sexta-feira, 20 de setembro de 2019

As Quintas do Juncal e Nova de Matacães - Um Património dos Falcão Trigoso

Introdução

O trabalho que agora se publica teve origem numa comunicação apresentada por ocasião da 5ª edição de “Chás de Pedra”, dedicada ao tema das quintas do concelho de Torres Vedras, sessão realizada na Azenha de Santa Cruz em 4 de Julho de 2014.

Nessa comunicação procurámos fazer uma breve síntese do que se conhece sobre as Quintas do Juncal e Nova de Matacães, propriedades unidas por séculos na família Falcão Trigoso.

Não existindo  uma monografia sobre essas Quintas, existem, contudo, várias informações dispersas em vários textos e documentos acessíveis, pelo que nos propusemos fazer uma primeira abordagem, que aqui apresentamos, que se limita a tentar reconstruir um puzzle incompleto, que, fazendo uma síntese dessa informação dispersa, possa um dia servir de base ou guia para uma investigação mais aprofundada que recorra a fontes primárias existentes na Torre do Tombo, onde estará depositado o cartório daquelas quintas, que foi transferido para Lisboa por ocasião das Invasões Francesas e recentemente cedido, de forma condicionada, ao arquivo nacional pelos descendentes daquela família.

Apesar de não existir uma obra de síntese sobre aquelas Quintas, durante os dois últimos séculos partilhadas pela mesma família, não podemos, contudo, deixar de referir um livro e um estudo onde se podem encontra bastantes informações sobre as mesmas.

Referimo-nos, por um lado,  às “Memórias de Francisco Manuel Trigoso de Aragão Morato (…)” escritas entre 1824 e 1835 e que se referem ao período entre 1777 e 1826, obra editada pela Universidade de Coimbra em 1933, e, por outro, ao conjunto de textos publicados no Boletim da Junta da Província da Estremadura, da autoria de Rogério de Figueiroa Rêgo, sob a designação de “Epigrafia Tumular Estremenha – Memórias Sepulcrais do Arciprestado de Torres Vedras”, onde se reúne um valioso conjunto de informações genealógicas sobre as famílias que estiveram na origem dos Falcão Trigoso e que muito nos ajudou na reconstrução do percurso histórico dos proprietários dessas quintas.

Grande parte das informações genealógicas aí contida foi a principal fonte que usámos para as referências desse tipo usadas neste trabalho.

Embora menos valioso, do ponto de vista informativo, não podemos deixar de referir também o artigo publicado na revista “A Hora” nº 42, de 1936, dedicada ao concelho de Torres Vedras, intitulado “A Casa do Juncal – A sua ascendência histórica e os seus proverbiais dotes de caridade” da autoria provável de José Maria Teles Baltazar.

Esses textos serviram de partida para a elaboração deste nosso trabalho, tendo também consultados outras fontes que iremos indicando ao longo do texto e serão referidas na bibliografia final.

Não podemos deixar de agradecer a preciosa colaboração que nos foi prestada pelo pároco que era então responsável pela paróquia de Matacães, o padre José Manuel, e pelo amigo e investigador, responsável pelo Arquivo Municipal e pela coordenação destes encontros de história local, o Dr. Carlos Guardado Silva.


1 - A Casa dos Trigoso – De Carmões a Matacães.

1.1 -A Origem – o início do apelido Trigoso.

O ascendente mais antigo do ramo dos “Trigoso” parece ser, segundo Figueiroa Rêgo nas suas “…Memórias Sepulcrais…” um tal lavrador de S. Domingos de Carmões, identificado no século XVI, Francisco Fernandes, o que denota a origem “humilde” desta família.

Na segunda metade desse século está identificado um filho daquele, Gaspar Francisco, médico-cirurgião, pai dos primeiros “Trigoso”.

De facto, ainda de acordo com o estudo de Figueiroa Rêgo, este médico teve três filhos, António Peres, Gaspar e Francisco Mendo, todos baptizados em S. Domingos de Carmões, respectivamente em 1574, 1578 e 1580.

Do Gaspar pouco mais se sabe, mas o António e o Francisco acabariam por acrescentar o apelido Trigoso, sendo assim os primeiros a usarem este apelido.

O António seguiu as pisadas do pai, como cirurgião, e o Francisco foi professor na Universidade de Coimbra, sendo este o primeiro a acrescentar o apelido Trigoso.

“Trigoso”, segundo Figueiroa Rêgo, citando o “Armorial Lusitano” tem origem numa alcunha, que nada teria a haver com o vocábulo trigo mas seria derivado de “triga, do latim triga , carro puxado por três cavalos” e que por “extensão deu no português o significado de pressa, velocidade, ligeireza”, tratando-se assim, ainda de acordo com aquele autor, “de alguém desta família que andava sempre apressadamente”.

Para contestar a relação de “Trigoso” com “trigo”, que se podia pensar por causa das três espigas de trigo atado que aparecem no brasão dos Trigoso, Figueiroa Rêgo considera que essa representação é apócrifa, dando o exemplo de várias obras de referência de nobiliária e genealogia, publicadas entre os séculos XVII e XIX que nunca referem aquele símbolo nas armas dos Trigoso. (RÊGO, 1945, p.106).


1.2 -Ligações a Carmões : Capelas da Igreja e a Quinta do Belo Jardim.

Estes primeiros Trigoso tinham assim uma grande ligação à Paróquia de S. Domingos de Carmões, ligação que mantiveram pelo menos até meados do século XVII, como o comprovam as várias inscrições da família existentes na igreja daquela paróquia.



Fig. 1 – Inscrição na Igreja da S. Domingos de Carmões (Fonte: RÊGO, 1945)

A inscrição (Fig.1) mais antiga refere a instituição da capela do morgado naquela Igreja em 1630, por iniciativa de Francisco Mendo Trigoso, lente da Universidade de Coimbra, o que referimos acima como o primeiro a adoptar aquele apelido.

Foi primeiro administrador dessa capela o “Doutor em leis” Gaspar de Almeida, seu sobrinho ( e não filho, como refere erradamente a inscrição) filho de António Peres Trigoso.

Fig. 2 – Inscrição na Igreja da S. Domingos de Carmões (Fonte: RÊGO, 1945)

Uma outra inscrição (Fig.2) dá conta de ter aquela capela sido “reformada” em 1772 por um seu “bisneto” que tinha o mesmo nome, Francisco Mendo Trigoso, Bispo de Viseu.

Fig. 3 – Inscrição na Igreja da S. Domingos de Carmões (Fonte: RÊGO, 1945)

Uma terceira inscrição (Fig.3) data de 1775 e foi mandada edificar por Francisco Mendo Trigoso Pereira Homem de Magalhães, fidalgo, cavaleiro da casa Real e da Ordem de Cristo, e que era sobrinho do Bispo de Viseu.

Uma outra referência à ligação daquela família à paroquia de Carmões está relacionada com a Quinta do Belo Jardim, já existente pelo menos no século XVII, já que nela vivia Gaspar Almeida Trigoso, o já referido primeiro administrador da capela da família. Sabe-se que essa Quinta ainda estava na posse da família no início do século XX, mas, quando se deu a união dos Trigoso com os Aragão da Quinta Nova, facto que analisaremos mais à frente, a família passou a habitar na Quinta Nova de Matacães.


FIG. 4 – Quinta do Belo Jardim em S. Domingos de Carmões (Foto do autor)

Da antiga Quinta do Belo Jardim, ainda hoje localizada no perímetro urbano da aldeia de S. Domingos de Carmões, devemos destacar o interessante pórtico de características renascentistas.

Ainda no século XVIII, na paróquia de Carmões, pertenciam àquela família o Casal da Ferraria e o Casal da Alfeiria, pagando ambas o “terço” aos herdeiros, bem como a chamada fazenda da “Cerca Velha”.

Francisco de Aragão Morato, nas referidas “Memórias”, refere-se a essa Quinta como “Quinta de Carmões”, que voltou a ser ocupada temporariamente pela família por ocasião da Batalha do Vimeiro, em 1808, por ser mais distante de Torres Vedras do que a Quinta Nova onde então viviam.

Por volta da década de 20 do século XIX, o mesmo Francisco Morato efectou vários melhoramentos naquela Quinta “de Carmões”, situação que refere nas suas memórias:

Precisavam as casas daquela Quinta “de alguns reparos e principalmente a adega, cujo madeiramento e telhado, logo no primeiro inverno da minha administração”, assim como as vinhas, “à excepção da chamada Cérca Velha (e essa não toda), estavam velhas e inteiramente perdidas”.

“Os trabalhos faziam-se ordinariamente de empreitada e, por isso, muito imperfeitamente, e os muros da cerca estavam em terra (…).

O autor da “Memória” reparou casas, “levantou” a adega, concertou os muros daquela quinta e “por algumas trocas que fiz com os meus vizinhos, consegui unir a maior parte das minhas vinhas, e facilitar a sua cultura, e a sua guarda”, concluindo que, desse modo “ d’uma fazenda muito extensa, mas muito mal tratada, fiz, por assim dizer, uma fazenda nova, que é capaz de produzir dentro em poucos anos não menos de cem a cento e vinte pipas de vinho, quando, d’antes, produzia de vinte a trinta”  (ANDRADE, 1933, pág. 215).


1.3 -União com os Aragão da Quinta Nova da Ordasqueira.

Em 1680 Francisco Mendo Trigoso (o segundo com este nome, filho de Gaspar de Almeida Trigoso, que, como já vimos, foi o 1º administrador da capela da família na paroquial de Carmões) casou com D. Antónia  Teresa de Aragão, herdeira da Quinta Nova de Matacães.

É assim, por esse casamento, que os Trigoso se tornam proprietários da Quinta Nova, onde também passam a viver.

D. Teresa era filha de D. Isabel Nunes e do Dr. Pais Manuel de Aragão, governador de Cabo Verde, donos daquela Quinta, cuja existência data pelo menos do princípio do século XVII, pertencendo ao pai de D.Teresa, um tal João Lopes.

Mas a ligação de Francisco Trigoso a Matacães já vinha de trás, quando foi nomeado herdeiro universal do seu primo Francisco Fonseca Ferreira, morador em Matacães e cavaleiro do hábito de Cristo, por escritura de 22 de Dezembro de 1676.

Este Francisco Trigoso era membro do Santo Ofício em 1693, mas já não era vivo em 1731, data na qual a sua esposa é classificada como viúva nos róis de confessados da paróquia de Matacães nessa data.

Daquele casamento nasceram Manuel Pais de Aragão Trigoso (baptizado em 1682) que veio a ser bacharel em Leis e cónego, familiar do Santo Ofício, três filhas, Apolónia (b. 1684). Francisca (b. 1689) (esta ainda vivia na Qtª Nova em 1739) e Catarina (b. 1690) (vivia na Qtª Nova em 1741,  Francisco Mendo Trigoso (1692 – 1778) que foi Bispo de Viseu (1770-1778), já referido acima a propósito de uma das inscrições em Carmões, Gaspar de Almeida Trigoso  (b. 1694) doutor em leis e que vivia na Quinta em 1741 e, o mais novo,  Sebastião de Almeida Trigoso (b. 1700) que também vivia na Quinta Nova em 1741 e foi o herdeiro do Morgado.

Segundo Madeira Torres, terá sido aquele Bispo de Viseu a mandar edificar a  capela  do Senhor Jesus do Calvário em 1771, tema a que voltaremos mais à frente (MADEIRA TORRES, 1819, nota (b), pág. 193).

O herdeiro do morgado, Sebastião de Almeida Trigoso casou-se com D. Joana Margarida de Castro e tiveram pelo menos dois filhos, Francisco Mendo Trigoso Pereira Homem de Magalhães, baptizado em Runa em 1744, e Manuel Pais de Aragão Trigoso (1747-1810) que veio a ser cónego e vice-reitor da Universidade de Coimbra.

Note-se que, pela 4ª vez, surge na genealogia da família um Francisco Mendo Trigoso, situação que tem dado alguma confusão quando se fala desta família e da actividade desses familiares.

Este último, Francisco Mendo Trigoso de  Magalhães, é uma das figuras mais destacadas e conhecidas desta família.

Foi membro da Ordem de Cristo e fidalgo-cavaleiro da Casa real.

Por casamento com D. Antónia Joaquina Teresa de Sousa Morato passou a integrar na família a Quinta de Roma (na Calçada das Lajes, junto a Stª Apolónia, freguesia de STª Engrácia de Lisboa).

Em Torres Vedras ficou conhecido como capitão-mor da Companhia de Ordenanças do Distrito de Torres Vedras, nomeação obtida em 1781.

