quarta-feira, 4 de julho de 2012

FEIRA DE S. PEDRO, um certame com 7 séculos de História e histórias...



O texto que aqui se divulga foi por nós escrito em 1993, por ocasião do 700º aniversário dessa feira centenária, editada numa plaquete com arranjo gráfico de Antero Valério, e distribuída gratuitamente durante a feira desse ano, por encomenda da Câmara Municipal.
Passados quase vinte anos sobre a sua publicação, pensamos que, no essencial, ainda se matém actual, embora não retrate as alterações que esse certame veio a conhecer a partir de 1999.
Para além de uma ou outra correcção e de lhe acrescentarmos um parágrafo dando conta, em poucas palavras, das alterações do espaço onde se realiza, mantivemos o texto original.
Espero que seja um contributo para se conhecer melhor a importância histórica, económica, social e cultural da Feira de S. Pedro:



O século XIII culminou três séculos de expansão económica da Europa Cristã e um dos resultados disso foi a formação do reino de Portugal. Para este reino, o séc.XIII representou o fim da reconquista e o reinado de D. Dinis (1261 – 1325), iniciado em 1279, o primeiro sem guerra, seria marcado por uma série de medidas administrativas tendentes a estabilizar a vida económica e social do reino. Uma dessas medidas foi a doação de Cartas de Feira a um grande número de localidades, entre elas, Torres Vedras.
Tendo passado pouco mais de cem anos sobre a reconquista, e "resolvido" o problema do seu povoamento, Torres Vedras recebia, em 1293, a sua primeira Carta de Feira, datada de 20 de Março. Foi a mais antiga fundada no distrito de Lisboa, era anual e realizava-se de 1 de Maio a 1 de Junho de cada ano. Era a de maior duração (30 dias) a sul de Santarém.
Virgínia Rau (1), que publicou e estudou as cartas de feira medievais portuguesas, destacou a originalidade da feira de Torres Vedras, por ser a única no reinado de D. Dinis em que os rendimentos da portagem e direitos de feira revertiam a favor de alguém, que não o Rei, como era usual, neste caso a favor da mãe de D. Dinis, D. Beatriz.
Ainda no reinado deste Rei, a 28 de Abril de 1318, é dada ao concelho de Torres Vedras uma nova carta de feira anual:

" Carta per que aia feira o Concelho de Torres uedras
“Don Denís pela graça de Deus Rey de Portugal e do Algarue A quantos esta carta Viren faço saber que eu querendo fazer graça e merçee Ao Concelho de Torres uedras mando que aia hy feira en cada huu ano que sse começe primeiro dia de Junyo e dure Ata primeiro dia de Julho por que mando e deffendo que nenhuu nõ faça mal nen força a nenhuu daqueles que aa ffeira ueeren nen nos prendan nen penhor en por díuída que deuan nen por outra cousa en quanto Affeíra durar e viijº dias dante da ffeira e oyto depois que a ffeira sair. E este tempo Ihys outorgo para poderen hír e uijr seguros con o sseu pero que se nõ entenda en esta segurança os que ouuessen fecto traiçõ ou Aleyue ou ffosen meus degredados. nen outro ssi nõ sse entenda que nõ seian penhorados polas díuídas e pelos preitos que na feira fezeren E qualquer que en outra guisa penhorasse ou prendesse ou ffezesse outro mal aaqueles que aa feira ueeren en uijndo Aa feira e estando en ela e nos oyto dias dante e oyto depois ficaria por meu enmígo e peitaria os meus encoutos de seis mil soldos e corregería en dobro o mal e a penhora e o desaguisado que a qualquer deles fezesse. E mando aos Tabaliões dos logares que Ihys den testemunyos do desaguisado que Ihis outros Alguus fezeren. En testemunyo desto mandey dar ao Concelho de Torres uedras esta mha carta Dante en Torres Vedras xxbiijº dias dabril El Rey o mandou Johã dominguis a ffez. Era. Mª-. CCCº-. Lvjª. Anos Steuã da guarda." (Chancelaria de D. Dinis, liv. III, foi. 119 v.).

