sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Carnaval de Torres - Fotos antigas (arquivo Adão de Carvalho- Biblioteca Muncipal e arquivo pessoal do Vedografias)

 ANOS 20 (século XX) :





ANOS 30 (Século XX) :








ANOS 40 (século XX) :


ANOS 50 (Século XX) :




ANOS 60 (século XX) :







em ANEXO (fotografias analógicas  do arquivo pessoal de  Venerando Aspra de Matos):

Primeira fotografia do Carnaval de Torres (1912 -Ilustração Portuguesas):


ANOS 50 (século XX) :






Anos 60 (Século XX):



Data desconhecida (século XX):





ANOS 90 (século XX)














(NOTA : algumas datas necessitam de confirmação e eventual correcção)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

1846 – Os horrores da Guerra em Torres Vedras


Ao longo da sua História, a população de Torres Vedras assistiu e foi vítima de muitos conflitos militares, até porque deve muito da sua existência à importância estratégica da região em relação à defesa de Lisboa.

Felizmente, há quase 180 anos que a região não é palco de combates militares de grandes dimensão, e só indirectamente as suas populações sofreram as agruras da guerra, tendo muitos torrienses participado na 1ª Guerra e na Guerra Colonial, conflitos que, pelo menos, pouparam os habitantes de Torres Vedras de serem vítimas directas de crimes de guerra e da destruição dos seus bens em conflitos militares.

A última vez em que a região foi palco de uma batalha de grandes dimensões e que provocaram a destruição, o medo e a aflição dos seus habitantes aconteceu nos dias 22 e 23 de Dezembro de 1846, na célebre Batalha de Torres Vedras, episódio da “Patuleia” ao qual já nos referimos em crónicas e estudos anteriores.

O que pretendemos aqui abordar é o efeito que esse conflito teve junto das populações locais da época, principalmente com uma referência aos eventuais crimes de guerra contra civis torrienses, alguns deles ainda com a memória dos conturbados tempos das Invasões Francesas (1808-1810)  e da guerra civil entre liberais e absolutistas (1832-1834).

A presença de tropas neste concelho durante vários dias, bem como a sua movimentação, já seria, só por si, motivo de preocupação e incómodo para os habitantes, tendo em conta a necessidade de acomodar e alimentar os militares.

Ainda por cima a principal Batalha, ao contrário do que aconteceu durante as Invasões Francesas, teve lugar dentro da própria vila, com o confronto de artilharia entre o Forte, dominado por Saldanha, e o Castelo, dominado por Bonfim.

Os tiros entre os dois exércitos e o bombardeamento do Castelo terá atingido muito provavelmente alvos civis, embora não existam muitas notícias sobre esta situação.

Sabe-se também que a entrada das tropas fiéis à rainha na vila foi acompanhada de intensos combates pelas ruas de Torres Vedras, ao longo do final da tarde desse dia 22 de Dezembro, onde algumas casas de civis foram usadas como pontos de defesa e ataque (1).

José Eduardo César, na sua conhecida memória manuscrita sobre a batalha, refere a noite de 22 de Dezembro, a que se seguiu à Batalha ganha pelo exército de Saldanha, como uma “noite de horrorosa recordação para os moradores da vila”, onde “todas as portas eram arrombadas indistintamente” e “todas as casas roubadas”.

O jornal O Espectro, órgão de propaganda Patuleia, vai ainda mais longe, referindo os “horrores” vividos pelos habitantes de Torres Vedras, e o “saque” das “forças da rainha”, que “não respeitaram mulher nem donzela” (2), ideia reforçada pelo mesmo jornal na sua edição de 30 de Dezembro, insistindo no “saque de Torres Vedras” e sublinhando “a violação de mulheres e donzelas” apelando a que se vingasse “a honra de nossos irmãs, de nossas mulheres, de nossas filhas”.

