domingo, 31 de maio de 2009

Torres Vedras há 120 anos, na imprensa regional - Maio de 1889

O semanário “Voz de Torres Vedras” (VTV), na sua edição de 11 de Maio, anunciava várias “obras municipais”, empreendidas pela Câmara, consideradas de “bastante utilidade”. Para além “da arborisação nos terrenos adjacentes ao largo da Graça e Avenida, e de ter augmentado a já existente nas praças e alamedas, mandou calçar a viella mais immunda que havia na Porta da Várzea, e igualmente as ruas próximas, que no inverno eram verdadeiros lamaçaes”. Considerando estes melhoramentos “já muito, em relação ao costume”, achava, contudo, que não era ainda o suficiente, pois “a hygiene da villa está reclamando outras medidas.
Nessa mesma edição, onde se anunciava a edição em Portugal da obra de “Frederico Engelo” (sic), “o Socialismo utópico e o socialismo scientifico”, dava-se conta dos graves efeitos sociais da crise vinícola que então se vivia na região, informando-se que na Freguesia da Carvoeira e na vizinha Merceana, se estavam a retirar “para os arrabaldes de Lisboa muitos indivíduos em procura de trabalho, que n’aquelles logares escasseia”, sendo o pouco existente “mal retribuído (…), pois que é de 240 réis o salário que os proprietários estão pagando”.
Já na sua edição de 9 de Maio, o semanário “A Semana” dava conta do mesmo problemas, referindo que os “trabalhadores de enchada, que no anno passado venciam 400 réis, o mínimo, por dia, no presente pagam-se a 200 réis, e não há em que os empregue”.
Nesta mesma edição, referia-se como uma das principais causas da crise na região a falta de trabalho na viticultura, porque “os poucos vinhos que se recolhem nas adegas, não teem sahida, e quando a encontram é por preço tão baixo, que ficam os proprietários da mesma sorte desaremediados”, lamentando-se o articulista com a “crise medonha”, a vida caríssima e a paralisação do comércio.
Na sua edição de 25 de Maio, o mesmo semanário dava conta das queixas que lhe tinham chegado da “classe trabalhadora” do concelho que, recorrendo “ao seu importante jornal para a advogar na terrível crise de trabalho que estamos a atravessar”, e que a obrigaria a emigrar, “caso as obras públicas não abram trabalhos”. E exemplificava com as obras necessárias da estrada de S. Pedro da Cadeira, “que parece que mais uma vez ficou no esquecimento, e que podia na presente crise mitigar a fome a muitas famílias, se os influentes eleitoraes se lembrassem d’este triste povo, como se lembram quando precisam do seu voto para os arranjos”. Ontem, como Hoje…
S.Pedro da Cadeira era igualmente motivo de notícia noutra parte dessa edição, pelo facto de, por iniciativa dos taberneiros daquela aldeia, ter sido apresentado um abaixo assinado requerendo ao Cardeal Patriarca para ordenar “a transferência da missa conventual, para as 11 horas da manhã, isto é, pouco depois do almoço, visto que, como agora succede, sendo a missa pouco depois do sol nado, os devotos em jejum não fazem gasto” nas ditas tabernas, prejudicando o negócio.
Um anúncio publicado na edição de “A Semana” de 9 de Maio indicava a abertura, no Colégio de Nª Srª da Conceição, na Travessa da Olaria, nº 22, de uma classe infantil onde se leccionavam as primeiras letras pelo “methodo Simões Raposo”, ao preço de 500 réis.
Ainda na mesma edição, informava-se que constava que se ía estabelecer “uma escola municipal de instrucção secundária em Torres Vedras, onde se leccionará portuguez, francez, arithmetica, desenho e escripturação commercial”, a funcionar “na camerata do edifício da Graça”.
No mesmo edifício do antigo Convento da Graça foi deliberado, em reunião camarária desse mês que “se desse incremento aos trabalhos de adaptação da parte” desse edifício “destinado à cadeia civil, afim de serem para ali transferidos os presos, o mais depressa possível” (A Semana, 9 de Maio).
26 de Maio era dia de festa no Turcifal, dedicada a S. Sebastião, com arraial, “tocando a phylarmonica da Ermejeira, e subindo no ar innumeros foguetes de óptimo effeito” (VTV, de 25 de Maio).

sábado, 30 de maio de 2009

30 de Maio de 1834 . decreto de extinção das Ordens Religiosas - Recordando os Conventos Torrienses

Nesta data, mas em 1834, era publicado o decreto de extinção dos conventos, obrigando ao seu encerramento e à "nacionalização" dos seus bens.
A propósito dessa data, recordamos hoje algumas informações sobre os conventos existentes à data neste concelho.

30 de Maio de 1834 . decreto de extinção das Ordens Religiosas - Recordando os Conventos Torrienses - Convento do Varatojo

(Fotografia pertencente à Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian, da autoria de Mário Novais)


O Convento do Varatojo foi inaugurado em 4 de Outubro de 1474.
A iniciativa de o fundar pertenceu a D. Afonso V, que em 1470, tomou essa decisão, escolhendo o lugar do Varatojo porque o monarca aí possuía uma Quinta que adquiriu por 35$000 réis.
Em Fevereiro de 1470 aí se deslocou aquele monarca em procissão solene, para o lançamento da primeira pedra do convento.
Ficou como responsável pela obra e pela sua inspecção Diogo Gonçalves Lobo, que tinha sido vedor da rainha D. Leonor, ao qual o monarca ordenou “que pusesse toda a eficácia (...) sahindo do Real Erário todas as despesas da mesma: Para effeito de se pôder concluir a obra o mais depressa, e com mais suavidade, e também para que os lavradores mais facilmente, e mais gostosos concorressem para ella com seus carros, lhes fez o Rei sempre generoso a grande mercê de alivia-los em grande parte do oneroso tributo, que pagavão chamado jugada, em quanto durasse a obra” (1).
A jugada era um tributo que os lavradores do concelho pagavam, um moio de trigo por cada junta de bois.
O mesmo Gonçalves Lobo representou o rei à data da inauguração, por impossibilidade da sua presença nessa ocasião, dando posse do convento aos 14 religiosos vindos de Alenquer na companhia do Vigário Provincial dos Religiosos Franciscanos. Frei João da Póvoa, e nomeando Fr. Alvaro de Alenquer primeiro guardião do convento.
D. Afonso V reservou para si um modesto aposento, ao qual se recolhia frequentemente, passando aqui grande parte dos seus últimos anos de vida, [faleceu em 1481] assistindo à missa de uma tribuna junto ao coro, quase em frente ao púlpito. No final dos seus dias entregou o governo ao seu filho D. João, “com tenção de viver em Varatojo, no humilde estado de irmão leigo” (Frei Manuel de Maria Santissima) e só por acaso não veio a falecer neste convento (faleceu em Sintra).
Manuel Clemente afirma que “o conventinho inicial mal daria para albergar vinte e cinco frades. No século seguinte, D. João III teve de o acrescentar e a sua esposa D. Catarina construiu uma nova capela-mor na igreja inicial. Assim já pôde albergar cinquenta religiosos, com estudos de filosofia e teologia até 1680”, acrescentando aquele historiador torriense que, “durante este primeiro período, de 1470 a 1680, a estação evangélica do Varatojo chamava gente grada a ouvir os frades e a aprender com eles. Não foi por acaso que as primeiras habitações à volta do convento tenham sido exactamente as desses ouvintes discípulos” (2). Dessas habitações ainda hoje é possível observar as ruínas do paço brasonado dos Andrades.
Em 1680 Frei António das Chagas fundou, neste convento, um seminário.
Vários cronistas da ordem de S. Francisco apontam a existência de um primitivo convento daquela ordem já no século XIII, entre Torres Vedras e a encosta do Varatojo, na várzea do Alpilhão, junto à muralha da vila, conhecido por Ermida de S. Francisco, hipótese até hoje impossível de confirmar.
Em 1834, os frades deste convento conheceram o destino de todos os regrantes do país. Em 1861 seria recuperado pelos franciscanos como seminário, tendo funcionado como escola de instrução primária, a primeira do concelho, para voltar a ser encerrado e nacionalizado em 1910, funcionando aí, até 1928, um asilo de inválidos. Neste ano voltou a ser entregue aos franciscanos, sendo o único convento desta ordem, de todos os encerrados desde 1834, a regressar às suas funções iniciais, sendo hoje o único convento do concelho habitado por frades.

Descrição geral do convento

Foi ampliado ao longo dos séculos.
Já neste século, entre 1903 e 1906, construiu-se um novo andar.

Janela de Canto
Segundo a tradição era desta janela que o rei D. Afonso V falava aos pobres.
Contudo essa janela é obra mais tardia, posterior ao reinado de D. João II.

Capela de Nª Senhora do Sobreiro
Á entrada, do lado esquerdo, em frente à entrada da Igreja.
Foi construída em 1777.
Deve o seu nome ao facto de a Imagem da Senhora ter sido descoberta, segundo reza a tradição, na cavidade de um robusto sobreiro, na mata do convento.
Talha dourada , mármores e colunas, fazem parte do seu interior.
No coro alto destacam-se os azulejos com molduras roxas e amarelas, com cenas da vida da Virgem até ao nascimento de Cristo, num conjunto de seis painéis.
Nas paredes, duas telas do século XVIII: Assunção e Coroação da Virgem.

Igreja
No portal gótico:
- à direita, o rodízio de D. Afonso V, cercado pelo cordão franciscano. O rodízio de tirar água significa que um monarca deve movimentar-se continuamente ao serviço da nação.
- À esquerda, um baixo relevo gótico de mármore, com as armas do reino sustentadas por dois anjos.
Igreja de uma só nave.
A sua estrutura geral é do século XVII.
As paredes são revestidas por azulejos do século XVIII e nichos para confessionários, cujos azulejos se compõem de motivos alusivos à confissão. Um deles retrata o inferno, representando o estado de um penitente que se confessa bem ,em contraste com o penitente que se confessa bem..
Altares laterais – talha barroca.
Lado do evangelho (à esquerda de quem entre):
- Altar dedicado ao Senhor Crucificado, cuja imagem foi substituída pela do Coração de Jesus em 1883.
Lado da epístola (à direita de quem entra):
- Capela de S. José (?)
- Altar de Nª Srª da Conceição ( ou da Imaculada Conceição) – interessante imagem esculpida
- Capela de Nossa Senhora das Dores – fundada em 1740; painéis de azulejos setecentistas; altar de talha rocaille, com bonitas e pequenas imagens, sobressaindo a de Nossa Senhora das Dores em alto relevo. É nesta capela que, debaixo da mesa do altar, se venera, desde 1870, “em urna de cristal, todo o esqueleto do mártir S. Benedicto, artisticamente composto em cera, e vestido com ricos brocados de cera, oferta da princesa de Portugal, a Infanta D. Isabel Maria (...) filha de D. João VI, ao seu confessor, o conhecido Padre Fr. Agostinho da Anunciação (...) a qual por sua vez a tinha recebido por gentileza do Papa Pio IX, na terceira e última visita que aquela Infanta fizera a Roma” (3)
Púlpito – setecentista, em mármore (em frente ficava a tribuna de onde D. Afonso V ouvia missa).