Esta nova carta mudava a data da sua realização para os 30 dias entre 1 de Junho e 1 de Julho. Outra importante diferença prende-se com a alteração do prazo de penhora. Na primeira carta, os feirantes tinham segurança garantida e isenção de penhora desde os dois dias anteriores ao começo da feira até dois dias depois desta terminar. Nesta segunda carta, o prazo de segurança e isenção é alargado para oito dias antes a oito dias depois, o que parece revelar, não só um acréscimo de importância daquela feira, como um alargamento da área de influência da mesma aos locais que ficavam, pelo menos, a oito dias de viagem, o que representa um raio de cerca de quatrocentos quilómetros.(2)
Esses dois documentos de D. Dinis não fazem qualquer referência ao nome da feira, apenas à sua localização. De qualquer modo, parece residir nessas cartas a criação da hoje chamada feira de S. Pedro pois, a data da realização imposta pela segunda doação já coincide com o dia de S. Pedro.
Ana Maria Rodrigues, que estudou Torres Vedras nos séculos XIV e XV (2), refere que o período de 1 de Junho a 1 de Julho, referido para realizar a feira na doação de 1318, se manteve ao longo dos dois séculos que estudou.
A mais antiga referência a uma feira de S. Pedro neste concelho data de 1456 (3), mas parece referir-se à feira de Dois Portos, de acordo com a opinião de Ana Maria Rodrigues (4), pois o documento refere-se “aa feyra de Sam Pedro, que ssefaz em ho termo desta Villa” (5).
A atribuição do nome de S. Pedro à feira de Torres Vedras só se terá concretizado em 1521 quando D. Manuel, por carta de 16 de Agosto “a rrequerimento dos Juizes e officiaes da Villa de Torres Vedras, nos ordenamos ora de se fazer na dita Villa a feira que se cadanno fazia no termo delia, na igreja de Sam Pedro de Dois Portos por seu dia”. (6)
Não existe neste documento qualquer referência a outra feira de S. Pedro que se realizasse na vila. Essa transferência faz-se a pedido dos juízes e oficiais da vila, talvez porque sentissem que aquela feira de Dois Portos fazia alguma concorrência à feira da vila, que se realizava na mesma altura. (7)
Esse pedido dos Juizes e oficiais da vila revela talvez, alguma decadência da feira da vila, daí tanta preocupação em acabar com a concorrência, enquanto por outro lado parece explicar a futura designação dessa por aquela como ficou conhecida: Feira de S. Pedro da Vila.