Numa memória posterior, mas publicada ainda em vida de muitos torrienses que tinham vivido aquele momento (3) , não se faz referência a tais “violações”, alegação que parece falsa e de mera propaganda, que designaríamos hoje por “fake news”, mas descreve, de forma mais realista, a forma como a população civil foi incomodada pela batalha e pela entrada das tropas de Saldanha:

“Se o dia (…) tinha sido de horror para os habitantes de Torres Vedras, pelo estampido da arti- Iheria e fuzilaria, que dizimava tantas vidas, e pelos projecteis e balas, que tinham cahido em cima de seus telhados, e até mesmo dentro em suas casas; a noite, que estava bastante escura, não foi menos horrorosa (…)  pela bulha e estrondo das coronhadas com que a deshoras o exercito vencedor batia, e pretendia arrombar as portas, como de facto muitas arrombou; pelo espirito de. saque, e vertigem de que vinha possuido e cheio, julgando conquista sua esta villa, como se os seus habitantes tivessem culpa em vir o exercito vencido tomar aqui posições, ou concorresse na sua generalidade para as desgraças, que acabavam de sofrer. Com effeito o saque não foi ordenado, mas parecia tolerado; muitas casas foram limpas de tudo, e não se fazia duvida em lançar mão das cousas, à vista mesmo de seus donos, que se davam pressa em socorrer os seus hospedes com a comida que tinham; de maneira que por alguns dias se não abriu loja alguma, que vendesse comestíveis, chegando a haver falta para o exercito e para os habitantes, até que o duque de Saldanha as mandou abrir com sentinellas às portas, para que seus donos podessem vender sem ser roubados, e desde então appareceu a abundancia. Não foram só estas as desgraças que teve a sentir esta villa, pois teve também a de sentir a morte de quatro dos seus habitantes inermes e pacíficos, um dos quaes, que era um taverneiro, se achou morto na rua, segundo parece, de baionetadas, e os outros tres foram atravessados com balas à entrada d’essa pouca força, que penetrou na villa quasi à noite. E soffreu tambem o peso do aboletamento de toda a divisão do exercito da rainha, por muitos dias, até que o general fez sahir da villa vários corpos para os logares visinhos, a fim de allivial-a”.

O mesmo articulista fazia justiça ao Duque de Saldanha, considerando que, se não fosse o seu espírito de “moderação e cavalheirismo”, sempre “prompto em dar guardas e attender a quem receiava violências, ou se queixava das que lhe faziam”, “muito pior teria sido a sorte dos habitantes d’esta terra”.

Ficamos assim a saber que não se terão registado violações de “donzelas” e que morreram 4 civis, três, ao que parece, vítimas de balas perdidas durante os confrontos nas ruas da vila por ocasião da entrada nela das tropas de Saldanha, e apenas um eventualmente morto na sequência de um assalto a um estabelecimento por soldados.

Nada que se compare aos horrores e aos verdadeiros crimes de guerra que, nos nossos dias, vemos serem cometidos por esse mundo fora.

Esperamos que aquela tenha sido a última vez que esta vila e os seus habitantes conheceram os horrores da guerra.

(1)    – “A Noite Horrível e o Dia de Gloria”, in Diário do Governo nº 302 de 22 de Dezembro de 1847;

(2)    - O Espectro de 28 de Dezembro de 1846;

(3)    – “Antiguidades de Torres Vedras”, in A Semana de 21 de Abril de 1887.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Primórdios dos movimentos sociais, de base “operária”, em Torres Vedras


Neste breve ensaio pretende-se fazer um breve balanço de alguns movimentos sociais, de cariz “operário” e sindical, registados em Torres Vedras no século XIX e nas primeiras décadas do século XX.

Claro que, para falar em “movimento operário”, é preciso que existam “operários”, isto é, assalariados ligados à actividade industrial.

Acontece que, no concelho, de acordo com vários dados conhecidos (inquéritos indústrias, recenseamentos de população com dados sociais, quer oficias, quer registados em monografias várias, como na parte económica da “Madeira Torres”), a percentagem de população registada como profissional do sector secundário, entre 1817 e 1930, ronda os 10%, ou menos, do total de activos (8,2% em 1817, 9,3% em 1862, 11,9% em 1890, 11% em 1911 e 8,2% em 1930).

Não se conhecendo dados entre 1930 e 1960, só neste último recenseamento a percentagem era ligeiramente superior, 16%, ultrapassando finalmente os 20% em 1970 (23%) e chegando ao seu máximo do século XX em 1981 ( 36,5%), entrando depois em declínio.