Capela-Mor:
Abóboda de berço com caixotões
Forro de azulejos do século XVIII com cenas da vida de Stº António, representando alguns dos seus milagres.
Em cima : quatro tábuas do final do século XVI : “Anunciação”, “Adoração dos Reis Magos”, “Adoração dos Pastores”, “Aparição de Cristo”, atribuídos a Grão Vasco.
Ao fundo : retábulo de talha em branco e ouro, com as colunas decoradas com aves, vides e anjos.
Ao centro : tela, da autoria do pintor italiano Braccarelli – “Stº António Perante a Virgem que lhe Entrega o Menino”.

Sacritia
Foi inaugurada em 1732.
Duas tábuas do século XVII: “Milagre da Mula (Santo António)” e “Pentecostes(descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos)”, quadros atribuídos a Grão Vasco.
Silhares de azulejos do século XVIII, cópia das estampas do livro “Escuela del Corazon”, alegoria dos vários estados de alma nas suas ascensões para Deus, legendados com várias quadras.
Armários de parede e grande arcaz setecentista.

Claustro
De tipo gótico.
Arcada ogival assente sobre colunas chanfradas.
O tecto é decorado com o rodízio de D. Afonso V.
Na ala norte, porta manuelina, que dá acesso à capela do Senhor Jesus, forrada com azulejos de ponta de diamante. Aqui encontra-se o panteão da família Soares de Alarcão, que dominaram a alcaiadaria de T. Vedras nos séculos XVI e XVII, para o qual se entra por um magnífico pórtico manuelino. Destaca-se a lápide sepulcral de Gomes Soares, que foi conselheiro de D. Afonso V, D. João II e D. Manuel..
Nicho de Stº António, com azulejos policromados representando o Santo.
Sala do capítulo: azulejos albarrados do século XVIII ; várias telas com retratos dos priores e figuras ilustres do convento, com destaque para a de “Frei António das Chagas”, tela do final do século XVII.

Cela de Fr. António das Chagas
Tem um pequeno altar, onde se conservam relíquias do santo (?) e vários papéis com a sua assinatura.

Mata
“A cerca do Convento é espaçosa, e comprehende uma boa mata, horta, e vinha povoada de muitas arvores das milhores castas de peras, maças, ameixas, ginjas, e pêcegos, e tambem comprehende diversos taboleiros de pomares d’espinho, sendo bastante conhecidas, e estimadas as limas, que d’elles se colhem” (4).
Nela existem duas capelinhas, uma no sítio do primitivo forno de cal, que funcionou para a construção do convento no século XV, a gruta do “Ecce Homo”, forrada a azulejos, e a primitiva capela da Senhora do Sobreiro, adornada com quatro pequenos painéis que figuram monges em estudo e em contemplação, onde, segundo a lenda, foi descoberta a Imagem de Maria Santíssima com o menino, na cavidade de um centenário sobreiro, escondida aí desde o tempo de D. Afonso Henriques, para escapar á perseguição dos mouros.
“Reconhece-se que não foi plantada esta matazinha, mas fôra um pedaço de monte, cujo mato e arbustos cresceram á mercê da sua natureza, formaram selva, mais ao diante aproveitada para uso dos animais domésticos do primeiro colono, que na encosta daquele monte arroteou e semeou; e mais tarde transformada em recreio do primeiro senhor que ali instituiu Quinta para sua morada” (5).
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(1) Frei Manoel Maria Santíssima, História do Varatojo, 1º volume, 1799
(2) P. Manuel Clemente, “Uma página da história torrense – Varatojo: Centro de Irradicação”, in Badaladas, T. Vedras, 5 de Outubro de 1984.
(3) Frei Bartolomeu Ribeiro, “Os Franciscanos em Torres Vedras”, in Badaladas, 1953e 1954, ed. Fac-similada.
(4) P. Manoel Agostinho Madeira Torres, Descripção Historica (...) de Torres Vedras, 2ª ed., Coimbra, 1862, p.139
(5) Frei Bartolomeu Ribeiro, “Os Franciscanos em Torres Vedras”, in Badaladas, 1953e 1954, ed. Fac-similada.

Para Saber mais:
SILVA, Carlos Guardado da, Torres Vedras Antiga e Medieval, ed. CMTV/Colibri, Lisboa 2008

Ver mais fotografias em http://www.pbase.com/diasdosreis/torres_mosteiro_varatojo

30 de Maio de 1834 . decreto de extinção das Ordens Religiosas - Recordando os Conventos Torrienses - Convento de Penafirme

Ruinas do "Convento Velho" de Penafirme.

Igreja do "Convento Novo" de Penafirme


Jorge Cardoso, autor do “Agilogio Lusitano” atribui a fundação do Convento de Penafirme a um eremita germânico, Santo Ancirado, no ano de 850, data discutível, se tivermos em conta que esse eremita faleceu nesse mesmo ano.
Diz a lenda que existia por esses tempos um convento junto a Torres Vedras, nas margens do rio Sizandro mas, porque não podia pagar os impostos devidos aos árabes, que então dominavam este território, eram frequentemente maltratados por estes.
Aquele eremita, então em peregrinação por esta região, conseguiu convencer os religiosos que habitavam esse convento a abandonarem-no e a fundarem outro em local mais seguro.
Escolheram então um local junto ao Oceano e perto da foz do rio Alcabrichel para construírem uma capela de invocação a Nossa Senhora da Graça, que deu origem ao primeiro convento instalado junto ao lugar de Penafirme.
Foi o primeiro agostiniano fundado em Portugal, segundo a opinião dos vários cronistas da Ordem dos Agostinhos Calçados. Contudo esta opinião é discutível, já que “desde os primeiros séculos do cristianismo foram aparecendo pequenas comunidades e conventos de frades eremitas sem se regerem por regras próprias e aprovadas, acontecendo que a partir de certa altura alguns deles adoptaram o nome genérico de “Agostinhos”, mas cujas observâncias eram variadissimas - não significando, portanto, a existência dessa ordem religiosa”.
Só em 1255 é que o Papa Alexandre IV unificou as várias congregações de frades eremitas “de que resultou o código uniforme da Ordem dos Eremitas de St.º Agostinho”(1).
Vários autores, entre os quais Frei Jerónimo Romano, autor de “Centurios da Ordem Agostiniana”, afirmam que o duque de Aquitânia, passando por aquele mosteiro por volta de 1140, em peregrinação para Santiago de Compostela, gostou tanto dele e do lugar onde estava, que por lá ficou alguns anos, mandando reconstruí-lo.
A primeira referência documental à existência desse convento data de 1226. Trata-se de uma doação da câmara de Torres Vedras, citada por Madeira Torres.
Frei António da Purificação, autor de uma das crónicas da ordem de Stº Agostinho, descrevia do seguinte modo o primitivo convento:
“(...) Todo elle é mais pequeno que o mais limitado mosteiro de padres capuchos d’este reino. As cellas não teem de largo mais do que dez palmos craveiros”(2)”, e as janelinhas mais parecem portinholas de navio que janellas. O tecto de cada uma é tão baixo, que eu, com ser de pequena estatura, lhe chego com a mão, posto com os pés no pavimento. O dormitório é tão estreito, que não é capaz de mais passagem, que de duas pessoas somente. A claustra mui estreita, de um só andar e térrea. A igreja e todo o mais edifício em proporção ao que temos representado. E, finalmente, tudo tão tosco e humilde, que tirando os tectos da igreja e sacristia, todos os demais foram de telha vã até ao anno de 1575, rm que o prior, que então era, quiz forrar as cellas e dormitórios, para que os religiosos que estivessem no Verão mais reparados das calmas, e no inverno dos frios” (3).
As precárias condições de vida existentes no primitivo convento levaram os frades a iniciar a construção de um novo edifício em 1597, mas foi só em 15 de Agosto de 1638 que se celebrou missa, pela primeira vez, na nova igreja.
Sobre este segundo convento escreveu Vilhena Barbosa : “ a sua fábrica não tinha sumptuosidade, nem se fazia notar por sua vastidão, antes pelo contrário, era modesta nas proporções e simples na architectura. Porém comparada com a do velho conventinho poderia chamar-se-lhe grandioso”(4). Este segundo convento é o que actualmente se encontra em ruínas, julgando-se que o que está à mostra é apenas o segundo andar do edifício, estando soterrados o rés-do-chão e o primeiro andar, opinião que aguarda a confirmação de um trabalho de pesquisa arqueológica no local.
O período áureo da história de Penafirme parece corresponder ao período de ocupação deste segundo convento, pois foi entre os séculos XVI e XVII que o habitaram alguns frades de renome, como, entre outros, o frei Tomé de Jesus, o frei João Bom, o frei Agostinho da Graça, o frei António de S.tª Maria, o frei João de Estremoz ou o frei Gaspar das Chagas.
Atribui-se geralmente o abandono e ruína deste segundo convento ao terramoto de 1755. Confirmando esta hipótese, refere-se a existência, ainda hoje visível, de uma cruz no topo do monte, a norte das ruínas desse velho convento, que, segundo a voz comum, testemunha “ a morte de um frade que na manhã do Terramoto terá conseguido subir o monte, mas que terá morrido de cansaço ao atingir o cimo”(5).
Se esse convento ainda era habitado à data do terramoto, o seu estado de degradação já era evidente, como é testemunhado, quer por Madeira Torres, ao indicar a fundação do novo convento, o de terceira fundação, num ano entre 1735 e 1755, isto é, antes daquela catástrofe, quer pelo padre António Duarte na sua resposta ao inquérito paroquial de 1758.
Este, na parte em que refere os estragos provocados na freguesia de A-Dos-Cunhados pelo terramoto, afirma que o “ Convento de Pena Firme ficou inabitável, e hum novo, que os Religiosos edificarão junto ao lugar da Póvoa(onde fizerão um hospício em que morão) ficou tão arruinado que he preciso tomar dos fundamentos no que já se trabalha”(6).
Ficamos assim a saber que, quando se deu o terramoto, o convento quinhentista ainda era habitado, tendo ficado destruído nessa ocasião, mas também que já então estava em construção o novo convento, que ficou igualmente destruído.
O avanço natural do areal e o próprio envelhecimento do edifício já tinham iniciado aquilo que o terramoto completou.
O terceiro convento “deveo o seu principio ao provincial Frei António de Souza da Casa de Távora, que por duas vezes foi promovido a esse emprego, e ultimamente ao Bispado do Porto. Apenas se edificou um único dormitório, pelo qual se vê a grandeza, e que a sua fábrica fora desenhada ao gosto d’um fundador capaz de maiores projectos. A igreja aparta-se da architectura ordinária, pois no interno representa um octogono, e apesar de haver sido cortado para limitar despesa, com isso não lhe diminuiu a capacidade, mas sómente a belleza, e regularidade. Sua porta principal é uma obra bem acabada no seu género, e realmente excessiva na perfeição e segurança, e muto mais na somma, que n’ella se diz dispendida”(7).
Poucos anos antes da extinção das ordens religiosas, Madeira Torres descrevia as propriedades do Convento por volta de 1819: “Este Convento tem por património um vasto terreno de legua de comprimento, e quase meia de largura, povoado de varios casaes d’onde recebe rendas e pensões, e tambem cultiva alguns terrenos especialmente de vinhos, resultando-lhe de tudo um rendimento proporcionado a subsistencia de maior Comunidade e susceptivel de grande melhoramento” (8).
Com a extinção das ordens religiosas em 1834, o Convento de Penafirme foi vendido “em hasta pública, passando à posse de estranhos, entre eles, o Vice-almirante inglês Jorge Rosa Sertorius, que depois recebeu o título de conde de Penafirme” (9). Também foi seu proprietário José Avelino Nunes de Carvalho, negociante de Torres Vedras, ficando o edifício ao abandono e o seu património sujeito a sucessivos saques.
Mais tarde o edifício foi adquirido pelo pároco de A- Dos- Cunhados José Jorge Fialho e no final dos anos 50 deste século foi restaurado e aumentado com mais um andar “e vários melhoramentos com vista ao seu aproveitamento para a instalação de um seminário menor”(10).
No verão de 1959 foi oficializada a criação do “Seminário-Liceu de Penafirme”, a funcionar nas instalações do convento, tendo-se iniciado o primeiro ano lectivo em Outubro desse ano (11). Em 1975 esse seminário passou a funcionar como externato semi-oficial, sendo hoje uma das escolas mais prestigiadas neste concelho do ensino básico e secundário.
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(1)VITAL, Angelo, “O enigma de Penafirme ou a história do seu convento”, 3 partes, in Badaladas, 9-2-1978,16-2-1978, 23-2-1978.
(2)Dez palmos craveiros correspondem a 2,2 metros, Vital, ob.cit, 16-2-1978.
(3)PURIFICAÇÂO, frei António da, Chronica da Antiquíssima Provincía de Portugal da Ordem dos Erimitas de Stº Agostinho (...), Lisboa 1642 e 1656.Esta obra não está em condições de ser consultada na Biblioteca Nacional, pelo que recorremos à leitura de Vilhena Barbosa, em obra citada na nota 4, p.349.
(4)BARBOSA, J. Vilhena, Estudos Históricos e Arqueológicos, tomo II, ed. 1875, p.351.
(5)VITAL,ob.cit.,23-2-1978.
(6)DUARTE, António, resposta ao inquérito paroquial de 1758,in MATOS, Venerando Aspra de, “Torres Vedras e o seu concelho em 1758 (VII parte) - A-Dos-Cunhados (I)”, in Badaladas, 19-1-1990.
(7)TORRES, Manoel Agostinho Madeira, Descripção historica e economica da villa e termo de Torres Vedras, 2º ed., Coimbra 1862 (edição fac-similada, editada pela Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras em 1988),p.134.
(8)TORRES, ob.cit, p.135.
(9)ANACLETO, Pedro Garcia, “As fontes termais do convento de Penafirme”,in Badaladas, 1-10-1958.
(10)VITAL,ob.cit.,23-2-1978.
(11)Badaladas, 1-7-1959.

