ficamos com uma imagem das lideranças de oposição em cada freguesia, sendo de notar que a UTV destaque, pois apenas concorreu na freguesia urbana.

Nos mapas a seguir, tendo por base, não os números em si, mas a percentagem de votos obtidos, podemos ver onde é que cada partido obteve os melhores e os piores resultados, com base na votação para a CM.

Usámos como referência o resultado da CM porque, conforme já dissemos, só para a CM, AM e Junta urbana é que concorreram todos os partidos e só nestas podemos comparar o desempenho dos partidos concorrentes.

Em termos globais, partidos como o PS, PSD e PCP, os únicos que concorreram a todas as freguesias, acabram por perder votos para ou outros partidos na CM e na AM.


Não deixa de ser curioso que tanto o BE como o CHEGA tenham obtido a sua melhor percentagem na freguesia da A-Dos-Cunhados.

Já a novidade UTV parece ter tido mais impacto no centro urbano.

Como se esperava, o PCP teve o seu melhor resultado na Carvoeira e o PSD em Campelos. Curiosa é a prestação da Aliança na freguesia do Ramalhal.

Não deixa igualmente de ser curios que tenha sido na freguesia urbana que o PS teve a sua pior prestação em percentagem, enquanto o pior resultado do PSD na Carvoeira se justificará pelo voto "útil" na candidatura do PS para evitar uma vitória da CDU. 

O voto útil da direita mais radical na candidatura do PSD na Ponte do Rol, onde se lutava taco a taco com o PS, parece justificar o pior resultado percentual do Chega nesta freguesia.

A polarização à esquerda e à direita, entre o PSD e o PS, na disputa da freguesia da Freiria, recuperada por este último, parece justifica também que 4 dos partidos tenham obtido aqui o seu pior resultado.

Muitas vezes, e principalmente fora do meio urbano, a votação nos três principais partidos para a CM e AM manteve-se muito próxima da registada para a AJF, já que muitas vezes a maioria dos votantes não têm tendência a divresificar o seu voto, situação que acaba por prejudicar os partidos que não concorrem a todas as freguesias.

Existe outro dado também interessante, revelado pelo mapa seguinte, a distribuição da abstenção pelas 13 freguesias, usando as cores dos semáforos para assinalar o nível da abstenção em cada uma delas :abaixo da média do concelho - 45,08% (menos que os 46,35% nacionais)- com VERDE (abaixo dos 41%), dentro da Média do Concelho ( acima dos 41% e abaixo dos 46%) a AMARELO,  e acima da média do concelho (mais de 46%) a VERMELHO:

Não deixa de ser curios que foi em 5 das freguesias onde havia uma luta mais renhida que a abstenção foi mais baixa que a média, destacando-se o caso da Carvoeira, onde a abstenção foi apenas de 33,35%.

Disputava-se, neste caso, a liderança entre o PS e a CDU, tentando esta última recuperar uma freguesia que, em 2017, tinha perdido apenas por 3 votos. Desta vez o PS foi reconduzido, aumentondo a sua distância em relação à força rival.

Em Dois Portos havia igualmente uma lista forte da CDU, mas mais uma vez o resultado beneficiou o PS e o PSD.

Na Feiria, em Campelos e na Ponte do Rol, a luta era entre o PS e o PSD. O PS bateu o seu rival na Freiria, onde lutava pela recondução. Pelo contrário, em Campelos, o PS perdeu a freguesia a favor do PSD. Já na Ponte do Rol, apesar da maioria ter votado no PS para a CM e a AM, não conseguiu reconquistar a freguesia que pertencia ao PSD.

O resultado da abstenção mostra que as disputas, ao nível de freguesia, cativam mais os eleitores do que as lutas a nível mais central, na CM e na AM, pois, apesar do aprarecimento de novas candidaturas e da renovação previsivel destes orgãos, as grande freguesias, como a Silveira ou A-dos-Cunhados e, principalmente a freguesia urbana, não motivaram a ida às urnas. Foi em A-Dos-Cunhado que se registou a abstenção mais elevada, 47,91%. 

Passamos agora a observar a prestação dos vários partidos, individualmente, com três tons a significar a maior o menor influência, de acordo com a percentagem de votos para a CM.