Registe-se, contudo, que, pelo menos até 1930, a esmagadora maioria dos profissionais registados no sector secundário deste concelho eram meros artesãos, trabalhando em “micro-empresas” de base familiar, longe das características sociais do “operariado” contemporâneo, base do desenvolvimento dos movimentos sociais de tipo “socialista” e sindical que aqui pretendemos registar.

O Inquérito Industrial de 1881 regista apenas 4 empresas desse ramo no concelho, empregando um total de 16 assalariados (uma média de 4 por empresa). No inquérito camarário de 1913 registam-se 11 estabelecimentos indústrias, empregando 96 “operários”, sendo de registar que a única empresa ligada à indústria metalúrgica empreguava 12 pessoas e uma outra, classificada com da indústria de alimentos”, empregava um total de 14 trabalhadores. Estes números são pouco diferentes dos registados para o concelho no inquérito nacional de 1917, 15 estabelecimentos empregando um total de 99 assalariados, destacando-se, neste caso, a “indústria metalúrgica”, onde 2 empresas empregavam 25 trabalhadores. No inquérito industrial de 1930 esses números já são mais significativos, 68 empresas empregando 230 trabalhadores, 46 empregados nas 7 empresas ligadas à metalurgia e 97 às 41 empresas de fabrico alimentar, apesar de tudo uma média por empresa abaixo dos 10 trabalhadores.

Não serão assim de estranhar os raros registos de lutas sociais, de cariz sindical e operário, ocorridos durante o período abordado, entre a implantação do liberalismo e o início do Estado Novo.

Quase todas as revoltas e movimentações sociais registadas na primeira metade do século XIX, neste concelho, são de base camponesa, lideradas pelas elites locais de pequenos proprietários rurais, pela Igreja ou pela pequena burguesia urbana, revoltas dessas muitas vezes de cariz político (miguelismo, setembrismo, “patuleia”, …), ou contra os impostos (como a “janeirinha” de 1868).

Só nos finais do século XIX se registam as primeiras revoltas com reivindicações salariais e por melhoria de condições de trabalho, despoletadas pelos trabalhadores do caminho-de-ferro, como aconteceu no dia 5 de Maio de 1885 quando “à noite, marchando até à Quinta das Fontainhas”, os operários exigiram o pagamento dos salários em atraso, partindo os vidros dessa quinta onde vivia o engenheiro responsável pelas obras, Abel Marty. O jornal que descreveu essa revolta considerava que “os operários têm tido bastante razão de queixa à pontualidade do pagamento” (1).

Os conflitos sociais provocados por essa situação acabaram, aliás, de forma trágica, pouco menos de um ano depois, com o assassinato daquele engenheiro em 26 de Abril de 1886, na sequência de uma violenta discussão com um alguns operários que lhe exigiam o pagamento do salário em atraso, tema já por nós abordado em crónica anterior.

Data, aliás, desse mesmo ano de 1885 a fundação de uma colectividade de cariz operária, a “Associação de Socorros Mútuos 24 de Julho de 1884”,  fundada em 27 de Dezembro de 1885, tema também por nós tratado noutro estudo.

Não é de estranhar que surja por essa altura, num artigo do jornal “A Voz de Torres Vedras” de 6 de Julho de 1889, intitulado “As Classes”, a primeira referência local à obra e pensamento de Karl Marx, a propósito do qual o articulista se interrogava : “Quem não sente o arruído das classes escravizadas pelo salário, classes que em altos brados reclamam por toda a parte o seu quinhão no banquete social, apresentando-se para tomarem nas suas mãos o destino d’este mundo (…)?”.

Nos finais do século XIX, início do século XX o descontentamento popular e as reivindicações sociais vão ser absorvidos pelo crescente movimento republicano.

Neste concelho, o movimento operário só volta a ter alguma iniciativa autónoma nos anos da Primeira Guerra, devido às dificuldades económicas que atingem principalmente os assalariados, a chamada “questão das subsistência” ( tema que abordámos noutro estudo).

A primeira greve local registada aconteceu nesse ano de  1917, no dia 27 de Fevereiro, uma greve dos operários tanoeiros da viúva de António da Silva.