Factos curiosos

“Sómente os frades de Penafirme tinham direito de fornecer o peixe a El-Rei quando ele visitasse esta região” (ANACLETO, Pedro Garcia, “As fontes termais do convento de Penafirme”, in Badaladas, 1-10-1958)

“Nas Termas do Vimeiro, as antigas Fontes de Penafirme, uma das nascentes é dedicada à Rainha Santa (...). A outra nascente tem actualmente a designação de “Fonte dos Frades”, em homenagem aos beneméritos monges Agostinhos, seus primeiros possuidores”(ANACLETO, Pedro Garcia, “As fontes termais do convento de Penafirme”,in Badaladas, 1-10-1958).

No adro do actual convento de Penafirme existe um cruzeiro com a data de 1787

“Frei António da Purificação refere-se (...) à realização, no Convento de Penafirme, “ainda em 1642 e desde tempos imemoráveis”, da festa “da Santíssima Assunção a 15 de Agosto”,
acrescentando que “desta invocação há no altar-mor uma imagem sua, antiga (...) a qual é muito venerada pelos povos circunvizinhos. que todos os anos vêm a este mosteiro celebrar a sua festa com grande devoção e todo o aparato, principalmente os lugares de Rendide, Aldeia Gavinha e Merceana”.(PURIFICAÇÂO, frei António da, Chronica da Antiquíssima Provincía de Portugal da Ordem dos Erimitas de Stº Agostinho (...), Lisboa 1642 e 1656).

Nota: posteriormente à elaboração deste texto, surgiu um estudo mais actualizado e fundamentado sobre este convento, da autoria do Dr. Carlos Guardado Silva:
SILVA, Carlos Guardado da, “O Mosteiro de Penafirme – Das origens ao Século XVI”, in Turres Veteras II – Actas de História Moderna, CMTV, sem data (2000?).



30 de Maio de 1834 . decreto de extinção das Ordens Religiosas - Recordando os Conventos Torrienses - Convento da Graça


O primeiro convento da Graça de Torres Vedras, que já não existe, situava-se na chamada Varzea Grande, em frente à Igreja de Santiago.
A primeira autorização para a sua construção foi dada por D. Afonso III em 1228. Não foi contudo utilizada, pelo que voltou a ser solicitada a D. Pedro I que a concedeu em 14 de Março de 1328.
Só a partir de 1383 existe documentação comprovativa da sua construção, que ainda prosseguia em 1405.
Pouco tempo antes da autorização de D. Pedro, concedeu o papa Urbano V uma bula, datada de 29 de Março de 1364, autorizando a transferência dos eremitas de S.tº Agostinho do convento de Penafirme para o convento a fundar na vila de Torres Vedras.
É a esse desaparecido convento que está ligada a vida de Gonçalo de Lagos, beato, erradamente designado como santo, que foi seu prior entre 1412 e 1422.
A construção do actual convento da Graça teve lugar ao longo do século XVI para substituir o velho convento dos eremitas calçados de S.tº Agostinho.
No lugar onde foi construído o segundo mosteiro existia a gafaria de St.º André, cujo terreno foi doado à ordem agostiniana de Torres Vedras por alvará de D. João III, datado de 26 de Setembro de 1542, para aí se construir o novo convento.
A primeira escritura dessa doação teve lugar a 20 de Outubro de 1544, sabendo-se que em 1566 ainda estava em construção.
Em 1554 os frades ainda viviam no convento velho, como se refere num dos painéis de azulejos que relata a vida de S. Gonçalo.
Talvez tenha sido oficialmente inaugurado em 1559, pois foi neste ano que foi trasladado, do velho convento para o novo, o corpo de S. Gonçalo de Lagos.
Já era habitado nos finais do século XVI, como se comprova pelo facto de existir uma referência à morte de todos os seus frades na chamada “peste pequena” de 1579.
Funcionaram várias escolas no convento: uma de ensino de teologia moral, instituída em 1723 e uma escola pública a cargo dos eremitas fundada em 1780.
Em 1807 foi estabelecido na Igreja um Hospital para as tropas francesas
Por decreto de 30 de Maio de 1834 foi extinto o convento da Graça.
Em 21 de Abril de 1887, a Câmara Municipal comprou parte do edifício da Graça, na posse de um particular, instalando aí vários serviços municipais, a escola primária e a cadeia.
Pelo decreto nº 42007 de 6 de Dezembro de 1958, a Igreja e o Convento da Graça foram classificados como Imóveis de Interesse Público.
A partir de 1983 iniciou-se um movimento para o restauro do edifício. Desde 1992 aí funciona o Museu Municipal e o GAT.

Descrição do conteúdo (elaborado em 1998)