As Companhias de Ordenanças haviam sido criadas por D. Sebastião e, segundo João Pereira “tinham (…) um enorme poder na esfera local, afectando as populações através do recrutamento militar e possuindo uma larga margem de autonomia face à instituição militar de primeira linha” (PEREIRA, 2000, p. 27).

Os comandantes dessas companhias de Ordenanças, compostas por 250 elementos, eram recrutados estritamente da nobreza local. A partir de 1709 o capitão-mor de ordenanças  era eleito por uma comissão presidida pelo corregedor que escolhia o cargo de entre três pessoas da “melhor nobreza” (PEREIRA, 2000, p. 120).

O capitão-de-ordenança tinha o poder de “proceder ao recrutamento de todos os homens válidos entre 20 e 65 anos”, treinando-os para servir no “exército regular de 1ª linha” (PEREIRA, 2000, p. 121).

Em 1739 o Distrito de Torres Vedras possuía 14 companhias de ordenanças (VIEIRA, 1926, p.39).

Segundo João Pereira, no principio do século XIX  o “distrito de Torres Vedras” possuía uma companhia mor com dezasseis companhias de ordenanças, treze delas na vila e termo de Torres Vedras e outras  três no Sobral, Vila Verde dos Francos e Enxara dos Cavaleiros.

O mesmo Francisco Magalhães foi administrador das obras de construção do edifício do Asilo Militar de Runa (MADEIRA TORRES, 1835, (parte económica), pág.288 [2ª paginação, já que um erro de impressão repete o número de páginas do texto a partir da página 288]).

A ele se deve a oferta de uma curiosa urna de voto de madeira, , à Câmara de Torres Vedras, hoje depositada no Museu Municipal Leonel Trindade e que foi estudada por Salinas Calado e Júlio Vieira.

FIG. 5 - Urna dos Trigos – Museu Municipal Leonel Trindade

Segundo Júlio Vieira, ela foi oferecida  “à câmara  municipal durante o reinado de D. João VI , e ainda em 1926 servia “nas sessões” da Câmara.

A urna é em talha barroca, em madeira, dourada e policromada, com uma tampa em forma de coroa, e que “exteriormente representa as armas reais em duas faces e nas outras duas as armas dos Trigosos” . No seu interior tem uma esfera metálica (VIEIRA, 1926, pp.145-146).

Pensa-se que esta urna tinha um efeito mais simbólico que prático, já que o corpo elegível para exercer funções municipais era, no final do século XVIII, principio do XIX, muito restrito, não chegando a vinte elementos, uma oligarquia formada pelos “mais nobres e de governança da terra (os que já tivessem sido nomeados, ou os seus pais e avós)”. (PEREIRA, 2000).

A Câmara do século XVIII, em Torres Vedras, era formada por um Juiz de fora , que era o presidente por inerência e nomeado pela coroa, três vereadores, 2 da vila e um do termo, eleitos de forma indirecta trienalmente, com renovação anual, 1 tesoureiro, eleito localmente de três em três anos e dois oficiais da diversas classes de ofícios mecânicos, eleitos anualmente no dia de S. Jorge pela Irmandade da Cêra do Corpo de Deus.

O processo eleitoral obedecia à seguinte cronologia:

- em primeiro lugar era feito um arrolamento onde se apuravam os indivíduos de “melhor qualidade” e que era elaborado por “até três homens mais antigos e nobres e naturais da terra” e que “tenham servido nella os officios de governança”, colaborando com o corregedor na elaboração desse arrolamento.

Constava nesse arrolamento os nomes da “gente importante da terra”, com idade, naturalidade, parentesco, “competência” e ascendentes.

Feito o arrolamento ( o primeiro feito em Torres Vedras data de 1781), “eram chamados por pregão à casa da Câmara,  a nobreza e o povo para elegerem seis eleitores de entre os constantes do rol” e “os mais votados passavam  a ser designados por eleitores”. Estes “reunidos aos pares, separadamente, elaboravam três pautas com o nome dos vereadores que deviam servir nos próximos três anos”. Após a escolha, as pautas eram enviadas ao tribunal do Desembargo do Paço para confirmação régia. (PEREIRA, 2000, p.57).

Contudo, ao que conste, os Trigoso nunca tiveram um papel de destaque nas funções municipais, lembrando-nos João Pereira que alguns “Trigosos chegaram a ter um papel de destaque na politica nacional, mas não consta que algum tenha sido sequer arrolado uma vez para as vereações. Os seus membros residiam no concelho de Torres Vedras apenas temporariamente” (PEREIRA, 2000, p. 77).

Deve-se ao mesmo Francisco Mendo Trigoso Pereira Homem de Magalhães  a realização de grandes obras na Quinta Nova e nas suas propriedades, dando-lhe “uma nova forma: edificou as novas casas de habitação, em parte, sobre as ruínas das antigas, reuniu fazendas d’antes espalhadas, reduziu parte das terras de lavoura a vinhas, com o que estas vieram a ter grande aumento, introduziu, tanto aqui como em Carmões, um novo contrato de vinhas a terço”.

“As duas ermidas da Quinta Nova e do Calvário, bem como a capela que a casa possue na Egreja de S. Domingos de Carmões, mereceram também os eus cuidados”, ornando-os “de finos mármores e ricos paramentos” e “obteve para ellas muitas graças da Sé Apostólica, e principalmente a conservar na primeira d’aquellas ermidas o Sacramento guardado em sacrário” (ANDRADE, 1933,pp. 215-216).

A sua esposa, D. Antónia Joaquina Tereza de Sousa Morato foi igualmente uma figura que se destacou na vida religiosa local, merecendo uma rara nota biográfica, rara num mundo dominado por homens, numa obra histórica sobre o Convento do Varatojo. (SANTISSIMA, 1800, “Appendice”).

Um dos aspectos interessantes dessa biografia tem a haver com a referência ao ideal de mulher nobre aí retratado:

Tendo sido educada para seguir a vida de freira, hábito franciscano, “mudando se estado” para se casar com Francisco Trigoso Magalhães, “não mudou de costumes santos”.

Com Francisco Trigoso “viveo santamente, em todo o tempo de casada, com tal paz, união, e socego, e com tal conformidade de genio, que sendo dous os corpos destes venturosos confrades, parecia haver nelles huma só alma”.

Praticante “fervente”, o seu biografo destaca que ela não “gastava, nem perdia o precioso tempo em diversões de divertimentos frívolos, de festins, passeios, jogos, romarias, danças, óperas, comédias, em que domina o espírito do Mundo, e donde vive desterrado o de Jesus Cristo”.

“Não consumindo muitas horas cada dia no toucador em adornar o corpo com artíficios de gallas, e enfeites profanos, e excessivos, segundo as invenções, e modas do século corrupto, para parecer, e agradar aos filhos, e filhas do mesmo século.

“Não em leituras de livros, que contém novelas, materiais, e assuntos profanos, e nada de Deos, nem de piedade”.

Pelo contrário, “trajava com decência, e moderação que convem a huma senhora, e Fidalga Cristã com o fim só de agradar a Deos, e em Deos e seu consorte, e nunca ao Mundo. Tinha os seus pensamentos no Céo.

“Lia os livros piedosos, que continhão vidas de Santos, e doutrinas que davão luz ao entendimento (…) para conhecer, e amar a Deos, e ao próximo” (SANTÍSSIMA, 1800, pp.681 a 692).

Acabou por falecer nova com cerca de 40 anos, em 15 de Junho de 1795, estando sepultada no Convento do Carmo em Lisboa.

A administração da Quinta Nova, nas duas primeiras décadas do século XIX, coube ao filho desse casal, Sebastião Francisco Mendo Trigoso Pereira Homem de Magalhães (1773-1821).
Formou-se pela Universidade de Coimbra em 1792, bacharel em filosofia.

Foi capitão-mor do distrito de Torres Vedras, cargo que deixou  em 25 de Maio de 1810 por ter sido nomeado tenente-coronel dos voluntários reais de Lisboa  (“Antiguidades de Torres “A Semana” nº 56).

Foi admitido à Academia real das Ciências em 1811, publicando várias obras e memórias e, em 1820, foi nomeado censor régio da Mesa do Desembargo do Paço (GEPB, Vol. 42, P. 846).

Quando este morre, a administração da quinta é assumida pelo seu irmão, Francisco Manuel Trigoso de Aragão Morato que casa com a sobrinha D. Maria José Trigoso.



Fig. 6 - Francisco Manoel Trigoso de Aragão Morato,  BNL

Este Francisco Morato é o autor das “Memórias”, às quais já nos referimos várias vezes e que começou a escrever em 1824, terminando-as em 1835.  

Tendo nascido em Lisboa em 17 de Setembro de 1777, doutorou-se em Cânones pela Universidade de Coimbra em 1799. Em 1814 tornou-se sócio efectivo da Academia de Ciências e, entre 1817 e 1820, é lente substituto em Cânones na Universidade de Coimbra.

Quando Junot ocupa Lisboa, em 1807, retira-se para a Quinta Nova. Quando o seu irmão morre em 1821 torna-se o morgado da Quinta e, em 1824, casa-se com a sobrinha onde, no ano seguinte, recebe D. João VI e família real, acontecimento que relata pormenorizadamente nas suas memórias:

“(…) recolhendo-me à Quinta Nova para passar o verão com a minha família, logo no princípio de Agosto [ de 1825] , vimos passar, pela meia noite do dia 9, El-Rei, com as outras Senhoras Infantas, que ia às Caldas visitar sua filha [infanta D. Isabel Maria].

“Voltando poucos dias depois de manhã, esperei-o no pateo d’esta Quinta, onde o cumprimentei, e depois o segui ao Hospital que a Princeza Viuva [ D. Maria Bendita] acabava de edificar em Runa, onde Sua Magetade jantou.

“Poucos dias depois, isto é, a 19 de Agosto, devia a Senhora Infanta D. Isabel Maria recolher-se das Caldas para Mafra (…) e El-Rei fazer-lhe a fineza de lhe sahir ao encontro no caminho.

“O sítio, onde Sua Magestade mandou parar o seu estado, foi junto ao edifício d’esta casa, em cujo pateo eu o esperei e cumprimentei.

“Vendo, porem, que parava mais adeante em lugar sombrio, para se defender do calor, fui immediatamente  oferecer-lhe a casa, que Elle não aceitou” por querer estra naquele sítio a aguardar as outras filhas que vinham de Mafra ao encontro da irmã.

Quando estas chegaram, e voltando a ser convidado a entrar na Quinta Nova, D. João VI acabou por aceitar e, “apeando-se , foi a pé com suas Filhas até ao pateo, e, entrando na ermida, depois de fazerem oração ao Sacramento, subiram às casas, onde se demoraram pouco mais de meia hora, até chegar” a infanta D. Isabel Maria “que eu fui receber à carruagem e acompanhei às salas”. Partiram então para o Asilo de Runa, onde jantaram, seguindo depois para Mafra. (ANDRADE, 1933, pp.227 e 228).

Este Francisco Trigoso de Aragão Morato teve uma vida política muito activa.

Em 19 de Setembro de 1820 esteve entre os membros da elite torriense que assinaram a proclamação aclamando a Revolução de 1820 e, no ano seguinte, foi eleito deputado às Constituintes.

Em 1826 é Ministro do Reino do governo de Saldanha, apoiante da Carta, embora exerça o cargo por um período breve, entre 1 de Agosto e 6 de Dezembro. Em 10 deste último mês é nomeado Conselheiro de Estado vitalício.

Com a chegada de D. Miguel ao poder afasta-se da vida política, regressando ao seu “exílio” na Quinta Nova.

Tentando desmentir que essa retirada se ficasse a dever a alguma possível tendência liberal de Francisco Morato, os anotadores da obra do padre Madeira Torres, seus contemporâneos, revelam que ele, antes de se retirar para Quinta Nova “foi ao beijamão do mesmo Senhor D. Miguel em Lisboa” tendo mais tarde comparecido ao beijamão ao mesmo monarca “no adro da Igreja de S. Pedro [em Torres Vedras], quando nella entrou por ocasião da sua Real Jornada às villas de Alcobaça e Batalha, sendo por elle recebido com afabilidade”, assim como “ainda mais fez” assinando “ a protestação de fidelidade, que as Auctoridades, Clero, Nobreza e Povo d’esta villa [de Torres Vedras] fizeram em termos enérgicos ao mesmo Senhor, em Câmara extraordinária de 19 d Maio de 1832, por ocasião da próxima chegada da expedição Constitucional ao Porto” (MADEIRA TORRES, 1862, nota a), pp. 196 a 198,parte acrescentada pelos editores de Madeira Torres, pág. 198, confirmado pela consulta do  e Livro 26 dos Acordãos da CMTV, f. 364 vº).