Ao crescente despertar do incipiente movimento operário local não terá sido estranho à criação do “Núcleo de Propaganda Socialista de Torres Vedras”, criado em Abril de 1917, inaugurando a sede, na Rua Mouzinho de Albuquerque nº 32, em Setembro desse mesmo ano, com a execução do “hino operário A Internacional” (2).

Na sequência dessa iniciativa, o núcleo local do Partido Socialista, liderado localmente pelo marceneiro António Vicente Santos Júnior, concorreu, pela primeira vez,  às eleições autárquicas em Maio de 1919, obtendo 45 votos.

Por outro lado, está por conhecer a influência local e  a sua implantação, nos anos da República, do movimento sindical anarcossindicalista, enquanto a influência local do PCP, fundado em 1921, só comece a ter algum impacto junto dos trabalhadores deste concelho a partir dos finais da década de 1930, situação também já abordado anteriormente.

Sabe-se, contudo, que, quando da publicação da legislação corporativa de 1933, que acabou com a independência do movimento sindical, existiam em Torres Vedras representações da Associação de classe dos caixeiros, do Sindicato único dos operários da Industria e construção civil e do Sindicato único dos metalúrgicos (3).

Ficam assim registadas algumas pistas para quem queira investigar as origens do movimento social de cariz operário e sindical neste concelho.

(1)    – in “Jornal de Torres Vedras” de 7 de Maio de 1885;

(2)    - leiam-se as edições de 5 de Abril e 19 de Julho de 1917 de “A Vinha de Torres Vedras”;

(3)    – leia-se RAMOS, Hélder Ribeiro, A Consolidação do Estado Novo em Torres Vedras – Poder e oposição – 1926/1949, T. Vedras, ed. Colibri/CMTV, 2019.

 

 

 

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Sizandro em Fúria

                         




segunda-feira, 21 de novembro de 2022

TUNA - Histórias de uma associação centenária

 

A Tuna Comercial Torreense é uma associação centenária desde  5 de Abril de 2004.

Com base num rápido  levantamento de fontes sobre a  origem e evolução dessa prestimosa associação local, pretendo neste texto elaborar um primeiro balanço, ainda que incompleto e lacunar, dos principais dados  recolhidos que possam servir para, futuramente, aprofundar e contribuir para um primeiro historial da Tuna.

É do conhecimento público que esta associação foi fundada a partir de uma cisão no interior do “Grémio Artístico-Commercial”, (actual Clube Artístico Comercial), em 1904, oficialmente provocada por divergências sobre a acessibilidade do público às sessões de animatógrafo que então se tinham iniciado no Salão-Teatro desta associação.[1]

Parece-nos, contudo, terem existido também razões políticas por detrás dessa cisão, pois vamos encontrar à frente dos destinos da Tuna, desde o princípio e ao longo de vários anos, algumas das mais destacadas figuras do então embrionário movimento republicano torriense, como José da Silva Carnide, José António Lisboa, Celestino da Silveira Almendro, José Lobo Mendes ou Álvaro Lafaya de Castro.

A Tuna chegou mesmo a actuar durante um banquete de homenagem aos deputados republicanos António José de Almeida, Alexandre Braga, Bernardino Machado e Afonso Costa, realizado no Hotel Natividade, em 14 de Abril de 1907 , tendo de enfrentar a proibição, por parte das autoridades locais, de tocar na estação de caminhos-de-ferro na despedida daquelas personalidades.[2]

Ainda em pleno regime monárquico, no dia 18 de Outubro de 1909, teve lugar no salão da Tuna uma “conferência anti-clerical”, proferida por António Macieira, que veio a ser ministro da Justiça e dos Negócios Estrangeiros em dois dos governos republicanos. Para essa sessão, o “salão encheu-se litteralmente de ouvintes, entre os quaes algumas senhoras”, causando essa conferência “grande enthusiasmo nos assistentes”.[3]

Quando Machado dos Santos, pouco mais de um mês após a proclamação da República, visitou a vila de Torres Vedras, foi na Tuna uma das colectividades onde aquele mais se demorou, sendo proclamado presidente honorário e homenageado com o descerramento de um retrato na sede da Tuna.[4]

Como prova de agradecimento, aquela figura histórica do republicanismo ofereceu à associação uma granada usada na Rotunda no dia 5 de Outubro.

Todos estes dados parecem comprovar a origem republicana desta associação.