Entra-se para a Igreja por uma uma galilé, aberta em 3 arcos para norte e 2 arcos para nascente, com um Silhar de azulejos de albarrada do século XVIII, com motivos simétricos, com flores e cabeças de anjos.
A Igreja é de uma nave com abóboda de berço, nela existindo 4 capelas laterais de cada lado mais a capela mor. Logo à entrada, na parte superior da parede nascente pode apreciar-se uma bonita mísula barroca do orgão, recentemente restaurada.
Comecemos por descrever as capelas do lado nascente (à esquerda de quem entra), chamado o lado do evangelho:
- na primeira podemos observar o altar com imagem de S. Gonçalo de Lagos e no qual se encontram os restos mortais desse santo, num cofre mandado construir pelo príncipe D. Pedro, marido de D. Maria Iª, em agradecimento pela cura de uma ferida na sua perna, motivando a última trasladação dos restos mortais do santo, efectuada em 1784 ;
- na segunda o altar em talha com o Santíssimo Sacramento, dito do Menino Jesus do Bom Pastor, cuja imagem em marfim se encontra exposta no Museu Municipal;
- a terceira capela é a do Senhor dos Passos, construída em 1668, com altar de mármore embutido e azulejos do séc. XVIII com cenas da paixão ( 2 painéis narrativos da subida para o calvário). Nela existe, na parede da esquerda , uma sepultura dos finais do século XIX de Luiz de Abreu Bulhões (1810-1875) e de Maria da Conceição Bulhões (1816- 1872), antiga família de Trás-os-Montes, para aí trasladados pelos filhos em Março de 1890;
- a quarta é a capela de António Godinho da Cunha e sua mulher, brasonada, datada de 16 de Julho de 1626, com um altar em talha, dedicado a S. Nicolau Tolentino.
Eis-nos agora junto à capela-mor. No altar-mór existem dois espaços vazios onde deviam estar as imagens de Santo Agostinho e de Santa Mónica. No centro deste há uma imagem barroca, estofada, seiscentista, da padroeira da Igreja, N.ª Sr.ª da Graça e no cimo do altar um Crucifixo . Em baixo, ladeiam o coro duas esculturas em madeira, uma de S.tª Gertrudes Magna e outra de Santa Francisca Romana, ambas do séc. XVII, beneditinas, provenientes do convento de S. Bento de Coimbra, obra de Frei Cipriano da Cruz.
Na parede poente da capela-mor está o nicho com o túmulo medieval de S. Gonçalo de Lagos, construído em 1518, para aqui trasladado em 1559. O túmulo é em pedra calcária com estátua jacente num nicho.
Nessa mesma parede existe uma porta de ligação para a ante-sacristial, para a sacristia e para os lavabos, sítios com interessantes painéis de azulejos do século XVIII, narrativos, referentes a frades agostinianos beatificados, um deles datado de 1725.
Voltando à Igreja, falta-nos percorrer as capelas do lado poente, dito da epístola, na direcção da saída para o claustro:
- a mais próxima da capela-mor é a capela de Maria Cabreira e Maria Fróis, filhas de André Cabreira e de Margarida Preto, com brasão, mandada construir a 10 de Junho de 1638 e onde está o altar de Cristo cruxificado;
- segue-se a capela de Mª Serrão Borges e Bartolomeu Pacheco Sande, com brasão, mandada edificar em 20 de Maio de 1644, um dos mais antigos altares da igreja, ainda com traços renascentistas;
- podemos, depois, apreciar a capela de N.ª Sr.ª da Correia, com altar em talha;
- finalmente observamos a capela de N.ª Sr.ª das Dores, com imagem, ladeada, à sua direita por Stª Catarina e à sua esquerda por S. Pedro de Alcantara.
Podemos então sair para o claustro por uma porta lateral. Nele podem ser apreciados os painéis narrativos da vida de Frei Aleixo de Menezes, prior deste convento em 1588, que foi arcebispo de Goa e de Braga, homem de letras e frequentador da côrte de Filipe II. Parte destes azulejos foram retirados do claustro, talvez em 1834, estiveram algum tempo depositados no convento do Varatojo e acabaram no antigo convento franciscano de S. Bernardino, de onde foram recuperados a partir de 1991, para voltarem ao seu lugar de origem.
Será ainda interessante entrar na sala da portaria, que faz ligação entre o claustro e a galilé, com as paredes cobertas por 8 painéis de azulejos, do século XVIII, narrativos da vida de S. Gonçalo de Lagos.

Os Sinos

O som dos sinos da Igreja da Graça, colocados na sua torre, é hoje um dos momentos mais característicos desta cidade.
Em 1962, nela estavam colocados o sino “Santa Rita de Cássia, datado de 1737, o maior de Torres Vedras, com 1 metro de diâmetro, e a imagem da santa gravada, o qual, depois de restaurado, aí se mantém.
Durante anos esteve acompanhado por um outro sino, o “São Nicolau”, datado de 1725, com 0,76 m. de diâmetro, o terceiro maior de Torres, que já estava retirado em 1962.
Existiam mais dois, datados de 1822, mais pequenos. Um destes está actualmente no corredor de ligação à biblioteca do museu.
Actualmente, fazem companhia ao “Santa Rita de Cássia” três novos sinos, aí colocados em 1998, todos datados de 1997.
No exterior da torre sineira está instalado um relógio, que, desde o passado dia 14 de Julho de 1999, voltou a dar horas aos torrienses.

Informação mais aprofundada e actualizada pode ser consultada na seguinte obra:
SILVA, Paula Correia da, O Convento da Graça de Torres Vedras – a comunidade eremítica e o património, ed. CMTV e Livro do Dia, Torres Vedras, 2007, 171 páginas.

30 de Maio de 1834 . decreto de extinção das Ordens Religiosas - Recordando os Conventos Torrienses - Convento do Barro

Foi fundado em 1570 pela infanta D. Maria, filha do rei D. Manuel, donatária da vila de T. Vedras.
Foram seus primeiros ocupantes os religiosos arrábidos, até 1834.
A sua Igreja é dedicada a N.ª Srª dos Anjos.
No século XIX foi ocupado pelos Jesuítas, que aí instalaram um colégio. Quando da implantação da República em 1910, foram presos e expulsos deste convento.
Hoje está aí instalado um hospital especializado em doenças contagiosas.
Do velho edifício quinhentista resta apenas a capela do Senhor dos Passos.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

29 de Maio de 1589 - O Prior do Crato em Torres Vedras

(D. António, Prior do Crato)

Em 29 de Maio de 1589, um exército anglo-luso, onde se encontrava D. António Prior do Crato, entrava em Torres Vedras, dirigindo-se a caminho de Lisboa, com o objectivo de restaurar o trono português.
A História deste episódio está bem documentada num manuscrito da autoria de André Falcão de Resende, existente na Torre do Tombo.
O conhecido poeta quinhentista tinha sido “juiz de fora” em Torres Vedras desde finais de 1576, onde estabeleceu amizade com o alcaide D. Martinho Soares de Alarcão, já não exercendo esse cargo, pelo menos desde o início de 1586.


Antes, em 18 de Abril de 1589, saia de Plymouth, na Inglaterra, uma armada, a bordo da qual seguia D. António Prior do Crato com a sua “corte”, com o objectivo de conquistar o reino de Portugal.
Era uma armada de “cento e setenta navios grandes e pequenos”, com “perto de vinte mil homens”, ingleses, escoceses, “gente vadia de França” e da Flandres, alguns espanhóis “portugueses e castelhanos”, isto é, composta por mercenários.
A armada era comandada pelo “General do mar”, Francis Drake, acompanhado pelo “General de terra” Henrique Norris,”capitão escocês muito conhecido”, conde de Norwich.
Atacando,sem êxito, a Corunha, na Galiza, dirigiu-se então para território português.
Tomando-se conhecimento da sua aproximação, entre Lisboa e Cascais foram tomadas várias medidas para a defender a capital de um desembarque e ataque dos ingleses, apesar de os armazéns da cidade estarem “muito faltos de armas e de munições, por se gastar muito na armada do ano passado” (refere-se ao desgaste da armada portuguesa, motivada pela derrota luso-castelhana da Armada Invencível, cerca de um ano antes).
No dia 23 de Maio de 1589, uma sexta-feira , a Armada Inglesa chegou a Peniche, entrando no porto da vila, que tomou, e a praia em frente, a praia de Nª Senhora da Consolação.
As tropas estacionada para defender o local e a fortificação, perante a dimensão da armada, fugiram ou renderam-se de imediato.
A facilidade com que os ingleses entraram em Peniche, está na origem do dito popular dos “amigos de Peniche”.
O alcaide local, João Gonçalves de Ataíde , de imediato mandou enviar recado a “Sua Alteza” e ao alcaide-mor de Torres Vedras, Dom Martinho Soares de Alarcão e Melo, acerca do sucedido.
Em Torres Vedras estavam estacionadas 12 “companhias” comandadas por Martinho Soares, que logo na noite desse dia partiu com elas na direcção de Peniche, acompanhado por Gaspar de Alarcão, morador nesta vila, com cento e dez “ginetes” de que era capitão.
Este Gaspar Ruiz de Alarcão tinha vindo para Portugal em 1587, com quatro companhias a cavalo, para apoiar o Vice-rei, Cardeal D. Alberto (AZEVEDO, Maria Antonieta Soares de, “D. Martinho Soares de Alarcão, alcaide-mor de Torres Vedras e avô do Padre Francisco Soares”, in Arquivo do Centro Cultural Calouste Gulbenkian, vol.I, Paris 1969, pp. 470-486).