O que é um facto é que ele só voltaria à vida política em 1834, eleito Par do reino em 1 de Setembro desse ano.

Restar-lhe-iam apenas 4 anos de vida, já que viria a falecer em 11 de Dezembro de 1838.

Durante este último período em que residiu na Quinta Nova, “nunca deixou de dar os seus jantares do costume, a que convidava pessoas dos diferentes partidos políticos, já pelos seus anos, ou dos de sua esposa, já pelas festividades que fazia celebrar na sua Ermida do Senhor do Calvário, vendo-os todos mui alegres e satisfeitos” (MADEIRA TORRES, 1862, nota a), pp. 196 a 198,parte acrescentada pelos editores de Madeira Torres, pág. 197).

Nas suas Memórias, Francisco Trigoso Morato descreve, de forma detalhada, todas as obras e melhoramentos na Quinta e nos seus domínios, continuando o trabalho iniciado pelo pai e pelo irmão, acima referidas:

“Os reparos, que exigiam os edifícios já feitos , levaram bastante tempo e despeza, e ainda não estão de todo acabados; emprehendi um plano de continuação de novas obras, ou de acabamento da já começadas, que nunca poderei executar pela notável diminuição das rendas da casa (…) fiz uma nova casa de livraria, renovei a licença para conservar o Sacramento na ermida e enriqueci esta com ornatos novos e dispendiosos.

“Quanto às fazendas, cuidei logo de reduzir a bôa cultura as vinhas, que estavam muito desprezadas (…) tomei o partido (…) de ir arrancando cada anno sucessivamente uma porção de vinha, par, no fim de três annos , a tornar novamente a plantar de bacello. D ‘este modo se vão as vinhas sucessivamente restaurando e conservando em vigor.


FIG. 7 - Actuais vinhas da Quinta Nova (Foto do autor)

“Cuidei também muito em separar, não só a uva branca da tinta, mas também as diferentes qualidades d’uma e d’outra, o que simplifica os trabalhos da vindima, e constitue a bôa ordem e a beleza d’este género de fazendas”.

Para estrumar a terra “cuidei de comprar ovelhas e em fazer um pequeno trem de lavoura”.

“Mas os meus maiores desvelos exerceram-se na cultura das àrvores, tanto fructiferas com silvestres.

“Tirei, pouco a pouco, aquellas do meio das vinhas, entendendo que lhe eram prejudiciaes, e fui-as plantando à borda de todas as ruas, o que faz o passeio d’estas mais agradável.

“Introduzi um methodo aqui desconhecido de limpar oliveiras, e fiz novas plantações d’esta àrvore preciosa (…) .

Dentro da Quinta Nova “fiz aparecer um novo bosque e uma engraçada mata, que fica a banda de fora, cortada de ruas e guarnecida de terraços com vista muito agradável”.  (ANDRADE, 1933, pp. 216 e 217).

Não tendo deixado descendentes, foi a sua sobrinha ( e cunhada) mais velha que herdou a Quinta, unindo, por casamento  desta com o herdeiro da Quinta do Juncal, em 1834, as duas Quintas, história da qual falaremos mais à frente.


1.4- A Quinta e o seu Património.



FIG. 8 - Gravura de Nuno Mendonça, in AZEVEDO, 1963 , pág. 28

A construção do actual edifício da Quinta Nova ocorreu entre 1779 e 1851.

Trata-se de um imóvel de dois pisos, ao estilo das Quintas do barroco tardio.

Possuía um jardim, uma horta e um pomar que no início do século XIX possui “um dos maiores laranjais do concelho” (MADEIRA TORRES, 1835, nota a) da pág.257).

Tinha um equipamento de apoio à produção animal.

Muitas dessas obras e melhorias daquele espaço estão referidas nas “Memórias” e já a elas nos referimos anteriormente.

Em 6 de Março de 1996 foi classificado como imóvel de interesse concelhio.

O edifício da Quinta foi cedido, em 1981, para a instalação de uma IPSS, o Lar de Nª Sª do Carmo, com lotação de 96 pessoas e que, em 1998, tinha 30 funcionários.

Em 2011 o edifício foi comprado pelo mesmo proprietário que comprou recentemente a Quinta do Juncal e garante efectuar obras de recuperação e melhoramento após a saída próxima daquele lar do edifício, conforme está contratado.



FIG. 9 - Fachada da Ermida da Srª do Carmo, da Quinta Nova (Fotografia do autor)

Anexa à Quinta Nova existe uma Ermida dedicada à Sr.ª do Carmo e que, segundo descrição de Madeira Torres, possui “urna do altar, tribuna e columnas de bello mármore arroxeado, e paramentos ricos, custódia, thuribulo, naveta, e alampada de prata; e n’outro tempo sacrário com SS Sacramento” (MADEIRA TORRES, 1862, nota a) dos editores, p. 108).


FIG. 10 - Pormenor dos azulejos do jardim da quinta (Foto : ESTEVES 2011)

O Jardim da Quinta possui um painel de azulejos “de temática figurativa, de estilo barroco, provávelmente do primeiro quartel do século XVIII”  recentemente levantado e restaurado no Laboratório de Materiais de Cerâmica do Instituto Politécnico de Tomar (Escola Superior de Tomar), para futura preservação num espaço interior da Quinta (ESTEVES, 2011).

Na Quinta existem três brazões dos Trigoso, dois em ferro em dois portões opostos, um no extremo oeste da Quinta, junto à estrada que liga Runa  a Torres Vedras, bastante corroído pelo tempo e práticamente elegível, outro num portão de entrada par o jardim, na fachada principal da Quinta, com a data de 1851, outro em pedra na entrada da ermida, de estilo barroco.


FIG. 11 - Brazão em mau estado, junto à estrada (foto do autor)

FIG. 12 - Brazão do portão de entrada no jardim (foto do autor)


FIG. 13 - Brazão em pedra sobre a porta de Ermida (foto do autor)

Estes dois têm os mesmos elementos em relevo, mas colocados por ordem diferente, reproduzindo assim os elementos que caracterizam o brazão de armas dos trigoso, que é descrito por Madeira Torres como sendo um escudo partido em três palas e “faxa”, formado por 6 quartéis, assim organizados: na 1ª “pala”, em cima três “faxas” com “contraveis” e em baixo três bastões; na 2ª pala, em cima três espigas de trigo com um fio e em baixo 5 estrelas em santor; na 3ª pala, em cima seis crescentes em pala e “faxa” e em baixo uma cruz aberta e “floreteada”. Por timbre tem um leão (MADEIRA TORRES, 1862,os editores,nota a) pág. 194).
Um outro brazão da família existe na Ermida do Calvário, por cima do altar-mor, com a data de 1771.



FIG. 14 - Ermida do Calvário (Foto do autor)

Esta Ermida do Senhor do Calvário pertencia à Quinta Nova e era por ela administrada, não se conhecendo a data exacta da sua fundação.

Segundo os editores de Madeira Torres, terá tido uma primeira invocação a STº António (MADEIRA TORRES, 1862,os editores, nota a) pág. 194).

Em 1632 foi passada licença pra nela se fazer missa. Foi reedificada em 1711 por Francisco Mendo Trigoso, o que unificou a Quinta à família Trigoso por casamento com a herdeira dos primeiro proprietários, com já referimos anteriormente. Este mesmo, por testamento de 1716, vinculou a Ermida e todos os seus bens à Quinta.

Em 1771 o bispo de Viseu, também chamado Francisco Mendo Trigoso, fez outos melhoramentos na ermida, acrescentando-lhe uma sacristia e mandando colocar as armas da família por cima do altar.

Madeira Torres refere que as “mesmas casas [da Quinta Nova e Juncal] se teem esmerado na conservação, melhoramento e embellesamento da Ermida, e em prestar-lhe tudo quanto é preciso para o culto e decência da devotíssima Imagem.

“Tem a Ermida todos os paramentos necessários, para uma festa solemne, bem como armações de damasco para todos os seus pórticos e arcos, etc.

“O Sancto Padre Pio VI [papa entre 1775 e 1799] concedeo muitas graças e indulgencias para a mesma, a rogativos de Francisco Mendo Trigozo [bispo de Viseu], como consta, não só dos documentos authenticos existentes no Cartório da casa, mas também em resumo de duas pedras colocadas ao lado do altar” (MADEIRA TORRES, 1862,os editores, nota a) pág. 195).

Tradicionalmente a essa ermida estavam ligadas as festividades de 3 de Maios, dia da “invenção da Cruz”, e de 14 de Setembro, dia da “Exaltação da Cruz”, para além de missa em todas as 6ª feiras de Quaresma, datas que eram comemoradas com grande devoção pelo “povo vizinho” que aí concorriam nessas datas “a renderem graças pelos benefícios recebidos”.

Os anotadores de Madeira Torres escrevem que “por devoção muito antiga os povos d’aquella freguesia [Matacães] costumam todos os annos em Domingo de Ramos trazer a mesma Imagem [do Sr. Jesus do Calvário] em procissão de penitencia para a Igreja Parochial, onde costuma haver n’esse dia pregação”, assim como “em um Domingo depois da Paschoa fazem-lhe uma festa solemne com a maior pompa possível, em acção de graças, e depois, no dia 3 de Maio, é a mesma Imagem reconduzida para a sua Ermida” (MADEIRA TORRES, 1862,os editores, nota a) pág. 194).


2 - A Casa do Juncal e a família Falcão.

2.1- As Origens (nas brumas da lenda)

Na área hoje ocupada pela Quinta do Juncal, foi encontrada uma lápide romana, (MADEIRA TORRES, 1862,os editores, nota a) pág. 21) situação comum na zona envolvente, como aconteceu noutras duas Quintas próximas, a da Portucheira e a da Macheia, estas do outro lado da estrada que vai para Runa e que teve origem numa antiga via romana.

Todo o vale entre as três quintas pode ter pertencido a uma antiga “villa” romana.

Existe também uma lenda que refere a existência, durante o período de ocupação árabe (entre os séculos VIII e XII), de uma “antiga mesquita”, junto ao “rio de sangue”, no lugar onde está a Mata da Quinta do Juncal MADEIRA TORRES, 1862,os editores, nota a) pág. 108).

Também na área da Quinta terá existido o “O Mosteiro de  Matacães”, do qual existiu um tombo da confraria datando de entre 1507 e 1541.

A Igreja de Matacães, situada em frente da entrada principal da Quinta, foi fundada em 1530 no lugar da ermida da confraria de Santa Maria do Mosteiro (paróquia a partir de 1559). Nela está a capela da família Melo, os mais antigos proprietários conhecidos da Quinta.

Em documentos de 1527, 1598 e 1634, é referido o lugar do “Mosteiro de Matacães”, em vez de Matacães.

A mais antiga referência conhecida à existência de uma Quinta nesse lugar é a da  “Quinta do Mosteiro” , pertencente a  Luis Vicente  (filho de Gil Vicente) e Gil Vicente de Almeida (neto), existente entre1553 e 1626)(PEDROSO, 1951).

Em 1601 à uma referência à “quinta e casas da morada do senhor Gil Vicente de Almeida, cavaleiro fidalgo da casa d´el rei”, no lugar do “Mosteiro de Matacães”.

Segundo Alberto Pimenta (PIMENTA, 1908) essa “Quinta do Mosteiro”  foi “incorporada no vínculo do Juncal”.

Existe, por outro lado uma referência segundo a qual a Quinta do Juncal terá sido erigida em 1559 (GEPB).

Muitas dessas referências estão por comprovar documentalmente, mas parece existir uma relação provável entre o tal “mosteiro de Matacães”, a “Quinta do Mosteiro” e a Quinta do Juncal.


2.2-Os Melo Lima Falcão, do Juncal à Quinta Nova

Os mais antigos membros desta família referidos como proprietários da Quinta do Juncal, localizam-se no século XVIII.

José de Mello e Lima é o mais antigo de todos, referido nos róis de confessados de 1731 até 1747, já não existindo em 1788.

Sucede-lhe na administração da Quinta o seu filho Leonardo de Mello e Lima Falcão, o primeiro a usar o apelido “Falcão”, referido nos róis de confessados desde 1740, estando à frente da Quinta em 1788, como viúvo.

 O filho deste, José de Mello e Lima Falcão, identificado nos róis de confessados entre 1788 e 1811, estava à frente da Quinta em 1800.