Entramos então num período em que quase tudo se ignora sobre aquela feira. Provavelmente acompanhou a decadência geral do país nos finais do século XVI e princípios do século XVII.
Os Anotadores de Madeira Torres, ,na segunda edição inédita da parte económica da obra “Descripção Histórica e Económica da villa e termo de Torres Vedras” (8), cujo original existe depositado na Biblioteca Municipal de Torres Vedras, referem-se a uma Provisão Régia, transcrita no livro 1 de Registos da Câmara, folha 193, datada de 21 de Janeiro de 1620, mandando mudar a feira de S. Pedro para o dia de S. Tiago.
Contudo, no séc. XVIII, continuava a realizar-se a feira de S. Pedro, conjuntamente com a de S. Tiago, conforme se pode ler nas respostas ao inquérito paroquial de 1758 dadas pelos párocos de Sta. Maria e S. Pedro: “Ha nesta villa todos os annos huã feira chamada de S. Pedro por se fazer no seu dia, e comprehende parte do antecedente, e subsquente, e he captiva por pagar terrado, ciza e portagem." (Padre António Ribeiro, pároco de Sta Maria).
“ha duas feiras huma em o mes de junho chamada a feira de S. Pedro por ser no dia do mesmo santo e outra no mês de julho em dia de S. Thiago por ser também no mesmo dia e ambas são livres". (Padre António José Faria, pároco de S. Pedro) (9)
Vemos assim que, no séc.XVIII, a feira de S. Pedro realizava-se num único dia, embora ainda incluísse partes do dia anterior e posterior.
A 6 de Abril de 1792, o Juiz de Fora e oficiais da Câmara de Torres Vedras enviam uma carta a D. Maria I queixando-se que apesar de se costumar “fazer na dita vila no dia 29 de Julho uma feira annual a qual sendo em outro tempo de uma grande concorrência e abundancia de todos os géneros, se achava ao presente em uma decadencia e esterilidade promovida talvez não só pela sujeição da ciza dobrada a que são obrigados os concorrentes, mas até pelo coartado tempo da sua duração” (10) pelo que pediam que a feira se prolongasse por mais dois dias, entre 29 de junho e 1 de Julho, sugestão que foi aceite pela rainha, por provisão de 24 de Maio de 1792, prática que se iniciou logo nesse ano.
Contudo, esse alargamento não teve grande continuidade pois todos os documentos referentes a esta feira no séc .XIX e até 1912 (ano em que mudou definitivamente para os três dias de realização), apenas referem dois dias de feira.

Madeira Torres, na parte económica da sua obra, editada em 1835 mas escrita por volta de 1819, traça um dos mais interessantes retratos da feira de S. Pedro no principio do séc. XIX:
“No(...) campo situado ao norte da Villa, o denominado a Varzea da Feira, ou de N. Senhora do Ameal, se faz annualmente huma feira pelo S. Pedro, a qual he de grande concurso, mas não de giro commercial correspondente, porque são raras as vendas de gado e de cavalgaduras, e as mais geraes, e importantes versão sobre objectos de capella, quinquilharia, e de loiça. Nestes ramos quasi sempre o consumo he avultado, e no ultimo da loiça pode dizer-se absoluto. Talvez nenhuma feira tenha huma situação tão aprazível, e commoda (...) Esta feira he no tempo em que findão os trabalhos rústicos, e não tem começado as colheitas, pelo que os povos estão mais exhaustos de meios para propor-se compras: a esta circunstancia se attribue com razão o pouco comercio que nella se faz; porem não influem menos duas outras circunstancias, huma a do abuso d’estarem abertas as lojas de mercador, a Capella da Villa, usurpando estas as vendas da feira, por serem bem sortidas, e pela vantagem d’ esperarem aos compradores pelo custo, ou ao menos pelo resto" (11)
Os anotadores de Madeira Torres, na obra inédita já referida, acrescentavam: “Como desde 1822 há hum bello arvoredo junto á fonte do Jardim, as Camaras modernas, depois de 1834 mandarão mudar esta feira para debaixo do mesmo arvoredo, alem do rio, ou Valia da Estacada, ficando o campo áquem desta aonde antes ella se ordenava toda, tão somente para o gado de todas as especies, instrumentos, que servem nas eiras, tabernas, etc."
Nesse novo local, conhecido por Varzea do Jardim, ainda se realizava a feira em 1869, como se pode ver na acta da Câmara Municipal de 4 de Dezembro desse ano. (12) Não sabemos a data exacta em que aquela feira passou a realizar-se na alameda da Porta da Várzea, mas já aí se realizava quando em 1885 surgiu o primeiro periódico torriense, “O Jornal de Torres Vedras”, com a primeira descrição jornalística desse acontecimento:

“A circunstancia dos dois dias santificados, 28 e 29, fez antecipar um dia a afamada feira de S. Pedro d’esta villa, na pitoresca alameda e explanada da Porta da Várzea.(...) N’ esses locais havia um comprido arruamento de barracas onde esteve exposta à venda uma infinita variedade de objectos de utilidade e de recreio, fanqueiros, ourives, quinquilheiros louceiros, botequins, restaurantes, loteria de bebeloques (?), caldeiros, tachos, frutas, etc. (...)
“Não faltou companhia de declamação, que construiu expressamente um barracão-theatro, e se propõe demorar algum tempo depois da feira.
“A afluência de feirantes nos dois dias foi extraordinária, e fizeram-se muitas transacções.
“A feira foi bem policiada, não havendo felizmente a lamentar qualquer incidente desagradável.” (13).