Fundada oficialmente no dia 5 de Abril de 1904, no dia 29 desse mês anunciava-se publicamente a organização de “uma tuna composta de empregados de commercio, em número de 25, sob a regência do sr. Joaquim Nicolau Jorge”, tomando o nome “Tuna Commercial Torrense” e entrando “já em ensaios”. [5]

Aquela data fundadora é confirmada na primeira reunião formal da associação que se realizou no dia 6 de Maio de 1904  e que teve lugar numa cassa pertencente ao Grémio Artístico e Comercial.

A esta reunião assistiram todos os sócios da Tuna Comercial Torreense , entre os quais Joaquim Nicolau Jorge “regente da referida Tuna” que propôs, “para melhor andamento e regularidade dos assumptos d’este grupo”, a nomeação de uma direcção, “o que immediatamente se fez, sendo unanimemente aclamados os cidadãos seguintes: Ulpino da Silva, Presidente; António Alves, Secretário; Candido Francisco d’ Avellar, Thezoureiro[6]

Uma das primeiras preocupações dessa nova associação foi encontrar instalações onde pudesse desenvolver as suas actividades.

Só em 1906 foi inaugurada a sua primeira sede, um salão de 1º andar no “edifício do sr. Angelo Custódio Rodrigues, ao fim da rua Dias Neiva”. A inauguração desta sede e a estreia do estandarte da colectividade tiveram lugar no dia 23 de Setembro de 1906, incluindo também  a comemoração, por parte dos empregados de comércio, do 10º aniversário  do encerramento dos estabelecimentos de Torres Vedras ao Domingo e dias santificados, de tarde[7] :

Do programa dessa “Festa dos Caixeiros” e da inauguração da sede da Tuna constava o seguinte:

Ás 4 horas da manhã – alvorada pela Tuna, percorrendo em seguida as principais ruas da villa;

Á 1 hora da tarde, chegará uma deputação de socios da Tuna Commercial de Lisboa com o seu valioso estandarte, que será acompanhado pela Fanfarra União Torrense, desde a estação até á séde da Tuna;

Ás 4 horas da tarde – distribuição de distinctivos á classe dos caixeiros na mesma séde:

Ás 4 e meia – a Tuna com o seu estandarte, irá cumprimentar a auctoridade administrativa, percorrendo em seguida varias ruas da villa.

Ás 5 e meia – será recitada uma poesia allusiva pelo sr. S. H. Gouveia, a qual será distribuida  em seguida por toda a assistência;

Em seguida, distribuição de um bôdo a 60 pobres no salão da Tuna, durante o qual, a mesma sociedade se encontrará tocando o seu novo reportório.

Ás 9 horas da noite – recitará outra poesia allusiva, o sr. F. J. Jeronymo, que será também distribuida profusamente.

A seguir, a Tuna dará começo á “soirée” sendo intervallada por diversos monologos, e a qual terminará por um bonito cotillon, para o qual se estão confeccionando marcas de magnifico effeito[8], tendo a soirée durado até às 5 horas da manhã.[9]

Com a inauguração deste salão a Tuna passou a poder “recreiar os socios (...) promovendo bailes e saraus dramatico-musicaes, bem como” prestar “, sempre que possa, o seu concurso a qualquer festa de caridade”.[10]

Ainda nesse ano a direcção da colectividade propôs-se instituir um “gabinete de leitura”, pelo que solicitou a várias pessoas a oferta de livros, iniciativa que encontrou bom acolhimento.[11]

Nessa sala organizaram-se bailes para os sócios, geralmente intervalados  com cançonetas  e monólogos, actuações da Tuna (incluindo no seu repertório “valsas”, “passe-calle”, “polkas” e “mazurkas[12]), saraus dramático-musicais, execuções musicais ao piano, etc..

Em 1909 foi contratado Artur Rodrigues para, “às 2ªs, 4ªs e 6ªs feiras dar lições de musica” aos sócios da Tuna e aos seus filhos.[13]

Entre outras iniciativas da Tuna contavam-se os passeios recreativos, destacando-se o que se realizou à praia de Santa Cruz em finais de Outubro de 1908, merecendo uma detalhada reportagem nas páginas da Folha... :

Pouco depois do meio dia [de Segunda-feira 26 de Outubro] dava entrada, tocando, na aprazivel e pittoresca Santa Cruz aquella sociedade que foi recebida com chuveiro de flôres, que gentis senhoras as colonia balnear, lançavam sobre os tunos.