Do Turcifal saiu Pero Correia, filho de Lourenço Correia, com três “homens seus” a cavalo, e quatro a pé com “espingardas” e outra gente a pé, para se juntar ao alcaide de Torres.
No Sábado seguinte, dia 24, Dom Martinho Soares juntava-se às tropas comandadas por Pedro de Gusmão, num local a meia légua de Peniche, “sobre hum alto que chamão o Coymbram”, avistando daí os inimigos.
Sobre estes “discorreram” os “Ginetes de Gaspar de Alarcon”, fazendo prisioneiro um soldado do exército inglês que tinha sido ferido, e que disse ser francês, tendo por missão entregar uma mensagem de D. António para “hu Mosteiro de frades ahy vezinhos” , revelando o número de tropas inglesas, 20 mil “infantes”, e informando que já tinham desembarcado em Peniche seiscentos cavalos.
Impressionados com esses números, os “nossos” “aballarão dalli para outro lugar mais alto, e mais afastado do inimigo”, enquanto que “os de Torres Vedras e seu termo que erão todos até trezentos, os mais delles gente rústica”, fugiram para Torres Vedras, as tropas de Dom Martinho e de João Gonçalves de Atayde.
No dia seguinte, Domingo vinte e oito de Maio, juntaram-se a estes, em Torres Vedras, onde já estavam Pedro de Gusmão e Gaspar de Alarcão, duas companhias de “arcabuzeiros a cavalo” comandadas por D. Sancho Bravo (ou Branco) e outras duas de “infantaria do terço”, comandadas por Dom Francisco de Toledo, alojando-se “esta gente toda” no Castelo de Torres Vedras, que consideravam “forte e defençável, principalmente vindo o I[n]imigo sem artilharia e com poucos cavallos”.
Contudo, dando-se rebate, por volta da meia noite, que os inimigos vinham marchando da Lourinhã para esta vila, que distava duas léguas, “partirão todos logo com muita pressa” para Enxara dos Cavaleiros, ficando apenas Gaspar de Alarcan, como os seus “ginetes”, “sempre” à vista do inimigo.
Na segunda-feira, vinte e nove de Maio, pela manhã “entrou em Torres Vedras hum clérigo que era cura no lugar do Vimieiro [será Vimeiro ?], notificando aos que estavão na villa que se não fossem della, por que lhes não farão mal, prometendo lhes disto seguranças, por parte de Dom António”.
Tomando conhecimento dessa situação, os ginetes de Gaspar de Alarcão avançaram para Torres Vedras, com o objectivo de prenderem esse clérigo.
Com esse pretexto entraram “em muitas casa da villa e termo”, provocando a fuga dos seus habitantes para lugares altos.
Os abusos cometidos por algumas tropas de Gaspar de Alarcão e “outros soldados” castelhanos, provocaram o rumor segundo o qual os ginetes andavam a roubar e a matar, “e disto lançarão fama e causando com isto grande inquietação por esta comarca” de Torres Vedras, “e por outras temendo se e escondendo se a gente miúda e molheres, por montes e covas”, embora o narrador refira que os capitães e nobres não foram responsáveis por esses excessos.
Espalhando-se pela região a notícia dos saques, roubos e assassinatos feitos pelas topas luso-castelhanas, a população temia mais “destes nossos amigos e naturaes que dos Ingleses”, até porque estes, até então, não roubavam nem saqueavam, pelo que começaram a ter apoio popular, dando mantimentos e juntando-se às tropas anglo-lusas de Norris e D. António.
Nessa segunda-feira “já tarde”, entraram na vila de Torres Vedras o exército inglês e D. António, sob o comando de Norris, “onde alguns poucos e falhos de força e conselho o esperarão, não seguindo a muitos outros que o não quiserão esperar e se ausentarão”, isto é, a vila estava quase desabitada.
D. António aposentou-se nas casas do prior de Stª Maria do Castelo, “e a noite foy dormir no Castello, onde pousava Francisco de Seixas” Cabreira, natural da vila, que veio a ser preso mais tarde pelo governo filipino, por causa desta sua atitude de facilitar a aposentação de D. António em Torres Vedras.
“Sem mantimentos, e com tanta fome”, as tropas inglesas “comerão muitas imundices”, isto porque tinham ordens para não proceder a qualquer saque.
Contudo, muitos desses soldados “se embebedarão, por aver muito vinho nesta villa”. Beberam em tal excesso que muitos adoeceram e alguns chegaram mesmo a morrer.
Este incidente provocou um atraso no avanço dos Ingleses sobre Lisboa, dando tempo às tropas luso-castelhanas que defendiam a capital de se prepararem para a chegada dos apoiantes de D. António.
Só na quarta-feira seguinte, dia 30 de Maio, é que as tropas inglesas retomaram a sua marcha sobre Lisboa, avançando por Enxara dos Cavaleiros até Frielas.
Tendo chegado a informação aos castelhanos que as tropas inglesas estavam “tomadas” de vinho, avançaram sobre o acampamento inglês onde deram conta que, afinal, “estavão mais expertos do que cuidaram e bem entricheirados”, retirando-se para Lisboa com algumas baixas em confrontos esporádicos com os ingleses.
Entretanto, André Falcão de Resende, que, quando da tomada do Castelo por D. António, tinha escondido alguns livros numa casa a meia légua de Torres Vedras, voltou à vila assim que os ingleses se retiraram para avançarem sobre Lisboa.
Entrando em Torres Vedras, encontrou-a praticamente deserta, descobrindo, junto ao “pelourinho da praça” uma carta, assinada por D. António, na qual com “graves penas e ameaças, assumindo-se nella como Rei, mandava que todos o fossem logo servir e acompanhar, dentro de vinte e quatro horas”.
A título de curiosidade, refira-se que esta é uma das mais antigas referências coevas ao Pelourinho quinhentista de Torres Vedras
Dirigindo-se depois para um ponto alto perto da vila, Falcão de Resende avistou a marcha do inimigo, contando cerca de “doze mil homens, e sessenta cavallos somente”, sem artilharia, sem mantimentos e sem bagagens. De imediato enviou esta informação ao seu filho, Luís Falcão, que estava em Lisboa, para conhecimento dos defensores desta cidade.
No dia 1 de Junho, 5ª feira, o “inimigo” avançou sobre Lisboa até Alvalade “mea legoa” de Lisboa.
Eram as tropas inglesas abastecidas por Gaspar Campello, que tinha negociado com D. António a entrega de mantimentos às tropas luso-inglesas. Gaspar Campello tinha sido juiz em Torres Vedras e era “muito conhecido nesta comarca” e tinha forçado “a gente fraca, com nome de Almotacel moor para trazerem mantimentos aos Ingleses”.
A cavalaria luso-castelhano conseguiu contudo fazer “presas” desses mantimentos.
Durante este tempo ocorreram escaramuças esporádicas entre os dois exércitos.
No dia seguinte, sexta-feira 2 de Junho, os ingleses marcharam de Alvalade até “perto da cidade” entrando pelos arrabaldes e pelas ruas e travessas.
Do Castelo e das Galés estacionadas no Tejo receberam os ingleses muito fogo.
No dia seguinte os sitiados conseguiram receber mantimentos e vários reforços.
Os ingleses, perante a resistência dos sitiados, resolveram, no Domingo 4 de Junho, retirar-se a caminho de Cascais., onde chegaram no dia seguinte, perseguidos pelas tropas luso-castelhanas, entre elas os “ginetes” de Gaspar Alarcão que prenderam e mataram muitos dos soldados luso-ingleses.
De sitiantes, os ingleses passaram, em Cascais, a sitiados.
Em 18 de Junho iniciaram a sua retirada, embarcando na armada inglesa.
Entretanto, no dia 6 de Junho, cerca de mil homens comandados por D. Martim Soares e pelo capitão António Pereira, reconquistaram, quase sem combate, o castelo de Torres Vedras.
Algumas fontes referem uma segunda tentativa das forças do Prior do Crato de conquistarem o Castelo, sem o êxito da primeira vez.
A ter acontecido, terá ocorrido entre essa data de 6 de Junho e o início da retirada inglesa do território português, que ocorreu entre 18 e 22 de Junho (A. Vieira da Mota, “Memórias de Torres Vedras”,Capítulo IX, in O Torrense, nº 52, 17 de Setembro de 1922).
Segundo Vieira da Mota, deve-se a este episódio o facto de D. António apelidar esta localidade de “Torres Traidora”.
O mesmo Martim Soares, em 22 de Junho, marchou sobre Peniche, levando consigo “30 de cavallo”, com “gente de pé”. Chegado à Lourinhã, foi informado por uma espia que os inimigos estavam a embarcar em Peniche, levando consigo a artilharia da fortaleza, pelo que apressou o seu avanço sobre aquela vila, de onde grande parte dos ingleses já se tinham retirado.
Em definitivo, a região voltou a obedecer a D. Filipe II.
Retirando-se definitivamente de Portugal, D. António, faleceu na miséria em Paris em Agosto de 1595.

FONTE PRINCIPAL:
FALCÃO de RESENDE, André, “Carta que o autor escreveo a hum Amigo em que se conta a vinda dos Ingleses a Lisboa com dom António Prior do Crato no Ano de mil quinhentos e oytente e nove annos”, in Manuscrito da Livraria, cota 1147, Arquivo Nacional da Torres do Tombo


PARA SABER MAIS (outras fontes consultadas):


BRAGA, Paulo Drumond, Torres Vedras no reinado de Filipe II, Câmara Municipal de Torres Vedras, Edições Colibri, Lisboa 2009.

RAMALHO, Américo da Costa, O Essencial sobre André Falcão de Resende, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 1988.

RÊGO, Rogério de Figueirôa , “O Castelo de Torres Vedras”, in Boletim da Junta da Província da Estremadura, nº 21, Série II, Maio/Agosto de 1949, pp. 195-209.

SERRÃO, Joaquim Veríssimo, O tempo dos Filipes em Portugal e no Brasil, ed. Colibri, Lisboa 2004.

VAZ, João Pedro, Campanhas do Prior do Crato – 1580-1589 – Entre Reis e Corsários pelo Trono de Portugal, ed Tribuna, sem data [séc. XXI].

29 de Maio de 1589 - O Prior do Crato em Torres Vedras


Mapa elaborado por João Pedro Vaz, obra citada, pág. 83 (clicar nas imagens para ver em formato maior)

A Parte do documento citado, da autoria de André falcão de Resende, onde se relata a presença de D. António em Torres Vedras
(clicar na imagem para ver am tamanho maior)

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Torres Vedras no 28 de Maio de 1926