Com a inauguração da ligação ferroviária entre Lisboa e Torres Vedras em Dezembro de 1886 e a regularização dos transportes de passageiros por essa linha a partir de Maio de 1887, aumentaria significativamente a afluência de público e a importância desse mercado:
"De a verem tão concorrida, como este anno [1887], não se lembram os moradores mais antigos d’aqui. Desde o amanhecer até à noite foi incessante a romaria até ao local da feira, que, sendo tão vasto, tornou-se n 'aquelle dia insuficiente para conter a multidão, que affluiu de todos os pontos, e o avultado número de barracas de todos os géneros e feitios que ali estavam armadas. Em todas se fizeram vendas regulares. As de comes e bebes, as de espectáculos variados, incluindo os "cavallinhos", estiveram sempre cheias de apreciadores. Gado abundava, mas de qualidade inferior." (4)
Avançava o mesmo jornal com o número de duas mil pessoas chegadas nos dois primeiros comboios nesse dia de S. Pedro de 1887.
Coube à feira de S. Pedro a honra de ter exibido em Torres Vedras uma das primeiras sessões do Cinematógrafo, a 26 de Junho de 1904 [a primeira teve lugar três anos antes na sede do Grémio].
Com base no já citado trabalho dirigido por António da Silva Rosa e na nossa própria investigação, juntamos em anexo um quadro onde se podem verificar algumas das características da feira de S. Pedro referidas na imprensa local desde 1885 até 1912, ano em que a feira alterou o tempo de duração de dois para três dias.
De facto, o jornal "Folha de Torres Vedras" anunciava no seu nº 637 que a Câmara Municipal do Concelho de Torres Vedras havia publicado o seguinte edital, datado de 4 de Junho de 1912: "A Câmara Municipal do Concelho de Torres Vedras faz saber que no propósito de facilitar e desenvolver as transacções comerciais da Feira de S. Pedro, deliberou em sua sessão de 30 de Maio findo, que a duração da mesma feira, que até agora se restringia apenas ao dia 29 de Junho, inclusivé durasse portanto três dias". (12)


 (clicar sobre as imagens para ler os quadros)

Contudo a feira irá manter ainda o carácter provinciano que a caracterizava desde à muito. Nos anos 20 surgem algumas preocupações com vista a melhorar a organização da feira.
Em sessão de 30 de junho de 1921, a Câmara Municipal encarrega uma comissão de três pessoas de organizarem uma planta da Porta da Várzea, destinada à regularização do assentamento das barracas da feira e em 6 de Junho de 1923 era apresentado um projecto de disposição da Feira de S. Pedro que, aprovado nessa sessão, entrou desde logo em vigor.
Em 1926 ensaiava-se mesmo a organização de uma grande feira de feição moderna, a 1ª Exposição Agrícola-Pecuária e Industrial de Torres Vedras, realizada de 22 a 29 de Agosto de 1926 e que, de algum modo, foi a percursora da moderna Feira de S. Pedro quanto aos seus objectivos.
Ainda na década de 60 do nosso século, a feira de S. Pedro não diferia muito daquela do século passado, a não ser nalgumas novas técnicas usadas para chamar a atenção dos clientes, ou nas novas diversões que acompanhavam os progressos tecnológicos, como se pode perceber pelo texto publicado no catálogo da feira de 1964 e que nós pensamos ser da autoria de António Augusto Sales:

"A feira está montada! Todos os anos, nesta mesma época, neste mesmo dia, nesta mesma hora, a feira existe cheia de sons, de cores, de vozes. O concelho está, em peso, na vila. Chapéu novo, fato novo, riso novo a bailar nos olhos vivos e abertos que seguem a roda sem fim dos cavalinhos.
“O campo da feira é uma densa nuvem de pó. Pó no ar, nos fatos, nos pés, nas bocas. Pó que vem em ondas e tráz a música ruidosa e rodopiante dos recintos de diversão. Um mar de gente que come torrão de alicante,puxa o cordão da sorte, ingere farturas, vai aos automóveis e cavalinhos, lê a sina e joga a argola de enfiar no gargalo da garrafa.
“Sai sempre, freguês!" A família, com os filhos em escada, olha a grelha da barraca onde se encontram expostas dezenas de estatuetas de barro. A vida de Nossa Senhora está escrita no taipal colorido. Lá dentro, centenas de bonecos pequeninos contam a história da Bíblia.
“Passa a manhã, vem a tarde. Um copo, farturas, uma sardinha, um copo mais. Vendem-se loiças, panos, colares de lindas fantasias.
“Um tirinho, freguês?!" Chapéus com flor na fita debruçam-se, gulosos, sobre o cano das espingardas A feira vive! Ás três horas da tarde ninguém se pode mexer. Além, a lâmina duma navalha abre-se, a coisa mete guarda. Gritos confundidos com o disco que se repete pela vigésima vez. E a tarde roda sem se dar por isso.
“À noite, quando o povo da aldeia se retira para casa, a vila desce ao campo e dá as boas vindas à feira. Gira uma fauna diferente. Cumprimentos, acenos, sorrisos. Morreu a vivacidade viril que explodia das veias do homem da terra. Há um tom calmo e pachorrento.
“Todos os anos a feira chega e parte assim (...)”



Foi preciso aguardar pelo 25 de Abril para que a Feira de S. Pedro desse o gigantesco passo que a transformou na grande feira dos nossos dias. Numa reunião da Comissão Administrativa da Câmara, realizada a 16 de Julho de 1974, o vereador João Carlos apresentou uma proposta de formação de uma comissão, que preparasse um estudo de planificação, para fazer da tradicional Feira de S. Pedro uma grande feira agro-industrial capaz de projectar a realidade económica da região, propondo o mesmo vereador para secretário-geral da comissão o saudoso Francisco José Vieira Jerónimo. Fizeram parte dessa primeira comissão: António Augusto Santos, António Cláudio, António dos Santos Verino, Armindo do Amaral Pereira, Domingos dos Santos, Guilherme Filipe, José Alberto dos Santos, Manuel Candeias, Mário Fernandes da Cruz, Orlando de Sousa Correia, Francisco J. Vieira Jerónimo (secretário-geral), Manuel Carlos S. Penetra (vereador do pelouro).
Aprovada a proposta por unanimidade, começou desde logo essa comissão a preparar a Feira de S. Pedro de 1975, a primeira de uma nova era da sua já longa história.
Uma das primeiras novidades desta “nova” feira foi o alargamento do número de dias desse certame, para nove dias (de 28 de Junho a 6 de Julho), média que se tem mantido até hoje (nalguns anos chegou a dez dias, noutros oito dias, apenas com duas excepções: seis dias em 1977 e onze dias em 1979).
Para a realização da feira de 1975 foram convidadas colectividades culturais e desportivas do concelho, instituições de assistência, empresas industriais e comerciais.
O recinto da feira estendeu-se para sul, informando o jornal “Badaladas” de 31 de Maio desse ano que “o piso será cuidadosamente preparado e metodicamente alinhados os seus pavilhões, stands, barracas, etc., tudo enquadrado na maior harmonia possível, com as decorações e iluminação do vasto recinto, que se espera venha a dispôr, também de uma instalação sonora condigna, eficiente e única, evitando-se, assim, os ruídos desordenados, ensurdecedores e incomodativos, verificados em anos anteriores."
Foram construídos três pavilhões temáticos: o de Turismo, o Regional e o Desportivo. Concertos musicais, sessões de luta greco-romana, fados e guitarradas, folclore, sarau gimno-desportivo, concurso de quadras populares e fogo-de-artifício faziam parte do programa da feira.
Um grupo musical do concelho, então em ascensão, os CTT (Conjunto Típico Torrense) animava bailes populares todas as noites.
Pela primeira vez nos últimos 50 anos programava-se uma tourada em Torres Vedras, numa praça desmontável com capacidade para 2500 pessoas.
Os Bombeiros Voluntários marcavam a sua presença com a sua banda, presença essa que passaria a ser obrigatória todos os anos.