A gentileza da parte das senhoras que alli se encontram a banhos não ficou só por aqui.

Ao parar a tuna no largo principal, as srªs D. Hilda Batoreu e D. Maria Valente distribuiram a todos os tunos graciosos raminhos de flôres que collocaram nas “bastonnières”.

 Ao jantar, que correu animadissimo compareceram aquellas damas, vestidas á moda do Minho, servindo ao “toast” vinhos finos, offerecidos por varios cavalheiros

 Ás 6 horas principiou o concerto no Casino, que se achava vistosamente  ornamentado, o qual durou  até ás 8 horas.

Em seguida teve logar o baile que correu animadamente até ás 11 horas, regressando a Torres a tuna, depois de ter sido novamente obsequiada por uma commissão se senhoras, de que faziam parte D. Suzana Reis e D. Maria Celeste Fonseca, e que lhe offereceu dôces e vinhos finos”.[14]

Em assembleia geral realizada no dia 3 de Janeiro de 1910 decidiu-se  mudar a sede “para o 1º andar  da rua de S. Pedro sobre o estabelecimento dos srs. Trindade e Cª.”.[15]

Ao que parece, essa mudança de instalações ter-se-á ficado a dever aos estragos provocados na primeira sede por uma inundação na véspera de Natal.[16]

A nova sede foi inaugurada no Domingo de Carnaval, 6 de Fevereiro de 1910:

A casa em que se acha agora installada reune todas as condições necessarias para uma collectividade como a Tuna, cujo fim é o recreio dos seus socios.

Alem da elegante sala de baile com palco, tem outras espaçosas salas e gabinetes, que, n’um futuro de prosperidade poderão ser susceptiveis de alargamento.

A sala achava se vistosamente ornamentada devido ao bom gosto do sr. José da Silva Carnide, que foi auxiliado pelo sr. Joaquim Marques Trindade.

No Domingo gordo, depois da Tuna ter executado o seu programma, sob a habil direcção do seu regente, sr. José Candido de Mello, tendo recebido muitas ovações, subiram á scena a comedia em 1 acto, Depois de Velhos e a comedia em 2 actos, Amores de um soldado, original do sr. Thomaz do Nascimento que foi um dos interpretes. Todos os outros amadores que eram os srs. Severino Gouveia, Joaquim Rodrigues , José Barreto, José Canha, Mário de Magalhães e António de Carvalho, fizeram um desempenho que agradou, tendo por isso sido muito applaudidos.

Apoz o espectaculo, foi feita uma chamada á direcção da Tuna, que tem sido incansavel de esforços para o augmento das prosperidades da mesma e a quem se deve a nova instalação. A direcção veio ao proscenio e foi recebida com uma prolongada salva de palmas, depois do que se seguiu um animado baile até de madrugada (...)”.[17]

Contudo, alguns anos mais tarde, lamentava-se “as pequenas dimensões do salão de baile, que mais uma vez se mostrou deficiente para o número dos associados[18]

Respondendo a esta preocupação, a direcção eleita para o ano de 1929 reconhecia que desde há muito tempo "que se tem pensado na construção de um novo salão de baile”, mas apontava a “falta de capital para a realização dêste projecto” como “a principal causa de até hoje se não ter efectuado a sua construção”, prometendo esta nova direcção procurar mais uma vez encarar esse problema.[19]

Ainda nesse ano, numa outra entrevista concedida ao “O Jornal de Torres Vedras”, o então presidente da direcção da Tuna, Emídio Bandeira, anunciava a construção de um grande salão em terreno situado na retaguarda  da seda, pertencente ao comendador Francisco Avelino Nunes de Carvalho, autorizado por este para utilizar com esse fim e cedido pelos arrendatários  João Marques Trindade e Leonel Trindade, tendo-se formado uma comissão composta por Jacinto Rodrigues, Joaquim Vaquinhas, Francisco Jerónimo, António Ferreira, Ernesto José da Costa, Avelino Ferreira, Marques de Carvalho e José Lisboa para angariar fundos para realizar essa obra. [20]

O novo salão, obra arquitectonicamente arrojada e inovadora para a época, foi construído e inaugurado na década de 30.