Quando se deu o golpe militar do 28 de Maio, a câmara de Torres Vedras era dominada pelos monárquicos.
Publicavam-se então dois periódicos locais, "A Nossa Terra" e "O Correio de Torres".
"A Nossa Terra", fundado em 1924 como órgão da Associação Regionalista de Torres Vedras, alterou esse objectivo em 31 de Janeiro de 1926, passando a designar-se "Semanário Republicano do Concelho de Torres Vedras", sendo dirigido por Justino de Moura Guedes. Essa mudança parece estar relacionada com divergências no interior daquela associação, que se acentuaram após as eleições municipais de 1925, quando essa associação e o jornal apoiaram uma "lista do concelho" contra a lista monárquica. Monárquicos e republicanos entraram então em ruptura no interior da Associação, com reflexos no próprio jornal, como se comprova numa carta assinada pelo monárquico António Teixeira de Figueiredo, colaborador desse periódico, assumindo a sua ruptura com "A Nossa Terra" , devido ao facto de ter tomado parte numa lista ( a monárquica) "combatida pelo jornal onde eu escrevia", pelo que "nem mais um momento posso continuar nesse jornal, por solidariedade com os meus colegas candidatos da mesma lista e por solidariedade para comigo mesmo" (1).
Progressivamente, ao longo de 1926, esse periódico aproximou-se das teses políticas da recém criada União Liberal Republicana, surgida de uma cisão no Partido Nacionalista, dirigida por Cunha Leal, o que parece indicar a adesão do director do jornal, Moura Guedes, àquela corrente política.
Entretanto, a 10 de Janeiro de 1926, iniciava a sua publicação um novo periódico regional, o primeiro a assumir-se como monárquico durante a 1ª República, intitulado "O Correio de Torres", dirigido por António Teixeira de Figueiredo, dissidente d' "A Nossa Terra". As frequentes citações e referências às opiniões da Acção Realista Portuguesa, organização partidária de D. Manuel II, mas divergindo do liberalismo monárquico, parecem indicar a sua proximidade a esta organização, dirigida por Alfredo Pimenta.
É através das páginas destes dois periódicos que podemos conhecer as posições de parte da elite política local em relação à instauração da ditadura militar a 28 de Maio de 1926, sendo significativo que os dois únicos periódicos que então se publicavam em Torres Vedras representassem duas das tendências mais conservadoras, então existentes, quer entre republicanos quer entre monárquicos.
Ambos os jornais apoiaram com entusiasmo o golpe militar do 28 de Maio.
"O Correio de Torres", pela pena de Teixeira de Figueiredo, num artigo intitulado "Atitude Clara", congratulava-se com "o Exercito" que "acordou, emfim, do seu longo letargo". E acrescentava: "Incarnando a alma da nação, O Exercito, repositario das energias viris da Raça, levantou-se digna e pundonorosamente, e dispõe-se a fazer entrar nos eixos a desconjuntada nau do Estado"(2) .
Por sua vez "A Nossa Terra", num texto intitulado "Pela Pátria! Pela Republica!", saudava o movimento militar, "fazendo justiça ás nobres intenções do sr. comandante Mendes Cabeçadas", que saudava como "o grande patriota e o ilustre republicano, ao qual "fora dos partidos, mas respeitando os que honradamente se teem batido no campo da politica pelo resurgimento da sua Patria", assistia "o dever de repelir as baixas intrigas dos pescadores d'aguas turvas"(3).
O mesmo periódico, nessa sua primeira edição após o 28 de Maio, fazendo desde logo frente à tentativa de aproveitamento político desse movimento militar por parte dos monárquicos, publicava um artigo de opinião de Justino de Moura Guedes, intitulado "Distingamos", no qual se podia ler:
"Um grande numero de individuos que teem passado a vida a fazer política, movendo uma guerra de morte a tudo quanto não esteja pintalgado de azul e branco, verificando mais uma vez a impossibilidade de uma restauração monarquica, lança aos ventos incertos da hora que passa este brado na aparencia tão sincero: guerra a todos os políticos!
"Como se não fossem tambem politicos, no limite das forças que lhes é talhado pela cobardia reles de sempre, esses hipocritas puritanos de pacotilha.(...) Ha apenas que distinguir entre homens honrados e homens que o não são. Mais nada. Políticos são todos aqueles que se interessam e tentam intervir na marcha dos destinos da sua Patria".
E num tom que parece denotar um certo desejo de ver limitado o papel político do exército, concluía:
"(...) Aprovamos a intervenção do exercito em momentos de crise como a que atravessamos. Aprovámo-la e louvámo-la. mas nem por isso lhe reconhecemos o direito de lançar sobre todos os que não vestem uma farda, o labeu de malandros" (4).
À data do 28 de Maio, mais do que o dilema "democracia – ditadura", era o dilema "república - monarquia" que mais preocupava os republicanos torrienses, pois este concelho vivia há quase 4 anos sob domínio administrativo dos monárquicos, o que levou muitos republicanos de vários quadrantes políticos a receber de braços abertos a nova situação política, que viam como uma solução que, em termos locais, podia contribuir para acabar com o domínio local dos monárquicos.
É neste sentido que se podem interpretar algumas preocupações manifestadas nas páginas d' "A Nossa Terra", acerca da formação de uma nova comissão administrativa para gerir os destinos do município neste novo momento político.
Assim aquele periódico alertava para o facto de constar "que varias facções trabalham activamente para que os seus apaniguados tenham assento na Camara Municipal, como membros da proxima futura Comissão Administrativa. Assim, dizem-nos que já há uma lista composta por nacionalistas e monarquicos, e outra por esquerdistas e monarquicos tambem.
"Que os nacionalistas se liguem aos monarquicos, banindo do seu contacto os demais republicanos, está certo.Teriamos pura e simplesmente a continuação da regedoria monarquica na Camara Municipal, atenta a maviosidade inconsistente das convicções nacionalistas.
"(...) Porém (...) não entendemos como os monarquicos se possam ligar aos esquerdistas, à massa mais irrequieta, irreverente e revolucionaria da Republica.
"(...) Já a quando das ultimas eleições camararias, se verificou o deshonesto conubio entre monarquicos e esquerdistas (...)" (5).
Movimentavam-se assim as várias forças políticas locais com vista a pressionarem e influenciarem a constituição da nova câmara.
A 5 de Julho de 1926 era dada posse ao novo administrador do concelho, o tenente da "Infantaria 5" António Victorino França Borges (6), nomeado por circular do Governo Civil de 1 de Julho (7) substituindo o último administrador da 1ª República, o capitão- médico Aurélio Ricardo Belo.
Coube a França Borges a responsabilidade de nomear a nova comissão administrativa, a primeira do novo regime.
No acto de posse, realizado a 30 de Julho, usaram da palavra Justino Freire de Moura Guedes, da União Republicana Liberal, e Victor Cesário da Fonseca, do Partido Nacionalista.
Presidindo a essa comissão Silvério Botelho Moniz de Sequeira, entre os nomeados, 7 efectivos e 7 suplentes, não se incluía nenhum monárquico. Grande parte desses nomeados tinha em comum terem pertencido à Associação Regionalista (6 dos 7 efectivos e 4 dos 7 suplentes).
O presidente desta comissão tinha sido escolhido para presidir ao senado eleito em 1925, representando a "Lista do Concelho" .À "Lista do Concelho" eleita em 1925 tinham pertencido também dois dos suplentes desta comissão, enquanto dois dos efectivos tinham feito parte da comissão de apoio a essa lista .
Entre os efectivos, apenas três tinham um passado político marcante:
- Silvério Botelho de Sequeira ,"viticultor- proprietário" de 60 anos, da Feliteira - Dois Portos, "Secretário Geral da Associação Central da Agriculrura Portuguesa e Director da União dos Vinicultores de Portugal"(8). Teve uma intensa actividade jornalística, anterior à República. Ex-director da "Folha de Torres Vedras", quando este estava próximo dos "franquistas", ex-redactor do periódico "franquista" "O Português" até ao 5 de Outubro, colaborando ainda activamente em jornais como o "Ecos de Torres", próximo dos "democráticos" e do regionalista "A Nossa Terra". Politicamente parece ter estado próximo do "franquismo" nos finais da monarquia, e do PRP em 1917, tendo, como já vimos, sido eleito presidente do senado em 1925, pela "Lista do Concelho", numa coligação de "democráticos", "nacionalistas" e monárquicos moderados. Manteve-se como vereador e Presidente da Câmara até 1931;
- João dos Santos Ghira, engenheiro e "viticultor-proprietário"(8) de 35 anos, da Carvoeira , mas vivendo na vila. Tinha sido eleito para o senado em 1922 pela lista de "conjunção republicana", uma coligação entre "reconstituintes" e "democráticos", embora o seu nome constasse igualmente da lista "liberal" concorrente às mesmas eleições administrativas. Eleito 1º secretário, manteve-se como vereador até finais de 1928;
Mas a figura com maior experiência política nesta comissão era José Anjos da Fonseca. Este comerciante e proprietário de Torres Vedras, então com 54 anos, era um republicano histórico que tinha pertencido ao PRP entre 1907 e 1912. Aderiu então ao Centro Republicano Torreense, ligando-se depois ao Partido Evolucionista. Em 1915 foi nomeado para fazer parte da efémera administração nomeada pela ditadura de Pimenta de Castro, ocupando novamente posição de destaque no município como presidente da primeira comissão administrativa "sidonista", voltando a exercer funções de vereador nas duas comissões administrativas nomeadas após a morte de Sidónio Pais e durante o episódio da "Monarquia do Norte". Em 1919, então como representante do Partido Unionista, pertenceu ao Comité de Defesa da República, aderindo nesse mesmo ano ao Partido Liberal. Desconhecemos qual era a sua posição política em 1926, mas tinha apoiado a "Lista do Concelho" em 1925.No início dos anos 30 veio a aderir à "União Nacional", tendo-se mantido como vereador da câmara até 1933.
Com uma actividade política menos conhecida, faziam ainda parte desta comissão:
- Como vice-presidente, o Dr. António Manuel Figueira Freire, médico e "viticultor-proprietário"(8) de Torres Vedras. Pertencia em 1924 à Associação Regional, fazendo parte da comissão de apoio à "Lista do Concelho de 1925".Abandonaria as suas funções municipais em Agosto de 1930, aderindo então à Liga Republicana, movimento de oposição à ditadura militar;
- Como 2º secretário, João Germano Alves, "viticultor-proprietário"(8) de Torres Vedras, de 42 anos. Tinha sido sócio fundador do Sindicato Agrícola, apoiante das candidaturas agrícolas de Tiago Sales em 1919 e 1921, membro da comissão local do Partido Regionalista em 1922 e da Associação Regionalista de T.Vedras em 1924, foi vereador até 1933 ,
- António Rodrigues Venâncio, farmacêutico e "viticultor-proprietário"(8), da Ribaldeira - Dois Portos, com 42 anos, de quem apenas se conhece a sua ligação, em 1924, à Associação Regionalista, vindo a aderir nos anos 30 à "União Nacional", exercendo funções executivas até Janeiro de 1929.
- Dr. Artur de Castilho, "engenheiro-agrónomo, director do Posto Agrário de Dois-Portos (...) deixou de tomar posse, por motivos que não foram comunicados, tendo sido já tarde preenchida a sua vaga pelo Sr. José Augusto de Almeida Trigueiros, comerciante e industrial, sob nomeação do Sr. Governador Civil"(8).
Este José Trigueiros, que tomou posse a 8 de Abril de 1927, tinha sido candidato à câmara na lista "democrática" nas eleições de 1917, tendo pertencido também à Associação Regionalista, mantendo-se como vereador até finais de 1931, apesar de ter pertencido à Liga Republicana em 1930.
Em 1928 os membros desta comissão referiam-se a si próprios como "o grupo de homens que, integrados, sem hesitações nem desfalecimentos, nas aspirações da Ditadura Militar moralisadora da administração pública e dos costumes, assumiu com sacrifício, com dedicação e com fé, as responsabilidades administrativas do seu Concelho."
E prosseguindo o seu auto-elogio, acrescentavam:
"Todos êsses homens compreenderam que, tendo falido estrondosamente os bons intuitos do Constitucionalismo, falseado por uma libertinagem inepta, e o parlamentarismo dessorado numa vacuidade estéril, só feita de colmilhos vorazes da riqueza pública, chegára o momento de esmagar os interêsses partidários para robustecer o desinterêsse patriótico".
E concluíam:
"Todos êsses homens formaram decididos e aprumados ao lado da disciplina, donde nasce a ordem, que está bafejando o mapa da Europa, numa reacção vigorosa e firme contra a defecção social, e que tem o seu mais alto simbolo no brioso General Carmona, em Portugal, no General Rivera, em Espanha, em Mussolini na Itália e em Baldwin na Inglaterra (primeiro-ministro e líder do Partido Conservador britânico) "(8).
Refira-se que, quanto aos suplentes dessa comissão administrativa, três pertenciam ao Partido Nacionalista, um era ex -"sidonista " outro ex-"democrático", e os restantes dois não tinham filiação política anteriormente conhecida. Apesar de terem sido nomeados suplentes, nenhum deles assumiu funções efectivas. Sempre que foi necessário recorrer à substituição de vereadores, nomearam-se outros indivíduos não pertencentes à lista de suplentes.
Num questionário dactilografado não datado nem assinado, mas que estava junto do exemplar do acima citado relatório da comissão administrativa, existente no AMTV, encontrámos duas interessantes respostas a um inquérito confidencial, que retractava o modo como se implantou a nova Câmara.
Questionando-se na primeira pergunta sobre o estado em que "se encontrava o concelho antes da Revolução Nacional", os autores da resposta (que tudo leva a crer terem sido os membros da comissão administrativa) responderam:
"Atravessou o Concelho alguns períodos agitados.
"Entretanto, o Concelho, inegavelmente, de estrutura nacionalista, fazia vingar em 1923 o seu rumo para as direitas. Assim, a vigorosa mentalidade de Alvaro Galrão, presidindo à Camara, gisou as fecundas directrizes que, em muitos aspectos, ainda hoje são seguidas(..)".
Questionando-se no mesmo inquérito sobre "as dificuldades que se levantaram, para dar inicio à nova politica de realizações", respondiam:
"Nos primeiros tempos da actual Situação, é natural que alguns movimentos de Lisboa tivessem ligação com alguns elementos do concelho.
"Entretanto, o elemento nacionalista conseguiu dominar o meio, fazendo retomar a obra da Revolução Nacional".
Note-se que o tom da resposta escamoteia o facto da primeira comissão administrativa ter sido elaborada contra os interesses monárquicos, representando uma vitória dos republicanos conservadores (ou "nacionalistas") sobre aqueles. Pelo contrário os seus autores parecem não renegar, em termos municipais, a nova situação saída da "revolução nacional" como sendo herdeira da câmara monárquica eleita em 1923, que estava em funções a 28 de Maio. Talvez porque então já não se colocasse a questão do regime ou porque, citando um artigo publicado anos depois no porta-voz local da "União Nacional", "Hoje os homens dividem-se não já em republicanos e monarquicos, mas em nacionalistas e internacionalistas"(10).
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(1) A Nossa Terra, 6 de Dezembro de 1925.
(2) O Correio de Torres, 1 de Junho de 1926.
(3) A Nossa Terra, 3 de Junho de 1926.
(4) A Nossa Terra, 3 de Junho de 1926.
(5) A Nossa Terra, 8 de Julho de 1926.
(6) O Correio de Torres, 11 de Julho de 1926.
(7) Livro de Actas da Câmara , nº40(1920-1928), sessão de 7 de Julho de 1926,AMTV.
(8) Relatório da Comissão Administrativa Municipal relativo à sua gerência de 30 de Julho de 1926 (sua posse) a 31 de Março de 1928
(9) Caixa de da Correspondência Antiga, 1926-1928, AMTV.
(10) Alta Extremadura, 10 de Abril de 1933.