Este foi coronel do regimento de milícias de Torres Vedras e governador militar de Torres Vedras.

Ao contrário dos Trigoso, os Falcão tem uma participação activa na vida política local no princípio do século XIX.

O irmão desse, Joaquim de Mello e Lima Falcão, e que administrava a quinta em 1829, foi vereador na Câmara Constitucional em 1822, vereador em 1823 na Primeira Câmara eleita no regime liberal, sendo arrolado quatro vezes para vereador nas três primeiras décadas do século XIX, entre 1792 e 1833, cargo para o qual foi eleito por três vezes. Já depois da definitiva implantação do regime liberal, após 1834, é eleito vereador por uma vez.

Também o filho daquele e sobrinho deste, José Maria de Lima e Mello Falcão foi eleito uma vez vereador após a vitória liberal de 1834, sendo coronel do regimento de melícias de Torres Vedras em 1836.

Este José Maria (José Maria de Lima e Mello Falcão de Gamboa Fragoso Van Zeller Sanches de Baena Henriques Resende…) foi quem uniu as duas casas, a da Quinta do Juncal com a da Quinta Nova, ao casar-se com a herdeira desta última quinta, D. Emília Augusta de Oliveira Trigoso Pereira Homem de Magalhães em 1834.

José Maria foi baptizado em 7 de Fevereiro de 1813 e faleceu em 27 de Maio de 1844, e a sua esposa, D.ª Emília, nasceu em Lisboa em 28 de Maio de 1813, tendo falecido apenas três dias depois do esposo, em 30 de Maio de 1844.


2.3-A Quinta e o seu património


FIG. 15 Quinta do Juncal, à direita. À esquerda a Igreja Paroquial de Matacães.( Foto do autor).

Não se sabe quando foi construída a Quinta, talvez em 1559. De certeza, conhece-se a sua existência no século XVIII, através dos róis de confessados. Contudo, a actual construção data do século XIX.

Em 30 de Novembro de 1993 foi classificada como Monumento de valor concelhio.

Foi vendida pelos últimos descendentes da Quinta por volta de 2011.

Tem no seu interior uma capela de estilo neoclássico, com púlpito em mármore.


FIG. 16 - Pode ver-se, por detrás do portão, a fachada da capela da Quinta do Juncal (Fot do autor)

Possui mata e jardim, recentemente recuperados, onde existem árvores centenárias. Também neste jardim existiu uma rara estátua representando um perdigueiro português do século XVIII (segundo o meu amigo Dr. Jorge Rodrigues). Não pude confirmar o destino dessa estátua
Existe também na Quinta um antigo lagar de azeite.

A entrada da Quinta possui dois brasões com as armas dos Falcões.


FIG. 17 - Brazão dos Falcão à entrada da Quinta do Juncal (Foto do autor)

Tem por “arma” um escudo aquartelado: no primeiro quartel, três bordões de Santiago; no segundo cinco conhas em santor; no terceiro uma “banda com três crescentes e dois leões, um de cada lado”; no quarto, quatro bastões.

Por “timbre” tem “um falcão com um dos ditos bordões seguro no bico e pé direito” (MADEIRA TORRES, 1862,os editores, nota a) pág. 194 ).

Segundo os genealogistas, a origem dos Falcões vem de “João Falconet que veio para Portugal na companhia do Duque de Lencastre ou da sua filha.

“Casou em Portugal, deixando descendência que aportuguesou o apelido para Falcão”.(TÁVORA, 1999, pág. 166).


3 - A União das Duas Casas – do Séc. XIX aos nossos dias

Já referimos que a união entre os “Trigoso” da Quinta Nova e os “Falcão” da Quinta do Juncal deu-se pelo casamento de D.  Emília Augusta de Oliveira Trigoso Pereira Homem de Magalhães (1807 – 1844 ), herdeira da primeira Quinta, com , José Maria de Lima e Mello Falcão de Gamboa Fragoso Van-Zeller de Baena Henriques de Resende (1813  - 1844 ), herdeiro da segunda, em 1834.

Sucedeu na administração das duas casas Sebastião de Mello Francisco Falcão de  Gamboa Fragoso Van Zeller Sanches de Baena Henriques Trigoso, que casou com D. Teresa Maria de Saldanha e Castro em 1866. Ainda vivia em 1912.

Sebastião Falcão Trigoso era também 9º senhor do Morgado de Santo Aleixo e 6º barão d’Aldenberg, do  Sacro Império Romano da Áustria.

Na segunda metada do século XIX foi seis vezes vogal do conselho municipal de Torres Vedras.
Em 1869 era o maior proprietário do concelho de Torres Vedras, continuando o maior contribuintes deste concelho em 1908 e 1912.

Durante a sua administração ficaram famosos os festejos realizados na Ermida do Calvário, que se realizavam, a expensas suas, em Abril, no Domingo do “Bom Pastor”:

Mandava “armar uma espécie de tribuna para, juntamente com sua família, assistir às mesmas festas” e financiava um “deslumbrante fogo de artício” que tinha lugar no monte da Ermida.(PEDROSO, 1950).

A sua esposa era descendente do 4º vice-rei da Índia, D. João de Castro e estava ligada à Quinta da Penha Verde em Sintra.

Ao longo do século XX, cruzando informação dispersa em artigos citados, conseguimos referenciar como estando à frente da administração das ditas quintas, respectivamente D. Maria Isabel [da Graça ?] de Mello Falcão Trigoso ( nos anos 40 e talvez ainda nos anos 60 desse século), D. Teresa [ Maria de Melo Falcão Trigoso da Cunha ? ] (pensamos que ainda vivia nos anos 60), que casou com D. António da Cunha e Menezes(vivia em 1936 e era já falecido em 1945) e D. Maria de José Falcão Trigoso e Cunha (nasceu em 7/1/1941, era viva em 2008), que, pensamos, terá sido a última proprietária daquelas quintas, antes de serem vendidas por volta de 2011.

Aquele D. António da Cunha Menezes era da casa dos Cunha, marqueses de Olhão e, em 1936, era provedor da Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras.

Em 1945 a sua sogra, D. Maria Isabel, era a representante da casa.

Em 1963 é referida como proprietária D. Maria de José Falcão Trigoso e Cunha (nasceu em 7/1/1941, tinha oito irmãos e era viva em 2012), que, pensamos, terá sido a última proprietária daquelas quintas, antes de serem vendidas por volta de 2011.

Em 2008, esta Maria José Falcão Trigoso possuía a árvore genealógica da família e foi a responsável, em representação da família, por ceder o arquivo da família, os condes de Penamacor (Família Albuquerque e Castro  Ribafria) e os Lima e Melo Falcão Trigoso, por 30 anos , à Torre Do Tombo, consultável por autorização da família (COELHO, 2008).


4-Estrutura Económica e Social de uma casa senhorial

QUADRO 1
Estrutura económica da Quinta Nova (bens próprios, arrendados ou foreiros) – livro de Décimas de 1832 (AMTV)

Vintena
Tipo
Renda
Foro
Produção
Observações
Matacães
24
15 fazendas
3 vinhas
3 terras
2 quintas
1 urbana
19$200
(3)
68 alqueires de pão meado
47,5 alqueires de trigo
11 alqueires de cevada
2 galinhas
(12)
(6)
59 pipas e 5 almudes de vinho   - (5)
400 alqueires de pão meado      -  (1)
24 cântaros de azeite - (1)
3 domínios exploração diecta :
Qtª Nova e Qtª do Chafariz e 1 fazenda
Ordasqueira
20
14 fazendas
3 vinhas
1 casal
2 urbanas
1$200
(1)
100 alq. p. meado
20 alq. Trigo
2 frangos
(8)
(11)
4 pipas e ½
(3)
Casal do Trigoso
Ribeira de Matacães
17
14 fazendas
2 vinhas
1 casal
2$000
(1)
75 alq. Trigo
65 alq. P.meado
(14)
(2)
1 pipa e ½ e  61 almudes de vinho -   (10)
132 alq. P.meado - (7)
81 alq. Trigo - (5)
Casal Espinheiro .
uma das fazenda estava “de bacelo”
Outras (Melroeira, Ramalhal e Maxial)
3
2 fazendas
1 casal
3$200
(1)
1 alq. Trigo
132 alq. P.meado – (2)
 - - -
3 pipas de vinho
Casal Pinheiro na Melroeira

( Nota : Na segunda coluna (nº) refere-se o total de propriedades pertencentes à Quinta, em cada vintena. Na coluna designada como “foro”, indica-se o total de bens que a Quinta recebia por terras aforadas. A Produção refere-se ao total do que era produzido nas propriedades da vintena.A designação de “3ª” refere-se às propriedade que estavam cedidas, pagando “terço”. Entre Parêntese indica-se o nº de propriedade que englobam os valores e produções referidas).

Como se pode ver pelos dados do quadro de cima, a maior parte das propriedades (61) localizavam-se na paróquia de Matacães.

A maior parte da produção dividia-se entre a produção de cereais, dominante, e a de vinho e concentrava-se no domínio directo da Quinta Nova (50 pipas de vinho, 400 alqueires de pão meado e 24 cântaro de azeite).

Eram ainda outras duas propriedades da Quinta sob exploração directa, na vintena de Matacães, que produziam a maior parte da restante produção de vinho dos seus domínio, 3 pipas na Quinta do Chafariz e 5 pipas numa fazenda não especificada.

O vinho era assim uma das produções mais rentáveis da Quinta.

A esmagadora maioria das propriedades arrendadas pagavam em géneros, sendo raros os casos de pagamento em dinheiro.

QUADRO 2
Estrutura económica da Quinta do Juncal (bens próprios, arrendados ou foreiros) – livro de Décimas de 1832 (AMTV)

Vintena
Tipo
Renda
Foro
Produção
Observações
Matacães
12
9 fazendas
2 vinhas
1 arroteia
34$400
(6)
23 alq. Trigo
(4)
(2)
Ordasqueira
1
1 fazenda
2$000
Ribeira de Matacães
2
2 fazendas
10$000
(1)
20 alq. Trigo (1)
-
1 pipa de vinho
60 alq. trigo
Runa
8
3 fazendas
3 vinhas
2 terras
206 alq. Trigo (8)
2 alq. Feijão (1)
-
6 pipas e 20 almudes de vinho
Outras (Vila Seca – 1; Turcifal -1; Melroeira – 2; Ramalhal – 1; Zibreira -2 ; Sarreira – 2; Maxial – 1)
10
5 fazendas
3 vinhas
2 casais
37$000
(4)
184 alq. Trigo (4)
24 alq. Cevada (1)
4 alq. Milho (1)
-
1 pipa e ¼ de Vinho.
60 alqu. Trigo
1 “casal do freire”, no Fernandinho e outro junto, ambos na Sarreira.

( Nota : Na segunda coluna (nº) refere-se o total de propriedades pertencentes à Quinta, em cada vintena. Na coluna designada como “foro”, indica-se o total de bens que a Quinta recebia por terras aforadas. A Produção refere-se ao total do que era produzido nas propriedades da vintena.A designação de “3ª” refere-se às propriedade que estavam cedidas, pagando “terço”. Entre Parêntese indica-se o nº de propriedade que englobam os valores e produções referidas).

Ao contrário da Quinta Nova, embora o maior número de propriedades desta quinta se localizasse na paróquia de Matacães, a esmagadora maioria, mais de 50% (18) estavam espalhadas por freguesias vizinhas.

O total da produção era menos significativa do que a da Quinta Nova e não havia uma concentração muito grande da produção numa única propriedade.

Um outro dado curioso prende-se com a produção de pavões : “tem-se promovido a criação de pavões na Quinta do Juncal (…) em o casal chamado Macêdo, hoje [1862] pertencente ao negociante Francisco José de Bastos e Silva” (“ANOTAÇÕES DOS EDITORES…”, manuscrito, caderno 7º, página 4, anotação à alínea a) “agora b)” da página 282 de MADEIRA TORRES, 1835).

Existia ainda um lagar de azeite na quinta, revelando a produção de azeite.

QUADRO 3
Comparação das características das propriedades das suas Quintas (Fonte: Livro de Décimas de 1832)

Totais
Qtª Nova
Qtª Juncal
Proriedades
64
33
exploração directa
3
?
Outras siruações
2 urbanas + 2 Quintas
-
Casais
3
2
Fazendas
45
20
Vinhas
8
8
“Terras”
3
2
Arroteia
-
1
“Arrendadas” e tipo de renda (dinheiro, terço, foro em géneros)
Pagam “terço”
19
2
Pagam renda
6 (total: 25$600)
11(total): 83$400)
Foreiras (em géneros)
36
(Total : 365 alqueires de pão meado; 143,5 alqueires de trigo; 11 alqueires de cevada ; 2 galinhas e 2 frangos)
20
(Total : 433 alqueires de trigo; 24 alqueires de cevada; 4 alqueires de milho e 2 alqueires de feijão)

A Quinta Nova possuía mais propriedades do a do Juncal, embora, com já vimos, mais concentradas na área da Paróquia de Matacães.