Os estatutos da Tuna foram  aprovados em Assembleia geral de 25 de Novembro de 1912.

Indicavam-se com finalidades da associação proporcionar “aos sócios e suas famílias o maior número de distracções, como bailes, récitas, jogos que não sejam de parada ou azar e quaisquer divertimentos que possam contribuir para o desenvolvimento da mesma associação”, assim como a criação de “uma biblioteca” e a promoção de “prelecções e conferências artísticas e cientificas ou doutrinárias”, não permitindo, contudo, “conferências políticas, pessoais ou partidárias”.

Sem esquecer a origem social da associação, indicavam-se igualmente como finalidades a discussão de “todas as questões de carácter comercial” e “promover a colocação para os filhos menores dos sócios falecido, quando sem meios de subsistência, encaminhando-os na vida comercial”.

Promovendo desde logo um certo elitismo que se tornou a imagem de marca desta colectividade, os mesmos estatutos defendiam que só podiam ser admitidos como sócios os indivíduos que exercessem  emprego decente, de boa reputação moral e civil” , permitindo à direcção que pudesse “convidar para todas as festas da associação, as senhoras de família em que não haja varões de mais de 17 anos de idade”.[21]

Essa tendência elitista da associação está patente em várias reportagens sobre as suas actividades, como, por exemplo, nas duas seguintes:

Em 1915, referindo-se a uma festa desta colectividade: “Via-se ali uma selecta reunião das famílias mais distintas da terra, e as “toilettes” das senhoras punham um tom realmente chic e de bom gosto no aspecto geral da sala”.[22]

Em 1920: uma referência à Tuna como uma “sociedade com bons elementos de vida e d’uma familiaridade intima entre todos os seus associados[23]

Por ocasião do aniversário da colectividade nesse mesmo ano e da sessão solene para a entrega do novo estandarte da associação, descrevia-se a assistência onde “o chic e apelon” da mesma “se casava num verdadeiro élan com a frescura e beleza das toilettes que damas gentis e galantes envergavam com singular gosto e distinção”. [24]

Esta postura era assumida em entrevista  concedida ao “Gazeta de Torres”, em 1929, pela então recém eleita direcção, indicando como principais característica da Tuna a “escrupulosa selecção de associados” e a “proverbial disciplina que sempre reinou dentro daquela casa”.[25]

Em 1913 uma “commissão composta pelos srs. Luís Gualdino Pereira, Alvaro Augusto Rodrigues e António Alves, exercendo respectivamente os cargos de thesoureiro, secretário e fiscal, resolveram de comum accordo com a direcção d’esta collectividade, reorganisar a Tuna (parte musical), bem como dar começo aos ensaios da parte dramatica”, sendo responsável pela direcção musical o maestro Francisco Xavier de Mello.[26]

Em 18 de Julho de 1920 uma novamente reorganizada Tuna musical, mas ainda sob a direcção daquele maestro, realizava um “sarau musical” de apresentação, onde fez ouvir os “melhores trechos do seu selecto reportorio”. [27]

Na década de 20, no dia de aniversário da colectividade, os recém criados clubes de futebol de Torres Vedras, o Sporting Torrense e o União Torreense, disputaram a Taça 5 de Abril, atribuída pela Tuna[28]

Uma das iniciativas que mais contribuiu par identificar esta colectividade foi a da organização dos bailes de carnaval, tornando-se, com o tempo, a mais prestigiada e cobiçada festa do carnaval de salão em Torres Vedras.

Logo em 1906, ainda sem sede própria, a Tuna organizou, na Terça-feira de Carnaval, uma soirée , no salão do Hotel Natividade, “o qual terminará com um surpreendente  Cotillon”.[29]

 O primeiro carnaval organizado em instalações próprias teve lugar no ano seguinte, na primeira sede da rua Dias Neiva.

Neste carnaval a “sala da Tuna estava enfeitada de festões de cores diversas, vendo-se pelas paredes varias caricaturas e ao fundo uma boneca garridamente vestida.

Na noite de Domingo houve regular animação”, tendo a Tuna executado “todas as peças com a maior correcção, pelo que foi justamente ovacionada.