terça-feira, 26 de maio de 2009

FICHAS DE BIBLIOGRAFIA VEDROGRÁFICA - "Descripção do Real Asylo de Inválidos Militares em Runa..."


TÍTULO : Descripção do Real Asylo de Invalidos Militares em Runa – Importancia d’este estabelecimento devido á esclarecida munificiencia e piedade de uma illustre princeza – dedicado a Sua Alteza o Ser.mo Senhor Infante D. Affonso Henriques por Augusto Carlos de Souza Escrivanis.

AUTOR: Augusto Carlos de Souza Escrivanis, 1º sargento do regimento d’Infanteria nº 7, servindo de quartel mestre no Real Asylo de Runa.

ANO: 1882.
EDIÇÃO: Lallemant Frères, Typ.
LOCAL: Lisboa.
PREÇO: 200 réis.
Nº de PÁGINAS: 32.

GRAVURAS: 3: - “A Princeza D. Maria Francisca Benedicta (segundo um retrato da época); -“Real Asylo dos Invalidos Militares em Runa”; “Custódia do Real Asylo dos Invalidos Militares em Runa”.
FOTOGRAFIAS: Nenhuma.
GRÁFICOS: 1 : -“Mappa dos inválidos admittidos, falecidos e sahidos desde o anno da abertura do asylo, até 31 de Agosto de 1882”.
MAPAS: Nenhum.

TEMAS: Princesa Maria Francisca Benedita; Asilo Militar de Runa (Actual CAS de Runa); Arquitectura neo-clássica; Beneficência; Runa.

CAPÍTULOS: I – Fundação do Real Asylo de Invalidos Militares; II –Descripção do estabelecimento e differentes esclarecimentos; III – Descripção da custodia e de algumas alfaias e paramentos; IV – Rendimentos do Asylo; V – Melhoramentos que tem tido o estabelecimento depois da sua abertura; VI – Resumo das principaes prescripções concernente ao regímen do asylo; VII – Governadores que tem havido desde a abertura do asylo e a primeira e actual administração; VIII - Mappa dos inválidos admittidos, falecidos e sahidos desde o anno da abertura do asylo, até 31 de Agosto de 1882; IX – Bens e lembranças legados ao asylo; X – Monumento a D. Pedro V; XI – Empregados no asylo e pessoas das visinhanças que conheceram a Serenissima Princeza a Senhora D. Maria Francisca Benedicta; XII – Biographia do actual commandante do asylo; CONCLUSÃO.

FICHAS DE BIBLIOGRAFIA VEDROGRÁFICA - "Descripção do Real Asylo de Inválidos Militares em Runa..."




segunda-feira, 25 de maio de 2009

Para a História Urbana de Torres Vedras -"Largo da Graça"

Este Largo era chamado, já em 1818, de Largo de Santana, por causa da ermida que aí existiu, situada no prédio onde actualmente funciona a casa “Napoleão”, junto a uma das portas medievais da vila, com o mesmo nome.
Essa ermida ficou arruinada pelas invasões francesas, nunca mais sendo recuperada.
Por deliberação de 1 de Abril de 1857, decidiu a Câmara expropriar a área da antiga cerca do Convento da Graça, encerrado em1834, com a finalidade de alargar o espaço do mercado mensal, decidindo que esse lugar servisse também de passeio público, plantando para isso algumas árvores nesse local.
Em 1885 foi aí instalado um coreto para a primeira actuação pública da “Fanfarra 24 de Julho” que ocorreu em 24 de Junho de 1885[1].
Esse coreto nada teve a haver com aquele que é mais conhecido, inaugurado em 1892 e que existiu até meados da década de 40 do século passado
Em 1892, um particular, D. Diogo de Nápoles, tomou a iniciativa de tornar aquele espaço, então praticamente abandonado, num ”Passeio Público”, com um corêto, encabeçando uma comissão para adquirir esse espaço por subscrição pública, apoiada pelo jornal “A Semana”.
A primeira pedra para a construção do jardim e do coreto teve lugar a 11 de Julho de 1892, sendo inaugurado a 21 de Agosto, com festa e Kermesse
Transformado em jardim público com coreto no final do século XIX, ocupando o antigo espaço murado do jardim do Convento da Graça, adoptou o nome do monarca que então reinava, D. Carlos .
A 12 de Maio de 1902 este lugar foi visitado pela rainha D. Amélia, que se fez deslocar de automóvel, talvez o primeiro a rodar em Torres Vedras.
Com a República o largo foi rebaptizado com o nome de Largo da República, tendo-se proposto alterar o seu nome para Largo Sidónio Pais em 1919, proposta nunca concretizada.
Em 10 de Outubro de 1954, no lugar do velho coreto, foi inaugurado o obelisco comemorativo das Guerras Peninsulares, sendo na mesma ocasião aquele largo rebaptizado com o nome de Praça do Império, mantendo o espaço a norte a designação de Praça da República.
“A construção deste monumento teve a comparticipação dos ministérios das Obras Públicas e do Exército e a sua concepção foi do arquitecto Miguel Jacobety, e nele trabalharam o tenente coronel de Engenheiros Manuel Braz Martins, Engenheiro Altino Aldo Gromicho, o construtor civil José Pedro Lopes e os operários, Sebastião Pedro Henriques, Jaime Simões, Joaquim Miranda, José da Silva, José Correia, João Alves Carregueiro e António Chá. As cantarias foram fornecidas pela Firma Pardal Monteiro, Limitada, de Pero Pinheiro”.[2]
Com o 25 de Abril foi novamente rebaptizada como Praça 25 de Abril.
Contudo, popularmente continua a ser conhecida por Largo da Graça.

[1] Jornal de Torres Vedras, 30 de Julho de 1885
[2] Segundo Augusto M. Lopes da Cunha em Memória das Festas da inauguração do obelisco comemorativo da guerra penissular e Catálogo da exposição hiistórico-biblio-iconográfica, ed. Biblioteca Municipal de Torres Vedras, 10 de Outubro de 1954.

Para a História Urbana de Torres Vedras -"Largo da Graça"

Uma das imagens mais antigas o Convento da Graça, do início do Século XIX.

Fotografia do final do século XIX, sendo possível ver a cerca que delimitava os domínios do convento, no sítio onde foi implantado o futuro jardim da Graça.


Ruínas da antiga Ermida de Santana


Edição do Jornal "A Semana",comemorativa da inauguração do Largo D. Carlos, com a imagem do seu benemérito D. Diogo de Nápoles, em 1892

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Torres Vedras e o Dia Mundial da Biodiversidade


Praia Azul

Convento do Varatojo

Quinta das Lapas

Torres Vedras e o Dia Mundial da Biodiversidade




Parque da Várzea

Torres Vedras e o Dia Mundial da Biodiversidade

Hoje é o Dia Mundial da Biodiversidade.
Será possível, num meio densamente povoado, como o é o Concelho de Torres Vedras, sujeito a muitas pressões sobre o seu ambiente natural, falar-se em biodiversidade?.
Fomos à procura de algumas referências, no nosso património histórico-cultural, a “nichos” de biodiversidade ainda existentes.
Não procuramos ser exaustivos, e exploramos mais a perspectiva histórico-patrimonial desse roteiro do que a perspectiva biológica, até porque esta é uma área que não dominamos.
A intenção é apenas alertar para zonas naturais a preservar e a respeitar.

ARRIBAS DE Stª CRUZ
Da prais da Amoeira à praia do Seixo, é visível a variedade de formações geológicas das arribas de Stª Cruz, em frente às quais se espraiam extensos areais. Destacam-se entre elas o Penedo do Guincho com os seus 30 metros de altura.
Na velha aldeia de pescadores, sargaceiros e moleiros, ainda são visíveis alguns traços do seu velho património, como a Ermida de Stª Helena, ou a mal reconstruída Azenha.
Ao longo das arribas e das dunas, principalmente a norte, foram descobertos vestígios arqueológicos de várias épocas.

PRAIA AZUL
Neste sítio desagua o Rio Sizandro. Em épocas recuadas, no século XIII, existiu próximo deste lugar a povoação de Rendide, talvez com origem em colonizadores germânicos do tempo da reconquista, que exploravam as ricas margens agrícolas do Sizandro.
A Praia Azul faz parte da Reserva Ecológica Nacional, integrando igualmente a Rede Natura 2000, uma rede ecológica de âmbito europeu.
Um dos motivos que mais contribuiu para a importante classificação deste lugar está relacionado com o seu sistema dunar, conservando um habitat característico que é necessário preservar.