Por seu lado, a maior parte das propriedades da Quinta do Juncal, estavam arrendadas, pagavam foro ou terço, não havendo a registar nenhuma propriedade com dimensão e produção significativa que fosse explorada directamente pela Quinta.


Vamos agora observar as características socias, primeiro das duas Quintas em separado, entre os finais do século XVIII e o início do XIX, e depois a mesma situação já numa época em que as Quintas estavam juntas na mesma família, quase a meio do século XIX:

QUADRO 4
Estrutura Social da Quinta Nova – 1788 e 1808
(Fonte :  “Róis de Confessados da Paróquia de Matacães”, AMTV)


1788
1808
À “cabeça”
D. Luisa Bernarda
Sebastião Trigoso
Família Trigoso
-
1 casal e 1 irmão
Escudeiro
1 com a esposa
Casal com 1 filha
1
Caseiro
1 com mulher e cunhada
Escrava
1
Criado
7
2
Criado da tábua
1
Criada
1
4
Ama de leite
1
boleiro
1
Hortelão
1
1
Abegão
1
1
Pastor
1
Homem sem indicação
1
Núcleos familiares fora da casa
17 (47 pessoas : 20 homens maiores, 18 mulheres maiores, 5 crianças masculinas e 4 crianças femininas) (1 abegão, 1 pastor, 1 padre, 1 ama, 1 criada, 1 assistente e 1 escravo)

QUADRO 5
Estrutura Social da Quinta Juncal – 1788 e 1808
(Fonte :  “Róis de Confessados da Paróquia de Matacães”, AMTV)

“À Cabeça”
Leonardo de Melo e Lima Falcão (viuvo)
Coronel de melícias José de Melo e Lima Falcão
Família
1 irmão, 5 irmãs, 2 filhos e 2 filhas
3 irmãos, 4 irmãs ,1 tio e 1 primo (assistente)
Criados
4
4 (1 “preto”)
Criadas
7
4
Escrava
1
-
Pastor
1
1
Abegão
2
Assistente
1
(1)
Assistente (mestre de gramática)
1
-
“enjeitado”
1

A estrutura familiar na Quinta Nova, dos “Trigoso”, parece bem mais complexa e maior que a da Quinta Juncal, dos “Falcão”.

Note-se especialmente a diferença de “criados” e outros “serviçais” entre a primeira e a segunda.

É também na Quinta Nova que parece existir um maior número de núcleos familiares, ligados à Quinta, mas vivendo fora do edifício principal.

Esta situação parece estar relacionada com a actividade produtiva de exploração directa dos seus domínios, muito mais significativa na Quinta Nova do que na Quinta do Juncal.

Note-se ainda a referência  à existência de escravos nas duas Quintas.

Nos vários róis de confessados que analisámos, vamos encontrar entre aquelas datas várias referências a esses escravos. A mesma pessoa surge, ora designada por “escravo” ou “escrava”, “captivo” ou “captiva”, “servo” ou “serva” e também por “preto” ou “preta”, o que denota a sua origem.

Na Quinta Nova encontramos uma Isabel Mendes (ou registada apenas com “Isabel”), designada maioritariamente com “preta” (por oito vezes entre 1731 e 1741), mas também como “serva” (em 1733) ou “captiva” (em 1736) e como “escrava” em 1738.

Nos róis dos confessados onde se referem os moradores dessa Quinta surgem também uma “Anna” , “escrava” em 1788, 1789, 1790, um “José”, “preto” e “escravo” em 1788, pertencendo à Quinta, mas vivendo fora dela, um Joaquim Maria, designado como “escravo” em 1799, 1800 e 1801, e como “preto” em 1802, vivendo com uma Nicácia, “escrava”, em durante aquelas três primeiras datas.

Na Quinta do Juncal também aparecem referenciados alguns escravos:

Uma Isabel Lima (ou apenas Isabel) referenciada entre 1731 e 1740, 6 vezes como “preta”, duas como “serva”, uma como “captiva” e uma como “escrava” (1738), um Francisco Santos, “preto”, em 1735 ( não é designado como escravo, mas, de acordo com o que vimos noutros caso, é muito provável que o fosse), uma Maria de Mello, designada com “preta” entre 1740 e 1747, embora também nunca seja referida como escrava, mas como “preta captiva” em 1947. Em relação a esta não deixa de ser curioso que tenha o apelido da família da Quinta.. Em 1747 aparece, ligada a esta, uma “preta menor”. Surge também uma Maria do Rosário, entre 1788 e 1793, referida como “escrava”, menos em 1792, onde é designada por “criada”.

Por último é referido um Francisco de Paula, que nunca sendo designado por escravo, é designado por “preto bolieiro”, em 1806, “preto creado” em 1808 e 1809, e apenas como criado em 1810.

Em Portugal, embora a abolição da escravatura tenha tido lugar em 2 de Abril de 1761, mas apenas nalgumas situações, a abolição definitiva em todos os domínios portugueses só teve lugar em 10 de Dezembro de 1836.

Por últimos publicamos o quadro com a estrutura familiar na Quinta já depois da unificação das duas famílias:

QUADRO 6
Primeira relação dos moradores na Quinta do Juncal após a unificação de 1834
(recenseamento de 1843 – Freguesia de Matacães, AMTV)

  Recenseamento de 1843
Idade
Actividade
José Maria de Lima Mello
30
Proprietário
D. Emília Augusta ,   mulher
30
Proprietária
José de Mello  ,  filho
4
Morgado
Sebastião de Mello ,  filho
3
D. Maria Francisca,  filha
6
D. Maria José ,  filha
5
D. Maria da Piedade,  filha
2
D. Emília , filha
1
Joaquim de Mello Lima,   tio, solteiro
58
Administrador da Casa
D. Francisco Ignácio de Mello, solteiro
60
António Lopes de Freitas
29
Escudeiro
Angelo Custódio
30
Escudeiro
+ 12 criados, 4 criadas, 1 boticário, 2 abegões e 2 pastores [total  :  - 33 pessoas]

A esmagadora maioria dos moradores dessa Quinta é formada pela família alargada do morgado, sendo igualmente significativo o número de criados.

Conclusão

Recordamos mais uma vez que este trabalho procura ser uma mera síntese que procura reunir o máximo de informações publicadas sobre aquelas Quintas e as famílias a elas ligadas, que se encontram dispersas por artigos, livros, artigos e jornais, de forma a poder guiar quem, um dia, queira fazer um trabalho aprofundado, baseado em fontes primárias, sobre o mesmo tema.

Penso também que ficou evidente a importância social e económica daquelas quintas para a região, assim como a importância política e cultural de vários membros daquelas famílias , não só para a região, mas para o país, alguns sendo merecedores de uma biografia cuidada e rigorosa.

Também o presente dessas Quintas, compradas recentemente pelo mesmo proprietário e alvo de obras de recuperação e restauro ( a Quinta do Juncal, pois a Quinta Nova aguarda a saída de um lar aí instalado para ser alvo, igualmente, de restauro), rompendo com vários séculos da sua ligação às famílias de origem, merecia ser analisado em pormenor, até para acabar com algum mistérios, boatos e mitos urbanos que se têm criado sobre esta nova etapa da história daquelas quintas.

Por último, não podemos deixar de referir a também recente divulgação sobre o destino do arquivo daquelas quintas, que tinha ido para Lisboa durante a época das invasões francesas e tinha sido depositado noutra quinta dos herdeiros e que, em 2008, foi cedido por trinta anos ao cuidado do Arquivo Nacional da Torres do Tombo, arquivo que até hoje não foi utilizado para estudar a história daquelas quintas, mas cuja consulta será fundamental para quem, no futuro, se queira aventurar na elaboração de uma verdadeira monografia sobre esse valioso património local.

Sobre as condições e o âmbito desse arquivo, transcrevemos da página da internet do ANTT , com o título “FAMÍLIA SALDANHA ALBUQUERQUE E CASTRO RIBAFRIA / LIMA E MELO FALCÃO TRIGOSO”, as seguintes informações:

“O arquivo da família Saldanha Albuquerque e Castro Ribafria (Penamacor) Lima e Melo Falcão Trigoso ficou depositado por trinta anos, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo (antt), por Contrato (…) entre a representante da família, Senhora D. Maria José Falcão Trigoso da Cunha Vilas Boas, e o Director da Direcção Geral de Arquivos e do Arquivo Nacional Torre do Tombo, em 19 de Fevereiro de 2008.
“ÂMBITO E CONTEÚDO
“Documentação produzida no âmbito da administração de casas e morgados (de Beja, Chaves ou Casas Novas, dos Castros, de Elvas, Melres, do Paúl de Boquilobo, Portel, Ribafria, Sardoal, de Penha Verde, Serpa, S. Gens), bem como documentação produzida no decorrer do exercício de cargos (no Estado da Índia, em Angola, Moçambique, diplomáticos, e outros), e ainda documentos reunidos ao longo do tempo sobre as pessoas das famílias que se foram cruzando de que são exemplo apontamentos de genealogia, certidões de casamento e de baptismo. Integra também escrituras de bens, sentenças, processos judiciais, testamentos, correspondência, registos de receita e despesa, inventários de bens, desenhos e plantas, documentos relativos à colónia do Sacramento e a bens situados no Brasil (…) e na Madeira, a quintas, a comendas, a capelas e missas, à avaliação de jóias, a peças de loiça de Nankim, a casas comerciais, ao contrato do tabaco, aos pesos e medidas no âmbito do funcionamento da Comissão para o Exame dos Forais e Melhoramento da Agricultura, com membros nomeados pela Academia das Ciências, e ainda documentos relacionados com conventos e mosteiros, pessoas eclesiásticas, com a inquisição, a Misericórdia de Lisboa, a Mesa da Consciência e Ordens, entre outros”.
O código desse arquivo, que abrage um período cronológico de [11..] – 1933, e por 195 unidades, é PT/TT/FSACR.

Esperamos que esta breve e modesta síntese sirva para aguçar a curiosidade de investigadores que se abalancem para construir uma verdadeira monografia sobre essas Quintas.