A parte dramática foi desempenhada pelos amadores Gouveia, Vaquinhas, Avelino, Canha, Magalhães e Alves, nas comedias Um ensaio de Hamlet  e Ideias do sr. Sardinha ,sendotodos muito applaudidos.

Abreu no monologo Ponham os seus chapeus, Tito dos Santos no monologo Um fraco e Arthur Freire na cançoneta Láter...tenho, mostraram as suas aptidões recebendo geraes applausos.

Na Terça-feira o sr. António Alves recitou com muita graça a cançoneta Ui que danxa e a poesia Que desgraça de nariz.

O baile esteve animadissimo e o cotillon terminou às 6 horas da manhã no meio de grande enthusiasmo (...)”.[30]

Foi por ocasião das festas de carnaval de 1910 que se inauguraram as novas instalações, onde se encontra a sede actual, com já tivemos ocasião de ver anteriormente.

Naquela que foi uma das primeiras tentativas de organizar um carnaval de rua , em 1912, a Tuna fez parte da sua comissão organizadora, conjuntamente  com o “Grémio”, o “Casino” , o “Salão-avenida animatographo” e a “Filarmónica Torrense”[31].

O aparecimento na Tuna, na Terça-feira de Entrudo de 1922, de vários mascarados que a partir daí foram percorrer as outras colectividades da vila[32], esteve na origem do primeiro Carnaval de rua que se realizou no ano seguinte, já com o primeiro rei do Carnaval.

Nestas breves linhas procurou-se apenas efectuar um primeiro balanço de alguns dos momentos e de algumas das características mais importantes desta colectividade.


[1] Cem Anos de Vida, ed. do Clube Artístico Comercial, T. Vedras, 1991, pág. 41.

[2] Ver Folha de Torres Vedras de 14, 21 e 28 de Abril de 1907.

[3] Folha de Torres Vedras de 24 de Outubro de 1909.

[4] Folha de Torres Vedras de 13 de Novembro de 1910.

[5] Folha de Torres Vedras de 29 de Abril de 1904.

[6] Livro de “Actas da Tuna Commercial Torreense” (direcção), acta nº1 de 6 de Maio de 1904.

[7] Folha de Torres Vedras de 8 de Julho de 1906.

[8] Folha de Torres Vedras de 16 de Setembro de 1906.

[9] Folha de Torres Vedras de 30 de Setembro de 1906.

[10] Folha de Torres Vedras de 8 de Julho de 1906.

[11] Folha de Torres Vedras de 21 de Julho de 1907.

[12] Folha de Torres Vedras de 20 de Janeiro de 1907.

[13] Folha de Torres Vedras de 18 de Julho de 1909.

[14] Folha de Torres Vedras de 1 de Novembro de 1908.

[15] Folha de Torres Vedras de 9 de Janeiro de 1910.

[16] CARVALHO, Adão de “Recordando...Dois incêndios na cidade”, in Badaladas de 17 de Março de 1995.

[17] Folha de Torres Vedras de 13 de Fevereiro de 1910.

[18] O Torreense de 18 de Abril de 1920.

[19] Gazeta de Torres de 6 de Janeiro de 1929.

[20] O Jornal de Torres Vedras de 3 de Maio de 1929.

[21] Estatutos da Tuna Comercial Torreense –aprovados em Assembleia Geral de 25 de Novembro de 1912, ed. tip. A União, T. Vedras, 1960, em especial os capítulos I, II e VII.

[22] Folha de Torres Vedras de 4 de Fevereiro de 1912.

[23] A Vinha de Torres Vedras de 29 de Maio de 1915

[24] O Torreense de 18 de Abril de 1920.

[25] Gazeta de Torres de 6 de Janeiro de 1929.

[26] A Vinha de Torres Vedras de 11 de Setembro de 1913.

[27] O Torrense de 17 de Julhode 1921.

[28] O Torrense de 2 de Abril de 1922

[29] In Convite para o Carnaval de 1906 –Tuna Commercial Torrense.

[30] Folha de Torres Vedras de 17 de Fevereiro de 1907.

[31] Folha de Torres Vedras de 11 e 22 de Fevereiro de 1912.

[32] O Torrense, 5 de Março de 1922.