quarta-feira, 20 de julho de 2011

20 DE JULHO DE 1936 - SANTA CRUZ, O MEU AVÔ E O AVIÃO DE SANJURJO

A fotografia em cima mostra o meu avô, António Ferreira Aspra, fotografado junto ao avião de Sanjurjo, no campo de aviação de Santa Cruz, fotografia que terá sido tirada a 19 ou 20 de Julho de 1936.

Esta foi, pelo menos, a memória que foi passando na família quanto à identificação da fotografia.

Recentemente procurei confirmar a matricula do avião da fotografia de cima, comparando-a com outra fotografia. A única que descobri, e que reproduzo abaixo, mostra o momento em que Sanjurjo, em Cascais, entrava no avião para o fatídico voo, mas infelizmente as pessoas à volta tapam as letras da matricula (VAA). Contudo, numa análise atenta e ampliando essa fotografia, é possível ver alguns pequenos pontos das letras do avião (assinaladas por mim com círculos vermelhos na terceira fotografia) e vemos que o primeiro traço pode corresponder perfeitamente à parte superior do “braço” esquerdo da letra V, e os outros dois pontos assinalados parecem corresponder na perfeição, respectivamente às partes inferiores do “braço” esquerdo e do “braço” direito” das letras A.


(Quinta da Marinha, em  Cascais: O general Sanjurjo prepara-se para o fatídico voo.
Fonte : site "Accidentes que nos hacen pensar", http://www.turismoyarte.com/ )

Confirma-se assim que o avião da fotografia do meu avô e a última tirada ao avião de Sanjurjo são do mesmo aparelho. Claro que é necessário ainda mais dados, nomeadamente um registo correcto da matricula desse avião ,informação que até hoje não descobri. Tendo em conta que esse voo foi semi-clandestino, não sei se alguma vez será possível confirmar a matricula do avião. Esta seria, cruzando as duas fotografias, EC-VAA…

É histórico que o avião que devia levar o general Sanjurjo para Espanha, dois dias depois do início do levantamento militar contra a República espanhola, fez uma escala no então ainda improvisado campo de aviação existente na Praia de Santa Cruz, antes de rumar para Cascais, onde aquele general vivia exilado.

A esse facto refere-se Carlos D’Ornellas em 1952 (1) , jornalista simpatizante da causa “nacionalistas” e que esteve em Espanha por várias vezes, em reportagens de propaganda a favor do regime franquista. Segundo a memória que publicou na Gazeta dos Caminhos de Ferro, ele refere que um “avião clandestino, tripulado pelo aviador espanhol Juan António Ansaldo, aterrara no campo de aviação da Praia de Santa Cruz, na noite de 19 [de Julho]. Participado o caso às autoridades portuguesas, estas mandaram apresentar na Polícia Internacional o conhecido aviador, que foi intimado a levantar voo de Santa Cruz e ir para Alverca, sendo acompanhado pelo então capitão Pessoa de Amorim”

Chegado a Alverca, Ansaldo prestou aí declarações sobre o rumo do seu avião: apresentando a sua documentação de aviador civil “declarou ás autoridades portuguesas que viera de Pau (França), tendo aterrado em Salamanca e desejando seguir para Burgos”. Abastecendo-se aí. Levantou voo, “mas, em vez de se dirigir para Burgos, seguiu para Cascais tendo aterrado nos campos da [quinta da] Marinha”.

Aqui, continuando a seguir a descrição de Ornellas, vários automóveis entraram na Quinta da Marinha, “conduzindo várias famílias espanholas, que para ali se dirigiam a despedir-se do general José Sanjurjo”.


Mais completa, e com algumas diferenças, é a descrição dessa situação registada por César de Oliveira , baseando-se nas memórias escritas de Ansaldo:

“Em 20 de Julho, apresentou-se no Estoril ao general Sanjurjo o piloto espanhol Juan Ansaldo, que horas antes havia aterrado no aeródromo de Santa Cruz, a poucos quilómetros de Torres Vedras. O Governo português não levantou qualquer obstáculo á aterragem do avião. Ansaldo vinha buscar Sanjurjo para o transportar para Burgos, a fim de que este assumisse a chefia do movimento militar. Chegado a Portugal, Ansaldo, com o apoio da PVDE e do ajudante de campo do Presidente da República portuguesa, iniciou a preparação da descolagem do avião em direcção a Burgos. No entanto, Oliveira Salazar fez saber aos emigrados espanhóis, por intermédio do capitão Agostinho Lourenço, director da polícia política, que “interditava o uso de aeródromos militares para a descolagem do avião mas que nada tinha a ver com o que se passava em aeródromos civis”. Em reuniões sucessivas no Estoril – e sempre com o ajudante de campo do Presidente Carmona a fazer as ligações entre os emigrados espanhóis e as autoridades portuguesas - chegou-se a uma solução satisfatória para o lder do Alzamento e que “cobria” eventuais complicações para o governo de Salazar: o avião iria de Santa Cruz para Alverca. Aeródromo militar a 20 Km de Lisboa, aí seria reabastecido e deslocaria normalmente como se o fizesse para Espanha; aterraria, depois, num campo improvisado nas imediações de Cascais e aí embarcaria o general e rumaria a Burgos” (2) .