Bibliografia

- “ANOTAÇÕES DOS EDITORES À PARTE ECONÓMICA DA HISTÓRIA DE TORRES VEDRAS DE MADEIRA TORRES” (Manuscrito, Arquivo Municipal de Torres Vedras)
- “Antiguidades de Torres”, in A SEMANA, nº 54 de 1 de Março de 1888 e nº 56 de 15 de Março de 1888;
- ANDRADE, Ernesto Campos de (Revisão e coordenação), MEMÓRIAS DE FRANCISCO MANUEL TRIGOSO DE ARAGÃO MORATO (1777 a 1826) – começadas a escrever por ele mesmo em princípios de Janeiro de 1824 e terminadas em 15 de Julho de 1835, Imprensa da Universidade, Coimbra, 1933;
- AZEVEDO, Carlos de,  e GUSMÃO, Adriano de , MONUMENTOS E EDIFÍCOS NOTÁVEIS DO DISTRITO DE LISBOA, Vol. IV : TORRES VEDRAS, LOURINHÃ, SOBRAL DE MONTE AGRAÇO, Junta Distrital de Lisboa, 1963 (“Quinta do Juncal”, pág. 27; “Quinta Nova”, pág. 27 e 28, com gravura da Quinta Nova da autoria de Nuno Mendonça na página 28);
- BALTAZAR; José Maria Teles, “A Casa do Juncal – A sua ascendência histórica e os seus proverbiais dotes de caridade”, in A HORA, nº 42, Ano IV, 1936, Lisboa,pp.59-60;
- CALADO, Rafael Salinas, “A Urna da Câmara de Torres Vedras” , in “Feira da Ladra”, vol. III, Julho de 1931, pp.178-181;
- CARVALHO, cura João Elezeario de, “Rol das pessoas que nesta parochial de Nossa Semhora da Oliveira do lugar de Mattacães, satisfizeram aos preceitos da confissão e comunhão esta Quaresma de 1812” (reprodução dactilografada de documento do Arquivo Histórico da Municipal de Torres Vedras (AHMTV));
- CHORÃO, Maria José Mexia Bigotte Chorão e VILLAS BOAS, Maria João Falcão Trigoso da Cunha, “O Arquivo Saldanha Albuquerque e castro Ribafria e Lima Mello Falcão Trigoso no espaço e no Tempo” , in ARQUIVOS DE FAMÍLA, SÉC XIII-XX: QUE PRESENTE QUE FUTURO? (ARQUIVOS DE FAMÍLIA : PARA UM ROTEIRO DE TEMAS E PROBLEMAS …), Parte II  – “Os Arquivos de família pelos seus proprietários”, Instituto de Estudos Medievais - Centro de História Antiga e Medieval da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2012, pp. 127 a 130;
- COELHO, Alexandra Prado, “Depósito formalizado hoje. Torre do Tombo recebe arquivo da família de D. João de Castro”, in P2, jornal “Público”, 19 de Fevereiro de 2008;
- ESTEVES,Tânia Cláudia Soares e Esteves, “Painel de Azulejos da Quinta Nova”, texto resumo de trabalho de estágio para a Escola Superior de Tecnologia de Tomar, Laboratório de C&R de Materiais Cerâmicos, orientado por Ricardo Triães, que teve discussão pública em 21 de Dezembro de 2011 (publicado na internet no seguinte endereço:  file:///C:/Users/Utilizador/Desktop/quinta%20nova/ESTT%20%20%20%C3%81rea%20de%20Conserva%C3%A7%C3%A3o%20e%20Restauro.htm).
-GRANADA, Novais, “A urna da Câmara de Tôrres Vedras”, in FRENTE OESTE, 5 de Fevereiro de 2009;
-GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA [GEPB], (“Matacães”, Vol.16, p.547-548; “MORATO (Francisco Manuel Trigoso de Aragão)”, Vol.17, pp.837-838; “TRIGOSO (D. Francisco Mendo”, Vol. 32, p.845; “TRIGOSO (Sebastião Francisco Mendo)”, Vol. 32, pp. 845-846), Ed. Enciclopédia, vários anos, Lisboa e Rio de Janeiro;
- LAVRADIO, conde do, “Francisco Manuel Trigozo d’Aragão Morato –Apontamentos para o seu elogio histórico pelo Ex.mo…”, Lisboa 1840;
- “Livro de Décimas de 1831”, (vintenas de Matacães, Maxial, Ordasqueira, Ribeira de Matacães, Melroeira, Ramalhal, Runa,  Sarreira, Turcifal, Vila Seca e Zibreira), manuscrito do AHMTV;
- MADEIRA TORRES, Manuel Agostinho, DESCRIPÇÃO HISTORICA E ECONÓMICA DA VILLA E TERMO DA TORRES-VEDRAS, 2ª edição, Imprensa da Universidade de Coimbra, 1862 (este estudo, na sua parte histórica, foi inicialmente publicado como artigo nas “Memórias da Academia Real das Sciencias de Lisboa”, tomo 6, parte 1, em 1819.Em 1862 [ou 1861?], foi publicada uma segunda edição em livro com valiosas anotações, actualizando aquele estudo, da autoria dos “editores”. Finalmente, em Maio de 1988, foi feita uma edição fac-similada, que foi a que usámos, editada pela Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras, que foi a que usámos).
- MADEIRA TORRES, Manuel Agostinho , “Descripção Histórica e Económica da Villa e Termo de Torres Vedras – Parte Económica”, in MEMÓRIAS DA ACADEMIA REAL DAS SCIÊNCIAS DE LISBOA, 1835, pp. 231 a 313 (trata-se de um acrescento à parte histórica. Existe um manuscrito inédito, no AMTV, da autoria dos mesmos “anotadores” da parte Histórica e que preparavam uma edição em livro deste texto, tal como fizeram na referida parte histórica em 1862);
-“Matacães”, in “Suplemento Freguesias”, in BADALADAS, 18 de Setembro de 1998;
- MIRANDA, Eduardo de , “Migalhas Genealógicas. Algumas famílias dos concelhos de Torres Vedras e Mafra, e referência a algumas quintas desta região”, in BAZAR das Letras das Ciências e das Artes, Suplemento Literário, de A VOZ, nº14 de 21 de Julho de 1939;
- PEDROSO, Júlio, “Gil Vicente e a sua Quinta do Mosteiro em Matacães”, in BADALADAS, 1 de Abril de 1951;
- PEDROSO, Júlio, “Matacães III – Berço de Fidalgos e Patriotas”, in BADALADAS, 1 de Novembro de 1950;
- PEREIRA, João Manuel Rodrigues, ELITES LOCAIS E LIBERALISMO – TORRES VEDRAS 1792-1878, Col. Linhas De Torres, nº 2 , H-História, Torres Vedras, ed. C.M.TV, Abril 2000,
-PIMENTA, Alberto, ”Torres Vedras” in PORTUGAL PITTORESCO E ILLUSTRADO –A EXTREMADURA PORTUGUESA, Parte II, 1908 p. 54 a 80;
-PINTO, Ricardo Santos, TORRES VEDRAS – NA SENDA DO PASSADO…, Héstia Editora, 2005
- RÊGO, Rogério de Figueiroa, A FAMÍLIA DE GIL VICENTE – NOVOS DOCUMENTOS, Lisboa 1961, separata do ARQUIVO HISTÓRICO DE PORTUGAL, IIª Série, Vol. 1;
-RÊGO, Rogério de Figueiroa, ALGUNS SUMÁRIOS DE NOTAS DE VÁRIOS TABELIÃES DA VILA DE TORRES VEDRAS NOS SÉCULOS XVI a XVIII – Subsídios para a investigação Histórica de Portugal, Lisboa 1970;
- RÊGO, Rogério de Figueiroa, “Epigrafia Tumular Estremenha – Memórias Sepulcrais do Arciprestado de Tôrres-Vedras”, in BOLETIM DA JUNTA DA PROVÍNCIA DA ESTREMADURA (BJPE) , (1ª parte – BJPE nº5 de 1944, pp.13 a 20; 2ª parte – BJPE nº 6 de 1944, pp.177 a 187; 3ª parte – BJPE nº 7 de 1944, pp.377 a 389; 4ª parte – BJPE nº8 de 1945, pp.93 a 108; 5ª parte – BJPE nº 15 de 1947, pp.221 a 226; A parte que interessa para este trabalho é a 4ª parte, publicada no nº 8 do BJPE, em 1945), nºs 5 a 8 e  nº 15, de 1944, 1945 e 1947;
- “Róis de Confessados da Paróquia de Matacães”, de 1731 a 1747, de 1788 a 1812, e 1829, manuscrito do AHMTV.
- SANTÍSSIMA, Frei Manoel de Maria HISTÓRIA DO REAL CONVENTO DO SEMINÁRIO DO VARATOJO, tomo 2 ,1800, (“Appendice”).
- “S. Domingos de Carmões”, in “Suplemento Freguesias”, jornal BADALADAS, 21 de Janeiro de 2000.
-TAVORA, D. Luiz de Lencastre e, DICIONÁRIO DAS FAMÍLIAS PORTUGUESAS, 2ª edição, Quetzal, Lisboa 1999, pág.249.
- “Trigoso” in ARMORIAL LUSITANO – GENEALOGIA e HERÁLDICA, Lisboa 1961, editora Enciclopédia Lda, pp.530 a 540.
- VIEIRA, Júlio, TORRES VEDRAS ANTIGA E MODERNA, ed. Sociedade Progresso Industrial, Tores Vedras , 1926, (especialmente as páginas 40, 145-146).

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Torres Vedras e a Primeira Guerra (1914-1918)


(vista Geral de Torres Vedras , no início do Século XX)

Quando se comemora o centenário da assinatura do Tratado de Versalhes, assinado em 28 de Junho de 1919, tratado esse que acabou oficialmente com a Primeira Guerra, estabelecendo as condições da paz e um novo mapa geopolítico na Europa ( que conduziu à ascensão do fascismo e no nazismo e à Segunda Grande Guerra…mas isso é outra história..!!), aqui  recordamos a forma como aquele conflito foi vivido em Torres Vedas.

Na década de 1910 Torres Vedras era uma terra, tal como muitas outras terras de província desse tempo, onde a maioria esmagadora da população, cerca de 75% pelos censos de 1911, se dedicava à actividade agrícola.

Segundo o mesmo censo, outros 11% dedicavam-se à “industria”, uma classificação para as tradicionais ocupações artesanais, seguindo-se o comércio, que ocupava 4,3% das actividades profissionais.

A esmagadora maioria desses artesãos e desses comerciantes estavam concentrada no centro urbano.

O vinho era a principal produção agrícola do concelho, o maior produtor do distrito de Lisboa registado em 1916.

A batata, o milho e o trigo, por esta ordem, eram os produtos mais importantes a seguir ao vinho, embora, no seu conjunto, representassem menos de ¼ da produção vinícola.

Esses três produtos, ao contrário do vinho, destinavam-se maioritariamente ao autoconsumo ou ao comércio local, enquanto o vinho era exportado, maioritariamente pelo caminho-de-ferro, sendo por isso a catividade mais lucrativa do concelho.

No dia em que se realizava a centenária Feira de S.Pedro, na véspera do dia desse santo, 28 de Junho de 1914, em Sarajevo,  era assassinado o arquiduque Francisco Frenando, acontecimento que levou ao desencadear da Primeira Guerra, e que terá então  passado despercebido à multidão que animava essa feira, frequentada, quem sabe, por muitos que, em consequência desse acto longínquo, poucos meses depois, acabariam por ir combater para uma Europa ou a uma África distantes ou por chorar familiares  mortos e estropiados em consequência do conflito que se avizinhava.

Um mês depois daquele acontecimento, declarada a guerra em 28 de Julho de 1914, a imprensa local mostrava-se optimista sobre o rápido desfecho da mesma e sobre as suas consequências:

“(…) Nós portugueses, pela situação especial em que nos encontramos, nada temos por ora que recear, antes é licito supor que Portugal se coloque numa situação se superioridade, como nação aliada que é da Inglaterra, situação de que lhe avirá possíveis vantagens.

“Pelo lado económico a guerra veio surpreender o nosso país numas circunstâncias verdadeiramente satisfatórias, numa época em que se acabam de recolher abundantíssimas colheitas de trigo, em que as colheitas de milho, feijão e outros legumes se podem considerar fartas, num ano em que a produção de batata foi verdadeiramente excepcional e com as uvas prestes a amadurecer.

“Em tais  circunstâncias, num pais onde não falta peixe, os ovos, as galinhas e outros animais de criação, as subsistências estão largamente asseguradas e não há perigo da fome, cujo espectro, poderia horrorizar-nos (…)(1).

Ao mesmo tempo, as primeiras palavras dessa imprensa eram de apelo à paz:

“No momento em que as nações se digladiam, disparando os canhões e procurando ferir os adversários, é difícil a alguém escrever sobre assuntos políticos, tanto mais quando quem escreve presando extremamente as ideias mais largas de fraternidade entre os povos, entende, por igual, que o seu país não pode ser esmagado.

“A hora é de tréguas para a sociedade portuguesa, e precisamente porque o é, deve ser da mais absoluta energia política.

“Somos pela paz; somos pela fraternidade – mas somos igualmente pela República Portuguesa, como garantia dessa paz e dessa fraternidade (…)” (2).

 O órgão local do Partido Democrático apontava o dedo aos responsáveis  por essa guerra:

“ A educação fradesca em que há tantos séculos tem vivido, e em que continua a viver a Europa, é a causa principal de todas as lutas que a têm ensanguentado (…).

“A de hoje foi iniciada pelo mais fervoroso dos católicos, incitada pelo mais ardente  dos  protestantes. Lutero abraçou-se a Inácio de Loiola para esmagarem, pelo esforço comum, o inimigo também comum: a Liberdade (…).

“A Guerra actual poderá ser a última se, vencido no campo das armas o medievalismo imperialista, vencedor for depois, no campo das ideias, o modernismo progressivo da Democracia  (…).

“Há muitos anos que a Europa está dividida em dois campos opostos, sendo um constituído pela Rússia, França e Inglaterra e o outro pela Alemanha e pela Áustria.

“O primeiro grupo representa neste caso a Liberdade, o segundo representa  o despotismo” (3).


No inicio da Guerra publicavam-se A Voz de Torres (9/9/1914 a 1/5/1915) e  A Vinha de Torres Vedras (1894-1920) e no final a “Vinha…” e o  “Ecos de Torres” (11/6/1917 a 1921), onde se publicavam regularmente várias crónicas e noticias, em especial e com maior regularidade as “Notas da Guerra” (in VTV desde 20/8/1914) e “carta de Paris – A Guerra Infame (notas da minha carteira” po A Vinardell Roig, in VTV desde 17/9/1915).