MATA DO CONVENTO DO VARATOJO
“A cerca do Convento é espaçosa, e comprehende uma boa mata, horta, e vinha povoada de muitas arvores das milhores castas de peras, maças, ameixas, ginjas, e pêcegos, e tambem comprehende diversos taboleiros de pomares d’espinho, sendo bastante conhecidas, e estimadas as limas, que d’elles se colhem” (P. Manoel Agostinho Madeira Torres, Descripção Historica (...) de Torres Vedras, 2ª ed., Coimbra, 1862, p.139)
Nela existem duas capelinhas, uma no sítio do primitivo forno de cal, que funcionou para a construção do convento no século XV, a gruta do “Ecce Homo”, forrada a azulejos, e a primitiva capela da Senhora do Sobreiro, adornada com quatro pequenos painéis que figuram monges em estudo e em contemplação, onde, segundo a lenda, foi descoberta a Imagem de Maria Santíssima com o menino, na cavidade de um centenário sobreiro, escondida aí desde o tempo de D. Afonso Henriques, para escapar á perseguição dos mouros.
“Reconhece-se que não foi plantada esta matazinha, mas fôra um pedaço de monte, cujo mato e arbustos cresceram á mercê da sua natureza, formaram selva, mais ao diante aproveitada para uso dos animais domésticos do primeiro colono, que na encosta daquele monte arroteou e semeou; e mais tarde transformada em recreio do primeiro senhor que ali instituiu Quinta para sua morada” (Frei Bartolomeu Ribeiro, “Os Franciscanos em Torres Vedras”, in Badaladas, 1953e 1954, ed. Fac-similada).
Comprava-se aqui a antiguidade desta mata, muito provavelmente originária da flora que dominava a região desde a época medieval, uma cápsula do tempo que chegou quase intacta aos nossos dias.

MATA DA QUINTA DAS LAPAS
Um dos passeios mais agradáveis que se pode fazer nesta Quinta é à sua grande mata, cortada em várias direcções por ruas largas, arborizada no início do século XIX com ulmeiros, pinheiros mansos, medronheiros e sobreiros. De entre estes destaca-se o chamado “sobreiro das quatro irmãs”, porque o seu tronco rente ao chão se divide em quatro de grande grossura e altura.
Existem aí, desde longa data, veados e outra fauna selvagem.
À entrada da mata existe a Ermida de Santa Maria Madalena, construída pelo último marquês de Penalva para substituir uma outra mais antiga aí existente, destruída pelos franceses em 1808.
No interior da mata existe uma capela incompleta dedicada a Santo André Avelino, mandada construir em 1778 pelo conde de Tarouca Fernando Telles da Silva
No jardim e na mata existem várias fontes, destacando-se a do “Frei João”, a do “Veado”, esta com uma curiosa escultura em mármore de dois galgos segurando um veado pelas orelhas, a da “Água férrea” e a do “Leão”.

MATA DE RUNA
Obra da iniciativa da princesa D. Maria Francisca Benedita que, em 1790, comprou a Quinta de Alcobaça, junto àquele lugar, com o objecivo de aí fundar um Hospital Real de Inválidos Militares, cuja construção foi concluída em 1827.
O edifício é de estilo neoclássico da autoria do arquitecto de José da Costa e Silva.
Possui uma capela com cúpula monumental, revestida com mármore de Carrara.
No seu museu de arte sacra, entre outras peças de interesse, existe a celebre custódia da princesa, revestida com pedras preciosas do Brasil.
No seu exterior existe um extenso jardim com uma flora variada e variadas esp~ecies de aves.
Destaca-se o seu cedro com cerca de duzentos anos, um dos maiores e mais antigos do mundo.

TERMAS DOS CUCOS
Foram inauguradas em15 de Maio de 1893, mas datam do século XVIII as primeiras referências conhecidas às qualidades terapêuticas das suas águas.
Deve-se à iniciativa do seu proprietário de então, José Gonçalves Dias Neiva, as obras de valorização desta estância termal iniciadas em 26 de Novembro de 1890.
António Jorge Freire foi encarregue de elaborar o plano que incluia 40 moradias. O Casino foi construído em 1896 .
Das 40 moradias previstas, apenas se concluíram duas vivendas:"D. Feliciana" (1895) e "D.Maria"(1896).
À sua volta situa-se uma das mais extensas, variadas e ricas zonas naturais da cidade de Torres Vedras, infelizmente mal tratada e em risco de se perder na voragem do crescimento urbano e viário.

CHOUPAL
As primeiras árvores implantadas nas proximidades do sítio do Choupal eram anteriores a 1789. Aí jantou o príncipe regente, o futuro D. João IV, em 1806, quando regressava de uma viagem a Peniche.Para a construção das Linhas de Torres tiveram de ser cortadas as suas árvores, sendo replantadas em 1814.
Em 1926 aí se realizou a 1ª Exposição Agrícola, Pecuária e Industrial de Torres Vedras.
O seu êxito fez nascer a ideia de aí instalar um parque aprazível, que acabou por se inaugurar na década de 30 com a forma actual. Encontra-se em processo de requalificação, no âmbito do Programa POLIS.
Possui um arvoredo antigo e variado.

PARQUE VERDE DA VÁRZEA
Foi oficialmente inaugurado em 23 de Abril de 2004 .
Com uma extensão de 9 hectares, foi rapidamente adoptado pela população de Torres Vedras, preenchendo uma lacuna sentida há longos anos.
São muitas as actividades que nesse parque se realizam ao longo do ano, sendo de destacar as acções realizadas pelo Centro de Educação Ambiental aí instalado e a existência de um parque infantil.
Projectaram este espaço os arquitectos paisagistas Miguel Velho da Palma e Eduardo Tomás.
Embora artificial, este parque e o seu ribeiro permitem o regresso de uma fauna, que, devido à poluição do Rio Sizandro, estava praticamente extinta, como os sapos e várias espécies de insectos e aves.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Piratas na Costa


A costa junto ao velho convento de Penafirme, hoje em ruínas, foi por várias vezes assaltada por piratas “mouros” , principalmente no verão e ao longo do século XVII.
O facto de nesse local existirem várias fontes de água e de se situar longe de povoações que pudessem rapidamente defender a costa, terá motivado esses assaltos.
Segundo a opinião de frei Agostinho de Santa Maria, os corsários que frequentavam esta costa “vinhão muitas vezes a fazer nella água em suas lanchas, e a furtar o gado que podião, e também a cativar alguns pescadores, que fugindo delles se hião recolher no Porto Novo, ou estavão naquella praza reparando seus barcos & redes & por vezes intentarão acometer o Convento, para roubar, & cativar os religiosos”(1).
Por causa desses assaltos os frades de Penafirme tomaram várias iniciativas para se protegerem : reforçaram as portas do convento com trancas de ferro, armaram-se e passaram a vigiar a costa de dia e de noite.
Se avistassem os piratas durante o dia, faziam tocar a rebate o sino da torre da Igreja. Se os avistassem durante a noite, usavam como sinal um facho que acendiam, colocado na mesma torre.
No caso de ataques de maior gravidade usava-se um sistema de sinalização luminosa, com fachos que eram acesos nos locais mais altos, desde a costa até Torres Vedras. Daí os nomes ainda hoje conhecidos, de “ponta da Vigia”, em Vale de Janelas, “Alto da Vela”, em Santa Cruz, ou “Casal do facho”, no Varatojo.
Nesses tempos, os habitantes de Penafirme estavam isentos da prestação do serviço militar, para ocorrerem à defesa da costa.
Data dessa época o episódio que imortalizou o frade Roque da Gama. Ajudado por quatro lavradores, defendeu o convento de um ataque de 14 piratas, em 30 de Junho de 1620, conseguindo aprisioná-los.
Terá sido em resultado desse acontecimento que o rei Filipe III decretou “que ouvesse no Convento hua (...) praça de armas (...) & assim mandou dessem para o convento hus tantos mosquetes, & lanças, hum tambor, & frascos, que alli se conservão para esse fim; & ordem para cobrarem em Lisboa cada hum anno certa quantidade de polvora & balas” (2).
Perante a continuação e frequencia dos actos de pirataria naquele local, D. Afonso VI mandou construir uma fortaleza junto de Porto Novo, o forte de Nossa Senhora da Graça, cuja construção se iniciou em 1662.
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(1)SANTA MARIA, frei Agostinho de, Santuário Mariano, tomo II, ed. 1707, p.74.
(2)SANTA MARIA, ob. cit., p.75.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Brazões da "vila" de Torres Vedras

(CHAFARIZ DOS CANOS)

Não sendo esta uma área da minha especialidade, deixo aqui algumas pistas sobre os brasões relacionados com o poder municipal de Torres Vedras.
Baseio-me num artigo de Salinas Calado, publicado em 1934, onde ele faz uma listagem dos vestígios existentes, relacionados com o Brasão da “vila” de Torres Vedras.(CALADO, Rafael Salinas, “O brazão de Torres Vedras eo ex-libris da sua Biblioteca Municipal”, in De Portugal, nº 1, Maio de 1934, p. 10).
Não é o único estudo sobre esse tema, mas é aquele que apresenta uma das listagens mais abrangentes, e por isso um bom ponto de partida para quem queira estudar o tema.
A listagem é ordenada por datas:

1 – Séc. XIII – num selo autenticando um documento no ANTT (existem alguns estudos sobre este selo, um deles no Boletim da Junta Distrital de Lisboa. O Arquivo Municipal possui informações sobre o mesmo, nomeadamente o Dr. Carlos Guardado);

2 – Séc. XV – o que está no Chafariz dos Canos (também referido por Gabriel Pereira, na sua célebre descrição de Torres Vedras);

3 – o da Porta do Patim, já desaparecido;

4 – Séc. XVI – 1518 – esteve num prédio da Porta de Santana, “hoje [1934] está nas escadas da Câmara [Paços do Concelho]”;

5 – Séc. XVI – 1529 – “Na Fonte Nova” (o que lá está actualmente é uma reprodução);

6 – Séc. XVI – sem data – Estava no antigo Chafariz de S. Miguel, no “Choupal”, “hoje[1934] no Museu Municipal”;

7 – Séc. XVIII – 1776 – Na fachada dos Paços do Concelho;

8 – Séc. XVIII – 1786 – “sobre a face sul do Arco do Aqueduto, sobre a estrada de Runa, completamente deteriorado [1934]”;

9 – Séc. XIX – no “sinete da Câmara”;

10 – Séc. XIX – no estandarte da Câmara;

11- Séc. XIX – “Timbre usado pela Câmara na sua correspondência [1934]”;

Já anteriormente, em 1926, na sua edição de 8 de Julho, o semanário “A Nossa Tera”, tinha publicado uma correspondência entre Júlio Vieira e Afonso de Dornelas, este último como responsável pela secção de heráldica da Associação dos Arqueólogos Portugueses, acerca das “Armas de Torres Vedras”.