Esta versão parece indicar que o avião esteve mais tempo em Santa Cruz, à espera de que terminassem as negociações, do que a anterior notícia fazia entender.

Em Cascais, nesse dia 20 de Julho, já no início da tarde, o avião levantou voo , mas não conseguiu subir o suficiente, pelo que Ansaldo tentou regressar à pista, mas o avião acabou por se esmagar contra o solo, incendiando-se. O piloto foi cuspido e sobreviveu ao acidente, mas o general morreu logo no embate, ficando depois o seu corpo envolvido pelas chamas.


(o estado em que ficou o avião. Fotografia do Arquivo Fotográfico da Câmara de Lisboa)

A edição do Diário de Lisboa de 21 de Julho descreve as explicações de Ansaldo sobre o acidente:

“Ao levantar voo, um forte torrão, dos que abundam no local, ou uma cova, causou a rotura da hélice. Senti que o aparelho ia afocinhar mas consegui manter a horisontalidade. A queda inevitável foi, assim, em plano, de “barriga”. Gritei ao general que saísse do aparelho. Não me respondeu. Tentei ajuda-lo, mas não se movia. Julguei que havia perdido os sentidos, como eu depois os perdi ante a tragédia e os baldados esforços que fiz para a evitar. Mas não, o general estava morto. Quando as chamas o envolveram já estava insensível”.

O piloto desmentia assim a descrição feita por alguns observadores, que diziam ter visto o avião a cair na vertical, bem como a ideia, que continuou muito divulgada, segundo a qual o general tinha morrido queimado. Como revelou nessa mesma reportagem o marquês de Quintanar que observou o cadáver do general , este apresentava uma “ferida profunda, em cruz, que deve ter sido produzida por um ferro do aparelho, no momento da queda e que lhe deu morte imediata”. (3).

Logo correram rumores sobre a hipótese de um atentado, inicialmente atribuído aos republicanos portugueses, mais tarde, e perante o desenrolar dos acontecimentos em Espanha, atribuído a Franco, já que foi este que acabou por beneficiar com a morte de Sanjurjo, sucedendo-lhe na liderança dos nacionalistas, depois de, no ano seguinte, também o general Mola ter morrido noutro acidente de avião mal esclarecido.

Contudo, em termos oficiais, e com base no testemunho do piloto, o acidente foi atribuído ao excesso de carga e às más condições da pista de Cascais.

Segundo o piloto, este havia avisado o general Sanjurjo que levava carga a mais, mas este insistiu, pois queria levar o fardamento e armamento necessário às sua novas funções como líder dos rebeldes.

Mas é aqui que a história se complica. Como se prova pela facilidade com que o meu avô se fotografou junto do avião, quando ele esteve em Santa Cruz, podemos constatar duas coisas: uma que a presença do avião não era segredo em Torres Vedras, outra que era fácil o acesso a ele.

Esse acontecimento marcou a memória de muita gente em Torres Vedras da geração do meu avô. Ao longo do ano correram mesmo rumores de uma hipotética sabotagem do avião ainda em Santa Cruz.

Recentemente um amigo meu contou-me uma história, conhecida também de outras pessoas, que o pai dele contava em família ou junto das pessoas mais próximas: ele e outros republicanos de Torres Vedras, alguns deles com conhecimentos de aeronáutica, teriam sabotado o avião em Santa Cruz, destruindo algumas peças. O objectivo não era fazer cair o avião, nem matar ninguém, mas impedir que o avião levantasse voo, atrasando assim o transporte de Sanjurjo para Espanha. Para grande surpresa dos sabotadores, o avião levantou voo de Santa Cruz, prosseguindo a sua viagem para Alverca e Cascais.

Curiosamente também, a pessoa que contava esse episódio e que estava envolvido nessa sabotagem, era, não só um opositor ao salazarismo, como, à época, um dos melhores amigos do meu avô. Ambos eram figuras consideradas em Torres Vedras, mas pessoas reservadas, e que não eram conhecidas por mentirosas ou gabarolas.

O meu avô, cujas opiniões políticas que lhe conheci eram de admiração pelo “Estado Novo” e por Salazar, tinha contudo algumas facetas da sua história passada que desmentiam a total adesão ao regime. Neto de sindicalista, muito ligado aos socialistas de Aznedo Gneco e José Fontana, o meu avô era amigo de pessoas conotadas com o anarco-sindicalismo e esteve muito ligado ao associativismo mutualista nos seus tempos de juventude.