O acto de inauguração tinha lugar a 28 de Junho, pelas 10 horas, com discurso do secretário-geral da organização, Francisco Manuel Fernandes.
“Em seguida, as entidades oficiais e convidados, acompanhados da Banda dos Bombeiros Voluntários, visitaram o recinto, depois de se proceder a uma largada de pombos. E continuou a Feira com carrocéis, automóveis eléctricos, poço da morte, cestas voadoras, tourada, variedades tauromáquicas, concertos musicais pela nossa Banda e pela Banda da Escola Prática de Infantaria (Mafra), ranchos folclóricos da Fonte Grada, Campelos, Colaria e Varatojo, todos deste concelho, fados e guitarradas, concursos de quadras populares, tombolas, saraus gimno-desportivos, bailes populares, barracas de quinquilharias, louças, ferragens, roupas, calçado, farturas, comes e bebes, fogo de artificio, etc., etc. Pavilhões de Turismo, Desportivo, Regional e dez stands industriais”. (15)
Em 1976 manteve-se a animação do ano anterior com algumas novidades, como a organização de uma “Grande Exposição de Fotografias”, um “Cortejo Cívico” no dia da inauguração, pelas principais artérias da vila e a organização de carreiras especiais de autocarro durante os nove dias da feira para permitir a deslocação das populações vizinhas e do concelho às animadas noites de feira. O número de pavilhões industriais aumentou para quinze, e ainda outras novidades apontadas pelo jornal “Badaladas” de 10 de Junho: “Como nota simpática e quase inédita no concelho, deverão incorporar-se no cortejo inaugural, mais de uma dezena de cavalos e seus respectivos cavaleiros e amazonas, trajando a rigor, como primeira apresentação em público, da futura Escola de Equitação, a inaugurar em breve em Torres Vedras.
“No recinto da feira terão lugar outras mini-feiras, como a do gado, da agicultura (...) e a do livro.
“Na noite de domingo, 27 de Junho, dia das Eleições Presidenciais, a organização, não esquecendo o superior interesse dos portugueses por este transcendente acto da vida nacional, montará no Auditório, um écran gigante com o respectivo televisor (...)"
Eram as primeiras eleições presidenciais livres em Portugal, que seriam vencidas por Ramalho Eanes, a antecipar na feira de Torres Vedras a revolução audiovisual que marcaria os anos 80.
O ano de 1977 não trouxe grandes novidades à feira, a não ser a redução do número de dias para seis. As mudanças no executivo camarário, com a realização das primeiras eleições autárquicas livres e a doença que vitimaria Francisco Jerónimo talvez tenham contribuído para essa situação.
Mas logo em 1978, a feira regressaria à força inicial. Ao longo de oito dias o recinto da feira voltar-se-ia a animar e, pela primeira vez, à inauguração estaria presente um membro do governo, o então ministro da administração interna, Dr. Jaime Gama e ao acto seriam convidados os presidentes de câmara de concelhos vizinhos (Bombarral, Alenquer e Sobral). A feira ultrapassava de vez as “fronteiras” do concelho e mesmo nacionais, ao contar com a presença do adido comercial da embaixada da União Soviética, dos cônsul e vice-cônsul dos Estados Unidos da América e do 1º secretário da embaixada da Holanda.
Em 1979 Torres Vedras era elevada à categoria de cidade e a imagem de crescimento dada pela feira do ano anterior seria comprovada, não só pelo aumento do número de expositores e do espaço coberto, mas também pelo aumento do número de dias de feira para onze, a maior extensão de tempo que esta teve até hoje.
Uma comissão renovada iria dar um novo impulso e marcaria a viragem para o segundo período da “nova” feira. Era formada pelos seguintes elementos: Acácio Garcia Patusco, Agripino Marcelino, António dos Santos Verino, António Luis de Almeida Cláudio, Armando Manuel Fernandes, Augusto Manuel Nunes da Cunha, Cândido Henriques, José Alberto dos Santos, José Quaresma Ramos, Joaquim Mendes, Francisco Porfírio, Francisco Valadas Constâncio, Humberto Elias da Silva Anacleto, Luis António Maldonado Rodrigues, Manuel César Candeias, Mário Nestor Barreira Abrantes, Orlando Sousa Correia, Renato Fernandes Valente e Virgílio Bizarro.
Esta comissão seria alargada, ou alguns dos seus nomes substituídos, por novos elementos para a organização da Feira de S, Pedro: Dr. José Augusto de Carvalho, que passaria a presidir à comissão, Carlos Manuel Ribeiro Cunha, Francisco Bernardes, Gilberto Pedro Lopes e Joaquim Jordão Pereira.
A feira de 1980 realizar-se-ia em nove dias e no seu programa então distribuído, definiam-se os objectivos deste certame: “Esta feira centenária, destina-se a mostrar ao país as potencialidades do concelho de Torres Vedras e da região do Oeste no qual se integra, especialmente no que concerne à agricultura, pecuária, comércio, indústria, turismo e actividades sócio-culturais.” Em 1981 a inauguração contaria pela primeira vez com a presença de um Presidente da República, o General Ramalho Eanes.
No ano seguinte, em 1982, eram referenciados quarenta e três expositores em stand descoberto e quarenta e dois em stand coberto, contando este ano como novidades a realização do 1-Raid Hípico e do 1° Concurso de Fotografia. Dois anos depois, em 1984, tinha lugar o 1º Concurso de Canicultura.