Neste mapa é de realçar a perda de influência do PS no centro urbano, um sinal a ter em conta na estratégia futura desse partido. A sua melhor percentagem aconteceu em S. Pedro da Cadeira (53,75%) e a pior foi, exactamente, na freguesia Urbana (33,53%). Em média, no concelho, teve 39,97% (contra 44,39% em média para as AJF).
Pelo contrário é no centro urbano que o UTV consegue os melhores resultados percentuais (30,38%), mas expandindo-se para outras áreas, sendo significativo o caso do Turcifal. O seu pior resultado aconteceu na Freiria (11,26%).
Já o PSD perdeu muita influência, não só na zona urbana, mas também em várias fregusias rurais, com excepção de Campelos, onde conseguiu a sua maior percentagem (37,93%), e Freiria, na primeira uma vitória pessoal de um candidato vencedor. No caso da Freiria, embora tenha perdido a freguesia para o PS, o peso percentual deve-se à polarização do voto útil à direita. A sua pior percentagem foi na Carvoeira, freguguesia disputada entre o PS e a CDU. Registe-se a grande diferença de percentagem média obtida por esse partido na CM, 18,27%, em relação à obtida no conjunto da votação para as AJF, 26,38%, prova da má escolha dessa aliança para liderar a lista para a Câmara.
O PCP obtem os seus melhores resultados percentuais nas duas freguesia que, historicamente, sempre lhe deram o melhor resultado, Dois Portos/Runa e Carvoeira, obtendo nesta última a sua melhor percentagem, 14,26 para a CM (33,08 para a AJF). O seu pior resultado foi registado em Campelos, com 2,76%. Sendo um dos três partidos que concorreu a tudo, também se pode assinalar a significativa diferença percentual entre os resultados para a CM (4,68%) e o conjunto das AJF (7,82%).
A Aliança foi uma das surpresas da noite eleitoral, revelando um resultado significativo nas freguesias rurais, apesar de só ter concorrido em 5, obtendo o seu melhor resultado na freguesia do Ramalhal (11,45%), obtendo no centro urbano o seu segundo melhor resultado (7,82%). Em média teve no concelho 5,68%. O seu pior resultado registou-se na Freiria (1,19%).
Concorrendo pela primeira vez às autarquias, o Chega, ficando muito longe das expectativas alimentadas pelo resultado da André Ventura neste concelho nas presidencias, conseguiu, contudo, dois dos seus objectivos, ultrapssar o Bloco de Esquerda e eleger, pela primeira vez, um autarca, um representante na Assembleia Municipal.
Conseguiu quase o dobro da percentagem do BE, 4,12%, tendo obtido a percentagem mais alta na freguesia de A-Dos-Cunhados, com 6,16%, e noutra freguesia do litoral, a Silveira, com 5,17%, duas das freguesias onde a abstenção foi mais alta. Obteve igualmente um bom resultado na freguesia do Turcifal, 4,67%, exactamente na freguesia onde habita o candidato à Câmara por esse partido. Em contrapartida teve o seu pior resultado na Ponte do Rol, 2,74%, uma freguesai onde o voto foi muito disputado, tendo funcionado aqui o voto útil noutro candidato. No centro urbano e nas freguesias tradicionalmente mais à esquerda, Dois Portos/Runa e Carvoeira, o seu resultado foi dos mais fracos no concelho.
A realidade local parece desfazer dois mitos que ando muito por aí, que o Chega vai buscar votos à abstenção e ao eleitorado de protesto que vota no PCP ou no BE.
Na realidade, o eleitorado desse partido parece ter origem no CDS e no PSD.

O BE foi um dos derrotados da noite eleitoral, apesar de apresentar uma candidatura forte e credivel à presidência da Câmara. Perdeu votos, ficou em último lugar, perdeu o seu único eleito na AM.
Em termos percentuais teve 2,14%, obtendo o seu melhor resultado na freguesia de A-Dos-Cunhados, com 2,64% (curiosamente a mesma onde o Chega teve, igualmente, o seu melhor resultado). Obteve igualmente resultados acima da médias noutras duas freguesias onde o Chega também obteve bons resultados (Silveira e Turcifal). Diferenciou-se do partido da extrema direita pelo facto de ter também obtido resultado acima da média em freguesias onde o Chega teve alguns dos seu piores resultados, Dois Portos/Runa e na freguesia urbana.
O pior resultado do BE aconteceu na freguesia da Ponte do Rol, onde ficou nos 1,11%.