As Notícias da Guerra iam chegando aos habitantes de Torres Vedras, não só pela imprensa local e nacional (esta chegava diariamente por comboio), mas por muitos outros meios:

“Diariamente têm sido recebidos telegramas nesta vila, por intermédio deste jornal, os quais têm sido expostos ao publico em placards nas montras da Papelaria Cabral, na Praça do Município e da Sapataria Vieira, no largo da Republica, pontos centrais, onde tem ocorrido grande concorrência de pessoas a saberem notícias da guerra” (4).

Tendo em conta que uma parte considerável da população era analfabeta, não tendo acesso à imprensa escrita, a imagem foi outro importante meio de informação sobre a guerra.

São muitas as referências, na programação da sala de cinema local, o Animatógrafo Salão Central, à exibição de  filmes de ficção e documentários sobre a guerra ( o 1º referido foi exibido em 22 de  Fevereiro de 1915 : “Guerra Europeia” “dividido em duas partes”).

Outro meio era a fotografia, como aconteceu com uma “Exposição” fotográfica  assim anunciada pela imprensa local: “recebemos de Inglaterra um flagrante relatório fotográfico de 32 páginas, em formato grande, das atrocidades inauditas cometidas pelos alemães sobre a heróica e infeliz Bélgica (…) este documento estará exposto na Sapataria Vieira ( …) e depois será facultado nesta redacção” (5).

África foi o primeiro campo de actuação do exército português, antes da entrada “oficial” no palco europeu.

É nesse contexto que a Comissão Municipal do PRP de T. Vedras apelava “Aos habitantes do conselho de Torres Vedras” :

“Devendo brevemente partir para os campos de batalha [em África] parte do nosso bravo e glorioso Exército Português, parte, por consequência, do nosso todo, no qual vão pais, filhos, irmãos e esposos, afim de auxiliarem as tropas aliadas na defesa do Direito, da  Justiça e da Liberdade, seriamente ameaçadas pela barbárie autro-alemã, a Comissão Municipal do Partido Republicano, resolve apelar para os sentimentos nobres e altruístas dos habitantes do Concelho de Torres Vedras, para que aos nosso briosos soldados não faltem uns certos confortos que as circunstâncias de momento reclamam.

“Assim, na sede da referida Comissão, Centro Alexandre Braga, rua Heliodoro Salgado nº 6, 1º, recebem-se quaisquer donativos tanto em dinheiro como objectos agasalho; tais como: ceroulas, peúgas, camisolas de lã, pensos, ligaduras, etc…(…)” (6).



(visita de Teófilo Braga a Torres Vedras em 1915)

Com o prolongamento da guerra, a imprensa local reflectia nas suas notícias o clima de Guerra  e o seu efeito em termos locais:

- “(…) chegará a haver falta de luz por escassez de óleo combustível? Não, diz-nos o gerente da Sociedade Concessionária [António Augusto Cabral]” (7);

- notícias de torrienses que se deslocaram a Lisboa para se despedirem das tropas expedicionárias que partiram para África (8);

- informação sobre editais publicados pela  Administração do concelho “convocando todos os praças do grupo de bateria de reserva que queiram fazer parte da nova expedição a Angola” para se apresentarem no quartel de artilharia 1, passando –se “guias de passagem para Lisboa” (9);

- noticia de uma comissão do Exército que se  deslocou a Torres Vedras para comprar cavalos: “apenas comprou 5 cavalos, rejeitando os restantes, sendo o melhor cavalo (…) o do sr. António Boto de Carmões” comprado por 350$000 réis (10).

Destacam-se também outras iniciativas que procuravam esclarecer a população sobre o conflito e serviam igualmente de propaganda para divulgar a posição do governo, as chamadas Conferências Patrióticas:

 - na Tuna, em 22 Novembro de 1914. Conferencistas: Agostinho Fortes e Aníbal Lúcio de Azevedo. O tema tratado foi “a situação de Portugal perante o conflito europeu”. Contou com “um numeroso auditório a que não faltaram as senhoras para lhe dar mais realce” (11);

- no Grémio em 30 de Novembro de 1914, uma “Récita patriótica”, cujo produto ”reverterá em benefício da Sociedade Portuguesa da Cruz Vermelha” (12).

(A Récita rendeu 170$000, sendo divulgados os nomes e os valores dos contribuintes ao longo de várias edições. Na edição em que encerraram essa divulgação refere o jornal A Voz de Torres que no “próximo número publicaremos os nomes dos germanófilos, dos anti-patriotas que se recusaram a contribuir para tão útil quão humano fim. Assim o querem, assim o tenham” (13)).

- na Tuna em 1 Dezembro 1914 -Conferência Patriótica do “Pró-Pátria”. Conferencista – “Sr. Biker (14).

Um acontecimento com repercussões em termos locais, a Revolta Monárquica de 20 de Outubro de 1914, conhecida como “revolta da àgua pé”, não escapou a esse clima de sobressalto constante e de medo da guerra, como se revela numa passagem da reportagem sobre esse acontecimento:

 “(…) pelo caminho [perto da Coutada] só encontramos de anormal povoações em alarme, gente fugindo pelos pinhais, mulheres lastimando a sua sorte, muitos boatos desencontrados, uns diziam que os alemães tinham desembarcado próximo de Santa Cruz para nos aniquilar, outros gritavam que era tropa do governo que vinha buscar gente para a guerra” (15).

(Imagens da "revolta da àgua pé", na região da Ventosa, concelho de T. Vedras. "Ilustração Portuguesa")


No inicio de 1916 a imprensa local já revelava um maior pessimismo sobre os efeitos da Guerra:

“Assistimos à queda do verdadeiro idealismo, num século que devia iluminar, pela sua perfeição, a História do mundo inteiro, para retrogradarmos aos tempos mais remotos do barbarismo, para presenciarmos a mais cruel obra se selvagismo que fez desencadear um coro de imprecações das cinco partes do globo, e acendem as mais ruins paixões, destruindo, até à base, a própria civilização que os séculos conquistaram.

“Que vais tu ser, 1916, se esta guerra amaldiçoada se prolongar, como vaticinamos, para além de ti, talvez para além, ainda, dos fins de 1917?

“Agravada cada vez mais a carestia e falta de subsistências, desaparecendo gradualmente os géneros de primeira necessidade, suspenso ficará, sobre as nossas cabeças, como a espada de Démocles, o gládio da Fome, cuja lâmina pontiaguda já faz arrepiar os cabelos”.

“Que o Novo Ano nos traga, ao menos, a esperança fagueira de que todas estas calamidades desaparecerão breve, e já nos daremos felizes” (16).

Pouco depois Portugal entrava finalmente no conflito europeu, apesar de já estar envolvido na frente africana desde o início do conflito.

Depois de, em Fevereiro desse ano de 1916 o governo português ter apresado todos os navios alemães e austro-húngaros ancorados na costa portuguesa, a pedido dos ingleses, a Alemanha declarou guerra a Portugal em 9 de Março. Oficialmente Portugal entrava no conflito, embora já combatesse em África desde 1914.


A “Vinha…” realçava a “ serenidade com que o povo português recebeu a declaração de guerra feita a Portugal pela Alemanha, contrasta com o nervosismo daquele poderoso país, em fazer tal declaração”(17).

Uma das primeiras medidas concretas em termos locais para preparar a nova realidade reflecte-se na Ordem de serviço nº 19 de 19 /3/1916 da Sociedade de Instrução Militar Preparatória nº 19 de Torres Vedras:


“Na hora presente, em que pela declaração de guerra com que a Alemanha, essa nação brutal (…) nos honrou, nós portugueses, que nos presamos de ser, não podemos ficar de braços cruzados, esperando algum milagre da padroeira (...).


“Como director da instrução deste núcleo e sociedade, cumpre-me o dever de apelar para vós, homens de amanhã, para que, dedicando toda a vossa atenção e toda a vossa força de vontade à instrução que vos é ministrada, procureis tornar-vos aptos a bem defender a nossa querida Pátria (…).

“Este meu apelo, dirijo-o a todos os homens válidos de Torres Vedras (…).

“Trabalhem, pois, com ardor, no ressurgimento da nossa querida Pátria fazendo por ela todos os sacrifícios necessários(…)”.

      " O Director da Instrução
Jorge Marrecas F. Pimentel, capitão de Infantaria 2" (18).

A partir desse ano a até ao final da guerra, multiplicam-se os actos de apoio à mobilização, que se reflectiam nalgumas das noticias da imprensa local:

- 11/4/1916 - Os habitantes de Torres Vedras tomam conhecimento, por “placards afixados”, da vitória de tropas portuguesas sobre as alemães, em África, “tomando a baía de Kionga” . Na vila “formou-se uma comissão que organizou uma marcha aux-flambeaux. À frente íam as bandeiras de França, Inglaterra e Portugal, fechando o cortejo a Filarmónica Torrense, que executou o Hino Nacional, no meio de frenéticos vivas à Pátria, ao Exército, à República (…) subindo ao ar um sem número de foguetes e reinando grande entusiasmo” (19);

-30/7/1916 – Realizam-se as provas finais  e os concursos desportivos dos “mancebos” da Sociedade de Instrução Militar, com a presença do Ministro da Guerra e da banda de Infantaria nº 2 (20);  

-3/9/1916 – Realiza-se  uma “sessão patriótica” com a presença de membros do governo, deputados e altas patentes militares(21).  

Ponto alto desse clima de mobilização foi a realização, no concelho, de parte das manobras da 1ª Divisão entre 8 e 30 de Outubro de 1916 (sobre essas manobras, ver também AQUI) :

“No dia 8 chegaram a esta vila dois pelotões do primeiro esquadrão de cavalaria 4, dois do segundo com respectivo estado maior, sob comendo do major sr. João Nunes Vilela e uma secção de exploração.

“Às 9 horas chegaram as primeiras patrulhas que tomaram as embocaduras das ruas, indo uma até ao Castelo.

“Depois chegou o resto da força composta de 200 praças, 16 sargentos e 42 oficiais, que seguiu em direcção à praça de touros onde bivacou.

“Infantaria 5 tem estado no Turcifal onde tem feito vários exercícios, assim como tem estado bivacado na Encarnação o regimento de infantaria 1, e outros regimentos em diversas localidades aqui perto, esperando se que aqui cheguem muito em breve.

“Amanhã ou depois deve chegar o quartel general, cujos alojamento para oficiais e secretarias já estão prontos”(22).

Vários locais de Torres Vedras foram ocupados por vários serviços dessa divisão:

- Quartel General : “num prédio da rua Valadim, entre a Avenida e a Praça Nova”;
- Estação central de telefones : “Na sede da Associação de Socorros Mútuos 24 de Julho”;
- Pagadoria : “num prédio da rua Paiva de Andrada”;
- Correio Militar : “noutro à esquina do Largo de S. Tiago”;
- na Porta da Várzea: “montaram-se os serviços de telegrafia sem fios, parque de automóveis e serviços de saúde”;
- Secção de “camions” : “No prédio do sr. José Pedro Lopes”;
- nos Armazéns das Covas: “os depósitos de provisões”.
- 2 Hospitais de sangue : “No campo de S. João”(23).



(reportagem da "Ilustração Portuguesa" sobre as manobras lideradas por Pereira D'Eça)


“Na vila acham-se aboletados soldados e oficiais em grande número, e foi interessante e pitoresco o aspecto de Torres Vedras, no domingo de mercado, pela grande quantidade de famílias que vieram visitar oficiais e soldados.

“os diversos regimentos de infantaria, cavalaria e artilharia acham-se bivacados em roda de Torres Vedras, pelo que se póde dizer-se [sic] que neste concelho estão concentradas tropas no efectivo de alguns milhares de homens.

“O matadouro municipal desta vila foi tomado militarmente, não sendo ali abatidos senão rezes da administração militar” (24).

Deve-se a Júlio Dantas uma pitoresca descrição  dessas manobras na área do concelho:

“Partimos de Torres Vedras às 10 horas da manhã, num automóvel do Quartel General. A divisão Pereira d’Éça estacionava a norte, dispersa numa extensão de noventa quilómetros quadrados, ao longo de três grandes estradas divergentes. Tomámos pela estrada Torres- Lourinhã-Peniche.