A partir de 1985 a feira conheceu um novo salto qualitativo, com a entrada de novos elementos para a sua comissão, dirigida agora pelo vereador Dr. António Carneiro, situação essa que logo se revelaria em 1986, na primeira feira “pós-CEE". Foi então criada uma estrutura operacional designada por "Serviços de Cultura e Turismo", constituindo-se uma equipa permanente e polivalente de trabalhadores, para as áreas administrativas e operárias, permitindo desde então um trabalho em continuidade. Essa mesma estrutura está ligada a outras actividades anuais da Câmara Municipal, designadamente, o Carnaval e a Festa das Vindimas.
Não só se mantiveram iniciativas de anos anteriores, como teria lugar nesse ano a 1º Grande Espera e Largada de Touros da Feira de S. Pedro, a 2ª Corrida de Galgos (retomando uma iniciativa de 1974), a 1° Taça de Honra do Chinquilho, um Cortejo Etnográfico e um Encontro de Bandas do Concelho, com a presença das Bandas de Campelos, Aldeia Grande, Bombeiros Voluntários, Ermegeira e Ribaldeira.
A feira conheceria então um grande salto qualitativo e quantitativo, atingindo em 1989 o auge do seu crescimento possível no espaço de ocupação tradicional. Nesse ano de 1989 contou-se com cento e sessenta e três expositores em área coberta e setenta e oito em área descoberta, num total de quinze pavilhões e setenta e oito stands. Começa-se então a falar na necessidade de redefinir o espaço da feira, tanto mais que se projecta uma zona verde para o norte do recinto e a sua expansão para sul fica limitada pela nova Escola do Ensino Básico e por um Centro Empresarial.
Ao longo da segunda metade dos anos 80 a própria feira e o seu espaço dariam lugar a várias exposições temáticas que se realizam ao longo do ano.
Em 1990, o vereador do sector de Turismo, levou à Câmara a constituição de uma nova comissão executiva para a Feira de S. Pedro, a qual funciona agregada a uma comissão de apoio, e que é aquela actualmente em funções.
Em entrevista concedida ao jornal “Badaladas” de 26 de Junho de 1992, o vereador e presidente da comissão da feira, António Carneiro, referia que ela era “a feira possível. E mesmo o ano (1992) em que tivemos que fazer mais ginástica, física e mental, para que coubesse ali naquele espaço”. No entanto mostrava esperança numa rápida alteração da situação: “ A Câmara em recente reunião aprovou, na generalidade, uma proposta apresentada por mim em nome da comissão, para a deslocação da feira para um local encostado ao perímetro urbano da cidade, num dos pontos cardeais da mesma, rumo a Stª Cruz. (...)
“O local é maior do que a actual Várzea. Só faltam as negociações com os proprietários dos terrenos agrícolas e a vontade política e financeira da Câmara, porque, sem sombra de dúvidas, em termos de condições naturais, colocação, acessos e ambiente, fazíamos um dos melhores parques de exposições regionais do País.”
Esse objectivo acabou por se concretizar em 1999, ano em que a feira se realizou pela primeira vez no seu actual espaço, no então recém criado Parque Regional de Exposições, com 40 mil metros quadrados, situado a norte do anterior espaço da Várzea que, entretanto, daria lugar ao Parque da Várzea.