Por último, como complemento para ajudar a analisar os resultados, deixamos o seguinte quadro onde se indicam os ganhos e perdas em votos, quer comparando com as autárquicas de 2017, quer em relação às legislativas de 2019. Na comparação das autárquicas publicamos a situação nos dosi orgão de eleição directa, Câmara Municipal (CM) e Assembleia Muncipal (AM), bem como  a situação quanto ao total de votos para o conjunto das 13 assembleias de freguesia (AJF). Não é possível compara a situação dos UTV, da Aliança e do Chega, pois nenhum destes concorreu em 2017. Também fazemos a comparação com as legislativas de 2019, usando como termo de comparação o resultado para a AM, o orgão mais parecido com a Asssembleia da República (AR) em termos autárquicos. Nesste caso já é possível incluir o Chega e a Alianaça nessa comparação. Quanto à coligação "Afirmar" Torres Vedras (PSD/CDS/PPM), usámos como termo comparativo a soma de votos dos 3 partidos que a formaram e que concorreram separados em 2019:

Diferença de votos (autárquicas de 2017 e legislativas de 2019 , com autárquicas de 2021)

Partidos

CM (2017-2021)

AM (2017-2021)

AJF (2017-2021)

AR (legislativas 2019) / AM ( autárquicas 2021)

PS

(-) 3307

(-) 3016

(-) 1563

+ 107

PPD/CDS/PPM

(-) 4409

(-)3809

(-) 983

(-) 4021

PCP-PEV

(-) 666

(-) 621

(-)  241

(-) 90

BE

(-) 332

(-) 407

Não comparável

(-) 2546

CH

Não comparável

Não comparável

Não comparável

+ 1047

Aliança

Não comparável

Não comparável

Não comparável

+ 1452




segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Resultados do Concelho de Torres Vedras 2021

 

(Fonte dos quadros : Jornal de Mafra)


(Dados CNE)

Eleitores Inscrito – 69 477 (67 470 em 2017)

Abstenção – 46,08% (46,13% em 2017)

Câmara Municipal – 2021 (entre parêntesis, resultados em 2017)

 

Nº votos

%

Vereadores

PS

15 253 (18 560)

39,97 (51,06)

5 (6)

UTV

8 216

21,53

2

PSD/CDS/PPM

6 973 (11 382)

18,27 (31,31)

2 (3)

Aliança

1 977

5,18

0

PCP-PEV

1 784

4,68 (6,74)

0

Chega

1 571

4,12

0

BE

817 (1149)

2,14 (3,16)

0

Brancos

907 (978)

2,38 (2,69

-

Nulos

661 (674)

1,73 (1,85)

 

 

Assembleia Municipal – 2021 (entre parêntesis, resultados em 2017)

 

Nº votos

%

Deputados

Municipais

PS

14 372 (17 338)

37,68 (47,84)

12 (14)

PSD/CDS/PPM

7 575 (11 384)

19,86 (31,32)

6 (9)

UTV

7 360

19,29

6

PCP-PEV

2 224 (2 845)

5,83 (7,83)

1 (2)

Aliança

2 000

5,24

1

Chega

1 767

4,63

1

BE

1 086

2,85 (4,11)

0 (1)

Brancos

1 093 (1084)

2,87 (2,98)

-

Nulos

670 (698)

1,76 (1,92)

-

 

Assembleias de Freguesia (Total de 13) -  2021 (entre parêntesis, resultados em 2017)

 

Nº Votos

%

Mandatos

Presidências

PS

16 932 ( 18 495)

44,39 (50,88)

71 (76)

11

PSD/CDS/PPM

10 063 (11 046)

26,38 (30,39)

45 (45)

2

Independentes

3 305 (1 826)

8,66 (5,02)

6 (6)

0

PCP-PEV

2 984 (3 225)

7,82 (8,87)

8 (8)

0

Aliança

2 167

5,68

5

0

Chega

452

1,18

0

0

BE

334

0,88

0

0

Brancos

1 180 (1 043)

3,09 (2,87)

-

-

Nulos

730 (712)

1,91 (1,96)

-

-


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