Em criança lembro-me de a sua papelaria ser frequentada regularmente por pessoas que conversavam com o meu avô sobre a situação política, criticando o regime, que eram interrompidas sempre que entrava um cliente na loja.

Contudo o meu avô não era do género de organizar ou participar em conspirações

Por sua vez, a pessoa que acima refiro como tendo participado na sabotagem do avião, era politicamente mais activo, sendo então elemento preponderante da chamada juventude republicano-socialista de Torres Vedras que se tentou organizar, nos anos trinta, contra a União Nacional, e foi membro do PCP depois do 25 de Abril.

Parece assim que era possível que opositores ao regime pudessem aproximar-se sem problemas do avião de Sanjurjo, enquanto este esteve estacionado em Santa Cruz.

Não deixa também de ser estranho que a notícia tivesse corrido tão depressa em Torres Vedras, e que rapidamente muita gente se deslocasse a Santa Cruz para ver e fazer-se fotografar junto do avião, tendo em conta a distância que essa praia estava então de Torres Vedras, numa época em que os transportes eram mais lentos e as estradas estavam em piores condições. Convém contudo esclarecer que o dia 19 era um Domingo, dia de descanso para muita gente, e o dia 20 era o dia de descanso semanal do comércio local.

Mesmo que tenha havido sabotagem do avião em Santa Cruz, esta pode não ter sido a causadora do acidente. Quanto muito pode ter potenciado o desfecho trágico desse voo.

Existem ainda muitos pontos obscuros por esclarecer.

Pessoalmente gostava de aprofundar um pouco esta história. Seria interessante se encontrasse por aí mais fotografias do avião de Sanjurjo em Santa Cruz, já que não acredito que só o meu avô se tenha feito fotografar junto do avião.

Será também interessante encontrar uma referência à matricula do avião. Contudo, dado o carácter quase clandestino do voo, será uma tarefa difícil.

É ainda provável que exista algum relatório da PIDE (então PVDE) sobre o assunto, já que se sabe que essa polícia política acompanhou de perto as demarches para que fosse possível realizar o voo de “resgate” do general Sanjurjo.

Não encontrei, nos arquivos da Salazar, disponíveis na net, qualquer referência ao assunto. Mas deve existir qualquer relatório oficial sobre o acidente.

Há ainda o recurso à imprensa portuguesa e espanhola da época.

Por último, a fonte mais importante usada por todos os que se referem ao acidente, o livro de Juan António Ansaldo, intitulado “Para que?”, uma edição de autor, publicada em Buenos Aires, onde dedica dez páginas (135 a 145) à sua passagem por Portugal para levar o general Sanjurjo, não se encontra em bibliotecas portuguesas, apenas está referenciado na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, mas infelizmente não está digitalizado.

Voltarei ao assunto quando tiver mais novidades

NOTAS:

(1) – ORNELLAS, Carlos d’ , “Por Espanha – Crónica de viagem”, in Gazeta dos Caminhos de Ferro, nº 1552, Lisboa, 16 de Agosto de 1952, pp. 227-228, edição disponibilizada na internet, no site da Hemeroteca de Lisboa;
(2) – OLIVEIRA, César, Salazar e a Guerra Civil de Espanha, ed. O Jornal, Lisboa 1987, pp.141-142;
(3) – Diário de Lisboa, edição de 21 de Julho de 1936, edição disponibilizada na internet, no site da Fundação Mário Soares.

3 comentários:

cecilia disse...

Tanbém andei em tempos à volta com este assunto mas não consegui nada concludente. Apenas alguém, q dizia ter estar envolvido na sabotagem em Sta cruz, me disse q isso, de facto, acontecera mas q não revelou mais "pq tinha netos..."
Cecilia

Rui Manuel C. Prudêncio disse...

Olá Venerando

Sei que em Torres Vedras houve distúrbios entre republicanos/socialistas/comunistas e pessoas apoiantes, admiradoras do general Sanrujo por ocasião do seu funeral, envolvendo insultos e coisas do género, a ponto de se verificarem algumas detenções efectuadas pela polícia.

Abraço

Vítor Rodrigues disse...

Boas,
No "Registro de aviones comerciales en Espana" - http://www.sbhac.net/Republica/Fuerzas/FARE/Materiales/Registro.htm - pode encontrar o EC-VAA, com o seguinte registo:
EC-VAA DH.80A Puss Moth 2246 G-ACBL EC-W18 EC-VAA Teodoro Martel Olivares > Francisco Moreno 27.01.34 Written off Cascais 20.07.36 Canc 12.11.40
EC-VAV -
Ou seja, parece confirmar-se a sua tese.