O actual certame realiza-se à volta do pavilhão central, que tinha sido utilizado na Expo 98 e adquirido pelo município, ao qual se juntou, e 2004, um Pavilhão Muitiusos.
Ao mesmo tempo a responsabilidade da organização do evento passou para a responsabilidade da empresa municipal Promotorres.

Bibliografia e anotações:

1- Rau, Virgínia "Feiras Medievais Portuguesas - subsídios para o seu estudo" Ed. Presença, Lisboa, 1982
2- Rodrigues, Ana Maria "Torres Vedras - A vila e o termo nos finais da Idade Média" Ed.Universidade do Minho, Braga, 1992
3- Sousa, J. M. Cordeiro de "Fontes Medievais da História Torreana" Ed. Câmara Municipal de Torres Vedras, 1957
4- Rodrigues, op. cit., pág. 246
5- Sousa, op. cit., pág. 76
6- Sousa, op. cit., pág. 166
7- Rodrigues, op. cit., pág. 245
8- Torres, Manoel Agostinho Madeira "Descripção Histórica e Económica da villa e termo de Torres Vedras", Memórias da Academia Real das Ciências de Lisboa Tomo XI, Parte II, Ia Série, 1835
9- "Memórias Paroquiais", Paróquia de Sta. Maria de Torres Vedras e Paróquia de S. Pedro de Torres Vedras, Volume 37, Arquivo Nacional da Torre do Tombo
10- Vieira, Julio, "Torres Vedras, Antiga e Moderna", Torres Vedras, 1926, pág. 213, citando o "Livro de Registos da Câmara", n2 25, folha 85
11- Torres, op. ct., pág. 282.
12- "Feiras do Concelho de Torres Vedras" Trabalho realizado pelos alunos do 6a ano nocturno de 1988/89, na disciplina de "Formação Complementar", dirigidos por António da Silva Rosa. Exemplar existente na Biblioteca Municipal de Torres Vedras
13- "Jornal de Torres Vedras" de 2 de Julho de 1885
14- "Voz de Torres Vedras" de 2 de Julho de 1887
15- "Badaladas” de 12 de Julho de 1975

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