“(…) vinte minutos depois, estávamos em Paio Correia (…) [onde] alastravam as tendas do primeiro bivaque: era o batalhão de infantaria 11. Começava a subir o fumo das cozinhas. Um carro alentejano descarregava pão (…). Bandos de soldados, risonhos, tisnados, uma toalha branca ao pescoço, vinham de lavar-se no ribeiro. (…).

“Seguimos [até] “A dos Cunhados”, centro de reabastecimento, coalhado de carros de bois e de camions militares (…) num campo à mão esquerda, estendia-se o bivaque do 3º grupo de baterias divisionárias (artilharia 3) (…). Dois soldados, a cara lambuzada de sabão, faziam a barba, à beira da estrada”.

Seguiram depois para o Vimeiro onde estavam “duas formações sanitárias –a ambulância nº 2 e uma coluna de transportes - ; e, mais adiante, num vasto campo, perto das águas lampejantes do Maceira, os dois batalhões de infantaria 1”. Continuaram até Toledo onde “se encontravam acantonados os sapadores mineiros”, continuando na direcção a Cabeça Gorda, voltando a Paio Correia, seguindo para o Amial, perto da onde, “subindo por uma encosta de pinhal, um vasto bivaque de três batalhões, infantaria 16 e 17”, seguindo para o Ramalhal “onde vimos infantaria 5 e metralhadoras”, seguindo pela Ermegeira, Quinta do Visconde, Maxial “onde estacionava o 1º grupo de baterias”, Malpique e Mecejana .

Ao todo dispersavam-se pela região vinte mil homens da divisão Pereira D’Éça.

Chegaram a Torres Vedras à 1 hora da tarde (25).

O clima de guerra em Torres Vedras acentuou-se ao longo de 1917 e 1918 (sobre Torres Vedras em 1917, ver também AQUI):

- 15/2/1917 - Anuncio da abertura em  Torres Vedras de uma sub-comissão da Cruzada das Mulheres Portuguesas, presidida pela “professora oficial srª D. Emília de Castro Garcia”(26);

-25/3/1917 -Promovido “por um grupo de piedosas senhoras” , realizou-se na Igreja de Dois Portos “uma festividade religiosa ao Senhor dos Passos, fazendo votos pela vitória das armas portuguesas”(27);

- 23/4/1917 -  Chegam à vila os alunos da escola de Guerra, para exercícios militares. Faziam parte do contingente que partiu para França em 14 de Maio. (memória anónima manuscrita).

- 5/6/1917 - Uma comissão “de senhoras da Freiria” entregou na redacção de A Vinha…., “12 escudos destinados aos feridos de guerra”, parte do produto de uma quermesse realizada naquele lugar (28);

- 21/2/1918 - “Pedido de Madrinha de Guerra” – “De Inglaterra escreve-nos o soldado Cipriano Jacinto, deste concelho (….) pedindo uma madrinha de guerra(…)” (29);

- 26/4/1918 - O padre Jacinto Pio Sobreiro, prior de S. Pedro, comunica à realiza “solenes exéquias por alma dos nossos soldados mortos no campo de batalha” (30);

A própria imprensa local colabora no esforço de Guerra : “A Vinha de Torres Vedras, no patriótico intuito de fornecer notícias do torrão natal àqueles que em terra de França estão honrando o nome português, tem sido enviado gratuitamente a vários conterrâneos nossos, e sê-lo-á da mesma forma àqueles que requisitarem este jornal” (31).

Contudo o maior reflexo da guerra em termos locais foi em termos económicos, reflectindo-se no preço e na falta de géneros, situação que provocou alguma agitação social (sobre o efeito da chamada "crise de subsistências" no concelho de Torres Vedras, podem ler mais AQUI) .

Logo em 1915 foram tomadas várias medidas institucionais para controlar o preço e o comércio dos géneros de primeira necessidade, com a criação as chamadas “Comissões de Subsistência”:

- Decreto nº 1483 de 6 /4/1915 -  cria uma “Comissão Reguladora dos Preços Alimentícios” em cada concelho do país para elaborar tabelas do preço de venda a público dos géneros alimentícios de primeira necessidade e registar a saída de cereais do concelho para o abastecimento das fábricas de moagem.

- Decreto nº 1900 de 18/9/1915- substitui as “Comissões Reguladoras” por “Comissões de Subsistência” para atenuar “os inevitáveis efeitos da guerra europeia e tomar medidas a fim de obstar a que a elevação dos preços dos géneros de primeira necessidade” fosse “devido a causas menos lícitas”. Serviam para tabelar o preço dos géneros de primeira necessidade e obrigar os “produtores, comerciantes ou detentores de quaisquer géneros de primeira necessidade, que possuindo-os para venda se recusem vendê-los, ou os tiverem em quantidade superior às necessidades da família e da sua exploração agrícola, industrial ou comercial” a “expo-los à venda, sempre que haja procura, sob pena de desobediência qualificada”.

Outra medida foi a criação de Celeiros Municipais:

- Decreto nº 4125 de 22 /4/1918, cria os “Celeiros Municipais” com  o objectivo de auxiliarem a Repartição de Cereais  de Panificação da Direcção Geral de Subsistências, do Ministério das Subsistências e transportes, na aquisição, armazenagem  distribuição pelo país de todo o centeio, milho e trigo das futuras colheitas e das farinhas desses cereais.

Os celeiros eram administrados pelo Presidente do executivo, por um vereador eleito e pelo tesoureiro da fazenda pública.

As câmaras ficam com um grande poder sobre a vida económica dos concelhos.

Em 10 de Julho de 1918 foram requisitados os celeiros de João Ferreira Júnior e de Ângelo Custódio Rodrigues, ambos na Rua Dias Neiva.

Em consequência da grave situação económica provocada pela entrada de Portugal no palco europeu, generalizaram-se os protestos contra a carestia e a falta de géneros.

Em Setembro de 1915 registou-se em Torres Vedras “grande indignação (...) pelo facto (...) de os açambarcadores de géneros não serem incomodados pelas autoridades”.

Entre os finais de Maio e início de Junho de 1916 registaram-se protestos contra a venda de “um novo tipo de pão de trigo e milho misturado e pelo preço idêntico ao do pão de trigo só” motivando várias reuniões que resultaram num acordo os  “industriais de padaria” para “fabricar, além do pão fino, sem limite de preço, um tipo de pão de farinha de trigo por 180 réis o quilo e um tipo de pão de milho, com uma margem de rolão grosso”, por “120 réis o quilo”.

Em 26 de Setembro de 1916 os proprietários das mercearias reuniram-se para protestar “contra as delongas do fornecimento do açúcar” e as dificuldades opostas ao comércio local”.
A chamada  “crise de subsistências” em Torres Vedras no período da 1ª Guerra foi sentido de forma diferente pelos vários actores socias:

A população rural, que vivia basicamente  da produção agrícola, queixava-se principalmente do preço dos meios de produção e das limitações á exportação e comercialização dos seus produtos.

A população urbana, constituída maioritariamente por assalariados ligados às actividades não agrícolas, queixava-se principalmente da subida dos preços dos géneros de primeira necessidade, do açambarcamento dos comerciantes e da má qualidade do pão fabricado.
Por sua vez os comerciantes  queixavam-se do tabelamento dos preços e, no caso dos padeiros, da falta de matéria prima.

Em relação á situação alimentar da população torriense, não se terão registado situações de fome extrema, já que funcionava uma economia de auto-subsistência, pelo menos no meio rural (32).

De qualquer modo, a instabilidade  alimentar facilitou a rápida disseminação da pneumónica em 1918 (sobre o impacto deste acontecimento em Torres Vedras, podem ver mais AQUI), com as consequências trágicas que se conhecem, tendo sido este concelho um dos mais atingidos (33).

A vitória aliada e o fim da guerra foi, assim, bastante festejada, festejos assim referidos pela imprensa local:

-  “ULTIMA HORA
 “A PAZ
“Enfim! Victória!
“Os alemães acabam de assinar o armistício capitulando.
“Em sinal de regozijo uma comissão composta por indivíduos desta vila, pede para que hoje sejam iluminadas as frontarias dos prédios”(34).

- “COMEMORANDO A VICTÓRIA DOS ALIADOS
“Uma comissão composta pelos srs. Jacinto Custódio Rodrigues, José Augusto d’ Almeida Trigueiros, Artur Gouveia d’Almeida, João Fernandes Caldeira e Victor Fonseca, angariaram por meio de subscrição a quantia de 95$65 que tiveram o seguinte destino:
23 famílias contempladas a 3$00     - 69$00
7 esmolas de $50                      -  3$50
Pago ao distribuidor das esmolas      -   $50
Entrega à sopa dos pobres            - 22$65  (…)”
“Torres Vedras, 8 de Novembro de 1918
- “Ex.mo Sr. Júlio Vieira – regozijando-nos muitíssimo com o triunfo dos aliados, e para festejar esta tão desejada vitória, rogamos a V. ex.ª que faça chegar às mãos da ilustre direcção do hospital desta vila, a quantia de 10$00 que junto enviamos (…) – João Antolin e Francisco F. Antolin” (35).

Dessa guerra ficou a memória dos muitos torriense que nela combateram e o nome da Rua 9 de Abril,  atribuído à parte da rua Dias Neiva “compreendida entre a Praça da República e o prédio da Firma Fonseca & Lisboa (…) para perpetuar os actos de heroísmo praticados pelo exercito Portuguez na batalha da França”, em sessão do senado de 28 de Julho de 1919. ( in Actas das Sessões Plenárias [Senado da Câmara] 1914-1950, sessão de 28/7/1919, AMTV).

Também muitos ainda se recordarão de ver desfilar no Dia de Portugal, em Torres Vedras, os velhos combatentes dessa guerra, que viviam no “Asilo” Militar de Runa os seus últimos anos de vida.

Ficam aqui, em traços largos, a memória do que foi o reflexo dessa guerra, ao mesmo tempo distante e próxima, distante das destruições materiais e dos horrores das populações em desespero no centro da Europa, mas próxima pela presença de torrienses nas frentes europeia e africana e pelos reflexos socias e económicos vividos pela população do concelho.
  • (1)    Editorial de A Vinha de Torre. Vedras (VTV) de 78/1914;
  • (2)     “Em Hora de tréguas” in A Voz de Torres (AVT) – 9 /8/1914 (nº1), órgão local do PRP;
  • (3)     “A Guerra e o livre Pensamento” in A AVT – 23 /8/1914;
  • (4)     in VTV 13/8/1914;
  • (5)     in VTV de 8/4/1915;
  • (6)     in AVT de 15 /11/ 1914;
  • (7)     In VTV de 6/8/1914;
  • (8)     in VTV de 10/9/1914;
  • (9)     in VTV de 19/11/1914;
  • (10) in VTV de 21/1/1915;
  • (11) In AVT de 22 e 29/11/1914;
  • (12) In AVT de 29/11/1914;
  • (13) In AVT de 7/2/1915;
  • (14) In AVT de 6/12/1914;
  • (15) Revolta da àgua pé de 20 Outubro 1914, reportagem publicada nas páginas de A Voz de Torres, 1 /11/ 1914;
  • (16) “Novo Ano” (1916) in VTV de 6/1/1916;
  • (17) in VTV de 16/3/1916;
  • (18) In VTV de 30/3/1916;
  • (19) In VTV de 13/4/1916;
  • (20) In VTV de 27/7 e 3/8 de 1916;
  • (21) In VTV 10/8, 31/8 e 7/9 de 1916;
  • (22) in VTV 12/10/1916;
  • (23) In VTV de 9/10/1916;
  • (24) In VTV de 19 /10/ 1916;
  • (25) Júlio Dantas  para o jornal Primeiro de Janeiro, segundo transcrição na VTV de 8 /11/ 1916;
  • (26) In VTV  de 15/2/ 1917 e  7/6/1917;
  • (27) In VTV de 22/3/1917;
  • (28) In VTV de 7/6/1917;
  • (29) In VTV 21/2/1918;
  • (30) Acta da CMTV de 24/4/1918;
  • (31) In VTV de 5/7/1917;
  • (32) Sobre a “questão da subsistências”, baseámo-nos na nossa comunicação “A Questão das “subsistências” em Torres Vedras (1916-1918)” , publicada em “História da Alimentação, Turres Veteras IX, Lisboa Colibri, 2007, pp.181-214;
  • (33) Sobre este tema ler “Torres Vedras e a Pneumónica de 1918”in História da Saúde e da Doença, Turres Veteras XIV, coord. de Carlos Guardado Silva,ed. Colibri/CMTV, Maio 2012, pp..187 a 203;
  • (34) in VTV 7/11/1918;
  • (35) in VTV 14/11/1918.